sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O dever da exemplaridade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

No discurso natalício do Papa Francisco à cúria não podia faltar a evocação do discurso fundador de Paulo VI, de 1963. Dirigido aos seus colaboradores a 21 de Setembro, precisamente três meses depois da eleição e na vigília da retomada do concílio suspenso aquando da morte de João XXIII, o equilibradíssimo texto de Montini sobre o dever da exemplaridade certamente contribuiu para a reflexão do seu sucessor que, com toda a evidência, meditou prolongadamente para preparar a sua exigente intervenção, explicitamente vinculada às outras dos anos passados.
  
E assim como os discursos precedentes, também este catálogo de virtudes que todos os curiais devem propor-se, pode ser aplicado, como disse Bergoglio, a «cada cristão, cada cúria, comunidade, congregação, paróquia e movimento eclesial». Doze pares de virtudes, cujas iniciais formam a palavra «misericórdia» e que o Pontífice apresentou como «antibióticos» para as enfermidades espirituais : missionariedade e pastoreação, idoneidade e sagacidade, espiritualidade («spiritualità») e humanidade, exemplaridade e fidelidade, racionalidade e amabilidade, inocuidade e determinação, caridade e verdade, honestidade («onestà») e maturidade, respeito e humildade, «dadivosidade» e atenção, impavidez e prontidão, fiabilidade («affidabilità») e sobriedade.

Portanto, antídotos; dos quais há evidente necessidade, a ponto que no sucessivo encontro com os funcionários do Vaticano o Papa pediu perdão pelos escândalos provocados pelas vicissitudes, verdadeiramente deploráveis, dos últimos tempos. Assegurando ao mesmo tempo que o que aconteceu constituiu e constituirá «objeto de reflexão sincera e de providências decisivas. A reforma irá em frente com determinação, lucidez e firmeza, porque Ecclesia semper reformanda».

Não foi por acaso que na época do concílio, Paulo VI dirigiu aos curiais palavras que vale a pena recordar também hoje : «Olha-se de todos os lados para a Roma católica, para o pontificado romano, para a Cúria romana. O dever de ser autenticamente cristão é aqui sumamente exigente. Não vos recordaríamos este dever, se a nós mesmos não o recordássemos cada dia. Em Roma tudo é escola : a letra e o espírito. Como se pensa, como se estuda, como se fala, como se sente, como se age, como se sofre, como se reza, como se serve, come se ama; cada momento, cada aspecto da nossa vida tem ao nosso redor uma irradiação, que pode ser benéfica, se for fiel àquilo que Cristo quer de nós; maléfica, se for infiel».

Com efeito, é nesta mesma luz que deve ser lido o discurso do Pontífice: assim Francisco reiterou, com o seu predecessor, a gratidão e o apreço pela «eficiência dos serviços que a Cúria Romana presta ao Papa e à Igreja inteira, com desvelo, responsabilidade, empenho e dedicação», acrescentando no sulco da espiritualidade inaciana que esta é uma «verdadeira consolação» que fortalece a vontade de «ir em frente no caminho do bem». Na consciência cristã do limite de cada esforço pessoal, que o Pontífice expressou citando uma oração que recitava uma grande figura do catolicismo norte-americano, o cardeal John Francis Dearden.’


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