quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Belém : Os presépios onde Jesus nasceu

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fenando Félix, 
Jornalista

Chama-se Nicolas. É católico. Vive em Belém, nos territórios da Palestina. Pelo sexto ano consecutivo, vem a Lisboa em nome dos dois por cento de cristãos que ainda vivem na terra onde Jesus Cristo nasceu. Na cidade de Belém, os cristãos já foram maioria. Atualmente, são cerca de 12 500, numa população que ronda os 50 mil habitantes. E correm riscos gravíssimos de vida, uma vez que a maioria muçulmana não lhes dá margem para ter voz na sociedade.

Em Lisboa, Nicolas instala-se na Basílica dos Mártires e percorre outras paróquias da capital portuguesa. Desde os primeiros dias de Novembro e até ao Natal, tem para vender artesanato religioso produzido nas fábricas belenenses.

A cidade de Belém vive do turismo, dos peregrinos. No Natal, recebe cerca de 70 mil. Contudo, muita gente tem medo de ir lá, pois lê, escuta e vê o conflito entre Israel e a Palestina e acha que é perigoso, que há bombas. Então, muitos cristãos, que vivem do artesanato, de madeira de oliveira e madrepérola, tiveram de fechar as suas fábricas e emigrar. Os que permanecem nas suas empresas mantêm a esperança de sobreviver graças a outros cristãos que têm contatos em várias partes do mundo, e levam com eles o artesanato dessas fábricas e vendem-no. É essa a vida escolhida por Nicolas, que, nos restantes meses do ano, trabalha como guia turístico. «Sem cristãos, os Lugares Santos, com o decurso do tempo, tornar-se-ão apenas pedras e prédios», disse Nicolas em entrevista à Rádio Renascença, emissora católica portuguesa, e acrescentou : «Prefiro ficar na minha terra, porque sou um da minoria cristã que fica na Terra Santa e a Terra Santa sem cristãos é um problema grande.»


O Natal na terra de Jesus

Os cristãos de Belém respeitam as celebrações muçulmanas, como o Ramadã ou o Eid-al-Adha, a festa do sacrifício, em memória da sepultura de Abraão. Por sua vez, há dois anos, a autoridade muçulmana colocou uma árvore de Natal na praça da Manjedoura, e deu um pouco mais de vida e de calor à capital mundial do Natal, com mais decoração e mais luzes. Nos dias 24 e 25 de Dezembro, os cristãos mantêm a tradição de estar em família e, juntos, vão às missas na Igreja de Santa Catarina. Todavia, diminuindo a presença cristã, a tradição, as decorações, o ambiente da época perde-se um pouco a cada ano que passa.

Um dos espaços principais das celebrações, assim como das peregrinações a Belém, é a Basílica da Natividade. A igreja primitiva foi construída no século IV, por ordem do imperador Constantino, sobre a gruta onde Jesus nasceu. No século VI, foi substituída por outro templo de maior dimensão. O lugar exato onde Cristo terá nascido está assinalado com uma estrela e com quinze lamparinas, seis com os traços da Igreja Ortodoxa grega, cinco com as marcas da Igreja Apostólica arménia e quatro com sinais da Igreja Católica. Na noite do dia 24, acontece ali um ciclo litúrgico que dura até quase ser dia. Há muitas luzes, orações, estrelas e a consciência de estarem estrangulados pelo muro de cimento erguido por Israel invocando razões de segurança. O artista gráfico Banksy, da Grã-Bretanha, representa eloquentemente este sentimento no seu grafite desenhado a dois passos do posto de controlo da estrada para Jerusalém. A mensagem é : «Jesus não poderia ter nascido na cidade palestina de Belém nos dias atuais por causa do bloqueio israelita.» No grafite, José e Maria – sentada no burro – vêem interrompido o seu caminho pelo muro.


Museu de Belém e fábricas

Nas cercanias dos Lugares Santos de Belém estão situados os dois guardiães das tradições cristãs pela arte : o Holy Land Arts Museum (Museu de Artes da Terra Santa) e as fábricas familiares de artigos religiosos.

Joseph Giacaman, sua irmã Angela e seus filhos Elias e Pedro são uma das mais antigas famílias cristãs em Belém. Têm uma fábrica que trabalha peças de madeira de oliveira e de madrepérola. E vendem numa loja situada no museu. Foi Elias I. Giacaman, pai de Joseph, que criou a firma em 1925.

Produzem representações do presépio que se mantêm fiéis à imaginada por São Francisco de Assis e popularizada pelo mundo, com José, Maria e o Menino na gruta, os camelos e os magos, os anjos, as estrelas. Contudo, fabricam outras mais elaboradas, que podem ser um autêntico manual de catequese, representando em diferentes pisos ou planos as diferentes cenas ligadas ao Natal de Jesus, como a viagem até Belém, o anúncio dos anjos aos pastores, o nascimento, a fuga. E há, ainda, as representações modernas, em que, à representação tradicional, acrescentam elementos atuais, como uma torre de vigia com soldados, por exemplo. As peças mais elaboradas, porque ficam mais caras, são feitas apenas por encomenda. «A maioria dos clientes são estrangeiros – jornalistas, agentes humanitários e diplomatas – com sede em Jerusalém, ou turistas, ou que compram do estrangeiro», conta Joseph. Os membros das fábricas familiares, muitas vezes, trabalham juntos em instalações pequenas, produzindo a maioria das esculturas à mão. Quando concluídas, as peças de madeira são envernizados e não precisam de outros cuidados.

A família Giacaman, como a generalidade dos escultores de madeira em Belém, compram a matéria a agricultores de toda a Cisjordânia. Possuíam terrenos agrícolas, mas agora ficam do outro lado do muro.

As oliveiras são essenciais na região, para combater o clima desértico. E requerem muitos cuidados. Um deles é serem podadas regularmente, a fim de produzirem azeitona duas vezes por ano. Ora, os galhos cortados são uma bênção para os artesãos de Belém. Todavia, eles estão a abrir-se a outras artes artesanais, como bordados, materiais reciclados, sabão de azeite, madrepérola e metais preciosos. Então, surgem, ao lado das figuras de madeira – dos presépios e das estátuas com cenas de Jesus Cristo e da Virgem Maria – outras recriações em vidro reciclado, e jóias, anéis e pulseiras de prata.


Perpetuar a memória

A Basílica da Natividade é uma das mais antigas igrejas no mundo onde os católicos ainda se reúnem para o culto. A presença cristã em Belém tem sido constante nos dois mil anos de Cristianismo. Atualmente, eles precisam de ajuda para manter-se ali. Os artesãos de Belém orgulham-se de ver peças suas dispersas pelo mundo.

Se o mundo tem medo de ir à terra onde Jesus nasceu, por razões de segurança, e se muitos não têm a sorte de poder estar com ‘embaixadores’ deles, como Nicolas, há sempre a hipótese de adquirir peças pela Internet. A Bethlehem Fair Trade Artisans (BFTA), que reúne dezenas de fábricas, é uma opção : www.bethlehemfairtrade.org. 


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