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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Francisco prepara o fim do pontificado?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 Após escândalo, bispos divulgam apoio ao papa Francisco

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘O tempo irá passar e, sem dúvida, papa Francisco será reconhecido como o pontífice romano que enfrentou uma das maiores crises da era contemporânea. Nenhum outro, na história do catolicismo, ‘exorcizou’ tão veemente uma doença através de seus gestos, palavras e obras de caridade.

É certo que, em muitas dessas situações dramáticas, o trabalho da igreja de Roma foi reconhecido como fundamental. No entanto, estamos diante de um cenário que sinaliza uma mudança de época. E temos um papa que já se prepara para isso. Ele está pronto para colocar a igreja nos trilhos dos novos tempos que virão.

Alguns vaticanistas, colegas nossos, veem a pandemia como a última etapa do pontificado de Francisco, a qual é marcada pela revisão criteriosa de prioridades e, ao mesmo tempo, pela certeza de que a igreja, mais que nunca, deve deixar uma marca indelével para a posteridade. É hora de demonstrar que, muito além de ‘expedir documentos’, como o próprio santo padre fez questão de frisar algumas ocasiões, ‘a maternidade da instituição deve ser palpável e concreta’.

Na catequese da última quarta-feira (19), Francisco deu um outro passo além : destacou que o assistencialismo é importante, mas fez um apelo para que os governos ‘redesenhem a economia’, de modo que o pobre seja colocado no centro de suas ações. E mais : pediu que as autoridades pensem com cuidado antes de investir dinheiro público no resgate de indústrias que não trabalham pela inclusão dos mais necessitados.

O pontífice atual tem sido respeitado não só por causa de sua visão de mundo, mas por atuar, brilhantemente, na gestão de crises. Não à toa, é consultado frequentemente por chefes de estado. Recorrem ao papa não só para apaziguar conflitos, mas para resolvê-los. Francisco não é só bem articulado, mas reconhecido pela comunidade internacional como um líder global.

O historiador italiano Alberto Meloni afirma que a pandemia motivaria ‘o início do fim’ do atual pontificado. Segundo ele, a bênção Urbi et Orbi, na qual o papa rezou sozinho pelo fim da pandemia na praça de São Pedro, em março deste ano, transformou a figura do papa solus - do latim, o papa solitário - em um ícone.

Não que o papa esteja perdendo o seu poder - acrescenta o historiador -, mas tem sido um momento decisivo para averiguarmos se o vigor evangélico de Francisco será adotado como um estilo de vida por todos ou será calado pela mediocridade de muitos’, disse. E questiona se as várias realidades locais estão preparadas para atender aos apelos do papa ou se o deixarão jogado à própria sorte nessa fase de retomada.

Sendo assim, mesmo que ele viva uma solidão ‘institucional’, como alguns interpretam, o mundo o abraça. A pandemia coroaria a conclusão de um pontificado que ‘não foi feito para a instituição’, mas para transformá-la nas bases. É uma grande ‘reforma espiritual’, que mesmo que não passe pela adesão dos próprios católicos, é propagadora de sentido para ‘os homens de boa vontade’.

Por colocar em evidência ‘as periferias’ que nunca foram tão contempladas em documentos pontifícios, ele revela, concretamente, essa face universal do catolicismo, que abarca tudo e todos. É por isso que seu governo, mesmo numa época de pós-cristandade, consegue a façanha de despertar o interesse pelo que a instituição tem a dizer.

Francisco sobe seu calvário, rodeado de inimigos e admiradores. Porém, de maneira heróica, ‘não quer que ninguém seja deixado para trás’, insistindo naquela missão de promover um novo ordenamento social baseado nos valores do cristianismo.

Talvez, esse ‘dilúvio que nos pegou de surpresa’, como ele disse numa das missas celebradas no Vaticano, referindo-se ao coronavírus, tenha atrapalhado ou adiado muitos de seus planos. É provável, inclusive, que isso afete a reforma que ele pretendia executar até o fim do ano.

Muitos católicos, ainda resistentes às moções de Francisco, interpretam o papado como uma mera estrutura de autopreservação. Mal sabem eles que a soberania espiritual do pontífice romano se manifesta, sobretudo, na capacidade de dialogar com o mundo, nas mais variadas esferas.

O que vem pela frente? Um concílio, um sínodo especial ou uma encíclica? Difícil saber. Mas é certo que, independente dos rumos que o pontificado tome daqui pra frente, a pregação de Francisco nunca deixará de privilegiar o ser humano e seus mais duros desafios.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1466646/2020/08/francisco-prepara-o-fim-do-pontificado/

terça-feira, 21 de julho de 2020

Por que precisamos defender Francisco?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

  Papa Francisco chega sozinho à praça de São Pedro e reza pelo fim da pandemia, em 27 de março

Papa Francisco chega sozinho à praça de São Pedro e reza pelo fim da pandemia, em 27 de março

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé

 

‘Cada vez mais, me surpreendo com o modo que Francisco conduz a Igreja. Sobretudo depois que estudamos a fundo a história dessa instituição complexa e milenar. Posso dizer que é um pontificado especial por várias razões. E para dar uma resposta à provocação feita pelo título deste artigo, argumentarei sem proposições ‘religiosas’.

Muitos não se dão conta da força deste pontificado, justamente por interpretarem o catolicismo somente por meio de seus dogmas e normas canônicas.  A instituição assume um papel na sociedade, e diferente das demais confissões cristãs, possui um ‘aparato estatal’ que lhe permite exercer uma certa influência. O papa é, do ponto de vista secular, o soberano do Estado do Vaticano, e precisamos analisar, de maneira concreta - e menos apaixonada -, se ele tem conduzido bem ou não esse governo.

Às vezes, dá a impressão que o pontífice trave uma corrida contra o tempo para ‘colocar a casa em ordem’. E essa postura é mais que compreensível, afinal, ele foi eleito para isso. O colégio de cardeais votou num candidato com personalidade forte o suficiente para assumir essa tarefa. E acertaram em cheio.

A meu ver, é um dos pontificados que mais acertam no quesito ‘gestão de crise’. Francisco trabalha por antecipação, lutando contra uma estrutura bastante lenta e engessada, que arrasta consigo os vícios de uma trajetória, acumulados desde papado de Avinhão. Ele consegue dar respostas práticas para temas espinhosos, e é motivado não pelo afã de satisfazer as exigências da opinião pública; mas para garantir a sobrevivência do próprio catolicismo.

Durante esta pandemia, por exemplo, Francisco tem assumido um papel fundamental, demonstrando, através de suas próprias iniciativas, que a igreja não está alheia ao clamor da sociedade. E não só : quer ser a protagonista dessa rede de solidariedade e reconstrução. Por conta disso, o santo padre, incontestavelmente, é um líder muito respeitado fora dos sagrados palácios. E tem conseguido, com sucesso, chamar a atenção de muitas pessoas para a palavra da Igreja.

Não é difícil encontrar alguém que, mesmo sem professar a fé católica, tenha citado, ao menos uma vez, algo que ele tenha dito. Há o despertar do interesse pelo que o papa tem a dizer; aliás, tem sempre alguém na expectativa do seu parecer. E dessa vez - menos mal - não somente sobre assuntos ligados à religião. Francisco vê o cristianismo como ‘fermento na massa’, como espaço de encontro, não como um antro de proselitistas, como Bento XVI já havia precisado. Ele quer convencer o mundo que o cristianismo ainda tem algo a dizer, mesmo que muitos de seus seguidores ainda o caricaturem e parte da sociedade ainda o rejeite.

O papa argentino concebe a cúria romana não somente como um organismo que coordena as ações da Igreja, mas um ente representativo desta mesma Igreja, que é romana e universal. Após os vários escândalos que acabaram ofuscando o pontificado brilhante de Bento XVI, os cardeais optaram pelo frescor de uma igreja ‘nova’, como a latino-americana, de modo que, através dessa escolha audaciosa e sem precedentes, a credibilidade da instituição fosse, de alguma forma, resgatada. E nesse processo, escolheram um papa que pudesse dar mais ênfase aos fundamentos do cristianismo em detrimento da manutenção desse corporativismo eclesial estéril.

E abraçar uma reforma não é para qualquer um. Para se ter uma ideia, na história do catolicismo foram realizadas somente cinco grandes reformas da cúria romana. E Francisco coordena uma das mais audaciosas já realizadas. ‘Ir às periferias existenciais’, que se tornou o mote deste pontificado, é também tocar nas mazelas da própria igreja. Apesar de ele ter a consciência, no tocante à reforma, que possivelmente serão seus sucessores a colherem seus frutos.

Os avanços diplomáticos de Francisco têm sido significativos. A começar pela lista de países que, até então, jamais tinham sido visitados por um pontífice. A reaproximação discreta com a China - visando a abertura de uma nunciatura apostólica que possa garantir a segurança dos cristãos do território -;  a declaração de Abu Dhabi, que em parceria com as alas mais moderadas do islamismo, lança um apelo pelo fim do terrorismo e pela difusão dos valores inegociáveis e uma série de outras iniciativas servem para reforçar a importância do catolicismo para a sociedade. A passos lentos, a Santa Sé se arrisca muito mais que antes. Com perdas e ganhos, mas com aberturas que se refletirão no futuro. E a história comprovará isso.

Francisco é um papa a ser estudado com afinco. Precisamos estar atentos a cada palavra que ele diz, pois nenhuma é em vão. Todas as suas atitudes fazem parte de um projeto de ‘relançamento’ do cristianismo, revolucionando a forma de concebê-lo a partir da sua própria essência. 

As dificuldades que ele enfrenta ao assumir essa missão, não foram vividas com exclusividade por ele. A diplomacia corajosa de João XXIII levaram-no a enfrentar e vencer vários leões. A coragem diplomática de Francisco, por sua vez, se depara com os mesmos resistentes de sempre, que concebem a igreja como uma confraria, não como organismo vivo que é capaz de transformar a sociedade através do seu testemunho.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1460201/2020/07/por-que-precisamos-defender-francisco/


sábado, 2 de fevereiro de 2019

Francisco : o próximo papa emérito?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  Papa Francisco durante visita a Portugal, em 2017.
*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras
credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé



Aqueles que acompanham o atual pontificado de perto notam o desgaste de Francisco. O seu cansaço visível tem sido tema de comentários entre os jornalistas credenciados junto à Santa Sé que, a cada evento, se questionam até quando ele vai aguentar esse ritmo. É de se levar em consideração que, para um senhor de 82 anos de idade, não é nada fácil seguir a agenda rigorosa de um chefe de estado que, além disso, também é um líder religioso.

O entusiasmo de Francisco nos dois primeiros anos de governo parece dar lugar à serenidade de um ancião que se dá conta de percorrer a última etapa da sua vida a cada ano que passa. Porém, para o papa argentino ‘que veio do fim do mundo’ - frase que ele proferiu durante sua primeira aparição como papa na sacada da basílica de São Pedro, em 2013 - é hora de desbravar novas terras pelo bem da instituição na qual ele acredita, e não só : pelo futuro do cristianismo, que padece em muitas partes do mundo.

Francisco agora lança todas as suas fichas na diplomacia, indo a lugares onde, até então, somente as cartas diplomáticas conseguiram chegar. É o caso dos Emirados Árabes, país que ele visitará neste domingo, 3 de fevereiro, a convite do sheikh Mohammed bin Zayed Al Nahyan. Até essa viagem histórica, o diálogo entre os dois países se limitou à troca de mensagens respeitosas expedidas durante o pontificado de João Paulo II entre as décadas de 80 e 90. O estabelecimento das relações entre Santa Sé e essa confederação de monarquias árabes, só veio a acontecer em 2007, durante o pontificado de Bento XVI.

Me alegra encontrar-me com um povo que vive o presente com o olhar voltado para futuro’, disse Francisco em vídeo-mensagem por ocasião da viagem, transmitida esta semana.

Como sabemos, a diplomacia vaticana não atua em questões econômicas ou militares como acontece em outros países. Em meio às relações multilaterais e bilaterais que valida, a Santa Sé investe na força das ideias e da razão, atuando como um ente de mediação e conciliação : algo que Francisco e seu experiente secretário de estado, Pietro Parolin, fazem com maestria. E, nesse contexto, acontece essa importante viagem na qual Bergoglio participará de um encontro inter-religioso internacional sobre a fraternidade humana, em Abu Dhabi.

O papa vai a um país que tem o Islã como religião de estado e no qual, segundo a lei nacional, converter-se a uma outra religião é um ato de apostasia e um crime capital. Sendo assim, os cristãos - cerca de 700 mil distribuídos entre os 7 principados - não estão autorizados a desenvolver nenhum tipo de evangelização, uma vez que a liberdade de culto se limita à vivência da fé no interior de casas e edifícios, sendo proibido o proselitismo.

Ainda resta a dúvida se Francisco considera a renúncia ao papado uma alternativa possível. Por outro lado, é certo que isso seria mais fácil de acontecer se não houvesse um outro papa emérito no ‘quintal de casa’. Sendo assim, o ano de 2019 pode não ser o ano de despedida de Francisco, mas será decisivo : a Igreja Católica entrará em um novo tempo através da reforma da cúria - que se formaliza no primeiro semestre deste ano - e dessa geopolítica pontifícia que interferirá, em cheio, no governo do próximo papa.’


Fonte :  

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Quem critica o papa entende de papado?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Papa Francisco durante missa na Basílica de São João de Latrão, em Roma.
Papa Francisco durante missa na Basílica de São João de Latrão, em Roma.

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja


Algumas reflexões sobre as análises infundadas sobre o papado contemporâneo.


As análises marginais que se fazem dos papas dá espaço para uma ‘ideologização pontifícia’ sem fim : fizeram isso com João Paulo II, Bento XVI e o fazem com Francisco. As ‘massas’ acabam adotando o papa que mais se adequa aos anseios e às orientações políticas dos pequenos grupos que as manobram. De repente, aqueles que outrora se diziam fiéis ao papa, independente de quem fosse, são os mesmos que, atualmente, fazem um jogo sujo para desqualificar o pontificado de Francisco, desconsiderando a sua importância em meio a essa tentativa de reaproximação entre igreja e sociedade. Para não citar que, durante o caso Viganò, puseram sobre o papa toda a responsabilidade de uma situação que, na verdade, deveria recair por primeiro sobre a conferência episcopal americana, o atual berço ultramontanista do catolicismo, onde, como podemos observar a partir dos últimos acontecimentos, o corporativismo eclesiástico impera de maneira ostensiva e descarada.

Por trás dessa tendência de contrapor papas está, na verdade, aquela velha desonestidade intelectual ou uma falsa intelectualidade pautada pela lista de constituições, encíclicas e documentos decorados que foram completamente extraídos do contexto histórico. Não venha me dizer, por exemplo, que Pio XII, durante todo o seu governo, se limitou a atacar o comunismo stalinista ou que o Sillabo contra o modernismo de Pio IX pode integralmente se adaptar ao que se vive no presente.

O pontificado de Pio IX, o papa que presenciou a queda do estado pontifício e, por conseguinte, o fim do poder temporal do papado, pode nos oferecer algumas chaves de leitura para entendermos esses fenômenos do presente. O exílio de quase um ano e meio desse papa o transformou em um herói e resgatou algo que o renascimento dos ‘papas-príncipes’ tinham roubado : a devoção e o respeito ao sumo pontífice. Através de uma distribuição de ‘santinhos do papa prisioneiro’, entre os anos 1849 e 1850, se estruturou em Roma um movimento que lutava em favor do papa e promovia sua figura, algo que desde o século VIII não se observava. A partir de então, sobre todos os papas que o sucederam recaiu novamente aquela aura de santidade, que na visão escatológica do homem da baixa idade média, deveria pairar sobre o homem escolhido por Deus para governar sua igreja. Porém, para os neo-ultramontanistas das Américas é como se Francisco quebrasse esse ciclo.

Por outro lado, assim como alguns atribuem a determinados ritos o título ‘missa de sempre’ sem qualquer conhecimento de causa, fazem o mesmo com a figura do papa, transformando-o em um semideus salvaguardado pelo dogma da infalibilidade e em uma figura transcendente desprovida de um programa de governo pensado e bem estruturado. É por isso que Francisco, ao se apresentar como bispo de Roma em sua primeira aparição pública após o conclave, em 2013, assustou os mais ‘pios’. Se concentraram muito na ‘mozzetta’ vermelha que ele não utilizou em vez de colherem a profundidade do gesto : o papa quis demonstrar que, desde o primeiro dia de pontificado, trabalharia em prol da colegialidade.

 Para se entender um papado é necessário levar em consideração todo e qualquer movimento do pontífice : das viagens apostólicas que ele escolhe realizar às visitas privadas que ele recebe semanalmente na casa Santa Marta. Do contrário, o papa vira meme, slogan e um personagem instrumentalizado para atender aos interesses de grupos que não querem o bem da igreja nem de longe.’


Fonte :