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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A necessidade de crise na teologia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
Acessórios são derretidos em um cadinho (ou crisol) no mercado de ouro da capital sudanesa, Cartum. A palavra crise significa separar, depurar, como se faz com o ouro.

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘É muito comum ouvirmos falar de crises, especialmente no momento atual, no qual um mau governo se instaurou no país. Essa palavra é constantemente ouvida em noticiários, análises econômicas e questões éticas. Entre bons analistas, é categórico o veredito de que passamos por uma crise.

dicionário de filosofia online traz como uma das definições da palavra crise (do grego krisis) o termo ‘juízo’, entendido ‘(...)como decisão final sobre um processo e ainda, generalizando, decisão de um acontecer num sentido ou noutro. (...) De um modo geral, crise designa uma fase ou uma situação perigosa, da qual pode resultar algo benéfico ou algo pernicioso para o indivíduo ou para a comunidade que por ele passa um estado transitório de incerteza e dificuldades, mas também cheio de possibilidades de renovação’.

Cabe aqui reter essa característica da definição quando falamos a respeito da teologia. Ao contrário do que muitas pessoas tendem a pensar, as crises não necessariamente indicam algo ruim, mas, como nos mostra o dicionário, é também momento de possibilidades, ainda que marcado pelas incertezas e dificuldades ao longo do processo. Se isso é mantido em mente, então qualquer teologia séria deve se mostrar disposta a entrar nos períodos de crise, naqueles em que ela faz um juízo sobre si e se coloca em situações perigosas, a fim de repensar sua relação consigo e com o próprio mundo.

Nesse sentido, somente uma teologia em crise é capaz de prosseguir. Do contrário, torna-se fechada em si, confortável no seu lugar seguro, e com respostas prontas para todas as novas situações que a sociedade do seu tempo coloca.

Uma teologia que não entra em crise em alguns momentos se torna engessada, esquecendo-se de acompanhar os sinais dos tempos. Quando isso acontece, ao invés de se mostrar como voz a ser ouvida, é vista e percebida como alguém que não tem nada de útil a dizer, como alguém que fala das ‘eras de ouro’, ou como tola que constantemente pergunta ‘Por que os dias do passado foram melhores que os de hoje?’.

Teologias em crise são fundamentais para a possibilidade de renovação da própria teologia. Se nas relações interpessoais os momentos de crise se mostram como oportunidades para se repensar a vida, as atitudes, os desejos e o sonhos, para a teologia esses momentos se mostram como reveladores de novas maneiras de falar sobre aquilo que foi narrado sobre Deus.

Ao mesmo tempo, faz despontar novos teólogos e teólogas, que estão fora do status quo criado pelos ambientes teológicos e, por isso mesmo, com maior probabilidade de não terem a mentalidade fechada em dogmatismos que, como areia movediça, puxam para dentro deles tudo o que entra em seus territórios (uma armadilha na qual muitos teólogos e teólogas caem ao longo de sua trajetória).

Se nas relações humanas vivenciar crises com coragem é salutar para se obter um crescimento pessoal e relacional, na teologia, que trata como um de seus temas a relação entre o ser humano e Deus, tais crises também se mostram imprescindíveis para o fazer teológico. Passar por elas, então, não deve ser motivo de medo ou temor, mas de confiança e esperança de que, após ela, será possível se ter uma teologia mais depurada que, falando ao seu tempo, torne-se digna de ser ouvida.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1474015/2020/09/a-necessidade-de-crise-na-teologia/


sábado, 17 de janeiro de 2015

Rosas e espinhos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  *Artigo de Padre José Vieira,
Missionário Comboniano
  
‘Em Dezembro de 2005 visitei a Etiópia com dois jornalistas amigos. Enquanto viajávamos de Adis-Abeba para Awassa, chamou-me a atenção uma linha extensa de estufas que não estavam junto ao lago Zwai cinco anos antes, quando deixei o país. A maioria estava ainda em acabamento, mas algumas já estavam a operar. Como sou muito curioso parei e fui ver o que crescia nelas. Eram flores!

A floricultura é uma indústria que está a criar grandes raízes na África Oriental, sobretudo no Vale de Rift, que também é o berço da humanidade. O Quénia está à cabeça da produção : em 2014, exportou 125 mil toneladas de flores, sobretudo para a Europa, e embolsou 432 milhões de euros. As flores sustentam cerca de dois milhões de famílias quenianas.

Mas a Etiópia está a posicionar-se como concorrente directa do Quénia : a mão-de-obra é mais barata, há mais segurança para os trabalhadores estrangeiros e o Governo está a incentivar o investimento internacional com um pacote de benesses : não cobra impostos durante cinco anos nem custos alfandegários à maquinaria importada e facilita o acesso ao crédito. O clima e a abundância de solos e de água são outros argumentos de peso.

Em 1997, o país tinha duas pequenas companhias privadas a produzir flores, mas hoje conta com 84 – 70 delas com capitais estrangeiros, sobretudo da Holanda, Índia, Reino Unido e Grécia.

Setenta por cento das flores da Etiópia acabam na Holanda, mas também na Nigéria, Sudão e Omã. A Portugal chegam, através da Holanda, rosas, próteas, hibiscos, helicónias, cravos. Em 2001, a indústria facturou 537 mil euros. Dez anos depois já ia nos 145 milhões. Em 2016, projecta ganhar 448 milhões. Nos últimos cinco anos, criou cem mil postos de trabalho, sobretudo para mulheres, e reduziu a taxa de criminalidade.

A Etiópia é o segundo produtor africano e o quarto mundial não europeu de flores. Tanzânia, Uganda, Ruanda, Zimbabué, Namíbia e África do Sul são outros países africanos com alguma expressão produtiva.

Mas as rosas têm espinhos e a floricultura não foge à regra. As condições de trabalho nas estufas são precárias, muitos trabalhadores recebem menos de um euro por dia e não têm equipamento adequado para manusear os químicos que os envenenam e aos solos e águas. As mulheres não têm direito a licença de parto e arriscam-se a perder o trabalho quando dão à luz. Os trabalhadores vivem alojados em instalações superlotadas e inadequadas, o que pode levar à difusão da sida.

Por outro lado, a indústria necessita de muita água – um pé de rosa ‘bebe’um litro e meio por dia e o Quénia produz 72 milhões por ano (um terço chega à Europa) – e não é amiga do ambiente. O lago de Naivasha, no Centro do Quénia, alimenta a produção intensiva de flores e o seu nível está a baixar, muitos peixes aparecem mortos e a vida selvagem diminui nas suas margens.

As flores são um produto de luxo e o seu mercado depende da disponibilidade financeira da Europa – que a crise do euro limitou – e dos preços do petróleo já que o seu transporte se faz exclusivamente de avião. A produção do Quénia registou uma quebra em consequência da retracção do mercado europeu e está a abrir-se à Rússia, ao Japão e à Coreia do Sul.

A indústria tenta soluções inovadoras para limitar os danos ambientais, e sobretudo a pressão de organizações não governamentais que a têm debaixo do radar, e melhorar as condições de trabalho.

No Quénia as rosas já são produzidas em caixas em vez do solo e usam cinzas vulcânicas como fertilizante, insectos para controlar pestes e fibras de coco para baixar o consumo de água. Os defensores da indústria sublinham que há uma grande procura de flores na Europa e que a sua criação na África Oriental, em lugar do Velho Continente, produz menos dióxido de carbono por haver mais luz e melhores temperaturas. Mas ainda se está longe de uma floricultura orgânica, amiga do produtor e do ambiente.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EukpuZkAAptaGKTWTE

Leiam, também, este artigo de 2006http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EEFlZAFAuZgfYrmGQZ