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segunda-feira, 29 de março de 2021

A ecologia da vocação: Crises e oportunidades

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Susana Vilas Boas, LMC

(Laïcs missionnaires Comboniens)

 

‘A vocação desafia-nos desde o primeiro momento em que pensamos nela : seja pelo próprio conceito de vocação, seja por toda a dinâmica própria da vocação. Por um lado, a vocação é chamamento de Deus; por outro lado, a vocação implica o próprio ser que é chamado. O conceito «vocação» remete para a relação íntima que brota do encontro de Deus com a plenitude da autenticidade do ser humano. Por seu turno, a dinâmica da vocação dá-se como «caminho»; um caminho que nem sempre é claro e que, sendo pessoal, nunca poderá ser percorrido de modo individual (individualista).

Quando olhamos para a realidade da vocação e deparamos com os desafios do discernimento e percurso vocacional, somos como que impelidos para uma ânsia desenfreada de desejar tudo : querer viver uma vida de entrega e dádiva aos outros; querer viver uma vida mais dedicada à oração; querer realizar determinada profissão; querer viver perto da família; querer realizar grandes feitos além-fronteiras; etc. A pluralidade de caminhos pode tornar-se num ruído bloqueador do discernimento e, sem darmos por isso, acabamos por ficar surdos a nós mesmos, a Deus e a todos quantos nos poderiam ajudar neste caminhar. Muitas vezes até, caminhos conciliáveis parecem-nos impossíveis de percorrer, como se tudo se jogasse entre o ter de escolher só uma coisa ou não poder escolher tudo. Ora, a vocação tem a arte de, não apenas abrir portas à plena realização humana, como também ser ponto de encontro com Deus e com toda a Humanidade. Assim, a dimensão do bem comum está sempre presente, seja qual for a vocação. Se pensarmos no capítulo 12 da Primeira Carta aos Coríntios, S. Paulo torna evidente, pela analogia do corpo, que todos temos dons diferentes, todos somos diferentes, mas todos temos algo de específico que permite contribuir para a saúde de todo o corpo. No mesmo sentido, o Papa Francisco recorda que «no seio da sociedade floresce uma variedade inumerável de associações que intervêm em prol do bem comum, defendendo o meio ambiente natural e urbano» (Laudato Si’, n.º 232), sendo que não temos de desesperar pela ideia do querer ser tudo, como se essa fosse a nossa vocação! Ao contrário, há que banir todos os traços do desespero para deixar florir aquilo que somos e aquilo que autenticamente desejamos ser. Ao permitir-nos ser parte de um todo (abandonando a pretensão de ser super-herói e de se prescindir de tudo e de todos), contribuindo, segundo a especificidade do que somos, não apenas para a nossa plena realização, mas também para uma maior humanização do mundo em que vivemos e do qual fazemos parte. 

Vocação : para lá das crises

Muitas vezes, as dificuldades que enfrentamos face ao discernimento vocacional são dificuldades fictícias, sombras enormes de pequenas formigas que encontraremos no caminho. Ao fazermos um discernimento acompanhado, vamo-nos libertando de fantasmas que não existem e que ofuscam a realidade quando olhamos o presente e o futuro. Em Deus, não precisamos de trabalhar em várias frentes : tentar ser feliz; procurar viver uma vida de santidade; buscar a plenitude do que somos; etc. Tudo isto faz parte de um mesmo caminho : o caminho da nossa vocação. Deus não nos chama a uma esquizofrenia de vida! Antes, discernir e viver a vocação é responder afirmativamente às verdades mais profundas do que somos e do que ansiamos ser! Como nos lembra o papa, «quando alguém reconhece a vocação de Deus [...], deve lembrar-se que isto faz parte da sua espiritualidade, é exercício da caridade e, deste modo, amadurece e se santifica» (Laudato Si’, n.º 231). O «sim» à vocação é único (e diário), mas as suas consequências são incontáveis (mais numerosas que as estrelas do céu ou os grãos de areia da praia).

Os nossos medos colocam-nos em situações contrárias ao que somos e cegam-nos quanto à amplitude da vocação : não estamos condenados a ter/viver determinada vocação, estamos abençoados com uma vocação – uma bênção que é dada e apenas aguarda ser descoberta e vivida. Dificuldades? Claro que sim! Mas, como diz a minha avó : «Deus dá o frio conforme a roupa!» Por outras palavras, os desafios podem ser grandes e as circunstâncias até podem ser adversas à vocação, mas não estamos sós neste caminho e Deus providencia sempre – no momento certo – as soluções e as ferramentas de que precisamos para seguir em frente. Se fizermos a nossa parte, Deus deixará de fazer a Sua?! Claro que não! Por isso, nada de desesperos! Ao contrário, a vocação é sempre horizonte de Esperança! 

Vocação : além dos medos!

No Movimento Perpétuo (1956), António Gedeão alerta para os medos face ao desconhecido («Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes»). Também a nossa história de Portugal se faz à luz do medo do desconhecido, mas não se fica por aí! Somos os grandes descobridores, não porque nos deixamos vencer pelo medo, mas porque convertemos o medo em esperança (o Cabo das Tormentas tornou-se Cabo da Boa Esperança).

O medo nunca é gerador de vida e a vocação é sempre fecunda! Assim, ousar viver verdadeiramente é ousar vencer o medo. Ora, isto não se faz de ânimo leve (simplesmente não seria possível fazê-lo), nem pode ser assumido de maneira irresponsável (isso seria imprudência). Antes, isto alerta-nos para o facto de que a vocação é sempre possível, porque o medo pode sempre ser vencido : pela nossa vontade, mas também pela fé e ação de Deus e daqueles que nos ajudam no caminhar vocacional. 

Agarrar a oportunidade... de viver autenticamente!

«Viver a vocação [...] não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa» (Laudato Si’, n.º 219). Fechar as portas à vida não é opção! A vida é cheia de oportunidades e cheia de possibilidades. Os nossos entraves, bloqueios, medos e dificuldades de ver mais longe do que as circunstâncias que nos rodeiam não derivam de impossibilidade vocacional, mas da impossibilidade de viver a vocação – desde o início do discernimento – como algo isolado, individual e tenebroso.

Por exemplo, atualmente, a pandemia parece ter vindo dificultar a vida de muita gente e, aos mais diferentes níveis, temos vindo a sofrer as consequências tanto da doença, como das medidas que temos de adoptar para evitar a sua propagação. Dir-se-ia que este não é o tempo favorável para nada, mas... será assim? Nestes tempos conturbados, muitos são os que, como nunca, dão a vida para que outros vivam, para que outros tenham o que comer e o que vestir. Certamente, muito ainda há para fazer, mas não podemos fechar os olhos à bondade que vai irradiando por meio do desespero social em que vivemos. O que tem isto a ver com a vocação que queremos discernir? Tudo! Este tempo não é Um «vazio», nem um intervalo na nossa vida. Este é o «momento presente» e, por isso mesmo, é o tempo favorável para a descoberta, para encontrar quem, mesmo com todas as restrições a que estamos obrigados, nos acompanhe e nos ajude a ver além daquilo que conseguimos alcançar com a nossa pequena perspectiva! ’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/482/a-ecologia-da-vocacao-crises-e-oportunidades/

domingo, 28 de março de 2021

Crises: entre o desespero e esperança

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘Uma das características comuns presentes nos momentos de crise é a sensação de que ela nunca passará. Cada dia é demorado demais, uma semana nos dá a impressão de um mês e perdemos essa noção de quanto tempo realmente já se passou desde que determinada crise começou.

Nesse cenário, é comum que várias pessoas sucumbam ao desespero e à desesperança por não vislumbrarem nenhuma saída possível naquele momento em que desejariam já tê-la em mãos. Embora ambas as palavras, etimologicamente, queiram dizer a mesma coisa, em nossa linguagem ordinária se tende a colocar o desespero como sendo algo mais urgente, enquanto a desesperança seria uma atitude mais passiva. No entanto, essas duas palavras derivam do latim : de, ‘sem’; sperare/esper, ‘esperança’, de maneira que o desespero é característica de todo aquele que perdeu a esperança em algo.

Ao mesmo tempo, a experiência também nos mostra que uma das características do desespero é buscar soluções rápidas e, não dificilmente, buscar atalhos para resolução das questões que nos afligem. Assim, não é difícil observamos que são diversas as pessoas que buscam soluções milagrosas para as crises e, muitas vezes, na ânsia de encontrá-las rapidamente, tomam decisões sem muita reflexão e acabam encontrando mais problemas do que soluções.

Que tais circunstâncias sejam pratos cheios para charlatões da fé nos parece claro. Uma vez identificada, à pessoa vulnerável e que está disposta a dar tudo o que tem para sair de determinada crise, basta oferecer uma solução espiritual e que conta com o auxílio divino mediante o pagamento de alguma ‘oferta de amor’, ‘ato de fé’, ou qualquer outro nome que remeta à uma relação com alguma divindade, e pronto. Consegue-se uma nova fonte de exploração e, quiçá, um prosélito.

Por outro lado, os momentos de crises também podem se tornar oportunidades de grandes reflexões e autoconhecimento para aqueles e aquelas que conseguem, apesar de tudo, fazer isso. Olhar para dentro, procurar as motivações, perguntar-se honestamente sobre o porquê de determinadas posturas e comportamentos são questões comuns dos momentos de crise que, bem direcionados, podem resultar numa melhora considerável na qualidade de vida, e até mesmo, possibilitar vislumbrar e planejar a vida após o período de crise. Nesse sentido, a ajuda psicológica, oferecida por profissionais, pode cooperar muito.

Ao contrário do que muitos podem pensar, crises existenciais não são sinais de falta de fé, ou de afastamento de Deus e, muito menos, de fraqueza espiritual ou psicológica. Muito pelo contrário, nos textos bíblicos há inúmeros exemplos de profetas, reis, juízes que entraram em crises (Elias, Jeremias, Jonas, Davi, Ezequias, Gideão, somente para citar alguns). Como mostram as escrituras, nenhum deles foi condenado por isso. Antes, Deus se colocou ao lado dessas pessoas, instando para que fossem fortes, resistissem, recobrassem a esperança, uma vez que a crise não é para sempre e, uma hora, ela haveria de passar.

Nesse sentido, os apocalipses bíblicos (Daniel e João) trazem essa mensagem de esperança de que a perseguição, a dor e o sofrimento não são sem fim e, mesmo que passemos por elas, na perspectiva cristã, Deus não se mostra distante, mas caminha conosco nos fortalecendo e nos motivando a continuarmos firmes.

Sofrer com as crises é algo humano e não há nada de errado com isso. Na perspectiva cristã, cremos que o momento que passamos não é para sempre e que Deus não está acima de todos, como clamam os negacionistas que se dizem cristãos, mas entre nós, na caminhada. Esse é o motivo de nossa esperança.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1506583/2021/03/crises-entre-o-desespero-e-esperanca/

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A necessidade de crise na teologia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
Acessórios são derretidos em um cadinho (ou crisol) no mercado de ouro da capital sudanesa, Cartum. A palavra crise significa separar, depurar, como se faz com o ouro.

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘É muito comum ouvirmos falar de crises, especialmente no momento atual, no qual um mau governo se instaurou no país. Essa palavra é constantemente ouvida em noticiários, análises econômicas e questões éticas. Entre bons analistas, é categórico o veredito de que passamos por uma crise.

O dicionário de filosofia online traz como uma das definições da palavra crise (do grego krisis) o termo ‘juízo’, entendido ‘(...)como decisão final sobre um processo e ainda, generalizando, decisão de um acontecer num sentido ou noutro. (...) De um modo geral, crise designa uma fase ou uma situação perigosa, da qual pode resultar algo benéfico ou algo pernicioso para o indivíduo ou para a comunidade que por ele passa um estado transitório de incerteza e dificuldades, mas também cheio de possibilidades de renovação’.

Cabe aqui reter essa característica da definição quando falamos a respeito da teologia. Ao contrário do que muitas pessoas tendem a pensar, as crises não necessariamente indicam algo ruim, mas, como nos mostra o dicionário, é também momento de possibilidades, ainda que marcado pelas incertezas e dificuldades ao longo do processo. Se isso é mantido em mente, então qualquer teologia séria deve se mostrar disposta a entrar nos períodos de crise, naqueles em que ela faz um juízo sobre si e se coloca em situações perigosas, a fim de repensar sua relação consigo e com o próprio mundo.

Nesse sentido, somente uma teologia em crise é capaz de prosseguir. Do contrário, torna-se fechada em si, confortável no seu lugar seguro, e com respostas prontas para todas as novas situações que a sociedade do seu tempo coloca.

Uma teologia que não entra em crise em alguns momentos se torna engessada, esquecendo-se de acompanhar os sinais dos tempos. Quando isso acontece, ao invés de se mostrar como voz a ser ouvida, é vista e percebida como alguém que não tem nada de útil a dizer, como alguém que fala das ‘eras de ouro’, ou como tola que constantemente pergunta ‘Por que os dias do passado foram melhores que os de hoje?’.

Teologias em crise são fundamentais para a possibilidade de renovação da própria teologia. Se nas relações interpessoais os momentos de crise se mostram como oportunidades para se repensar a vida, as atitudes, os desejos e o sonhos, para a teologia esses momentos se mostram como reveladores de novas maneiras de falar sobre aquilo que foi narrado sobre Deus.

Ao mesmo tempo, faz despontar novos teólogos e teólogas, que estão fora do status quo criado pelos ambientes teológicos e, por isso mesmo, com maior probabilidade de não terem a mentalidade fechada em dogmatismos que, como areia movediça, puxam para dentro deles tudo o que entra em seus territórios (uma armadilha na qual muitos teólogos e teólogas caem ao longo de sua trajetória).

Se nas relações humanas vivenciar crises com coragem é salutar para se obter um crescimento pessoal e relacional, na teologia, que trata como um de seus temas a relação entre o ser humano e Deus, tais crises também se mostram imprescindíveis para o fazer teológico. Passar por elas, então, não deve ser motivo de medo ou temor, mas de confiança e esperança de que, após ela, será possível se ter uma teologia mais depurada que, falando ao seu tempo, torne-se digna de ser ouvida.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1474015/2020/09/a-necessidade-de-crise-na-teologia/


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Comissão Covid-19: o papado se prepara para outra crise


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Lamp Shadow Light - Free photo on Pixabay
*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras
credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Papa Francisco tem pressa. E são os seus mais estreitos colaboradores a confirmarem isso. ‘Precisamos agir imediatamente’, disse o pontífice ao cardeal Peter Turkson que cuida do departamento de ‘desenvolvimento humano e integral’ do Vaticano. A verdade é que, mesmo em modalidade home office, Bergoglio trabalha a todo vapor. Nesta semana, por exemplo, ele se reuniu com os chefes de todos os órgãos vaticanos – os chamados dicastérios – para tratar do plano pós-pandemia. Se a Igreja é um hospital de campo, como ele gosta de dizer, é hora de fazer valer esse título.

Em todas as crises mundiais dos séculos 19 e 20, é importante ressaltar que a Igreja Católica assumiu um papel fundamental. Em várias épocas, não foram poucas as pessoas que se destacaram na promoção da dignidade humana em meio a um cenário de destruição. Papa Bento XV, que considerou a Primeira Guerra Mundial uma ‘tragédia inútil’, não só ampliou o trabalho das obras caritativas da Igreja no período – cujos beneficiários eram de todas as raças e religiões –, como também ajudou a reencontrar os desaparecidos da guerra, a pedido das famílias. Só o episcopado alemão, à época, atendeu cerca de 800 mil solicitações de ajuda.

Entre os anos de 2014 a 2018, estima-se que a instituição tenha doado mais de U$ 1 milhão para socorrer os mais vulneráveis na Síria e no Iraque, só para citar um exemplo. Recentemente, também foi criado o fundo para o Oriente Médio, que atuará no enfrentamento da pandemia em países atingidos pela guerra.

Agora, o pontífice cria uma força-tarefa que, em termos de estrutura, é uma das mais audaciosas já criados pela Igreja na era contemporânea. O órgão contará com o trabalho articulado de vários departamentos da cúria romana, os quais, desde já, começam a refletir sobre a ‘crise gerada pela crise’, em referência ao impacto econômico que toda essa situação irá causar. Destaque para o plano de auxílio aos mais vulneráveis, já que, na visão do santo padre, os mais pobres tendem a ser os mais esquecidos num eventual plano de retomada. Dividido em 5 grandes campos de trabalho, essa task force, como comumente é chamada no Vaticano, traçará uma espécie de plano de reconstrução em parceria com as conferências episcopais do mundo. Além disso, o projeto pretende contar com ampla adesão por parte dos governos, através da secretaria de estado da Santa Sé.

Um apelo às pessoas de fé

Mas muito além do protagonismo da Igreja em várias obras de assistencialismo ao longo da história, é hora de dar um passo além, na visão do papado atual. Francisco chegou a dizer que ‘as medidas paliativas não resolvem’, pensando desde já numa linha de ação conjunta que envolva os cristãos do mundo inteiro. ‘Nem assistencialismo nem pietismo, mas sim a compaixão que vem do coração’, disse ele no mês passado.

Assim como Francisco conseguiu criar uma frente ecumênica capaz de pensar no numa ecologia integral, ele também faz um apelo para que os homens de fé se unam nessa mobilização global de reconstrução. E prontamente atendeu ao apelo do Alto Comitê para a Fraternidade Humana, que convocou as pessoas de fé de todas a religiões a rezarem pela humanidade, no próximo dia 14 de maio.

Talvez seja cedo pensar  que uma revolução cristã com forte apelo social comece a se estruturar, mas é bem verdade que Francisco, como nenhum outro que ocupou o trono de Pedro até hoje, tem total capacidade de levá-la adiante. Muito se fala do mundo pós-coronavírus, sem se dar conta que, no caso do cristianismo, grandes crises sempre o redimensionaram para sua própria essência. Quais respostas os bispos, os padres e os leigos darão frente aos tempos difíceis que virão? Até quando o que mais distingue o cristianismo das outras religiões –, tais como a esperança, a caridade e a compaixão –, dará lugar às discussões infrutíferas de grupos que instrumentalizam a fé para corresponder às cartilhas partidárias?’


Fonte :
*Artigo na íntegra

sábado, 2 de maio de 2020

Além da crise: "Com que olhar voltaremos a nos encontrar?"

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Palavra de Fé - Mantenha o seu olhar em Cristo
*Artigo d0 Padre Federico Lombardi, SJ 


‘Dias atrás li a afirmação de um pensador russo : ‘A simples relação entre as pessoas é a coisa mais importante do mundo!’. Isso me fez recordar uma linda canção cheia de alegria de algumas décadas atrás, lançada por um simpático movimento de jovens que promovia a amizade e a fraternidade entre os povos : ‘Viva a gente’. Certamente alguns devem se lembrar. Falava das muitas pessoas que encontramos todas as manhãs indo trabalhar; dizia entre outras coisas : ‘Com mais gente/ A favor da gente/ Haveria menos gente difícil/ E mais gente com coração…’ e inspirava muito pensamentos sábios e positivos. Pensei muito nisso nos últimos anos, ao caminhar pelas ruas, encontrando tantas pessoas atarefadas e praticamente fechadas em si mesmas, e muitas outras com fios que saem pelas orelhas, completamente concentradas em seus celulares ou que falavam para o ar em  voz alta sabe lá com quem, sem considerar as pessoas que estavam no ônibus a poucos centímetros. Parecia-me que o prazer de olhar para os outros com benevolência e atenção estivesse se tornando mais raro e a intrusão cada vez mais penetrante das novas formas de comunicação na vida diária nos tornasse quase estranhos.

Depois de várias semanas fechado em casa sinto muita vontade de encontrar de novo pelas ruas muitos rostos diferentes. Espero que mais cedo ou mais tarde, no devido tempo, isso possa acontecer mesmo sem máscara e sem barreiras de acrílico, e espero poder trocar algumas palavras cordiais, ou mesmo um sorriso sincero. Muitos de nós nestes meses provaram com surpresa positiva as possibilidades oferecidas pela comunicação digital e esperamos que sejam uma riqueza também para o futuro, mas com a prolongação dos isolamentos entendemos que não bastam.

Como voltaremos a nos encontrar em um amanhã pelas ruas ou no metrô? Conseguiremos repovoar com serenidade os espaços comuns das nossas cidades? Seremos condicionados pelo medo e suspeita, ou com a ajuda da necessária sabedoria dos cientistas e governantes, saberemos equilibrar a justa prudência com a vontade de reencontrar e restabelecer a qualidade de convivência diária que – como dizíamos no início – ‘é a coisa mais importante do mundo’, a imagem do mundo humano? Nos daremos conta (mais ou menos do que antes?) que somos uma família humana que caminha na casa comum que é o nosso único planeta Terra?

Agora que a pandemia nos fez provar um aspecto problemático da globalização da qual todos devemos considerar no futuro, saberemos reencontrar o impulso da fraternidade entre os povos além e acima das fronteiras, a acolhida benévola e curiosa da diversidade, a esperança de viver juntos em um mundo de paz?

Como será conviver com o nosso corpo e como veremos o corpo dos outros? Como uma possível via de contágio, um risco ao qual devemos estar alertas, ou a expressão da alma de uma irmã ou de um irmão? Porque no fundo, este é o corpo humano : a manifestação concreta de uma alma – única, digna. Preciosa, criatura de Deus, imagem de Deus… Que maravilha o timbre da voz, o ritmo dos passos, sobretudo o sorriso das pessoas queridas!... E isso não deveria valer para todas as pessoas que encontramos? Então, recuperar a liberdade do coronavírus nos ajudará a nos livrar de outros vírus do corpo e da alma que nos impedem ver e encontrar o tesouro que está na alma do outro, ou nos tornaremos ainda mais individualistas?
  
A tecnologia digital pode mediar e acompanhar de modo útil nossa relação, porém a presença física e recíproca das pessoas, dos seus corpos como transparência das almas, a sua proximidade e o seu encontro, permanecem sendo o ponto de partida e de referência originário da nossa experiência e do nosso caminho. Jesus não foi uma manifestação virtual de Deus, mas a sua encarnação, para que pudéssemos encontrá-lo. E Jesus nos disse que Ele está presente e nos espera no outro, no pobre (e quem não é pobre de algum modo, o saiba ou não?), e que no rosto do outro podemos e devemos saber reconhecer o seu rosto.

Com que olhos, com que coração, com que sorriso voltaremos a caminhar pelas ruas e a cruzar o caminho de tantas pessoas, que mesmo aparentemente desconhecidas, no fundo, neste meses nos fizeram falta, e que como nós sentiram o desejo de nos encontrar de novo pelos caminhos diários de suas vidas, do nosso mundo comum?’



Fonte :
* Artigo na íntegra

quarta-feira, 25 de março de 2020

O teólogo em tempos de crise

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Lee Man-hee, líder de igreja coreana, curvou-se no chão e pediu desculpas por causar a disseminação
Lee Man-hee, líder de igreja coreana, curvou-se no chão e pediu desculpas por causar a disseminação 'não intencional' do Covid-19

*Artigo de Fabrício Veliq,
teólogo protestante

‘Recentemente, o líder da igreja sul-coreana Shincheonji, Man-hee, pediu desculpas pela disseminação do novo coronavírus atribuída à sua congregação, que estima-se ser responsável pela metade das infecções no país. Ele é acusado de não revelar os nomes dos fiéis que estavam contaminados, dificultando o rastreamento da doença.

Já em terras brasileiras, o pastor Silas Malafaia se recusou a interromper os cultos de sua igreja, vencendo uma batalha judicial contra o Ministério Público do Rio de Janeiro. Contudo, o líder da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo alterou seu posicionamento, mas manteve os templos abertos. ‘Tem uma coisa : eu vou ampliar a hora de igreja aberta, que igreja aqui não vai ficar fechada, não’, disse.

Embora distantes um do outro, esses casos revelam o quão irresponsáveis as lideranças religiosas podem ser ao considerar que estão fazendo a vontade de Deus. No caso da Coreia do Sul, a irresponsabilidade acarretou em contaminação maciça; no Rio de Janeiro, ainda não temos dados suficientes para avaliar o impacto dessas grandes reuniões, que só foram encerradas há alguns dias. Tendo em vista o histórico sul-coreano, não se esperam boas notícias.

Diante disso, é importante lembrar o papel fundamental que uma teologia pública de qualidade tem. Infelizmente, por falta de conhecimento teológico e bíblico, milhares de pessoas acreditam que deixar de ir a um culto ou a uma determinada celebração no templo lhes afastaria de Deus ou lhes tornaria pessoas de pouca fé. Muitas delas têm o coração sincero, desejoso de servir a Deus com todo empenho. Porém, dada a ausência de instrução, acabam se colocando em lugares que não deveriam estar, dando o que não deveriam dar e fazendo o que não deveriam fazer em momentos de crise como o que estamos passando.

Faz-se necessário, neste tempo, uma teologia cristã bem fundamentada, séria, e que consiga chegar a essas pessoas. Necessita-se de teologia comprometida com o Evangelho, que saia dos gabinetes e alcance as camadas da população que jamais terá acesso aos dicionários críticos teológicos, aos textos comparativos dos manuscritos de Mateus etc. Urge-se uma teologia que as impeça de serem levadas ao abismo por líderes religiosos que, aproveitando-se da ignorância de muitos, enriquecem seus bolsos enquanto matam os fiéis. Propor essa teologia, não obstante, é papel do teólogo que se reconhece chamado ao seu exercício junto da sociedade, a fim de que ela se torne mais consciente, justa e livre.’


Fonte :

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Corta-me a alma cada vez que fecho uma igreja, lamenta Cardeal holandês

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Catedral de Utrecht na Holanda


‘O Arcebispo de Utrecht, Cardeal Wim Eijk, descreveu a grave crise que a Igreja na Holanda está vivendo e comentou que, ‘cada vez que tenho que assinar um decreto para fechar uma igreja, corta-me a alma’.

Em uma recente entrevista concedida ao jornal ‘Gelderlander’, o Cardeal assinalou que ‘gostaria que todas as igrejas estivessem abertas. Toda vez que eu tenho que assinar um decreto para fechar uma igreja, corta-me a alma’.

Além da falta de dinheiro devido à falta de fiéis, que são as razões pelas quais as igrejas são fechadas, outro problema grave é a idade avançada dos católicos na Holanda.

Segundo o ‘Nijmegen institute Kaski’, estima-se que dos 3,5 milhões de católicos no país, somente cerca de 170 mil católicos vão à Missa aos domingos, ou seja, menos de 5% dos fiéis participam deste preceito fundamental.

Atualmente, continuou, ‘as paróquias estão com números vermelhos’. Em uma reunião recente com os administradores das paróquias, mencionaram o tema econômico e perguntaram : ‘O que pode mantê-las abertas a longo prazo? O que devem fazer para que estes números sejam azuis?’.

Embora o dinheiro não seja fundamental, é necessário ‘para pagar os funcionários pastorais. Além disso, se não puder pagar as faturas, então a primeira e a segunda leitura serão lidas pelo administrador’, disse o Purpurado.

O Arcebispo indicou que em 2028 completará 75 anos, idade máxima para o governo pastoral das dioceses. ‘Há quatro anos, predisse em uma carta que para esta época já não haveria mais de vinte paróquias na Arquidiocese de Utrecht, cada uma terá uma ou duas igrejas. Houve muitas críticas. Agora os sacerdotes dizem que haverá menos ainda. ‘O Cardeal, foi otimista demais’, disseram-me’.

Perguntado se poderia ‘suavizar a doutrina’ para convocar mais fiéis, o Cardeal respondeu com ênfase : ‘Esquece! Isso não ajuda e é uma ilusão’.

‘Podemos ver que as paróquias que são claras na catequese e têm uma boa liturgia de acordo com os padrões da Igreja são especialmente as paróquias que são bem atendidas’, continuou.

O Arcebispo advertiu que não se pode propor uma ‘liturgia experimental’ ou outras coisas que se distanciem das boas práticas da evangelização, porque ‘a graça de Deus só brilha nos caminhos que Ele nos mostrou e não em outros caminhos’.

‘Não tenho uma receita para que as igrejas estejam cheias de novo amanhã, mas a receita para levar as pessoas a Cristo é a catequese explícita e clara. E para isso buscaremos voluntários bem formados para que estejam com os nossos sacerdotes’, destacou o Purpurado.

A entrevista com o Cardeal foi realizada no mesmo dia em que o jornal ‘NRC Handelsblad’ publicou um relatório que assinala que cerca da metade dos bispos da Holanda entre 1945 e 2010 teria alguma ligação com casos de abuso contra menores.

O relatório indica cerca de 20 mil menores foram abusados em instituições católicas no país em 45 anos. Foram 800 abusadores, entre clérigos, religiosos e leigos.

Este relatório foi apresentado depois que foram divulgados relatórios semelhantes na Alemanha e nos Estados Unidos; e em meio aos casos de abusos na Igreja denunciados no Chile, na Irlanda e na Austrália.

Em uma nota publicada no site da Conferência Episcopal da Holanda, assinalaram que ‘as informações já haviam sido publicadas em 2011, após as investigações iniciadas pela Igreja Católica. Muitos acusados ​​já faleceram. A partir desta investigação realizada em 2011, a Igreja holandesa lançou algumas medidas para prevenir e combater os abusos’.’


Fonte :

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O testemunho da credibilidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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 *Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano


‘A crise vocacional nos países ocidentais – e mesmo noutras latitudes – parece ser cada vez mais uma realidade incontornável. O clero é cada vez mais idoso e os padres ativos têm de tomar conta de mais paróquias, enquanto outras fecham. O número de jovens que entram na vida religiosa e missionária também tem diminuído profundamente. Os membros das congregações religiosas e missionárias provêm cada vez mais do Sul do mundo, mas nem sempre em número suficiente e com a preparação necessária para substituir os idosos e os que falecem.

Há claramente um novo ‘mapa vocacional’, mas não anula o fato de que as congregações têm vindo a diminuir o número das suas obras – veja-se o que acontece, por exemplo, no campo da educação! – e pensar mais na sua sobrevivência e adaptando casas para os mais idosos. Um problema adicional é o que fazer com algumas das grandes estruturas cuja manutenção é custosa e já não servem os objetivos para que foram erigidas.

«Não vivemos numa época de mudança, mas numa mudança de época», disse o Papa Francisco em Novembro do ano passado durante a conferência nacional da Igreja Italiana realizada em Florença. E acrescentou que «o nosso tempo requer que vivamos os problemas como desafios e não como obstáculos», conscientes de que «o Senhor está ativo e em ação no mundo». A História não se repete e, como religiosos, somos chamados a «abraçar com esperança o futuro» e a «despertar o mundo», como ele escreveu na sua carta apostólica para o Ano da Vida Consagrada.

Para perscrutar o futuro, não usamos na Igreja uma bola de cristal, nem lemos os astros ou estudamos as entranhas de animais. O único instrumento clássico para tentarmos encontrar o melhor caminho é por meio do discernimento – tendo em conta o carisma de cada família religiosa e as exigências do mundo hoje. Sem esse exercício humilde, os institutos nas suas reuniões tenderão, vez após vez, a tomar decisões de sinal contraditório e a perder dinâmica evangelizadora.

O outro desafio que se impõe para responder à crise vocacional é o de fazer uma profunda autocrítica sobre a nossa vida e prioridades para ir além do «horizonte mundano». Não podemos dizer que Deus não continua a chamar e/ou que desistiu do mundo, mas que a capacidade de escuta e mediação da proposta vocacional não são as adequadas. Mais do que engendrar estratégias de comunicação, temos de rever os nossos estilos de vida para sermos credíveis como «profetas evangélicos».

Como disse o papa no colóquio com os superiores religiosos em Novembro do ano passado, os religiosos são chamados a testemunhar o Evangelho com atitudes menos comuns, como «a generosidade, o despreendimento, o sacrifício, o esquecer-se de si mesmos para se ocuparem dos outros» – especialmente dos abandonados, dos esquecidos e dos que sofrem. Trata-se da «linguagem dos gestos», que no dizer do papa é aquela que pode «acordar o mundo» – apenas por meio de um modo diverso de fazer e viver.

«A Igreja não cresce por proselitismo, cresce por atração», disse o Papa Bento XVI – algo que o presente papa já citou várias vezes. Deus chama através do que somos e fazemos, não tanto pelo que dizemos. Se não vivermos com renovada generosidade a nossa vocação, seremos de pouco valia para o Reino de Deus.’


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quinta-feira, 3 de março de 2016

Seca ameaça de fome populações de várias partes da África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


‘11 milhões de crianças correm o risco de morrer de fome na África.  O SOS Aldeias das Crianças é um programa de emergência na Etiópia

Segundo as Nações Unidas, as pessoas que correm o risco de passar a fome devido à seca na África são cerca de 30 milhões. A África do Sul já declarou estado de calamidade e em Angola, Botswana, Malawi, Zâmbia, Zimbabwe, Lesoto, Swazilândia e Moçambique, a situação de emergência poderá agravar-se ainda mais. Preocupante é a situação na Etiópia, onde mais de 10 milhões de pessoas necessitam de ajudas alimentares.

‘As crianças são os mais vulneráveis em tempos de penúria alimentar aguda. Temos necessidade de responder imediatamente, antes que a crise alimentar se agrave e a má-nutrição os toque de maneira irreversível. Mas, a resposta humanitária deveria ter uma visão a longo prazo. É necessário desenvolver uma estratégia para reduzir sistematicamente a má-nutrição e os fatores-chave que causam vulnerabilidade infantil’ – afirma Dereje Wordofa, Director Internacional SOS da África Oriental e Meridional.

SOS Aldeias das Crianças Etiópia é parte ativa da nova task-force de proteção da infância guiada pelo UNICEF e pelo Fundo das Nações Unidas para a População, UNFPA. Esta task-force ou grupo de trabalho concentrará os seus esforços no apoio psicológico das vítimas da seca e protegerá 1 milhão de crianças vulneráveis de várias formas : dos serviços de proteção da infância, programas de reforço familiar, de apoio e de reunião de menores não acompanhados, e apoio psicológico à infância.

‘É encorajador ver que o governo da Etiópia tenha tomado medidas antecipadas. Começou por procurar e distribuir alimentos há já um ano atrás. A seca causará, muito provavelmente, aumento dos preços dos produtos alimentares o que incidirá negativamente no bolso das famílias. E poderá ter também um impacto negativo também sobre os programas de reforço familiar, mas a política de prevenção posta em ato juntamente com o governo e com as outras agencias humanitária nos leva a pensar que conseguiremos enfrentar a crise – concluiu Dereje Wordofa.

SOS Aldeias das Crianças começou a atuar na Etiópia precisamente em 1974, ano em que o país foi atingido por uma terrível seca. Hoje está presente em diversas regiões do país : Jimma, Adis-Abeba, Harrar, Hawasa, Gode, Bahir, Dar e Makallé. A Etiópia passou por uma grave crise alimentar entre 1983 e 1985, o que ceifou a vida a cerca de um milhão de pessoas. A Seca de 2011 atingiu 4,6 milhões de pessoas na Etiópia, 4 milhões na Somália, 3,8 milhões no Quénia e 180 mil no Djibuti.

SOS Aldeias das Crianças é uma organização mundial empenhada no apoio a crianças que carecem de cuidados familiares ou que correm o risco de os perder. Surgiu em 1949 e até hoje é a única Associação com capacidade para acolher, no seio das suas Aldeias SOS, 82.300 crianças, às quais garante instrução, curas médicas e tutela em situação de emergência. Promove programas de suporte a famílias em estado de necessidade e está presente em 134 países do mundo, onde ajuda cerca de dois milhões de pessoas.’


Fonte :
* Artigo na íntegra


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Os países europeus ainda divididos acerca do acolhimento - Inércia e miopia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  

‘«Se os países europeus tivessem procurado soluções sérias para conflitos como o da Síria e se tivessem dedicado tempo e recursos suficientes à assistência humanitária no estrangeiro, a Europa não se encontraria na atual situação». As palavras de Lina Kathib, durante um período chefe do Carnegie Middle East Center, um think tank com base em Beirute que procura favorecer o desenvolvimento político e econômico da região, são divulgadas pelo «International New York Times» de domingo 6 de Setembro. Elas fornecem um original ponto de vista sobre a emergência que nestes dias está a atravessar o velho continente, porque documentam como a questão dos refugiados e do seu acolhimento é considerada na sua região de proveniência. Região que, vale a pena recordar, já faz um enorme esforço em apoio das pessoas em fuga da guerra na Síria.

Com efeito, mais de quatro milhões de sírios são refugiados nos países vizinhos, distribuídos entre Turquia (que sozinha hospeda quase metade), Líbano, Jordânia, Egito e Iraque. Segundo fontes acreditadas, os refugiados sírios que apresentaram pedido de asilo em território europeu representam apenas seis por cento do total. É sobre esta percentagem, deveras mínima, que a Europa continua a estar dividida. E o fato, tendo sempre presente um ponto de vista médio-oriental, parece bastante surreal. Precisamente porque os países que atualmente hospedam o maior número de refugiados certamente não podem considerar-se ricos como os europeus, nem igualmente estáveis. É suficiente pensar no fragilíssimo Líbano, a braços com uma longuíssima crise político-institucional que ainda o priva de um chefe de Estado, ou no paupérrimo Iraque, que já conta três milhões de desalojados internos.

O que impede então, poderia perguntar um observador do Médio Oriente, que a Europa concorde uma política comum? Não é fácil dar uma resposta a esta pergunta nem sequer a um observador europeu. Nestes dias foram usados rios de tinta para procurar interpretar as diversas posições. O resultado foi um quadro de cores muito contrastantes, dividido entre a solidária e louvável abertura de países como a Alemanha e a Áustria – sem esquecer a Itália que em todos estes meses esteve deveras na primeira linha na salvação de milhares de vidas humanas – e o egoístico fechamento de outras Nações, que até há pouco puderam contar com a ajuda dos seus vizinhos. Evidentemente tem-se dificuldade de aprender a lição da história. Eis então a construção de barreiras, a militarização das fronteiras e o repetir-se de aclamações baseadas em demagógicas avaliações eleitorais.

Na realidade, a Europa que se contende sobre algumas dezenas de milhares de pessoas que devem ser acolhidas pecou sobretudo por inércia e agora peca por miopia, pelo menos naquela parte que se obstina ao fechamento.

Inércia porque o que está a acontecer era amplamente previsível, mas foi feito deveras muito pouco para evitar a tragédia do povo sírio. Há anos que o responsável das operações humanitárias da Onu na Síria, Yacoub El Hillo, adverte que a crise devida ao conflito teria inevitavelmente levado ao colapso do sistema internacional de ajudas, obrigando a população à fuga. «A falência do sistema de socorro é uma consequência do impasse estratégico» declarou El Hillo. Um impasse para o qual a Europa contribuiu em parte, ao aceitar um papel subordinado numa região, como o Mediterrâneo, que ao contrário deveria constituir um interesse primário. A Europa desprovida de uma política externa séria não soube esconjurar o prolongar-se de sanguinolentas guerras e o afirmar-se do novo modelo de terrorismo transnacional do chamado Estado islâmico.

Míopes são ao contrário quantos pensam que a emergência dos refugiados – como a questão mais ampla das migrações – se possa resolver fechando as portas. Como já foi relevado, a pressão destina-se a aumentar, sobretudo da África, continente do qual milhões de pessoas fogem para se salvar da fome e da guerra. Jamais barreira alguma impedirá quem espera num futuro melhor para si e para a própria família. Assim como nenhuma mãe, a não ser que seja obrigada, exporia os seus filhos aos riscos de uma viagem arriscada no mar. Uma resposta poderiam ser políticas verdadeiras de parceria destinadas sobretudo aos países africanos. Políticas muito invocadas, mas muito pouco concretizadas.’


Fonte :
* Artigo na íntegra http://www.news.va/pt/news/os-paises-europeus-ainda-divididos-acerca-do-acolh