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terça-feira, 1 de novembro de 2022

A 'nova cúria romana' na visão dos bispos brasileiros

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


A Praedicate Evangelium, a constituição de reforma da Cúria Romana, que entrou em vigor em junho deste ano, é, sem dúvida, um dos documentos mais importantes do pontificado do Papa Francisco. É o fruto material do conclave de 2013, quando os cardeais votaram no então cardeal Jorge Mario Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, delegando-lhe a missão de mexer na estrutura governamental da Igreja.

E Francisco foi além. Ele não só redimensionou o organograma da Cúria Romana como continua lutando para que a Igreja Católica retome sua identidade sinodal e se torne uma instituição mais humana e acolhedora.

Muito embora o documento tenha sido publicado este ano, a verdade é que, em muitos aspectos, ele representou somente a formalização de uma transformação que Francisco já vinha realizando desde que assumiu o governo da Igreja Católica, há 9 anos.

O bispo de Cachoeiro do Itapemirim (ES), Dom Luíz Fernando Lisboa, que participa da sua segunda ad limina, disse à nossa equipe de reportagem que consegue identificar essa mudança.

‘O que mais me impressionou é que, dessa vez, se percebia que todos os dicastérios da Cúria Romana tinham a mesma linguagem. Deixaram claro que esses organismos estavam ali para servir o Papa e os bispos’.

O prelado, que por mais de 20 anos atuou na diocese de Pemba (Moçambique), primeiro como missionário passionista, depois como bispo, chegou a ser ameaçado de morte pelo governo do país africano após denunciar a guerra em Cabo Delgado, que por muito tempo vinha sendo abafado pelas autoridades locais. A Igreja, segundo ele, era a única instituição que se manifestava sobre a situação.

Agora, atuando no Brasil, Dom Luíz Fernando recorda o quanto que Francisco sempre está a par dos desafios vividos pelas igrejas locais. Ele recordou as palavras do pontífice no discurso dirigido ao grupo de bispos brasileiros no último dia 20 de outubro :

‘Sejam pastores. Nunca negociem o Evangelho. Sejam firmes, falem aquilo que tem que ser falado a partir do Evangelho. E não tenham medo’, reforçou o pontífice.

O bispo de Divinópolis (MG), Dom José Carlos, explicou o que seria, na visão dele, esse impulso sinodal que Francisco tem proposto não só para a Cúria Romana, mas para toda a Igreja.

‘Significa uma mudança de mentalidade. Precisamos pensar diferente sobre nós mesmos, ter um olhar diferente sobre nosso ofício, sobre nosso ministério. E aquilo que o Papa quer, agora, para toda a Igreja (que é a sinodalidade), não é algo de agora. Infelizmente isso se perdeu e o Papa está reforçando isso, retornando algo antigo que foi esquecido’, ressaltou.

O bispo também vê essa reforma, cuja constituição é restrita à Cúria Romana, como modelo que pode ser aplicado em outras realidades.

‘É certo que se o poder central vive isso de modo exemplar, será mais fácil até usar esse poder central como estímulo para que na base aplique-se o mesmo’, explanou.

Os bispos dos regionais Leste II e II concluíram, esta semana, a visita ad limina apostolorum, um evento que ocorre a cada 5 anos, por meio do qual os bispos do mundo todo, em espírito de peregrinação, têm a oportunidade de visitar o túmulo dos apóstolos, os vários dicastérios da Cúria Romana e participar de uma audiência privada com o Papa. É uma oportunidade única para que os membros do colégio episcopal tenham um contato mais direto com o governo central da Igreja Católica. Eles foram o penúltimo grupo da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) a visitar o Papa Francisco este ano.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1592077

quarta-feira, 20 de julho de 2022

As mulheres estão agora ajudando a selecionar bispos católicos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


O Papa Francisco se encontra com uma delegação da União Mundial de Organizações de Mulheres Católicas na biblioteca do Palácio Apostólico em 11 de junho no Vaticano

*Artigo de Michael Sean Winters,

jornalista

Tradução : Ramón Lara


‘Reformar a Igreja tem sido comparado a virar um grande navio: você não pode apressar a tarefa ou corre o risco de virar o navio. Na semana passada (13 de julho), no entanto, o Papa Francisco apressou bastante suas reformas. A nomeação de três mulheres para servir no Dicastério para os Bispos é uma enorme mudança na vida da Cúria Romana e na vida da Igreja universal.

O Dicastério, conhecido como Congregação para os Bispos até as reformas que Francisco implementou no Pentecostes, é o órgão que recebe as ternas (listas de três candidatos) dos núncios apostólicos espalhados pelo mundo para todos os bispados abertos que não estão localizados em território de missão. O Dicastério para a Evangelização cuida das ternas para as dioceses de missão e o Dicastério para as Igrejas Orientais cuida das nomeações católicas de rito oriental. Os dicastérios revisam as nomeações e, em seguida, podem aprovar a terna e enviá-la ao Papa, modificar a terna, por exemplo, alterando a ordem dos nomes, ou rejeitar a terna e pedir ao núncio para recomeçar.

A maioria dos papas, especialmente depois de algum tempo no cargo, terá algumas ideias sobre quem podem querer nomear para uma grande diocese. Mas a maioria das nomeações são para dioceses menores e menos proeminentes, e nenhum papa teria controle sobre o grande número de padres que podem ser candidatos. A maioria das ternas que chegam do Dicastério para os Bispos são aprovadas. Isso significa que os membros dessa congregação exercem uma enorme influência sobre a seleção da próxima geração de líderes da Igreja.

As mulheres já estiveram envolvidas na seleção de bispos antes, mas apenas quando o processo estava em grande parte nas mãos de governantes seculares. Durante grande parte da história da igreja moderna, um soberano católico tinha o direito de nomear candidatos para bispados abertos. Além de poderosas soberanas como a imperatriz Maria Teresa da Áustria, não era desconhecido que a amante de um rei poderia exercer influência sobre o processo. Madame de Maintenon, a amante jansenista de Luís XIV, ajudou a colocar Louis-Antoine de Noailles na Catedral de Notre Dame de Paris em 1695.

No final do século 19 e início do século 20, no entanto (e ironicamente muitas vezes por causa da separação entre Igreja e Estado, que a Igreja Católica lutou), o papa ganhou controle sobre o processo de nomeação de bispos na maioria dos países. A tarefa de nomear os candidatos foi confiada aos diplomatas do Vaticano e à Congregação Consistorial, como era então conhecida, e tornou-se a Congregação para os Bispos nas reformas posteriores ao Vaticano II. Os papas nunca tiveram tanto poder sobre a Igreja universal como nos últimos dois séculos.

Agora as mulheres farão parte do processo novamente. Duas religiosas (uma Irmã Franciscana da Eucaristia Raffaella Petrini e uma Irmã das Filhas de Maria Auxiliadora, Yvonne Reungoat) e uma leiga, Maria Lia Zervino, ajudarão o Papa a escolher a próxima geração de líderes eclesiásticos. É virtualmente impossível exagerar o quão antigo é o envolvimento das mulheres na tomada de decisões eclesiais.

Petrini tem uma conexão com os EUA : o generalato e a casa-mãe de sua ordem estão localizados em Meriden, Connecticut, uma antiga cidade fabril que já viu dias melhores.

Há mais coisas em jogo aqui do que a introdução de mulheres em papéis de tomada de decisão. Zervino é leigo. A decisão de dissociar a autoridade de tomada de decisão da ordenação toca em questões teológicas profundas.

O Papa está desclericalizando a tomada de decisões na Igreja, abrindo postos para não-clérigos e aqueles que não têm votos. Há algo a ser dito sobre confiar a tomada de decisões na Igreja àqueles que fizeram um voto ou promessa de obediência. A vida e o ministério de Nosso Senhor, e especialmente a sua paixão e morte, foram marcados sobretudo pela sua obediência ao Pai, e por isso aquela Igreja que leva o nome do Senhor e continua o seu ministério deve centrar a obediência na sua vida interior. Preocupa-me que os leigos se esqueçam com demasiada facilidade de que a obediência, como a oração e o sofrimento, são as verdadeiras fontes de poder na fé cristã.

Mas veremos. A confusão do clericalismo perpetrado na Igreja em nosso tempo certamente tornou necessário tentar algo novo. O voto de obediência não foi suficiente para impedir a prática da arrogância.

Esta desclericalização da tomada de decisões convida toda a Igreja, incluindo o clero, a ver a ordenação pelo que ela é, um dom. Se encararmos a ordenação como um ingresso para a autoridade e o poder, rapidamente transformaremos o estado clerical em um terreno fértil para o orgulho, não um veículo para a graça. A camaradagem apropriada ao presbitério se tornará, e se tornou, clichê e insalubre. A preocupação em proteger o poder e os ativos da instituição superou a preocupação em proteger a integridade e a missão da instituição.

Essas reformas, portanto, não se trata apenas de reorganizar as atribuições em um organograma. Eles não são primariamente gerenciais. Em seu nível mais profundo, as reformas renovam a Igreja tanto à luz das necessidades contemporâneas, mas também a partir da fonte de nossa teologia da graça. Francisco, com seu apelo por um processo sinodal universal, está nos convidando a todos a atender a essas questões mais profundas. Em sua reforma da cúria, ele está mostrando o que pode render atender a questões tão profundas.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1584438/2022/07/as-mulheres-estao-agora-ajudando-a-selecionar-bispos-catolicos/

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Como o papa escolhe os bispos: critérios, métodos, orientações

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da Vatican News

 

‘O critério não é a busca da perfeição, de ‘santos’ inéditos, mas de homens certamente em posse de virtudes humanas e espirituais, antes de tudo a prudência, que não significa ‘reticência ou timidez’, mas ‘equilíbrio entre ação e reflexão no exercício de uma responsabilidade que requer muito comprometimento e coragem’. O cardeal Marc Ouellet traça claramente o tipo de perfil de um candidato ao ministério episcopal. A Congregação vaticana, guiada por ele há muitos anos, tem esta responsabilidade – que exerce de acordo com normas e praxes bem definidas – cujo resultado é o de ajudar o papa a escolher os pastores aos quais as comunidades eclesiais do mundo serão confiadas. Uma tarefa, explica, realizada de forma colegial e ‘com espírito de fé e não de cálculo’.

Para descrever a grande responsabilidade que cabe ao dicastério chamado a escolher os sucessores dos apóstolos, o papa Francisco usou uma forte expressão : ‘Esta Congregação existe para garantir que o nome daquele que for escolhido tenha sido, antes de tudo, pronunciado pelo Senhor’. Como se pode ser fiel a uma tarefa tão alta e exigente?

A tarefa que a Igreja confia a este dicastério é a de ajudar o santo padre a decidir. Nosso discernimento, portanto, é um discernimento prévio. No que diz respeito a esta ‘primeira etapa’, posso resumir este grande trabalho em três verbos : rezar, consultar, verificar. Rezar : a oração como primeira e última ação, como ato inicial e final de confiar nossas intenções ao Pai celeste; não é por acaso que no centro dos escritórios da Congregação está a Capela com o Santíssimo Sacramento. Toda vez que caminhamos pelos corredores, nos encontramos diante desta misteriosa Presença à qual toda ação deve ser referida. Consultar : a fase preparatória que estamos tratando atinge seu auge após um intenso trabalho utilizando o método sinodal : consultas com o povo de Deus, os Núncios, os Membros da Assembleia Plenária; tudo isso chega à mesa do papa já destilado. Verificar : isto é, tentar alcançar a maior certeza possível de que a pessoa identificada tem as características exigidas.

Por trás de cada nomeação episcopal há um trabalho de discernimento por parte da Congregação, mas também de consulta e envolvimento das nunciaturas apostólicas e das Igrejas locais. O senhor pode nos explicar como isso é feito e que uso de recursos envolve em relação ao balanço de sua missão? 

A identificação e o estudo de um candidato são o fruto de uma ação conjunta entre vários pontos. A cada três anos, é compilada pelos bispos metropolitanos uma lista de promovendis, ou seja, uma lista de presbíteros que poderiam ser adequados ao ofício episcopal, de acordo com as indicações dos bispos da Metropolia. A Nunciatura avalia estas candidaturas através de um processo de consulta com o povo de Deus, que tem a característica de máxima confidencialidade. No processo de consulta, solicita-se aos respondentes uma estrita confidencialidade a fim de garantir a veracidade das informações e sobretudo para proteger a reputação da pessoa que está sendo estudada. Uma vez identificados os melhores perfis para atender às necessidades do momento, as informações são transmitidas à Santa Sé. A Santa Sé, através da Congregação para os Bispos, considera as candidaturas à luz de critérios gerais e, com a ajuda de uma Assembleia de membros designados pelo santo padre, atualmente 23 cardeais e bispos de todo o mundo, faz a avaliação final que será entregue ao papa para sua decisão final.

Não há o risco de que possa pesar no processo de seleção dos prelados a afiliação ou condicionamento de uma natureza particular? Como isso pode ser evitado?

Como em todas as coisas humanas podem ser encontrados nos informantes a inveja e interesses pessoais. Para evitar isso, deveria ser cultivado no povo de Deus e na formação dos sacerdotes um espírito de desapego. A Igreja não precisa de ‘carreiristas sociais’, pessoas que buscam os primeiros lugares, mas homens que sinceramente querem servir seus irmãos e mostrar-lhes o caminho da fé e da conversão.

No perfil pastoral de um bispo contam mais as qualidades humanas, as virtudes espirituais ou a capacidade de governar uma diocese?

A Congregação para os Bispos, ao contrário da Congregação para os Santos, trata do perfil pastoral dos candidatos que ainda não são perfeitos, mas dos homens no caminho da perfeição. Num padre a ser proposto ao episcopado certamente contam as virtudes teologais e cardeais, as chamadas virtudes humanas principais, mas entre todas, a mais importante para este ofício é a prudência. Prudência não deve ser entendida como reticência ou timidez, mas como um equilíbrio entre ação e reflexão no exercício de uma responsabilidade que requer muito comprometimento e coragem.

A personalidade e a sensibilidade dos vários Pontífices tiveram alguma influência sobre os critérios de escolha?

A sensibilidade de um pontificado certamente tem uma influência notável sobre as escolhas. Cada papa recebe do Espírito Santo uma ‘visão’ particular sobre os problemas da Igreja e as suas prioridades. Os que colaboram com o papa são chamados a entrar na perspectiva do Primeiro Pastor com espírito de fé e não de cálculo.

As visitas ad limina que o episcopado do mundo inteiro faz a cada cinco anos são um importante momento de partilha entre as Igrejas locais, o papa e a Cúria Romana. Como podem ser valorizadas para que se tornem também uma ocasião de conhecimento e enriquecimento para os fiéis leigos e as comunidades paroquiais?

As visitas ad limina são um momento de sinodalidade concreta que os episcopados do mundo inteiro vivem com o papa e os dicastérios que auxiliam seu trabalho. As ‘apresentações’ que as Conferências Episcopais fazem de seus territórios compõem um mosaico fascinante no qual se pode ver o funcionamento de Deus em todas as latitudes. Cada bispo individualmente deveria ter escutado seu povo antes da visita e depois retornar à sua diocese após esta atarefada série de reuniões e contar a sua experiência compartilhando com todos o que ele recebeu. Recordemos que nas o ápice das visitas ad limina é a celebração da Eucaristia com o santo padre no Túmulo de Pedro.

O senhor também é presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, criada por Pio XII em 1958. Por que foi incluída na Congregação para os Bispos e qual é o seu papel hoje, no contexto do pontificado do primeiro papa latino-americano da história?

A Pontifícia Comissão para a América Latina (C.A.L.) nasceu historicamente como um órgão delegado para facilitar o envio de missionários da Europa para a América do Sul. Ao longo dos anos, sua fisionomia mudou com a mudança da face da Igreja. Atualmente o fluxo missionário também tem uma direção inversa, de modo que os sacerdotes do continente latino-americano retrocedem pelas estradas dos primeiros missionários a levar a proclamação do Evangelho em muitos países europeus. Hoje, a C.A.L. é uma entidade dinâmica, que promove o conhecimento do Continente na Cúria e vice-versa, e sobretudo o encontro com as necessidades daquelas terras com a oferta de disponibilidade; ela também segue diretamente e promove pequenas intervenções diretas. Nos últimos anos, a Comissão tem se concentrado especialmente no diálogo e na promoção, para estimular a reflexão sobre as prioridades e o futuro do continente católico, sob o impulso do papa Francisco. A Pontifícia Comissão para a América Latina conta com a colaboração de uma assembleia de 20 membros que participam de Plenários de reflexão e orientação sobre o futuro da área. Quero lembrar particularmente a Assembleia Plenária de 2018 com o tema : A mulher : pilar na construção da Igreja e da sociedade na América Latina. Foi um momento muito bonito, uma passagem do Espírito Santo.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1513093/2021/04/como-o-papa-escolhe-os-bispos-criterios-metodos-orientacoes/

domingo, 7 de outubro de 2018

O sínodo salvará a Igreja da crise?


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja


Na abertura dos trabalhos do sínodo, logo após a missa de abertura, o pontífice pediu que os participantes não tenham medo de expor ‘críticas honestas e transparentes’. Além disso, Francisco tocou o tema do clericalismo mais uma vez, o qual definiu ‘perversão e raiz de tantos males na igreja’. Em clara referência às denúncias de abusos sexuais envolvendo membros do clero, Bergoglio reiterou que ‘se deve pedir humildemente perdão e criar condições para que não se repitam’.

O sínodo dos bispos para os jovens tem tudo para se tornar um dos marcos do atual pontificado. O motivo não seria somente o enfrentamento da atual crise, mas a sucessão de eventos que fazem dele um dos encontros mais importantes promovidos por Papa Francisco.

No próximo dia 14 de outubro, o idealizador e fundador do sínodo dos bispos, Giovanni Battista Montini (Papa Paulo VI), será canonizado. A história da igreja já comprovou o quanto a canonização de um papa representa não somente o reforço da devoção em torno da figura de um determinado pontífice, mas o respaldo de todo seu legado; o sucessor de Pedro que recebe a glória dos altares, também é glorificado na sua forma de governar. E Francisco se alinha com muitas das escolhas políticas e diplomáticas de Montini. Uma delas foi a maneira como Paulo VI conduziu o diálogo entre a Santa Sé e os países do bloco comunista nos anos 70, cujo primeiro impulso acontecera através da política de aproximação coordenada pelo cardeal Agostino Casaroli durante o pontificado de João XXIII.

A reunião de bispos se realiza em um momento no qual a cristandade se depara com algo que, até um tempo atrás, não tinha previsão para acontecer : a preparação para o estabelecimento das relações diplomáticas entre Santa Sé e a República Popular da China. A participação inédita de dois bispos da China Continental são o indicativo que Francisco levou a sério a vivência da colegialidade episcopal em todas as instâncias e a todo custo.

O que seria ‘apenas’ um sínodo para os jovens - os quais já demonstraram na fase preparatória da assembleia que gostariam de entender melhor a doutrina moral da Igreja -, transformou-se em palco de uma série de acontecimentos que poderão mudar os rumos do atual pontificado. Os questionamentos dos jovens diante dos escândalos, dos ensinamentos da Igreja e da forma como o catolicismo contribui com a juventude forçarão a instituição a responder a uma questão que vai além do próprio tema do sínodo : como as escolhas da Igreja Católica se tornarão referência para a sociedade e para as gerações futuras?’


Fonte :

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Corta-me a alma cada vez que fecho uma igreja, lamenta Cardeal holandês

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Catedral de Utrecht na Holanda


O Arcebispo de Utrecht, Cardeal Wim Eijk, descreveu a grave crise que a Igreja na Holanda está vivendo e comentou que, ‘cada vez que tenho que assinar um decreto para fechar uma igreja, corta-me a alma’.

Em uma recente entrevista concedida ao jornal ‘Gelderlander’, o Cardeal assinalou que ‘gostaria que todas as igrejas estivessem abertas. Toda vez que eu tenho que assinar um decreto para fechar uma igreja, corta-me a alma’.

Além da falta de dinheiro devido à falta de fiéis, que são as razões pelas quais as igrejas são fechadas, outro problema grave é a idade avançada dos católicos na Holanda.

Segundo o ‘Nijmegen institute Kaski’, estima-se que dos 3,5 milhões de católicos no país, somente cerca de 170 mil católicos vão à Missa aos domingos, ou seja, menos de 5% dos fiéis participam deste preceito fundamental.

Atualmente, continuou, ‘as paróquias estão com números vermelhos’. Em uma reunião recente com os administradores das paróquias, mencionaram o tema econômico e perguntaram : ‘O que pode mantê-las abertas a longo prazo? O que devem fazer para que estes números sejam azuis?’.

Embora o dinheiro não seja fundamental, é necessário ‘para pagar os funcionários pastorais. Além disso, se não puder pagar as faturas, então a primeira e a segunda leitura serão lidas pelo administrador’, disse o Purpurado.

O Arcebispo indicou que em 2028 completará 75 anos, idade máxima para o governo pastoral das dioceses. ‘Há quatro anos, predisse em uma carta que para esta época já não haveria mais de vinte paróquias na Arquidiocese de Utrecht, cada uma terá uma ou duas igrejas. Houve muitas críticas. Agora os sacerdotes dizem que haverá menos ainda. ‘O Cardeal, foi otimista demais’, disseram-me’.

Perguntado se poderia ‘suavizar a doutrina’ para convocar mais fiéis, o Cardeal respondeu com ênfase : ‘Esquece! Isso não ajuda e é uma ilusão’.

Podemos ver que as paróquias que são claras na catequese e têm uma boa liturgia de acordo com os padrões da Igreja são especialmente as paróquias que são bem atendidas’, continuou.

O Arcebispo advertiu que não se pode propor uma ‘liturgia experimental’ ou outras coisas que se distanciem das boas práticas da evangelização, porque ‘a graça de Deus só brilha nos caminhos que Ele nos mostrou e não em outros caminhos’.

Não tenho uma receita para que as igrejas estejam cheias de novo amanhã, mas a receita para levar as pessoas a Cristo é a catequese explícita e clara. E para isso buscaremos voluntários bem formados para que estejam com os nossos sacerdotes’, destacou o Purpurado.

A entrevista com o Cardeal foi realizada no mesmo dia em que o jornal ‘NRC Handelsblad’ publicou um relatório que assinala que cerca da metade dos bispos da Holanda entre 1945 e 2010 teria alguma ligação com casos de abuso contra menores.

O relatório indica cerca de 20 mil menores foram abusados em instituições católicas no país em 45 anos. Foram 800 abusadores, entre clérigos, religiosos e leigos.

Este relatório foi apresentado depois que foram divulgados relatórios semelhantes na Alemanha e nos Estados Unidos; e em meio aos casos de abusos na Igreja denunciados no Chile, na Irlanda e na Austrália.

Em uma nota publicada no site da Conferência Episcopal da Holanda, assinalaram que ‘as informações já haviam sido publicadas em 2011, após as investigações iniciadas pela Igreja Católica. Muitos acusados ​​já faleceram. A partir desta investigação realizada em 2011, a Igreja holandesa lançou algumas medidas para prevenir e combater os abusos’.’


Fonte :

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O 'Grand finale' da reforma de Francisco

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
Os eventos dos últimos dias sinalizam que a reforma de Papa Francisco caminha para a sua conclusão. 
*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja


O papa Francisco tomou uma medida que já pode ser considerada um dos grandes marcos da sua reforma, iniciada em 2013. Uma mudança importante que, pelo menos no Brasil, passou despercebida. Esta semana, o pontífice criou uma constituição (Episcopalis communio) para o Sínodo dos bispos, órgão de caráter consultivo que auxilia o papa em questões específicas. Na prática, isso dá mais poder a essa instituição criada por Paulo VI, em 1965. Quando foi fundado, representou uma das respostas imediatas a um tema espinhoso e bastante debatido durante o Concílio Vaticano II : a colegialidade dos bispos.

Os especialistas, pautados pelas experiências dos pontificados anteriores, consideravam que a revolução curial proposta pelo papa argentino se limitaria à criação de órgãos ou à fusão de alguns deles. Porém, papa Francisco tem feito isso e muito mais. E é algo tão revolucionário quanto o que aconteceu à época de Paulo VI. A grande reforma da cúria romana de papa Montini, logo após o Concílio Vaticano II - a qual se refletiu em toda a igreja - começou efetivamente com a criação do Sínodo dos Bispos. Francisco, às portas de lançar uma nova constituição sobre a reforma da Cúria - algo previsto para o ano que vem -, fortalece ainda mais o sínodo. Tudo isso porque, a partir de agora, o documento de conclusão da assembleia, uma vez aprovado pelo papa, passará a fazer parte do magistério ordinário. Antes, os participantes do sínodo apresentavam ao papa uma série de propostas a respeito do que havia sido discutido durante a assembleia, as quais, após criteriosa avaliação, se transformavam posteriormente na chamada exortação apostólica pós-sinodal. Agora, essas mesmas proposições, já reunidas em um documento final, poderão ser publicadas imediatamente como material conclusivo do sínodo a partir do placet papal. A prática, agora prevista oficialmente pela nova constituição, começou a ser adotada pelo último Sínodo para as famílias, ocorrido em 2014.

Este ano, publicamos um artigo sobre a descentralização da igreja proposta pelo C9 - conselho de cardeais criado por papa Francisco - para que ‘as conferências episcopais sejam concebidas como órgãos com atribuições concretas, incluindo também uma autêntica autoridade doutrinal’. Unindo essa proposta à reestruturação do sínodo dos bispos, é provável que, mais cedo ou mais tarde, os ares da revolução também atinjam a congregação para os bispos. Há duas constatações que conduzem a essa possibilidade : a primeira é de que o episcopado vive uma das maiores crises de sua história por causa dos escândalos ligados à pedofilia em várias partes do mundo e também porque esse dicastério, cuja metade dos membros foram substituídos em 2013, ainda conta com a presença dos cardeais Donald William Wuerl (americano) e George Pell (australiano), ambos suspeitos de terem acobertado padres abusadores de menores em suas respectivas dioceses. Além disso, o cardeal Marc Ouellet é o responsável pelo órgão desde o pontificado de Bento XVI. Apesar de ele estar alinhado com algumas das aberturas de Francisco, como por exemplo o apoio a uma participação maior das mulheres na formação dos sacerdotes, talvez a crise force a sua substituição.

Papa Francisco canonizará Paulo VI e o bispo salvadorenho Oscár Romero no encerramento do sínodo dos bispos para os jovens, em outubro. Esses dois pastores são bastante admirados por Bergoglio por causa do estilo pastoral que adotaram, além de considerá-los figuras proféticas do seu tempo. Será que a diplomacia de Paulo VI unida à coragem de Romero impulsionarão o papa argentino a traçar o novo perfil do bispo católico? Quem será o bispo da reforma de Francisco? Aguardemos as próximas nomeações e, inevitavelmente, as remoções.


Fonte :