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terça-feira, 22 de julho de 2025

O mosteiro São Bento de Volmoed, o ecumenismo em ação

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Irmão Daniel Ludik, OHC

Priorado São Bento, Volmoed, África do Sul

 

‘Em 30 de agosto de 2019, três irmãos da Ordem da Santa Cruz, uma ordem beneditina anglicana, chegaram ao centro de retiro Volmoed perto de Hermanus, na província do promontório ocidental na África do Sul, após terem deixado o seu mosteiro perto de Makhanda (Grahamstown) na província do promontório oriental, com um caminhão cheio de bíblias, breviários, livros, ícones, estátuas, móveis e um cão. 

Uma breve história da ordem da Santa Cruz

A Ordem da Santa Cruz (OHC) foi fundada pelo padre James Otis Sargent Huntington em 1884 em Nova Iorque, como uma ordem de padres missionários que trabalhavam principalmente pela justiça social em favor dos migrantes desfavorecidos. A OHC rapidamente se concentrou na educação, notavelmente fundando escolas para as crianças pobres. Na América, a OHC fundou a escola S. Andrews em Sewanee, Tennessee, e a escola Kent em Kent, Connecticut. A OHC instalou-se igualmente na África desde o princípio do século XX, com uma fundação em Bolahun, na Libéria, onde a ordem criou a escola S. Mary. Este mosteiro teve infelizmente que fechar nos anos 1980 devido à guerra civil que assolou o país.

Desejosos de prosseguir com a sua presença na África, e a convite do arcebispo emérito Desmond Tutu, a OHC fundou o mosteiro Mariya uMama weThemba perto de Grahamstown na África do Sul em 1998. A comunidade monástica rapidamente lançou um programa paraescolar e um fundo de bolsas de estudo para as crianças dos trabalhadores agrícolas nos arredores do mosteiro. Entretanto, um dos maiores problemas identificados na educação na África do Sul é uma deficiente atenção aos estudos de base. Decidimos lançar uma escola primária que se encarregaria dos níveis (para as crianças dos 5 aos 8 anos). Assim a escola Holy Cross começou em 2010. 

A filiação beneditina

Com o tempo, e à medida que mudava a sociedade, a OHC tornou-se mais beneditina no seu espírito e no seu carisma. Com o encorajamento dos camaldulenses americanos, em relação de aliança com a OHC, esta tornou-se oficialmente beneditina quando do seu capítulo anual em 1984, cem anos após a sua fundação.

Enquanto beneditinos, fomos convidados a unirmo-nos à BECOSA (Benedictine Communities of Southern Africa) pouco após a nossa chegada à África do Sul. Este foi um recurso muito precioso para nós enquanto comunidade. É mal conhecida a existência de mosteiros na Igreja anglicana, pelo qual é muito importante e útil para nós fazer parte de uma família monástica alargada. Graças à BECOSA fomos iniciados no programa de formação dos mosteiros no qual participaram cinco monges da OHC a partir da África do Sul ao longo dos anos. Igualmente, por intermediação da BECOSA, participamos em diversos programas e cursos tornados possíveis pela generosidade da AIM. Isto poderia ser objeto de um artigo à parte; entretanto, é também uma boa ocasião de dizer «obrigado», uma vez mais! 

O centro de retiro Volmoed

O centro de retiro Volmoed nasceu no princípio dos anos 1980, no pior do apartheid na África do Sul, de uma visão comum de Bernhard Turkstra, então proprietário de um hotel, e de Barry Woods, padre anglicano, para criar um lugar abertamente cristão mas onde as pessoas de todas as raças e pertenças religiosas pudessem encontrar segurança e acolhimento em vista de uma cura e de uma reconciliação. Encontraram finalmente uma quinta chamada Volmoed (uma palavra africana que significa «cheio de coragem»), que era originalmente, no século XVIII, uma colônia de leprosos. Uma bela aventura de fé começou então nesse lugar maravilhoso que trouxe muitos frutos ao longo dos anos.

A comunidade residencial de Volmoed compõe-se de alguns casais de retirantes, todos muito ou pouco implicados na atividades cotidianas de Volmoed. O centro de retiro é gerido por uma equipe profissional cheia de dedicação sob a supervisão de um conselho de administração cujos membros não residem todos na propriedade. Para concluir, Volmoed está sob o patrocínio do bispo Desmond Tutu, grande amigo da ordem da Santa Cruz.

Mudanças em Volmoed

O que trouxe então os monges a Volmoed? Pouco após a sua criação, a escola Holy Cross cresceu regularmente uma classe por ano. Tornava-se evidente que a escola devia continuar a expandir-se, para além da fase de fundação, para se tornar uma escola primária inteiramente à parte. Devido à disposição dos edifícios da propriedade, a opção menos cara e a mais sensata seria converter todo o recinto próximo dos monges em salas de aulas suplementares.

No início, os monges instalaram-se numa parte da hospedaria do mosteiro, mas esta solução depressa se revelou insustentável. Começamos então a procurar um outro alojamento e, devido a contatos anteriores com a comunidade Volmoed, pedimos-lhes ajuda para encontrar possibilidades no promontório ocidental.

Uma parte da ética de Volmoed é ser uma presença orante a todo o momento. Foi o que ofereceu o padre Barry Woods à sua morte no princípio de 2019. Assim, quando nos informamos sobre as possibilidades de instalação no promontório ocidental, a equipe de Volmoed convidou-nos a viver junto como uma presença orante. Foi assim que o priorado de São Bento em Volmoed viu o dia. Como era de se esperar, passar de um mosteiro totalmente autônomo a um espaço ecumênico existente e funcionando bem, oferece um conjunto particular de desafios e oportunidades. 

A vida em Volmoed

Falei de Volmoed como de um lugar de cura e reconciliação, o que é pois em si um ministério muito dinâmico. Volmoed mantem relações com diversas organizações e comunidades locais e internacionais que se consagram à consolidação da paz e à reconciliação. Uma dentre elas é a Community of the Cross of Nails, na catedral de Coventry.

Através do programa de formação de liderança de jovens de Volmoed (VYLTP: The Volmoed Youth Leadership Training Programme), existe igualmente uma relação viva com a comunidade de Taizé na França. O VYLTP é um programa residencial de nove semanas, no fim do qual um ou dois jovens que se revelaram aptos são escolhidos e enviados a Taizé por três anos a fim de trabalhar no quadro do seu programa de voluntariado.

Para o culto, Volmoed dispõe de um complexo de capelas com uma grande capela principal, uma capela-santuário menor e, no nível inferior, várias outras salas. Estas salas e o santuário estão à nossa disposição. As partes do nível inferior servem-nos de escritório e de pequena sala de capítulo.

Seguimos o nosso horário monástico cotidiano e reunimo-nos frequentemente com membros da comunidade Volmoed e/ou convidados. A nossa eucaristia dominical é frequentemente seguida por um certo número de pessoas que não se sentem particularmente ligadas a uma paróquia ou a uma congregação local.

Há várias décadas, Volmoed propõe um serviço de comunhão ecumênica às quintas-feiras de manhã que se revelou muito popular junto da comunidade da vila de Hermanus em sentido amplo («Acolhimento de pessoas com necessidades complexas»). A comunidade monástica foi convidada a dirigir o serviço na última quinta-feira do mês, e aproveitamos esta ocasião para apresentar à assembleia diferentes tipos de cantos (via YouTube) que ajudaram a acomodar as pessoas conduzindo-as a uma maior calma, em atenção ao grande número de pessoas presentes e não somente de monges! Estas eucaristias de quinta-feira permitiram-nos igualmente fazer conhecer melhor vários participantes do domingo.

Há muitas outras organizações e pessoas neste domínio que encontramos ou que esperamos encontrar e com as quais podemos atar relações e ministérios. Infelizmente, a maior parte do tempo que passamos aqui em Volmoed, na África do Sul, mas também no resto do mundo, foi bloqueada ou submetida a outras restrições devido à pandemia COVID-19. Esperamos continuar a desenvolver estas relações na medida do possível.

Enquanto comunidade monástica, agradecemos a Deus o estarmos em condições de oferecer uma direção espiritual, sobretudo nestes tempos difíceis. Este ministério começou quase imediatamente após a nossa chegada e permitiu, assim esperamos, uma evolução para certas pessoas. Muita gente se esforça verdadeiramente por estar presente quando entes queridos morrem, ou por poder estar com os doentes e/ou com os que se encontram sós. Dito isto, as formas de comunicação on-line têm-se revelado inestimáveis neste ministério, sobretudo para aqueles que se encontram demasiado longe para nos virem ver pessoalmente.

Como diz São Tiago, «vós não sabeis sequer o que será a vossa vida amanhã», nestes tempos incertos, há muitas coisas que não sabemos; no entanto, em Cristo, sabemos o que é a nossa vida e damos graças por cada dia.’ 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/120

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O ecumenismo que a gente não vê

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu se encontram em Istambul, em 2014

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé

  

‘Em seus primeiros dias de pontificado, foi assim que o papa Francisco acolheu o chefe da Igreja Ortodoxa, Patriarca Bartolomeu I : ‘Bem-vindo, André’. No momento, quem não estava muito familiarizado com a bíblia não entendeu nada. Já para os jornalistas que cobriam os primeiros compromissos públicos do pontífice recém-eleito, em 2013, e conheciam minimamente o Novo Testamento (como no meu caso), a mensagem foi captada na hora.

Era 23 de março de 2013. O papa, que de acordo com a tradição católica é o sucessor do apóstolo Pedro, se encontrava com o sucessor do apóstolo André, o Patriarca Ecumênico de Constantinopla. Segundo as escrituras, Pedro e André, que integravam o grupo de 12 discípulos de Jesus, eram irmãos de sangue.

O abraço entre os dois líderes, naquele dia, não simbolizava somente um encontro protocolar entre representantes das duas instituições cristãs mais antigas do mundo, mas o desejo mútuo de superar as feridas do passado. Para início de conversa, era a primeira vez, desde o Cisma do Oriente, de 1054, que o Patriarca Ecumênico de Constantinopla participava da cerimônia de posse do Romano Pontífice.

No primeiro ano de pontificado de Francisco, portanto, eles selaram uma parceria que entraria para a história. É tanto que, dois anos após aquele evento, foi justamente o magistério de Bartolomeu I sobre o cuidado com a criação que inspirou Francisco a dar uma resposta católica à crise ambiental. E foi assim que nasceu a Laudato Si' sua segunda encíclica.

Esse abraço entre ‘confrades’ abriu as portas para que outros irmãos, de outras tradições cristãs, se sentissem também acolhidos e respeitados pelo papa. Duas ou três laudas de texto não bastariam para citar os vários momentos nos quais Francisco, ao longo desses 7 anos de governo, exprimiu, junto a anglicanos e luteranos, que o ecumenismo não pode se limitar a trocas de saudações e discursos bonitos.

Na visão do papa, é tempo de conduzir um diálogo pautado na imagem do poliedro. Afinal, por muitos anos, a esfera da autorreferencialidade institucional acabou afastando uma tradição da outra, colocando em evidência mais as rupturas históricas que os pontos em comum.

O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade. Tanto a ação pastoral como a ação política procuram reunir nesse poliedro o melhor de cada um’, disse Francisco na exortação Evangelii Gaudium, de 2013.

É no mínimo estranho que, em pleno século 21, católicos, ortodoxos ou protestantes ignorem o importância dessa aproximação. Os desafios são muitos. E para todos os cristãos. O santo padre tem a consciência que o tempo urge por essa unidade em prol do bem comum.

Os algozes extremistas que martirizam e perseguem os seguidores de Cristo, no Oriente Médio, não perguntam de qual denominação eles são antes de exterminá-los. Os matam, única e simplesmente, por professarem a fé em Jesus Cristo. E Francisco, em relação a esses episódios, falou em algumas ocasiões, que existe, hoje, um ecumenismo de sangue. Apesar das diferenças teológicas, os cristãos acabam se unindo no martírio, onde tudo começou.

 O ecumenismo ‘invisível’

Para quem nega a importância do ecumenismo, e como a religião cristã, ao longo dos séculos, foi se mesclando em torno de várias tradições, vai precisar rever muitos de seus costumes e conceitos.

A coroa de advento, composta por 4 velas que representam as 4 semanas que antecedem o Natal, é uma invenção luterana. Foi criada pelo pastor alemão Johann Hinrich Wicherne, em 1839, na cidade de Hamburgo. Na sua concepção original, o adereço possuía 24 velas. Reduziram a quantidade para 4, de modo que ela não ocupasse muito espaço na casa dos fiéis. A Igreja Católica, considerando o valor dessa devoção, a adotou em 1915, integrando-a às celebrações desse tempo litúrgico.

Já o pinheiro, transformado em símbolo cristão por São Bonifácio, no século 8, foi ornamentado pela primeira vez pelos luteranos, no século 16, para celebrar o nascimento de Jesus dentro das igrejas. Mas só virou moda entre as famílias alemãs pelos idos de 1800, de acordo com o etnólogo e historiador Alois Döring, em entrevista ao site oficial dos luteranos do Brasil. Aos poucos, a árvore de Natal passou a decorar a sala de estar de cristãos de outras confissões, até se transformar num hábito comum a católicos, luteranos e ortodoxos.

Decisiva para a sua difusão foi a guerra franco-prussiana de 1870. Na época, por ordem das lideranças militares alemãs, algumas árvores de Natal foram dispostas nas trincheiras, como sinal dos laços da Pátria’, salienta o estudioso.

O presépio em si foi criado por São Francisco de Assis, no século 13. Mas o presépio encenado, tal qual vemos hoje, também provém da tradição protestante. Foram os luteranos que, pela primeira vez, encenaram o nascimento de Cristo.

 Se observamos bem, é uma osmose de tradições que, no fim das contas, só contribuíram para reforçar um princípio cristão : a centralidade de Jesus Cristo. Para além dos documentos, convenções e acordos que já aconteceram entre representantes de várias igrejas, essa ‘teologia do povo’, que se manifesta nas devoções mais genuínas e singelas, também é canal de unidade. Do ‘André’ de Francisco à coroa do advento dos luteranos, a certeza que, no fim das contas, é para Deus que todas as coisas convergem. Resta aos homens a docilidade para corresponder a esses ‘movimentos’ do Divino.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1485450/2020/11/o-ecumenismo-que-a-gente-nao-ve/

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

O ecumenismo da amizade


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Papa Francisco e o patriarca Bartolomeu. 
*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras
credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Muitos não sabem, mas papa Francisco e o patriarca ecumênico da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu I, são amigos. Uma amizade que é canal de reaproximação entre os cristãos.

Bartolomeu I, patriarca ecumênico de Constantinopla e primaz da Ortodoxia. papa Francisco, o 266º pontífice da Igreja Católica. O primeiro, de acordo com a tradição cristã, seria o sucessor do apóstolo André. O segundo, por sua vez, seria o sucessor do apóstolo Pedro – a quem Jesus Cristo confiou a tarefa de dirigir a igreja nascente.

Pedro e André, segundo os evangelhos, eram irmãos. Nos inícios do cristianismo, eles se separaram por causa da missão que lhes foi confiada pelo mestre. Mil anos depois, tomaram rumos diferentes por causa de uma série de divergências que culminaram no Grande Cisma de 1054.

Do ponto de vista histórico e teológico, não há perspectivas de reunificação. Porém, na cabeça do Pedro e do André de hoje, há esperança. Talvez o ‘Que todos sejam um’, a grande invocação de Jesus Cristo, esteja fora de todos os parâmetros pré-estabelecidos. Quiçá, o ecumenismo de hoje fuja de todos os esquemas, como refletem alguns pensadores. O tempo, que urge por paz, dirá.

Depois do encontro histórico entre Paulo VI e Atenágoras, em 1964, a amizade entre Francisco e Bartolomeu merece nossa atenção, já que é um outro oásis em meio ao deserto da separação. Um ecumenismo mais encarnado que esse, meus caros, impossível. Ocidente e Oriente juntos em prol do que realmente importa. Os cristãos divididos jamais serão um testemunho para o mundo. Eles sabem bem disso.

O irmãos na fé têm se aproximado na simplicidade, longe dos holofotes. Os dois se preocupam com a incoerência dos cristãos de hoje. Ambos têm a consciência de que nasceram da mesma vertente e do mesmo chamado. Enquanto os teólogos das duas igrejas se debruçam em fórmulas para promover o diálogo a nível institucional, Francisco e Bartolomeu discutem, ‘numa mesa de café’, como resgatar o cristianismo que se perde no antro das ideologias nocivas.

No início do governo do primeiro pontífice latino-americano da história, ficou evidente que os frutos dessa união seriam abundantes. Para começar, foi a primeira vez, desde a separação entre essas duas tradições cristãs, que um patriarca ecumênico assistira à posse do bispo de Roma. Em resposta à cortesia, o papa não exitou em chamá-lo de ‘irmão André’ durante a audiência privada com os representantes das grandes religiões, um dia após à missa inaugural do seu papado.

Laudato si, a encíclica social de Francisco que trata de ecologia, resume o pensamento do Bartolomeu sobre o assunto. Não por acaso, lhe foi dado o justo crédito no texto. Os dois líderes possuem uma sintonia de pensamento jamais vista : são irmãos. O mundo precisa de irmãos, não de companheiros formais que se limitam a assinar tratados.

O ecumenismo de Francisco talvez incomode por isso. Na mesa de diálogo está, antes de mais nada, o respeito pelas diferenças e a reafirmação das identidades. Não se faz ecumenismo sem esse espírito familiar, sem o desejo prioritário de colaborar para que se estabeleça do reino de Deus. Não é a instauração da nova ordem mundial, como os fãs de teorias da conspiração gostam de interpretar. É amizade, é vida, é o que o mundo precisa. É o cristianismo retomando o frescor do cenáculo.


Fonte :

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Maria no diálogo ecumênico : um novo caminho

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Edson Sampel,
Teólogo e Doutor em Direito Canônico e
membro da Academia Marial de Aparecida (AMA)

‘Ultimamente a Santa Sé resolveu adotar um novo caminho de diálogo com os irmãos separados, principalmente com os evangélicos. Em vez de se tratar de temas comuns à Igreja e às comunidades eclesiais oriundas da chamada Reforma, exemplificativamente, a teologia trinitária, põe-se na mesa de discussão uma temática caracteristicamente católica, como, por exemplo, a mediação de Maria santíssima. 

Esta nova forma de ecumenismo promete ótimos frutos, porquanto apresentamos aos irmãos separados o que possuímos de melhor, nosso tesouro inestimável. Em havendo boa vontade de ambos os lados, católico e protestante, decerto o entendimento doutrinário poderá mesmo avançar sobremaneira.

Não é impossível! Outro dia, assistindo a um programa de certa televisão evangélica, ouvi um pastor dizer que se Maria é mãe de Jesus e se Jesus é Deus, conclui-se que Maria é mãe de Deus. O indigitado pastor tirou essa conclusão espontaneamente, sem nenhum esforço ecumênico.

O que devemos lancetar definitivamente de nossa pastoral é o ecumenismo do “tanto faz”, que, na verdade, constitui um irenismo inoportuno, totalmente descartado pelo Concílio Vaticano II. Com efeito, a Congregação para a Doutrina da Fé, já em 1966, emitiu uma carta sobre opiniões errôneas na interpretação dos decretos conciliares, lamentando que “(...) não falte quem, interpretando a seu modo o decreto conciliar [Unitatis Redintegratio], exija uma ação ecumênica que vá contra a verdade, assim como contra a unidade da fé e da Igreja, fomentando um perigoso irenismo e indiferentismo, que é totalmente alheio à mente do Concílio.” (n. 10). Muitas vezes, ouvimos esta frase: “vamos nos focar no muito que nos une e não no pouco que nos separa”. Ora, temos de ser realistas, pois, do ponto de vista doutrinário, existe uma diferença colossal entre um católico e um evangélico. Não é pouco! É muito! Só para dar uma ideia: a denominada Reforma não aceita nenhum dos sete sacramentos, exceto o batismo e, mesmo assim, para algumas comunidades eclesiais, o mencionado sacramento não é indispensável à salvação.

O bem-aventurado João Paulo II nos dá uma pista do papel que santa Maria desempenha no ecumenismo. Fá-lo na encíclica Redemptoris Mater. Escreveu o papa: “(...) é preciso que os mesmos cristãos aprofundem em si próprios e em cada uma de suas comunidades aquela ‘obediência de fé’ de que Maria santíssima é o primeiro e o mais luminoso exemplo.” (n. 29b).

A união entre todos os cristãos é muito importante, desejada pelo próprio Cristo (Jo 17,21), mas só será factível à medida que nós soubermos dar as razões de nossa fé àqueles que nos indagarem (1Pd 3,15), tornando-nos, teologicamente falando, cem por cento católicos.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/maria-no-dialogo-ecumenico-um-novo-caminho