segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O abraço e o perdão são expressões profundas do amor de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


 *Artigo de Júlio Cesar Brebal

‘O abraço e o perdão manifestam a essência da mensagem cristã de reconciliação e misericórdia, tanto no relacionamento com Deus quanto nas interações humanas. 

Momento adequado para eu voltar à minha infância e me lembrar das minhas peraltices : quebrar um objeto doméstico, comer um doce sem licença, colocar a culpa no irmão caçula… Muitas vezes tentei manter às escondidas essas e outras travessuras de meus pais. Pacientemente, minha mãe esperava uma oportunidade e me fazia confessar meus erros, pedir-lhe perdão e o que eu mais gostava era do seu abraço e do seu perdão!

Precisamos fazer a experiência do abraço e do perdão. O valor e o poder que tem o gesto do perdão e a expressão do abraço transmitem ao outro o sentimento de reconciliação, ternura, sem haver a necessidade de dizer uma única palavra. Um abraço sincero é visto como uma forma de o divino tocar e restaurar as almas e os corações das pessoas, aliviando sofrimentos emocionais e espirituais, como ansiedade, solidão e tristeza. 

O abraço do pai para o filho pródigo simboliza o perdão e a alegria do reencontro (cf. Lc 15,20). Da mesma forma, o abraço e as lágrimas de Esaú quando reencontra Jacó demonstram a reconciliação após anos de afastamento (cf. Gn 33,4) são gestos que manifestam a essência da mensagem cristã de reconciliação e misericórdia, tanto no relacionamento com Deus quanto nas interações humanas. O abraço verdadeiro transmite à outra pessoa algum tipo de sentimento sem haver a necessidade de dizer uma única palavra. 

Os evangelhos narram o poder do abraço em muitos momentos do ministério de Jesus. Ele acolheu as criancinhas, os marginalizados, os aflitos, os pecadores com seu abraço amoroso e curativo, mostrando que o amor de Deus supera e está acima de qualquer erro. Com o seu abraço, Ele nos recorda que está sempre ao nosso lado nos momentos difíceis.

O abraço é visto como um símbolo de afeto, confiança e união, capaz de trazer consolo e transformação, e a santidade é vista como a culminação dessa ‘cultura do abraço’. 

Portanto, abrace sempre como gesto de santidade; para muitos santos, o abraço representou um momento decisivo de conversão e serviço, como no caso de São Francisco ao abraçar um leproso, inspirado pela caridade de Cristo. O abraço de Deus, abraço do Pai misericordioso, é um convite à transformação e ao retorno e é visto como o ápice do amor salvador em Cristo. No contexto bíblico o abraço significa misericórdia!

No contexto bíblico, perdoar significa desculpar um erro ou ofensa, cancelando a ‘dívida’ da pessoa, o que envolve liberar o ressentimento e desistir de buscar vingança ou compensação pelas mágoas. 

Jesus mostra que perdoar é uma das maiores expressões de amor e graça, sendo, possivelmente, uma das maiores virtudes que um cristão pode possuir. O perdão é uma das expressões mais profundas do amor de Deus, pois demonstra a sua natureza misericordiosa e o seu desejo de reconciliação com a humanidade. 

Jesus nos ensina que o perdão verdadeiro é aquele que vem do coração. Não é apenas uma palavra dita superficialmente, mas uma libertação do espírito que cura, pois é fundamental para nossa relação com Deus e para a nossa paz interior. O perdão é um gesto concreto de amor e compaixão.

O perdão é considerado um ato de amor, tanto para quem perdoa quanto para quem é perdoado. Perdoar é libertar-se do ressentimento e da mágoa, permitindo que a cura e a reconciliação se tornem possíveis, sendo um ato de amor próprio e ao próximo. Perdoar não anula as consequências do erro para quem errou, mas, cura quem perdoa, permitindo que se liberte das amarras do ressentimento.

Perdoar não é esquecer, mas liberar o coração do peso do ressentimento. É um processo de cura que beneficia quem perdoa, aliviando a alma e tornando a vida mais leve, assim você fará a experiência da libertação e cura. Ao escolher perdoar, você age em seu próprio benefício, livrando-se das correntes que o prendem ao passado e permitindo que o amor prevaleça em sua vida. 

Os santos nos ensinam que o perdão é uma graça divina e um caminho para a cura interior e a serenidade, sendo essencial para não guardar ressentimentos. Eles mostram que perdoar é um ato de amor que nos liberta do ódio, aproxima-nos de Deus e é uma condição para recebermos seu perdão, assim como o próprio Cristo perdoou a todos. 

Santo Agostinho nos ensina : ‘Quando fores orar, comece perdoando’; São João Bosco afirma : ‘A vingança do verdadeiro católico é o perdão e a oração pela pessoa que nos ofende’; Santa Teresa D’Ávila nos exorta : ‘Quem sabe perdoar, prepara para si muitas graças da parte de Deus; todas as vezes que olhar para o crucifixo, perdoará sinceramente’. 

Sejamos fiéis aos mandamentos de Jesus!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-abraco-e-o-perdao-sao-expressoes-profundas-do-amor-de-deus.html

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

A paciência também é a base da Missão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Juan Sanchez Arenas,

Missionário Comboniano


‘A minha paróquia é dedicada a São João XXIII e fica na cidade de Chitima, no distrito de Cahora Bassa, na província e diocese de Tete, Moçambique. Partilho a comunidade com dois jovens moçambicanos, o padre Moisés e o Ronaldo, um comboniano que acabou de concluir os seus estudos de Teologia e está a realizar o seu serviço missionário.

Embora a paróquia seja grande, com cerca de 10 600 km2, os católicos representam apenas 2% dos seus cerca de 120 000 habitantes. A maioria da população é niúngue, mas há cada vez mais pessoas de outras partes de Moçambique e de outros países vizinhos, porque estamos num corredor que chega até ao Zimbabué. 

Sem desanimar

Embora os Missionários Combonianos tenham chegado a Chitima em 1966, está a ser difícil aderir ao Evangelho, mas não desanimamos. Quando cheguei, em Maio de 2021, ouvindo as comunidades e de acordo com o desejo do nosso bispo, reativamos um programa de evangelização com o objetivo de que todos os batizados entrem numa dinâmica missionária.

Nas zonas rurais, temos 20 comunidades cristãs e 18 grupos de oração com a perspectiva de se tornarem comunidades estáveis. Todos os fins-de-semana um dos sacerdotes permanece na paróquia central e o outro, acompanhado por um grupo de animadores leigos, visita rotativamente estas comunidades e grupos. Ao chegar, o padre confessa enquanto os animadores e a equipa de liturgia preparam as leituras, os cânticos e as danças da eucaristia. Após a celebração, as pessoas dividem-se em grupos de catequistas, jovens, casais, catecúmenos ou crianças da infância missionária para receber uma formação ministrada pelos animadores leigos.

Sempre que visito as zonas rurais, chego a casa exausto, mas muito satisfeito. As pessoas ficam felizes com a nossa presença e são muito generosas conosco. Além de nos darem de comer, regressamos sempre a casa com produtos do campo que nos oferecem. Os católicos de Chitima, organizados em oito núcleos, reúnem-se todas as terças-feiras para um momento de formação e oração. É outra forma de viver o espírito missionário. 

Pastoral de proximidade

Procuramos concretizar na nossa atividade pastoral uma Igreja que vai ao encontro das pessoas. Como missionários combonianos, encorajamos os leigos a assumir as suas responsabilidades, porque sabemos que a sua resposta garante o futuro da Igreja. No ano passado, tivemos 177 crismas e, neste ano, batizaremos 150 adolescentes e adultos. O desafio continua a ser a pastoral familiar : celebramos apenas uma dezena de casamentos por ano.

Vivemos numa zona onde persiste a poligamia e o casamento cristão não é fácil. Precisamos de ser pacientes. Não nos esquecemos da ação social e levamos adiante alguns projetos. Pratico a radioestesia e conheço bem as técnicas para detectar cursos de água no subsolo. Quando dispomos de meios economicos, fazemos perfurações e construímos poços em zonas carentes de água. Também apoiamos os mais necessitados com pequenas ajudas e colaboramos na construção de capelas. 

Neste momento, pretendemos construir uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Sagrado Coração em Chitima.

Vivi a minha missão em muitos lugares e estou impressionado por, aos 75 anos, ainda viver com tanta alegria e entusiasmo. Vejo todos os dias como o Evangelho é uma Boa Nova que ajuda as pessoas a crescer, a criar fraternidade e lhes dá força quando atravessam situações complicadas. Vale a pena anunciá-lo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/actualidade/6/1505/a-paciencia-tambem-e-a-base-da-missao/

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Natal. O Coração que nos guia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Fernando Domingues,

Missionário Comboniano

 

‘O gosto de olhar o coração de Jesus com amor e adoração leva-nos logo ao mistério do Natal. Foi ali que começou a manifestar-se a maneira humana de Deus nos amar.

O Sagrado Coração de Jesus, onde vamos descobrindo o calor e a ternura do amor de Deus, começou por ser o coração daquela criança, deitada na manjedoura de Belém.

Como diz o saudoso Papa Francisco na última carta encíclica que nos deixou : «Este Cristo com o seu coração trespassado e ardente é o mesmo Cristo que por amor  nasceu em Belém» (Dilexit nos, 51).

Em Belém aprendemos que Deus não se importa de nos amar com o coração de uma criança. Acreditando, como acreditamos, que, em cada fase da sua vida concreta, desde quando era bebê em Belém, a quando viveu, adolescente e jovem em Nazaré, como também depois na sua vida de adulto, Jesus era sempre plenamente como nós, um ser humano a crescer, e também ele era sempre o «Filho muito amado em quem o Pai põe todo o Seu enlevo» – foi isso mesmo que disse a voz do Pai que se fez ouvir do céu no dia do seu batismo no rio Jordão, como também, mais tarde, sobre o monte da Transfiguração.

Assim, o amor, o carinho que Jesus vivia e manifestava de tantas maneiras diferentes nos momentos e acontecimentos que ele ia vivendo era sempre o amor de Deus traduzido em gestos e atitudes humanas. Como refere o papa, «o modo como nos ama é algo que Cristo não quis explicar-nos exaustivamente. Mostra-o nos seus gestos. Observando-O, podemos descobrir como trata cada um de nós, mesmo que nos custe perceber isso» (Dilexit nos, 33).

Por isso, o Papa Francisco lembrava-nos que, ao contemplarmos o Sagrado Coração de Jesus, vamos muito além da imagem que temos na frente : vemos como esse amor infinito de Deus se exprimiu de mil formas diferentes ao longo de toda a vida de Jesus, desde a sua infância – faz sorrir de maravilha, que Deus tenha amado com coração de criança, ou com os entusiasmos de um jovem que crescia com Maria e José, em Nazaré. Sempre o mesmo amor que ele manifestou e tentou explicar durante a sua vida pública com os seus gestos e os seus ensinamentos aos discípulos e às multidões

E era sempre esse mesmo amor divino que se manifestava em forma humana, quando na cruz, viveu até ao fim o que ele mesmo tinha ensinado, «não há maior amor do que dar a vida pelos amigos».

Com o mistério da ressurreição de Jesus, esse coração que amava com o amor de Deus desde a gruta de Belém, passando por Nazaré e Cafarnaum, e chegando até ao Calvário, esse mesmo coração foi transformado na noite de Páscoa, e ficou a pertencer à vida eterna de Cristo ressuscitado.

Meditando este mistério compreendemos que o que Jesus viveu e fez é a proposta que a Igreja continua a fazer hoje a cada um dos seus discípulos : traduzir o amor de Deus Pai em gestos humanos concretos, pequenos ou grandes que sejam.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1503/natal-o-coracao-que-nos-guia/

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Natal na China, os cristãos e a lógica da pequenez

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Igreja de São José em Pequim

*Artigo de Guglielmo Gallone


‘Nos últimos vinte anos, o Natal entrou definitivamente no panorama urbano chinês. E é interessante notar como o aumento da popularidade desta festa acompanha o desenvolvimento econômico e social do país.

O aspecto econômico e produtivo

Inicialmente, a China conheceu o Natal principalmente como a ‘fábrica para o mundo’. Um exemplo entre muitos : entre 80% e 90% de todas as decorações natalinas globais — luzes, enfeites, árvores artificiais — hoje são produzidas nas zonas industriais da China, entre as quais se destaca principalmente a cidade de Yiwu, na província de Zhejiang. Por isso o Natal chega primeiro como ciclo produtivo e depois como festa. Depois disso, o bem-estar chinês começou a crescer. Entre 2005 e 2020, a renda disponível urbana multiplicou-se por mais de quatro vezes, a classe média ultrapassou os 400 milhões de pessoas e o consumo interno tornou-se um dos objetivos estratégicos. Assim, durante a primeira década do século XXI, os chineses não só produzem, mas começam sobretudo a consumir : abrem negócios, frequentam centros comerciais, transformam o espaço urbano. É precisamente nesta transição que o Natal muda de natureza. De evento puramente industrial, torna-se uma ocasião comercial e simbólica, especialmente para os mais jovens.

Entre mercadinhos e vilas natalinas 

Hoje, é normal passear por Xangai e se deparar com mercadinhos de Natal montados nos grandes shopping centers de Xintiandi ou ao longo do Bund, entre chalés de madeira, luzes decorativas e música de fundo. E não é só isso : na cidade mais ao norte da China, Mohe (província de Heilongjiang), foi montada uma verdadeira aldeia natalina onde os visitantes podem mergulhar na atmosfera natalina : há um correio do Papai Noel, esculturas de neve, casinhas decoradas e figuras do Papai Noel com as quais tirar fotos, montadas no que é frequentemente descrito como uma versão chinesa da famosa Vila do Papai Noel de Rovaniemi, na Finlândia.

O brilho que atrai 

É claro que tudo isso ocorre exclusivamente sob uma perspectiva econômica. No entanto, muitos jovens chineses ficam atraídos pelo brilho que o Natal traz consigo e acabam entrando nas igrejas, tentando entender o que leva os cristãos chineses a serem portadores de tanta alegria. Um jovem local nos contou isso. ‘Embora o período de Natal na China não seja celebrado como nos países europeus, mesmo porque é preciso trabalhar, a Missa da Meia Noite está sempre cheia e, especialmente nas pequenas aldeias, consegue atrair a atenção dos mais jovens. Normalmente são celebradas três missas : a Vigília, a Missa da Meia-Noite e a Missa de Natal’. Além disso, continua, ‘um dos momentos mais apreciados é aquele entre a Vigília e a Missa da Meia-Noite. A Igreja valoriza esse intervalo : os fiéis que prepararam uma apresentação podem se apresentar, o coral canta, as pessoas recitam orações pela paz, os padres recitam as homilias...’.

Uma maçã para a noite da paz 

E quando lhe pedimos para nos contar mais sobre esse momento tão especial, o jovem menciona ‘espetáculos com canções sacras ou dedicadas à história da Igreja, ao nascimento de Jesus... muitas pessoas vêm apenas para ouvir os corais. Agora, isso se tornou um hábito. Nem é preciso passar a palavra nas aldeias’. Além disso, continua, ‘os padres e os fiéis preparam pequenos presentes para os jovens chineses. Não são chocolates ou gadgets, mas maçãs. Em chinês, maçã se diz píngguǒ, um termo que lembra a palavra píng’ān, ‘paz’. Não é por acaso : a véspera de Natal é chamada de Píng’ān yè, a ‘noite da paz’. Oferecer uma maçã torna-se assim um gesto simples de felicitações capaz de falar a todos. A Igreja local não critica a sociedade chinesa, mas procura adaptar-se a ela. Outro exemplo : em nossos presépios, frequentemente incluímos elementos tradicionais típicos da cultura local. Lâmpadas, pequenos templos...’.

A espera pela luz 

Em suma, apesar das dificuldades, o Natal na China parece ser muito animado. ‘Para os fiéis católicos do meu país — observa Chiaretto Yan, focolarino chinês e autor do livro Il mio sogno cinese (Meu sonho chinês, Ed. Ancora 2025) — o Natal é uma alegria íntima. Eu diria que os chineses vivem o Natal como se ainda fosse a Sexta-feira Santa : ou seja, na espera. O Natal é a espera pela luz, assim como a Sexta-feira Santa é a espera pela ressurreição. Acho que o mesmo vale para o diálogo entre o cristianismo e a cultura chinesa : é importante iniciar um processo em vez de buscar ou alcançar imediatamente um resultado, como sugeria a cultura do encontro do Papa Francisco’.

A lógica da pequenez 

Um desejo que se concretiza na imagem, reproduzida em nosso jornal também por outras fontes, de muitos fiéis chineses que, na véspera de Natal, permanecem rezando durante toda a noite. Uma imagem difícil de ver em outros lugares, que testemunha justamente a paciência, a espera. Princípios que, na tradição taoísta chinesa, são expressos com o wu wei : não agir contra o tempo das coisas, não forçar o curso dos acontecimentos, mas acompanhar o seu devir. Um pouco como José e Maria acompanharam o nascimento de Jesus. Na gruta, na minoria, no pequeno. Ou melhor, na pequenez. Naquela ‘lógica da pequenez’ que o Papa Leão XIV evocou em sua viagem à Turquia e ao Líbano e que os fiéis chineses procuram encarnar todos os dias. E então, shèngdàn jié kuàilè (feliz festa do Nascimento sagrado!)’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-12/china-cristianismo-asia-vaticano-mundo-religiao-jesus.html


domingo, 21 de dezembro de 2025

Noite Silenciosa e Santa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘Silêncio, palavra doce e capaz de nos ajudar muito em tudo. Muitas vezes, temos medo do silêncio. É interessante perceber que, para muitos, o silêncio incomoda mais do que a vida barulhenta, cheia de ruídos e excesso de palavras. Sim, gastamos muito mais palavras do que o necessário, no entanto, não haverá sabedoria sem um silêncio saudável, equilibrado e com positivos resultados. O silêncio é segurança que o coração encontra para que o Evangelho tenha meios de ser vivido dentro e fora.

Jesus é a melodia da vida do cristão, é a condução do amor. A música brota do silêncio e retorna a ele mesmo. Música é movimento dentro do silêncio. A melodia cristã nos ensina muito sobre nós mesmos, coloca-nos diante de nossa própria natureza e garante a esperança como virtude teologal. A música cristã deve nos conduzir à verdade dentro de nós, por isso, nasce do verdadeiro silêncio e retorna para ele. A melodia cristã deve iluminar o coração para que o reconhecimento do amor se efetue dentro dele.

O verdadeiro silêncio espiritual é o exercício da liberdade do coração, do discernimento e da razão, da escolha e da responsabilidade. A música do coração cristão busca a criatura e reconhece o Autor da criação transformando o mundo exterior em amor. É o principal motivo pelo qual escutamos boa música, celebramos liturgia responsável e promovemos a música sacra. Felizmente, no Brasil aumenta o número de concertos e recitais de música sacra nas igrejas. A boa cultura pode muito nos ajudar no exercício da oração e da renovação de nossas forças, assim, o silêncio interior vai encontrando melhores recursos para despertar em nós o amor. Dom Columba Marmion, em sua belíssima obra Jesus Cristo, vida da alma, diz que ‘é pelo exercício das nossas próprias faculdades, inteligência, vontade, coração, sensibilidade, imaginação, que a nossa natureza humana, mesmo ornada da graça, deve executar as suas ações : mas estes atos, que derivam da natureza, são pela graça elevados a ponto de serem dignos de Deus’.

 Stille Nacht! Noite silenciosa! Noite feliz! A impressão que se tem é que a canção de Natal Noite feliz transcendeu os limites da religião e alcançou a universalidade do amor nos corações de todos! Stille NachtHeilige Nacht!, composição austríaca do Padre Joseph Mohr e do músico Franz Gruber traça o perfil da chegada do Menino Jesus. A tradução e versão portuguesa foi feita pelo Frei Pedro Sinzig, grande compositor alemão naturalizado brasileiro. O universo parou para escutar a respiração do Menino, o Verbo Encarnado. Foi a noite mais silenciosa e santa que já houve! O coração dos pastores logo escutou a melodia santa, o louvor dos anjos, o Gloria in excelsis Deo. É preciso ter coração humilde e manso para escutar a santa e silenciosa melodia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

‘Entoai, cantai a Deus ação de graças, tocai para o Senhor em vossas harpas!’, diz o Salmo 146. A graça é melodia silenciosa e doce esperança em nossos corações!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/noite-silenciosa-e-santa-3.html

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

'A universalidade da salvação' – Terceira Pregação do Advento de 2025

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Tiziana Campisi


A luz que desmascara

‘O frade menor capuchinho propôs uma reflexão sobre a manifestação universal da salvação, sobre Cristo, a verdadeira luz, que é capaz de iluminar, esclarecer e orientar toda a complexidade da experiência humana, que não apaga as perguntas, os desejos e as buscas humanas, mas os coloca em relação, os purifica e os conduz a um significado mais pleno. Luz que o mundo não abraçou porque os homens amaram mais as trevas. O problema, explicou o padre Pasolini, é nossa disponibilidade em acolher a luz, que é necessária e bonita, mas também exigente : desmascara ficções, expõe contradições, obriga a reconhecer o que preferiríamos não ver, e por isso a evitamos.

No entanto, observou o religioso, Jesus não contrapõe quem pratica o mal a quem pratica o bem, mas quem pratica o mal a quem vive a verdade. Isso significa que, para acolher a luz da Encarnação, não é preciso já ser bom ou perfeito, mas começar a tornar a verdade uma realidade na própria vida, ou seja, parar de se esconder e aceitar ser visto por quem se é, porque Deus está mais interessado em nossa verdade do que na bondade de fachada.

Igreja, comunidade que vive a luz de Cristo

Para a Igreja, isso significa iniciar um caminho de maior verdade, o que significa não exibir uma pureza moral ou reivindicar uma coerência impecável, mas apresentar-se com sinceridade e reconhecer resistências e fragilidades. Porque o mundo não espera uma instituição sem fissuras, nem mais um discurso indicando o que deve ser feito, disse o padre Pasolini, mas precisa encontrar uma comunidade que, apesar de suas imperfeições e contradições, viva verdadeiramente à luz de Cristo e não tem medo de se mostrar como é. Os Reis Magos, por exemplo, demonstraram uma maneira singular de serem verdadeiros ao trilharem o caminho do Senhor, explicou o religioso. Eles partiram de longe, mostrando que para acolher a luz do Natal, é necessário um certo distanciamento, para enxergar melhor as coisas : com um olhar mais livre, mais profundo, mais capaz de surpreender. Em vez disso, o hábito de olhar a realidade de perto demais nos torna prisioneiros de julgamentos previsíveis e interpretações excessivamente consolidadas, e isso também acontece com aqueles que vivem permanentemente no centro da vida eclesial e comporta responsabilidades, observou o pregador da Casa Pontifícia, porque a familiaridade cotidiana com funções, estruturas, decisões e emergências pode, com o tempo, estreitar o olhar e, assim, corre-se o risco de não reconhecer os novos sinais pelos quais Deus se faz presente na vida do mundo.

Os caminhos inesperados de Deus

Se o Natal celebra a entrada da luz no mundo, a Epifania destaca que essa luz não se impõe, mas se deixa reconhecer, manifesta-se numa história ainda marcada pela escuridão e pela busca, e é uma presença que se oferece a quem está disposto a se mover. Nem todos a veem da mesma maneira e a reconhecem ao mesmo tempo, porque a luz de Cristo se deixa encontrar por quem aceita sair de si mesmo, quem se coloca a caminho, quem busca, enfatizou o frei capuchinho, acrescentando que isso também é verdade para o caminho da Igreja, já que nem tudo o que é verdadeiro se mostra imediatamente claro, nem o que é evangélico é imediatamente eficaz. E, às vezes, a verdade exige ser seguida mesmo antes de ser plenamente compreendida.

A este respeito, o Padre Pasolini citou a experiência dos Magos, que não avançaram apoiados por certezas consolidadas, mas por uma estrela frágil, porém suficiente para guiá-los em sua viagem. Os sábios que vieram do Oriente para Belém ensinam essencialmente que para encontrar o rosto de Deus feito homem, é preciso colocar-se a caminho, e isso, enfatizou o pregador da Casa Pontifícia, se aplica a todo fiel, e especialmente a quem têm a responsabilidade de proteger, guiar e discernir. Sem um desejo que permanece vivo, mesmo as mais elevadas formas de serviço correm o risco de se tornarem repetitivas, autorreferenciais, incapazes de surpreender. A estrela que guiou os Magos, para o padre Pasolini, é também o sinal das discretas lembranças com as quais Deus continua a se fazer presente na história, e assim, aqueles sábios que não conhecem as Escrituras de Israel, mas leem os céus, lembram que Deus também fala por meios inesperados, experiências periféricas, perguntas que surgem do contato com a realidade e aguardam para serem ouvidas.

Imobilidade

Mas outro aspecto importante que emerge da história dos Magos é a atitude de busca : não se importar, não se colocar em movimento, pode levar a acomodação em uma posição que parece reconfortante, baseada em certezas e hábitos consolidados, mas que com o tempo corre o risco de se tornar uma forma de imobilidade interior, que lentamente isola, muitas vezes sem que percebamos. É o que acontece com Herodes, ele parece atento : questiona, calcula, planeja, mas não parte para Belém, não aceita o risco e a surpresa do que poderia acontecer e delega a tarefa de ir aos Magos, reservando-se o direito de ser informado sobre os acontecimentos. É a atitude de quem quer saber tudo sem se expor, permanecendo protegido das consequências de um envolvimento real, afirmou o frade franciscano, alertando contra uma abundância de conhecimento que carece de envolvimento real. Sabemos muitas coisas, mas permanecemos distantes. Observamos a realidade sem nos deixarmos tocar, protegidos por uma posição que nos protege do imprevisto. Acontece, então, que na Igreja se pode conhecer bem a doutrina, preservar a tradição, celebrar a liturgia com zelo e, ainda assim, permanecer parados. Como os escribas de Jerusalém, também nós podemos saber onde o Senhor continua se fazendo presente — nas periferias, entre os pobres, nas feridas da história — sem encontrar a força ou a coragem para seguir nessa direção, advertiu o pregador da Casa Pontifícia.

A coragem de se levantar

Em síntese, para encontrar Deus, o primeiro passo é sempre se levantar : sair de nossos refúgios interiores, de nossas certezas, nossa visão consolidada das coisas, insistiu o padre Pasolini, especificando que levantar-se exige coragem. Significa abandonar o estilo de vida sedentário que nos protege, mas nos imobiliza, aceitar o cansaço do caminho, expor-se à incerteza do que ainda não está claro. Como fizeram os Reis Magos, deixando sua terra natal e cruzando distâncias sem garantias, guiados apenas por um sinal tênue e discreto, sem saber o que encontrariam, mas confiando na luz que os precedia. Isso é o que significa esperar.

O padre Pasolini também destacou o abaixamento humilde dos Reis Magos. Ao chegarem a Belém, adoraram o Menino, se colocaram a caminho, buscaram e se abriram ao mistério : Levantar-se e depois ajoelhar-se : este é o movimento da fé. Levantar-se para sair de si, não para colocar-se no centro. E depois se abaixar, porque se percebe que o que encontramos está além do nosso controle. Para o pregador da Casa Pontifícia, isso vale na relação com Deus, nas relações cotidianas — quando o outro nos surpreende, nos decepciona ou nos transforma — e é preciso parar de impor nosso próprio ponto de vista e aprender a verdadeiramente escutar. E, ampliando a perspectiva, vale também para a Igreja, que é chamada a se mover, a sair, a encontrar pessoas e situações que lhe são distantes, e também a saber parar, abaixar o olhar, a reconhecer que nem tudo lhe pertence nem pode ser controlado. Então, o dom da salvação pode se tornar universal se a Igreja aceitar em deixar de lado suas próprias certezas e olhar com respeito para a vida dos outros, reconhecendo que mesmo ali, muitas vezes de maneiras inesperadas, algo da luz de Cristo pode emergir.

A verdadeira luz do Natal

Um último aspecto sobre o qual o pregador da Casa Pontifícia convidou a refletir foi que se Deus escolheu habitar nossa carne, então cada vida humana carrega em si uma luz, uma vocação, um valor que não pode ser apagado. Isso nos leva a concluir que não viemos ao mundo apenas para sobreviver ou atravessar o tempo da melhor maneira possível, mas para ter acesso a uma vida maior : a de filhos de Deus. Assim, a tarefa da Igreja é oferecer a luz de Cristo ao mundo. Não como algo a impor ou defender, mas como uma presença a oferecer, deixando que todos se aproximem. Portanto, sob essa perspectiva, a missão não consiste em forçar o encontro, mas em torná-lo possível, concluiu o padre Pasolini. Uma Igreja que oferece a presença de Cristo a todos não se apropria de sua luz, mas a reflete. Não se coloca no centro para dominar, mas para atrair, tornando-se, portanto, um espaço de encontro, onde cada pessoa pode reconhecer Cristo e, diante dele, redescobrir o sentido de sua vida. A perspectiva sobre os hábitos missionários deve, portanto, mudar : muitas vezes se pensa que evangelizar significa levar algo que falta, preencher um vazio, corrigir um erro, mas a Epifania aponta para outro caminho, que é o de ajudar o outro a reconhecer a luz que já habita nele, a dignidade que já possui, os dons que já possui. Portanto, a catolicidade da Igreja consiste em guardar Cristo para oferecê-lo a todos, com a confiança de que a beleza, a bondade e a verdade já estão presentes em cada pessoa, chamada à plenitude e a encontrar nele o seu pleno significado. Em conclusão, para o pregador da Casa Pontifícia, a verdadeira luz do Natal 'ilumina cada homem' precisamente porque é capaz de revelar a cada um a própria verdade, a própria vocação, a própria semelhança com Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2025-12/pasolini-pregacao-advento-luz-deus-magos-igreja.html 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A tradição contemplativa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Kim Nataraja


‘O fato de a meditação, a oração contemplativa, ser autenticamente cristã também pode ser constatado pelo fato de que, em muitas tradições cristãs, a oração silenciosa constitui o centro da adoração. Na tradição carmelita, Santa Teresa de Ávila foi muito influenciada, nos primeiros vinte anos de sua jornada espiritual, por um livro devocional popular da época chamado ‘Terceiro Alfabeto Espiritual’, de Francisco de Osuna, um monge franciscano, que recomendava a oração pela repetição de uma frase espiritual. Com ele como guia, ela foi conduzida da oração discursiva para o que chamou de ‘oração da quietude’ e até mesmo para a ‘oração da união’. Essas formas de oração são caracterizadas por uma crescente profundidade de silêncio e quietude interior. É uma maneira de abrir o coração a Deus na oração.

A ‘Oração de Jesus’, que se tornou conhecida no Ocidente no século XIX através do encantador livro ‘Relatos de um peregrino russo’, de autor anônimo, foi uma continuação da tradição de oração na Igreja Ortodoxa Oriental conhecida como ‘Oração do Coração’. Novamente, a ênfase está na repetição de uma frase de oração que leva ao silêncio interior e à solidão. Tanto essa tradição quanto aquela que John Main redescobriu para nós nos escritos de João Cassiano baseiam-se nos ensinamentos dos Padres do Deserto, em particular Evágrio Pôntico, que foi uma importante fonte e inspiração para ambas.

Na Inglaterra do século XIV, foi a obra ‘A Nuvem do Não-saber’, também de autor anônimo, que recomendou a mesma forma de oração. O autor enfatiza ‘perfurar o coração de Deus com um dardo flamejante de amor’. Para isso, precisamos concentrar todo o nosso amor e atenção em uma única palavra. Ele sugere que escolhamos uma palavra monossilábica como ‘Deus’ ou ‘Amor’, que expresse a intenção do nosso coração. O movimento da ‘Oração Centrada’ de Thomas Keating se inspira neste livro. O autor de ‘A Nuvem do Não-saber’ expressa o que está por trás de todos os ensinamentos da tradição mística cristã, ou seja, precisamos nos desapegar dos pensamentos, concentrando-nos em nossa palavra : ‘Fixe-a em sua mente para que permaneça lá, aconteça o que acontecer’. Ou, como John Main sempre dizia : ‘Apenas diga a sua palavra ’. 

Todos os guias espirituais mencionados fazem parte do que é conhecido como a tradição mística da ‘via negativa’, na qual Deus é incognoscível e inexprimível às nossas limitadas capacidades racionais. Portanto, precisamos nos desapegar do pensamento, de todos os pensamentos, sejam eles mundanos ou espirituais, para nos abrirmos mais a Ele e escutarmos profundamente a ‘voz mansa e delicada’. A ênfase está no Amor, em repetir a oração com amor e fidelidade. As diferenças em nossa época entre, por exemplo, a Tradição Carmelita, a ‘Oração Centrante’ e a ‘Comunidade Mundial para a Meditação Cristã’ são muito menores do que as correspondências entre as nossas respectivas formas de oração. Podemos nos inspirar em fontes diferentes, mas todos estamos empenhados em reconectar as pessoas no caminho espiritual com uma forma autêntica de oração que conduz ao silêncio e à consciência da Presença de Deus em nossos corações.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/a-tradicao-contemplativa-2/


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Papa: arqueologia cristã, vocação e forma de amor pela Igreja e pela humanidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Benedetta Capelli


‘Escavar, tocar os achados, reencontrar a energia do tempo — mas no trabalho do arqueólogo cristão não há apenas matéria, há também humanidade : as mãos que forjaram os objetos encontrados, ‘as mentes que os conceberam, os corações que os amaram’. Essa é uma das características da arqueologia cristã destacada pelo Papa na Carta Apostólica sobre a importância da arqueologia, publicada no dia 11 de dezembro, por ocasião do centenário do Pontifício Instituto de Arqueologia Cristã.

Leia a Carta Apostólica na integra

Tornar o Mistério visível 

Matéria e mistério : são duas linhas que se cruzam na arqueologia cristã porque ‘o cristianismo — destaca Leão XIV — não nasceu de uma ideia, mas de uma carne’, de um ventre, um corpo, um túmulo. A fé cristã se apoia em ‘eventos concretos, rostos, gestos, palavras pronunciadas em uma língua, em uma época, em um ambiente. É isso que a arqueologia torna evidente, palpável’. O Papa recorda ainda que ‘Deus escolheu falar em uma língua humana, caminhar sobre uma terra, habitar lugares, casas, sinagogas, ruas’. Por isso, em um tempo que recorre à Inteligência Artificial e investiga galáxias, ainda faz sentido continuar a investigar. ‘Não se pode compreender plenamente a teologia cristã — escreve o Papa — sem a inteligência dos lugares e das marcas materiais que testemunham a fé dos primeiros séculos’.

Nada é insignificante

A arqueologia e a teologia se entrelaçam no trabalho do arqueólogo, que deve ter uma sensibilidade especial ao lidar com ‘materiais da fé’. ‘Escavando entre pedras, ruínas, objetos — explica o Pontífice — aprendemos que nada do que foi tocado pela fé é insignificante’. Cada pequena evidência merece atenção, não deve ser descartada. Assim, a arqueologia se torna ‘uma escola de sustentabilidade cultural e ecologia espiritual’, de ‘educação para o respeito pela matéria, pela memória, pela história’. Nada se joga fora, tudo se conserva e se decifra, porque por trás de cada achado há ‘o fôlego de uma época, o sentido de uma fé, o silêncio de uma oração. É um olhar — sublinha o Papa — que pode ensinar muito também à pastoral e à catequese de hoje’.

A arqueologia aliada da teologia

Com o suporte de instrumentos tecnológicos cada vez mais refinados, mesmo materiais considerados irrelevantes podem revelar sentidos profundos. ‘A arqueologia é também uma escola de esperança.’ Leão XIV recorda que, segundo a Constituição Apostólica Veritatis gaudium, a arqueologia, junto com a História da Igreja e a Patrologia, deve integrar as disciplinas fundamentais da formação teológica. A arqueologia não fala apenas de coisas, mas de pessoas; ajuda a compreender ‘como a revelação se encarnou na história, como o Evangelho encontrou palavras e formas dentro das culturas’. Assim, uma teologia que acolhe a arqueologia ‘escuta o corpo da Igreja, interroga suas feridas, lê seus sinais, deixa-se tocar por sua história’. É também uma forma de caridade : ‘um modo de fazer falar os silêncios da história, devolver dignidade a quem foi esquecido, trazer à luz a santidade anônima de tantos fiéis que construíram a Igreja’.

A missão evangelizadora

É também tarefa da arqueologia ajudar a Igreja a guardar viva a memória dos seus inícios, narrar a história da salvação também com imagens, formas e espaços. ‘Em um tempo que frequentemente perde as raízes, a arqueologia — afirma o Papa — torna-se instrumento precioso de uma evangelização que parte da verdade da história para abrir à esperança cristã e à novidade do Espírito.’ Ao olhar para o modo como o Evangelho foi acolhido no passado, a arqueologia impulsiona seu anúncio hoje, ajudando a alcançar os distantes e os jovens que buscam autenticidade. A arqueologia, destaca Leão XIV, é um ‘poderoso instrumento de diálogo; pode construir pontes entre mundos distantes, culturas diferentes, gerações; pode testemunhar que a fé cristã nunca foi uma realidade fechada, mas uma força dinâmica’.

Memória viva e reconciliada

Outra força da arqueologia é fazer perceber o vigor de uma existência que atravessa os séculos, ultrapassa a matéria e possui relevância específica na teologia da Revelação. Ela ilumina textos com testemunhos materiais, interroga fontes, completa-as e abre novas questões. Assim, uma teologia fiel à Revelação ‘deve — para o Papa — permanecer aberta à complexidade da história’, feita de desafios, conflitos, momentos de luz e escuridão. Cada aprofundamento do mistério da Igreja é um retorno às origens : não um culto ao passado, mas ‘memória viva’, ‘capacidade de fazer o passado falar ao presente’, discernindo o que o Espírito Santo suscitou na história. Isso gera ‘uma memória reconciliada’, capaz de reconhecer pluralidade e unidade na diversidade, tornando-se ‘lugar de escuta, espaço de diálogo, instrumento de discernimento’.

Não um saber elitista

O Papa recorda que o Pontifício Instituto de Arqueologia Cristã foi fundado em 1925 por Pio XI, no Jubileu da Paz; agora o centenário ocorre no Jubileu da Esperança — coincidência que abre horizontes para uma humanidade ferida por guerras. A fundação ocorreu em clima incerto, mas com coragem e visão. Ser fiel ao espírito fundador significa não fechar-se em um saber elitista, mas ‘compartilhar, divulgar, envolver’. Essencial, portanto, a comunhão com outras instituições dedicadas à arqueologia, como a Pontifícia Academia Romana de Arqueologia, a Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra e a Pontifícia Academia Cultorum Martyrum. Também com o Oriente cristão a arqueologia é terreno fecundo : catacumbas comuns, igrejas compartilhadas, práticas litúrgicas análogas, martirológios convergentes — patrimônios que devem ser valorizados conjuntamente.

Ministério de esperança

‘A Igreja é chamada a educar para a memória, e a arqueologia cristã é um dos seus instrumentos mais nobres. Não para refugiar-se no passado, mas para habitar o presente com consciência, construindo o futuro com raízes.’ A arqueologia, portanto, ‘é um ministério de esperança’, porque mostra que ‘a fé resistiu às perseguições, às crises, às mudanças’, renovando-se, reinventando-se, florescendo. ‘O Evangelho sempre teve uma força geradora’, e a esperança jamais falhou. Por fim, o Papa exorta à continuidade desse trabalho precioso, rigoroso, transmitido com paixão. ‘A arqueologia cristã é um serviço, uma vocação, uma forma de amor pela Igreja e pela humanidade. Sede fiéis ao sentido profundo do vosso compromisso : tornar visível o Verbo da vida, testemunhar que Deus se fez carne, que a salvação deixou marcas, que o Mistério se fez narrativa histórica.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2025-12/papa-leao-xiv-carta-apostolica-arqueologia-crista-11-12-2025.html

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

'Reconstruir a Casa do Senhor. Uma Igreja sem contraposições' – Segunda Pregação do Advento de 2025

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Isabella Piro



De que unidade devemos dar testemunho? E como oferecer ao mundo uma comunhão crível que não seja, genericamente, fraternidade? Estas foram as principais questões propostas na segunda de três meditações do Advento proferidas pelo Pe. Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia. O frade menor capuchinho propôs-as a Leão XIV e aos seus colaboradores da Cúria Romana na manhã desta sexta-feira, 12 de dezembro, na Sala Paulo VI. O tema escolhido para as três reflexões é: ""Aguardando e apressando a vinda do dia de Deus".


A Torre de Babel e o medo da dispersão

 

Após a primeira meditação de 5 de dezembro, dedicada à "Parusia do Senhor", nesta sexta-feira o Pe. Pasolini articulou sua reflexão em torno de três imagens: a Torre de Babel, o Pentecostes e a reconstrução do Templo de Jerusalém. A primeira imagem — a de uma cidade fortificada e uma torre imponente — é o emblema de uma família humana que, após o dilúvio, busca exorcizar "o medo da dispersão". Mas tal projeto esconde "uma lógica mortal", já que a unidade é buscada "não pela reconciliação das diferenças, mas pela uniformidade".

 

O pensamento único do totalitarismo do Século XX

 

"É o sonho de um mundo onde ninguém é diferente, ninguém corre risco, tudo é previsível", observou o padre Pasolini, tanto que a torre é construída não com pedras irregulares, mas com tijolos idênticos entre eles. O resultado é, sim, a unanimidade, mas uma unanimidade aparente e ilusória, porque "é alcançada ao custo da eliminação das vozes individuais".

A partir daí, o pensamento do pregador volta-se para os tempos modernos e contemporâneos, nomeadamente, para os totalitarismos do século XX que impuseram o "pensamento único", silenciando e perseguindo a dissidência. Mas "cada vez que a unidade é construída suprimindo as diferenças - acrescentou - o resultado não é a comunhão, mas a morte".

 

O consenso rápido das redes sociais e da IA

 

Também hoje, "na era das redes sociais e da inteligência artificial", os riscos da padronização não faltam, antes pelo contrário; surgem em novas formas, em que os algoritmos criam "bolhas de informação" unívocas, esquemas previsíveis que reduzem a complexidade humana em um padrão, plataformas que visam o consenso rápido, penalizando a "dissidência reflexiva".

Trata-se de uma tentação que "não poupa sequer a Igreja", explicou o capuchinho, recordando as muitas vezes ao longo da história em que a unidade da fé foi confundida com uniformidade, em detrimento do "ritmo lento da comunhão que não teme o confronto e não apaga as nuances".


A diferença é a gramática da existência

 

Um mundo construído sobre a utopia de cópias idênticas, continuou o sacerdote, "é a antítese da criação", porque "Deus cria separando, distinguindo, diferenciando" a luz das trevas, as águas da terra, o dia da noite. Nesse sentido, "a diferença é a própria gramática da existência", e rejeitá-la significa inverter "o impulso criador" em busca de uma falsa segurança que é, na verdade, "uma rejeição da liberdade".

 

Deus restaura a dignidade às singularidades

 

A confusão de línguas com que Deus responde à Torre de Babel, portanto, não é uma punição, mas sim "uma cura", enfatizou o pregador da Casa Pontifícia: o Senhor "restitui a dignidade às singularidades", dando novamente à humanidade "o bem mais precioso", ou seja, "a possibilidade de não sermos todos iguais". Porque "não existe comunhão sem diferença".

 

Pentecostes, emblema da comunhão

 

A segunda imagem é a de Pentecostes, o emblema da comunhão apesar da ausência de uniformidade. Os apóstolos falam a sua própria língua, e os ouvintes a compreendem na sua, porque "a diversidade permanece, mas não divide"; as diferenças não são eliminadas para criar unidade, mas transformadas "no tecido de uma comunhão mais ampla".

 

A renovação da Igreja, uma necessidade perene

 

O padre Pasolini ilustrou então a terceira imagem: o Templo de Jerusalém, destruído e reconstruído muitas vezes. Cada reconstrução, explicou ele, "nunca pode ser um caminho linear", porque a compô-la serão "entusiasmos e lágrimas, novos impulsos e arrependimentos profundos". Tudo isso é "um precioso compêndio" para compreender "a perene necessidade" de renovação da Igreja, bem encarnada por São Francisco de Assis.

A Igreja, de fato, é chamada a permitir-se ser continuamente reconstruída para revelar "a beleza do Evangelho", permanecendo fiel a si mesma e, ao mesmo tempo, continuando a "colocar-se a serviço do mundo".

 

Acolher a variedade, não apagá-la

 

Longe de ser "uma necessidade extraordinária", enfatizou o padre Pasolini, a renovação eclesial é "a atitude ordinária" da Igreja fiel ao mandato apostólico e, sobretudo, não é uniformidade, nem "uma obra pacífica". A Igreja que se renova, de fato, é aquela capaz de "acolher a diversidade" e capaz  de "um combate espiritual autêntico", livre dos "atalhos de puro conservadorismo e de inovação acrítica". Porque a comunhão nunca é "um sentimento homogêneo", nem uma recíproca eliminação, mas antes um lugar de "escuta recíproca". Só assim, de fato, "a Igreja pode verdadeiramente voltar a ser o lar de todos".

 

O Concílio Vaticano II e a "Primavera do Espírito"

 

Uma última reflexão do padre Pasolini foi dedicada ao Concílio Vaticano II: sessenta anos após, a grande assembleia , frequentemente descrita como a "primavera do Espírito", emerge quer "um declínio das práticas, dos números e das estruturas históricas da vida cristã" quanto um novo fermento do Espírito, evidenciado pela "centralidade da Palavra de Deus", por um laicato "mais livre e mais missionário", por "um caminho sinodal" que se tornou uma "forma necessária" e por um cristianismo que "floresce em muitas regiões do mundo".

 

Retornar ao coração do Evangelho

 

O declínio, explicou o pregador, torna-se decadência se a Igreja perde a "consciência da própria natureza sacramental e se percebe como uma organização social", reduzindo a fé à ética, a liturgia à performance e a vida cristã a moralismo.

Em vez disso, para além de posições ideológicas, como o tradicionalismo e o progressivo, o declínio pode se tornar "um tempo de graça" no momento em que a Igreja retorna "ao coração do Evangelho", distanciando-se de "estratégias" humanas, de "contraposições que dividem e tornam estéril cada diálogo", bem como de "soluções imediatas e fáceis".

 

A Igreja, dom a ser protegido e serviço

 

Em última análise, concluiu o padre Pasolini, a Igreja não é algo a ser edificado segundo critérios humanos, mas é "um dom a ser recebido, protegido e servido" com gestos humildes, dia após dia, cada um com um fragmento de fidelidade e caridade. O pregador da Casa Pontifícia concluiu então sua reflexão com uma oração ao Senhor para que "o povo dos fiéis possa sempre progredir na construção da Jerusalém celeste".

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2025-12/segunda-pregacao-advento