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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

“Catolicismos” ideológicos de esquerda e de direita: heresias farisaicas disfarçadas de zelo

  Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da redação da Aleteia  


Fariseus de esquerda e direita estarão sempre a postos para condenar a justiça, o amor e a misericórdia em nome de regras - esquecendo que as regras só fazem sentido quando baseadas na justiça, no amor e na misericórdia


Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos : se vos amardes uns aos outros’ (João 13,35).

Não existe absolutamente nenhuma forma de ‘provar’ o próprio catolicismo que não seja o amor ao próximo.

E como se prova o amor ao próximo?

Cristo responde : ‘Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos’ (João 15,13).

E quem é amigo de Cristo?

Cristo responde : ‘Vós sois meus amigos se fizerdes o que vos mando’ (João 15,14).

E o que Cristo nos manda?

Cristo responde : ‘Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai que está no céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?’ (Mateus 5,44-46).

Tudo isso deveria ser a coisa mais batida do universo para qualquer um que tem o atrevimento de se dizer ‘cristão autêntico’.

Mas…

Assim como ocorria no tempo do próprio Jesus sobre esta terra, o aparente zelo religioso pode ser um abominável disfarce para um nível assassino, apóstata, diabólico de egoísmo, vaidade, arrogância, sectarismo e desprezo escandaloso pelo próximo.

Aparentavam grande zelo aqueles que não hesitavam em ‘coar um mosquito e engolir um camelo’ (cf. Mt 23,24), denunciou Jesus depois de descrevê-los : ‘Atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo’ (Mt 23,4). Mais veemente ainda : ‘Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos’ (Mt 23,15).

Os fariseus hipócritas prezam a forma acima do conteúdo. Para eles, o importante é o protocolo, a regra, a lei exterior – mesmo que o espírito seja traído da mais nefasta e satânica maneira em nome das aparências.

Um fariseu preza as exterioridades e se preocupa com as aparências, formalidades e rigidezes protocolares. E não há nada de errado nisto – desde que não se fique apenas nisto. ’Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei : a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante’ (Mt 23,23).

Justiça, misericórdia, fidelidadeAmor ao próximo – inclusive aos inimigos. Amor ao próximo até dar a vida pelos amigos. Orar pelos que nos perseguem. Perdoar até setenta vezes sete. ‘Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar’.

O erro dos fariseus, que se explicita nas suas palavras e nos seus atos (porque ‘pelos seus frutos os conhecereis’, cf. Mt 7,20), é um erro de priorização.

Nos tempos atuais, como em qualquer outro tempo, esses erros continuam a ser cometidos na priorização da forma, do protocolo, da regra, que, mesmo sendo necessários, não podem jamais sobrepor-se ao amor. Afinal, é só a serviço do amor que existem as formas boas de comportamento.

O papa Francisco vai a Cuba? Não pode. É comunista. Mas e o amor ao próximo? Não pode. É comunista. Mas como ajudar os cubanos a viverem a fé com liberdade sem ir até as causas da sua falta de liberdade para superá-las com amor, misericórdia, justiça? Não pode. É comunista.

O papa Francisco se encontra com o patriarca Kirill? Não pode. É laranja da KGB. Mas e a reconciliação? E o pedido de Cristo ‘para que todos sejam um’? Não pode. É laranja da KGB. Mas a Igreja ortodoxa existe há mil anos, séculos e séculos antes do surgimento da KGB. Não pode. É laranja da KGB.

O papa Francisco escreve uma encíclica sobre o cuidado da nossa casa comum? Não pode. É New Age, ecologismo e comunismo verde. Mas Deus não nos confiou o cuidado responsável da criação já no primeiro livro da Bíblia? Não pode. É New Age, ecologismo e comunismo verde. Mas Jesus mesmo não estava sempre em contato com a natureza, não contemplava e citava constantemente em suas parábolas e discursos as sementes, os ramos, as árvores, os campos, os lírios, as flores, o trigo, os frutos, o mar, os pássaros? Não pode. É New Age, ecologismo e comunismo verde. E São Francisco de Assis, que chamava de irmãos e irmãs o sol e a lua e os animais e plantas? Não pode. É New Age, ecologismo e comunismo verde.

O papa Francisco fala de justiça na distribuição dos bens materiais? Não pode. É teologia da libertação. O papa defende uma economia a serviço das pessoas e não pessoas a serviço da economia? Não pode. É teologia da libertação. Ir até as periferias da existência, promover a equidade no acesso aos recursos, garantir uma sobrevivência digna, derrotar o pecado gravíssimo da usura e da ganância? Não pode. É teologia da libertação.

O papa Francisco denuncia a cultura do descarte e da coisificação dos seres humanos? Não pode. É obscurantismo e insensibilidade reacionária. O papa arremete contra a irresponsabilidade no desfrute inconsequente do sexo? Não pode. É obscurantismo e insensibilidade reacionária. O papa reitera que o aborto é um crime abominável, perpetrado em nome do egoísmo, do utilitarismo e da eugenia, que inventaram o suposto ‘direito’ a ter ‘filhos perfeitos’, como se uma vida humana fosse comparável a um ‘sonho de consumo’? Não pode. É obscurantismo e insensibilidade reacionária.

O papa Francisco reafirma a doutrina moral da Igreja? Não pode. É dogmatismo e intolerância. Ele reitera que o sacerdócio instituído por Cristo foi confiado somente aos seus discípulos homens? Não pode. É dogmatismo e intolerância. O papa Francisco reafirma que o matrimônio – não só cristão, mas natural – é exclusivamente entre um homem e uma mulher, é indissolúvel e é aberto à vida? Não pode. É dogmatismo e intolerância.

O papa Francisco prioriza a misericórdia na pastoral familiar? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo. Os casais em segunda união devem receber compreensão, amor e misericórdia, precisamente porque é necessário testemunhar ao mundo o compromisso indissolúvel do matrimônio para as próximas gerações? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo. Os homossexuais não devem ser julgados e condenados, mas sim acolhidos com respeito, fraternidade e amor cristão? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo. Mas Cristo não andava com as prostitutas, pecadores e publicanos? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo. Mas Cristo não acolhia e oferecia amor e misericórdia a samaritanos, pagãos e romanos drasticamente imorais? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo.

O papa Francisco pede acolhimento para migrantes e refugiados? Não pode. São terroristas infiltrados. O papa mandou abrir as portas das igrejas de todo o mundo para acolher os refugiados, ainda que não sejam cristãos, ainda que sejam muçulmanos? Não pode. São terroristas infiltrados. Mas muitos deles são crianças. Não pode. São terroristas infiltrados. Mas milhares deles, mesmo muçulmanos, estão sendo perseguidos, torturados e assassinados em seus países. Não pode. São terroristas infiltrados. E as obras de misericórdia? Não pode. São terroristas infiltrados.

O papa Francisco pede ecumenismo entre os cristãos e diálogo civilizado e amoroso com as outras religiões? Não pode. É estupidez, frouxidão e traição. Mas como é que os não cristãos vão conhecer a Cristo se os cristãos não O testemunharem na prática? Não pode. É estupidez, frouxidão e traição. E como vai brilhar a nossa luz diante dos homens se a escondemos deles, recusando-nos até a manter contato? Não pode. É estupidez, frouxidão e traição.

Os fariseus de esquerda e direita estarão sempre a postos para condenar a justiça, o amor e a misericórdia em nome de regras e protocolos, esquecendo que as regras e protocolos só fazem sentido quando baseadas precisamente na justiça, no amor e na misericórdia.

Diante da tentação constante do farisaísmo de direita e de esquerda, sejamos justosamemos e pratiquemos a misericórdia.

Afinal, ‘ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine’ (I Coríntios 13,1).

Afinal, ‘ama e faz o que queres’ (Santo Agostinho), porque, se amas de verdade, só vais querer fazer o melhor pelo próximo.

Amemos. Com obras. Na prática. Inclusive aos inimigos. Até dar a vida. Isto é o Evangelho. Isto é o cristianismo.

O resto é ideologia farisaica.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https ://pt.aleteia.org/2016/02/15/catolicismos-ideologicos-de-esquerda-e-de-direita-heresias-farisaicas-disfarcadas-de-zelo/

terça-feira, 25 de junho de 2019

Paz verdadeira e pacifismo covarde


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

LA CAMBE: GERMAN MILITARY CEMETERY; NORMANDY
Cemitério militar alemão na Normandia (França)

*Artigo de Vanderlei de Lima, 
eremita na Diocese de Amparo


‘Há quem diga – por ignorância ou má-fé (Deus julgue!) – que paz é entreguismo ao mal. Este artigo, à luz da Sagrada Tradição, rebate essa ideia distorcida.

Lê-se em Mt 5,9 : ‘Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus’. Comenta Santo Agostinho de Hipona († 430), gênio da Filosofia e da Teologia latina, que ‘a paz é a tranquilidade da ordem e a ordem é a disposição por meio da qual se concede a cada um o seu lugar, conforme sejam iguais ou desiguais. Assim como não há ninguém que não queira ser feliz, tampouco há alguém que não anseie ter paz, como ocorre quando aqueles que buscam a guerra não procuram outra coisa senão encontrar, batalhando, a gloriosa paz’ (De Civitate Dei, 19,13). 

Foi, aliás, Santo Agostinho quem, junto com Santo Ambrósio de Milão († 397), defendeu a participação dos católicos na guerra, desde que ela fosse justa. Coube, todavia, a São Tomás de Aquino († 1274) elaborar os princípios da guerra justa que passou para a doutrina católica e são plenamente válidos até hoje (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 2309). Daí também o apreço da Mãe Igreja para com os militares : ‘Aqueles que se dedicam ao serviço da pátria no exército, considerem-se servidores da segurança e da liberdade dos povos; na medida em que exercem como convém essa tarefa, contribuem verdadeiramente para o estabelecimento da paz’ (Gaudium et Spes, n. 79).

Já em Mt 5,20-22, Nosso Senhor recorda e amplia a extensão do 5º Mandamento da Lei de Deus que preceitua o ‘Não matarás’ (cf. Êx 20,13). Perguntam alguns, no entanto, como ficaria a doutrina da legítima defesa (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 2263-2266)? – Quem nos auxilia, uma vez mais, é Santo Agostinho de Hipona ao ensinar o seguinte : ‘aqueles que, por ordem de Deus, fazem guerra, de modo algum agem contra este mandamento. Nem aqueles que, exercendo legítima autoridade, punem os criminosos por razões justas cometem crimes’ (De Civitate Dei, 1, 21). Se não cometem crimes quem é, então, culpado pela morte de um delinquente atingido em confronto com a polícia ou pela reação de outro cidadão? – A resposta é dada por um santo de nossos dias : São João Paulo II († 2005). Fiel à Tradição da Igreja, diz ele : ‘Acontece, infelizmente, que a necessidade de colocar o agressor em condições de não molestar implique, às vezes, na sua eliminação. Nesta hipótese, o desfecho mortal há de ser atribuído ao próprio agressor que a tal se expôs com a sua ação, inclusive no caso em que ele não fosse moralmente responsável por falta do uso da razão’ (Evangelium vitae, 1995, n. 55).

Vê-se, pois, que o mal deve ser combatido com santo zelo. Uma moleza pacifista e uma abstenção covarde, aliás própria de quem não tem amor pela causa do Evangelho, só favorece o erro. Isso o disse, por exemplo, o chamado Pseudo-Crisóstomo ao definir cólera injusta e justa : ‘Aquele que se encoleriza sem causa, será culpado. Pois se não existisse a cólera, nem a doutrina se aproveitaria, nem os tribunais seriam constituídos, nem os crimes seriam punidos. Assim, aquele que não fica encolerizado quando há motivo para isso, peca. A paciência imprudente fomenta os vícios, aumenta a negligência e convida o mal a agir, e não apenas os maus, mas também os bons’ (Opus imperfectum in Matthaeum, Hom. 11). A ira injusta é má e deve ser punida; a ira justa, por amor de Deus e ao que lhe diz respeito, é louvável, dentro do equilíbrio cristão, e deve ser usada para frear os maus e evitar que os bons também caiam nas suas armadilhas.

Em conclusão : Paz real não é pacifismo covarde. Em 1º de janeiro de 1968, em memorável Discurso, o Papa São Paulo VI afirmava : ‘é de desejar que a exaltação do ideal da Paz não seja entendida como um favorecer a ignávia daqueles que têm medo de dedicar a vida ao serviço da própria pátria e dos próprios irmãos, quando se acham empenhados na defesa da justiça e da liberdade; mas, antes, procuram somente a fuga das responsabilidades e dos riscos necessários para o cumprimento dos grandes deveres impostos pelas empresas generosas. Não, paz não é pacifismo, não esconde uma concepção vil e preguiçosa da vida; mas, proclama sim os valores mais altos e universais da vida : a verdade, a justiça, a liberdade e o amor’. 

Com a Igreja, abraçamos a paz, mas rejeitamos o pacifismo!’


Fonte :

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Dom Abade Joaquim Arruda Zamith, O.S.B.

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Dom Abade Joaquim Arruda Zamith, O.S.B 
(+10.nov.2014)

Nascido em Campinas, Dom Joaquim tinha 90 anos de idade, 69 de profissão monástica e 63 de sacerdócio. Mantinha, ainda, um site com seus estudos sobre a espiritualidade monástica :
  
v Doutor em Filosofia pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo 
    (Roma – Itália)

v Abade Emérito do Mosteiro de São Bento de São Paulo (1974 a 1989)

v Abade Emérito Presidente da Congregação Beneditina Brasileira 
    (1974 a 2002)

v Membro da Comissão de Tradutores da Bíblia Jerusalém

v Autor de diversos livros publicados, dentre eles : ‘Ensinamentos de um Abade’
  
Transferiu seus votos, anos depois, para a Federação Beneditina Americano-Cassinense e passou a viver no Mosteiro de São Bento de Vinhedo, interior de São Paulo.

Que a Luz Eterna brilhe para ele!




sábado, 25 de outubro de 2014

Não basta vencer

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


 *Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte
  
Não basta vencer as eleições do domingo, pois a verdadeira conquista é muito mais difícil de alcançar. Trata-se da vitória que é o bem do povo, particularmente dos mais pobres e sofredores, enjaulados em condições indignas de vida, privados de direitos fundamentais. Os analistas, com diferentes pontos de vista, indicam a complexidade do momento. Diante de todos está o desafio do crescimento econômico, de se atender demandas de infraestrutura e de libertação da máquina pública das garras ferozes dos que dela se apossam, nos diversos níveis, instâncias e lugares, pelo Brasil afora, incapacitando-a no atendimento de sua finalidade - o zelo e a garantia do bem comum.

Ao considerar esse horizonte de exigências e desafios, compreende-se ainda mais que a ida às urnas exige responsabilidade de cada cidadão eleitor. Uma constatação evidente, mas que merece sempre reflexões. Quando se observa a atual tendência do eleitorado na sua escolha, percebe-se o peso da interrogação no ar. Este momento eleitoral tem revelado a indecisão de muitos, a divisão equiparada das opiniões, ora para um lado, ora para outro. Talvez isso seja sinal de certo amadurecimento da democracia. Um gesto aparentemente simples, apertar teclas da urna eletrônica, revela um processo da mais alta complexidade.

A candidatura escolhida vai nortear rumos, ou desconsertá-los, no quadriênio subsequente. Discernir e fazer a escolha, algo que precede o gesto simples e rápido de teclar, é agora o grande desafio cidadão. Há uma avalanche de elementos a serem avaliados, um caminho a ser bem trilhado rumo à definição mais apropriada possível, que colabore com o desenvolvimento da sociedade brasileira. A velocidade das mudanças e o aumento das necessidades reais do povo não admitem senão inovações, busca de novas respostas e a garantia de avanços. Conquistas são possíveis, embora difíceis. Particularmente, o eleitor deve buscar quem é capaz de superar a famigerada desigualdade social que ainda rege violentamente a sociedade brasileira.

Buscar o caminho novo inclui a verificação de um check list com incontáveis tópicos. Cada cidadão tem o direito, e até o dever, de tomar conhecimento destes itens todos para viver seu discernimento e alcançar uma amadurecida escolha. Também é importante conhecê-los para exercer o direito de acompanhar a efetivação dos compromissos assumidos por quem se elegeu e, portanto, tornou-se servidor do povo. Dois aspectos, entre tantos, merecem alguma consideração neste momento decisivo. Um deles se refere à qualidade do processo de escolha. Eleitores não podem deixar-se influenciar apenas pelos resultados de pesquisas de intenção de voto, até porque elas têm revelado muitas fragilidades e limitações. Também é inadmissível aceitar que, a esta altura do terceiro milênio, ainda exista o antigo ‘voto de cabresto’, com os ‘currais eleitorais’, onde se define uma escolha pelos esquemas de dependência e se estimula a apatia em detrimento da participação popular.

Outro aspecto que agrava o cenário eleitoral é a carência de lideranças com perfis mais enriquecidos. Infelizmente, a poluição partidária, formada pelo excessivo número de legendas e, sobretudo, pela parcialidade e interesse cartorial, tem refletido na falta de pessoas qualificadas para o exercício do cargo público. Consequentemente, torna-se cada vez mais comum encontrar nas instituições públicas pessoas que não se comprometem com o bem da sociedade e com a superação do sofrimento dos mais pobres. O interesse cada vez mais hegemônico é a busca de ganhos para classes e grupos. No segundo plano, fica o gosto cidadão de representar o povo, servindo-o acima de tudo, trabalhando por suas necessidades.

A corrupção e os escândalos do uso inapropriado dos recursos do erário público emolduram a política brasileira. Essa grave crise na representatividade favorece mediocridades e, até mesmo, a escolha de quem não consegue inovar, ousar, de quem prefere a conservação que, por sua vez, alimenta o atual cenário. Diante de tantas necessidades de mudança, é certo que ao cidadão não basta apenas votar, e aos escolhidos nas urnas, não basta vencer as eleições. Há um íngreme caminho a ser percorrido.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.news.va/pt/news/nao-basta-vencer
  

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

São Lucas, Evangelista

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  
Nasceu em Antioquia da Síria, médico de profissão foi convertido pelo apóstolo São Paulo, do qual se tornou inseparável e fiel companheiro de missão. Colaborador no apostolado, o grande apóstolo dos gentios em diversos lugares externa a alta consideração que tinha por Lucas, como portador de zelo e fidelidade no coração. Ambos fazem várias viagens apostólicas, tornando-se um dos primeiros missionários do mundo greco-romano. Tornou-se excepcional para a vida da Igreja por ter sido dócil ao Espírito Santo, que o capacitou com o carisma da inspiração e da vivência comunitária, resultando no Evangelho segundo Lucas e na primeira história da Igreja, conhecida como Atos dos Apóstolos.

No Evangelho segundo Lucas, encontramos o Cristo, amor universal, que se revela a todos e chama Zaqueu, Maria Madalena, garante o Céu para o ‘bom’ ladrão e conta as lindas parábolas do pai misericordioso e do bom samaritano. Nos Atos dos Apóstolos, que poderia também se chamar Atos do Espírito Santo, deparamos com a ascensão do Cristo, que promete o batismo no Espírito Santo, fato que se cumpre no dia de Pentecostes, e é inaugurada a Igreja, que desde então vem evangelizando com coragem, ousadia e amor incansável todos os povos.

Uma tradição – que recolheu no séc. XIV Nicéforo Calisto, inspirado numa frase de Teodoro, escritor do séc. VI – diz-nos que São Lucas foi pintor e fala-nos duma imagem de Nossa Senhora saída do seu pincel. Santo Agostinho, no séc. IV, diz-nos pela sua parte que não conhecemos o retrato de Maria; e Santo Ambrósio, com sentido espiritual, diz-nos que era figura de bondade. Este é o retrato que nos transmitiu São Lucas da Virgem Maria : o seu retrato moral, a bondade da sua alma. O Evangelho de boa parte das Missas de Maria Santíssima é tomado de São Lucas, porque foi ele quem mais longamente nos contou a sua vida e nos descobriu o seu Coração. Duas vezes esteve preso São Paulo em Roma e nos dois cativeiros teve consigo São Lucas, ‘médico queridíssimo’. Ajudava-o no seu apostolado, consolava-o nos seus trabalhos e atendia-o e curava-o com solicitude nos seus padecimentos corporais. No segundo cativeiro, do ano 67, pouco antes do martírio, escreve a Timóteo que ‘Lucas é o único companheiro’ na sua prisão. Os outros tinham-no abandonado. O historiador São Jerônimo afirma que Lucas viveu a missão até a idade de 84 anos, terminando sua vida com o martírio. Por isso, no hino das Laudes rezamos : ‘Cantamos hoje, Lucas, teu martírio, teu sangue derramado por Jesus, os dois livros que trazes nos teus braços e o teu halo de luz’. É considerado o Padroeiro dos médicos, por também ele ter exercido esse ofício, conforme diz São Paulo aos Colossenses (4,14) : ‘Saúda-vos Lucas, nosso querido médico’.

São Lucas, rogai por nós!’ .


Fonte   :
* Artigo na íntegra de http ://santo.cancaonova.com/santo/sao-lucas-uma-figura-simpatica-do-cristianismo-primitivo/

domingo, 12 de outubro de 2014

A Vocação de Elias : O profeta de Fogo e Zelo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Padre Manuel João P. Correia,
Missionário Comboniano
  
‘Os tempos de Elias foram também difíceis. Exerceu o seu ministério a meados do século IX antes de Cristo, no reino de Israel. Do ponto social e político, foi um momento auge do Reino do Norte, uma época de paz e de prosperidade econômica. Mas também de grande infidelidade idolátrica. Como a nossa!...


Idolatrias

Reinava então em Israel o ímpio rei Acab, que, para cúmulo dos males, casara com a perversa rainha Jezabel, filha do rei de Tiro. Jezabel trouxe consigo o seu ‘senhor’ e ‘esposo’, Baal, o deus da chuva e da fecundidade. Determinada como era, pelas boas e pelas más, acabou por impor por todo o lado o culto a Baal (1 Reis 16,30-33). Também nisto podemos ver uma analogia com a nossa época. Muda só o nome da ‘rainha’ e do seu ‘deus’. Todos seríamos capazes de dar-lhes um nome e um rosto. O método para ofuscar as mentes e escravizar as consciências, a indiferença com que se sacrificam tantas vítimas ao ídolo não diferem substancialmente. A luz da fé parece extinguir-se, a voz das testemunhas é silenciada e até o céu parece ofuscar-se...

É neste contexto que Deus suscita uma testemunha extraordinária na pessoa do profeta Elias. Ele aparece de uma maneira abrupta no capítulo 17 do primeiro Livro dos Reis, anunciando uma carestia. As suas palavras ressoam como um relâmpago em céu sereno no rico e idólatra reino de Israel :  ‘Juro pelo nome do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, que não cairá orvalho nem chuva nos próximos anos, excepto mediante a minha palavra.’ E o céu obedece. Não chove, não obstante que Baal se proclame senhor da chuva. E a terra ressequida não pode alimentar a vida. A morte ameaça a todos :  homens e animais.


Fogo e zelo

O profeta Elias é uma das grandes figuras bíblicas. A sua personalidade extraordinária, o seu carácter intrépido e heróico, o carisma profético singular fizeram dele o profeta por antonomásia. Recordemo-nos que Elias aparece com Moisés, falando com Jesus durante a transfiguração. A sua figura continuou a suscitar um fascínio particular ao longo dos tempos na tradição judaica e cristã.

Elias é o profeta de fogo :  ‘Suas palavras queimavam como uma tocha ardente’ (Eclesiástico 48,1). A sua oração faz descer o fogo do céu para devorar o sacrifício preparado para o Senhor no Monte Carmelo, desafiando e desconfessando os profetas de Baal (1 Reis 18). No final da vida, será levado para o céu num carro de fogo.

É profeta de fogo porque o seu coração está ‘cheio de zelo pelo Senhor’, como ele repete por duas vezes na epifania de Deus no monte Sinai (1 Reis 18). Este zelo consome toda a sua vida e o seu ministério. Como Jesus. Também trouxe o fogo sobre a terra e o seu coração consumia-se pelo mesmo zelo :  ‘Eu vim trazer o fogo à terra e que quero eu senão que ele se acenda?’ (Lucas 12,49).

Em grego, a palavra ‘zelo’ tem a conotação de ‘fogo’.

Hoje falta tal fogo no coração do cristão. Onde foi parar a chama ateada pelo coração de Cristo? Abundam os corações apagados, cobertos de cinzas. Tudo se faz sem zelo e sem exaltação. Os nossos ideais não despertam entusiasmo, liquefeitos como são e versados em corações amorfos. Dir-se-ia que nos sentimos incapazes de nos enamorarmos, de nos apaixonarmos verdadeiramente, por uma pessoa ou por um ideal. Até desconfiamos e ficamos de pé atrás quando alguém defende um princípio com certa convicção ou manifesta um pouco mais de zelo no que faz. Não é ‘politicamente correto’, pode ‘ofender a sensibilidade’ dos outros. Impera o relativismo e, por conseguinte, a apatia.

Parece que o zelo hoje é mais característico das forças do mal. Basta pensar, por exemplo, no terrorismo e na sua energia destrutiva intensa, cheia de ódio e violência. Ou a manipulação aguerrida das consciências orquestrada por certos movimentos promotores daquela que João Paulo II apelidou de ‘cultura da morte’. Ou, ainda, o sistema econômico mundial, hoje patrão supremo, que com as suas ‘leis de mercado’ marginaliza populações inteiras, difundindo aquela que o Papa Francisco chama a ‘cultura do desperdício’.


  
À escola de Elias e de Jesus

Hoje temos necessidade de profetas de fogo e zelo como Elias, para testemunhar o Deus vivo e verdadeiro e promover a cultura da vida. Como obtê-los? Como despertar em nós o espírito de Elias? Como herdar uma sua ‘dupla porção’ como pedira o seu discípulo Eliseu? Frequentando a sua mesma escola :  retirando-se na solidão e convivendo com os pobres! Uma dupla escola. Como Jesus. Primeiro, no retiro de Nazaré e do deserto, para receber o ensinamento do Espírito e ser revestido pela sua força. Depois, convivendo com os pobres e a miséria do mundo para experimentar e receber a compaixão do Pai. E por isso proclamará na sinagoga de Nazaré :  ‘O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados, a pregar a liberdade aos cativos, a dar a vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar um ano de graça de Senhor’ (Lucas 4,18-9).


Enviado em retiro…

Se a estrutura de um edifício não é suportada por alicerces adequados, o prédio corre o risco de desmoronar-se. O mesmo acontece no caso da pessoa chamada a exercer um ministério na Igreja :  é preciso, antes de tudo, que tenha estado a sós com Deus e que as raízes da sua espiritualidade tenham chegado às águas profundas da contemplação. Caso contrário, será um propagador de ideias mas não uma testemunha. É necessário que o seu ouvido esteja habituado a ‘ouvir’, para que a língua seja capaz de ‘falar’. Sem tempos de deserto e solidão que favorecem o encontro com Deus na oração, não há profecia.

Por isso a primeira coisa que Deus faz com Elias é mandá-lo em retiro :  ‘Retira-te daqui, e vai para o oriente, e esconde-te junto ao ribeiro de Querite…’ (1 Reis 17,3). Saber ‘retirar-se’, ‘orientar’ a própria vida, ‘esconder-se’, eis o abc de todo discípulo. É o mesmo convite que Jesus nos dirige :  ‘Quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente’ (Mateus 6,6).

Só nessa escola conheceremos o nosso verdadeiro nome :  ‘Elias’ (Eli-Ya, ‘o meu Deus é Javé’) e aprenderemos a ‘estar continuamente na presença de Deus’ como Elias (cf. 1 Reis 17,1, 18,15). O testemunho da sua vida ajuda a compreender que a verdadeira tentação e o mal supremo não é o ateísmo, mas a idolatria. O ateísmo pode ser um grito de sofrimento e a dor de uma ausência. A idolatria, pelo contrário, transforma-se pouco a pouco num coma profundo, antecâmara da morte.


Enviado à periferia da cidade…

Da ‘periferia’ do seu retiro situado do ‘outro lado’, à ‘esquerda do Jordão’, Elias é enviado ao norte nas terras pagãs da rainha Jezabel, a uma outra periferia, a da cidade, a dos pobres e desfavorecidos :  ‘Vai imediatamente para a cidade de Sarepta de Sídon e fica por lá. Ordenei a uma viúva daquele lugar que te forneça comida’ (1 Reis 17,9). Partilhar a vida do pobre, regressando à essencialidade e simplicidade de estilo de vida, é o estágio do apóstolo. Trata-se de outro lugar privilegiado da Presença de Deus. Só lá se pode reconhecer o verdadeiro rosto de Deus, o do amor e da justiça. Duas faces inseparáveis. Deus que ama e restabelece a justiça, respondendo ao grito da viúva.

As muitas barreiras criadas pelas diferenças sociais, étnicas, religiosas… separam-nos não só dos ‘outros’ de diferente raça e cor, língua e cultura, mas também do ‘Outro’ que em todos se incarnou. Falta-nos a convivência com os ‘marginais’, embora nunca como hoje estiveram tão perto de nós. De aí a insistência do Papa Francisco a convidar os pastores da Igreja (mas não só eles!) a ir para as ‘periferias’.

Concluo com este seu fogoso apelo dirigido aos sacerdotes na Quinta-Feira Santa :  ‘O nosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando o Evangelho que pregamos chega ao seu dia-a-dia, quando escorre como o óleo de Aarão até às bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, ‘as periferias’ onde o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que querem saquear a sua fé. As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezamos a partir das realidades da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suas angústias e esperanças…

Quem não sai de si mesmo, em vez de ser mediador, torna-se pouco a pouco um intermediário, um gestor. A diferença é bem conhecida de todos :  o intermediário e o gestor ‘já receberam a sua recompensa’. É que, não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que nasce do coração; e daqui deriva precisamente a insatisfação de alguns, que acabam por viver tristes, padres tristes, e transformados numa espécie de colecionadores de antiguidades ou então de novidades, em vez de serem pastores com o ‘cheiro das ovelhas’ – isto vo-lo peço :  sede pastores com o ‘cheiro das ovelhas’!’’


Fonte  :
* Artigo na íntegra de http : //www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EFZlEkllpkKDBVZiDw
  

domingo, 6 de abril de 2014

São João Batista de la Salle, Presbítero

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Nasceu em Reims (França), em 1651. Ordenado sacerdote, dedicou-se principalmente à educação das crianças e à fundação de escolas para os pobres. Com os companheiros que o ajudavam em sua obra, fundou uma Congregação, por cuja subsistência teve que enfrentar muitas provações. Morreu em Rouen (França), em 1719


Ofício das Leituras

Segunda leitura
Das Meditações de São João Batista de la Salle, presbítero
(Meditatio 201)    (Séc. XVIII)

O amor de Deus nos impulsiona
Considerai o que diz o apóstolo Paulo, isto é, que Deus colocou na Igreja apóstolos, profetas e doutores; e chegareis à conclusão de que foi ele mesmo que vos colocou em vosso cargo. Sobre isto, o mesmo Apóstolo dá testemunho ao dizer que existem diversos ministérios e diversas atividades, mas em cada um deles é o mesmo Espírito Santo que se manifesta em vista do bem comum, ou seja, o bem da Igreja.

Não ponhais em dúvida, portanto, a graça que vos foi dada. Ensinar as crianças, anunciar-lhes o evangelho e educá-las no espírito da religião é um grande dom de Deus. Pois foi ele que vos chamou para tão santo ministério.

Por conseguinte, no vosso modo de ensinar, comportai-vos de tal modo que as crianças confiadas aos vossos cuidados vejam que exerceis vossa atividade como ministros de Deus, com caridade sincera e dedicação fraterna. Além disso, deveis pensar que no cumprimento do vosso dever sois não apenas ministros de Deus, mas também de Jesus Cristo e da Igreja.

É o que afirma São Paulo, quando exorta a todos que considerem como ministros de Cristo os que anunciam o evangelho, os que escrevem aquela carta ditada por Cristo, não com tinta mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra mas nas tábuas de carne do coração, que são os corações das crianças. É o amor de Deus que vos impulsiona, pois Jesus Cristo morreu por todos, de modo que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles. E assim, vossos discípulos, estimulados pelo vosso exemplo e solicitude, sintam que é Deus quem os exorta por vosso intermédio. Porque vós atuais como embaixadores de Cristo.

É necessário, além disso, que mostreis um grande amor à Igreja e lhe deis prova do vosso empenho. Pois trabalhais pela Igreja que é o corpo de Jesus Cristo. Demonstrai por vosso zelo que amais aqueles que Deus vos entregou, assim como Cristo ama a Igreja.

Esforçai-vos por que os vossos alunos cheguem realmente a fazer parte deste templo e se tornem dignos de um dia se apresentarem no tribunal de Jesus Cristo, gloriosos, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante. E que testemunhem às gerações futuras as transbordantes riquezas da graça eu Deus lhes concedeu por vosso intermédio. De fato, é o Senhor que lhes dá a graça de aprender a vós a de ensiná-los e educá-los, a fim de que recebam a herança do reino de Deus e de Jesus Cristo Nosso Senhor.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas II’, 1524, 1525