segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A estrela por descobrir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de A. Torres Neiva
 
‘Foi  num Capítulo Geral. O Capítulo Geral das estrelas. Num primeiro momento, como mandam os métodos mais modernos, cada uma foi contando a sua própria experiência, ou como se diz hoje, partilhando suas experiências mais significativas. O bem que fazia à humanidade, a sua contribuição para o desenvolvimento da ciência, seu papel na vida das pessoas...
Quem começou a falar foi o Sol. Nem precisava falar, pois todos conheciam a importância que a luz tem na sucessão dos dias e das noite, o calor no verão, o frio no inverno. Mas mesmo assim, o Sol não deixou por menos e lembrou a todas as estrelas o que elas já sabiam.
Depois foi a vez da estrela Polar. Também ela não foi modesta ao explicar como ajudava os navegantes a encontrar o norte e não se cansava de ensinar o caminho certo a quem tinha dúvidas.
Cruzeiro do Sul aproveitando a deixa, logo pediu a palavra e, se a estrela Polar era perita em ensinar os caminhos do norte, com os do sul era com ela. Não havia explorador austral, nem viajante do sul que não lhe apreciasse os préstimos. Uma estrela pouco conhecida, mas nem por isso mais discreta, contou como fora dela que Einstein se servira para confirmar a sua teoria da gravidade, quando ela passara por trás do sol, durante um eclipse.
 E assim, todas as outras estrelas falaram de seus méritos e das suas glórias, pois num Capítulo Geral, todas podem falar e contar o que quiserem. De resto, cada uma elogiava tanto a si própria que nem era fácil saber qual delas seria a melhor.
Todas não, pois havia uma, meio envergonhada e quase escondida, que se mantinha calada e sem nenhuma vontade de falar. É que não se lembrava realmente de nada para dizer. Não sabia de nenhum cientista que a tivesse descoberto ou de algum serviço prestado à humanidade. E foi isso mesmo que confessou, quando só faltava ela para falar e o seu nome estava ainda em aberto. Com franqueza disse não saber para que servia nem isso lhe preocupava.
Isto era uma vergonha! As outras olharam-se umas para as outras, escandalizadas com essa parasita que ocupava um posto inútil no firmamento e...puseram-se a rir. E depois das zombarias vieram as censuras e cobranças : se ela não servia para nada  que é que estava fazendo ali? Lugares como aquele eram só para quem tinha alguma luz para dar.
Mas ela, enquanto ouvia as reprimendas, começou a pensar : Não, até que sirvo para alguma coisa. Enquanto os homens não me descobrem, eles continuam à minha procura, têm consciencia de que ainda não sabem tudo e continuam a investigar. Eles não sabem para que eu sirvo, mas talvez já se tenham dado conta que há no firmamento algo que com a sua força de gravidade afeta a rota das outras estrelas. E isso faz com que eles se mantenham despertos e continuem a pesquisar.
As outras estrelas foram-se calando e ouvindo. E a estrela concluiu : será que a minha missão não é dizer aos homens que ainda não sabem tudo e que lhes falta ainda algo por descobrir?’
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Quantas estrelas não haverá por descobrir entre nós, em nossas comunidades e famílias! Jean Vanier diz que o que constrói a comunidade é o dom de cada um. E este dom não é tanto o serviço que se presta, a competência ou habilidade com que se desempenha um cargo, mas a luz que cada um tem. Há luzes que iluminam a partir de dentro e ninguém sabe de onde se origina. Às vezes é a delicadeza de um porteiro, a humildade de uma velhinha, o sorriso do jardineiro...
Não lhes perguntem o que fazem ou para que serve o que eles fazem, pois não saberiam responder. Mas, sem eles, ficaríamos às escuras.
Fonte :  
* Artigo publicado em Vida Consagrada, 198 – Janeiro 1998. Adaptado de Padre Adélio Torres Neiva, C. S. Sp. (missionário espiritano (+2010)). 
Revista Beneditina nrº 30, Novembro/Dezembro de 2008, editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais. 

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