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domingo, 12 de outubro de 2025

Grandes figuras da vida monástica - Viktor Josef Dammertz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

 Viktor Josef Dammertz (1929-2020)

*Artigo de Dom Cyrill Schäffer, OSB

Mosteiro de Santa Ottilien, Alemanha

 

‘Josef Dammertz nasceu no dia 8 de junho 1929 em Schaephuysen, no Baixo Reno. A família materna era dos Países Baixos. O pai, Wilhelm Dammertz cresceu numa quinta de Schaephuysen, até que, depois do seu casamento com Engelina Schepens, retomou uma mercearia que seu sogro, já falecido, tinha começado. Tiveram dois filhos, Josef e Marga.

Muito engajado na ação católica de juventude Neudeutschland aonde aprofundou sua fé e a arte de servir, Josef no fim dos estudos anunciou a seus pais que queria ser padre.

Foi assim que no segundo semestre de 1950 entrou no Collegium Borromaeum, o seminário da Diocese de Münster. Continuou seus estudos em Innsbruck, morando no colégio jesuíta Caniisianum. Na universidade pôde escutar professores conhecidos como Andreas Jungmann e Karl Rahner. Já em Innsbruck tinha conhecido, no terceiro ano de estudos, o mosteiro missionário de Sankt Ottilien na Baviera, e sentiu-se atraído pelo espírito de Igreja universal e a vida religiosa que aí reinava.

Josef Dammertz entrou, assim, em Sankt Ottilien no dia 12 de setembro de 1953, aonde recebeu o nome de Viktor, em memória do mártir paleocristão Victor de Xanten. Depois da sua primeira profissão, continuou os estudos de teologia na faculdade beneditina de Santo Anselmo em Roma, aonde se licenciou. Depois de ter terminado o percurso romano foi ordenado sacerdote em 1957. Seu lema como abade primaz exprime claramente sua visão de um sacerdócio de serviço : ‘Sacerdote de Jesus Cristo a serviço dos homens’.

Foi-lhe pedido que fizesse Direito Canônico, pois o abade Dom Suso precisava de um secretário que tivesse conhecimentos de direito canônico.  Doutorou-se ‘summa cum laude’, com uma tese sobre o ‘Direito constitucional das congregações monásticas beneditinas na história e no presente’. No fundo, com esta tese e levando em conta suas capacidades intelectuais, poderia ter entrado numa carreira acadêmica, mas nunca se pensou seriamente nisso.

No 6º Capítulo Geral de Sankt Ottilien, em 1960, P. Viktor foi chamado a ser secretário da Congregação, e o Arquiabade Suso nomeou-o, ao mesmo tempo, seu secretário pessoal. Mesmo se o cargo de secretário abacial é mais secundário, P. Viktor pôde exercer uma influência de moderador sobre o seu superior e equilibrar as tensões entre o arquiabade e a comunidade. Como especialista da Congregação em Direito Canônico, P. Viktor teve um papel essencial na revisão das Constituições dos Beneditinos Missionários, adotadas em 1970. Sua colaboração de consultor foi igualmente apreciada por outras Congregações beneditinas e não beneditinas. Participou também, de modo mais ou menos intensivo, na elaboração do direito próprio pós-conciliar de várias congregações beneditinas.

O arquiabade Suso teve de renunciar aos 65 anos, por causa de um câncer, no começo de 1975. Quando P. Viktor foi eleito seu sucessor, no dia 8 de janeiro de 1975, não foi uma grande surpresa.

Como novo abade do mosteiro, P. Viktor continuou a cuidar de seu predecessor, que tinha aguentado até à eleição, mas que veio a falecer alguns dias mais tarde, no dia 12 de fevereiro.

O arquiabade Dammertz escolheu como lema : ‘Iter para tutum’. Esta frase programática tirada do hino ‘Ave maris stella’ expressa por um lado sua piedade marial, mas também a consciência de viver em tempos de mudanças tumultuosas, durante os quais é preciso uma estrela que guia.

Assumindo suas funções, o arquiabade Viktor entrou numa grande rede de obrigações, e sobretudo de esperas. Tratava-se sobretudo de intervenções na diocese de Augsbourg quando das missas solenes, confirmações e manifestações de todo o tipo, no mosteiro e com seus numerosos anexos, como a escola, as paróquias, as cinco casas dependentes, as empresas e ateliers, e evidentemente, junto dos mosteiros da Congregação, que esperavam orientações da parte do Presidente da Congregação, sobretudo nas Igrejas jovens. O seu mandato de arquiabade só durou dois anos e oito meses, mas ele pôde contribuir para dar uma certa estabilidade à Congregação, no tempo pós-concílio. No seu próprio mosteiro ele pôde realizar a integração de um liceu (escola secundária) na rede escolar da diocese de Augsbourg, o que assegurou a perenidade da escola.

Em setembro 1977, o arquiabade participou do congresso dos abades da Confederação beneditina em Roma, aonde já era, há anos, secretário da Comissão Canónica, e tinha tido um papel determinante no refazer o direito próprio. Além da questão do futuro do Colégio de Santo Anselmo, o congresso também se debruçou sobre o novo direito religioso dos beneditinos. O arquiabade Viktor, como canonista, teve uma exposição inovadora sobre o assunto. Pouco depois, no dia 20 de setembro, o Abade Primaz Rembert Weakland surpreendeu os abades reunidos anunciando-lhes que acabava de ser nomeado arcebispo de Milwaukee, e que deixava as funções de Abade Primaz. Novas eleições foram imediatamente organizadas para encontrar um sucessor. A partir do dia 22 de setembro as vozes dos abades concentraram-se no arquiabade de Sankt Ottilien, que não somente estava à frente de um dos maiores mosteiros da ordem beneditina, mas tinha igualmente a competência em direito religioso, um assunto urgente. A comunidade de Sankt Ottilien foi avisada do que se passava em Roma. Mas quando o Prior Paulus Hörger enviou um fax em nome da comunidade ‘por favor, não aceite por nenhum pretexto’, o arquiabade já tinha respondido favoravelmente ao voto do Congresso dos abades e, deixava assim sua função de abade do mosteiro e de presidente da congregação de Sankt Ottilien.

Nos anos que se seguiram o Abade primaz Viktor conseguiu apaziguar as relações agitadas no seio do Colégio beneditino. Ele tinha a seu lado colaboradores altamente qualificados na pessoa do reitor Magnus Löhrer (1928-1999) e do Prior Gerhard Békès (1915-1999). Apesar do número de estudantes da Ordem ter baixado, a faculdade conheceu um período de prosperidade científica, graças a um certo número de professores de qualidade, que elaboraram juntos, entre outras, a obra de referência pós-conciliar ‘Mysterium Salutis’ (1965-1976).

O Abade Primaz deu muitas ajudas para a revisão necessária das Constituições da Congregação; participou na refundação do direito religioso e foi membro da Comissão para a interpretação autêntica do direito canónico. Depois de 14 anos passados à frente da Confederação Beneditina, foi reeleito duas vezes, o Abade Primaz Viktor visitou mais de 750 comunidades femininas e masculinas no mundo inteiro, em inúmeras viagens. Um dos pontos altos do seu mandato foi a organização do grande jubileu de São Bento em 1980, quando se celebraram os 1500 anos do nascimento do pai da Ordem Beneditina. Por esta ocasião 500 abades da família beneditina reuniram-se em Roma. Em Santo Anselmo, a biblioteca situada na antiga cripta da igreja abacial é a principal herança arquitetônica da atividade do Primaz.

Numa entrevista em 1992, expressou sua ideia do ministério dizendo que o abade Primaz deve promover nos mosteiros beneditinos a consciência que fazem parte de uma ‘grande comunidade mundial’. Face às forças centrífugas no seio da Ordem, o Abade Primaz tentou promover a unidade sem, no entanto, reduzir a diversidade legítima e vital no seio da Ordem. Seu serviço de mediação comportava também a construção de pontes entre as irmãs e as monjas da Ordem, que na conceção da época estavam separadas em mundos diferentes. No seus esforços de mediação o abade Primaz defendia o reconhecimento mútuo das opções beneditinas legítimas, que ele comparava a Marta e Maria. Sugeriu que os Secretariados separados para as monjas e para as irmãs, fossem reunidos, o que constituiu um passo importante no caminho atual ‘Communio Internationalis Benedictinarum’, a Comunhão Internacional das Beneditinas (CIB).

No Congresso dos Abades de 1992, o abade de Collegeville, Jerome Theisen (1930-1995) foi eleito para lhe suceder. Terminado o seu mandato em 20 de setembro 1992, o P. Dammertz tinha previsto retirar-se tranquilamente para o seu mosteiro, embora já se tivesse falado de uma nomeação para a Congregação para os Religiosos no Vaticano. Durante um retiro privado antes do Natal de 1992, o Núncio apostólico telefonou-lhe para lhe anunciar que o Papa João Paulo II o tinha nomeado 78º bispo de Augsbourg.

Na sua residência oficial, o palácio episcopal situado na frente da Catedral de Augsbourg, o bispo Viktor fez uma pequena comunidade doméstica com seu secretário Dr. Christian Hartl, sua irmã Marga e duas irmãs franciscanas de Maria Stern, com as quais celebrava a liturgia das Horas e a eucaristia. Ele próprio fala dessa casa como de um pequeno convento, e achava bom continuar um pouco a vida comunitária monástica no episcopado.

Entre os acontecimentos marcantes do seu mandato, convém citar alguns, importantes para o próprio bispo Viktor. Entre eles a assinatura da ‘Declaração comum sobre a doutrina da justificação’, no dia 31 de outubro 1999 em Augsbourg, o grande dia da fé por ocasião do ano santo 2000 no Rosenaustadion de Augsbourg e a canonização de Crescentia von Kaufbeuron em Roma, no dia 25 de novembro 2001, e, justo no fim do seu mandato, o ‘ano das vocações’, que proclamou em dezembro 2003 durante o qual devia-se rezar pelas vocações eclesiais, mas sobretudo descobrir cada caminho de vida como uma vocação e um dom. Como vemos nestes acontecimentos tão diversos o bispo Viktor podia e queria tocar diferentes registos, que englobavam tanto a piedade popular como os novos desenvolvimentos teológicos e eclesiásticos mundiais.

No dia dos seus 75 anos, 8 de junho 2004, o Papa João Paulo II aceitou seu pedido de demissão como bispo de Augsbourg, e o bispo emérito pôde se retirar para um lugar, que já era para ele um lugar de repouso familiar depois das férias : o convento das beneditinas e a Aldeia das crianças Santo Albano, aonde servia as irmãs como diretor espiritual. Sua irmã Marga, que já estava a seu lado como bispo, acompanhou-o. Muitos amigos e companheiros de caminhada visitaram-no nesse lugar, até que em janeiro 2015 uma fraqueza crescente, por causa da idade, o levou a mudar para a enfermaria de Sankt Ottilien. Lá, na grande sala de estar, podia-se visitá-lo, junto a uma pilha de livros e de revistas.

Um súbito declínio das forças não lhe permitiu estar presente na ordenação episcopal de seu segundo sucessor, e depois de alguns dias de fraqueza crescente, despediu-se em plena consciência. O funeral na catedral de Augsbourg foi presidido pelo cardeal Reinhard Marx, e seu sucessor Bertram Meier fez a homilia. O seu corpo repousa na cripta da catedral.

Depois desta resenha biográfica, é bom agora examinar mais de perto a marca beneditina do bispo religioso. Quando de uma primeira entrevista ao novo bispo, perguntaram-lhe, de forma um pouco provocadora, se o mundo monástico fechado era uma preparação útil para as muitas responsabilidades de um bispo. Ele reconheceu que o espaço monástico era, de fato, muito diferente da pastoral diocesana. Mas havia a vantagens ligadas à experiência. Entre as vantagens o bispo citava a importância do aprofundamento espiritual para o futuro da Igreja, e a apreciação da diversidade na unidade, pois isso exige aceitação mútua e diálogo. No final do seu mandato, o bispo Viktor sublinhou estas vantagens ainda de um modo mais marcante :

‘A vida monástica segundo a Regra de São Bento marcou-me profundamente, e os valores e atitudes fundamentais que me foram transmitidos me ajudaram como bispo. A imagem que São Bento dá do abade pode facilmente ser adaptada ao bispo. A procura de um equilíbrio entre ora et labora, entre oração e trabalho é também um desafio permanente para o bispo (…) A virtude da sábia moderação, que São Bento chama de discretio, e que considera a mãe de todas as virtudes (RB 64, 19) ajuda o bispo a não procurar soluções para os problemas com posições extremas’.

Com base na imagem beneditina do abade, Viktor-Joseph pôde estabelecer um pequeno espelho episcopal beneditino, e até viu que a direção de uma paróquia não se afastava assim tanto da de um mosteiro, nas questões fundamentais.

A linha de conduta do bispo, sempre centrada na mediação, criou um certo número de descontentes, que achavam que faltava energia e decisão. Mas no conjunto, o porta voz do Conselho presbiteral de Augsbourg resume assim : ‘A vida segundo a sábia Regra de São Bento do bispo Viktor, é para nós um exemplo e um encorajamento, particularmente no que diz respeito à espiritualidade e ao estilo de direção.’

Gostaria, na continuação, de retomar esta apreciação, pondo-a em questão : alguém com um cargo beneditino, no séc. XX e XXI, segue efetivamente as diretrizes da Regra de São Bento? Onde começa o vasto espaço de uma reapropriação criativa e pessoal?

O bispo Viktor falava do seu ministério assim :

‘Uma das tarefas mais importantes de um abade, é preservar, promover e recriar, sem cessar a unidade da comunidade, apesar de todas as oposições. Isto não é menos verdadeiro para um bispo diocesano numa Igreja, que sofre cada vez mais polarizações. Os diferentes grupos acusam-se rapidamente uns aos outros de não serem mais ‘católicos’, ou de formar uma seita. O papel do bispo é excluir excessos dos dois lados, mas quanto ao resto, é manter juntos na unidade eclesial os grupos que derivam, e esforçar-se por ser, sem cessar, um mediador’.

Podem-se deduzir duas coisas desta declaração. Por um lado, para descrever a direção eclesial o bispo Viktor recorre à imagem beneditina do abade no cap. 2 da Regra, segundo a qual o responsável de uma comunidade deve ‘servir aos temperamentos de muitos’ (RB 2,31). Por outro lado, alarga a consideração sábia da diversidade humana com a aspiração fundamental pela unidade e pela mediação, quer seja nas comunidades monásticas, ou na Igreja local e universal. Mesmo que isso corresponda à atitude beneditina, um tal serviço pela paz não se encontra explicitamente na regra de São Bento.

Um outro traço marcante do bispo Viktor Joseph, que se elogia regularmente, era a sua capacidade de ‘trabalhar em equipe’. As pessoas implicadas sublinham sua capacidade de escuta, a paciência e o tempo que dava aos outros. Podiam assim explicar seu ponto de vista e sentir a estima, mesmo em casos de divergências persistentes. É conhecido que a regra beneditina começa com um convite à escuta. Recomenda que o monge escute as palavras do mestre, quer dizer as palavras do Cristo e se abra a elas (RB Prol. 1). Em continuação deste princípio de base, o abade é convidado a ‘escutar o conselho dos irmãos’ RB 3, 2. Depois diz-se, contudo, que é ele quem decide o que é justo. Deve-se ver, assim, que a regra de São Bento contem certos traços de uma tomada de decisão democrática, mas que o modelo fica essencialmente uma monarquia. As restrições atuais do poder abacial por meio do Capítulo e por meio do Conselho são desenvolvimentos ulteriores. As representações da procura da verdade por meio do diálogo, que nos parecem evidentes, não correspondem aos reflexos do monaquismo primitivo.

Estas breves reflexões não visam contestar a inegável marca beneditina do estilo de vida e da direção do bispo Viktor Joseph, que, aliás, ele mesmo sublinhou. Querem, no entanto, convidar a usar de forma refletida a fórmula muitas vezes usada de ‘espiritualidade beneditina’. A Regra de São Bento oferece possibilidades de interpretação quase ilimitadas. Os meios tradicionalistas e integristas referem-se a ela, tanto quanto os cristãos liberais e abertos ao diálogo. No caso do bispo Viktor, trata-se antes de mais de um modo muito pessoal de pôr em prática o carisma beneditino, que vinha do seu caráter, de sua experiência de vida e de sabedoria. Talvez tenha mais a ver com Viktor Dammertz do que com São Bento. Talvez mais de acordo com a tradição beneditina, o bispo Viktor gostava de caracterizar esta tradição com a expressão ‘diversidade na unidade’. As duas são importantes, a diversidade e a unidade, mas como sublinha Viktor Dammertz, pondo a diversidade na frente : a diversidade tem uma pequena prioridade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/122

quarta-feira, 31 de março de 2021

Um Jesus para chamar de seu

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘A qual Jesus seguimos? Essa pergunta pode parecer um tanto quanto sem sentido. Afinal, qualquer pessoa que se diz cristã tende a afirmar que segue ao Jesus que foi considerado Cristo no Novo Testamento, o Filho de Deus, crucificado e ressuscitado pelo Pai no terceiro dia.

Dogmaticamente, a resposta está corretíssima. Mas, será que o seguimento que se faz é desse Jesus que foi crucificado e ressuscitado, que andou por toda parte fazendo o bem e libertando os que eram oprimidos pelo diabo, como afirma Pedro no livro de Atos, ou de um Jesus que foi transformado num senhor que está acima de todos e, portanto, condena aos que não o obedecem? Ou ainda, alguma outra modalidade de Jesus que se adequa melhor aos anseios de cada um?

Ao longo da história do cristianismo, diversas imagens de Jesus foram criadas. Com o passar do tempo, quanto mais afastado do contato real com a personagem histórica Jesus de Nazaré, ou até mesmo com os apóstolos que viveram com Jesus, mais essa imagem foi sendo distorcida, chegando a um ponto, principalmente no século 18, de se desconfiar do que era falado de Jesus pela Igreja, uma vez que tal discurso não se coadunava com os Evangelhos. As buscas do Jesus histórico começam de maneira mais sistemática com os trabalhos de Reimarus a partir dessa inquietação.

Ainda em nossos dias é possível perceber que são diversas as imagens de Jesus. Há um leque de possibilidades para que cada pessoa escolha qual Jesus deseja seguir. Bem na linha de um capitalismo feroz, também o seguimento de Jesus entrou em oferta. Há um Jesus próprio para cada pessoa, que se adequa perfeitamente ao tipo de vida que tal pessoa deseja ter.

Se determinada pessoa acredita que não há nenhum problema em acumular diversas riquezas na terra, não se importando com seu próximo, ou até mesmo, sonegando imposto, desobedecendo as leis, a fim de lucrar mais, há diversos discursos que se dizem cristãos que adequam Jesus a esse tipo de pessoa. Basta olhar os teólogos e teólogas da prosperidade, que justificam os resultados financeiros desses tipos de conduta como sendo a benção de Deus que alcança os que devolvem o dízimo.

Ainda, se determinada pessoa deseja um Jesus miliciano, que toma em armas, incentiva que elas sejam usadas para ‘promover segurança’, destrua terreiros e lugares de cultos de religiões de matrizes africanas por considerar ‘lugares satânicos’, também essa pessoa encontrará uma teologia que atenda a isso. Basta olhar a modalidade dos traficantes evangélicos, ou dos milicianos que se batizam no Jordão, ou de pastores que chamam jovens para ‘fazer a obra do Senhor’ contra os terreiros, ou ainda, aqueles e aquelas que pegam o texto que Jesus fala para pegar uma espada e usa isso como justificativa para armar a população.

Esses pequenos exemplos mostram que é possível falar que se segue a Jesus de Nazaré sendo que, na verdade, somente o adequa ao modo de vida que se deseja ter. No entanto, se voltarmos aos Evangelhos, em sua mensagem central (porque, nesse caso, mesmo apresentando perspectivas diferentes, todos são unânimes no ponto central da mensagem de Jesus) percebermos que não é Jesus que se adequava ao modo de vida dos que vinham a ele, mas era demandado do que desejava segui-lo que se adequasse ao modo de vida de Jesus.

Que modo de vida era esse? Do amor ao próximo, da busca do bem, da não violência, da abertura ao diferente, da não perseguição aos que criam de outra maneira, da não hipocrisia etc. Em outras palavras, o modo de vida de Jesus era o amor sem medida que leva, necessariamente, à denúncia das estruturas de morte que persistem na sociedade, e não raras as vezes, à morte daqueles e daquelas que lutam pela justiça. A crucificação de Jesus, portanto, é resultado de sua vida de amor e luta contra um Império opressor. Como consequência, morreu como bandido aos olhos desse Império. Deus, porém, o ressuscitou dentre os mortos, confirmando que a morte não tem a última palavra, ao mesmo tempo, confirmando que a vida de Jesus é a vida desejada por Deus para nós.

Diante disso, a pergunta : ‘a qual Jesus seguimos?’ deve ser respondida diariamente. Se simplesmente adequamos Jesus ao nosso modo de vida, então não somos nós que o seguimos, mas ele que nos segue.

Seguir a Jesus não é o pertencimento a um clube, mas um compromisso de vida de denunciar e lutar contra as estruturas de morte que persistem em nosso mundo. Sem isso, Jesus se tornou somente mais um produto, dentre tantos que consumimos atualmente.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1507659/2021/03/um-jesus-para-chamar-de-seu/

terça-feira, 23 de junho de 2020

“Situação no Norte de Moçambique é uma catástrofe sem fim à vista”, denuncia missionário

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 P. Alberto Tchindemba com os deslocados pelos ataques armados no norte de Moçambique

Padre Alberto Tchindemba com os deslocados pelos ataques armados no norte de Moçambique 

*Artigo do Padre Tony Neves, Espiritano


O norte de Moçambique está a ferro e fogo. É uma catástrofe sem fim à vista, que se vem abatendo já há algum tempo sobre populações indefesas e que ninguém parece querer defender.

 

‘O Missionário Espiritano fala também daqueles que, como o Bispo da Diocese, D. Luiz Fernando Lisboa, têm tido a coragem de denunciar e anunciar o advento de tempos melhores. D. Luiz Fernando Lisboa, ‘o corajoso Bispo de Pemba’, tem sido a voz mais amplificada, a partir das aldeias e vilas daquele norte invadido por forças que se atribuem ao auto-proclamado Estado Islâmico que mais não têm feito, por onde passam, que matar, destruir, raptar e queimar, semeando o pânico, refere o sacerdote. Pelas suas intervenções corajosas, no terreno e pela mídia, D. Luiz tem feito ecoar os seus gritos pelo mundo inteiro, reitera o Padre Tony Neves.

 Solidariedade dos Bispos

 Os Bispos de Moçambique, reunidos em Assembleia, denunciaram ‘o recrudescimento dos ataques no norte do país’ e mostraram uma comunhão total com as populações de Cabo Delgado. No Comunicado Final, datado 13 de junho, os Bispos deploram ‘os atos de barbárie’ ali praticados.

 Também enviaram uma Carta às populações de Cabo Delgado, elogiando a missão do Bispo, D. Luiz, que tem sido ‘a voz do Pastor que alerta sobre a presença de lobos que põem em perigo o rebanho’… e ‘é o grande promotor de uma resposta urgente a esta tragédia’.

 Deslocados em Pemba, Nacala e Nampula

 Felizmente, prossegue o sacerdote, a mídia mídia portuguesa tem amplificado estas vozes de denúncia da tragédia vivida por um povo pobre que, nesta altura, anda por aí à deriva e à fome, sendo já alguns milhares os deslocados, em Pemba, Nacala e Nampula, segundo notícias fidedignas que chegam daquelas paragens. É importante não dar descanso midiático a estes senhores da violência e da morte, com as suas agendas escondidas, exorta Tony Neves.

 Atrás do gás com conivência de autoridades locais

 Dizem alguns analistas que este grupo fundamentalista armado vem atrás do gás que é riqueza a explorar naquele norte de Moçambique. E, pelo que se vai sabendo, há autoridades locais coniventes, a fazer o jogo destes bandos armados, contrariando as políticas oficiais do governo moçambicano.

 Apelos do Papa Francisco pela paz na região

 O Papa Francisco tem multiplicado apelos pela paz naquela região, tendo já citado este caso particular numa das suas intervenções públicas no Vaticano. Agora foi a vez de António Guterres, Secretário-Geral da ONU, a falar com o presidente de Moçambique para estudar formas de resolver a situação ou, pelo menos, minorar os efeitos dramáticos destes ataques, apoiando as populações em fuga.

 Dezenas de mortos, aldeias e conventos destruídos

 O símbolo mais terrível dos ataques destes bandos armados é a povoação de Macomia que foi totalmente destruída, tendo parte da população conseguido fugir. Os conventos das Irmãs Carmelitas e dos Beneditinos também foram atacados, podendo os religiosos fugir a tempo, antes de serem maltratados.

 Igualmente de arrepiar são as descrições do massacre feito em abril na aldeia de Xitati, onde foram mortos 52 jovens e boa parte dos moradores torturados. Segundo testemunhas, os grupos armados queriam recrutar jovens para as suas fileiras e decapitaram ou mataram aqueles que tentaram resistir. Jovens de Cabo Delgado acabariam por escrever uma carta aberta ao presidente da República, fazendo denúncias muito graves sobre a situação.

 Guerra civil, pobreza, abandono, calamidades ...

 A vida destes moçambicanos do norte já estava complicada há muitos anos. Primeiro, pela guerra civil; depois pela pobreza e abandono a que sempre foram votados pelo governo central; a cólera tem feito muitas vítimas; no ano passado, veio o furacão Keneth que quase tudo levou; e, nos últimos anos, estes grupos armados; finalmente, os ataques da Covid 19, ainda com resultados difíceis de calcular! São muitos dramas juntos …

 Acompanho de perto, com preocupação e dor, o que ali se passa, através dos Espiritanos que vivem em Missões nas Dioceses vizinhas de Nampula e Nacala que estão a receber deslocados e a viver nestes contextos de grande instabilidade. As conversas que vou mantendo com eles mostram a sua dedicação total ao povo, mas muita incapacidade de resolver os problemas dramáticos que vitimam estas populações indefesas.

 Apoio de missionários

 O P. Alberto Tchindemba, Superior dos Espiritanos de Moçambique, faz parte de uma equipe missionária que o Arcebispo de Nampula nomeou para apoiar os deslocados que chegam a esta capital de Província e engrossam as já grandes famílias, bem como aumentam os problemas acrescentados pela chegada da Covido-19. Confessa que as distribuições de bens de primeira necessidade nunca chegam para todos os necessitados e teme que a pandemia se aproveite destes ajuntamentos familiares enormes para multiplicar contágios e semear morte, sobretudo nas imensas e pobres periferias desta grande cidade.

 O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades publicou o número oficial de deslocados que chegaram à Província de Nampula : ao todo, 2228, espalhados por sete distritos! Também na Diocese de Nacala, o Secretariado de Pastoral, coordenado pelo P. Raul Viana, está a trabalhar neste apoio aos deslocados.

 Devemos gritar alto contra violações de direitos humanos

 Não podemos cruzar os braços. Temos que gritar alto contra estas violações frontais dos direitos humanos. E mais : temos de ser solidários e partilhar o que temos para que estes pobres sobrevivam e abram caminhos de esperança rumo a um futuro de paz e de justiça.’


Fonte : *Artigo na íntegra https://www.vaticannews.va/pt/africa/news/2020-06/situacao-no-norte-de-mocambique-e-uma-catastrofe-sem-fim-a-vist.html


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Católicos escreveram uma história secreta durante a epidemia da Aids


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Estudantes de enfermagem cuidam de um paciente na enfermaria de HIV e Aids do Hospital Saint Vincent, na década de 1980.
Estudantes de enfermagem cuidam de um paciente na enfermaria de HIV e Aids do Hospital Saint Vincent, na década de 1980.
(Arquivo/ Sisters of Charity of New York)

*Artigo de Michael J. O'Loughlin,
correspondente da America Magazine
Tradução : Ramón Lara


‘Uma mãe de cinco crianças precisava de ajuda para ir a várias consultas médicas, organizar seus medicamentos, arranjar transporte e completar os muitos outros desafios do dia-a-dia que enfrentam as pessoas com HIV e Aids nos primeiros anos da epidemia. Julie Driscoll, freira da congregação das Irmãs da Caridade de Nazaré, lembra-se desta mulher em particular, porque, mesmo diante do medo e da incerteza que acompanhavam o diagnóstico, ela aprendeu uma lição sobre gratidão.

‘No final, quando perguntávamos : ‘Winnie, como você está?', ela sempre respondia : ‘Sou abençoada’, recordou recentemente a irmã Driscoll. ‘Vocês podem imaginar?’

Nos últimos anos, pesquisei como a Igreja Católica, tanto a instituição quanto os fiéis, responderam ao intenso sofrimento dos mais marginalizados durante a crise da Aids nos Estados Unidos. Para aqueles de nós que são muito jovens para lembrar, o escopo desse sofrimento pode ser difícil de compreender. De acordo com o grupo de pesquisa sobre a AIDS da agência amfAR, mais de 319.000 pessoas nos Estados Unidos morreram de complicações relacionadas com o HIV e a Aids entre 1981 e 1995.

‘As pessoas estavam desesperadas. Seus amigos estavam morrendo a cada semana’, lembra Andy Humm, ativista dos direitos dos gays e jornalista.

Muitas pessoas, entre elas alguns padres católicos, irmãs e irmãos religiosos e leigos enfrentaram o estigma perpetuado em quase todos os setores da sociedade, incluindo a Igreja, respondendo pastoralmente ao HIV e à epidemia de Aids nos primeiros anos. A irmã Driscoll estava entre eles.

De 1993 a 2003, Driscoll foi diretora executiva da Casa de Rute (House of Ruth), um centro de serviços sociais em Louisville, Kentucky, fundado em 1992 por um punhado de outras religiosas e seus amigos.

Em seus primeiros dias, a Casa de Rute não era exatamente uma ‘casa’, mas duas salas em um centro paroquial. Era um espaço para pessoas que lidavam com o HIV e a Aids, em sua maioria mulheres e seus filhos, que ficavam na Casa de Rute para assistência. Às vezes, precisavam de ajuda para encontrar um médico disposto a tratá-los – essa era uma época em que até mesmo alguns profissionais de saúde não tocavam em pacientes com HIV ou Aids. Às vezes, simplesmente pediam o necessário, apenas alguns dólares para a passagem de ônibus para que pudessem fazer alguns trabalhos informais. Eles também procuraram garantias de que não estavam sozinhos.

‘As pessoas frequentemente me perguntavam, o que deveriam fazer se conhecessem alguém que tem HIV?’ A irmã Driscoll relembrou seus esforços na educação comunitária. Sua resposta foi : ‘Toque-os por favor. Abrace-os se puder’.

Hoje, a Casa de Rute é um centro de acolhimento e serviços sociais que atende mais de 600 pessoas por ano (Estima-se que cerca de 6.600 pessoas em Kentucky vivem com HIV). É um dos maiores centros do seu tipo no estado, que já experimentou uma onda de diagnósticos de novas infecções por HIV nos últimos anos.

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Hoje, os desafios permanecem na erradicação do HIV, mas um diagnóstico não é mais uma sentença de morte. Muitos medicamentos estão disponíveis tanto para diminuir a transmissão de HIV, como para retardar ou eliminar o progresso da HIV à Aids.

Então, por que estou entrevistando dezenas de pessoas sobre eventos há 30 anos, pedindo-lhes para descrever momentos marcados por tristeza, medo e ansiedade? Já faz décadas desde que muitos deles pensaram sobre essas experiências. Tenho notado que, muitas vezes, quando encerro essas conversas, a pessoa que estou entrevistando dize algo como : ‘Espero que tenha sido útil. Há tanta coisa que não me lembro’.

E às vezes eles voltam algumas semanas depois, para compartilhar outras histórias.

Essas pessoas podem ter vasculhado seus arquivos pessoais ou contatado um amigo ou ex-colega. Eles agora têm mais a me dizer. Em conversas subsequentes, tornam as vidas de seus amigos perdidos mais vivas, recontando peculiaridades de personalidade ou jantares memoráveis. Eles também articulam mais claramente sua tristeza e se lembram de seus sentimentos de desamparo.

Esses encontros estão sempre em movimento, mas eu os procuro por razões mais importantes do que simplesmente querer aprender sobre o passado.

Primeiro, muitas dessas histórias de pessoas comuns que respondem ao sofrimento de maneira extraordinária ainda não foram capturadas em formas que durarão. Dado que o primeiro caso do que se tornaria conhecido como a Aids foi relatado em 1981, quase quatro décadas atrás, muitas das pessoas que estavam na linha de frente estão agora na velhice. O tempo não está do nosso lado.

Segundo, o relacionamento da Igreja institucional com as pessoas LGBT hoje é tenso. Mas há exemplos históricos de bondade entre católicos e pessoas LGBT durante a epidemia que podem ser úteis à medida que navegamos em grandes mudanças sociais.

Muitas pessoas na minha geração - eu tenho mais de 30 anos - deixaram a Igreja por causa da percepção de hostilidade de alguns líderes eclesiais em relação àqueles com sexualidades não normativas. Pessoas mais jovens que eu muitas vezes olham para o passado da Igreja quando tentam ordenar suas vidas por razões semelhantes.

O HIV e a Aids afetaram mais pessoas do que a comunidade gay. Mas eu me concentro na relação entre a comunidade gay e a Igreja naquela época porque fornece histórias previamente desconhecidas de católicos que superam viver o viés social. Estou ansioso para ouvir e busco ajudar a compartilhar suas histórias de coragem silenciosa.

Tome Michael Carnevale, OFM, um frade franciscano que por muitos anos ministrou na Igreja de São Francisco de Assis, uma grande paróquia do lado da Estação Pensilvânia, em Nova York.

Durante um período sabático no início dos anos 80, o padre Carnevale vivia na área da baía de San Francisco. Ele fez amizade com um homem chamado Michael e seu parceiro, Donald. Michael, um artista cujo amor pela vida se manifestou nas festas a fantasia épicas que hospedou, ficou doente. Ele viveu com HIV por cerca de três anos. Durante esse período, o padre Carnevale passou os finais de semana com seus amigos, ajudando Michael durante seu processo de enfraquecimento.

Na noite de Halloween de 1983, Michael morreu. Estava cercado por cerca de 30 amigos, cada um vestindo um traje para uma última festa. O padre Carnevale estava entre eles. Movido pelo sofrimento de seu amigo, decidiu fazer mais. Ele se voluntariou como capelão no Hospital Geral de São Francisco, visitando os homens, em sua maioria gays, que estavam passando seus últimos dias em uma enfermaria para pessoas com HIV e Aids. Ele rapidamente chegou a entender que esses homens precisavam de mais do que cuidados médicos. Precisavam saber que as pessoas se importavam com eles.

‘Naquela época, a Igreja não estava realmente envolvida’, recordou o padre Carnevale em uma entrevista em 2017. Ele sabia que havia uma necessidade, mas não tinha certeza de quem poderia ajudar. Sua mente se voltou para um grupo de ‘velhas senhoras italianas’ que se reuniam regularmente na Paróquia da Missão das Dores, em San Francisco. Carnevale perguntou se poderia se juntar ao grupo e eles concordaram.

‘Eu lhes falei da necessidade que tínhamos, que jovens homens e mulheres[com HIV e Aids] estavam [sozinhos] em seus apartamentos e realmente não tinham ninguém para cuidar deles’, disse o padre.

Ele perguntou se algumas mulheres considerariam ser voluntárias.

‘Eu não sabia que tipo de resposta receberia, mas foi incrível’, disse Carnevale. ‘Elas iam, limpavam e cozinhavam. Algumas delas levavam alguns dos rapazes e garotas para os atendimentos médicos porque não tinham ninguém que cuidasse deles’.

Refeições caseiras, apartamentos limpos e passeios podem parecer insuficientes num momento em que as comunidades mais afetadas pelo HIV e Aids exigia uma mudança sistêmica - nos serviços de saúde, governo, instituições religiosas e quase todos os outros setores da sociedade. A Igreja dificilmente não tem culpa quando se trata de criar uma cultura de medo e julgamento em torno do HIV e Aids. Mas para aqueles que se sentiam abandonados e sozinhos, esses atos de bondade eram mais do que gestos. Eles eram linhas de vida para o mundo exterior.

Era impossível para qualquer um que ficasse vivo na época, não sentir visceralmente o medo que permeava as comunidades devastadas pelo HIV e Aids nos primeiros dias. Era impossível não compreender o abandono e isolamento que muitos indivíduos experimentaram em seus últimos dias. Mas sentei-me em silêncio com homens que, décadas depois, choram ao relatar todos os amigos que perderam em apenas alguns anos. De fato, tenho admirado as irmãs católicas, agora com seus 70 e 80 anos, que se emocionam com minha sugestão de que seu trabalho foi extraordinário, e ainda heroico.

‘Não se trata de um bando de mártires nesse período. Realmente não é’, diz Pascal Conforti, uma irmã ursulina. A irmã Conforti era a diretora de serviços pastorais do antigo Hospital St. Clare, no bairro Hell's Kitchen, em Nova York. Antes de fechar em 2007, St. Clare's serviu a um grande número de pacientes com HIV e Aids. ‘Fizemos o que fizemos porque era onde estávamos no momento’.

Embora a maioria das pessoas que entrevistei resista ao elogio, um olhar reflexivo desta vez na história mostra que cada resposta diferente ao HIV e à epidemia de Aids durante os primeiros anos foi, de fato, extraordinária.

Algumas pessoas, incluindo católicos, tornaram a vida mais difícil para os mais vulneráveis. A grande maioria dos americanos não fez nada. Contudo, mais do que algumas poucas pessoas, muitos ofereceram um toque gentil, livre de julgamento e desprezo. Estas são apenas algumas histórias. Muitas outras pessoas compartilharam seus testemunhos comigo e continuo procurando ouvir mais, porque incorporar essas histórias pode ser um testemunho duradouro do poder do chamado de Jesus de amar uns aos outros.

Se você tem histórias dos primeiros anos da epidemia de HIV e Aids que você gostaria de compartilhar, por favor envie um email para o autor em oloughlin@americamedia.org.’


Fonte :

domingo, 26 de maio de 2019

Freira franciscana resgata crianças afetadas pelo HIV/Aids no Quênia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Ir. Lilly Manavalan, da congregação franciscana, na clínica St. Clare, no norte do Quênia, em 1º de maio
*Artigo de Doreen Ajiambo
Tradução : Ramón Lara


‘Quando o sol nasce nessa remota região do norte do Quênia às 6 da manhã, é um novo amanhecer para a missionária irmã Lilly Manavalan. Seu dia começa com uma caminhada de mais de uma hora através de um vale profundo para chegar às ruas onde encontra crianças vulneráveis vivendo com HIV.

Em um dia normal, ela leva duas crianças, filhos que perderam seus pais e estão infectados com o vírus para o Centro Santa Clara para Meninas em Nchiru, no Quênia, onde a religiosa oferece um lar com amor e um futuro promissor enquanto vivem o convite para um novo começo em Cristo.

‘Esta é minha paixão e realmente gosto de estar com os pobres’, disse a freira franciscana. ‘Sinto-me muito feliz e satisfeita quando ajudo os pobres, especialmente aqueles que sofrem de HIV/AIDS’.

Manavalan, que é do estado de Kerala, no sudoeste da costa de Malabar, na Índia, é enfermeira no Centro Santa Clara. Com muita paixão e resiliência, ela ajuda as pessoas pobres, muitas vivendo com o HIV. Também desenvolveu o desejo de trabalhar no norte do Quênia, depois que sua colega informou que muitas pessoas nesta parte do mundo não tinham conhecimento sobre HIV, AIDS ou saúde sexual, disse ela.

O Índice de Estigma e Discriminação para o HIV e a AIDS em 2014, do Nordeste da África, mostra que 98% das pessoas vivendo com HIV nessa região não têm laços estreitos com suas famílias. O relatório também indica que 83% dos moradores acreditam que as pessoas que são soropositivas são punidas por Deus por mau comportamento, enquanto 72% acreditam que o vírus é disseminado por profissionais do sexo.

Manavalan veio a Samburu em 2009 especificamente para ajudar aqueles que sofrem de preconceito relacionado ao HIV/AIDS.

‘Eu me comprometi a lutar para superar o estigma e a discriminação’, disse Manavalan. ‘Percebi que muitos não sabem como o HIV é disseminado e não acreditam que estão em risco. Outros não querem nem conviver com qualquer pessoa que viva com o vírus’.

Moradores da tribo Samburu - geralmente vivendo em grupos de cinco a 10 famílias, acreditam que o HIV não pertence a eles, mas a comunidades externas. Os moradores consideram pessoas com HIV/AIDS amaldiçoadas, pecadoras e entre os mortos-vivos.

Recentemente, um grupo de homens e mulheres bem-vestidos nas ruas empoeiradas foi ouvido usando frases ásperas para se referir às pessoas que vivem com o vírus, afastando-se deles.

‘O HIV não é a nossa doença, é a doença do povo urbano’, disse John Lepariyo, 60 anos, com voz baixa e profunda. ‘As pessoas que sofrem de tal tipo de doença são consideradas amaldiçoadas e tentamos separá-las de outros membros da comunidade porque tememos que elas possam disseminar o vírus.’

O povo samburu é pastoralista e seminômade, cujas vidas se centram no gado, cabras, ovelhas e camelos. As pessoas desta região estão fortemente enraizadas em sua cultura, normas, crenças e valores. Como resultado, algumas pessoas infectadas, especialmente crianças, foram abandonadas por suas famílias e comunidades nas ruas e deixadas para morrer. Outros temem ir para o atendimento médico nos postos de saúde próximos devido à discriminação.

Manavalan disse que oferece às crianças uma dieta nutritiva para impulsionar seu sistema imunológico, educação e os medicamentos necessários para combater o vírus.

‘Damos a eles o melhor alojamento, remédios e tratamento gratuito’, disse Manavalan. ‘Também aconselhamos e ensinamos essas crianças o catecismo. Queremos que saibam que Deus pertence a todos nós, ainda nessa condição’.

A abordagem mudou a vida de muitas crianças que foram falsamente acusadas de espalhar o vírus mortal para quem tentar ajudá-las, disse ela.

Joyce, de dezesseis anos de idade (nome fictício) é uma das garotas resgatadas por Manavalan das ruas. Ela foi expulsa em sua aldeia depois que os idosos descobriram que ela era HIV positiva. A razão da sua expulsão da aldeia foi, segundo eles, por medo de infectar outras pessoas com o vírus.

Deprimida e sem ter para onde ir, procurou refúgio nas ruas antes de ser resgatada e levada para o centro dirigido pelas irmãs da Índia. O centro atende mais de 500 crianças.

‘Eu me senti tão deprimida, tão de coração partido e fora deste mundo’, disse Joyce, que foi resgatada em Wamba, uma aldeia na região de Samburu. ‘Minha mãe e todos me deixaram porque eu era HIV positivo. Um amigo começou a contar a minha história para os meus colegas e eu comecei a me sentir solitária e isolada. As pessoas pararam de estar comigo’.

Hoje, três anos depois que Joyce foi resgatada, as lembranças de seu tempo na aldeia e nas ruas ainda estão frescas em sua mente. No entanto, graças a Manavalan, Joyce é feliz, encontra-se saudável e está indo muito bem na escola.

‘Agora me sinto tão amada e cuidada’, disse ela. ‘Quando eu terminar o ensino médio, vou para a faculdade, depois volto para o trabalho no centro e ajudo as crianças que vivem com HIV. Eu aconselho as pessoas com a mesma condição a aceitarem seu status e serem apenas elas mesmas’.

Martha (nome fictício) foi resgatada há cinco anos por Manavalan, depois de ser expulsa de sua aldeia e deixada para morrer na rua.

‘Eu estava muito desnutrida quando fui trazida para este centro’, disse a jovem de 14 anos de Archers Post, uma pequena cidade no noroeste do Quênia. ‘Estava esperando a morte porque já tinha perdido a esperança na vida. A irmã Lilly me levou para o hospital e foi quando recebi medicamentos e tratamento. Agora estou feliz e quero me tornar enfermeira quando terminar o ensino médio’.

O padre Francis Riwa, fundador do centro de resgate, dirige o centro, a clínica e as equipes com a irmã Manavalan, para resgatar as crianças nas ruas. Duas outras irmãs Claristas Franciscanas ajudam no centro e na clínica.

Riwa elogiou as freiras pela prestação de serviços de saúde, aconselhamento e apoio psicológico, bem como assistência e auxílio para aqueles que vivem com HIV/AIDS.

‘Quero agradecer às irmãs porque mostraram a essas crianças o verdadeiro amor de Jesus Cristo’, disse Riwa, de 62 anos, que também é encarregada e administra escolas e outros lares na região. ‘Elas abraçaram e aconselharam essas crianças. Muitas se recuperaram de feridas emocionais e têm um propósito para viver’.

O padre, que também é médico, disse que há muitos mitos e equívocos na região sobre como se pode contrair o HIV. Ele incentivou as irmãs a continuarem educando as comunidades sobre o vírus.

‘Eu disse às pessoas por aqui que o vírus só pode ser transmitido de uma pessoa para outra através do leite materno, sangue, sêmen, mucosa anal e fluido vaginal’, disse ele. ‘A maioria das pessoas acredita que se pode pegar o HIV de alguém, abraçando-o ou apertando a mão’.

As autoridades locais contatadas pelo Global Sisters Report não fizeram comentários sobre os problemas das pessoas que vivem com HIV/AIDS em Samburu. Os anciãos, por outro lado, disseram que era impossível para as autoridades locais ir contra a cultura e as crenças da comunidade, mesmo se quisessem falar com verdade sobre o vírus.

‘Esses líderes nasceram aqui e conhecem nossa cultura. Eles estão muito conscientes de que tememos as pessoas que vivem com HIV/AIDS’, disse Lepariyo, um ancião.

Enquanto isso, Manavalan prometeu continuar resgatando mais crianças e educando a comunidade.

‘Eu quero salvar mais vidas de crianças vulneráveis das ruas’, disse ela. ‘Meu desejo é ver a comunidade aceitar pessoas vivendo com HIV’.’


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