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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Serviço Jesuíta aos Refugiados na Síria

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Pessoas reagem enquanto se sentam sobre os destroços de prédios desabados, em Aleppo, Síria, em 7 de fevereiro de 2023. Equipes de resgate correram para encontrar sobreviventes nos escombros de milhares de prédios derrubados por um forte terremoto | AP/Omar Sanadiki 

*Artigo de Kevin Clarke

Tradução : Ramón Lara


Voluntários do Serviço Jesuíta aos Refugiados na Síria - e suas famílias - passaram outra noite acampados nas ruas ou amontoados contra o frio em seus carros em 8 de fevereiro. Estavam tentando encontrar qualquer abrigo disponível, dias depois que dois terremotos devastadores derrubaram prédios de apartamentos e casas no sul da Turquia e norte da Síria em 6 de fevereiro. Em meio às ruínas, ninguém se sentia seguro para dormir dentro de casa, especialmente porque tremores secundários levaram a novos colapsos.

De fato, muitas das estruturas sobreviventes foram declaradas inseguras pelas autoridades locais e marcadas para demolição, enquanto as equipes de resgate correm contra o tempo e as temperaturas em queda para localizar o maior número possível de sobreviventes. As condições na Síria são ‘particularmente terríveis’, de acordo com Daniel Corrou, S.J., diretor do Serviço Jesuíta para Refugiados/Oriente Médio e Norte da África, falando de Beirute, no vizinho Líbano. O frio implacável e as rajadas de chuva e neve continuam a atrapalhar os socorristas, condenando um número incalculável de pessoas ainda presas nas ruínas. Está diminuindo a esperança de que muitos mais sobreviventes sejam encontrados à medida que as horas passam e as equipes de resgate pressionadas atingem os limites de sua capacidade.

Os sírios ‘são pessoas fortes e corajosas de esperança’, apontou o Padre Daniel Corrou, S.J. Mas até a esperança tem seus limites.

O padre Corrou transmitiu relatos de necessidades agudas das comunidades sírias onde os jesuítas estiveram presentes por mais de três séculos. O JRS se concentrará primeiro nas necessidades básicas e imediatas, disse- ‘cestas de alimentos, kits de higiene, kits de inverno e talvez algumas pequenas distribuições em dinheiro’. Ele espera, no entanto, que a agência possa em breve começar a trazer sua capacidade significativa para atender às necessidades psicossociais na Síria, particularmente entre as crianças traumatizadas que agora se reúnem nos abrigos disponibilizados.

O número de mortos na Turquia passou de 16.000, e o Ministério da Saúde da Síria relatou mais de 1.260 mortos em áreas controladas pelo governo. Pelo menos 1.930 pessoas morreram em território controlado por forças da oposição na guerra civil em andamento na Síria, de acordo com os socorristas voluntários conhecidos como Capacetes Brancos. Espera-se que o número de mortos na região aumente à medida que os sobreviventes sucumbem ao frio e mais corpos são descobertos.

Ondas de choque

Prédios que sobreviveram a anos de guerra em Aleppo e outras comunidades sírias não resistiram ao terremoto. ‘Esses prédios, qualquer que seja sua qualidade de construção, passaram por coisas que edifícios normais não deveriam passar’, disse o padre Corrou, observando os frequentes bombardeios e ataques a bairros inteiros durante os piores dias da guerra civil. Enquanto a violência continua dentro e ao redor da província de Idlib, controlada pelos rebeldes, em antigas cidades da zona de guerra, como Aleppo e Homs, a reconstrução começou provisoriamente e alguns negócios e lojas foram reabertos. Todo esse progresso foi destruído pelo terremoto.

Muitas das pessoas que sofrem em ambos os lados da fronteira, aponta o padre Corrou, são sírios que estão entre os milhões de deslocados pelos combates durante a guerra civil na Síria. Agora, muitos milhares foram novamente privados de abrigo, desta vez por desastres naturais. Acredita-se que cerca de 100.000 pessoas estejam desabrigadas somente em Aleppo, de acordo com um funcionário das Nações Unidas.

Na Síria, os esforços de ajuda foram dificultados pela guerra em curso, pelas políticas de sanções e pelo isolamento da região controlada pelos rebeldes, cercada por forças do governo apoiadas pela Rússia. A própria Síria é um pária internacional sob sanções ocidentais ligadas à guerra.

As estradas seriamente danificadas pelos terremotos impediram que suprimentos de socorro da ONU chegassem ao território controlado pela oposição na Síria até 9 de fevereiro, quando a ajuda finalmente começou a passar pela fronteira de Bab al-Hawa - o único terminal onde a ajuda da ONU pode ser entregue em territórios controlados por rebeldes.

A irmã Anne Marie Gagnon, das Irmãs de São José da Aparição, é diretora do hospital São Luís de Alepo. Ela disse à ‘Ajuda à Igreja que Sofre’ que, embora o próprio hospital tenha sobrevivido ao terremoto e esteja tratando os sobreviventes, existe a preocupação de que danos estruturais o tenham tornado o prédio inseguro.

‘As pessoas agora estão pedindo às igrejas e conventos, e conosco no hospital, se podem ficar lá até que a crise passe’, disse a irmã Gagnon. Mas ‘muitos edifícios têm fissuras e as pessoas que estão no quarto ou no quinto andar têm medo de ficar lá. Colocamos alguns colchões no chão para o nosso pessoal, para que eles possam ficar aqui.’

Segundo a Cúria jesuíta em Roma, a Companhia de Jesus abriu um dos seus edifícios em Aziziyé, ‘uma casa bem construída’, a famílias que procuram abrigo seguro.

O reverendo Tony O'Riordan, um jesuíta irlandês, está liderando a resposta do JRS em Aleppo. ‘Sustentar a vida e a saúde é nossa prioridade imediata’, disse, ‘e buscaremos reabrir nossas clínicas de saúde assim que os edifícios forem liberados pelos engenheiros ainda hoje [1º de fevereiro]. Continuaremos a aumentar nosso apoio à proteção básica contra o frio e elementos para pessoas que não podem voltar para casa’.

O'Riordan acrescentou : ‘Ajudar as pessoas a permanecerem resilientes mentalmente será uma segunda prioridade’.

Dos sobreviventes e socorristas na Síria, o padre Corrou disse : ‘Estas são pessoas fortes e corajosas de esperança’. Mas até a esperança tem seus limites. Durante o pior da guerra, as pessoas acreditavam que era possível desviar de morteiros e bombardeios, mas não houve como escapar da série de calamidades que se abateram sobre os sírios desde que redutos rebeldes como Aleppo caíram para as forças do governo e grandes batalhas cessaram.

O padre Corrou recitou uma triste ladainha de tudo o que o povo sírio já havia sofrido antes da devastação que os atingiu na segunda-feira : 12 anos de guerra civil, colapso econômico, Covid-19 e surtos de cólera; combustível, óleo de aquecimento e escassez de alimentos; e inflação descontrolada.

Os sobreviventes do terremoto, especialmente os jovens sírios, são pessoas que já tomaram a difícil decisão de permanecer, apesar da guerra civil e do caos econômico e social que gerou. ‘Há um profundo amor pelo país, um profundo amor pelo povo e um profundo desejo de um futuro melhor do que hoje’, disse o padre Corrou. ‘Mas há um fim para isso para qualquer um’, acrescentou.

Após o terremoto, Corrou suspeita, muitos sírios chegaram a esse ponto; muitos se perguntarão novamente se vale a pena aceitar os riscos da perigosa passagem para a Europa. Como o foco ocidental mudou para a Ucrânia, muitos sírios já se sentiram desprovidos da atenção que acreditam que suas crises crescentes deveriam atrair. A resposta da comunidade internacional nos próximos dias será crucial para restaurar a esperança e a resiliência na sofrida Síria, disse o padre Corrou.

Aqui estão algumas maneiras de ajudar :

  • Serviço Jesuíta aos Refugiados
  • Caritas Internationalis
  • Serviços Católicos de Socorro
  • Ajuda à Igreja que Sofre
  • Associação Católica de Bem-Estar do Oriente Próximo
  • Malta Internacional
  • Cruz Vermelha Internacional/Crescente Vermelho’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1600931

quarta-feira, 4 de março de 2020

Conectados na rede e desconectados do mundo


 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Viver cristão que se manifesta somente nas redes e não age no mundo não é autêntico
*Artigo de Fabrício Veliq,
teólogo protestante


‘Estamos numa era tecnológica. Embora haja ainda algumas pessoas que não se habituaram a isso, que nasceram antes da era da informática e dos computadores, é inegável que as telas ocupam também grande parte de suas vidas. Para os nascidos após a década de 2000 no mundo ocidentalizado, já se torna impensável um mundo sem telas, conexão com a internet ou redes sociais. Para os mais novos, então, um mundo sem redes sociais poderia parecer extremamente sem graça e sem nada para fazer.

Curiosamente, é interessante perceber que, ao mesmo tempo em que se cresce a conectividade em redes sociais e espaços virtuais, acontece também um distanciamento das relações pessoais e presenciais. Não é difícil encontramos grupos que dialogam diariamente em ambiente virtual, mas que demoram anos para se encontrarem presencialmente, face a face. Da mesma forma, não raramente se descobre que a pessoa super descolada, inteligente e mente aberta na internet, quando conhecida pessoalmente, revela-se preconceituosa e rasa em suas argumentações.

O mundo online oferece essa opção. Pode-se ser nas redes e passar a imagem nos ambientes virtuais que se quiser, mesmo não tendo nada a ver com a realidade do dia a dia. Afinal, a rede, principalmente as mídias sociais, é o lugar de pessoas felizes, sem problemas, sem stress, viajadas, descoladas, amigas de todas, dentre tantos outros adjetivos que se queira colocar. O importante é não deixar lugar para tristezas, desafetos e intempéries cotidianos, pois isso não cabe no ambiente que todos veem. A alegria deve ser pública e o sofrimento privado. Mesmo se compartilhado, deve ser somente para um grupo selecionado dessas mesmas redes. Nelas não há espaço para vidas imperfeitas, devendo o mundo sempre ser colorido, ensolarado e com um sorriso no rosto.

Embora seja tentador esse mundo online, sair dele é importante. Afinal, o mundo real acontece longe das telas. Nele se dá o encontro verdadeiro com o ser do outro, com a dor da vida, com as intempéries e alegrias advindas da experiência cotidiana e dos relacionamentos diários. Abrigar-se somente num mundo online, esquecendo-se do mundo real, não dificilmente se mostra como fuga que muitos buscam para não ter que lidar com o absurdo que, muitas vezes, a vida revela ser.

Do ponto de vista teológico, diante de um mundo virtual, com o qual cada vez mais pessoas se veem encantadas e onde desejam habitar 24 horas por dia, acredito ser de suma importância resgatar o princípio da encarnação e seu conceito de ‘assumir a carne do mundo’. Faz-se mister resgatar o valor do encontro com a pessoa e não seu avatar, de maneira que haja espaço para as alegrias e tristezas que somente uma corporeidade que se relaciona com outra pode trazer.

Isso não quer dizer que se deva abandonar as redes sociais ou usufruir dos benefícios da conectividade, o que não faria sentido. O que aqui se diz consiste na atenção ao grande perigo que há em imaginar a possibilidade de viver o cristianismo somente online, aparte da corporeidade. Somente ações efetivas, que tocam a realidade das pessoas – principalmente dos marginalizados da sociedade, que em sua maioria não estão nas redes –, tornam possível a real compreensão do princípio da encarnação.

Assim, um suposto viver cristão que se manifesta somente nas redes e não age efetivamente no mundo não é autêntico, mas somente culto à própria vaidade.’


Fonte :

domingo, 26 de maio de 2019

Freira franciscana resgata crianças afetadas pelo HIV/Aids no Quênia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Ir. Lilly Manavalan, da congregação franciscana, na clínica St. Clare, no norte do Quênia, em 1º de maio
*Artigo de Doreen Ajiambo
Tradução : Ramón Lara


‘Quando o sol nasce nessa remota região do norte do Quênia às 6 da manhã, é um novo amanhecer para a missionária irmã Lilly Manavalan. Seu dia começa com uma caminhada de mais de uma hora através de um vale profundo para chegar às ruas onde encontra crianças vulneráveis vivendo com HIV.

Em um dia normal, ela leva duas crianças, filhos que perderam seus pais e estão infectados com o vírus para o Centro Santa Clara para Meninas em Nchiru, no Quênia, onde a religiosa oferece um lar com amor e um futuro promissor enquanto vivem o convite para um novo começo em Cristo.

Esta é minha paixão e realmente gosto de estar com os pobres’, disse a freira franciscana. ‘Sinto-me muito feliz e satisfeita quando ajudo os pobres, especialmente aqueles que sofrem de HIV/AIDS’.

Manavalan, que é do estado de Kerala, no sudoeste da costa de Malabar, na Índia, é enfermeira no Centro Santa Clara. Com muita paixão e resiliência, ela ajuda as pessoas pobres, muitas vivendo com o HIV. Também desenvolveu o desejo de trabalhar no norte do Quênia, depois que sua colega informou que muitas pessoas nesta parte do mundo não tinham conhecimento sobre HIV, AIDS ou saúde sexual, disse ela.

O Índice de Estigma e Discriminação para o HIV e a AIDS em 2014, do Nordeste da África, mostra que 98% das pessoas vivendo com HIV nessa região não têm laços estreitos com suas famílias. O relatório também indica que 83% dos moradores acreditam que as pessoas que são soropositivas são punidas por Deus por mau comportamento, enquanto 72% acreditam que o vírus é disseminado por profissionais do sexo.

Manavalan veio a Samburu em 2009 especificamente para ajudar aqueles que sofrem de preconceito relacionado ao HIV/AIDS.

Eu me comprometi a lutar para superar o estigma e a discriminação’, disse Manavalan. ‘Percebi que muitos não sabem como o HIV é disseminado e não acreditam que estão em risco. Outros não querem nem conviver com qualquer pessoa que viva com o vírus’.

Moradores da tribo Samburu - geralmente vivendo em grupos de cinco a 10 famílias, acreditam que o HIV não pertence a eles, mas a comunidades externas. Os moradores consideram pessoas com HIV/AIDS amaldiçoadas, pecadoras e entre os mortos-vivos.

Recentemente, um grupo de homens e mulheres bem-vestidos nas ruas empoeiradas foi ouvido usando frases ásperas para se referir às pessoas que vivem com o vírus, afastando-se deles.

O HIV não é a nossa doença, é a doença do povo urbano’, disse John Lepariyo, 60 anos, com voz baixa e profunda. ‘As pessoas que sofrem de tal tipo de doença são consideradas amaldiçoadas e tentamos separá-las de outros membros da comunidade porque tememos que elas possam disseminar o vírus.’

O povo samburu é pastoralista e seminômade, cujas vidas se centram no gado, cabras, ovelhas e camelos. As pessoas desta região estão fortemente enraizadas em sua cultura, normas, crenças e valores. Como resultado, algumas pessoas infectadas, especialmente crianças, foram abandonadas por suas famílias e comunidades nas ruas e deixadas para morrer. Outros temem ir para o atendimento médico nos postos de saúde próximos devido à discriminação.

Manavalan disse que oferece às crianças uma dieta nutritiva para impulsionar seu sistema imunológico, educação e os medicamentos necessários para combater o vírus.

Damos a eles o melhor alojamento, remédios e tratamento gratuito’, disse Manavalan. ‘Também aconselhamos e ensinamos essas crianças o catecismo. Queremos que saibam que Deus pertence a todos nós, ainda nessa condição’.

A abordagem mudou a vida de muitas crianças que foram falsamente acusadas de espalhar o vírus mortal para quem tentar ajudá-las, disse ela.

Joyce, de dezesseis anos de idade (nome fictício) é uma das garotas resgatadas por Manavalan das ruas. Ela foi expulsa em sua aldeia depois que os idosos descobriram que ela era HIV positiva. A razão da sua expulsão da aldeia foi, segundo eles, por medo de infectar outras pessoas com o vírus.

Deprimida e sem ter para onde ir, procurou refúgio nas ruas antes de ser resgatada e levada para o centro dirigido pelas irmãs da Índia. O centro atende mais de 500 crianças.

Eu me senti tão deprimida, tão de coração partido e fora deste mundo’, disse Joyce, que foi resgatada em Wamba, uma aldeia na região de Samburu. ‘Minha mãe e todos me deixaram porque eu era HIV positivo. Um amigo começou a contar a minha história para os meus colegas e eu comecei a me sentir solitária e isolada. As pessoas pararam de estar comigo’.

Hoje, três anos depois que Joyce foi resgatada, as lembranças de seu tempo na aldeia e nas ruas ainda estão frescas em sua mente. No entanto, graças a Manavalan, Joyce é feliz, encontra-se saudável e está indo muito bem na escola.

Agora me sinto tão amada e cuidada’, disse ela. ‘Quando eu terminar o ensino médio, vou para a faculdade, depois volto para o trabalho no centro e ajudo as crianças que vivem com HIV. Eu aconselho as pessoas com a mesma condição a aceitarem seu status e serem apenas elas mesmas’.

Martha (nome fictício) foi resgatada há cinco anos por Manavalan, depois de ser expulsa de sua aldeia e deixada para morrer na rua.

Eu estava muito desnutrida quando fui trazida para este centro’, disse a jovem de 14 anos de Archers Post, uma pequena cidade no noroeste do Quênia. ‘Estava esperando a morte porque já tinha perdido a esperança na vida. A irmã Lilly me levou para o hospital e foi quando recebi medicamentos e tratamento. Agora estou feliz e quero me tornar enfermeira quando terminar o ensino médio’.

O padre Francis Riwa, fundador do centro de resgate, dirige o centro, a clínica e as equipes com a irmã Manavalan, para resgatar as crianças nas ruas. Duas outras irmãs Claristas Franciscanas ajudam no centro e na clínica.

Riwa elogiou as freiras pela prestação de serviços de saúde, aconselhamento e apoio psicológico, bem como assistência e auxílio para aqueles que vivem com HIV/AIDS.

Quero agradecer às irmãs porque mostraram a essas crianças o verdadeiro amor de Jesus Cristo’, disse Riwa, de 62 anos, que também é encarregada e administra escolas e outros lares na região. ‘Elas abraçaram e aconselharam essas crianças. Muitas se recuperaram de feridas emocionais e têm um propósito para viver’.

O padre, que também é médico, disse que há muitos mitos e equívocos na região sobre como se pode contrair o HIV. Ele incentivou as irmãs a continuarem educando as comunidades sobre o vírus.

Eu disse às pessoas por aqui que o vírus só pode ser transmitido de uma pessoa para outra através do leite materno, sangue, sêmen, mucosa anal e fluido vaginal’, disse ele. ‘A maioria das pessoas acredita que se pode pegar o HIV de alguém, abraçando-o ou apertando a mão’.

As autoridades locais contatadas pelo Global Sisters Report não fizeram comentários sobre os problemas das pessoas que vivem com HIV/AIDS em Samburu. Os anciãos, por outro lado, disseram que era impossível para as autoridades locais ir contra a cultura e as crenças da comunidade, mesmo se quisessem falar com verdade sobre o vírus.

Esses líderes nasceram aqui e conhecem nossa cultura. Eles estão muito conscientes de que tememos as pessoas que vivem com HIV/AIDS’, disse Lepariyo, um ancião.

Enquanto isso, Manavalan prometeu continuar resgatando mais crianças e educando a comunidade.

Eu quero salvar mais vidas de crianças vulneráveis das ruas’, disse ela. ‘Meu desejo é ver a comunidade aceitar pessoas vivendo com HIV’.’


Fonte :

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Como resgatar a esperança?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

“E onde está Deus em tudo isto?”
*Artigo de Lev Chaim
jornalista e colunista


‘Ao assistir às discussões nos programas da TV holandesa, sobre como criar uma sociedade mais justa, mais amorosa e mais compreensiva, um pensamento estalou em minha mente : a conciliação com os outros só acontece quando você concilia consigo próprio. Isto me veio à cabeça e não me recordo ter lido em algum lugar. Provavelmente foi o que senti na hora quando assistia aos programas.
Ao deglutir mais esta frase, uma coisa ficou óbvia : quando você está bem consigo próprio, você é mais agradável e mais tolerante para com os outros. Um dos presentes à mesa de discussões, escritor e colunista de um jornal holandês, Bas Heijne, disse que ficar recordando o passado e querer que tudo seja como antes é perda de tempo, é saudosismo que não leva a nada. Segundo ele, temos que pensar hoje como queremos construir o nosso futuro.
Com tudo em minha mente, lembrei-me do livro que leio e releio de vez em quando, ‘O jogo dos Olhos’, do Nobel de Literatura, Elias Canetti. Trata-se da parte de sua autobiografia que vai de 1931 a 1937, em Viena, Áustria, durante a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. Ali, Canetti conta que os personagens de suas histórias foram influenciados pelo escritor russo Nikolai Gogol :
Tudo a nossa volta é assustador. Não existe mais uma língua comum. Um não entende o outro. Acho que ninguém quer entender o outro.’ Ai, Canetti complementou com um comentário dirigido ao autor Herman Broch : ‘Impressionou-me bastante quando citou em seu livro que os homens estejam encerrados dentro de sistemas de valores diversos, que não seja possível o entendimento entre eles.’
Nos tempos de Canetti, o caos reinante propiciou a chegada de Hitler ao poder, o que sem dúvida era assustador para os que tinham consciência deste absoluto perigo máximo para o mundo, como ficou provado depois. Mas, ai eu me pergunto : qual o inimigo número ‘um’ de uma sociedade mais tolerante? Seria o islamismo radical? O consumismo desenfreado? O aquecimento do planeta? A extrema-direita que pipoca ali e aqui? As consequências das decisões impensadas de Donald Trump? O amor excessivo ao poder e ao dinheiro? O excesso de tecnologia na vida das pessoas de hoje que não têm mais tempo para admirar a natureza?
Sobre este último tema, o autor e antigo político holandês, Jan Terlouw, disse que o homem é que tem que direcionar a tecnologia e não esta ter o controle do homem. Terlouw disse ainda que hoje em dia são poucos aqueles que andam e admiram a natureza, que olham as pequenas coisas deste mundo, as pequenas flores de cada estação do ano. Além do que, complementou ele, o contato virtual está, em muitos casos, substituindo o contato humano. ‘Os jovens precisam ser alertados para o fato’, disse ele enfaticamente.
Se este autor tem a resposta para a melhor forma de se buscar a efetivação de uma sociedade mais justa, mais humana, eu não sei com certeza, mas eu me simpatizo extremamente com suas palavras. Não se pode querer tudo, a todo tempo e a toda hora. Algumas coisas têm que ser desejadas e ficarem na categoria de utopia.
Tal como disse Canetti, ao mencionar o livro de Insel Buchner, o preferido de sua esposa Veza : ‘É necessário que existam coisas que sejam inatingíveis; mas não devemos permitir que o inatingível nos esmague’.  Estas palavras e este livro foram dados a Canetti por Veza, sua esposa, como um conselho para aquele que ela amava muito e queria ver triunfar no mundo das letras, sem se sentir esmagado por outras obras primas.
Nesta salada de pensamentos e assuntos, uma coisa ficou clara : tanto Canetti e seus companheiros estavam na busca de uma explicação para o caos reinante na sociedade de então e essas discussões continuam valendo para o presente momento, com outros ingredientes entrelaçados. Após dizer tudo isto, encerro com o seguinte : o mundo necessita de outras Vezas como a de Canetti e outros autores como Jan Terlouw, o escritor holandês, para tentar resgatar a esperança na alma do homem.
Ao apresentar este texto à minha irmã, ela perguntou assombrada : ‘E onde está Deus em tudo isto?’ O primeiro pensamento que veio-me à mente eu soltei : ‘Em todos os lugares, mas ele fica mais visível quando encontramos almas brilhantes que servem para iluminar e inspirar o caminho do homem’. E o mundo de hoje está mesmo necessitado de boas almas, pensei baixinho.’


Fonte :