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terça-feira, 14 de março de 2023

Compromisso Quaresmal

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

 

‘O caminho da Quaresma há de ser sempre compreendido como delicadeza de Deus ofertada a todos, experimentada pela beleza encantadora da Liturgia da Igreja. São luzes brilhantes que se acendem pela escuta da Palavra : a Palavra de Deus ilumina e alcança as profundezas ensombradas do coração humano, distanciadas do Criador. O caminho de conversão é o retorno a um amor maior perdido e substituído por práticas que desfiguram a condição humana na sua semelhança com Deus. Percorrer esse caminho, com abertura à ação da graça redentora, é acolher o desafio de iluminar a realidade humana e social despertando o compromisso de ajudar na construção de um mundo melhor, mais justo, fraterno e solidário.

A medida certa da nova condição espiritual e humanística que se consegue alcançar pelas práticas quaresmais projeta luzes na realidade, inquietando a cidadania do Reino, que deve estar em sinergia com o adequado exercício da cidadania civil. Por isso mesmo, a Igreja Católica convida todos para se deixarem encharcar pelas interpelações espirituais que são base de um humanismo integral. Neste tempo da Quaresma, esse convite é oferecido a cada um a partir da Campanha da Fraternidade 2023 - Fraternidade e fome. A profundidade da interpelação espiritual impulsiona a conduta cidadã ao compromisso de ouvir os clamores dos sofredores. Comprometer-se com a promoção do bem maior que está ao alcance de todos. Assim, enxergar com lucidez os problemas sociais é consequência e comprovação de um fecundo processo de conversão, que ultrapassa uma simples conquista pessoal, individual.

A Quaresma tem como finalidade não somente a expiação, mas também a tarefa discipular de alargar o próprio coração - fazer dele lugar da alegria experimentada no amor verdadeiro. Esse amor verdadeiro, quando reveste o coração humano, lhe confere força. Impulsiona-o para testemunhar o Evangelho com autenticidade, dedicando-se à construção de um mundo melhor, enquanto se caminha para o Reino definitivo. A alegria que fortalece o coração brota do dom da misericórdia, recebido quando o ser humano se dedica à promoção da justiça e da fraternidade universal. A misericórdia fecunda uma santa indignação diante das injustiças e afrontas à sacralidade da dignidade humana. Existe, pois, uma conexão forte entre a dimensão misericordiosa do coração humano e o compromisso com o bem de toda a sociedade. Trata-se de uma iluminação que permite enxergar os descompassos da realidade e, por amor, sincero, verdadeiro, engajar-se na superação de muitos problemas.

O horizonte sólido e inspirador do caminho quaresmal é intocável. Sua luz forte permite alcançar o peso da realidade que se impõe, especialmente, aos pobres. Enxergar com clareza a situação dos pobres, pelos olhos da fé, com o coração encharcado de compaixão, faz nascer o compromisso quaresmal de compartilhar o necessário pelo bem de quem carrega fardos pesados. Muitos são os fardos pesados esmagando irmãos e irmãs, a exemplo do drama da fome e da insegurança alimentar. Tomar a luz brilhante do caminho quaresmal para iluminar descompassos sociais é enxergar a dureza da realidade com as singularidades da fé, alavancando a conversão. Não cabe, pois, o equivocado entendimento que aponta haver contradição entre o insubstituível horizonte do caminho quaresmal e o apelo para que, pela ótica quaresmal, se consiga reconhecer descompassos da realidade, como o drama da fome.

A promoção da Campanha da Fraternidade - neste ano com o tema Fraternidade e fome - não é uma proposta de substituição à vivência da Quaresma. Do tempo quaresmal, luz divina que se configura como convite à conversão, se arquiteta a iluminação para uma completa visão da realidade, pela ótica da compaixão. Essa visão convoca a um compromisso social fecundado pela fé. Duas passagens bíblicas são iluminadoras e têm força para diluir qualquer tipo de dúvida a respeito da íntima relação existente entre a fé autêntica e a solidariedade. Jesus, na sua maestria, apresenta o samaritano que agiu com extrema misericórdia na acolhida e tratamento daquele que tinha sido vítima de assalto. O Mestre compara a exemplaridade inspiradora do samaritano com a lamentável indiferença do sacerdote e do levita, que passaram adiante sem se compadecerem. Ainda nos seus preciosos ensinamentos sobre a misericórdia, o Mestre e Senhor afirma : ‘Tudo o que for feito ao menor dos irmãos é a mim que se está fazendo’.

Reconheça-se, pois, o desafio de se compreender que o compromisso cidadão de superar a miséria e a fome envolve os discípulos e discípulas de Jesus, uma exigência da fé autenticamente vivida. O selo de autenticidade da fé cristã amalgama a compreensão da realidade social na sua dureza e peso. E quem compreende a realidade, é interpelado a agir, um compromisso quaresmal, fruto de conversão. Não se pode cair no equívoco de opor Quaresma e Campanha da Fraternidade. A luz e a força da fé têm propriedades para promover a experiência da autêntica conversão, atuando pelo bem maior como compromisso quaresmal. A fé cristã permite ver o invisível - por graça de Deus - e permite adequadamente enxergar a realidade : reconhecer seus descompassos, inspirando a superação de equívocos. A realidade precisa ser tocada pelo sabor do Evangelho de Jesus Cristo. Pautar-se por preconceitos ou desconhecer a realidade sofrida de quem não tem o que comer, julgando equivocadamente a relação entre fé e compromisso social, é impedir o florescer de respostas possíveis de serem encontradas no horizonte da delicadeza de Deus, o tempo quaresmal.’

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domhelder.edu.br/noticias/pagina/religiao

quarta-feira, 31 de março de 2021

Um Jesus para chamar de seu

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘A qual Jesus seguimos? Essa pergunta pode parecer um tanto quanto sem sentido. Afinal, qualquer pessoa que se diz cristã tende a afirmar que segue ao Jesus que foi considerado Cristo no Novo Testamento, o Filho de Deus, crucificado e ressuscitado pelo Pai no terceiro dia.

Dogmaticamente, a resposta está corretíssima. Mas, será que o seguimento que se faz é desse Jesus que foi crucificado e ressuscitado, que andou por toda parte fazendo o bem e libertando os que eram oprimidos pelo diabo, como afirma Pedro no livro de Atos, ou de um Jesus que foi transformado num senhor que está acima de todos e, portanto, condena aos que não o obedecem? Ou ainda, alguma outra modalidade de Jesus que se adequa melhor aos anseios de cada um?

Ao longo da história do cristianismo, diversas imagens de Jesus foram criadas. Com o passar do tempo, quanto mais afastado do contato real com a personagem histórica Jesus de Nazaré, ou até mesmo com os apóstolos que viveram com Jesus, mais essa imagem foi sendo distorcida, chegando a um ponto, principalmente no século 18, de se desconfiar do que era falado de Jesus pela Igreja, uma vez que tal discurso não se coadunava com os Evangelhos. As buscas do Jesus histórico começam de maneira mais sistemática com os trabalhos de Reimarus a partir dessa inquietação.

Ainda em nossos dias é possível perceber que são diversas as imagens de Jesus. Há um leque de possibilidades para que cada pessoa escolha qual Jesus deseja seguir. Bem na linha de um capitalismo feroz, também o seguimento de Jesus entrou em oferta. Há um Jesus próprio para cada pessoa, que se adequa perfeitamente ao tipo de vida que tal pessoa deseja ter.

Se determinada pessoa acredita que não há nenhum problema em acumular diversas riquezas na terra, não se importando com seu próximo, ou até mesmo, sonegando imposto, desobedecendo as leis, a fim de lucrar mais, há diversos discursos que se dizem cristãos que adequam Jesus a esse tipo de pessoa. Basta olhar os teólogos e teólogas da prosperidade, que justificam os resultados financeiros desses tipos de conduta como sendo a benção de Deus que alcança os que devolvem o dízimo.

Ainda, se determinada pessoa deseja um Jesus miliciano, que toma em armas, incentiva que elas sejam usadas para ‘promover segurança’, destrua terreiros e lugares de cultos de religiões de matrizes africanas por considerar ‘lugares satânicos’, também essa pessoa encontrará uma teologia que atenda a isso. Basta olhar a modalidade dos traficantes evangélicos, ou dos milicianos que se batizam no Jordão, ou de pastores que chamam jovens para ‘fazer a obra do Senhor’ contra os terreiros, ou ainda, aqueles e aquelas que pegam o texto que Jesus fala para pegar uma espada e usa isso como justificativa para armar a população.

Esses pequenos exemplos mostram que é possível falar que se segue a Jesus de Nazaré sendo que, na verdade, somente o adequa ao modo de vida que se deseja ter. No entanto, se voltarmos aos Evangelhos, em sua mensagem central (porque, nesse caso, mesmo apresentando perspectivas diferentes, todos são unânimes no ponto central da mensagem de Jesus) percebermos que não é Jesus que se adequava ao modo de vida dos que vinham a ele, mas era demandado do que desejava segui-lo que se adequasse ao modo de vida de Jesus.

Que modo de vida era esse? Do amor ao próximo, da busca do bem, da não violência, da abertura ao diferente, da não perseguição aos que criam de outra maneira, da não hipocrisia etc. Em outras palavras, o modo de vida de Jesus era o amor sem medida que leva, necessariamente, à denúncia das estruturas de morte que persistem na sociedade, e não raras as vezes, à morte daqueles e daquelas que lutam pela justiça. A crucificação de Jesus, portanto, é resultado de sua vida de amor e luta contra um Império opressor. Como consequência, morreu como bandido aos olhos desse Império. Deus, porém, o ressuscitou dentre os mortos, confirmando que a morte não tem a última palavra, ao mesmo tempo, confirmando que a vida de Jesus é a vida desejada por Deus para nós.

Diante disso, a pergunta : ‘a qual Jesus seguimos?’ deve ser respondida diariamente. Se simplesmente adequamos Jesus ao nosso modo de vida, então não somos nós que o seguimos, mas ele que nos segue.

Seguir a Jesus não é o pertencimento a um clube, mas um compromisso de vida de denunciar e lutar contra as estruturas de morte que persistem em nosso mundo. Sem isso, Jesus se tornou somente mais um produto, dentre tantos que consumimos atualmente.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1507659/2021/03/um-jesus-para-chamar-de-seu/

domingo, 17 de setembro de 2017

O que é a verdade?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A verdade absoluta e imutável pertence, com exclusividade, ao universo do transcendente, que ultrapassa (transcende) toda a nossa compreensão.
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor


Uma imagem me vem frequentemente à lembrança : Cristo diante de Pilatos, na farsa de julgamento em que a sentença já estava previamente decidida, mas onde o julgador temia pronunciá-la diante de um réu tão instigante. E uma de suas perguntas surgiu quando o réu lhe disse : ‘... vim ao mundo para dar testemunho da verdade’. Ao que Pilatos retrucou : ‘O que é a verdade?’. E na descrição do evangelista João, ele saiu sem esperar a resposta. Questiono-me, então : por que fazer uma pergunta, se não se quer uma resposta?

Aliás, coisa muito comum nos dias atuais. E ao mesmo tempo, pergunto a mim mesmo o que Jesus iria respondê-lo. Creio que a resposta já estava diante de Pilatos, pois antes Jesus já lhe dissera que viera para dar testemunho da verdade. Portanto, a verdade era quem o enviou : o Pai. E fico com a dúvida : será que Pilatos entenderia essa resposta, se Cristo a tivesse dado?

Tudo isso me traz aos dias em que vivemos, onde essa cena certamente se repetiria em cada casa, em cada esquina, em cada lugar deste imenso mundo conturbado pela ausência da verdade. O que é a verdade? Confesso que, se me perguntarem, saindo da esfera do transcendental eu não tenho uma resposta. Contudo, permito-me algumas reflexões sobre isso.

Creio que existem duas verdades. Sei que esta afirmação soa como enorme incoerência, pois a verdade, por excelência e por necessidade, só pode ser uma. Todavia, a verdade absoluta e imutável pertence, com exclusividade, ao universo do transcendente, que ultrapassa (transcende) toda a nossa compreensão, toda a nossa ciência, e consequentemente todas as nossas explicações. Essa, é a VERDADE. Mas existe outra, a verdade que é própria da nossa realidade, que não é absoluta nem imutável, mas com um consenso tal, que legitimamente a situa no ápice da imanência. Para melhor distingui-la, vou denominá-la de ‘verdade humana’. Esta verdade, enquanto revestida da pureza que aos humanos é possível, é o objetivo de todas as pessoas de caráter, de todos os pesquisadores éticos, de todos os pensadores de boa vontade, de todos os idealistas que imaginam um mundo quase perfeito, o único capaz de abrigar essa verdade em nosso universo marcado pelas limitações.

O problema é que essa verdade é sujeita a manipulações e interpretações oportunistas, a disfarces muito bem engendrados, capazes de apresentar deslavadas mentiras, dela transvestidas, enganando à grande multidão por longo tempo, e aos pequenos grupos com maior discernimento, por pouco tempo. Pode-se então dizer que existe uma verdade afirmada honestamente, mas que é transitória pelas limitações de conhecimentos; e uma pseudoverdade, que é apresentada como tal, contudo propositadamente acobertada por disfarces e justificativas.

Na ciência ela é constantemente procurada, por vezes até parece ter sido encontrada, mas tem duração transitória. Algum tempo depois, novas descobertas, novos conhecimentos, substituem a antiga verdade. Exemplificamo-la com o átomo, que em grego significa ‘indivisível’, pois assim era corretamente considerado, mas que teve essa verdade (transitória) desfeita, quando o avanço da ciência demonstrou suas partículas constitutivas.  Já a pseudoverdade é exemplificada pelo ladrão, que mesmo trazendo o produto do seu roubo nas algibeiras, afirma de forma incisiva que é inocente. Ou o marido pego em flagrante de adultério, argumentando para provar que tudo é um engano, que não existe traição alguma. Multiplicam-se assim as malversações da verdade humana.

Mas o exemplo mais evidente é demonstrado pelos políticos brasileiros, assim como por grande parte dos proprietários de enormes fortunas, para os quais a manipulação e a distorção da verdade fazem parte inerente de suas negociações, de suas ações, e especialmente dos seus discursos. Dizia Galbraith em ‘A Sociedade Afluente’ : ‘Quanto maior a riqueza, tanto maior a sujidade’. Se fizermos cálculos simples, descobriremos que é quase – eu disse quase – impossível alguém sair do nada e alcançar píncaros de fortuna, exclusivamente pelo seu trabalho honesto. Contudo, hoje multiplicam-se os novos ricos, que aboletados em cargos públicos, ou conduzindo empresas que trabalham majoritariamente para o governo, saltam das classes mais baixas para as listas de grandes fortunas. E quando num descuido, são surpreendidos pela mão dura da lei, juram de pés juntos que ‘fizeram tudo de forma legal’, e que ‘sempre cumpriram a lei’, tentando provar suas pseudoverdades. A sorte deles, e a infelicidade da nação, é que sempre encontram parceiros de espúrios caminhos para manipular as leis através de atalhos ignotos, conservando-os soltos em verdadeiras pantomimas judiciárias.

A verdade humana, ainda que transitória, é legítima, e deve ser o farol a iluminar a rota de navegação dos cidadãos exemplares, mesmo atravessando mares bravios. Nessas jornadas, às vezes descobre-se que a verdade alcançada não é plena, nem a ideal, todavia nesse momento não se deve valer de vaidosas coerências para persistir no erro. Cabe lembrar Gandhi, quando afirmou : ‘Meu compromisso é com a verdade, não com a coerência’. E eu complemento : se acredito em alguma coisa, aquilo é, para mim, a verdade, e meu compromisso é com ela. Contudo, se em qualquer momento da minha caminhada, eu descobrir que estou enganado, não devo ter vergonha alguma em mudar minha direção. Meu objetivo deverá ser a busca incessante da verdade. A humana, nesta vida onde só ela é possível. E ela será, certamente, o caminho para alcançar a verdade absoluta, essa sim, muito além desta realidade em que nos encontramos.’


Fonte :