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terça-feira, 14 de maio de 2024

Abadia mais antiga do mundo tem quase mil anos e mais de 100 monges: um oásis da Igreja na Europa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Abadia de Heiligenkreuz, na Áustria. Rudolf Gehrig/CNA Deustch

*Artigo de CNA Deutsch


A abadia cisterciense de Heiligenkreuz, na Áustria, é a mais antiga ainda em atividade no mundo, com quase mil anos e mais de 100 monges. Nunca teve ‘interrupções’ na sua história e é agora um oásis da Igreja Católica na Europa.

Heiligenkreuz fica a cerca de 30 quilômetros de Viena, capital da Áustria. Os monges têm uma idade média de 49 anos, o que significa que são ‘jovens’ no ambiente eclesial, especialmente na Europa onde há cada vez menos vocações, diz o jornal italiano Avvenire.

Além disso, quatro ou cinco homens juntam-se todos os anos à abadia fundada em 1135.

Atualmente vivem ali 103 monges, 11 religiosos com votos temporários e seis noviços, todos liderados pelo abade Maximilian Heim.

‘O mais importante é o amor a Deus e aos outros’, diz o abade. ‘Num mosteiro beneditino [os cistercienses seguem a regra de São Bento], isto se completa com a tríade ora, lege et labora, ou seja, rezar, ler e trabalhar’.

Para o abade, também é importante ‘honrar o mandamento de Jesus ‘para que todos sejam um’ : a unidade dentro da comunidade sem igualitarismo e com a liberdade necessária para cada indivíduo, bem como a unidade com a Igreja na prática, isto significa unidade dentro da ordem, bem como com o papa e o bispo diocesano’.

O trabalho para resgatar outros mosteiros na Europa

No dia 21 de novembro de 2021, as duas últimas freiras beneditinas do mosteiro de Sabiona, em Chiusa, na província italiana de Bolzano, deixaram o local depois de 335 anos de presença ali.

O bispo de Bolzano-Bressanone, dom Ivo Muser, e a abadessa Maria Ancilla Hohenegger lamentaram o fato e manifestaram o desejo de que o mosteiro localizado continue a ser um lugar de peregrinação e um centro de vida contemplativa. Isso só foi possível algum tempo depois, graças à abadia de Heiligenkreuz.

Depois de inúmeras consultas, o capítulo conventual da abadia de Heiligenkreuz decidiu assumir o mosteiro de Sabiona no dia 14 de março, com o objetivo de criar um ‘centro espiritual’ na chamada ‘montanha sagrada’, como é conhecido o local onde está localizado, conforme dito pelo padre Johannes Paul Chavanne.

Os monges que irão para o mosteiro de Sabiona continuarão pertencendo à abadia de Heiligenkreuz.

O mosteiro cisterciense localizado na diocese alemã de Görlitzer, na fronteira com a Polônia também recebeu ajuda da abadia de Heiligenkreuz.

Em 2018, o bispo de Görlitz, Alemanha, dom Wolfgang Ipolt, pediu ajuda para o mosteiro cisterciense de Neuzelle, e conseguiu que a abadia enviasse seis dos seus monges em setembro daquele ano.

Com eles foi possível devolver à região essa parte da vida contemplativa, depois de 200 anos.

O papa Bento XVI e a abadia de Heiligenkreuz

Ao lado da abadia de Heiligenkreuz fica a Faculdade de Teologia Bento XVI, reconhecida como pontifícia em 2007. Acadêmicos renomados como Hanna-Barbara Gerl-Falkovitz, uma das maiores especialistas na obra do teólogo Romano Guardini e de santa Teresa Benedita da Cruz, ou o canonista Alfred Hierold, ex-reitor da Universidade de Bamberg, são professores lá.

Atualmente conta com 342 alunos, de 39 países como Alemanha, Áustria, Índia, Itália, Nigéria, EUA e Vietnã.

O abade Heim de Heiligenkreuz, membro do círculo de ex-alunos do papa Bento XVI, recebeu em 2011 o Prêmio da Fundação Joseph Ratzinger-Bento XVI .

Além de monge e teólogo, ele divulga temas relativos à fé e à teologia por meio de conferências e da publicação de uma série de livros : ambas as iniciativas são chamadas de ‘Auditorium’, disse então o cardeal Camillo Ruini.

No dia 9 de setembro de 2007, o papa Bento XVI falou aos monges de Heiligenkreuz. ‘Quis vir a este lugar rico de história, para chamar a atenção para a diretriz fundamental de São Bento, sob cuja Regula vivem também os cistercienses’, disse o papa na ocasião.

Secretário de Bento XVI e o cardeal Koch em Heiligenkreuz

Em abril deste ano, foi feita na abadia uma conferência intitulada ‘Beleza, exigências e crise do sacerdócio’, da qual participou Dom Georg Gänswein, secretário do papa Bento XVI; e o cardeal Kurt Koch, prefeito do dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos da Santa Sé.

O cardeal falou sobre a importância da Eucaristia para a Igreja; também para os primeiros cristãos. O secretário de Bento XVI destacou a necessidade de promover ‘uma teologia sólida do sacerdócio que possa resistir aos mal-entendidos do mundo moderno’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.acidigital.com/noticia/58053/abadia-mais-antiga-do-mundo-tem-quase-mil-anos-e-mais-de-100-monges-um-oasis-da-igreja-na-europa

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

As monjas cistercienses e trapistas ontem e hoje

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


As mulheres na vida monástica


Se o século XII foi a era dos maiores místicos cistercienses movidos por São Bernardo de Claraval (1090-1153), o século XIII conheceu as grandes monjas místicas cistercienses que também, de algum modo, nos deixaram amplas obras escritas. Aqui se encontram Gertrudes de Helfta, a Grande, Matilde de Hackborn, Matilde de Magdeburgo – todas com seus tratados místicos monumentais – e Beatriz de Nazaré com um escrito bem menor em tamanho, mas não em profundidade.

Cada pessoa tem seu método de leitura ou de meditação. Cremos, no entanto, ser sempre mais útil iniciar por um panorama geral e, depois, com calma e oração, passo a passo, ir mergulhando nos escritos próprios de cada mística em questão. O pano de fundo histórico e também teológico-espiritual se fazem extremamente necessários para uma inter-relação entre o geral e o particular e vice-versa. Neste ponto, partindo de bases firmes no entendimento dessas nossas místicas, tomamos significativas passagens que duas monjas – uma cisterciense e uma trapista – nos apresentam. Encontram-se na oportuna obra de vários autores com o título ‘A mulher, a monja e a mística cisterciense : o passado e o presente à luz de quatro importantes Conferências’, publicada por Cultor de Livros, de São Paulo.

Logo de início, brota um sério questionamento : Que se entende por mística? – O Catecismo da Igreja Católica, de modo objetivo, ensina que ‘o progresso espiritual tende à união sempre mais íntima com Cristo. Esta união recebe o nome de ‘mística’, pois ela participa no mistério de Cristo pelos sacramentos – ‘os santos mistérios’ – e, nele, no mistério da Santíssima Trindade, Deus nos chama a todos a essa íntima união com Ele, mesmo que graças especiais ou sinais extraordinários desta vida mística sejam concedidos apenas a alguns, em vista de manifestar o dom gratuito a todos’ (n. 2014). A essência da mística é, portanto, a íntima união com Deus (cf. Gl 2,20).

Afirmamos isso, porque, de acordo com Dom Bernardo de Oliveira, OCSO, antigo abade geral trapista, é certo que ‘a experiência mística da vida cristã ocupa um lugar central na tradição cisterciense. Esta afirmação é tão evidente que não precisa demonstração. Os primeiros cistercienses (século XII) trataram de viver na presença de Deus e em comunhão com Ele. Esta declaração de intenções guarda, hoje, todo seu valor. Nas Constituições podemos ler : ‘Nossa Ordem é um Instituto monástico integralmente ordenado à contemplação’ (Cst. 2). Para alguns, é seguida de sinais extraordinários (êxtase, matrimônio místico, etc.) como dom gratuito de Deus. Não são incitados pela criatura, por isso os chamamos de gratiagratis data (graça dada de graça). Nossas místicas, em maior ou menor grau, os vivenciaram com a humildade própria dos santos na vida consagrada de suas respectivas comunidades.

Ir. Marina Medina, O. Cist., escreve que ‘O melhor modelo no qual se pode fundamentar a vida das consagradas é Maria, a mulher por excelência, que, vivendo a sua condição de mulher, se entregou por inteira ao plano de Deus a seu respeito, confiando, totalmente. A mulher que permanecendo virgem, segundo o projeto de Deus, se torna a mais fecunda de todas as mulheres. A Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe dos homens. Há uma fecundidade maior?’

‘Toda mulher, em virtude do seu ser, tem uma missão especial; portadora de ternura, é o rosto mais humano de Deus e de Sua Presença no mundo. Quando a mulher decide se doar, sabe entregar-se plenamente a Deus e, por Ele, aos seres humanos. Portadora e transmissora de vida, a feminilidade se faz mais viva e se realiza mais plenamente na mulher consagrada que deve levar, a um mundo no qual impera a morte, a vida nova que Deus nos deu em Seu Filho Jesus Cristo. ‘A força moral da mulher, sua força espiritual se une com a consciência de que Deus lhe confia de modo especial ao homem, ao ser humano. precisamente devido à sua feminilidade. Nossos dias acolhem à manifestação da ‘genialidade’ da mulher que assegura a sensibilidade pelo humano em cada circunstância: pelo fato de que é humano’ (p. 15-16).

Citando o Papa São João Paulo II, na Vita Consecrata n. 58, Ir. Marina finaliza o seu artigo assim : ‘Há motivos para esperar que um reconhecimento mais fundo da missão da mulher provocará cada vez mais na vida consagrada feminina uma maior consciência do próprio papel e uma crescente dedicação à causa do Reino de Deus. Isso poderá traduzir-se em numerosas atividades, como o compromisso pela evangelização, a missão educativa, a participação na formação dos futuros sacerdotes e das pessoas consagradas, à animação das comunidades cristãs, o acompanhamento espiritual e a promoção dos bens fundamentais da vida e da paz. Reitero, uma vez mais, às mulheres consagradas e à sua extraordinária capacidade de entrega, a admiração e o reconhecimento de toda a Igreja, que as sustém para que vivam em plenitude e com alegria sua vocação, e se sintam interpeladas pela insigne tarefa de ajudar a formar a mulher de hoje’ (p. 22). O Papa Francisco tem levado, de modo corajoso, adiante esse santo propósito. Que no ramo feminino das grandes Ordens irmãs, cisterciense e trapista, essas palavras encontrem eco favorável. 

Outra monja, Ir. Rosária Spreafico, OCSO, nos demonstra como as duas Ordens, no âmbito feminino, têm procurado responder aos desafios próprios do nosso tempo. São suas palavras : ‘As abadessas têm sentido as exigências de uma verdadeira renovação espiritual que vá além da adaptação às novas estruturas. É a experiência disso que tem sido testemunhada em minha comunidade. Onde se colocava bem mais atenção era, sobretudo, nas dimensões mais profundas. Por exemplo, tratava-se de acolher e integrar as novas gerações com as exigências e os desafios que traziam consigo; isso nos levou a redescobrir a importância de escutar as pessoas, a interiorização pessoal e também as dimensões comunitárias da ascese da amizade, da colaboração, do diálogo; valorizaram-se também, de forma renovada, a tradição e a dimensão eclesial da vida monástica; concede-se mais interesse à qualidade efetiva da vida comunitária do que à adaptação das formas concretas, sem, contudo, descuidá-las. Pensemos, por exemplo, nas transformações de mentalidade que levam consigo um reequilíbrio do trabalho comunitário, transformações nos locutórios, nas saídas por exigências de trabalho, saúde ou estudo’.

‘O esforço das comunidades femininas para melhorar a qualidade da formação tem sido importantíssimo. Às vezes, favorecendo certas especializações, organizando sessões de estudo para as formadoras etc.; no que diz respeito também à reforma litúrgica, todos os mosteiros femininos têm se consagrado a ela com entusiasmo e colocado a serviço da renovação seus dons de criatividade, colaborando com as comunidades masculinas. Ainda : não devemos nos esquecer do esforço feito pelas monjas para conseguir, graças a um trabalho assíduo, a autonomia econômica, em benefício do sentido da responsabilidade, da colaboração e do espírito empreendedor’ (p. 57-58).

Trata-se, portanto, não de mera renovação acidental ou cosmética – por isso mesmo, estéril em frutos –, mas de algo profundo que, sem perder o contato exigido e exigente com a tradição ou com as fontes primitivas cistercienses, saiba não ser, de modo algum, anacrônica. Neste ponto, as monjas cistercienses da estrita observância nos têm legado bom exemplo e, mesmo em meio a uma crise quase geral de vocações em diversos países, vêm promovendo fundações.

Como conseguem essa fecundidade fundacional? É mesma Ir. Rosária quem nos explica : ‘Desde 1970, se realizaram 21 fundações e uma incorporação. Parece-me que nossa forma de realizar fundações, a nós monjas, tem sido concreta e comunitária. São raras as fundações experimentais ou realizadas sem conformar-se ao Estatuto das Fundações. Temos nos preocupado, sobretudo, na formação de um grupo de fundadoras antes da partida, da realização de um marco de vida, verdadeiramente, monástico, desde o momento da instalação, da autenticidade da vida monacal, concretamente, vivida (com uma atenção particular à liturgia e à vida comunitária). Sem entrar, em demasia, nos detalhes, a frequente presença de fundações de monjas tem estimulado também os monges nas fundações que eles haviam empreendido nas proximidades; isso quando as monjas não estavam ligadas à escolha que eles tinham feito, mas, sim, permaneciam atentas à sua própria sensibilidade e às exigências de sua comunidade nascente. Também poderíamos dar exemplos das relações com a casa mãe, integração de vocações locais, estilo de vida etc.’ (p. 58).

O resultado, todavia, se dá ‘somente quando nos unimos umas às outras, quando nos deixamos configurar pela comunidade, quando aderimos à maternidade, quando somos capazes de acolher a vida para transmiti-la no momento que nos corresponda. Aqui estão alguns dos aspectos testemunhais que temos sido chamadas a dar por meio dessa reciprocidade :

- Testemunho do valor da ‘estabilidade’ de uma pertença total e definitiva capaz de risco, esperança, ajuda afetuosa e maternal, respeito às jovens que procedem de um mundo no qual a idolatria de tudo o que é instintivo, tem como consequência o fugir de toda responsabilidade, parece estar infiltrada em todos os domínios.

- Testemunho de um sentido maternal vivendo o ‘trabalho’ com um sentimento de gratuidade, de doação efetiva de si, um esforço de renúncia, de serviço. É ele um antídoto mais seguro contra a lógica do poder e a do rendimento, tão característicos de nossas sociedades industriais.

- Em conformidade com a doutrina do Vaticano II, é de grande importância para nós, fazer um esforço a fim de aprofundar na ‘doutrina de nossas Madres cistercienses’, para ir adquirindo sua mentalidade, para considerar o mistério do homem e da Igreja monástica. Não se trata somente de estudar este ou aquele ponto preciso, mas também de aprender um método de aproximação ao real que nos abra ao amor de Cristo e ao amor das pessoas da comunidade. Para isso, é necessário formar nossas jovens em uma lectio de textos patrísticos que lhes faça tomar consciência de suas raízes, da herança que lhes é transmitida, e de sua responsabilidade a respeito do momento histórico em que vivem.

- Introduzir nossas jovens na experiência do mistério que a ‘liturgia’ nos envolve. Frente ao despertar de todas as formas de religiosidade que só apontam para satisfazer a necessidade individual de emoção espiritual, o Opus Dei (Ofício Divino) se apresenta como o lugar onde o mistério se comunica, se celebra, onde nos convertemos em servidoras por meio de nosso louvor, nossa oração, nossa oferenda (p. 64-65).

Possa este artigo, em um tempo no qual as mulheres têm, cada vez mais, sido chamadas a uma maior participação na vida da Igreja, despertar reflexões e o desejo santo de, a exemplo da Virgem Maria, e das grandes místicas das Ordens cisterciense e trapista (recordemo-nos da Beata Gabriela Sagheddu), dizerem, também elas, um generoso ‘Sim’ a Deus em um dos quatro mosteiros femininos do Brasil, o trapista, em Santa Catarina, e os três cistercienses : em São Paulo, no Paraná e Mato Grosso do Sul.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/11/09/as-monjas-cistercienses-e-trapistas-ontem-e-hoje/

quinta-feira, 15 de junho de 2023

O Sagrado Coração de Jesus entre os místicos cistercienses

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA

 

‘O século XII é, sem dúvida, na vida da Igreja, o tempo áureo dos grandes místicos cistercienses, ou seja, dos membros da Ordem monástica homônima fundada em 1098, em Cister, na França.

Sobre tais místicos escreve Dom Luís Alberto Ruas Santos, O. Cist.: ‘Os mosteiros cistercienses produziram grandes místicos. […] Talvez não tenha havido na Igreja uma escola de espiritualidade tão uniforme na temática e com tantos autores como a cisterciense’ (Os cistercienses : uma espiritualidade abrangente e criativa. Itatinga: Abadia cisterciense de Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen-Itatinga, 1998, p. 17).

Daí a questão : quem são eles? – Todos foram Abades. Deixaram-nos uma rica espiritualidade marcada por três pontos : o pastoral, visava, em forma de Sermões, a santificação dos monges, seus primeiros destinatários; o patrístico, pois continuava a teologia bíblico-simbólica dos Padres da Igreja (escritores cristãos – não necessariamente sacerdotes – dos primeiros sete séculos que muito ajudaram na formulação da reta fé) e também o místico, ou seja, a vivência da verdadeira e estável união com Deus a fim de se tornarem um só com Ele. São grandes expoentes dessa corrente mística Bernardo de Claraval (o pai ou iniciador), Guilherme de Saint-Thierry, Elredo de Rievaulx, Guerrico de Igny, Balduíno de Ford etc. (cf. Dom Bernardo Bonowitz. Os místicos cistercienses do século XII. Juiz de Fora: Subiaco, 2005, p. 7-11). Alguns destes homens tratarão do Sagrado Coração de Jesus em seus escritos. Ei-los :

São Bernardo de Claraval escreve : ‘O ferro da lança transpassou sua alma e aproximou-se de Seu coração para que ele pudesse sentir conosco, com a nossa fraqueza. O segredo do Coração tornar-se-á visível através da abertura do corpo. Abre-se aquele grande mistério de sua clemência, abre-se o íntimo trancado da misericórdia de Deus’ (PL CLXXXIII. 1072 in Dom Veremundo A. Toth, OSB. Por sinais ao invisível, Juiz de Fora: Subiaco, 2003, p. 144). 

Guilherme de Saint-Thierry registra : ‘Assim como Tomé, o cético, expressando seu desejo, também eu desejo vê-lo por inteiro e tocá-lo; mas não apenas isso, e sim chegar junto da sagrada chaga de seu lado; até a fenda da arca da aliança que se abriu no seu lado, para que eu pudesse introduzir não apenas meus dedos e minha inteira mão, mas todo eu pudesse achegar-me ao próprio Coração de Jesus, ao Santo dos Santos à arca da aliança’ (PL CLXXXIV. 368, idem, p. 144). 

Guilbert de Hoyland diz : ‘A chaga do coração assinala o ardor do amor. Em verdade, é um doce Coração que induz nossos sentimentos à reciprocidade afetuosa. Por mais que ame, não ama, mas apenas retribui o amor… Esposa, não consegues corresponder totalmente ao teu Amado. Mesmo assim Ele não cessa de se dar inteiramente. O que ele te oferece ainda não é completo, mas se compromete. Todo o amor que Lhe retribuis, Ele o recebe não como uma dívida, mas sim como uma oferenda espontânea. Ele sente uma espécie de desafio ao amor, enquanto apresenta seu Coração ferido’ (PL CLXXXIV. 155, ibidem, 2003, p. 144-145).

Guerrico d’Igny chega, por sua vez, ao símbolo preciso do Coração, ao escrever : ‘Para que eu pudesse construir meu ninho na fenda de um rochedo, bendito seja quem suportou que traspassassem seus pés, sua mão e o lado e se abriu totalmente para mim para que eu pudesse adentrar na maravilhosa tenda e encontrasse proteção no refúgio do seu interior… Por isso, Ele abriu misericordiosamente seu lado, para que o sangue de sua chaga me vivificasse, o calor de seu corpo me alentasse, o sopro libertador do hálito puro de seu Coração me reanimasse’ (PL CLXXXV. 140, ibidem, p. 146).

Que tão preciosos ensinamentos dos grandes místicos cistercienses do século XII sobre o Sagrado Coração de Jesus fale alto no nosso coração neste conturbado século XXI.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2021/06/13/o-sagrado-coracao-de-jesus-entre-os-misticos-cistercienses/


sábado, 6 de maio de 2023

O que é a escola cisterciense de espiritualidade?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA

 

‘Convém, logo de início, definir, com Dom Estêvão Tavares Bettencourt, OSB, que ‘espiritualidade é a atitude (compreendendo convicções e práticas) que o homem assume frente aos valores espirituais (Deus, a alma humana, a imortalidade póstuma…)’(Curso de Espiritualidade. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2006, p. 1-2).

Desse modo, tratar dos caminhos da espiritualidade é atender ao que há de mais íntimo no ser humano, pois ‘feito pelo Absoluto e marcado com o sinete do Absoluto em seu coração, todo homem é um peregrino do Absoluto. Ele tem consciência de que ‘passa a figura deste mundo’ (1Cor 7,15) e por isto tende ao encontro daquilo que ‘o olho jamais viu, o ouvido jamais ouviu, o coração do homem jamais percebeu’ (1Cor 2,9)’ (idem).

Ora, dentre as diversas escolas de espiritualidade católica (carmelita, franciscana, beneditina, jesuíta etc.) está a cisterciense. Sim, cremos ser importante – ao contrário de alguns grandes autores (Adolf Tanquerey e Royo Marín, por exemplo), em seus excelentes tratados sobre Espiritualidade e Mística –, realçar a existência de uma escola cisterciense de espiritualidade que, embora beba nas fontes beneditinas, não pode, sem mais, ser considerada apenas beneditina, pois tem, não obstante a sua base comum com a dos filhos primeiros de São Bento, características especiais próprias. 

Daí citarmos uma respeitável afirmação de Dom Bernardo Olivera, O.C.S.O., antigo abade geral trapista, a sustentar que ‘existe uma ‘espiritualidade cisterciense’ (fé levada à vida com uma forma determinada), distinguível das outras espiritualidades, inclusive monástica. Alguns dos elementos dessa espiritualidade seriam : a importância da experiência pessoal e comunitária, a afetividade, a Regra de São Bento sem acréscimos, a caridade cenobita e contemplativa, a unanimidade, a amizade, a santa Humanidade de Jesus Cristo, a devoção mariana… Não faltam os que opinam que não se pode falar de uma espiritualidade propriamente cisterciense (J. Lecrercq). Mas, existe sim, graças aos cistercienses, e sobretudo a São Bernardo de Claraval, uma ‘teologia da espiritualidade ou da mística’’ (Introducción a los Padres e Madres cistercienses de los siglos XII e XIII. Burgos: Fonte & Monte Carmelo, 2020, p. 45).

Essa espiritualidade nasce, segundo Dom Luís Alberto Ruas Santos O. Cist., de ‘uma síntese feliz e atraente dos três elementos que predominavam nos movimentos de reforma monástica. Os mosteiros da Ordem ofereciam um alto grau de solidão, seja pelo afastamento da sociedade e da trama de seus relacionamentos, seja pela estrita disciplina de silêncio que neles vigorava, com longas horas dedicadas à lectio – leitura orante e meditada da Palavra de Deus – e à oração privada, e ao mesmo tempo o consolo de uma comunidade fraterna. Por outras palavras, havia na vida cisterciense uma boa dose de eremitismo dentro de um quadro de comunhão fraterna própria ao cenobitismo e ao ideal de vida apostólica. Enfim, os cistercienses quiseram ser pauperes Christi, pobres de Cristo, ou seja, pobres com o Cristo pobre e, com isso, encontraram a terceira tendência do monaquismo reformado do século XI’ (Bernardo de Claraval. Campinas: Ecclesiae, 2021, p. 44 – itálicos nossos).

Mais ainda : ‘Os mosteiros cistercienses produziram grandes místicos. O mais importante deles foi São Bernardo de Claraval. Há muitos outros nomes, sobretudo no século XII, como Guilherme de Saint-Thierry, Elredo de Rievaulx ou Isaac de Estrela, para citar apenas os mais conhecidos. Todos eles escreveram sobre sua experiência mística pessoal. O florescimento da escola cisterciense é o grande atestado de sucesso da aventura espiritual vivida nos mosteiros da Ordem. Esses autores oferecem em suas obras riquezas espirituais que guardam, ainda hoje, todo o seu valor, não só para os monges, mas para todos os cristãos. Talvez não tenha havido na Igreja uma escola de espiritualidade tão uniforme na temática e com tantos autores como a cisterciense’ (idem, p. 47).

Possam estes dados corroborar nossa afirmação : há, sim, uma escola cisterciense de espiritualidade.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/02/12/o-que-e-a-escola-cisterciense-de-espiritualidade/

domingo, 20 de junho de 2021

Duas místicas cistercienses e o Sagrado Coração de Jesus

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA


‘Nas místicas medievais, em especial nas de tradição cisterciense – Ordem monástica fundada em 1098, em Cister, na França –, aparece a devoção à humanidade de Cristo centrada, sobretudo, no Coração de Jesus.

Vemos que ‘já na vida de Santa Lutgarda, nos é narrada a primeira aparição do Coração de Jesus traspassado, mas é com Santa Gertrudes que a devoção ao Coração de Jesus se sobressairá. De fato, para Gertrudes, o Coração de Jesus é o próprio Jesus revelando ao ser humano ‘o mais oculto dos segredos’; isto é, uma inteligência maior e mais profunda de sua intimidade mais íntima, que não é senão a superabundância e a maravilha de seu amor-ternura (Pietas). O coração como símbolo do amor de Cristo é um lugar soteriológico, onde a mística possui plena experiência de Deus e de sua infinita ternura encarnada. Espaço onde as místicas querem perder-se e ser encontradas’ (VV. AA. A mulher, a monja e a mística cisterciense. São Paulo : Cultor de Livros, 2019, p. 78-79). Eis algo sobre duas dessas místicas : Santa Lutgarda e Santa Matilde de Hackeborn

Lutgarda de Aywières, ao contrário de Matilde, nada escreveu, mas deixou-nos o relato de uma marcante experiência mística. Sim, essa monja trazia em si – por devoção a Santa Inês – forte desejo de morrer mártir, ou seja, de derramar o seu sangue por Cristo. ‘Ora, uma noite, estava no dormitório e rezava junto ao leito antes de repousar, quando a ideia do martírio se lhe apresentou ao espírito. Lembrou-se de Santa Inês. Foi tomada por um desejo tão veemente e inflamado de morrer por Cristo, como a virgem mártir de Roma, e o ímpeto de seu amor tornou-se de tal maneira forte, que a poderia ter matado naquela hora. Uma veia rompeu-se perto do coração e por uma larga ferida aberta no lado, o sangue começou a jorrar, inundando-lhe a túnica e a cogula. Lutgarda caiu sem sentido ao solo e Cristo, em toda a sua glória, com a face reluzente de júbilo, apareceu-lhe’ (Thomas Merton. O que são essas chagas? Campinas : Ecclesiae, 2017, p. 159).

De Matilde citaremos, aqui, a título de ilustração, algumas passagens. Desde a infância, esta santa recebeu revelações dos segredos divinos e um deles diz respeito ao Sagrado Coração de Jesus, que Nosso Senhor não só lhe apresentou, mas também colocou no peito de sua santa esposa. Eis uma descrição : ‘Na quarta-feira da Semana de Páscoa, ouvindo na Missa as palavras Venite benedicit Patris mei, sentiu-se possuída por deliciosa e extraordinária alegria e disse a Nosso Senhor : ‘Oxalá seja eu uma das benditas almas a ouvirem essas doces palavras de Vossos lábios!’ Nosso Senhor respondeu : ‘Podes ficar bem certa de que o serás, e como prova dou-te o Meu Coração para guardá-lo e só me restituíres quando Eu houver realizado o teu desejo. Dou-te o Meu Coração como lugar de refúgio; à hora da morte será impossível te desviares para outro caminho; terás somente o Meu Coração onde repousar eternamente’ (Padre Granger. O amor do Sagrado Coração explicados segundo os escritos de Santa Mechtilde. Renânia : Typ. Butzon & Bercher, 1928, p. 15-16).

Ainda, o Sagrado Coração de Jesus revela a sua infinita misericórdia para com o pecador que se arrepende : ‘Quando o pobre coração humano, contrito e partido pela dor, exclama : ‘Eu me levantarei e irei a meu Pai’, o Sagrado Coração estremece de alegria. Digo-te, por maiores que houverem sido os seus pecados, nesse mesmo instante, se o arrependimento for sincero Eu os perdoo todos e o Meu Coração inclina-se com tanta misericórdia e doçura como se nunca tivesse pecado’. Ouvindo isso, Santa Matilde exclamou : ‘Ó profundeza verdadeira insondável! Ó profundeza de vossa sabedoria e misericórdia!’ (Idem, p. 87).

Também os sofrimentos são acompanhados de perto por Nosso Senhor em seu Sagrado Coração. Com efeito, diz Cristo a Santa Matilde : ‘Quando estás doente, Eu te seguro com o Meu braço esquerdo e quando estás bem com o direito; mas lembra-te que ao segurar-te o braço esquerdo ficas muito mais perto de Meu Coração’ (Ibidem, p. 127).

Eis alguns aspectos do amor ao Sagrado Coração de Jesus a inflamar as místicas cistercienses do século XIII.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/06/20/duas-misticas-cistercienses-e-o-sagrado-coracao-de-jesus/

domingo, 13 de junho de 2021

O Sagrado Coração de Jesus entre os místicos cistercienses

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA


‘O século XII é, sem dúvida, na vida da Igreja, o tempo áureo dos grandes místicos cistercienses, ou seja, dos membros da Ordem monástica homônima fundada em 1098, em Cister, na França.

Sobre tais místicos escreve Dom Luís Alberto Ruas Santos, O. Cist. : ‘Os mosteiros cistercienses produziram grandes místicos. […] Talvez não tenha havido na Igreja uma escola de espiritualidade tão uniforme na temática e com tantos autores como a cisterciense’ (Os cistercienses : uma espiritualidade abrangente e criativa. Itatinga : Abadia cisterciense de Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen-Itatinga, 1998, p. 17).

Daí a questão : quem são eles? – Todos foram Abades. Deixaram-nos uma rica espiritualidade marcada por três pontos : pastoral, visava, em forma de Sermões, a santificação dos monges, seus primeiros destinatários; patrístico, pois continuava a teologia bíblico-simbólica dos Padres da Igreja (escritores cristãos – não necessariamente sacerdotes – dos primeiros sete séculos que muito ajudaram na formulação da reta fé) e também místico, ou seja, a vivência da verdadeira e estável união com Deus a fim de se tornarem um só com Ele. São grandes expoentes dessa corrente mística Bernardo de Claraval (o pai ou iniciador), Guilherme de Saint-Thierry, Elredo de Rievaulx, Guerrico de Igny, Balduíno de Ford etc. (cf. Dom Bernardo Bonowitz. Os místicos cistercienses do século XII. Juiz de Fora : Subiaco, 2005, p. 7-11). Alguns destes homens tratarão do Sagrado Coração de Jesus em seus escritos. Ei-los :

São Bernardo de Claraval escreve : ‘O ferro da lança transpassou sua alma e aproximou-se de Seu coração para que ele pudesse sentir conosco, com a nossa fraqueza. O segredo do Coração tornar-se-á visível através da abertura do corpo. Abre-se aquele grande mistério de sua clemência, abre-se o íntimo trancado da misericórdia de Deus’ (PL CLXXXIII. 1072 in Dom Veremundo A. Toth, OSB. Por sinais ao invisível, Juiz de Fora : Subiaco, 2003, p. 144). 

Guilherme de Saint-Thierry registra : ‘Assim como Tomé, o cético, expressando seu desejo, também eu desejo vê-lo por inteiro e tocá-lo; mas não apenas isso, e sim chegar junto da sagrada chaga de seu lado; até a fenda da arca da aliança que se abriu no seu lado, para que eu pudesse introduzir não apenas meus dedos e minha inteira mão, mas todo eu pudesse achegar-me ao próprio Coração de Jesus, ao Santo dos Santos à arca da aliança’ (PL CLXXXIV. 368, idem, p. 144). 

Guilbert de Hoyland diz : ‘A chaga do coração assinala o ardor do amor. Em verdade, é um doce Coração que induz nossos sentimentos à reciprocidade afetuosa. Por mais que ame, não ama, mas apenas retribui o amor… Esposa, não consegues corresponder totalmente ao teu Amado. Mesmo assim Ele não cessa de se dar inteiramente. O que ele te oferece ainda não é completo, mas se compromete. Todo o amor que Lhe retribuis, Ele o recebe não como uma dívida, mas sim como uma oferenda espontânea. Ele sente uma espécie de desafio ao amor, enquanto apresenta seu Coração ferido’ (PL CLXXXIV. 155, ibidem, 2003, p. 144-145).

Guerrico d’Igny chega, por sua vez, ao símbolo preciso do Coração, ao escrever : ‘Para que eu pudesse construir meu ninho na fenda de um rochedo, bendito seja quem suportou que traspassassem seus pés, sua mão e o lado e se abriu totalmente para mim para que eu pudesse adentrar na maravilhosa tenda e encontrasse proteção no refúgio do seu interior… Por isso, Ele abriu misericordiosamente seu lado, para que o sangue de sua chaga me vivificasse, o calor de seu corpo me alentasse, o sopro libertador do hálito puro de seu Coração me reanimasse’ (PL CLXXXV. 140, ibidem, p. 146).

Que tão preciosos ensinamentos dos grandes místicos cistercienses do século XII sobre o Sagrado Coração de Jesus fale alto no nosso coração neste conturbado século XXI.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/06/13/o-sagrado-coracao-de-jesus-entre-os-misticos-cistercienses/

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Essas religiosas pegam o melhor da Idade Média para inovador projeto do século XXI

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

  

*Artigo de Solene Tadié,

National Catholic Register, Redação ACI Prensa

Tradução : Nathália Queiroz

 

‘‘Uma start-up do século XII com o estilo do século XXI’, com este lema as monjas cistercienses da Abadia de Boulaur em Occitane, no sudoeste da França, descrevem o ambicioso projeto de renovação que fizeram para seu mosteiro.

Essa frase se refere a todo um universo do passado, a uma época em que o cristianismo alcançou o auge da glória na Europa, um tempo que muitas pessoas recordam nostalgicamente, pois no Velho Continente há uma séria crise de vocações, que se agrava pelo número crescente de mosteiros que se veem obrigados a fechar.

Nesse contexto complicado para a Igreja Católica, o anúncio recente de um plano de reconstrução de 4 milhões de euros para este antigo priorado de Fontevrist, localizado em uma cidade pobre e pequena da França, foi recebido como um presente da divina Providência. O monumento do século XII, que abriga uma comunidade de monjas cistercienses desde 1949, estava em péssimo estado quando decidiram restaurá-lo.

Este trabalho começou no final da quarentena de coronavírus e inclui a reconstrução de um grande estábulo para abrigar animais para o Natal assim como local para o processamento de queijos, geleias, patês e farinha.

O objetivo é a reprodução de uma antiga fazenda monástica, que permitiria às monjas cuidar de toda a cadeia de produção, utilizando os recursos em sua propriedade de 45 hectares, onde haverá árvores frutíferas, vacas e porcos, entre outros.

O ambicioso projeto, que recebeu o nome de Granja 21’, faz parte da vasta atividade da comunidade de Boulaur, que atualmente possui 27 membros (serão 31 em setembro), com uma média de cinco novos candidatos a cada ano. A idade média das religiosas é de 45 anos.

É uma graça muito bonita para nós em um momento em que faltam vocações em todos os lugares, mas também implica uma grande responsabilidade, porque temos que cuidar de todas essas mulheres, de suas necessidades primárias, saúde e aposentadoria’, explicou ao National Catholic Register (NCR) a Irmã Anne, que supervisiona o projeto.

As religiosas, que seguem a Regra de São Bento, começaram há cinco anos a pensar em diferentes maneiras de maximizar sua produção e obter renda, que também lhes permita ter um lugar estável e atrativo, em uma região relativamente pobre e isolada.

O projeto gerou muito entusiasmo em toda a região e em outros lugares. O vídeo da apresentação de 2019 foi muito bem-sucedido nas redes sociais e também recebeu ampla cobertura nos meios tradicionais.

Desde então, as doações começaram a chegar através da plataforma de crowdfunding chamada CredoFunding. No entanto, as religiosas ainda precisam de mais doações para tornar o projeto realidade.

Haverá projetos participativos durante todo o verão, nos quais os voluntários nos ajudarão a fazer tijolos de terra para construir as fachadas do estábulo, usando a terra da abadia’, indicou a irmã Anne, explicando que algumas pessoas que não creem também ajudarão pois ficaram edificadas e se sentiram animadas pelo dinamismo da comunidade e, sobretudo, pela audácia deste projeto liderado por mulheres.

Nesse sentido, as monjas já entraram em contato com outras abadias, bem como associações e empresas leigas que estão dispostas a seguir seu caminho, cada uma com o seu jeito particular.

Numa época em que o lugar das mulheres na Igreja é muito debatido e sujeito à instrumentalização política, esse projeto aparece para lembrar que a tradição monástica sempre foi uma maneira pela qual as religiosas podem expressar plena e livremente seu potencial.

O setor agrícola, que se converteu em um mundo predominantemente masculino, foi durante séculos uma maneira de garantir a independência econômica das ordens religiosas femininas.

Em nossa ordem de Císter, era comum no século XII que as abadessas fossem a cavalo visitar suas terras e fundações’, disse a irmã Anne. Embora o objetivo das religiosas seja ‘promover o gênero feminino’, reforçam que elas têm uma perspectiva inclusiva.

Estamos muito felizes em poder colaborar com os homens e seu gênero específico e, ao mesmo tempo, não aceitamos que nos restrinjam e que nos digam que somos apenas pequenas monjas que não podem desenvolver projetos de larga escala sozinhas’, disseram as religiosas.

Sabemos que podemos fazê-lo, mas precisamos trabalhar duro para isso, estar unidas e saber exatamente para onde estamos indo. Sempre com o Senhor’, acrescentou.

Queremos permanecer fiéis a essa dinâmica, que teve um impacto na economia do século XII, agora com os meios do século XXI : Não teremos carros de boi como antes, mas nossos amigos norte-americanos certamente terão orgulho do nosso trator John Deere’, disse a irmã Anne e recordou que, como na era dos construtores de catedrais, o que buscam é nutrir o gênio da cultura atual por meio de contribuições artísticas e arquitetônicas destinadas a preservar e melhorar as paisagens.

Essa perspectiva tem um custo significativo, mas nosso objetivo não é apenas ganhar a vida pelos próximos 30 anos. Queremos construir para a eternidade, construir um local histórico que dure e que possa ser transmitido às gerações futuras. A Idade Média é o exemplo perfeito dessa filosofia’.

Com essa aproximação em mente, o projeto Granja 21 também incluirá a construção de uma grande biblioteca para receber os manuscritos mais valiosos da comunidade, a maioria dos séculos XIII e XIV.

Lembrando que a dinâmica dos mosteiros na Idade Média permitiu que a Igreja crescesse e moldasse de maneira sustentável a paisagem cultural do Ocidente, a Irmã Anne afirmou que o Evangelho só pode enraizar-se na cultura europeia de hoje através da renovação da vida monástica que seja capaz de tocar almas.

Outro aspecto essencial do projeto refere-se aos benefícios que os habitantes locais poderão obter dele. Ao fazer da abadia um atraente centro cultural, turístico e patrimonial, as monjas de Boulaur esperam poder oferecer apoio às empresas locais e incentivar a criação de novos empregos, além de oferecer um local para comprar mantimentos para os habitantes do local que não podem ir facilmente fazer compras na cidade. Esse benefício poderia se estender a toda a região.

As pessoas da região são muito sensíveis ao que fazemos, porque priorizamos as empresas locais para concluir as obras da abadia, e favorecemos os canais de distribuição de varejo e as vendas diretas de produtos de qualidade fabricados no local’, assegurou a religiosa cisterciense.

Queremos criar uma nova aventura para ganhar a vida, enquanto apoiamos muitas pessoas, o maior número possível, considerando a evolução de nossa sociedade’, concluiu a irmã Anne.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.acidigital.com/noticias/essas-religiosas-pegam-o-melhor-da-idade-media-para-inovador-projeto-do-seculo-xxi-88731