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domingo, 27 de julho de 2025

Charles de Foucauld, profeta do nosso desafio monástico

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Michael-Davide Semeraro, OSB

Superior de Rhêmes Notre-Dame, Itália 

 

‘A canonização do Irmão Charles é uma oportunidade para voltar à fonte da experiência espiritual deste buscador de Deus. Pela sua forma única de viver o seguimento de Cristo, ele foi o profeta do Concílio Vaticano II, esse tempo de uma inteligência renovada do Evangelho. Na conclusão de sua última encíclica Fratelli tutti, o Papa Francisco escreve :

«Mas quero terminar lembrando uma outra pessoa de profunda fé, que, a partir da sua intensa experiência de Deus, realizou um caminho de transformação até se sentir irmão de todos os homens e mulheres. Refiro-me ao Beato Charles de Foucauld».

Embora o Irmão Charles seja referido no Ordo como «padre», parece-me poder dizer que, na realidade, ele foi e permaneceu sempre um monge e um monge cisterciense. No momento em que a experiência do Irmão Charles já estava bastante madura, uma carta escrita de Tamanrasset, em 26 de março de 1908, ao seu cunhado Raymond de Blic, mostra-o consciente da sua evolução e do desafio que ela representa para as suas escolhas futuras : «Permaneço um monge - monge em terra de missão - um monge missionário, não somente missionário» [1].

Deste ponto de vista, podemos dizer que há um trabalho em curso para compreender melhor como a espiritualidade do Irmão Charles está enraizada na mais pura tradição monástica, entendida como este fluxo de água viva, este desejo de procurar Deus de acordo com o Evangelho que atravessa, em segredo, por vezes, a longa e complexa história. O Irmão Charles tem um apurado sentido da sua história pessoal, ligado não só ao tempo que passa, mas também aos lugares que percorre; ele observa assim nas suas meditações bíblicas : « Apliquemos este salmo a nós próprios : é a história da nossa alma. Deus tirou-nos do mundo com a sua própria mão » [2]. Como nota Raymond Pannikar, a vida de cada homem e mulher neste mundo não é apenas a sua biografia, mas também a sua geografia. Isto é especialmente verdade para o Irmão Charles, que escreveu de si mesmo a uma amiga, quase na mesma linha que Teresa de Lisieux, na sua autobiografia : «Monge, vivendo apenas para Deus, amando as almas com todo o ardor do meu coração em vista d’Ele» [3].

O escritor Norman Manea recentemente afirmou que na realidade somos todos igualmente o fruto da nossa bibliografia, e isto vale também para o Irmão Charles e seu itinerário de leitor que se tornou escritor.

Quando Charles de Foucauld se converteu a Deus, sob a sábia orientação do Abade Huvelin, sentiu espontaneamente a necessidade de se tornar um religioso e o disse, com surpreendente clareza, em uma carta escrita da Trapa, em 14 de agosto de 1901, a seu amigo Henri de Castries :

«Assim que acreditei que havia um Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver somente para Ele : a minha vocação religiosa data da mesma hora que minha fé» [4].

Na lógica do Irmão Charles, é claro que se deve buscar a forma mais perfeita de vida religiosa e, de acordo com a sensibilidade espiritual da época e seu temperamento que o leva ao heroísmo, uma tal aspiração à radicalidade e à perfeição se identifica com a austeridade :

«Eu desejava ser um religioso, viver somente para Deus e fazer o que fosse mais perfeito, o que quer que isso fosse» [5].

Um retiro em Solesmes, seguido por outro em Soligny, finalmente o levou ao mosteiro trapista : «Pareceu-me que nada me apresentava esta vida melhor do que a Trapa» [6] [1]. As motivações são claras : «Buscar uma vida conforme à vossa, onde eu possa compartilhar completamente vossa abjeção, vossa pobreza, vosso humilde trabalho, vosso isolamento, vossa obscuridade» [7].

No mosteiro, primeiro em Notre-Dame des Neiges, depois em Akbes, parece realmente que o Irmão Charles tenha aprendido a ler dois livros : as Escrituras e seu próprio coração. Em uma época em que, mesmo nos mosteiros, as devoções eram preferidas à lectio divina, o Irmão Charles aprende a se imergir na escuta e na interpretação das Escrituras, das quais ele tirará todos os dias, e até o último dia de sua existência terrena, luz para seu caminho, seguindo esta regra fundamental retomada pela Dei Verbum : «A grande regra para interpretar as palavras de Jesus são seus exemplos. Ele mesmo é o comentário de suas palavras» [8].

Muitos dos elementos fundamentais da sensibilidade espiritual do Irmão Charles têm suas raízes na tradição monástica beneditina e, muito especialmente, na escola cisterciense. A preferência absoluta pelos mistérios da vida de Jesus, e a contemplação de sua encarnação como forma de segui-lo, são fruto da escuta dos textos dos padres cistercienses que eram lidos durante as vigílias e no refeitório. Muitos dos temas e ênfases que são frequentemente apresentados como intuições originais do irmão Charles, na realidade, fazem parte de uma tradição que o Irmão Marie-Albéric respirou profundamente na Trapa e que ele, em seguida, expressou em escolhas completamente pessoais. Assim ele escreveu, em 24 de abril de 1897, a Raymond de Blic : «Eu deixei a Trapa depois de ter recebido a dispensa completa de meus votos, para encontrar em outro tipo de vida o que eu havia buscado na Trapa sem encontrá-lo lá». Em seguida, o Irmão Charles afirma : «Eu amo e estimo a Trapa» [9].

Seria, portanto, muito interessante tentar encontrar os paralelos entre as intuições do Irmão Charles em sua meditação sobre a vida do Senhor Jesus - especialmente através das meditações dos Evangelhos em forma «escrita» que ele impôs a si mesmo - e os comentários de monges cistercienses como Bernardo de Claraval, Guerrico d’Igny, Isaac da Estrela, Guilherme de Saint-Thierry, Baudouin de Ford... Este é um grande desafio, pois esta pesquisa poderia conter muitas surpresas e talvez até conduzir a uma compreensão mais profunda do Irmão Charles, como parte de uma tradição fiel, mas viva, da qual ele tirou a força, a coragem e a serenidade das inovações que são exigidas dos monges e das monjas de nosso tempo.

Em uma declaração recente, o Abade Geral dos Trapistas nota que, ao longo do século passado, certas intuições profeticamente percebidas pelo Irmão Charles se tornaram comuns aos monges de hoje :

«As comunidades estão se tornando menos institucionais, vinculadas a relações pessoais mais do que formais, como vemos em comunidades e mosteiros menores» [10].

Na linha da mais pura tradição cisterciense, o sonho do Irmão Charles é redescobrir uma vida cristã na qual seja dada grande importância a essa intimidade. Esta por sua vez, gera caridade e benevolência, que culmina em «indulgência terna e compassiva para com os pecadores, da qual tanto precisamos, sendo tão propensos à severidade para com os outros» [11]. A raiz distante desta caridade, porém, permanece uma atitude de intimidade orante, uma paixão do desejo e da imitação, que, na linguagem da época, é descrita como amor puro.

O Irmão Charles optou por se colocar no caminho dos outros para poder encontrá-los, conhecê-los e amá-los. Ele busca um lugar fronteiriço, muito antes de falarmos de «situações de fronteiras». Uma nota do Irmão Charles é muito esclarecedora aqui :

«Quem ousaria dizer que a vida contemplativa é mais perfeita do que a vida ativa ou vice-versa, já que Jesus conduziu ambas? Uma só coisa é verdadeiramente perfeita : fazer a vontade de Deus» [12].

Certamente não é por acaso que Notre-Dame des Neiges conserva hoje a memória do Beato Charles de Foucauld, como se ele nunca tivesse deixado seu mosteiro ou como se tivesse voltado para lá depois de seu longo itinerário. Teria ele procurado outra coisa que não fosse permanecer «sob a guia do Evangelho» [13], como diz São Bento em sua Regra, colocando-se na escola dos outros para aprender de todos a inesgotável arte do amor?’

 

[1] Carta a R. de Blic, 26 de março de 1908.

[2] Meditação sobre o Antigo Testamento, Salmo 104.

[3] Carta a H. de Castries, 14 de agosto de 1901.

[4] Carta a H. de Castries, 14 de agosto de 1901.

[5] Ibidem.

[6] Ibid.

[7] Carta a Louis de Foucauld, 12 de abril de 1897.

[8] Meditação sobre o Evangelho, 199, Mc 6,7.

[9] Carta a R. de Blic, 24 de abril de 1897.

[10] Relação de Dom Eamon Fitzgerald ao Capítulo Geral da Ordem Cisterciense, de 14 de setembro de 2014, em Assis, Collectanea Cisterciensia, 76 (2014) 4, p. 339-348.

[11] Ch. de Foucauld, Carta a Massignon, 15 de julho de 1915.

[12] Ch. de Foucauld, Med. sobre o Evangelho, 194, vocação.

[13] São Bento, Regra, prólogo.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/120

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Estímulo em São Carlos de Foucauld

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE


Nada de vaidade, de presunção ou mesmo de opinião excessivamente elevada e pretensiosa quanto à canonização do Padre Charles de Foucauld, na sua inspiração divina, ao afirmar que gostaria de ser bom, para que se pudesse dizer : ‘se assim é o servo, como não seria seu mestre?’ (cf. Fontes Foucauldianas). A imagem viva do amor por Jesus ele encontrou, quando na palavra do sacerdote Pe. Hivelin, ao pedir-lhe uma orientação que fosse plausível a respeito de Deus, em outubro de 1886, aos 28 anos de idade.

Mudar e estimular, sim, no seu exemplo de vida, a partir daquela feliz circunstância, decisiva em sua vida, repetidas incontáveis vezes por ele : ‘Quando acreditei que existia um Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa, que não fosse viver somente para Ele’ (Fontes Foucauldianas). Estímulo, sim, no sentido de aprender e com ele para melhor se perseguir seu ideal de vida, a conversão do coração, mas na compreensão dos nossos Tuaregues hodiernos, na esperançosa confiança no bom Deus, a que penetrou no mais profundo de sua alma, numa súplica universalmente aberta e acolhedora.

Impulso, pela espiritualidade de Charles de Foucauld, aquele que foi seduzido pelo amor de Deus, ao confessar seus pecados e sentir uma indizível alegria, a mesma alegria do filho pródigo. Mudança pelo desafio de acreditar e concordar com a mística cristã, no amor dele por todos, indistintamente, sempre de braços abertos para pessoas boas e não boas. Deus quer, através de São Charles de Foucauld, canonizado aos 15 de maio de 2022, que não nos afastemos do eixo de seu legado e itinerário espiritual : o da conversão permanente, da Eucaristia como centro, a oração do abandono, a busca do último lugar, sem esquecer do Evangelho da Cruz (cf. Espiritualidade para nosso tempo, Edson Damian, Paulinas, 2007).

O Deus que lhe falou na sua incredulidade, indiferença e egoísmo, caindo nas mãos divinas, sendo arrebatado e seduzido por Jesus de Nazaré, que se tornou o único e maior tesouro de sua vida. Mudança, numa palavra, de ânimo levantado e para cima, mas na mais viva esperança de vermos novas todas as coisas (cf. Ap 21, 5), ao mesmo tempo agradecidos ao bom Deus pelo dom da vida do Irmão Carlos de Foucauld – místico, referencial e patrimônio espiritual para a nossa civilização cristã, na experiência do absoluto de Deus.

Em São Carlos de Foucauld, Deus quer se manifestar, abrindo caminhos, animando-nos com o alimento e com a água verdadeira, que, com seu próprio exemplo, faça jorrar água das pedras ou dos rochedos dos corações humanos, matando a fome e a sede de sua esposa sedenta: a Igreja. Na caminhada pelos nossos desertos da vida, não prescindir dos ensinamentos metafóricos da caminhada do povo de Deus, também jamais preterir do irmão universal, Charles de Foucauld.

Que o Reino de Deus, na sua universalidade, anunciado e testemunhado pelo Irmão Carlos de Foucauld, ao quebrar crosta de veladas fronteiras e barreiras existenciais, mesmo na imaginação, nas convicções e no intolerante silêncio de irmãos e irmãs na fé, jamais seja causa de empecilhos, mas que facilite como um farol a iluminar a existência humana.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1589066

domingo, 22 de maio de 2022

São Carlos de Foucauld, rogai por nós!

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE

 

‘Na mais viva esperança de vermos novas todas as coisas, somos agradecidos ao bom Deus pelo dom da vida do Irmão Carlos de Foucauld – místico, referencial e patrimônio espiritual para o nosso mundo cristão, na experiência do absoluto de Deus –, que foi canonizado pelo Papa Francisco no dia 15 de maio de 2022. Igualmente, somos convidados, a partir da Oração do Abandono, a levar a sério o Evangelho da Cruz, longe dos primeiros lugares, nunca perdendo de vista a conversão permanente, tendo Jesus de Nazaré, o Cristo eucarístico, como eixo da nossa vida cristã.

No mundo utilitarista, que busca os primeiros lugares e é marcado por vantagens, atitudes e comportamentos acintosos, em detrimento do bem maior e em favor da humanidade, seja no Brasil, na América e em todo o planeta, recordamos, agradecidos ao bom Deus, sobre a vida de Carlos de Foucauld, que ensinou à criatura humana – e, especialmente, aos seus seguidores – a misteriosa importância do caminho da contemplação, da oração e do último lugar.

Pensemos na radicalidade de sua vida, quando se colocou no último lugar, totalmente em harmonia com o Evangelho de Jesus de Nazaré, reservado e discreto, sem se esforçar para converter alguém, mas querendo fazer uma única coisa : ‘proclamar bem alto o Evangelho com a própria vida’. Que o nosso indulgente Deus, na solidão ou na aridez, como no exemplo do Irmão D’Foucauld, agora São Carlos de Foucauld, nos permita continuar a jornada do dia a dia, como sendo algo precioso e raro, uma dadivosa manifestação da bondade afável e terna de Deus : mérito, dom e graça.

Na canonização de Carlos de Foucauld, Deus quer se manifestar, abrindo caminhos, animando-nos com o alimento e com a água verdadeira, que, com seu próprio exemplo, fez sair água das pedras ou do rochedo e alimento do céu, matando a fome e a sede de sua esposa sedenta : a Igreja. Na travessia do primeiro deserto, nota-se que se sucedeu o mesmo na vida das pessoas, mas com sua presença no meio do seu povo, na metáfora da Igreja, representado como se fosse sua esposa, que nem sempre foi correspondida, no amor do povo de Deus.

Que São Carlos de Foucauld rogue a Deus pela humanidade nestes tempos difíceis, acompanhando-nos e abençoando-nos em nossos desertos da vida.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1578680/2022/05/sao-carlos-de-foucauld-rogai-por-nos/

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Charles de Foucauld: o irmão universal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Francisco Tallys Rodrigues


‘Na dinâmica da boa-nova do Reino de Deus anunciado por Jesus, aqueles que acolheram sua proposta deverão se distinguir pela capacidade de amar, de renunciar aos próprios interesses e viver a fraternidade numa comunidade de irmãos e irmãs. Por conseguinte, a simplicidade emerge como característica inerente àquele que tornou o bem-amado Jesus, o centro e sentido de sua vida. Nesta esteira, Charles de Foucauld apresenta-se como testemunho da radicalidade e acolhida evangélica expressos na simplicidade e cuidado com o próximo.

Charles de Foucauld era originário de uma família abastada da França, tendo acesso às melhores possibilidades oferecidas pelos bens materiais. Faltava-lhe, entretanto, uma razão/sentido pela qual gastar a vida, engajar as suas melhores energias. Seguindo o caminho de seu avô, ele entra no exército e destaca-se, desde o início, por sua enorme capacidade intelectual.  A experiência da expedição francesa no norte da África, no contato com os mulçumanos, aprofunda o seu desejo por buscar o sentido para a sua vida. De volta a França, a confissão diante do padre Huvelin marca um momento de virada em sua vida. Descobre a existência de um Deus que o ama e pelo qual deveria viver. Diante disso, torna-se necessário abandonar qualquer conforto, luxo ou riqueza para dedicar-se a Jesus.

Tem início um longo itinerário de busca por um seguimento mais radical do evangelho. A austeridade vivida no exército abre caminhos para a busca de uma vida mais simples, despojada, mas ainda pequena, insuficiente diante do evangelho. Peregrina até a Terra Santa, passando por mosteiros e congregações no desejo de viver mais semelhante a Jesus, por ele chamado de Bem-amado. A experiência em Nazaré o marca profundamente. Ele se impressiona com a pobreza e simplicidade do local onde morava Jesus. Como o Bem-amado poderia ter vivido tanto tempo num lugar tão simples?

A experiência em Nazaré o faz compreender que é preciso tornar a vida mais simples, mais despojada e aberta ao próximo. É necessário, como Jesus, ocupar o último lugar, aquele espaço que ninguém deseja, que ninguém quer. Passa-se da riqueza e do acesso aos bens para a pobreza e a simplicidade evangélica. Não é preciso estar em Nazaré para viver como Jesus. Cada espaço pode tornar-se uma nova Nazaré : espaço de oração, acolhida, simplicidade e fraternidade.

Charles torna-se padre a fim de anunciar o Evangelho a todos os povos. Procura os locais mais escondidos e necessitados. Encontra Tamanrasset, um vilarejo de mulçumanos, esquecido em meio ao deserto do Saara. Torna aquele espaço a sua morada. A casa de Charles é local de acolhida e descanso de viajantes, peregrinos e pessoas necessitadas. Todos podem entrar e sair, encontrando acolhida na casinha de Nazaré.

A simplicidade de vida experimentada em Tamanrasset permite que Charles estabeleça um diálogo fecundo com o Islã. Diálogo que não se prende a questões teóricas, mas que se experimenta na concretude da vida, nos gestos, palavras e partilhas vividos. Procura ajudar a todos em suas necessidades, fazendo-se presente na vida do povo, dividindo seu tempo entre orações, trabalhos, acolhida e vivência com os moradores. Entretanto, durante um longo período de seca, será a vez de Charles receber ajuda ao invés de oferecê-la. Doente e à beira da morte, os seus amigos mulçumanos andam mais de quarenta quilômetros para encontrar leite suficiente a fim de que Charles possa ter suas forças reestabelecidas. Ele se estabeleceu em Tamanrasset com a finalidade de salvar aquele povo por meio do anúncio do Evangelho, agora eram eles que o salvavam da morte. Enfim, a simplicidade permite ultrapassar barreiras religiosas, étnicas e culturais a fim de garantir a vida.

A vida do irmão de Nazaré ensina que cada um deverá fazer o melhor que pode em cada ação que realiza por menor que seja. As pequenas atitudes vividas com sabedoria e simplicidade podem transformar pessoas, famílias e comunidades. Mais do que nunca se torna necessário insistir na vivência da fraternidade que se expressa na escuta atenta a cada pessoa. Viver uma vida simples numa fraternidade procurando acolher o outro que necessita de escuta e atenção, estando atento às suas necessidades. Charles tinha o sonho de que todos pudessem entender-se como responsáveis pelo anúncio do evangelho por meio do testemunho de vida. Para ele, o ponto de convergência era o batismo. Todos são convidados a responder este chamado onde quer que se encontrem : padres, irmãs/irmãos, leigos, animadores.

Charles morreu em 1916, vítima de um conflito entre grupos rivais no entorno de Tamanrasset. Morreu inocente e vítima como tantos e tantas outras num século marcado por guerras e agitações. Porém, mesmo antes de sua canonização, o seu testemunho tem alimentado e animado batizados e batizadas na vivência do Evangelho. As fraternidades, congregações e institutos nele inspirados, procuram tornar cada lugar um espaço de acolhida e fraternidade, assumindo a vida oculta de Nazaré, isto é, dando testemunho da boa-nova do Reino Deus numa vida simples e austera juntos aos sofredores e esquecidos. Oxalá possamos assumir a mesma paixão que animou a vida do irmãozinho de Nazaré e repetir, como ele, na oração do abandono : ‘Meu Pai a vós me abandono : fazei de mim o que quiserdes! ... Estou pronto para tudo, aceito tudo, contanto que vossa vontade se faça em mim e em todas as vossas criaturas...

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1518294/2021/05/charles-de-foucauld-o-irmao-universal/ 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Charles de Foucauld e o deserto da vida

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE


‘É do conhecimento de muitos, na civilização cristã, que Jesus de Nazaré confidenciou a São Bernardo que sua maior dor, desconhecida em parte pela criatura humana, é a chaga decorrente do peso de sua cruz salvadora, na seguinte manifestação : ‘Eu tinha uma chaga profundíssima no ombro, sobre o qual carreguei minha pesada cruz. Era ela a chaga mais dolorosa de todas, a qual as pessoas ainda hoje não a conhecem’. Fica, pois, o convite para que, por essa chaga, seja Deus honrado e louvado. Confiemos, pois, na sua segura resolução e retribuição, de tudo fazer por meio de suas feridas ocultas, na certeza de que nelas se encontram as dores da humanidade.

Em Charles de Foucauld, com seus propósitos concretos de vida no imenso deserto do Saara, temos o encontro e a descoberta progressiva e sempre maior do absoluto de Deus. Neste tempo que precede sua canonização, somos desafiados a percebermos um Deus verdadeiramente amigo, irmão e companheiro. Temos que ter como fundamento sua espiritualidade, do mais profundo do coração, envolvido e mergulhado no mistério de Deus. Nos seus ensinamentos do Evangelho, o da Cruz do Senhor, o deserto quer ser a água miraculosa e redentora para aqueles momentos difíceis, sequiosos e de grande aridez. A solidão, ou aridez, no exemplo do irmão D’Foucauld, permite-nos continuar a jornada do dia a dia, como sendo algo precioso e raro, uma dadivosa manifestação da bondade afável e terna de Deus : mérito, dom e graça.

Que o Evangelho da Cruz de Charles de Foucauld, aos olhos da fé, ajude o nosso deserto, despojando-nos de tudo o que nos impede de vivermos a proposta do Reino como um tempo de graças especiais. Deus quer se manifestar, abrindo caminhos, animando-nos com o alimento e com a água verdadeira, que, no seu próprio exemplo, fez sair água das pedras ou do rochedo, matando a fome e a sede de sua esposa sedenta : o povo de Israel. Na travessia do primeiro deserto, nota-se que se sucedeu o mesmo na vida das pessoas, mas com sua presença no meio do seu povo, na alegoria de Israel representado como se fosse sua esposa, que nem sempre soube corresponder ao amor de Javé.

Naqueles 40 anos no deserto, com limitações e vacilos pelos caminhos áridos, estéreis e enfadonhos, com Deus abominando a deslealdade e a infidelidade de seu povo, ele não deixou de lançar um didático convite, com o pedido clamoroso de não endurecer seu coração (cf. Sl 95, 8). Sua promessa, concedendo generosos benefícios, Deus quis contar com a adesão e a aquiescência da esposa : a de andar pelos bons caminhos e observar sua Lei, falando ao coração de sua gente, convocando para a conversão. Que o bem-aventurado Charles de Foucauld interceda a Deus por nós, acompanhando-nos e abençoando-nos em nossos desertos da vida. Assim seja!

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1516939/2021/05/charles-de-foucauld-e-o-deserto-da-vida/

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O absoluto em Charles de Foucauld

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Fotografia do padre Charles de Foucauld (1858-1916) com seu sobrinho e afilhado Charles de Blic (1887-1965), no Château de Barbirey em 1900

*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE 


‘Neste início de 2021, procurei dar um mergulho em Deus, por ocasião do nosso retiro, o qual poderia ter sido bem melhor, se não fossem minhas limitações, a partir do bem-aventurado Charles de Foucauld. Fomos desafiados a beber, nos dias 5, 6 e 7, da inesgotável fonte de água da Galileia, precisamente aquela imprescindível água cristalina de Nazaré, onde encontra-se a vida oculta do Filho de Deus, envolvendo-nos todos nós no ministério. Com a consciência de que a espiritualidade de Nazaré é a do silêncio, do abandono e do mergulho em Deus. É a espiritualidade da transfiguração de quem quer descer, de verdade, do Monte Tabor, depois do batismo nas águas santificadas do Jordão, sendo conduzido, em seguida, ao deserto. É o ser humano que se encontra consigo mesmo, num passeio profundo pela montanha do seu próprio coração. Ele jamais pode perder de vista o mistério de Nazaré.

O livro Francisco de Assis e Charles de Foucauld, do bispo franciscano dom Beto Breis, muito tem me ajudado neste início de ano. A despeito da figura humana de Charles de Foucauld, na sua condição limitada e pecadora, dominado pelas paixões transitórias do mundo, ao mesmo tempo acolhendo a graça de Deus em seu interior, o autor se apoia no primeiro biógrafo, René Basin, colocando-nos o seu milagre da alma como esplendor dos olhos, interiorizando-o como absoluto, soberano e irrefutável, aproximando-se de Francisco de Assis. Também para se compreender o místico Charles de Foucauld, ele encontra o auxílio de François Six, deixando claro em padre de Foucauld ‘um Francisco de Assis para os nossos tempos’, sem esquecer o homem radicalmente humilde e pobre, numa vida a encantar milhares de irmãos, intimamente próximo do poverello di Assisi, bem de acordo com o Evangelho, em Camillo Deleaux.

Grande é a graça, enorme, sem igual para o mundo, com Charles de Foucauld, canonizado pelo papa Francisco, na Liturgia de Pentecostes de 2021, tudo a partir de Jesus de Nazaré, ao fazer-se em tudo semelhante aos irmãos, para se tornar um sumo sacerdote misericordioso e digno de confiança nas coisas referentes a Deus, a fim de expiar os pecados do povo (cf. Hb 2, 17). Encanta-nos o fascínio das referidas criaturas humanas, vendo nelas a face terna e afável de Deus, tornando-as inexorável e radicalmente humanas, como nas palavras do escritor : ‘Dois homens de tempos tão distantes entre si, mas que se aproximam, de modo extraordinário, de um encanto comum : o fascínio pelo mistério da encarnação e o modo apaixonado e terno a seguir os passos daquele que, sendo Deus, assumiu nossa humana fragilidade’.

A cada um de nós foi dada a graça na medida do dom de Cristo’ (cf. Ef 4, 7). Em Cristo, segundo sua vontade, no seu projeto de amor, se concede o presente da graça para cada batizado, realizando, de um modo progressivo e passo a passo, nele uma mudança, transformando-o em ‘nova criatura’. Que Francisco de Assis e Charles de Foucauld nos façam compreender melhor a loucura do mundo, como na compreensão profética de dom Helder Câmara : ‘Quando os problemas se tornam absurdos, os desafios se tornam apaixonantes’. Assim seja!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1494797/2021/01/o-absoluto-em-charles-de-foucauld/

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Charles de Foucauld será canonizado

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE


‘Na alegria da aprovação e reconhecimento da santidade do padre Charles de Foucauld, quando, no dia 27 de maio de 2020, nos chegou a alvissareira e surpreendente notícia de que o papa Francisco aprovou o milagre, exposto pela Congregação para a Causa dos Santos. Esse milagre contou com a intervenção, ou interferência, do Bem-aventurado Charles de Foucauld, indicando-nos que sua canonização virá. 

É Deus que está presente na história humana, no convite para que as pessoas de boa vontade permaneçam firmes e apoiadas naquilo que é seguro, sólido e consistente, mesmo diante de angústias, fracassos e conflitos. Como exemplo maior, temos em Charles de Foucauld, aquele que nasceu na França (1858-1916), submetendo-se à vontade de Deus, em 30 de outubro de 1886. Em Paris, encontrando-se com o padre Huvelin, vigário da Igreja de Santo Agostinho, em uma conversa entre eles, confidenciou-lhe : ‘Padre, não tenho fé, peço-te que me instrua’. O padre foi ríspido : ‘Te ajoelha e confessa teus pecados! Então, crerá!’. Obediente, experimentou uma alegria indizível : a alegria do filho pródigo.

Com Charles de Foucauld, na ânsia pela data de sua canonização, não nos afastemos do eixo de seu caminho espiritual : a conversão permanente, a Eucaristia como centro, a oração do abandono, a busca do último lugar, sem esquecer-nos do Evangelho da Cruz. Deus falou-lhe na sua incredulidade, indiferença e egoísmo, caindo nas mãos divinas, sendo arrebatado e seduzido por Jesus de Nazaré, que se tornou o único e maior tesouro de sua vida. A última palavra, evidentemente, de ânimo levantado e para cima cabe sua exclusividade e deve ser reservada a Deus, no anúncio do cântico do Cordeiro : ‘Grandes e admiráveis são tuas obras, Senhor Deus, todo-poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó rei das nações! Quem não temeria, Senhor, e não glorificaria o teu nome?’ (Ap 15, 3-4).

Que toda a família de Charles de Foucauld possa sempre, e cada vez mais, render graças a Deus, a partir da Mesa Sagrada, pelo dom de sua canonização, no inesgotável legado de sua espiritualidade, em sua célebre frase : ‘Gritar o Evangelho com a própria vida’. 

Enquanto vivermos neste mundo, com as marcas da dor e do sofrimento, que nosso olhar se volte para o ‘Senhor e Pai da humanidade, que criastes todos os seres humanos com a mesma dignidade’ (papa Francisco, Oração ao Criador), que nunca nos separemos da aparente loucura da cruz, com nossa alma conformando-se com a vontade de Deus, que seu desígnio de amor quer que nos agigantemos, no sentido de produzir, na esperança, muitos e bons frutos, através de gestos e obras de caridade, mas numa intensa atividade, fruto do verdadeiro e puro amor.

Francisco fecha sua Carta Encíclica Fratelli Tutti referindo-se ao padre Charles de Foucauld, assassinado em 1º de dezembro de 1916 : ‘O seu ideal de uma entrega total a Deus encaminhou-o para uma identificação com os últimos, os mais abandonados no interior do deserto africano. Naquele contexto, afloravam os seus desejos de sentir todo ser humano como um irmão, e pedia a um amigo : 'Peça a Deus que eu seja realmente o irmão de todos'. Enfim, queria ser o irmão universal. Mas somente identificando-se com os últimos é que chegou a ser irmão de todos. Que Deus inspire este ideal a cada um de nós’. Assim seja!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1486351/2020/12/charles-de-foucauld-sera-canonizado/

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Bem-aventurado Charles de Foucauld

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


 *Artigo da Dra. Isabel Orellana Vilches


Este missionário do Sahara, apóstolo dos Tuaregues, nasceu em Estrasburgo, França, em 15 de setembro de 1858. Sua origem aristocrática - visconde de Foucauld - atribuiu ao seu caráter a distinção esperada de alguém de sua descendência. Ficou órfão com 6 anos e cresceu, com a irmã Marie, sob os cuidados do avô, rumo à vida militar. Estudou com os jesuítas, mas os três anos que passou com eles, parecia não ter causado nenhum impacto em sua alma. A partir de seus 16 anos viveu afastado da fé. Como o filho pródigo, ele desperdiçou a herança, manchando sua existência com as sombras desse ambiente que lhe surgiu.

Em 1878, ele se juntou ao exército e dois anos mais tarde tornou-se primeiro oficial e foi servir em Setif, na Argélia. Deus não existia para ele. Outros interesses mundanos chamavam a sua atenção tanto que, no ano seguinte, a sua má conduta o levou à sua expulsão. A partir desse momento, teve uma vida muito agitada. Ele se tornou um explorador. Buscava intimamente uma resposta interior que o inquietava.

Ele participou da revolta de Bon Mama no Sul do Oran, estudou árabe e hebraico, e em 1883 iniciou uma expedição ao Marrocos pela qual foi condecorado com a medalha de ouro da Sociedade Geográfica; visitou a Argélia e a Tunísia. Foi uma viagem que preparou o seu espírito para ser fecundado pela graça divina. Ao ver como os muçulmanos viviam a fé, irrompeu de seu interior a seguinte oração : ‘Meu Deus, se existis, fazei que vos conheça’. Esta sinceridade e abertura foram o suficiente para que a luz divina penetrasse em seu coração. Em outubro de 1886, quando estava em Paris preparando o texto sobre sua viagem para o Marrocos, ele começou sua jornada espiritual tomado pela mão do Padre Huvelin. Obedecendo a suas instruções ele se confessou, apesar de se declarar incrédulo, e foi completamente renovado : ‘Quando acreditei que existia um Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver somente para Ele’.

Durante sete anos o lugar dos Trapistas foi a sua casa. Impactado com a experiência, mas ainda não totalmente apto, foi para Roma estudar. Em 1896 deixou a comunidade trapista e foi peregrinar na Terra Santa, onde permaneceu com as Clarissas de Nazaré. Este foi outro momento importante para sua vida espiritual : ‘Não temos uma pobreza de convenção, mas a pobreza dos pobres. A pobreza que, na vida escondida, não vive de dons nem de esmolas nem de rendas, mas só do trabalho manual’, afirmou.

Depois de uma experiência quase eremítica, saboreando a riqueza da contemplação, retornou para a França, onde continuou seus estudos que o levaram à sua ordenação em 1901, em Viviers. Ele tinha 43 anos e uma ideia apostólica muito clara, que não hesitou em materializar : a evangelização do Marrocos. Incapaz de residir no país, como era o seu desejo, ele se estabeleceu o mais próximo possível, em Beni-Abbes, Argélia. Ele já estava convencido : ‘Farei o bem na medida em que for santo’. O espírito de sacrifício, a pobreza, o cuidado dos doentes e dos necessitados tornou-se o principal objetivo de sua vida, que inflamava em suas longas horas de adoração diante da Eucaristia : ‘A Eucaristia é Deus conosco, é Deus em nós, é Deus que se dá perenemente a nós, para amar, adorar, abraçar e possuir’. Sabia por experiência que ‘quanto mais se ama, melhor se reza’.

Entre 1904 e 1905 se estabeleceu em Tamanrasset com os Tuaregues do Hoggar argelino. Ele corajosamente realizou um trabalho formidável de inculturação, primeiramente, traduzindo em tuareg os Evangelhos e, no sentido inverso, traduzindo poesias tuareg para o francês. Ele é autor de um dicionário francês-tuareg e tuareg-francês, de uma gramática e de várias obras sobre esta tribo nômade. Este era o seu desejo : ‘Eu quero ser bom o suficiente para que digam : Se tal for o servidor, como então será o Mestre?’.

Em 1909 ele deu início a União de Irmãos e Irmãs do Sagrado Coração a fim de levar a fé à África. Nos onze anos em que viveu com os tuaregues se tornou um com eles, sem medir esforços, com a alegria de saber que assim cumpriria fielmente a missão para a qual ele sentiu-se chamado por Cristo. Ele amou aquele povo até o fim e ali entregou a sua vida. Dia 01 de dezembro de 1916 uma bala no meio de uma emboscada de bereberés deu fim a este grande apóstolo que foi beatificado por Bento XVI em 13 de novembro de 2005.

A influência de sua espiritualidade é encontrada em várias instituições : nos Irmãozinhos e Irmãzinhas de Jesus, nas Irmãs e os Irmãos do Evangelho, nas Irmãs de Nazaré, nas Irmãs do Sagrado Coração de Jesus, na Fraternidade Jesus Caritas e na Fraternidade Charles de Foucauld. 
  

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