quinta-feira, 2 de abril de 2026

Semana Santa: tempo de recolhimento e reflexão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Felipe Aquino,

professor

 

‘São Paulo explica a grandeza desse amor de Deus por nós com as seguintes palavras aos romanos : ‘Mas eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós : quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Se, quando éramos ainda inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida’ (Romanos 5,8-10).

Cristo veio a este mundo para nos salvar, para morrer por nós. Deus, humanizado, morreu por nós. O que mais poderíamos exigir do Senhor para nos demonstrar Seu amor? Sem isso, a humanidade estaria definitivamente longe de Deus por toda a eternidade, vivendo o inferno, a separação do Pai. Por quê? Porque o homem pecou e peca desde os nossos primeiros antepassados; e o pecado é uma ofensa grave a Deus, uma desobediência às Suas santas Leis, a qual rompe nossa comunhão com Ele. Por isso, diante da justiça divina, somente uma reparação de valor infinito poderia sanar essa ofensa da humanidade ao Senhor. E como não havia um homem sequer capaz de reparar, com seu sacrifício, essa ofensa infinita a Deus, então, Ele próprio, na Pessoa do Verbo, veio realizar essa missão.

O que podemos exigir do Senhor?

Não pense que Deus é malvado e exige o sacrifício cruento de Seu Filho na cruz por mero deleite ou para se vingar da humanidade. Não, não se trata disso. Acontece que o Senhor é amor, mas também é justiça. O amor de Deus é justo. Quem erra deve reparar seu erro. Humanamente, exigimos isso, e essa lei só não existe entre os animais. Então, como a humanidade prevaricou contra Deus, ela tinha de reparar essa ofensa não simplesmente a Ele, mas à justiça divina sob a qual este mundo foi erigido. Sabemos que, no Juízo Final, Deus fará toda justiça com cada um; e cada injustiça da qual fomos vítimas também será reparada no dia do juízo.

Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício

Assim, vemos o quanto Deus ama, valoriza e respeita o homem. O Verbo Divino se apresentou diante do Pai e ofereceu-se para salvar a Sua mais bela criatura, gerada à Sua imagem e semelhança (cf. Gênesis 1,26).

A Carta aos Hebreus explica bem este fato transcendente : ‘Eis por que, ao entrar no mundo, Cristo diz : Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradam. Então eu disse : ‘Eis que venho (porque é de mim que está escrito no rolo do livro), venho, ó Deus, para fazer a tua vontade’ (Sl 39,7ss). Disse primeiro : Tu não quiseste, tu não recebeste com agrado os sacrifícios nem as ofertas, nem os holocaustos, nem as vítimas pelo pecado (quer dizer, as imolações legais). Em seguida, ajuntou : Eis que venho para fazer a tua vontade. Assim, aboliu o antigo regime e estabeleceu uma nova economia. Foi em virtude desta vontade de Deus que temos sido santificados uma vez para sempre, pela oblação do corpo de Jesus Cristo. Enquanto todo sacerdote se ocupa diariamente com o seu ministério e repete inúmeras vezes os mesmos sacrifícios que, todavia, não conseguem apagar os pecados, Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício e, logo em seguida, tomou lugar para sempre à direita de Deus’ (Hebreus 10,5-10).

A Semana Santa celebra, todos os anos, esse acontecimento inefável : a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo para a salvação da humanidade, para o resgate desta das mãos do demônio e a sua transferência para o mundo da luz, para a liberdade dos filhos de Deus. Estávamos todos cativos do demônio, que no Paraíso tomou posse da humanidade pelo pecado. E com o pecado veio a morte (cf. Rom 6,23).

Mas agora Jesus nos libertou, ‘pagou o preço do nosso resgate’. Disse São Paulo : ‘Sepultados com ele no batismo, com ele também ressuscitastes por vossa fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. Mortos pelos vossos pecados e pela incircuncisão da vossa carne, chamou-vos novamente à vida em companhia com ele. É ele que nos perdoou todos os pecados, cancelando o documento escrito contra nós, cujas prescrições nos condenavam. Aboliu-o definitivamente ao encravá-lo na cruz. Espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfando deles pela cruz’ (Col 2,12-14).

Quando fomos batizados, aplicou-se a cada um de nós os efeitos da Morte e Ressurreição de Cristo; a pia batismal é, portanto, o túmulo do nosso homem velho e o berço do nosso homem novo, que vive para Deus e Sua justiça. É por isso que, na Vigília Pascal do Sábado Santo, renovamos as promessas do batismo.

O cristão que entendeu tudo isso celebra a Semana Santa com grande alegria e recebe muitas graças. Por outro lado, aqueles que fogem para as praias e os passeios, fazendo dela apenas um grande feriado, é porque ainda não entenderam a grandeza dessa data sagrada e não experimentaram ainda suas graças. Ajudemos essas pessoas a conhecer tão grande mistério de amor!

A espiritualidade dos três dias

O cristão católico, convicto, celebra com alegria cada função litúrgica do Tríduo Pascal e da Páscoa. Toda a Quaresma nos prepara para celebrar com as disposições necessárias a Semana Santa. Ela se inicia com a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém (Domingo de Ramos). O povo simples e fervoroso aclama Jesus como Salvador. E grita : ‘Hosana!’; ‘Salva-nos!’ Ele é o Redentor do homem. Nós também precisamos proclamar que Ele e só Ele é o nosso Salvador (cf. At 4,12).

Na Missa dos Santos Óleos, a Igreja celebra a Instituição do Sacramento da Ordem e a bênção dos santos óleos do batismo, da crisma e da unção dos enfermos. Na Missa do Lava-pés, na noite da Quinta-Feira Santa, a Igreja celebra a Última Ceia de Jesus com os apóstolos, na qual o Senhor instituiu a Sagrada Eucaristia e lhes deu as últimas orientações.

Na Sexta-Feira Santa, a Igreja guarda o Grande Silêncio diante da celebração da Morte do seu Senhor. Às três horas da tarde, é celebrada a Paixão e Morte do Senhor. Em seguida, há a Procissão do Senhor morto por cada um de nós. Cristo não está morto nem morre outra vez, mas celebrar a Sua Morte é participar dos frutos da Redenção.

Na Vigília Pascal, a Igreja canta o ‘Exultet’, o canto da Páscoa, a celebração da Ressurreição do Senhor, que venceu a morte, a dor, o inferno e o pecado. É o canto da Vitória. ‘Ó morte, onde está o teu aguilhão?’

A vitória de Cristo é a vitória de cada um de nós que morreu com Ele no batismo e ressuscitou para a vida permanente em Deus; agora e na eternidade.

Celebrar a Semana Santa é celebrar a vida, a vitória para sempre. É recomeçar uma vida nova, longe do pecado e em comunhão mais íntima com Deus. Diante de um mundo carente de esperança, que desanima da vida, porque não conhece a sua beleza, celebrar a Semana Santa é fortalecer a esperança que dá a vida. O Papa Bento XVI disse em sua Encíclica ‘Spe Salvi’ que sem Deus não há esperança, e sem esperança não há vida.

Esta é a Semana Santa que o mundo precisa celebrar para vencer seus males, suas tristezas e desesperanças.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.procampuseducacao.com.br/semana-santa-tempo-de-recolhimento-e-reflexao/

 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

O pórtico da Paixão: devoções para o início da Semana Santa

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Rodrigo Rios

 

‘Com o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, inicia-se a Semana Maior. Nela, somos convidados a adentrar profundamente no mistério da Redenção, assim como Jesus entrou em Jerusalém. É fundamental recordar que a Quaresma ainda não se findou; por isso, o espírito de penitência permanece presente, manifestado liturgicamente pela cor roxa e pelo silêncio meditativo.

Os três dias que antecedem o Tríduo Pascal não constituem um mero intervalo, mas um período de ascese e preparação. Historicamente, esses eram os momentos finais de purificação dos catecúmenos que seriam batizados na Vigília Pascal. Ao rememorarmos essa tradição, somos impelidos a buscar práticas que nos tornem mais puros, preparando nosso ‘traje de festa’, a veste batismal da alma, para a grande Solenidade das solenidades.

Em muitas comunidades, o povo fiel cultiva devoções que enriquecem a compreensão dos mistérios da salvação. Destaco aqui algumas das mais significativas.

O Terço ou Coroa das sete dores de Nossa Senhora 

Esta prática conduz-nos à meditação desde a profecia de Simeão até o sepultamento de Cristo que muito fez doer o coração de Nossa Senhora. A Virgem Maria esteve presente de modo único junto à Cruz. Por isso, unir-se às suas dores é o caminho mais curto para consolar o coração de Cristo.

A procissão do encontro 

Uma das expressões mais belas da religiosidade popular luso-brasileira. Geralmente, a imagem do Senhor dos Passos (Jesus carregando a cruz) e a de Nossa Senhora das Dores partem de lugares distintos para se encontrarem em um ponto central. Tradicionalmente, os homens acompanham o Senhor dos Passos e as mulheres seguem a Virgem. Esse rito rememora o doloroso encontro entre Mãe e Filho na Via dDolorosa, movendo os fiéis à contrição.

Sermão das Sete Palavras 

Trata-se de uma profunda meditação sobre a agonia de Cristo através das sete últimas expressões ditas por Ele na Cruz. É uma síntese harmônica dos quatro Evangelhos que revela o testamento de amor e misericórdia do Redentor.

O Ofício das Trevas (Tenebrae) 

Uma das cerimônias mais impressionantes e psicologicamente densas da tradição cristã. Durante o canto dos salmos, as velas do candelabro são apagadas uma a uma, simbolizando o abandono sofrido por Jesus. O uso das matracas ao final, o chamado Strepitus, evoca o terremoto e a desolação da natureza diante da morte do seu redentor. A última vela, que permanece acesa, mas é momentaneamente escondida, representa a divindade de Cristo que, embora oculta na morte, jamais se apaga.

Outras práticas 

Além dessas práticas, o fiel dispõe da Via Sacra, do rosário, das meditações espirituais dos santos, das orações e de tantas outras. O essencial é não perder de vista o sentido destes dias: cada exercício espiritual deve ser um tijolo no edifício espiritual que estamos construindo, permitindo-nos participar do mistério pascal com renovado fervor. Procedendo assim, seremos capazes de tocar a totalidade deste mistério que nos salva.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-03/portico-paixao-devocoes-inicio-semana-santa0.html

 

domingo, 29 de março de 2026

Apelo dos líderes das Igrejas de Jerusalém: a morte não tem a última palavra

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Giovanni Zavatta


‘Como as Escrituras ensinam e a fé revela, ‘a desolação do túmulo não foi o fim de uma história; a morte não teve a última palavra. Pelo poder de Deus, Cristo ressuscitou vitorioso da sepultura, rompendo os laços do pecado e da morte. Por isso, nestes tempos catastróficos, reafirmamos estas palavras poderosas e encorajadoras às nossas comunidades e aos cristãos do mundo inteiro’ : eis o que escreveram os patriarcas e líderes das Igrejas de Jerusalém em sua mensagem de Páscoa, que acaba de ser divulgada. E acrescentam : ‘Neste ano, nas semanas que precedem a comemoração da morte e ressurreição de Cristo, uma nova e devastadora guerra regional levou, mais uma vez, a Terra Santa e o Oriente Médio a um verdadeiro caos’.

Cada dia que passa comporta uma escalada sempre mais violenta : um ciclo implacável de morte, destruição e sofrimentos horríveis, que agora até se espalha pelo mundo inteiro, causando crescentes dificuldades econômicas. Desta nuvem negra de devastação progressiva, uma profunda obscuridade envolve a nossa região, sufocando até o ar da sepultura sigilada de Cristo crucificado. A nossa esperança parece ter-nos abandonado’. ‘No entanto, como Cristo ressuscitou dos mortos por meio da glória do Pai, também nós possamos caminhar rumo a uma vida nova’ (Romanos 6,4).

Orações pelos que sofrem por causa da guerra

Eis, portanto, o convite dos líderes religiosos de Jerusalém aos fiéis e a todos os homens e mulheres de boa vontade : ‘Trabalhar e rezar, incessantemente, pelo alívio das inúmeras multidões de todo o Oriente Médio, que sofrem gravemente pelas devastações guerra’. E concluem : ‘Exortamos todos a interceder por uma solução imediata, a fim de que o derramamento de sangue acabe e a justiça e a paz possam, finalmente, prevalecer em toda a nossa região, dilacerada pela guerra, começando por Jerusalém até chegar a Gaza, Líbano, toda a Terra Santa, os Estados do Golfo, Teerã e aos confins da Terra’.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-03/terra-santa-mensagem-pascoa-lideres-igrejas-jerusalem-2026.html

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Uma luz no fim do feed

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Mundo digital  (Julien Eichinger - Fotolia)

*Artigo de Marcus Tullius

Comunicação da Cáritas América Latina e Caribe


‘A decisão inédita de um júri de Los Angeles, no dia 25 de março, colocou Google e Meta no centro de um debate que extrapola o campo do Direito. Ao considerá-las responsáveis por contribuir para uma crise de saúde mental entre adolescentes e jovens, a partir do funcionamento de plataformas como YouTube e Instagram, o caso deve entrar, definitivamente, no debate público. O problema deixa de ser lido como fragilidade do usuário e passa a ser reconhecido como efeito de um sistema desenhado para capturar. Portanto, não é uma condenação do conteúdo que está circulando, mas da arquitetura da plataforma e a responsabilização de seus donos.

O caso em questão envolve uma jovem de 20 anos que afirmou ter se viciado nos aplicativos devido ao seu design atraente. Isso é resultado de uma lógica simples e profundamente eficaz. As plataformas existem para reter a atenção. E, uma vez retida, essa atenção precisa ser convertida em valor econômico. O tempo que se passa na tela não é apenas um indicador de uso — é a própria matéria-prima de um modelo de negócios.

Isso ajuda a compreender por que não se trata apenas de conteúdo produzido — que não é menos relevante —, mas de arquitetura. Rolagem infinita, notificações constantes, vídeos encadeados, recompensas intermitentes : tudo converge para prolongar a permanência nos aplicativos e dispositivos. Não porque o usuário decidiu livremente ficar, mas porque o ambiente foi desenhado para tornar a saída cada vez menos provável. Byung-Chul Han descreve em Não-coisas : reviravoltas do mundo da vida (2022) que ‘o constante digitar e deslizar no smartphone é um gesto quase litúrgico que influencia massivamente a relação com o mundo’ (p. 43) e que ‘o dedo que digita torna tudo consumível’ (p. 45). A captura permanente da atenção não se dá contra a vontade, mas é previamente orientada para gerar esse comportamento automatizado em vista do lucro.

Esta talvez seja apenas a ponta mais emergente de um iceberg daquilo que Shoshana Zuboff define em A era do capitalismo de vigilância (2021), como ‘uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais dissimuladas de extração, previsão e vendas’. Este capitalismo de vigilância, extremamente predatório, nos deixa inertes diante desta arquitetura global de modificação de comportamento. A autora, professora emérita de Harvard, nem menciona à época a inteligência artificial, o que hoje acentua ainda mais a dimensão do problema de mudanças comportamentais e vícios. A atenção é capturada, convertida em dado e processada como valor. E o vício não é apenas um acidente do percurso, mas peça chave para o seu funcionamento.

Você já parou para perceber a enxurrada de notificações que recebe ao longo do dia? Até aqui, na leitura deste texto, você foi roubado quantas vezes por alguma notificação ou para checar alguma rede social? Não por acaso estamos muito mais dispersos e com a capacidade de atenção reduzida. O tempo de exposição às telas e os seus mecanismos de retenção da atenção afetam a todos, mas têm um efeito ainda mais danoso quando seus usuários são crianças e adolescentes. Especialistas de diversas áreas têm alertado sobre este impacto das centenas, ou até milhares de notificações, sobre um cérebro ainda em formação e que é constantemente interrompido. 

A decisão do tribunal nos Estados Unidos acontece poucos dias depois da entrada em vigor do chamado ECA Digital, no Brasil. Ao colocar crianças e adolescentes no centro desse debate, reconhece-se que ambientes digitais exploram vulnerabilidades cognitivas e emocionais. E isso não pode mais ser tratado como efeito colateral ou como responsabilidade do usuário.

Uma luz no fim do feed talvez não seja ainda a solução de todos os problemas, mas o resultado e a aceitação deste argumento por parte de um tribunal poderão influenciar milhares de casos semelhantes que estão tramitando contra as empresas de tecnologia, movidos por pais e outros atores.

A condenação de Google e Meta quebra uma lógica que parecia intocável e acelera um debate poliédrico que já não pode ser adiado. Poliédrico, porque não se trata apenas de regular as plataformas considerando o que circula nelas, mas sobretudo o modo como são desenhadas, seus mecanismos de retenção, seus algoritmos e a própria economia da atenção que as sustenta; de investir seriamente em educação midiática, capaz de formar sujeitos críticos que compreendam como funcionam esses ambientes e não apenas aprendam a usá-los; e de fortalecer o acompanhamento de crianças e adolescentes, como presença atenta, diálogo constante e construção de critérios no interior das famílias e comunidades.

Tais apelos encontram ressonância na mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2026. Ainda que situados no campo da inteligência artificial, os três pilares propostos — responsabilidade, cooperação e educação — oferecem uma proposta muito clara para e que precisam ser assumidas de forma mais ampla no conjunto do ambiente digital em que estamos inseridos.

Esta decisão importa tanto não porque resolva o problema, mas porque introduz um ponto de inflexão : aquilo que antes operava sem responsabilização começa, enfim, a ser nomeado — e cobrado. E, quando isso acontece, o debate já não pode mais ser evitado.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-03/uma-luz-fim-feed.html

 

terça-feira, 24 de março de 2026

As grandes civilizações africanas - A rica história do continente africano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Muitos estudantes provenientes de países localizados nesse continente, ao trabalhar suas teses de mestrado (Licença) ou doutorado preferem, em vez de aprofundar temas próprios da cultura ou da história de seu continente, debruçando-se sobre temas próprios da Europa. Não que isso não seja importante, mas perde-se a oportunidade de tornar mais conhecido a história que somente a parir dos anos de 1960 ou 1970 passou a ser melhor explorado.

A verdadeira ‘descoberta’ da África

Assim como aconteceu em relação ao Brasil ou às Américas a historiografia refez o conceito de ‘descoberta’, não mais como o ‘achamento’ de um povo desconhecido, mas sim como encontro de civilizações.

Desde os primeiros estudos acadêmicos e científicos sobre a história e culturas da África, muitas vezes houve a tendência em se considerar o continente como uma região sem história ou com uma história menos significativa do que outras regiões do mundo. Essa perspectiva é incorreta por desconsiderar a rica e complexa história do continente africano, como já vimos ao falar dos grandes reinos existentes na África antes da chegada dos europeus a partir dos séculos XV e XVI.

Em comparação com outras regiões do mundo, como Europa ou Ásia, a documentação histórica sobre a África é mais limitada em alguns aspectos. Isso não significa, porém, que a África não tenha tido uma história rica e influente ao longo dos séculos. Na verdade, a história da África é tão antiga quanto a de qualquer outra região do mundo, com suas culturas, sociedades e civilizações existindo por milhares de anos antes do contato com o Ocidente.

Uma nova historiografia

Uma das razões pelas quais a África é frequentemente considerada um continente sem história, ou de uma história muito recente com pouco mais de 500 anos, é por causa da narrativa eurocêntrica que dominou a produção de conhecimento ao longo da história. Isso levou à suposição de que a África não tinha uma história escrita ou uma cultura significativa antes da chegada dos europeus. Hoje se entende que a história africana era contada de forma diferente pela sua gente, em diferentes partes do continente. Diferentemente da Europa em que a história passou a ser escrita mais cedo, na África valia muito a Tradição Oral, presente ainda hoje em vários povos.

Ainda hoje existe uma visão bastante preconceituosa sobre a África, assim como acontece em relação a outras partes daquilo que antigamente era chamado de ‘Terceiro Mundo’ ou de ‘Países em Desenvolvimento’ frequentemente associada à pobreza e ao subdesenvolvimento. Isso acaba levando a uma desvalorização da história e das culturas do continente, sem considerar a riqueza cultural e a diversidade de grupos étnicos, línguas e tradições que existem na África.

A história da África inclui as antigas civilizações do Egito e da Núbia que floresceram há mais de 03 mil anos. Inclui também o Império de Mali, que governou uma grande parte da África Ocidental entre os séculos XIII e XVI. Além disso, a África teve várias outras sociedades, culturas e reinos poderosos ao longo de sua história, incluindo os Impérios Ashanti, Songhai, Zulu e Kongo, entre outros.

Não podemos desconsiderar que além dessas riquezas, a história da África inclui também períodos de colonização e opressão, que tiveram um impacto significativo na região e na sua cultura. A própria escravidão não nasceu apenas com os europeus sendo já praticada antes de sua chegada, seja pelos berberes que transitavam pelo deserto, pelos muçulmanos que dominariam o comércio em várias rotas e também por tribos e aldeias africanas.

A história da África é rica, complexa e diversa, e deve ser valorizada e estudada como qualquer outra história mundial. A ideia de que a África é um continente sem história é uma concepção ultrapassada e prejudicial que deve ser abandonada. É importante compreender e valorizar a história e as culturas do continente africano para se ter uma visão completa e precisa da história mundial e da humanidade.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-rica.html


domingo, 22 de março de 2026

Lectio divina, sinodalidade… e teocracia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Geraldo González y Lima, OSB

Abade do Mosteiro São Geraldo de São Paulo

 

‘Muitas das nossas comunidades monásticas vivem momentos difíceis com o envelhecimento de seus membros, a falta de vocações, as consequências sócio econômicas da pandemia, das mudanças climáticas etc, e devem tomar decisões complexas com respeito ao presente e ao futuro próximo.

Neste contexto, recebemos um apelo renovado do Papa Francisco para utilizar a tradição e a sabedoria do conceito de sinodalidade, na qual cada um é convidado a escutar e a ser escutado.

Quando se pensa em sinodalidade em termos beneditinos, pensa-se logo em RB 3 (cap. 3 da regra de São Bento) em que todos são chamados a conselho, incluindo os mais novos. No entanto, diante das decisões complexas e, às vezes com fortes consequências para as nossas comunidades, perguntamo-nos se somos uma ‘monarquia’, ou uma ‘democracia’, e a mesma tradição monástica nos lembra que não somos nem uma coisa, nem outra, mas uma ‘teocracia’, entendida como a comunidade que procura junta a vontade de Deus e sua realização concreta na vida.

Como então harmonizar ‘sinodalidade’ com ‘teocracia’ para procurar a vontade de Deus e sua realização nas nossas comunidades, segundo a tradição beneditina?

Uma vez mais a tradição monástica beneditina dá-nos um instrumento precioso : a lectio divina partilhada, comunitária! Usamos esse instrumento? Proponho essa possibilidade baseada na leitura bíblica dos discípulos de Emaús (Luc. 24, 13 – 35) :

‘13 Nesse mesmo dia, dois deles viajavam para um povoado chamado Emaús, a duas horas de caminho de Jerusalém, 14 e conversavam sobre todos esses acontecimentos.’

Nos caminhos e na história de salvação das nossas comunidades, falamos de tudo o que acontece, quer sejam momentos de dúvida e de dor, ou de felicidade e de alegria? Vale a pena lembrar que quando partilho uma dor, ela é dividida por dois, e quando partilho uma alegria, ela se multiplica.

‘15 Ora, enquanto caminhavam e discutiam entre si, o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles; 16 mas seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo.’

Aonde dois ou três estão reunidos em seu nome, quer dizer numa lectio partilhada, Não caminha Jesus no meio deles? Mesmo se às vezes não o reconhecemos por causa da aridez, ele ‘está’!

‘17 Jesus disse-lhes : que palavras são essas que trocais enquanto ides caminhando? E eles pararam com o rosto sombrio. 18 Um dos dois, chamado Cléofas, lhe perguntou : tu és o único forasteiro em Jerusalém, que ignora os fatos que nela aconteceram estes dias?’

Às vezes começamos tristemente a lectio divina, mas através da sua Palavra, Jesus não deixa de nos interrogar e de procurar a razão da nossa tristeza. Persevero na procura de Deus?

‘19 Ele disse-lhes : Quais? Responderam : o que aconteceu a Jesus o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo. 20 nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21 Nós esperávamos que fosse ele quem iria redimir Israel; mas com tudo isso, faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22 É verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram. Tendo ido muito cedo ao túmulo 23 e não tendo encontrado o corpo, voltaram dizendo que tinham tido uma visão de anjos a declararem que está vivo. 24 Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres haviam dito; mas não o viram’.

Na lectio divina não encontramos constantemente a paixão, morte e ressurreição de Jesus? E na lectio não encontraremos o sentido da paixão, da morte e da ressurreição de nossas comunidades?

‘Sei que é Páscoa, porque mereci a alegria de te ver’ diz São Bento ao sacerdote que o foi visitar a Subiaco para celebrar a Páscoa com ele (II Dial. 1).

‘25 Ele então lhes disse : insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! 26 Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória? 27 E começando por Moisés e por todos os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito.’

Por conseguinte, na lectio Jesus não nos fala da sua história de salvação e da nossa? Contudo para ter esta ‘inteligência’, quero dizer para fazer esta leitura divina dos acontecimentos baseados nas Sagradas Escrituras, é preciso sempre pedir a ajuda do Espírito Santo.

‘28 Aproximando-se do povoado para onde iam, Jesus simulou que ia mais adiante. 29 Eles, porém, insistiram dizendo : Fica conosco porque cai a tarde e o dia já declina. Entrou então para ficar com eles. 30 E uma vez â mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o e depois partiu-o e distribuiu-o a eles. 31 Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele, porém ficou invisível diante deles.’

Partilhando ‘a mesa da Palavra’, o ambão e partilhando a ‘mesa do Pão’, o altar, não reconhecemos quem é Jesus? Na sua Palavra partilhada não ‘permanece’ ele conosco?

‘32 E disseram um ao outro : Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras? 33 Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Acharam aí reunidos os Onze e seus companheiros (…)’

A lectio divina partilhada nessas ‘mesas’ não torna ardente os nossos corações? Não transforma a tristeza em alegria, e a falta de sentido em esperança? A lectio divina partilhada não nos dirige para a Jerusalém celeste, a Cidade da paz aonde se realiza a vontade de Deus sobre nós?

Não nos pergunta São Bento ‘que página, com efeito, ou que palavra da autoridade divina no Antigo e no Novo Testamento não é uma norma retíssima da vida humana? (RB 73, 3)

‘(…) que lhes disseram : 34 É verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. 35 E eles narraram os acontecimentos do caminho e como haviam reconhecido o Senhor na fração do pão.’

Não nos leva a lectio divina partilhada a ressuscitar com Jesus? Não seria também o caminho da ressurreição das nossas comunidades? Na lectio partilhada não fazemos a experiência do encontro com Jesus e do discernimento da vontade de Deus o Pai pelo Espírito Santo?

Não é este o sentido do ‘Suscipe me’ nas nossas comunidades : ‘Recebe-me Senhor, segundo a tua palavra e terei a vida, e não confundas a minha esperança’ Sal. 118, 116 ?

 Senhor,

Partilhando a tua palavra

Nós te reconhecemos no Pão da Vida

E na história da nossa salvação

Amem’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Cristãos perseguidos no norte da Nigéria

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Bernard Adukwu

 

‘A perseguição contra os cristãos do Norte da Nigéria já atingiu uma dimensão crítica, de tal modo que a zona é frequentemente descrita como um dos locais mais perigosos para os seguidores de Cristo. Os cristãos nesta zona vivem com medo constante dos ataques dos inimigos do Evangelho. Eles experimentam o que diz São Paulo aos Coríntios : «Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; confundidos, mas não desesperados; perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não aniquilados. Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada no nosso corpo.» Segundo os relatórios de 2024-2025, mais de 7000 cristãos foram mortos nos primeiros oito meses de 2025. Em 2024, foram mortos cerca de 3000 cristãos.

A noite do dia 13 de Junho de 2025 foi uma noite cruel, horrível e inesquecível para a comunidade cristã de Yelwata. Mais de 200 pessoas foram exterminadas nesta noite cruel (a maioria eram pessoas idosas, mulheres e crianças), e muitas foram raptadas. Yelwata é uma comunidade relativamente pequena, com uma população de 5000 habitantes no Estado de Benue ; 99,8 por cento são cristãos e mais de 80 por cento são católicos. A situação desta comunidade piorou quando o bispo da Diocese de Makurdi denunciou as perseguições perante o Congresso dos Estados Unidos da América. Os cristãos desta localidade estão a viver momentos complicados : muitas pessoas deslocadas das suas casas, casas queimadas, crianças separadas das famílias, etc. Diante desta realidade, o Governo nigeriano negou a existência desta crueldade contra a humanidade.

Kaduna é um dos Estados na Nigéria, situado no Norte, que possui uma população cristã significativa e muito vibrante. Os cristãos neste Estado constituem aproximadamente 50 por cento da população, sobretudo no Sul de Kaduna. Os cristãos nesta localidade enfrentam uma perseguição sistemática : ataques no lugar do culto, raptos, muitas igrejas queimadas. Em Janeiro deste ano de 2026, mais de 160 cristãos foram raptados na igreja, no Sul de Kaduna. Estes extremistas vieram em grande número durante a celebração, cercaram a igreja e raptaram grande número de fiéis.

Não podemos também esquecer uma noite horrível na igreja de Christ Apostolic Church, Illorin, Estado de Kwara, onde tinha ocorrido um ataque durante o culto. Homens armados entraram na igreja e abriram fogo contra os fiéis. Neste ataque, morreram três pessoas e algumas foram feridas. Estes extremistas escaparam quando chegaram agentes e vigilantes locais.

Em última análise, ser cristão no Norte da Nigéria é mesmo desafiante. É preciso ser uma pessoa de fé e coragem para viver nesta região, onde ser cristão é considerado crime. Mas confiando nas palavras de São Paulo somos fortalecidos : «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?» (Rom 8, 35-36). Na verdade, somos perseguidos, mas não desamparados.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1570/cristaos-perseguidos-no-norte-da-nigeria/

 

quarta-feira, 18 de março de 2026

São José esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria (século I)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave-Maria


‘Quando a condescendência divina escolhe alguém para uma missão especial ou para um estado sublime, concede à pessoa escolhida todos os carismas que lhe são necessários para a sua realização… Eis quanto se realizou sobretudo no grande São José.’

O Evangelho chama José de homem justo, como eram chamados os antigos patriarcas de Israel. Ele, como aqueles, acreditava no amor de Deus para com o seu povo e a humanidade inteira e esperava pelo cumprimento da promessa da salvação, de uma salvação que viria do alto. Então se achava envolto em primeira pessoa nesta extraordinária aventura.

Os evangelhos de Mateus e de Lucas nos falam de José na medida em que os acontecimentos de sua vida estão relacionados com o nascimento e a infância de Cristo; eles não tiveram nenhuma intenção de escrever uma biografia de José. Mateus (1,1-16), querendo explicar a descendência davídica do Messias, escreve a genealogia de Jesus e conclui com estas palavras : ‘Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado de Cristo’ (16). Desse modo, o evangelista lhe assegurava a descendência de Davi, pois, para os hebreus, o que tinha valor era a paternidade legal.

Quanto a não haver nenhuma dúvida a respeito da concepção virginal de Cristo por obra do Espírito Santo, Mateus continua : ‘Eis como aconteceu o nascimento de Jesus Cristo : sua mãe Maria, sendo prometida a José, como esposa, antes de coabitarem, encontrou-se grávida por obra do Espírito Santo’ (1-18). Quando José soube que Maria esperava um filho, concebido sem a sua participação, não sabia o que pensar. Maria, por sua, vez não podia explicar, pois era muito grande o mistério. Como para ela, também para seu esposo era necessária uma luz divina.

José, sendo um homem justo, não quis repudiar sua esposa e, antes de comunicar o acontecimento aos parentes de Maria, invocou a ajuda de Deus. Sua oração foi ouvida e ele escutou : ‘José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque aquele que foi gerado nela é obra do Espírito Santo. Eis que ela dará à luz um filho e tu o chamarás Jesus’ (Mt 1,20-21). Nesse momento, em que o véu do mistério estava um pouco descoberto, os dois cônjuges puderam passar a viver juntos e toda a sua existência foi dirigida para uma terceira pessoa : o filho que, vindo do alto, tinha vindo morar entre nós.

O evangelista Lucas, depois de ter descrito a anunciação a Maria e sua visita a Isabel, narra-nos outros episódios da infância do Messias. Antes de tudo, o seu nascimento. Jesus nasceu em Belém, pois José, da casa de Davi, deveria se transferir com sua esposa para essa cidade para fazer o recenseamento ordenado pelos romanos. O menino nasceu em um ambiente pobre, recebeu homenagem de pastores simples e mais tarde de nobres reis magos. No oitavo dia foi circuncidado e José impôs-lhe o nome de Jesus, como Deus lhe havia ordenado. Foi levado também a Jerusalém, como ordenava a lei de Moisés, para ser apresentado ao templo. Nessa ocasião, tiveram a oportunidade de ver o regozijo do velho Simeão e da profetiza Ana, mas ouviram também a profecia que Simeão fez a respeito do menino : será sinal de contradição. 

O evangelista conta que José cuidou do menino e de sua mãe e percebeu que não havia lugar para eles em Israel, por inspiração divina tomaram o caminho do exílio para o Egito. Retornaram para a pátria somente depois da morte do feroz Herodes, autor da matança dos inocentes. Não permaneceram na Judeia, onde reinava o filho de Herodes, que não era diferente do pai. Preferiram ir para a Galileia dos gentios, em Nazaré, onde como bom carpinteiro poderia ganhar o suficiente para manter a família.

O único episódio desse período, descrito no Novo Testamento, é o desaparecimento de Jesus em Jerusalém. Ele foi com seus pais para a festa da Páscoa. Depois de três dias de angústia de seus pais, ele foi encontrado entre os doutores da lei. Jesus disse aos seus pais : ‘Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo me ocupar das coisas de meu Pai?’ (Lc 2,49) Em seguida, o evangelista acrescenta : ‘Retornou a Nazaré e lhes era submisso’ (Lc 2,51).

Nesse ponto o evangelista silencia. Nós não temos palavras humanas adequadas para descrever o que se passou com aquela família, onde a vida trinitária vivia a cada dia a experiência humana. Isso por trinta anos, durante os quais Jesus crescia em idade, sabedoria e graça. ‘Trinta anos dos quais quase nada se conhece. É um mistério. O mistério do amor. O mistério do amor divino e humano entre coração de carne, vestido de virgindade. Ninguém o compreendeu. Alguma coisa nós só saberemos no Paraíso, na proporção de quanto na Terra os tivermos amado e seguido.’

‘Na família de Nazaré, Maria certamente educava, mas educava ouvindo a voz do Espírito Santo dentro dela, que estava em harmonia com o Filho de Deus, que estava diante dela. Educava também o seu filho, obedecendo-lhe. Por outra parte, Jesus Menino – Ele era o guia da família de Nazaré, porque era Deus – estava também submisso a Maria e a José, como diz a Escritura. José, por sua vez, chefe da família aos olhos dos outros, pois era tido como pai de Jesus, pois Jesus lhe obedecia e porque Maria sem dúvida lhe terá obedecido, era ao mesmo tempo submisso a Deus e à mãe de Deus. De tudo isto se vê que os três, de um ponto de vista, mandavam e os três, de um outro ponto de vista, obedeciam.’

Durante a vida pública de Jesus não se diz nada de José, somente no início, quando as pessoas, diante da sabedoria e da autoridade com que o jovem rabino ensinava e do seu poder de realizar milagres, perguntavam-se estupefatas : ‘Não é ele o filho de José?’ (Lc 4,22). Mas José já havia cumprido sua missão e não parece que ainda estivesse vivo naquela terra.

Na linguagem que se tornou tradição, José é chamado o suposto pai de Jesus. Se de uma parte esse título salvaguarda a concepção virginal de Cristo, de outra não exprime plenamente a relação de paternidade existente entre José e o Salvador. Um autor medieval já tinha observado que ‘José foi o verdadeiro pai em ordem ao Matrimônio’, embora ‘suposto pai em ordem à geração corporal’. São Tomás de Aquino acrescentou : ‘José é ao mesmo tempo tanto pai de Cristo quanto esposo de Maria, não em virtude da união carnal, mas do vínculo matrimonial’.

Por causa dessa relação especial com Jesus e Maria, José sempre foi muito venerado na Igreja. Pio IX, resumindo a herança dessa longa tradição, proclamou-o patrono da Igreja Universal e Leão XIII o indicava como modelo de todas as famílias cristãs. Bento XV escreveu : ‘A casa divina, que José governou (…) continha os princípios da igreja nascente (…). Como consequência disso, o santo patriarca deve sentir como confiada a si, por essa especial razão, toda a multidão dos cristãos’. Pio XII o propôs como exemplo para todos os trabalhadores e fixou o dia 1º de maio como Festa de São José Trabalhador, que ‘enobreceu o trabalho humano, sustentado e animado pela convivência de Jesus e Maria’ e ‘exercendo sua arte com empenho e virtude admiráveis, tornou-se o mestre de trabalho do Cristo Senhor que não desdenhou ser chamado filho do carpinteiro’.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-jose-esposo-da-bem-aventurada-virgem-maria-seculo-i.html

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

Conheça a couraça de São Patrício

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Rosa Maria Dilelli Cruvinel 


‘A couraça de São Patrício é uma oração popular de proteção e invocação à Santíssima Trindade, atribuída a São Patrício, um dos santos mais queridos e padroeiro da Irlanda. A couraça nos recorda a Carta de São Paulo aos Efésios, na qual o apóstolo fala para os cristãos se revestirem da armadura de Deus para resistirem nos dias maus (cf. Ef 6,11). A oração revela a confiança do fiel na proteção divina que age em sua defesa contra males físicos, espirituais, tentações, e perigos ligados àqueles que combatem contra a fé católica.

Nascido na Grã-Bretanha, a oração revela os combates que travou Patrício ao longo da sua história de vida. Aos 16 anos foi capturado e vendido como escravo por piratas irlandeses, mas conseguiu fugir para a França. Após um caminho de discernimento, deu ao sofrimento enfrentado um sentido para sua vida : tornou-se sacerdote missionário, evangelizou na Inglaterra e voltou para evangelizar na Irlanda. Como bispo, deu testemunho de santidade de tal modo que a antiga Irlanda.

Segundo a tradição, São Patrício a escreveu por volta de 433 d.C., a fim de invocar a proteção divina e após obter o êxito da conversão, do paganismo ao cristianismo, do rei irlandês e dos seus súditos. Foi muito usada na Idade Média, com o objetivo de proteger os cavaleiros em combate contra os golpes dos seus inimigos.

A oração como é conhecida atualmente está contida no Liber hymnorum, uma coleção de hinos litúrgicos encontrada em Dublin, na Irlanda. Está presente também, ainda que em partes, na Vita tripartita Sancti Patricii, uma biografia do santo.

É também uma oração de cunho profundamente cristológico, pois clama pela graça presente nos mistérios da vida de Cristo : nascimento, crucificação, ressurreição e julgamento dos mortos. O autor pede a Cristo orientação e uma amplitude de proteção contra as forças malignas a tal ponto que invoca o nome de Cristo para ser totalmente envolvido pela sua presença. Essa parte final da oração é famosa pela repetição da invocação de Cristo : ‘Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim, Cristo em mim, Cristo embaixo de mim…’.

A oração da couraça destaca a confiança na proteção de Deus e a unidade do Criador com a criatura. Ela é um clamor pela proteção divina contra inimigos espirituais, falsos profetas, vícios, tentações e perigos naturais.

São Patrício a rezou a fim de se proteger de emboscadas inimigas em suas atividades missionárias, tornando-se uma das orações mais conhecidas da tradição cristã no combate espiritual. A vida de São Patrício nos revela um combatente fiel, que soube dar sentido ao sofrimento e se valeu da força da oração e da confiança na proteção de Deus, sua verdadeira couraça.

Essa oração é reconhecida por revestir o cristão com uma armadura espiritual que age como um escudo no corpo, na mente e na alma, contra todos os ataques dos espíritos infernais, ajudando o fiel a vencer as tentações e desafios diários com maior confiança em Deus. A invocação da Santíssima Trindade foi uma salutar prática dos santos; tal invocação pode levar a uma vida de maior propósito de santidade, integridade e crescimento na confiança em Deus.

Essa célebre oração é usada para buscar a força de fé, paz e proteção divina, especialmente em momentos de batalha espiritual e desafios da vida. Rezemos a oração da couraça de São Patrício.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

por uma grande força, a invocação da Trindade,

pela fé na Tríade,

pela afirmação da unidade

do Criador da criação.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

pela força do nascimento de Cristo e de seu Batismo,

pela força de sua crucificação e sepultamento,

pela força de sua ressurreição e ascensão,

pela força de sua descida para o julgamento dos mortos.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

pela força do amor dos querubins,

em obediência aos anjos,

a serviço dos arcanjos,

pela esperança da ressurreição e do prêmio,

pelas orações dos patriarcas,

pelas previsões dos profetas,

pela pregação dos apóstolos

pela fé dos confessores,

pela inocência das virgens santas,

pelos atos dos bem-aventurados.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

pela força do céu :

luz do sol,

clarão da lua,

esplendor do fogo,

pressa do relâmpago,

presteza do vento,

profundeza dos mares,

firmeza da terra,

solidez da rocha.

Levanto-me, neste dia que amanhece :

que a força de Deus me dirija,

que o poder de Deus me ampare,

que a sabedoria de Deus me guie,

que o olhar de Deus me vigie,

que o ouvido de Deus me ouça,

que a palavra de Deus me faça eloquente,

que a mão de Deus me guarde,

que o caminho de Deus me esteja à frente,

que o escudo de Deus me proteja,

que o exército de Deus me defenda

das armadilhas do demônio,

das tentações do vício,

de todos os que me desejam mal,

longe e perto de mim,

agindo só ou em grupo.

Conclamo, hoje, tais forças a me protegerem contra o mal,

contra qualquer força cruel que me ameace corpo e alma,

contra a encantação de falsos profetas,

contra as leis negras do paganismo,

contra as leis falsas dos hereges,

contra a arte da idolatria,

contra feitiços de bruxas e magos,

contra saberes que corrompem o corpo e a alma.

Cristo guarde-me hoje

contra veneno, contra fogo,

contra afogamento, contra ferimento,

para que eu possa receber e desfrutar a recompensa.

Cristo comigo,

Cristo à minha frente,

Cristo atrás de mim,

Cristo em mim,

Cristo embaixo de mim,

Cristo acima de mim,

Cristo à minha direita,

Cristo à minha esquerda,

Cristo ao me deitar,

Cristo ao me sentar,

Cristo ao me levantar,

Cristo no coração de todos a quem eu falar,

Cristo na boca de todos os que me falarem,

Cristo em todos os olhos que me virem,

Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem.

Levanto-me, neste dia que amanhece,

por uma grande força, pela invocação da Trindade,

pela fé na Tríade,

pela afirmação da Unidade,

pelo Criador da criação. Amém.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/conheca-a-couraca-de-sao-patricio.html