domingo, 15 de fevereiro de 2026

O ano litúgico de 2026

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Antonio Ferreira, cmf


Ano A : Um caminho `a Luz do Evangelho de Mateus 

‘O ano litúrgico de 2026, correspondente ao Ano A, conduz toda a Igreja a uma imersão renovada no Evangelho segundo Mateus, texto que ocupa um lugar privilegiado na tradição cristã e que, de maneira profundamente catequética, apresenta Jesus como o Messias esperado e o Mestre definitivo. A cada domingo, a liturgia oferece à comunidade passagens que revelam a identidade de Cristo, a natureza do Reino de Deus e as exigências da vida discipular. Nesse contexto, Mateus se torna um guia seguro para quem deseja compreender mais plenamente a missão de Jesus e o sentido do seguimento cristão.

Estrutura catequética : Os cinco grandes discursos

 Um dos traços mais marcantes do Evangelho de Mateus é sua estrutura cuidadosamente organizada. Após o relato da infância, o evangelista dispõe sua obra em torno de cinco grandes discursos, que ecoam simbolicamente os cinco livros da lei (Pentateuco). Assim, Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés, o intérprete autorizado da vontade divina. Esses discursos são :

  • o Sermão da Montanha (Mt 5-7), verdadeiro manifesto do Reino, em que Jesus propõe um caminho de justiça superior, fundada na misericórdia, na pureza de coração e na vivência radical do amor;
  • O discurso missionário (Mt 10), que envia os discípulos a anunciar o Reino, confiando totalmente em Deus e enfrentando com coragem os desafios da missão;
  • O discurso das parábolas (Mt 13), no qual Jesus revela, por imagens e comparações, o dinamismo misterioso e fecundo do Reino de Deus;
  • O discurso eclesial (Mt 18), que traz orientações para a vida comunitária, destacando o perdão, o cuidado com os pequenos e a responsabilidade fraterna;
  • O discurso escatológico (Mt 24-25), que ilumina a esperança cristã e convida à vigilância, culminando com a parábola do juízo final, em que somos chamados a reconhecer Cristo nos irmãos mais pobres.

Jesus, o Emanuel : O cumprimento das promessas

Em todo o Evangelho, Mateus salienta que Jesus é o cumprimento das Escrituras. Frequentemente, cita o Antigo Testamento para mostrar que a vida e a missão de Cristo não são um improviso, mas a realização das promessas feitas por Deus ao seu povo. Desde o nascimento, quando o evangelista proclama que Jesus é o Emanuel, ‘Deus conosco’, até a ressurreição, com a promessa final de sua presença contínua, Mateus convida os discípulos a reconhecerem que, em Jesus, Deus habita no meio da humanidade.

A comunidade como sinal do Reino

Outro aspecto fundamental em Mateus é a centralidade da vida comunitária. Para ele, seguir Jesus implica viver reconciliado, praticar o perdão e assumir responsabilidades mútuas. O Evangelho evidencia a missão confiada à Igreja : ser espaço de acolhida, de correção fraterna e de anúncio. A figura de Pedro, destacada em alguns momentos, recorda a importância do serviço e da unidade, enquanto o cuidado com os pequenos e os vulneráveis revela o verdadeiro rosto do Reino.

A universalidade da salvação

Embora profundamente enraizado na tradição judaica, Mateus sublinha a abertura universal da mensagem de Jesus. Os magos vindos do Oriente, logo nos primeiros capítulos, antecipam o que será plenamente revelado no fim do Evangelho : ‘Fazei discípulos de todas as nações’ (Mt 28,19). Assim, o Ano A é também um convite a renovar o ardor missionário, compreendendo que a Boa-Nova é destinada a todos os povos.

Um caminho de conversão e maturidade espiritual

Ao longo de 2026, a liturgia proporá leituras que destacam a justiça, a misericórdia, a coerência e a opção pelos pobres. O Evangelho de Mateus é exigente, mas profundamente consolador : chama à conversão interior, mas revela também a paciência e a compaixão de Deus. Nesse itinerário, a comunidade é convidada a amadurecer a fé, fortalecer a esperança e testemunhar a caridade.

Assim, o ano litúrgico de 2026, guiado pelo Evangelho de Mateus, torna-se verdadeira escola de discipulado. Nele, a Igreja aprende a reconhecer a presença amorosa de Cristo, a meditar sua Palavra e a renovar o compromisso missionário, caminhando com confiança rumo ao Reino que já se faz presente entre nós.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-ano-litugico-de-2026.html

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Os Mártires: As fiéis testemunhas de Jesus Cristo e de sua Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

‘‘Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa’ (Mt 5,11-16) : esta frase desconfortável do Evangelho continua atual hoje, no terceiro milênio cristão.

A palavra ‘mártir’ vem do grego ‘mártys’, que significa ‘testemunha’, aquele que anuncia, atesta e chora a alegria da ressurreição. Aquele que canta a vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio, da justiça sobre a arbitrariedade dos poderosos.

A grande manhã do martírio cristão foi com Santo Estêvão, humilde diácono das mesas dos Atos dos Apóstolos, a quem Lucas confia a ‘coroa do testemunho’. Por causa desse precioso testemunho, Estevão ganhou o título de ‘protomártir’ da Igreja, um verdadeiro pilar da fé cristã católica.

O martírio é, portanto, por impulso, o anúncio evangélico, o esplendor de uma palavra que é uma boa notícia para os pobres, os oprimidos e os prisioneiros e que ninguém pode extinguir mesmo com a desfiguração, tortura e desprezo. Enquanto o martírio, de fato, marca a transparência da vida cristã, a fé bíblica não quer sacrifício; ao contrário, é expressa em mil casos contra ele. Assim diz Jesus no Evangelho de Mateus : ‘Ide aprender o que significa : quero misericórdia e não sacrifício’ (9,13; 12,7), o que importa é o coração aberto a Deus e ao próximo. O sacrifício não serve para a salvação, porque a salvação é o dom do Senhor.

Os mártires são testemunhas de esperança e paz, são aqueles que, com sua extrema doação, testemunham a fidelidade ao Evangelho da cruz, um amor extremamente forte por Jesus Cristo e por seu Reino.

Tertuliano, um dos padres da Igreja, dizia que ‘o sangue dos mártires é a semente dos novos cristãos’. De fato, sem qualquer dúvida, essa semente produziu seus frutos ao longo da história da Igreja. As perseguições aos cristãos sempre foram uma realidade violenta e desafiadora, mas os arautos do Senhor nunca se intimidaram nem recuaram a responder com fidelidade ao Evangelho.

É precisamente esse sangue derramado no amor e por amor, pela própria fé que cria uma ponte entre todas as regiões do mundo. É o sangue de Cristo o elo entre as realidades, que ainda hoje se manifesta na pessoa de nossos irmãos e irmãs vítimas de perseguição, terrorismo em geral e terrorismo de grupos, de violência irracional e da intolerância religiosa.

A perseguição, portanto, está intrinsecamente presente na vida dos cristãos. Essa profecia, misteriosamente preservada em cada discípulo, é uma realidade tangível em todas as suas dimensões de violência contra os cristãos desde a Igreja nascente.

Os apóstolos se reuniam às escondidas e muitas vezes encontravam no silêncio e no anonimato a forma mais verdadeira de viver a fidelidade a Jesus Cristo, isso também era forma de martírio.

É triste quando nossas sociedades permitem que os idosos sejam descartados ou esquecidos. É repreensível quando os jovens são explorados pela atual escravidão do tráfico de pessoas. Se olharmos cuidadosamente para o mundo ao nosso redor, parece que em muitos lugares o egoísmo e a indiferença estão se espalhando.

Quantos de nossos irmãos e irmãs são vítimas da cultura ‘descartável’ de hoje, que gera desconsideração especialmente para crianças não nascidas, jovens e idosos. É aqui que o testemunho dos mártires se manifesta concretamente por amor ao Evangelho, eles dão suas vidas sem nada querer em troca. É simplesmente por um amor apaixonado e desinteressado, um amor livre capaz de ir ao encontro dos irmãos, muitas vezes em países longínquos, que oferecem a si mesmo em favor dos outros, e assumem a cruz de Jesus Cristo na vida dos mais pobres e sofredores, em diversas partes do mundo.

O sangue dos mártires é o sangue da esperança que ao cair no chão traz frutos de nova vida para a vida do Reino. Não há amor maior que dá a vida pelos irmãos. Os mártires, ainda hoje, sem demora se oferecem para o anúncio de Cristo e do seu Evangelho.

Também nós queremos oferecer cotidianamente nosso ‘sim’ ao Senhor e com fidelidade viver a graça do mesmo anúncio e testemunho da fé. Esse é verdadeiro kerigma da esperança e da vida em plenitude.

Com vidas de entrega total e sem reservas ao Senhor e ao seu Reino, os mártires são partícipes por excelência do amor de Jesus Cristo, Ele que dá tudo que é oferecendo a todos, sem limites para além das fronteiras humanas.

Assim são os mártires missionários ad gentes, que vão aonde ninguém quer ir. O testemunho cristão do martírio faz a Igreja brilhar em toda a sua beleza. Segue descobrindo e redescobrindo sua natureza e vocação no mundo.

Na vida do cristão, tudo deve se remeter a Deus, não há dimensão da vida do homem e muito menos do homem de fé que não tenha relação com Ele, isso significa que o homem livre e graças à luz interior pode discernir aquilo que o aproxima de Deus e aquilo que o leva para longe dele. A graça do martírio o faz estar muito próximo de Deus e do seu Reino.

Os mártires expressam essa liberdade da maneira mais elevada e, no dom de si aos outros, mostram a nós que é possível transcender os próprios interesses, erradicar em si toda forma de egoísmo. A Igreja reconhece o valor do martírio e sente-se fortalecida em sua missão quando contempla o testemunho dos mártires da fé.

O apóstolo São Paulo está ciente de que seu comportamento não é desprovido de valor para os que lhe são confiados. O seguimento de Cristo o envolve plenamente, obriga-o a ser coerente, para que não aconteça que ele mesmo seja um obstáculo para seus irmãos no caminho de Cristo, que ele não é um escândalo para aqueles que querem seguir a Jesus.

Todos os mártires cristãos são modelos para nós, vivendo coerentemente o mandato evangélico. Não apenas evitamos escândalos, mas nos tornamos proclamadores de Cristo, portadores da Boa-Nova para o mundo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/os-martires-as-fieis-testemunhas-de-jesus-cristo-e-de-sua-igreja.html


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

As grandes civilizações africanas - Império Songai

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Sunni Ali Ber - fundador do império de Songai


*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR 

 

‘O Império Songai (ou Songhai) foi um poderoso estado pré-colonial da África Ocidental, que sucedeu ao Império Mali, atingindo seu auge nos séculos XV e XVI. Tendo sua capital em Gao, controlava as rotas comerciais que cortavam o Deserto do Saara e cidades importantes como Timbuktu e Djenné, mas foi conquistado pelos marroquinos em 1591, marcando o fim de seu domínio.

Conhecido por sua organização política centralizada, por um exército forte que tinha até cavalaria e frota fluvial e pela riqueza vinda do comércio de ouro e sal, foi o último grande império da região antes da colonização europeia. 

O Império Songai originou-se do povo Songai, que se estabeleceu na área de Gao no século VII. Inicialmente era um pequeno estado, mas começou a se expandir e a ganhar destaque no século XIV sob o comando do rei Sonni Ali.

A cidade de Gao localizada na curva do Rio Níger, na África ocidental, na região dos atuais Mali, Níger, Senegal, Gâmbia e Nigéria, centrada na curva do Rio Níger, se transformou num importante centro comercial, político e econômico, com poder militar.

Até o século XIV Gao esteva sob o poder do Império Mali, mas no século XV conquistou Tombuctu, um importante centro do Islã e ponto fundamental do comércio pelo Deserto do Saara. Neste momento ocorreu a formação do Império, num processo de expansão militar, liderados por Sonni Ali, e além de Tombuctu, conquistaram também Djenné. No Império se praticava o politeísmo religioso.

A sociedade Songai era diversificada e hierarquizada. No topo da pirâmide social estavam os nobres e funcionários do governo, seguidos por cidadãos livres, artesãos e agricultores. Os escravizados também eram uma parte significativa da sociedade, sendo adquiridos através da guerra ou do comércio. A diversidade étnica e linguística era prevalente, refletindo a vastidão do império.

A economia se baseava no controle do comércio transaariano, com foco em ouro, sal, escravos e outros produtos. Os songais estabeleceram a unificação de pesos e medidas, o que facilitava a cobrança de impostos e as trocas comerciais.

Como acontece com todo império, também o Império Songai enfrentou a decadência enfraquecido por guerras civis e pela derrotado para o Sultanato Sádida de Marrocos na Batalha de Tondibi (1591) devido ao uso de armas de fogo. 

O Império foi o maior da história da África Ocidental. Seus centros urbanos, como Timbuktu, foram importantes polos de saber, cultura e difusão do Islã. Sua queda abriu caminho para a fragmentação e a dominação europeia, com os marroquinos estabelecendo um paxalique (província) em seu lugar.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-01/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-imperio-songai.html


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

As grandes civilizações africanas - Império de Mali

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Com o declínio de Gana ocorreram diversas disputas entre estados menores que eram submissos, ao século XII. Um desses estados era formado pelo povo conhecido por sosso, de etnia Soninke. Através das armas se impuseram e alcançaram a hegemonia regional no século XIII.

O Império era composto por 12 reinos menores ligados entre si, tendo como capital a cidade Kangaba. Os mandingas que eram o povo mais forte chamavam seu território de Manden, que significa terra dos mandingas.

O Império de Mali era formado por povos presentes na região situada entre o Rio Senegal e o Rio Níger. Dentre eles, o mais importante eram os mandingas, que já eram conhecedores do islã desde o século XI. Além deles, os soninquês, fulas, sossos e bozos também fizeram parte desse império.

Após anos de guerras entre os soninquês de Gana e os almorávidas (século XI), e depois das guerras com os sossos (século XII), Mali conseguiu sua independência e adotou o islamismo. Apesar de passar por um período de crise política e econômica, conseguiu se restabelecer e, em 1235, os mandingas de Mali conquistaram o território do antigo Império de Gana, sob a liderança de Maghan Sundiata, que recebeu o título de Mansa, que na língua mandinga significa ‘imperador’.

No domínio de Sundjata Keita, o maior representante do Império Mali, sua autoridade foi estendida sobre outras unidades políticas próximas, formando um estado unificado e hegemônico até o século XV.

Processo de expansão

Ao contrário do Império de Gana, que se preocupava mais em manter os povos dominados, a fim de controlar o comércio regional, o Império de Mali se impôs de forma centralista, estabelecendo fronteiras bem definidas e formulando leis por meio de uma assembleia chamada Gbara, composta por diversos povos do império. A aplicação da justiça era implacável, tanto que vários viajantes se referiam aos povos negros como ‘os que mais odeiam as injustiças - e seu imperador não perdoa ninguém que seja acusado de injusto’.

Acredita-se que o Império de Mali chegou a ter a atual extensão da Europa Ocidental.

Sua hegemonia, numa vasta região da África Ocidental ou África Negra, localizada abaixo do Deserto do Saara ocorreu devido à formação de um exército poderoso, ao controle da extração do ouro e a existência de uma administração eficiente. Esses fatores fizeram do Mali um dos impérios mais bem-sucedidos do continente africano.

Mali chegou a controlar todo o comércio de ouro local, porque o ouro extraído por Mali sustentava grande parte do comércio no Mediterrâneo. Conta-se que, entre 1324 e 1325, Mansa Mussa, em peregrinação a Meca, parou para uma visita ao Cairo e teria presenteado tantas pessoas com ouro, que o valor desse metal se desvalorizou por mais de 10 anos.

Também sob o reinado de Mussa, a cidade de Timbuktu (ou Tombuctu) se tornou uma das mais ricas e importantes da região. Sua universidade era um dos maiores centros de cultura muçulmana da época, e produziu várias traduções de textos gregos que ainda circulavam nos séculos XIV e XV. A grandiosidade de Timbuktu atravessou os tempos e, no século XIX, exploradores europeus se embrenharam pelos caminhos africanos, seguindo o rio Níger, em busca da lendária cidade.

O Império de Mali entrou em decadência a partir do final do século XIV, em função das disputas políticas internas e das incursões dos tuaregues, um povo berbere do deserto, sendo conquistado, no século XV, pelos songais que até então eram dominados por Mali. Foi nesse mesmo século que os portugueses, em pleno processo de expansão marítima, conheceram o já decadente Mali.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-12/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-imperio-mali.html

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Orígenes

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Laurence Freeman, OSB


‘Quando o pai de Orígenes foi martirizado, sua mãe apenas o impediu de se entregar ao mesmo destino escondendo suas roupas. Uma de suas grandes obras é A Exortação ao Martírio onde ele vê esse testemunho de fé como um sinal de discipulado total. Ele quase conseguiu isso durante a perseguição de Décio, no final de sua vida (253 d.C.), quando foi preso e torturado. A Igreja, no entanto, é imensuravelmente mais rica por ele ter se doado totalmente por meio da tinta, em vez do sangue.

Nascido em Alexandria em 183 d.C., sucedeu a Clemente, seu professor, como catequista da comunidade cristã e, de acordo com Bernard McGinn (em seu magistério de quatro volumes, A Presença de Deus : Uma História do Misticismo Cristão ), tornou-se ‘talvez o maior intérprete das Escrituras que o cristianismo já conheceu’. Seu lugar na tradição mística é central e estabeleceu que a consciência mística não precisa ser nebulosa ou cismática. Uma mente ativa, grande e disciplinada pode coexistir – como a lua para o sol, como diz Orígenes – com a oração mais profunda. Razão e fé são irmãs, assim como Marta e Maria. Como Gregório de Nissa e a maioria dos mestres desta tradição que estamos examinando – ele não equiparou a experiência contemplativa a estados alterados, locuções ou aparições. Em vez disso, ele enfatiza a transformação no amor e os frutos do espírito na vida diária. Sua integração do que poderíamos chamar de cabeça e coração – o que os gregos chamavam de ‘nous’ (mente) – desafia nossa própria compreensão de ‘experiência’. Em seu ‘Comentário sobre João’, ele diz que ‘a mente que é totalmente purificada e se eleva acima do material para atender à contemplação de Deus com a maior atenção é deificado pelo que contempla.’ Sua produção foi enorme — ele exauriu uma equipe permanente de sete escribas e tantos copistas ‘bem como moças habilidosas em caligrafia’ — e ele escreveu comentários versículo por versículo sobre quase todos os livros da Bíblia.  Quase trezentas de suas centenas de homilias sobreviveram.

Como um bom alexandrino, ele valorizava a filosofia, mas, como cristão, rejeitava a ideia grega de que a contemplação dual do cosmos e do microcosmo do ser humano era suficiente para alcançar a verdade. A revelação também é necessária, e esta se dá por meio da encarnação do Logos e dos significados místicos das Escrituras que ela possibilita. Sua metodologia era rigorosa, embora não sistemática, como a dos escolásticos. Primeiro, ele estabeleceu o texto correto e analisou o significado de cada palavra. Em seguida, questionou cada detalhe – por que Pedro mandou lavar os pés por último? O que a sujeira simbolizava? Maria e José, em busca do Jesus perdido, em Lucas, simbolizam o exegeta em busca de significado.  Os quarenta e dois acampamentos dos israelitas no deserto correspondem ao mesmo número de gerações dos ancestrais de Jesus. Este método é inebriante de ler e, por vezes, transportava-o a um estado de união quando era ‘visitado pela Palavra’. Embora Orígenes raramente fale de sua experiência pessoal, Hans Ur von Balthasar diz dele que ‘não há pensador na Igreja que esteja tão invisivelmente onipresente’ em sua obra. Bento XVI disse que para Orígenes ‘fazer teologia era essencialmente explicar, compreender as Escrituras … sua teologia é a simbiose perfeita entre teologia e exegese’.

Orígenes rejeitou o esoterismo dos gnósticos e estabeleceu os três níveis de interpretação das escrituras, relacionando-os às etapas comuns da ‘ascensão’ espiritual pessoal. Não surpreendentemente, esse esquema é, ele próprio, simbolizado biblicamente nos três livros de Salomão. Provérbios conduz ao senso moral e ilustra o caminho purgativo. Eclesiastes oferece um conhecimento espiritual do mundo e expressa o caminho iluminativo. No Cântico dos Cânticos, o amor e o desejo supremos por Deus ensinam o caminho unitivo. Em seu Comentário sobre os Cânticos, Orígenes introduz sua teoria dos sentidos espirituais no misticismo cristão. Como rabinos anteriores, ele acreditava que este poema erótico não deveria ser lido pelos jovens. (Há tentações até mesmo na leitura das escrituras). Mas ele se apropria totalmente e incorpora eros à teologia por meio da leitura dos símbolos sensuais do poema. ‘Que ele me beije com os beijos de sua boca’ mostra a mente recebendo os ensinamentos da palavra. ‘Teus seios são melhores que o vinho’ sugere a ele o discípulo amado repousando no peito de Jesus – melhor que o vinho do Antigo Testamento. Os seios significam o ‘solo do coração no qual a Igreja se apega a Cristo.’ Como Platão, Orígenes via o amor erótico como um caminho de ascensão à realidade mais elevada, mas isso se torna uma transformação do desejo que ocorre na comunhão da Igreja. O erótico nem sempre é sexual, porque podemos desejar apaixonadamente objetos não sexuais. Mas ele vai além de Platão ao afirmar que o próprio Deus deve ser Eros se a parte erótica de nós nos conduz a Deus. ‘Não creio que eu possa ser culpado se alguém chamar Deus de Eros assim como João chama Deus de Ágape.’ Ele segue as implicações desse simbolismo até o fim e chega a conclusões que ressoam com um Mestre Eckhart ou Madre Juliana mais de um milênio depois. ‘Toda alma’, diz ele, ‘é a mãe de Jesus’, porque essa união apaixonada de eros, ‘ferido pelo amor’, leva a uma experiência de nascimento.

Ao contrário de Clemente, Orígenes não era casado e seu louvor místico à virgindade intriga muitos hoje que veem o amor sexual como espiritualmente significativo, porque é físico, em vez de lamentar que tenha que ser. Até mesmo as tradições místicas evoluem. Mas não há melhor autoridade para consultar do que Orígenes, enquanto tentamos hoje – como ele expressou a própria obra espiritual – ‘colocar o amor em ordem’. Seria subestimar sua inteligência e o uso do erotismo na tradição mística ver tudo isso meramente como sublimação freudiana. Para Erasmo, uma página de Orígenes vale dez de Agostinho. Em sua insistência de que o amor de Deus deve eventualmente salvar todos os seres, até mesmo o diabo, ele aborda outra das profundas preocupações teológicas de nosso tempo, a questão da inclusão.

Ler as escrituras para Orígenes é uma experiência mística, mas não é a totalidade da oração. Nós não oramos, diz ele em uma definição atemporal, para obter benefícios de Deus, mas para nos tornarmos como Deus. Orar em si é bom. Acalma a mente, reduz o pecado e promove boas ações. Sobre a oração e seu comentário sobre o Pai Nosso ele afirma que, por meio de Jesus, ‘o ministro da graça insuperável’, e do Espírito Santo, o ser humano pode possuir sabedoria. Somos amigos do Mestre que compartilha todo o conhecimento conosco. Possuímos a mente de Cristo. Mas devemos entender que a oração é mais do que pedir coisas triviais. Devemos buscar a luz em si, em vez das sombras mundanas das coisas. A oração não é, diz ele, uma repetição vã que entorpece a mente em uma quietude temporária. Ela deve ser preparada pelo distanciamento da raiva e da agitação e pelo perdão. Então, ‘a pessoa que compõe sua mente para a oração é inevitavelmente beneficiada de alguma forma’. A oração combina a ação de todas as três pessoas da Trindade em nós. Toda a nossa vida é uma oração. Ele conclui o tratado com algumas sugestões práticas sobre postura, local e horários, mostrando que a oração para ele não era apenas uma ideia teológica. O cristão deve orar não menos que três vezes ao dia, idealmente voltado para o leste, em pé com os braços estendidos (sentado, ajoelhado ou deitado, se necessário). Todo lugar é adequado para a oração, e na igreja concentramos forças angélicas. Mas todos devem ter um ‘lugar sagrado’ reservado em sua própria casa, se possível, para orar em silêncio e sem distrações.

A influência de Orígenes é profunda. Sua autoridade também possui aquela humildade e abertura que se vê ocasionalmente em grandes mestres de qualquer ofício. Suas infinitas associações de palavras e significados dificilmente são simples, mas ele nunca parece perder o contato com uma simplicidade básica fundamentada em sua paixão não apenas pelo texto, mas pela pessoa do Logos. Todos os seus trabalhos, disse ele, visavam ilustrar a mais seminal de todas as ideias simples sobre Deus : o princípio e o fim são um e ‘Deus é tudo em todos’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/20342/


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

As grandes civilizações africanas - Império de Gana

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Durante o período que chamamos de Idade Média que classifica a História Europeia (séculos V ao XV), poderosos Estados se desenvolveram na África Ocidental e por sua enorme riqueza, tornaram-se o principal eixo de comércio entre o mar Mediterrâneo e o interior da África.

Enquanto a Europa vivia no sistema conhecido como Feudalismo, os reinos existentes na África podiam se rivalizar com qualquer uma das grandes civilizações que existiram no Oriente Médio ou Extremo Oriente. Uma dessas civilizações é hoje conhecida como Império de Gana.

Império de Gana

O Império de Gana foi o mais antigo Estado negro que se conhece, fundado no século IV, tendo conquistado uma grande área onde exerceu dominação política e econômica, ao sul do que hoje conhecemos por Mauritânia, Senegal e Mali.

Inicialmente Gana era o título que se dava ao governante que atribuía sua soberania sobre os povos dominados, depois passou a denominar o império que foi se formando.

Na região localizada entre os rios Senegal e Níger, os soninquês que eram povos de origem mandê, fundaram pequenas cidades, que desde o século IV foram se unificando para resistir às guerras com povos nômades. No século VIII, a região já era conhecida como Império de Gana.

Os soninquês chamavam a região de Wagadu, mas os berberes, povos do Magreb, a chamaram de Ghana, título dado até então ao rei da região. Ghana veio a significar rei guerreiro.

O Deserto do Saara sempre dificultou o acesso dos povos do norte da África ao interior do continente. Uma viagem do Magreb, região africana banhada pelo mar Mediterrâneo, exceto o Egito) até a bacia do rio Níger poderia durar até 4 meses em pleno deserto. Dessa forma, enquanto o norte da África estava inserido no comércio entre diversos povos desde a Antiguidade, o reino de Gana, localizado na África Subsaariana, também chamada de África Negra se desenvolveu isoladamente.

Quando os árabes conquistaram o Magreb e introduziram o camelo como animal de transporte, foi possível a viagem através do deserto. A partir de então, os reinos e as grandes riquezas da África Negra passaram a fazer parte do comércio internacional do Mediterrâneo.

Terra do ouro

Quando os comerciantes do norte começaram a chegar, Gana já era um reino rico. Os documentos deixados pelos comerciantes árabes e berberes relatam a existência de um império extraordinário, também chamado de Terra do Ouro. Segundo Al-Bakri, um comerciante árabe de Córdoba do século XI, o rei de Gana usava túnicas bordadas a ouro, colares e pulseiras de ouro e os arreios dos cavalos e as coleiras dos cachorros do rei também eram de ouro.

A base econômica do império era o recolhimento de impostos dos povos conquistados e o comércio dos produtos que circulavam em seus domínios. Além disso atividades de subsistência como a pesca, a pecuária e a agricultura formavam parte importante de sua economia. Além de um poderoso exército, os soberanos tinham também ao seu dispor uma gama variada de funcionários.

A capital do reino era a cidade de Kumbi-Saleh e de lá o rei e seus nobres controlavam diversos povos vizinhos, que eram obrigados a pagar impostos em troca de proteção. Gana também controlava o comércio das mercadorias que eram trazidas do norte como sal e tecidos e as que saíam do interior da África como ouro e escravos. A capital que tinha por volta de 20 mil habitantes, todos os dias recebia caravanas que vinham de diversas regiões.

Entre os séculos IX e X, o império de Gana viveu o seu apogeu, mas com o processo de islamização dos povos africanos, o Império de Gana foi perdendo força, até que em 1076 os almorávidas, uma dinastia berbere, conquistaram e saquearam Kumbi-Saleh, transformando a cidade em um reino tributário. A partir daí, o império se fragmentou, o que possibilitou as incursões de outros povos vizinhos que passaram a controlar várias regiões do antigo império. Gana não aceitou o islamismo e se transformou por certo tempo na última barreira para a entrada do Islã na região.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-12/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-imperio-gana.html

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Papa Leão: Os pobres ao centro

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Fernando Domingues,

Missionário Comboniano


‘Pouco depois de ter sido eleito como sucessor do Papa Francisco, Leão XIV publicou o primeiro texto oficial do seu pontificado, com o título Eu te amei (Dilexi te). Fica assim claro que o programa do novo papa é continuar com toda a Igreja o caminho que estávamos a fazer com o Papa Francisco : olhar para o amor divino e humano do Coração de Jesus para encontrar aí a força e a alegria que nos leva a amar os outros. E não se trata de um «amor genérico», ou um simples sentimento que nos dá a ilusão de estarmos com Deus. Já Francisco dizia que o amor do Coração de Cristo sempre nos leva ao encontro daqueles que eram os amigos preferidos de Jesus, os pobres, os últimos.

Leão XIV, um bispo habituado a ver a sua vida como um serviço à Igreja, já nos muitos anos de vida missionária no Peru, em contacto direto com a gente simples e pobre da sua diocese, e também nos poucos anos em que ele tinha começado a colaborar com o Papa Francisco, em Roma, não admira que ele continue a ver também a sua missão como papa como um novo serviço à mesma Igreja.

Podemos bem dizer que em Roma, chega um novo papa, mas é o mesmo serviço que continua. E assim Leão escreve, logo ao início desta exortação apostólica, que deseja simplesmente continuar o trabalho e a reflexão que Francisco já tinha começado. E diz mesmo que uma boa parte deste documento já tinha sido preparado pelo seu antecessor. É o mesmo serviço que continua, com um servidor novo.

A intenção do Papa Leão, com este novo documento, é, como ele mesmo diz, contribuir para que «todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres» (Amei-te, 3).

Os seus vinte anos de serviço missionário entre a gente simples do Peru, na América do Sul, levaram-no a compreender que o amor cristão não pode ser vivido com autenticidade só no pequeno círculo onde nos sentimos confortáveis. Se é verdadeiro em nós o amor do Coração de Cristo, ele move-nos sempre ao encontro dos mais necessitados. E se já pertencemos a essa parte da Humanidade que precisa de lutar todos os dias para sobreviver, diremos como diziam os meus paroquianos no Quênia : somos cristãos, precisamos de ajudar os que são ainda mais pobres do que nós.

O amor que vem do Coração de Jesus nunca nos deixa quietos no nosso conforto, move-nos sempre ao encontro de quem mais precisa. E isto não como uma obrigação que nos é imposta, mas como uma necessidade que nasce do próprio amor que vivemos. Viveríamos frustrados se o amor de Deus em nós não transbordasse também para muitos outros.

Francisco ajudou-nos a ver como o Coração de Jesus é a fonte de onde jorra o amor que enche de sentido e de alegria o nosso viver. O Papa Leão vem agora guiar-nos no caminho que do Coração de Cristo nos conduz ao encontro dos mais pobres da nossa sociedade e do nosso mundo, para que sintam na nossa presença a voz de Deus que lhes diz : «Amei-te.»’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1529/papa-leao-os-pobres-ao-centro/

 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Gregório de Nissa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Comunidade Mundial para Meditação Cristã


‘A filosofia indiana inclui a doutrina do ‘advaita’ ou não-dualidade. Não somos um com a realidade última, mas também não estamos relacionados a ela apenas de forma dualista. Como acontece com todas as ideias, esta gerou muitas versões. Existem formas fortes e fracas de ‘advaita’. De maneira semelhante, a consciência mística cristã – que não é em si uma questão de ideias, mas dá origem àquela que é a mais rara das criações, novas ideias – possui formas fortes e fracas de teologia apofática. Esta é a teologia que não foge, mas abraça calorosamente a incognoscibilidade do mistério de Deus. Gregório de Nissa (335-395) é um exemplo notável da teologia apofática. Talvez por isso, e pelo fato de não ter sido traduzido para o latim precocemente, ele tenha exercido menos influência sobre a teologia e a espiritualidade ocidentais do que sobre a sua própria Igreja Oriental. Mas ele é uma mente cujo encontro com o Ocidente moderno, cansado da divisão religiosa, seria extremamente benéfico.

Criado como um pequeno agricultor no que hoje é a Turquia, Gregório é um dos três grandes ‘Pais Capadócios’. Seu irmão Basílio e o amigo deste, Gregório de Nazianzo, foram respectivamente o político-legislador e o poeta-teólogo do grupo. Gregório de Nissa tornou-se o filósofo místico moldado por sua vida conjugal e um episcopado turbulento e pouco eficiente. Parece que foi após a morte de seu irmão que ele se encontrou, embora se sentisse chamado a completar o legado de Basílio ao defender o Concílio de Constantinopla de 381. Este foi um marco na resistência da Igreja primitiva ao arianismo, doutrina que diminui a estatura divina de Cristo. Pode-se pensar que essa longa batalha contra uma heresia moderna ainda poderosa (heresia significa literalmente um ponto de vista ‘escolhido’) foi uma mera disputa acadêmica. Na verdade, ela diz respeito à nossa própria concepção de identidade e senso de potencial humano. O que Jesus é, nós somos. Pode-se também pensar que a tradição mística não tinha muito a oferecer a esse argumento refinado. De fato, ninguém demonstra melhor do que Gregório, nas obras da segunda metade de sua vida, que é a consciência mística, iluminando o mundo das ideias a partir de uma fonte suprarracional, que molda o que melhor pensamos. A lógica da experiência mística estende-se ao domínio do pensamento e da ação e exige coerência.

Gregório marca um distanciamento do misticismo cristão em relação à sua tradição grega. Orígenes, uma mente tipicamente grega, demonstra uma forma fraca de apofatismo. Ele gosta de pensar que, uma vez superados os obstáculos ascéticos e dominados nossas paixões, veremos o que tanto desejamos ver e saberemos o que tanto desejamos saber. A ideia grega de perfeição é elevar-se acima do mundo mutável e da mente inconstante, a um reino de imobilidade divina. De lá, sentamo-nos em um trono de consciência e contemplamos o mundo em constante transformação. Essa visão ainda influencia nossa concepção de céu e bem-aventurança. Para Gregório, em seu tratado Sobre a Perfeição, ou em sua Vida de Moisés, o ascetismo é o meio de superar a guerra civil interna’. Precisamos lutar contra a lembrança dolorosa das feridas sofridas, como os cidadãos da Irlanda do Norte ou do Iraque ainda terão que fazer. O desejo precisa ser treinado e transformado para nos permitir viver com atenção plena. Podemos melhorar. Mas a perfeição nunca é uma conquista final. ‘O divino é, por sua própria natureza, infinito, não delimitado por fronteiras.’ À medida que o desejo é purificado na prática da oração, ele não atinge a satisfação final, mas se intensifica conforme progredimos. Jamais podemos nos contentar com o que recebemos de Deus.

Para Jean Daniélou, um dos maiores comentadores de Gregório, essa linha de entendimento representa um avanço em relação à posição de Orígenes. A incognoscibilidade, a inatingibilidade de Deus cria, portanto, o misticismo das trevas ou ‘agnosia’ – aparentemente o oposto da gnose. Existem dois tipos de escuridão : fraca e forte. A primeira se expressa no que Gregório disse sobre o irmão em cuja sombra parecia sentir-se : ‘nós o vimos entrar na escuridão onde Deus estava… ele compreendeu o que era invisível aos outros’. Essa é uma escuridão aceitável. Somos mistificados, mas depois compreendemos; cegos, depois vemos. Mas existe uma escuridão mais profunda : ‘a verdadeira visão e o verdadeiro conhecimento daquilo que buscamos consistem precisamente em não ver, na consciência de que nosso objetivo transcende todo conhecimento…’

A perfeição é progresso contínuo. A visão grega de que a mudança é um defeito é superada pelo processo de sempre nos transformarmos em algo melhor, ‘de glória em glória’. Todo fim é um novo começo. O horizonte recua constantemente à medida que nos aproximamos dele. A ‘perfeição’ consiste em nunca pararmos de crescer em direção ao bem. Se aceitarmos isso, enfrentaremos sérias consequências, desde que desejemos viver de acordo com aquilo em que acreditamos. Transcendência e paradoxo (‘movimento e estabilidade são a mesma coisa’) são inerentes ao significado humano. A consciência é um universo em expansão. O medo de estarmos condenados à insatisfação permanente – uma conclusão natural para qualquer pessoa consciente de seus ciclos de desejo natural – se transforma em êxtase com a inexauribilidade da bem-aventurança. A bondade não parece mais entediante e Cristo não é um objeto de idolatria, mas o Caminho para o Pai.

Conhecer a Deus, na experiência transcendente de saber que não podemos conhecê-Lo, nos reconduz a nós mesmos de uma nova maneira. Ao longo da tradição mística, um tema fundamental é a ligação entre o nosso autoconhecimento e a nossa capacidade de conhecer a Deus. Gregório fundamenta sua antropologia cristã na afirmação bíblica de que somos ‘ícones’ de Deus. Não há divisão gnóstica entre o natural e o sobrenatural. Ele não se interessa pela dinâmica metafísica entre imagem e semelhança, como outros mestres místicos. É um alívio ser persuadido, lógica e teologicamente, de que somos essencialmente bons. A mortalidade é um remédio para o pecado original, não uma punição, e a ’graça da ressurreição é a restauração do ser humano ao seu estado original’ de bem-aventurança.

Gregório administra uma forte dose de ‘agnosia’. No início, o gosto é desagradável, mas, uma vez superado, sentimos seu efeito medicinal. Paradoxalmente, a humanidade e o reino criado são reafirmados, pois não deixamos de ser humanos nem mesmo em união com Deus. A esperança está intrínseca à ideia de que todo fim é um começo. O pecado é a recusa em seguir em frente. O termo ‘epectasis’, de São Paulo (Filipenses 3:13), fornece a Gregório uma autoridade bíblica. Tensão e expansão, um esquecimento do passado, um esforço para avançar rumo à próxima etapa.

Isso afeta radicalmente a oração e aprofunda ainda mais a noção de pureza de Orígenes. Gregório nos ajuda a entender por que podemos parar de pensar em Deus, e na verdade precisamos fazê-lo, para entrarmos plenamente na oração. ‘Qualquer representação é um obstáculo’, diz ele. Isso pode ser visto como uma limitação da oração, mas na verdade é uma expansão da vida. ‘A pessoa que pensa que Deus pode ser conhecido não tem vida de verdade, pois foi falsamente desviada do verdadeiro Ser para algo criado por sua própria imaginação .

No entanto, Gregório não era um monge eremita, mas um bispo, pastor e mestre. Em vez de diminuir a vida sacramental, sua teologia mística a revitaliza. Em um sermão contra aqueles que adiam o batismo, ele afirma que o poder do cristianismo é duplo : ‘regeneração pela fé’ ‘participação em símbolos e ritos místicos’. O batismo é uma iniciação em uma terra que dá frutos de felicidade, e a Eucaristia é o remédio da imortalidade que produz uma diferença física para aqueles que a celebram. Que maneira mais amigável poderia expressar a centralidade da experiência contemplativa na Igreja ou o sentido da vida como uma liturgia mística?’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/gregorio-de-nissa-2/


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A África durante a Idade Média

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Musa retratado segurando um Globo de Ouro Imperial no Atlas Catalão de 1375

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘De forma geral, o estudo da chamada Idade Média mostra que essa classificação que abrange o período do século V a XV se concentra em três eixos principais: a formação da cristandade na Europa Ocidental, o desenvolvimento do Império Bizantino na Europa Oriental e o nascimento e expansão da civilização islâmica, desde a Península Ibérica até a Pérsia, abrangendo também o norte da África e o sul da Europa.

Essa periodização histórica, abrangendo também os demais períodos serve para Europa, não se encaixando no estudo dos demais continentes.

Normalmente, quando se chega ao tema da expansão islâmica, a questão das civilizações que se desenvolveram na África nesse período é tratada, porém de forma muito suscinta e de forma pouco expressiva. A África na Idade Média constitui um tema que deve ser compreendido de forma sistemática, para que se possa compreender a formação do mundo moderno e nele as diversas potências europeias.

Formação histórica do continente africano

No continente africano diversas civilizações se destacaram desde a antiguidade. Foi o caso dos cartagineses estabelecidos no noroeste da África que são lembrados quando se fala da expansão do Império Romano do ocidente. Há o caso da civilização egípcia que floresceu no nordeste africano a partir do delta do rio Nilo e se tornou uma grande potência que não pode ser lembrada apenas pelas suas pirâmides. Recordamos também a civilização da Núbia, situada abaixo do Egito; o reino de Axum, que se desenvolveu na região da atual Etiópia, entre outras civilizações.

Essas civilizações, algumas em maior e outras em menor grau, mantiveram contato com as civilizações da Europa Ocidental, como a romana, e outras que se desenvolveram na Península Arábica, nas planícies iranianas e no Extremo Oriente.

O norte da África passou a sofrer, no período da Idade Média, uma intensa penetração da civilização árabe com a expansão islâmica. A partir do século VII, o islamismo passou a expandir-se por toda a Península Arábica e em direção ao norte africano e ao sul europeu, penetrando na Península Ibérica. Nesse período, houve um choque e um enriquecimento cultural da Europa pelo contato com as culturas africanas, e com as civilizações desse continente que já haviam sido cristianizadas.

Na região do Magrebe, a conversão ao islã ocorreu de forma sistemática, seja pelos reinos poderosos como o de Mali ou pelos povos nômades. Com a islamização, a prática da escravidão, que era bem comum no continente africano desde a Antiguidade, intensificou-se. Ao converter meia África, o Islamismo contribuiu para estimular ainda mais a escravidão, que era praticada antes mesmo de Maomé, já no século VI, quando os mercadores árabes frequentavam os portos da costa oriental da África, trocando cereais, carnes e peixes secos com tribos bantus por escravos.

As populações negras que não se tornaram muçulmanas também consideravam a escravidão um fato normal e alguns reis africanos tinham centenas de escravos como soldados e em suas guardas pessoais.

Além do reino de Mali, outros reinos também tiveram destaque no continente africano nesse período, principalmente aqueles que se desenvolveram abaixo do deserto do Saara, tais como o Reino de Gana, o de Kanem-Bornu, Iorubá e Benin. A principal forma de contato e de comércio entre esses reinos eram as caravanas de camelos, que permitiam o deslocamento para longas distâncias em meio ao deserto com uma quantidade grande de mantimentos, pedras preciosas, escravos, metais, porcelanas, tapetes e muitas outras mercadorias.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-12/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano.html