domingo, 10 de junho de 2012

O Sermão de Santo António aos Peixes - Capítulo VI



PERORAÇÃO
        

Na sexta e última etapa do sermão, o Padre António Vieira faz uso de um desfecho marcante para impactar os ouvintes, na esperança de que eles pratiquem os bons ensinamentos :   

v  Acentua que a irracionalidade, a inconsciência e o instinto dos peixes são melhores do que a racionalidade, o livre arbítrio, o entendimento e a vontade própria do homem  

v  Relata que os peixes e os homens nunca chegarão ao sacrifício final, uma vez que os peixes já vão mortos e os homens vão mortos de espírito 
 

v  Na bíblia, ao citar determinados animais escolhidos para sacrifício, Deus exclui os peixes, pela impossibilidade de chegarem vivos ao altar da imolação; afinal, Ele não quer seres mortos para enaltece-lo 
 
v  A repetição de ‘Louvai’ e ‘Deus’ cria uma atmosfera sonora cada vez mais intensa, apontando para a finalidade da prédica : louvar o Altíssimo.
Nosso missionário almeja que os homens imitem os peixes, convertam-se, guardem obediência e respeito ao Senhor.                 

Utiliza o hino Benedicite para finalizar o sermão num tom festivo, próprio à comemoração de Santo António, cuja festa 'corria solta' em 1654. 
 


Capítulo VI

‘Com esta última advertência vos despido (216), ou me despido de vós, meus Peixes. E para que vades consolados do Sermão, que não sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar de uma desconsolação mui antiga, com que todos ficastes desde o tempo em que se publicou o Levítico (217). Na Lei Eclesiástica ou Ritual do Levítico, escolheu Deus certos animais, que lhe haviam de ser sacrificados; mas todos eles ou animais terrestres ou aves, ficando os peixes totalmente excluídos dos sacrifícios. E quem duvida que esta exclusão tão universal era digna de grande desconsolação e sentimento para todos os habitadores de um elemento tão nobre, que mereceu dar a matéria (218) ao primeiro Sacramento (219)? O motivo principal de serem excluídos os peixes, foi porque os outrosanimais podiam ir vivos ao sacrifício, e os peixes geralmente não, senão mortos; a cousa morta não quer Deus que se lhe ofereça, nem chegue aos seus Altares. Também este ponto era mui importante e necessário aos homens, se eu lhes pregara a eles. Oh quantas Almas chegam àquele Altar mortas, porque chegam e não têm horror de chegar, estando em pecado mortal! Peixes, dai muitas graças a Deus de vos livrar deste perigo, porque melhor é não chegar ao Sacrifício, que chegar morto. Os outros animais ofereçam a Deus o ser sacrificados; vós oferecei-lhe o não chegar ao sacrifício; os outros sacrifiquem a Deus o sangue e a vida; vós sacrificai-lhe o respeito e a reverência.  

Ah peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade! Quanto melhor me fora não tomar a Deus nas mãos, que tomá-lo tão indignamente! Em tudo o que vos excedo, peixes, vos reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é melhor que a minha razão e o vosso instinto melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento; eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade. Vós fostes criados por Deus, para servir ao homem, e conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me para o servir a ele, e eu não consigo o fim para que me criou. Vós não haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante dele muito confiadamente, porque o não ofendestes; eu espero que o hei-de ver, mas com que rosto hei-de aparecer diante do seu divino acatamento, se não cesso de o ofender? Ah que quase estou por dizer que me fora melhor ser como vós, pois de um homem que tinha as minhas mesmas obrigações, disse a Suma Verdade (220), que melhor lhe fora não nascer ou não nascer homem: Si natus non fuisset homo ille. E pois os que nascemos homens, respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento, contentai-vos, Peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso. 

Benedicite, cete, et omnia quae moventur in aquis Domino: Louvai, Peixes, a Deus, os grandes e os pequenos, e repartidos em dois coros tão inumeráveis, louvai-o todos uniformemente. Louvai a Deus, porque vos criou em tanto número. Louvai a Deus, que vos distinguiu em tantas espécies; louvai a Deus, que vos vestiu de tanta variedade e formosura; louvai a Deus, que vos habilitou de todos os instrumentos necessários para a vida; louvai a Deus, que vos deu um elemento tão largo e tão puro; louvai a Deus, que, vindo a este mundo, viveu entre nós, e chamou para si aqueles que convosco e de vós viviam; louvai a Deus, que vos sustenta; louvai a Deus, que vos conserva; louvai a Deus, que vos multiplica; louvai a Deus, enfim, servindo e sustentando ao homem, que é o fim para que vos criou; e assim como no princípio vos deu sua benção, vo-la dê também agora. Amen. Como não sois capazes de Glória, nem de Graça, não acaba o vosso Sermão em Graça e Glória.’

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(216) O mesmo que despeço, forma que já então existia.

(217) Livro da Bíblia, cuja finalidade é regular o culto entre os hebreus. O nome vem do fato de ter sido a tribo de Levi a escolhida para o serviço litúrgico. O primeiro livro do Levítico pode considerar-se um ritual dos sacrifícios.

(218) Água.

(219) O sacramento do batismo, que é realizado com o “elemento” água.

(220) Deus.

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