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terça-feira, 10 de outubro de 2023

Teologia do Corpo – O celibato por amor

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Julia A. Borges


‘Em 1870, o Papa Pio IX iniciou com as chamadas Audiências Gerais, uma tradição que se prolonga até os dias de hoje. Elas acontecem às quartas-feiras, e são um modo do Sumo Pontífice relacionar-se mais de perto com os peregrinos. Nelas são proferidas as chamadas ‘catequeses’. Fato é que enquanto ainda era cardeal, o Papa João Paulo II iniciou a escrita de um livro que acabou não sendo terminado justamente em virtude de sua eleição. Tal livro, intitulado Homem e Mulher Ele o Criou, teve seus capítulos apresentados durante essas audiências entre os anos de 1979 e 1984.

Foram 129 catequeses a respeito da Teologia do Corpo, e ao longo de suas explicações, o Pontífice esclarece que a união de Adão e Eva no Paraíso, antes do projeto de Deus ser distorcido pela desobediência, reflete um outro enlace ainda mais importante : as núpcias do Cordeiro, o casamento entre Deus e o homem. É interessante notar o desejo de Deus em unir-se à humanidade, ou seja, o ser humano foi feito para este casamento último. É por isso que nenhum homem ou mulher encontrará em seu companheiro aqui na Terra o preenchimento do coração, porque somente em Deus será saciado o anseio do coração humano.

Mas é necessário ter em mente que o namoro ou o casamento não podem ser empecilhos para a aproximação com Deus, pelo contrário, o relacionamento de amor honesto, casto, de doação deve ser um trampolim para o Divino e o desejo que se sente pelo sexo oposto deve refletir a busca pela verdadeira felicidade que, como já foi dito, somente será saciada em Deus.

Durante sua explanação, o Papa afirma que ’a revelação cristã reconhece duas formas específicas de realização completa da vocação do amor do ser humano : matrimônio e celibato’. E continua dizendo que ‘tanto uma quanto a outra, em sua forma própria, representa a realização da verdade mais profunda a respeito de o homem ter sido criado à imagem de Deus’.

O celibato por amor a Deus ilumina de forma extraordinária o matrimônio, pois recorda aos esposos que a finalidade de cada um é a vida eterna, o casamento eterno com Deus. Juntos, o casal deve caminhar rumo ao seu objetivo, sem colocar um no outro a razão da felicidade, pois isso seria destruidor para ambos. O sacerdote, por sua vez, à luz do matrimônio, deve se recordar que está despojado de si mesmo em função do outro, como um esposo deve ser. Por isso o celibato é uma grande riqueza da Igreja e aboli-lo seria, de certa forma, destruir o matrimônio, pois é ele que lança luz e recorda a verdadeira finalidade do ser humano : contemplar Deus face a face.

É a liberdade que move o homem na busca por algo. Se é através da liberdade que se encontra a luz da sabedoria, e também a possibilidade de amar, assim também ocorre com a primeira característica fundamental do celibato. Na Igreja existem aqueles que têm a vocação divina para o matrimônio e aqueles que têm a vocação divina para o celibato. O que existe no mundo hoje é uma crise de ambas as vocações. Se faltam vocações sacerdotais, faltam também matrimoniais. A solução para as duas crises não é abolir o celibato dos padres, mas fazer com que todos vivam suas próprias vocações de maneira plena.

Por ser livre, o celibato é também sobrenatural, já que a matriz do que se entende por verdadeira liberdade é o condicionamento direto com o criador, e. por isso, o celibato é totalmente incompreensível para aqueles que não têm fé. Não crer na ação de Deus, em sua presença, em seu poder de transformar e capacitar o ser humano para o voo rumo ao céu, faz com que não se creia igualmente na possibilidade da vivência do celibato. Mesmo com uma vida apostólica é preciso ter oração, até para ter algo a oferecer aos irmãos. Não é possível viver o celibato sem a graça do Espírito Santo.

Viver o chamado de forma consciente e plena é viver a perfeita liberdade, e abolir o celibato, como muito se tem escutado, não é a solução para a pedofilia, nem a cura para transtornos de origem sexual. É preciso entender que a liberdade é consequência de uma vida ascética e mística e ao ser livre não é válida a escolha pela prisão em vícios, distúrbios e pecado. Portanto, estejamos prontos ao real matrimônio sem esvaziar o sentido verdadeiro que tal união significa.’

Referências

  1. São João Paulo II, Teologia do Corpo – O amor humano no plano divino, Editora Ecclesiae, 2014
  2. WEST, Christopher, Teologia do Corpo para principiantes : Uma introdução básica à revolução sexual por João Paulo II, Ed. Myrian, Porto Alegre, 2008, pag. 79-89.
  3. Site : https://padrepauloricardo.org/aulas/o-celibato-por-amor-ao-reino-dos-ceus

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/09/10/teologia-do-corpo-o-celibato-por-amor/

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

No princípio não era assim : Introdução à Teologia do Corpo – Parte 2

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Rômulo Cyríaco 


‘A criação do homem

No Evangelho de São Mateus, lemos que, nos confins da Judeia, para além do Jordão, alguns fariseus se aproximaram de Jesus com o intuito de o testarem no conhecimento da lei, perguntando a Ele se era permitido a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer motivo. Assim Jesus respondeu : ‘Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher, e disse : ‘Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne’? Portanto, já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu, não o separe o homem’. Os fariseus, em seguida, questionaram Jesus : ‘Por que foi então, perguntarem eles, que Moisés preceituou dar-lhe carta de divórcio ao repudiá-la?’. Ao que Jesus replica, concluindo : ‘Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas no princípio não foi assim’ (Mt 19,4).

Trata-se, esta, de uma passagem evangélica que permeia quase a integridade do projeto teológico de São João Paulo II, na Teologia do Corpo. Cristo, quando remete seus interlocutores ao princípio, refere-se à indissolubilidade do matrimônio como fundamentada por Deus Criador no ato mesmo da criação. Pode ser que, numa determinada cultura, o matrimônio seja dissolvido, na prática, mas no princípio não era assim, afirmação esta que tem dois sentidos imediatos : não era assim no princípio da vida, logo após a criação e antes do pecado original; e não é assim, ainda e sempre, na alma do ser humano, que traz sempre consigo o princípio, e suas finalidades. Tudo o que Deus estabeleceu para nós no princípio, a alma humana sente em si mesma não apenas como profunda necessidade, mas como realidade inalterável, ainda que – por causa do pecado original – possa tornar-se cega e surda para os chamados interiores, que, de uma maneira ou de outra, repercutem na consciência, por exemplo : 1) toda alma humana sabe e sente que está se tornando ‘uma só carne’ com outra, mesmo numa relação sexual extraconjugal casual, e todas as sensações estranhas, psíquicas e emocionais, que possam advir depois da mesma – como a culpa e a repulsa – vêm daí, da percepção profunda de uma fratura entre a alma e o corpo; muitas psicanálises e terapias, por exemplo, tentarão extirpar essas sensações da pessoa como sendo efeitos estranhos e ‘neuróticos’, adquiridos de um suposto ‘moralismo’ da cultura, não percebendo que é a verdade se manifestando ou reclamando; e, assim, colabora-se com a mentira; 2) toda alma humana sente que seu matrimônio é indissolúvel, ainda que faça esforço para se adaptar (até discursivamente) a uma cultura em que a fragmentação das famílias se tornou praticamente a regra, e nisso se pode incluir não apenas homens e mulheres que são cônjuges, mas também os filhos por esses gerados, que necessariamente sofrem com o divórcio, pois o que parece uma ‘simples’ separação externa, é a grave separação interior de uma unidade que, na alma, no princípio, é indissolúvel e permanecerá sendo, ainda que a aparente ‘dissolubilidade’ de tal vínculo no plano visível da cultura se torne mais e mais popular. A dessincronização entre a cultura e as necessidades da alma é uma das tragédias humanas que parecem acentuar-se ao nível do paroxismo conforme nos aproximamos do fim dos tempos.

Há quase dois mil anos, naquele diálogo, tratando-se de um grupo de fariseus, Jesus sabia que estava falando com pessoas que conheciam muito bem o texto das Escrituras. Refere-se, especificamente, ao Livro do Gênesis, e ao relato da criação do homem e da mulher, no primeiro e segundo capítulos do mesmo. De forma complementar, também esses são textos que devemos ter sempre em mente para que compreendamos com precisão as conclusões do Santo Padre. O Gênesis nos revela que ‘O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo. Deu-lhe este preceito : ‘Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente'. E continua :

O Senhor Deus disse : ‘Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.’ Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais dos campos, e todas as aves dos céus, levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar; e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome. O homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos céus e a todos os animais dos campos; mas não se achava para ele uma ajuda que lhe fosse adequada. Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. ‘Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem.’ Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne. O homem e a mulher estavam nus, e não se envergonhavam (Gn 2,15-25).

Quando as Escrituras inspiradas revelam que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, conforme nos aponta São João Paulo II, é evidenciada a ‘impossibilidade absoluta de reduzir o homem ao ‘mundo’, isto é : o homem não pode e nem deve ser compreendido, nem explicado, com as categorias deduzidas do mundo, isto é, do ‘conjunto visível dos corpos’ (Teologia do Corpo, 2). Esta conclusão é grandiosa, pois trata-se mesmo de um elemento que aparece, de formas contrárias, nas escolas de pensamento que conflituam no mundo moderno : a maioria delas, de um lado, parece querer reduzir o homem ao mundo, repudiando qualquer explicação da vida humana que recorra a um plano transcendente – assim mundanizando-nos, animalizando-nos; outras, enraizadas em tradições antigas como o cristianismo ou a filosofia grega aristotélica, reafirmam e defendem que é precisamente isto que caracteriza o ser humano em sua especificidade, a saber, que o mesmo possui semelhanças físicas ou biológicas com os outros animais, mas possui uma alma racional que, como diz Aristóteles, eleva-o acima das outras espécies, que só possuem alma vegetativa e alma sensitiva. A parte racional da alma humana, para o Estagirita, estava claramente enraizada no eterno, num plano transcendente, isto é, no divino, ainda que nosso corpo visível esteja presente na natureza, juntamente dos outros seres e coisas. A perfeição da revelação bíblica, no entanto, explica-nos também o por quê do surgimento de tantas escolas de pensamento que tentam negar a transcendência, e desumanizar o homem, no período moderno, e também por que essa negação se faz presente na prática de tantos seres humanos : trata-se de uma consequência do pecado original; Adão, com medo, esconde-se de Deus nos arbustos do jardim. A isto veremos melhor em outro artigo; por ora sigamos com os fatos do princípio.

As narrativas do Gênesis supracitadas descrevem o estado do ser humano logo após a criação, em comunhão com seu Criador : a felicidade dos primeiros homens, e sua inocência original, antes da primeira queda. O ser humano foi criado como sujeito de uma aliança, constituído como pessoa – superior aos animais, os quais, na verdade, nomeia – e à altura de ‘companheiro do Absoluto’ (Teologia do Corpo, 6). Dotado de alma – onde está impressa a imagem e a semelhança de Deus, seu Criador – e de liberdade, é dado ao homem ‘discernir e escolher conscientemente entre o bem e o mal’, quando Deus estabelece o limite que o ser humano deveria respeitar para permanecer em plena aliança. Tratava-se de uma escolha entre a vida e a morte : comer da árvore da ciência do bem e do mal, barraria-lhe o acesso à árvore da vida. É da vontade de Deus que o homem viva plenamente, e esteja absorvido inteiramente pela aliança – mas a permanência na relação com Deus deve ser uma escolha livre do ser humano. Como Adão sentiu-se sozinho, desejando uma semelhante que pudesse estar com ele em relação, Deus é pleno e não precisa de nada além de Si mesmo, mas quis, por amor, criar-nos livres, para viver uma relação pessoal com cada alma por Ele criada. Não há verdadeira relação quando uma das partes é privada de liberdade, e mesmo os vínculos humanos mais definitivos, como o casamento, expressam isso : nesses, não há perda de liberdade, mas o ganho de uma realidade relacional rica, com o livre consentimento da pessoa. Como a pessoa permanece livre para rejeitar a aliança, é preciso que a sua afirmação seja livremente mantida e reafirmada, diariamente, e ao longo do tempo. E como a intimidade mútua de um casal aumenta e se enriquece com o tempo e a convivência, também assim acontece entre a alma de uma pessoa e Jesus Cristo.

Os animais, por sua vez, não são livres, pois, não tendo alma racional, apenas obedecem a seus instintos; nós, humanos, temos instintos – alma vegetativa, alma sensitiva – mas também respondemos a Deus, com nossa alma propriamente humana. Nisso tudo encontra-se a irracionalidade da concepção pós-moderna de ‘liberdade’, que seria algo como não estar limitado por nenhuma restrição (seja interna, ou externa) e, logo, não precisar responder por nada. Enquanto isso, a realidade de nossa verdadeira e inescapável liberdade – enraizada em nossa alma, e em sua semelhança, e relação, com o Criador – apenas estabelece que somos livres para escolher o mal, mas jamais isentos das consequências dessa escolha; e, portanto, a escolha do bem também deve necessariamente ser livre, intencional, consciente e proposital. Todos os esforços políticos de escolas modernas como o socialismo marxista, entre outras utopias, nada mais é do que a imaginação de um estado de coisas em que a vida humana seria essencialmente boa, e socialmente perfeita, sem que fosse necessário um esforço consciente para o bem : o último esforço seria o da implementação de tal sistema de poder que tornará a vida ‘perfeita’ e sem tensões, dificuldades ou desigualdades, e para isso também basta permitir que os seus representantes tomem o domínio de tudo. Trata-se, precisamente, do falso paraíso na terra, o verdadeiro ópio do povo, que na prática só resulta no seu contrário, e a tantos infernos concretiza em nossa realidade. Para não cair nestas perigosas iscas, deve-se reconhecer duas coisas sobre a alma humana : ela traz em si a semelhança com Deus, e a relação com Ele, a memória e o desejo do paraíso; mas também, intrinsecamente, traz as más inclinações, inextirpáveis nesta vida, herdadas do pecado original. Portanto, qualquer regulação legítima da vida humana, individual e social, deve partir dessa percepção, e da necessidade de uma educação para a liberdade, para a responsabilidade, e para o amor.

Mas, como vimos, o homem é também corpo, e o corpo do homem – muito diferentemente do que queriam os heréticos gnósticos – é realidade do vínculo do homem com o seu Criador, em vez de ser algo de que o homem devesse se desvencilhar, para restar somente a alma, esta sim boa e divina. O corpo do homem possui uma dimensão de sacramento, isto é, de realidade e sinal visível daquilo que ocorre em sua alma – pense, especialmente, no rosto humano, e suas finas expressões emocionais, assim como seus sorrisos, reveladores, na dimensão visível, de algo que somente o ser humano vive na dimensão invisível. Com o ser humano, no princípio – e, em especial, antes do pecado original – entrou a santidade no mundo visível, que, por sua vez, foi criado por Deus para o homem. Aí também se expressa o amor especial que Deus tem para conosco, diante de toda a criação. ‘Na criação, antes do pecado original, o homem se constitui como que um primordial sacramento, entendido como sinal que transmite eficazmente ao mundo visível o mistério invisível, oculto em Deus desde a eternidade. (…) O corpo, de fato, e só ele, é capaz de tornar visível o que é invisível : o espiritual e o divino. Foi criado para transferir para a realidade visível do mundo o mistério oculto desde a eternidade em Deus, e assim d’Ele ser sinal’ (Teologia do Corpo, 19). A inocência original do ser humano no princípio, ligada à experiência do significado esponsal do corpo – isto é, feito para desposado, para ser doado, do homem para a mulher, da mulher para o homem, em sua complementaridade biológica e subjetiva – ‘é a santidade que permite ao homem exprimir-se de modo profundo com o próprio corpo, e isso precisamente mediante o ‘dom sincero de si mesmo’. O corpo humano é lugar de santidade, lugar onde Deus se torna visível à totalidade da criação. ‘A consciência do dom [de si mesmo, corpo e alma] condiciona, nesse caso, ‘o sacramento do corpo’ : o ser humano se sente, no seu corpo de varão e de mulher, sujeito de santidade’ (Teologia do Corpo, 19).

O valor inestimável da Teologia do Corpo, de São João Paulo II, no momento histórico preciso em que a realizou, oferecendo ao homem do Século XX, através das palavras de Jesus Cristo (que é, Ele mesmo, a Palavra de Deus viva e encarnada) a rememoração do que nós somos, como humanos, em princípio, deve-se ao fato de que ‘a situação interior e, ao mesmo tempo, cultural do homem de hoje parece afastar-se daquele ‘princípio’ e assumir formas e dimensões que divergem da imagem bíblica do ‘princípio’ em pontos evidentemente cada vez mais distantes’ (Teologia do Corpo, 23).

No meio da rebelião social e sexual da sociedade moderna e contemporânea, a teologia católica do corpo e da sexualidade, e sua aplicação direta na vida humana como um firme critério educacional (para nós mesmos e nossos filhos) no sentido do reencontro da plenitude e da verdadeira realização, é, de fato, ‘uma ilha de valor em uma mar de preços’ – uma possível recuperação de dimensões humanas cada vez mais negligenciadas e repudiadas pelo homo economicus, e pelo exército multiculturalista e politicamente correto do poder global, que visa ao controle massivo das respostas humanas. Serve também como fonte de conhecimento da reta doutrina cristã para todos aqueles que vivem nesta civilização em crise e ignoram a realidade de seus antigos fundamentos, conhecendo-a somente através dos estereótipos equivocados do senso comum anti-cristão e, mais especificamente, anti-católico. A religião católica é comumente referida pelo homem moderno tomado pelo ethos da rebelião como sendo uma instituição ‘repressora da sexualidade’, ou que considera tudo o que é ‘sexual’ como ‘pecado’, e nada está mais distante da verdade do que essa visão. Como veremos, através da obra de São João Paulo II, e em seguida através de outros documentos da Igreja, o que Jesus Cristo realmente nos trouxe, na Nova Aliança, é a possibilidade de recuperarmos o verdadeiro valor do corpo e da sexualidade, um altíssimo, sagrado valor – e da vida humana em si mesma.

Aqui vale também, ainda que rapidamente, um aceno à tendência da ‘nova era’ de afirmar uma espiritualidade desinstitucionalizada, destacada da religião : em primeiro lugar porque, do ponto de vista cristão, é bíblica e fundamental a indissociabilidade entre Cristo e a Sua Igreja, que é sacramento de Sua presença viva na terra; em segundo lugar, porque aquela, da nova era, é uma espiritualidade rebelde, e a rebeldia é o oposto da frutificação virtuosa do espírito, que só pode reencontrar a árvore da vida na obediência ao Criador autorrevelado. Deus quer fazer uma aliança com as almas; enquanto isso, o demônio quer, de um lado torná-las materialistas, de outro apenas ‘espiritualiza-las’, sustentando um discurso anti-religioso que deve seriamente nos preocupar, já que, assim, tantas almas ficam em terreno turvo e vulnerável, presas nas ilusões do Satanás que se transfigura em anjo de luz. ‘Eu, ser batizado por um homem pecador? Eu, me confessar para um homem, pecador? Deus se manifesta em todas as religiões, ou basta que eu converse com Deus, diretamente’. Essa é a mentalidade moderna e pós-moderna, para a qual se tornou inaceitável a verdade de um Deus que, intencionalmente, fundou uma instituição, que instituiu, Ele mesmo, uma economia sacramental, ministrada por homens, a qual devemos humildemente recorrer. Afinal, o próprio testemunho de Cristo, não apenas em palavras mas em ações, é aquele da humildade inigualável do Deus que se fez Homem e que antes disso se fez Menino, em tudo dependente de uma Mãe – mostrando-nos que a humildade, aos homens, é o caminho para se aproximar de Deus – e que vai, Ele mesmo, aquele que a todos batiza, ser batizado por um homem. ‘João recusava-se : Eu devo ser batizado por ti e tu vens a mim! Mas Jesus lhe respondeu : Deixa por agora, pois convém cumpramos a justiça completa’ (Mt 3,14-15).’


Fonte :

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O pecado reprime o homem : Introdução à Teologia do Corpo – Parte 1

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Rômulo Cyríaco


‘Recomendamos, para melhor aproveitamento desta série, a leitura prévia do seu Prólogo :


_________________________

Nestes primeiros artigos, serão desenvolvidas as questões referentes à unidade e à inocência originais na vida humana logo após a Criação; o Pecado Original; e as consequências deste, antevendo o chamado redentor de Cristo a todos nós.


Pecar é perder a si mesmo

O Pecado Original reprimiu o ser humano verdadeiro – represou, no ser humano, a sua verdade. Isto quer dizer que, pela hereditariedade do Pecado, nós ganhamos uma estrutura pessoal em que nossa verdade está distante de nosso ser, afastada de nossas consciências. No entanto, esta, precisamente por ser a verdade, não se perde nunca, e permanece pedindo para irromper em nossas vidas, no seio da histórica artificialidade da humanidade.

Os pecados atuais, mortais ou veniais, mantêm-nos reprimidos, isto é, desintegrados, distantes de Deus e de nós mesmos. Motivo este pelo qual vive-se, com tamanha frequência, com um enorme senso de vazio e de frustração, enquanto, estranhamente, vive-se todas as promessas de felicidade do mundo. A pessoa se pergunta : mas o que há de errado comigo? A resposta é : você está depositando sua esperança em um mundo cuja substância própria é a perda da esperança. É como querer curar uma ferida num espinho – o mesmo que a gerou. A incredulidade e a desesperança são a própria matéria da qual é feita o mundo, e é neste que você, pela insensatez e desorientação geradas pelo Pecado, está depositando as suas expectativas de alegria e de paz. Sem perceber, você está apostando no pecado como projeto de vida, como se aí fosse encontrá-la. Mas, como poderia ser projeto de vida aquilo que, precisamente, retira a mesma de nós?

Está aí a tragédia do mundo humano pós-Pecado Original : o sentido é buscado comumente naquilo que o elimina; investe-se a vida, logo, naquilo que a transforma em morte. E depois, ainda, não se consegue entender o que está se passando! Não poderia ser diferente, pois : o cego não pode enxergar. Como cobrar do cego que não se dirija novamente ao precipício? É preciso que, antes, o Evangelho e o encontro com a pessoa de Cristo lhe restitua a visão.

Por quê, aqui, relaciona-se ‘repressão’ com ‘desintegração’? É que, se estamos inteiros, de fato, então estamos com Deus, que inteiros nos criou. Mas, após o Pecado, Adão esconde-se e foge de Deus, temendo-O : por hereditariedade, assim também nós temos a tendência de fazer. Para escondermo-nos de Deus, desintegramo-nos, dividindo a nossa essência em pedaços, e pressionando a boa parte destes para a inconsciência, de modo a deixarmos de ver, interiormente, a imagem e semelhança de Deus em nós mesmos. O que tentamos fazer é escondê-Lo em nós, com a trágica esperança de que assim Ele também não nos veja. É assim que nós, em plena luz do dia, estamos como Adão, escondendo-nos de Deus em um arbusto – como se qualquer arbusto ou montanha, por maior que fosse, pudesse esconder algo ou alguém de Deus. Culpados do Pecado, feridos por esta culpa, nós não queremos olhar para a integridade de nós mesmos e reconhecer a nossa miséria. A culpa pelo pecado e o orgulho estão lado a lado : numa mão, a repressão (da culpa), noutra, a resistência que a sustenta. O homem se entristece e se enfraquece com o pecado, mas luta para não deixá-lo, temendo as consequências de um retorno humilde ao Criador. Adão ouve a voz de Deus no jardim e tem medo. Afinal, não é este o medo que tantos têm, quando a voz de Deus começa a ressoar forte demais no interior? Esse é o medo comum de todos que ainda não se desmontaram diante de Deus, para que Ele possa, com sua graça, devolver a sua integridade e a sua dignidade.

A vida humana que resiste à graça de Deus, assemelha-se a de crianças de colo, em tudo dependentes dos seus pais, que – após fazerem uma primeira besteira – resolvessem fingir que são adultas e que vivem sozinhas em suas casas, ignorando a existência dos seus genitores e responsáveis, e fugindo deles de um cômodo a outro. Ainda obteriam da parte deles o seu sustento básico, pois os pais não deixariam seus filhos morrerem : mas não poderiam desenvolver as suas vidas até a sua plenitude, na medida em que negariam a educação, a orientação e o apoio dos pais, todo o sustento espiritual da filiação que poderia lhes dar vida plena e a liberdade. Após o Pecado Original, e cada pecado atual, o ser humano perde a si mesmo porque perde a comunhão com Deus, seu Criador e Sustentador. Mas, em vez de se reconhecer criança de colo, e olhar para o Pai que está de braços abertos e estendidos, pedindo ajuda a Ele para superar sua fraqueza, vira a cara, fingindo-se adulto, por medo de ser punido, e pela rigidez do orgulho.

Com a encarnação de Cristo, iniciou-se na História o chamado definitivo, que havia sido antecipado desde o início dos tempos, e desde a Antiga Aliança com Abraão, para que todos (os que quiserem) possam reencontrar o Pastor e retornar à Casa, retomando, pela Cruz, o acesso à árvore do centro do jardim, com o batismo, a absolvição dos pecados, e o Pão da Vida.


A unidade e a inocência originais

Deus, quando criou o ser humano, deu-nos este mandamento : ‘Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer’ (Gn, 2,16-17). O Pecado Original nada mais foi do que o momento em que o ser humano, em sua liberdade, transgrediu esse mandamento divino, e, portanto, teve de morrer – perdendo o acesso integral que tinha à Árvore da Vida. Era uma condição, a nós dada por Deus : respeitar livremente um precioso limite, dentro do qual gozaríamos para sempre da vida no Paraíso. Um limite, apenas, do qual dependia toda a estrutura da nossa inspiração pela Santíssima Trindade em nossa vida corporal.

Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança. Isto imprime em nós uma dignidade maior que a do restante das espécies, as quais, por isso, Deus a nós submeteu, para sermos, com Ele, corresponsáveis diretos pelo cuidado da Criação. No princípio, vivendo em comunhão com o Criador, estávamos em íntegro contato com os Seus desígnios para conosco. Nossas almas, integradas aos nossos corpos, participavam docemente no Ser de Deus, como ovelhas dóceis, inteiramente atentas e obedientes aos sinais do Pastor.

Fazíamos o bem e evitávamos o mal, não por sabermos o que era bom e mau por nosso próprio juízo, mas espontaneamente. Deixávamos tal conhecimento reservado a Quem ele pertence, ao Deus Criador, e pela comunhão íntima com nossas almas, Ele nos transmitia naturalmente a Sua Sabedoria, da qual compartilhávamos, Nele depositando toda a nossa confiança. Somente Deus pode nos orientar para o verdadeiro bem, e nos livrar do mal. De nada adianta tentar avaliar bem e mal por juízo próprio, como se pudéssemos chegar a uma conclusão diferente – e, ainda assim, válida e verdadeira – daquela já conhecida por Deus. Há somente uma verdade, absoluta e imutável, sobre a bondade ou a maldade de nossas ações, e esta advém de Deus.

Aquela unidade primeira do ser humano com Deus, refletia-se na unidade original do homem com a mulher. Quando Deus fez Eva para ser a companheira de Adão, este exclamou, ao vê-la : ‘Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!’ (Gn 2,23). O homem olha para sua mulher, e sente que ela é parte dele mesmo : há, entre o casal, perfeita complementaridade, visível até mesmo pela forma anatômica de seus corpos. Deus fez um para o outro, e somente vivendo com e para o outro, é que homem e mulher se completam, tornando-se um só, e se realizam. Da complementaridade à inseparabilidade. ‘Não é bom que o homem esteja só’ (Gn 2,18).

‘Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne. Ora, os dois estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonhavam’ (Gn 2,24-25).

Adão e Eva, um diante do outro, não sentiam vergonha pela exposição de seus corpos nus, precisamente pela sua unidade e inocência originais. Não estavam realmente expostos, porque não havia, então, nenhuma constrição de seus corpos, mas integração completa entre corpo e alma, e entre eles mesmos. Eram uma só carne, e ‘ninguém jamais quis mal à sua própria carne’ (Ef 5,29). Sua sexualidade, masculina e feminina, era sinal da complementaridade que causava o movimento recíproco, entre eles, de integral doação e acolhimento, espiritual e corporal. Tal movimento, nos primeiros seres humanos – o matrimônio original – foi perfeito, pela sua concomitante comunhão com o Criador, que tornava ausente todo medo e toda desconfiança. Não havia nenhum desejo, em Adão ou em Eva, de usar, ou de dominar o outro. Não haviam ainda comido da árvore do conhecimento do bem e do mal, e, por isso, escolhendo dela não comer, apenas obedeciam às doces e paradisíacas instruções de Seu Criador, vivendo em casal como uma só carne.


A liberdade da alma humana

Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, e dotou-o, por isso mesmo, de liberdade. O ser humano, dotado de alma e intelecto, era livre para escolher a vida em comunhão perfeita com seu Criador, ou escolher perdê-la, ao comer da árvore do conhecimento de bem e do mal. A serpente realmente tentou Eva, mas não retirou a sua liberdade de dizer não – assim como o diabo não nos pode forçar a pecar, mas apenas nos tentar, aproveitando-se de nossa milenar fraqueza. Deus quer a Sua criatura perto Dele, vivendo em comunhão com Ele, mas não quer forçá-la a fazer isso. O Amor de Deus por nós é gratuito e livre, e assim também Ele quer que seja o nosso amor por Ele. Qual é o mérito de um amor forçado? Deixa de ser amor no mesmo instante em que se força. Deus nos chama para perto Dele, nos ajuda a amá-Lo, e, mais ainda, quando queremos amá-Lo, Ele nos dá as condições como graça. Mas nunca nos força.

O ser humano, tentado a conhecer algo da existência que dele estava oculto – a ciência do bem e do mal – comeu daquele fruto proibido, e teve de morrer. Perder o amor a Deus é o mesmo que morrer, pois, ao esconderem-se nossas almas da percepção viva do seu Criador, ao qual desobedeceram, começam a resistir às Suas graças, à Sua unção vital. Almas que se encolhem, retraem-se e escondem-se, logo, sujeitam-se mais facilmente a quaisquer impulsos do corpo e mesmo aos mais baixos impulsos do seu estado decaído, incapazes de avaliar se estes favorecem ou jogam no lixo a sua original vocação. Avaliar, discernir em profundidade, seria retomar o contato íntimo com a alma e sua expansão : isso seria, também, retomar o contato com Deus, percebê-Lo, aceitá-Lo e, logo, curvar-se a Ele em docilidade e obediência. Mas o ser humano resistente, com medo ou orgulhoso, prefere, para poupar-se dos incômodos que convidam à transformação profunda, ceder à sua carne, ou aos impulsos decaídos de suas almas. Ceder ao pecado passa a ser a triste condição que ‘protege’ o ser humano, resistente, contra a percepção e a ação de seu Deus.

O amor por Deus não pode se separar da obediência a Ele. No instante em que Eva aceitou comer daquela árvore, seu amor por Deus estava comprometido, pois transgredia o Seu mandamento. Por isso o diabo, a velha serpente, estabelece em sua vida intelectual um culto à desobediência, como movimento de ‘liberdade’ : esta ideia demoníaca ganha ampla ressonância na cultura e no pensamento humanos. É o que os demônios sopram em nossos ouvidos sempre que podem – e o que já lemos nas páginas de tantos filósofos modernos : não deixar-se jamais determinar pela obediência a uma autoridade Absoluta, viver a potência do enxame demoníaco, que não se reduz à Unidade de nenhum ‘tirano’ centralizador, que escapa do domínio tradicional do Ser com um ‘puro devir’, com a indeterminação ‘molecular’ de sua ‘multiplicidade’, com o caos ‘rizomático’ de sua fragmentação, com a confusão de sua ‘horizontalidade’.

Alguns filósofos (refiro-me, mais especificamente, a Gilles Deleuze e Félix Guattari em ‘Mil Platôs’, de 1980) chegam mesmo a enaltecer Satanás como líder contestador, quando este diz : ‘eu sou Legião’ (Mc 5,9), tratando a tal frase como revelação e expressão da potência revolucionária do anonimato da multidão, contra a ‘verticalidade falocêntrica’, ‘individualista’ e ‘identitária’, do ‘homem patriarcal’, ‘burguês’, ‘branco’, ‘Europeu’, ‘heteronormativo’. Sabemos que o diabo quis destruir a civilização ocidental e seus pilares fundacionais muito antes de sugerir esta ideia nos ouvidos de Karl Marx e de Antonio Gramsci, de Gilles Deleuze e Michel Foucault, entre outros. Pobre ser humano, que vê mais valor em Satanás do que em seu Redentor, e cai na armadilha da serpente, que pinta o fruto e as correntes da morte com as falsas cores de uma pretensa liberdade. Palavras como ‘docilidade’ e ‘obediência’ ligam imediatamente o alerta da paranoia daqueles homens modernos, ativistas contestadores, ‘desconfiadores’ profissionais, escravos de sua incredulidade. Muitos não podem mais perceber como sermos dóceis justamente Àquele que nos dá a Vida, significa reconquistarmos a liberdade, o vigor, e a própria realização de nós mesmos no Outro. Muitos começam a preferir o inferno, a serem dóceis e humildes no paraíso. Significativamente, os mesmos filósofos que enaltecem a Legião de Lúcifer, esquecem-se de citar o que vem antes e depois da autoapresentação do demônio como Legião, no Evangelho de Marcos. Antes de dizê-lo, o demônio fala a Jesus, através do homem que possuiu : ‘Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te por Deus que não me atormentes’ (Mc 5,7). Satanás, diante do poder divino de Cristo, é obrigado a dizer a verdade, e afirmar a autoridade do Verbo. Depois, Jesus permitiu que a Legião de demônios entrasse nos corpos de uma manada de porcos, que se precipitaram no mar e afogaram-se (Mc 5,10-13). Tal é o destino de quem, filosoficamente, valoriza a falsa ‘força’ do demônio contra Deus.

Essas filosofias revolucionárias, contrárias a qualquer senso de autoridade, não aceitam que é a resistência obstinada à Autoridade de Deus Criador, o que mais expõe os homens como presas fáceis da autoridade do homem do mundo, e, logo, do diabo. As autoridades malignas do mundo – material e espiritual – protegem o homem resistente ao Espírito Santo contra a temida entrega a Deus, e assim conquistam a sua servidão. O Pecado Original tornou os seres humanos presas mais fáceis da falsa autoridade do diabo, que a muitos convence de que, servindo a ele, encontram-se ‘livres’ de Deus e de suas exigências para com eles, exigências que faz parecer terríveis. O ser humano passa, tantas vezes, a preferir a mais baixa e vil escravidão, com tons de contestação e ‘total autonomia’, e gozos mundanos, do que a verdadeira liberdade no serviço ao Deus Amor, cujas exigências são as de que retomemos a nossa liberdade e nossa capacidade de amar e viver na liberdade. De que recuperemos o brilho que somente a Vida, que vem concretamente da fonte divina, pode dar à nossa realidade, abandonando a palidez do pecado, e as maquiagens do demônio, que sempre saem no dia seguinte e revelam a falsidade e o vazio do seu projeto.

Quando nos encontramos com Deus, mais Ele Se torna presente e age em nossas vidas, cumulando-nos de graças e transformando-nos sobrenaturalmente, permitindo que O conheçamos pessoalmente, como Deus Pessoal que É. Por outro lado, para aqueles que servem ao diabo, mais o mesmo se faz parecer ausente, fazendo o seu escravo achar que realmente é ‘autônomo’, e que não faz o que faz em serviço às forças do mal, ao exército da resistência a Deus, mas por sua própria conta e nobre ‘independência’.

Nós, que buscamos servir a Deus, sabemos a Quem servimos, e este serviço se torna então consciente e livre, sempre recompensador, ainda que tantas vezes difícil, árduo e desafiador – pois o discípulo não está acima do seu mestre, e se nosso Mestre foi perseguido, também nós o seremos. Já o serviço mundano ao diabo, pelas próprias estratégias dos demônios, é na maioria das vezes inconsciente, e sem nenhuma verdade como recompensa. Deus Se apresenta ao homem e revela o Seu nome : EU SOU AQUELE QUE SOU (IAHWEH). O diabo, por sua vez, depende de que seu nome permaneça velado, e diz : não sou ninguém, sou muitos, ‘sou Legião’. Deus é Aquele que ilumina, esclarece, revela e diferencia. O diabo só se sustenta na confusão, nas trevas e na língua dupla – enquanto Deus, Glorioso e Todo-Poderoso, ainda permite que ele o faça, antes de precipitá-lo no mar dentro de uma manada de porcos.

Deus é a única Autoridade incontornável em todo lugar, Criador e Fonte da Vida, da qual o homem pode tentar se esconder, e contra a qual pode se revoltar, mas da qual não pode escapar. Deus é Onisciente, Onipotente, Onipresente, e o Seu Verbo virá nos julgar no fim dos tempos. Ainda assim, a humanidade vem ao longo dos séculos sofisticando-se em suas estratégias para manter-se escondida de Deus – para crescer na ilusão de que se esconde de Deus – seguindo o teatro demoníaco de suas mais disseminadas tendências pecaminosas. Os demônios, há muito, declararam guerra contra Deus, e uma quantidade imensa de seres humanos está alistando-se e militando de bom grado nesse exército. O problema é que, quando se desobedece a Deus, o máximo que se pode viver é um simulacro, uma ‘paródia demoníaca’ de liberdade (cf. RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância, página 224), em que, ao se desrespeitar o mais importante dos limites – aquele que nos garante o acesso interior à Vida – muitos outros, internos e externos, começarão a ser desrespeitados, e o ser humano acaba por violar a dignidade dos outros e a sua própria. Não há uma terceira opção : ou temos 1) o reconhecimento de Deus como Criador, a obediência a Ele e a entrada na Vida Eterna; ou 2) a negação de Deus, e a entrada no reino temporário da morte, que, no fim, somente Deus dirá se será eterna ou não.

Quem nunca sentiu que fez, falou, ouviu, viu ou pensou um pouco demais – mais do que teria sido bom fazer, falar, ouvir, ver ou pensar – ultrapassando assim um limite que teria sido melhor respeitar para resguardar-se daquela dor persistente, daquele incômodo profundo, daquela perda de sentido? São estes os limites que estão impressos em nossas almas, desde que Deus nos fez, e que somos livres para respeitar, mantendo-nos próximos Dele e de Sua alegria, ou para ultrapassar, perdendo, a Deus e a nós mesmos, em troca de um pouco mais… de um pouco demais.

Quando ultrapassamos estes limites, sabemos como sentiram-se Adão e Eva, no Éden, ao se tornarem escravos do pecado no instante mesmo em que julgavam ser mais livres.

Ser ‘livre’ das exigências de Deus, é ser escravo da concupiscência e de Satanás : a transgressão gera vício, e tende-se à reincidência. O que se fez, falou ou viu demais, é difícil des-fazer, des-falar, des-ver, a não ser pelo perdão sacramental e pela graça de Deus. O ser pode se embrutecer, e torna-se então mais difícil apreciar a virtude e a pureza. Hoje, a humanidade começa a pensar que a liberdade se define pela normatização da ultrapassagem dos limites, negando a sua própria essência mais original, numa lógica em que o pecado virou virtude, e a virtude pecado. Não tendo a consciência de que, com esse pensamento distorcido, cai na mais servil escravidão, distancia-se da verdadeira liberdade, que é somente obtida no reconhecimento de Deus como Criador, e de si como criatura, recolocando e aceitando cada um no seu devido lugar.


A atualização do pecado

O pecado atual, em nosso cotidiano histórico, é a pressão contrária que fazemos, resistindo à irrupção de nossa vocação profunda afastada no Pecado Original, ou, quando já conseguimos nos reconectar em algum grau com essa vocação, resistindo à manutenção de sua realização. Estando já fluente na língua do mundo, o ser humano teme que, reaprendendo a língua original de sua própria alma, será deportado do tecido social como estrangeiro indesejado – porque o discípulo não é maior que seu mestre (Lc 6,40), e o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Mt 8,20). Faz-se concessões ao pecado, perde-se a alma para se ter as falsas consolações do mundo, e o respeito humano. E quanto mais o mundo é desejado em seus próprios termos – o prazer hedonístico, a ganância pelo sucesso, o apego material, o reconhecimento dos outros etc. – mais se desaprende a língua de nossas próprias almas, mais as mensagens da alma tornam-se inaudíveis ou incompreensíveis, ou os ouvidos, resistentes. O ser humano faz-se estrangeiro em sua própria terra, e resiste a obter, de Deus, a sua nacionalidade perdida, o seu direito de primogenitura.

Após o Pecado Original, como consequência, surge na vida humana a concupiscência, e Adão e Eva passam a olhar um para o outro como objetos atraentes, que prometem prazer sensual ou sexual, e não mais como sujeitos de uma comunhão de pessoas, considerados em sua completa dignidade, na indissociabilidade entre seu corpo, sua alma e sua subjetividade. Surge o egoísmo, como maior obstáculo para a experiência do amor. Logo, homem e mulher passam a ter vergonha de seus corpos e sexos, que precisam, então, ser cobertos. Pois agora os olhos se abriram, e vê-se um pouco demais. O germe do desejo pornográfico nasce com a concupiscência dos olhos – e a pornografia, em si, é a exacerbação grotesca e caricatural da mesma : não mais apenas usar o outro, despersonalizando-o na experiência, mas despersonalizá-lo ainda mais além, através de meras imagens-fetiche de seu corpo dessubjetivado, em que o domínio dos olhos sobre o outro-objeto é ainda maior e completo, e elimina-se inteiramente o risco do envolvimento emocional e racional que se tem com a presença viva de uma pessoa.

A percepção interior da concupiscência em nós mesmos faz surgir um medo e uma insegurança de que a mesma, no outro, manifeste neste um desejo de apenas usar-nos, servir-se de uma parte de nós, e descartar-nos, não acolhendo-nos inteiramente em comunhão. Nós temos medo da inocência e da pureza, pois estas, se vencerem em nós nossa própria malícia, podem nos tornar presas da concupiscência do outro. Doar-se, a partir disto, passa a ser risco iminente de sofrer, de ser abandonado, pelo egoísmo do outro, que, como nós, tem dificuldade de amar. Uns começam a se proteger através de uma atitude hiperdefensiva. Outros, mais ofensivamente, protegem-se através de uma hiperconcupiscência, que, superando a do outro, tenderá a fazê-lo sofrer primeiro, antes que isso aconteça consigo – ‘antes o outro do que eu’. Outros, ainda, defendem-se através de uma combinação desregulada das duas posturas.

A partir do Pecado Original, algumas fraturas ou rupturas ocorreram : entre o ser humano e o seu Criador; entre o homem e a mulher; e entre a alma e o corpo do ser humano. Como já vimos, o ser humano começa a fugir de Deus, com medo Dele. O homem e a mulher não se relacionam mais como uma só carne, ou nisso encontram grande dificuldade; atraem-se, mas fogem um do outro ao mesmo tempo, pois passa a haver um conflito entre o prazer da carne (visto e vivido como um valor em si mesmo) e a comunhão unitiva das pessoas. Da mesma maneira, a alma e o corpo de um só ser humano, atraem-se mas fogem da mútua integração, instaurando um doloroso desequilíbrio no seio mesmo do ser. Os impulsos da carne que são contrários à realização da alma passam a dominar, e, satisfeitos, fazem crescer uma proporcional insatisfação existencial na alma, que o cego, que não pode enxergar, tantas vezes sequer compreende de onde vem.

Podemos compreender, então, que o ser humano verdadeiro é aquele criado por Deus à Sua imagem e semelhança no princípio da Criação, caracterizado por uma plena integração de todas as suas partes e aspectos, que convergiam para a realização da vontade e do original desígnio do seu Criador. Nada no primeiro homem e na primeira mulher era mecânico : profundamente integrados, em si, entre si e com Deus, eram abundantemente irrigados pelas forças da Vida e pela unção do Espírito Santo, que provêm de Deus Pai. Todas as dimensões constitutivas da totalidade do ser humano – as dimensões sexual, emocional e racional – formavam um todo indissolúvel, em que nenhuma destas partes reivindicava uma prioridade em detrimento das outras, e, integradas, obedeciam ao Espírito de Deus, de maneira que todas as ações do ser humano, homem e mulher, sozinhos e juntos, eram movimentos visíveis, no mundo sensível, da presença espiritual, da santidade e da beleza de Deus na Sua Criação. Ver o verdadeiro ser humano agir, no princípio, era ver os movimentos de Deus em toda a profundidade e força dos Seus pensamentos.

A desobediência fez com que a imagem e semelhança de Deus que há em nós se tornasse distante e embaçada, recuperada apenas ao custo de grande esforço, e, claro, da graça do Espírito. O ser humano desde então, enfraquecido e dado ao pecado, constantemente se desintegra em suas experiências. Ora, cede a impulsos sensuais que estão em completo desacordo com suas emoções e pensamentos racionais, e com as aspirações de sua alma, de modo que obtém um prazer efêmero, mas sente-se fragmentado, e posteriormente sofre a ressaca do vazio emocional e da perda do sentido racional. Ora, apega-se a emoções secundárias, patológicas, desconectadas de suas forças vitais motrizes, e também de sua razão, ao ponto de dessensibilizar-se para estas em um emocionalismo inconsistente. Ora, ainda, vive preso em pensamentos e racionalizações fora do contato com suas emoções e sexualidade. São muitos os modos históricos possíveis de desintegração e desestruturação do ser humano, em sua resistência à integração, consigo mesmo, com o outro e com Deus. O que tal desintegração perpetua é a separação entre o corpo e a alma, experiência de morte ou perda de vida. Em cada pecado atual, a dor que sentimos é a dor da nossa irrealização : fica faltando o nosso ser real, afastado, que nos aguarda em Deus.

Assim, sabemos que para estarmos realizados, isto é, para nos tornarmos reais, precisamos buscar ao máximo, nessa vida de exílio, a proximidade com a imagem e semelhança de Deus que está inscrita no fundo de nossas almas, trazê-la à tona e a ela dar corpo, para que, com o resgate dessa semelhança, vivamos mais integrados e em comunhão com nosso Criador e Seus desígnios para conosco. E isto podemos pedir diretamente a Ele, em oração. Todo católico é chamado a buscar a santidade, e isso significa esforçar-se, recorrendo a Deus e aos sacramentos, para não permitir que o pecado atual continue embaçando e distorcendo a imagem e semelhança de Deus em nós.


A repressão da sexualidade

O mundo moderno muito tocou na questão da ‘repressão sexual’, conceito-chave na psicanálise, apropriado pelas falsificações marxistas da realidade. Desse conceito, e de seus desdobramentos, resultou a visão de mundo na qual, para o homem ser enfim livre, bastava-se produzir uma cultura libertária no que diz respeito à sexualidade. Códigos éticos e morais que dessem ainda um molde à sexualidade humana, orientando-nos sobre o que, nesse âmbito, é bom ou mau fazer, passaram a ser vistos como instrumentos de controle burguês no domínio desta classe sobre as outras. A repressão sexual (da ‘moral sexual burguesa’) gerava a neurose, e a neurose impedia a disseminação do espírito revolucionário. Bastava, então, retirar a repressão sexual, e não haveria mais neurose – portanto, ocorreria também a revolução completa. Esse raciocínio farsante, no entanto, possui uma trágica verdade para o homem contemporâneo : quando não dominamos mais a nossa sexualidade, passamos a aceitar mais automaticamente que os detentores do poder cultural e político revolucionem até a última camada do nosso ser ao seu bel-prazer.

Passamos, ao longo das décadas, não apenas a uma sociedade liberal e permissiva no que diz respeito à vida sexual das pessoas, mas a uma que reprime, mesmo, qualquer tentativa de resgatar uma orientação ética e moral fundamental para dar contorno e sentido à sexualidade e ao ato sexual. Com isso, no entanto, a angústia e a miséria humana só aumentaram. A falsidade dessa tendência está justamente em perpetuar a visão desintegrada sobre o ser humano. A sexualidade é hoje, amplamente, liberada de uma maneira exclusivamente mecânica, evitando-se uma ligação íntima da mesma com a vida emocional e racional das pessoas, sejam crianças, adolescentes ou adultos. Dando prioridade à sexualidade (casual, quando não banalizada) frente a todas as outras dimensões do ser humano e em detrimento das mesmas, a visão moderna da pessoa humana apenas se afastou ainda mais de sua realização, e mais se vive, hoje, de uma maneira contrária à satisfação de nossas mais profundas e verdadeiras necessidades, de amarmos e sermos amados.

As visões de mundo psicanalítica e marxista consideram o ‘pecado’ como sendo nada mais que uma ideia criada pela civilização ocidental patriarcal, espécie de instrumento de controle comportamental, para incutir culpa nas consciência humanas e assim dominar o comportamento dos seres em sociedade. Pobre homem que acreditou nessa visão de mundo, nessa fantasia ideológica, e liberou indiscriminadamente sua sexualidade, desintegrando-a da completude do seu ser. Entra-se, assim, no império do desejo, em que toda culpa e hesitação são considerados como inimigos a serem removidos, para que o indivíduo vá, em expansão, ao encontro do mundo, ainda que, depois, retorne miserável do mesmo encontro, porque não soube enxergar o quanto a hesitação e a culpa eram, ainda, uma mensagem distante da sua alma, tentando avisar à consciência que aquele desejo era falso, que não provinha do âmago do seu ser. O ser humano desintegrado e desenraizado, vivendo fora de si mesmo, é muito mais facilmente manipulado, e pode, a qualquer momento, incorporar um novo e mais falso desejo, afogando mais e mais a sua verdade. A mentalidade moderna privilegia a realização dos desejos das pessoas, mais que a realização das pessoas elas mesmas. Seu desejo acima de você mesmo.

O pecado não é uma ideia que reprime o homem artificialmente. O Pecado Original e o pecado atual são acontecimentos que efetivamente desintegram e reprimem a sexualidade humana natural, entendida como força motriz original da complementaridade total do homem e da mulher, convidados pela mesma força ao movimento recíproco de livre doação de si e acolhimento do outro em um vínculo relacional sólido e definitivo, do qual não participa apenas a sexualidade, mas a totalidade do ser, em corpo, emoção, razão, subjetividade e espírito.

No que se refere à sexualidade, a experiência que se torna mais difícil ao ser humano após o Pecado Original é, precisamente, o tornar-se uma só carne com uma pessoa do outro sexo, em definitiva doação e completo acolhimento – vínculo pleno afirmado no prazer e no sofrimento, na satisfação e na frustração. No entanto, nossas almas, ainda que decaídas e desorientadas, dessensibilizadas para a percepção de sua própria vocação original, não perdem esta mesma vocação, de modo que todos nós continuamos a aspirar pela comunhão das pessoas, e com Deus. Convivem e batalham, no homem, vontade original de comunhão e resistência pecaminosa à mesma. Desejo e incapacidade de amar. Os seres humanos, em suas diversas relações sociais, encontram-se e vinculam-se, e desejam isto, mas, simultaneamente, utilizam de todas as estratégias que possuem, conscientemente ou não, para protegerem-se do caráter definitivo destas relações e vínculos, em especial os amorosos e conjugais, sofrendo por antecipação o peso do compromisso e a possível exigência de sacrifício pelo outro, e também o abandono que pode derivar da fraqueza do outro.

A intimidade sexual faz de um homem e de uma mulher uma só carne, e, não importa qual seja a intenção do casal no ato, e seu comportamento antes ou depois, é assim que a alma sente a união que se deu. No entanto, esta experiência, de intimidade inigualável, torna-se cada vez mais banalizada e estimulada a adolescentes e jovens imaturos, que não estão aptos a responderem à intensidade existencial, vinculativa e unitiva de tal experiência, e com isso fragmentam-se e ferem seus corações, consciências e almas, e os dos outros. Sentem-se vazios e usados, o corpo foi dado, a alma foi dada, sem que nenhuma pessoa tenha sido doada, ou, por outro lado, acolhida. Todo o senso de preservação de si e de sua intimidade está sendo retirado das novas gerações, que cada vez mais violam a sua própria dignidade, de bom grado, ao dar acesso ao seu corpo – através de imagens e experiências – a desconhecidos ou recém-conhecidos que queiram usá-lo, consumi-lo. E isso, hoje, começa a ser visto como um valor. É, pelo contrário, a disposição emocional para a doação de si e o acolhimento do outro, que passa a ser vista com desconfiança. Pensa-se haver algo de errado com a pessoa que, após haver transado, deseja logo se aproximar e se envolver emocionalmente.

Pobre humanidade, pensando que, com esse comportamento, está libertando a sua sexualidade – dos supostos imperativos (‘burgueses, patriarcais’) do amor romântico e do compromisso, que os revolucionários associam à propriedade privada, sendo os seus ideais ‘nada é de ninguém’, ‘ninguém é de ninguém’ – quando, na realidade, assim fazendo, agrava mais e mais a histórica repressão da sexualidade natural do ser humano, que, quando saudável, é sempre integrada com a totalidade do ser, sendo a força que move a totalidade do ser a ser-para um outro, a doar-se como pessoa inteira, para uma outra pessoa inteira, que se doará também e será acolhida, preenchendo assim a vida humana de sentido, densidade e consolidação.

Nos próximos artigos, veremos como Nosso Senhor Jesus Cristo, em Si mesmo, revelou-nos o Caminho que devemos buscar e viver, na terra, para superarmos o reino da morte e do pecado, recuperarmos a vida eterna, e a vocação original de nossas almas e corpos, que se realizam no dom de si. Cristo nos ensina a devolver aos nossos corpos e à nossa sexualidade o seu devido valor, e faz-nos saber, novamente, que não se pode doar o que não se possui.

São João Paulo II, rogai por nós.’


Fonte :

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Creio na Ressurreição da Carne : Introdução à Teologia do Corpo (Prólogo)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Rômulo Cyríaco


O início de uma série de artigos iluminadores para aprofundar em um dos elementos constitutivos mais fascinantes da natureza humana


‘Entre 1979 e 1984, ao longo de muitas quartas-feiras, o amado Papa São João Paulo II dedicou-se a um belíssimo projeto : esclarecer aos fiéis e ao mundo, solidamente e em definitivo, qual é realmente a doutrina católica a respeito do corpo e da sexualidade do ser humano. Para isso, fundamentou-se nas Escrituras e em toda a Tradição Apostólica e dos Padres da Igreja, desde o cristianismo primitivo. Foram mais de uma centena de catequeses, nas quais tratou do assunto em profundidade, com brilhantismo e admirável rigor filosófico e teológico. A presente série de artigos oferecerá uma introdução a estas catequeses, que foram publicadas sob o título de Teologia do Corpo.


Prólogo para uma introdução à Teologia do Corpo

Antes mesmo de tocarmos nos conceitos específicos do projeto teológico de São João Paulo II, para ‘preparar o terreno’, é conveniente expor um pouco da intrínseca e inevitável relação de toda autêntica teologia católica com a realidade do corpo.

Após a Anunciação, o Espírito Santo gerou o Filho no ventre de Maria, a Santíssima Virgem. Jesus Cristo é Deus encarnado. Sua missão espiritual é marcada por uma forte corporeidade. Contemplemos a Paixão de Cristo : a agonia no Horto das Oliveiras, a flagelação, a coroa de espinhos, o carregamento da Cruz, a crucifixão, a lança que faz jorrar sangue e água de seu flanco, e também a Sua Ressurreição : ‘Vede minhas mãos e meus pés : sou eu mesmo! Tocai-me e vede, porque um espírito não tem carne nem ossos, como estais vendo que eu tenho’ (Lc 24,39).

Cristo, em sua missão, era um Sacramento Vivo. Pensemos na mulher hemorroíssa, que curou-se ao tocar somente as vestes de Jesus… Um pedaço de tecido, que protegia o Corpo de Deus. Tantos milagres similares relatados na vida dos Santos – pelas luvas que cobriam as chagas de Padre Pio, pelo lenço com o qual o mesmo enxugava as lágrimas que derramava na Celebração Eucarística. Pois Cristo, Ressuscitado, permanece Vivo na realidade sacramental de sua Igreja, Seu Corpo Místico. Pois Cristo Se doa inteiramente, até o fim dos tempos, em Espírito e em Corpo, à Igreja, Sua Esposa. Apenas aguardando nossa inteira doação, como membros da Igreja, para nos cumular de graças, e tornar-nos participantes de Sua Encarnação, Paixão, e Gloriosa Ressurreição.


Nós, católicos, não somos espiritualistas.

Quem quer que pense o oposto, dentro ou fora da Igreja, pensa em território longínquo ao depósito da fé cristã, e, sabendo ou não, foi fisgado pelas heresias gnósticas, que consideram o corpo e a matéria como essencialmente maus, e o espírito, exclusivamente, como bom. Não há nada mais distante da fé católica do que a consideração do corpo como mau. Pois, antes de mais nada, não é o corpo que peca, como alguns podem pensar; mas o espírito decaído.

Os animais de outras espécies, que não têm alma nem liberdade, não pecam. Mas os demônios, seres espirituais, pecam a todo instante. Nós, seres humanos, é por termos alma e sermos livres que podemos pecar, e cair na escravidão. Somos livres para sustentar nossa liberdade; ou para abrir mão dela, trocando nosso direito de primogenitura por um prato de lentilhas (Gn 25, 34). A queda da alma humana, no Pecado Original, assim como todo pecado atual, é o que tira de nós a essencial integração de nossos corpos e almas, e instaura em cada homem um conflito entre os impulsos da carne, e uma alma a estes sujeitada – ferida, desorientada, resistente ao Espírito.

Não somos espiritualistas, e, portanto, para sermos autenticamente católicos, precisamos rejeitar toda sorte de gnosticismo. Certamente, como veremos melhor nos próximos artigos, nós desejamos a ‘vida conforme o Espírito’, e não conforme à carne. Mas isso não quer dizer que gostaríamos de nos desfazer de nossos corpos, para uma afirmação exclusiva de nossos espíritos. Ao contrário, significa que queremos precisamente a espiritualização dos nossos corpos enquanto tais. E isto ‘significa não somente que o espírito dominará o corpo, mas, diria, que ele penetrará inteiramente no corpo, e que as forças do espírito penetrarão nas energias do corpo’ (Teologia do Corpo, 67,1).

Como disse São Paulo aos Coríntios : ‘Sim, nós que moramos na tenda do corpo estamos oprimidos e gememos, porque, na verdade, não queremos ser despojados, mas queremos ser revestidos, de modo que o que é mortal, em nós, seja absorvido pela vida.’ (2 Cor 5,4).

Queremos um corpo espiritualizado, repleto e pleno da Presença, da Graça e da Glória do Espírito Santo, do Deus Vivo, fonte e origem de toda a vida. ‘Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! A minh’alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água!’ (Sl 62,2). Que mais é o próprio Corpo de Cristo, Deus feito Homem, que contemplamos com imensa adoração, e que recebemos em nossos corpos e almas no Santíssimo e Diviníssimo Sacramento da Eucaristia? Um Corpo pleno do Espírito, consubstancial ao Pai, que Se entregou e Se entrega por nós, e que nos revelou o Caminho, que é Ele mesmo : peguemos nossa cruz e O sigamos; entreguemo-nos em sacrifício por Deus e pelo próximo; pois esse é o Caminho da Vida e, com a Vida, o fardo será leve, o jugo será suave. Essa é a realidade fundamental na qual tocou todo mártir, e todo cristão autêntico, alimentado do viço do martírio, pela fé viva e pela graça do Espírito Santo : é melhor morrer pela Vida, sacrificar-se para ganhá-La, do que viver pela morte.

Quando vivemos a eficácia Eucarística da Igreja de Cristo, imediatamente mostra-se sem sentido, por exemplo, uma doutrina luterana como a da sola fides, pois, como poderia bastar uma fé em Cristo que se dissociasse da totalidade da Sua Revelação? Não seria completa fé. Pois a Revelação inclui a entrega sacramental do Seu Corpo e do Seu Sangue, os quais, pela fé católica, desejamos mais que tudo, e os quais, pelo Santíssimo Sacramento, efetivamente temos.

Não porque pedimos demais de Cristo, mas porque Ele mesmo quis e quer que comamos do Seu Corpo e que bebamos do Seu Sangue, conforme o sacramento que instituiu com seus apóstolos na noite de Sua Paixão, para que o repetíssemos até o fim dos tempos. Portanto, se temos a fé, somos obedientes a Cristo, cremos Nele e também em tudo o que Ele disse, sem nenhuma exceção : ‘Pois minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue é verdadeiramente bebida.’ (Jo 6,55). Isto disse Cristo, para que ninguém depois pudesse dizer que tudo não passou de uma metáfora. Na Santa Missa, oramos, mas também pedimos a Jesus, como Ele mesmo, Ressuscitado, pediu aos apóstolos : ‘Tendes aqui alguma coisa para comer?’. Sim, a Eucaristia, Corpo e Sangue de Cristo, é o maná que chove dos céus todos os dias para a sobrevivência e salvação da humanidade no exílio deste mundo desertificado pelo pecado. O Senhor disse a Moisés : ‘Vou fazer chover pão do alto do céu. Sairá o povo e colherá diariamente a porção de cada dia. Pô-lo-ei desse modo à prova, para ver se andará ou não segundo minhas ordens.’ (Ex 16,4). Éramos mendigos espirituais, nus, famintos e sedentos, e prisioneiros do pecado; o Verbo de Deus nos visitou, para nos libertar; Jesus veio para nos dar, eternamente, de comer e de beber, e para nos vestir. Ele apenas espera que consintamos com a salvação, que O procuremos, pois Ele jamais nos forçaria a comer, a beber, jamais nos vestiria à força. É preciso abrir a boca, levantar os braços, acolher as ordens salvíficas de Nosso Senhor.

A mentalidade esotérica da ‘Nova Era’, por exemplo, poderá pensar a frase em que falamos de um ‘corpo espiritualizado’, como referindo-se a um corpo que de alguma maneira é mais espírito que corpo, um corpo semi-descorporificado. Mas nós não falamos disso. Falamos de um corpo que é plenamente vivo enquanto corpo, presente, sólido, fértil, cheio da unção divina, e que de Deus pode receber e acolher a graça para realizar livremente os Seus mandamentos, que mantêm e sustentam, no interior do corpo e da alma, a vida plena. Se queremos um corpo espiritualizado, queremos na mesma medida um espírito corporificado. Tal é a unidade vital gradualmente acessível ao cristão católico conforme os avanços de sua busca pela santidade.

As quedas, os desvios, os pecados, necessariamente rompem tal unidade, e nos deixam sentir novamente o gosto amargo da miserável separação entre o homem e seu Criador. Deus permite tais quedas, não poucas vezes, para que voltemos com maior sede à nossa busca pela Comunhão, e também para que percebamos que a santificação somente é possível pela graça do Espírito, como dom Divino, de modo algum resultado exclusivo de nossos próprios esforços. Em nossos esforços próprios, infelizmente, estamos mais acostumados e inclinados ao egoísmo e ao pecado como regra, que à firme perseverança no estado de graça. Neste último estado, quando o sustentamos, o frescor e a alegria da fé, pela nossa maior conformação ao Cristo, faz manifestar a vida vigorosamente dentro de nós, e ao nosso imediato redor. Então, como é grande o desejo de sustentar tal estado! Pois, pelo pecado, tornamo-nos fracos, quando não obstinadamente egoístas, incapazes do amor-caridade, da entrega e do sacrifício pelo próximo, pela vida e por Cristo. Deus, em seu plano salvífico, quer nos restabelecer tal capacidade. Reconhecendo-nos pecadores, tornamo-nos sedentos pela Vida que é dom de Deus, queremos-na de novo em nossos corpos – sim – mas não conforme à carne : conforme o Espírito, unção vital e  ‘alegria dos anjos’, provinda de Deus Criador.

A fé solicita uma entrega a Deus que é tão espiritual quanto corpórea, em igual intensidade : a necessidade de vincular profundamente a fé com as obras (Tg 2,17). A isto veremos em detalhes nos próximos artigos. Aqui, basta dizer, ecoando a Teologia do Corpo, que a realização vocacional do ser humano, conforme pensada por Deus desde o princípio para todos e cada um de nós, concretiza-se somente com uma doação integral de si que abrange os dois aspectos do ser indissociavelmente, a alma e o corpo, tanto na reciprocidade conjugal do matrimônio, na complementaridade sexual, ser-para o marido ou a esposa, quanto no celibato voluntário ‘por amor ao Reino dos Céus’, ser-para Cristo, em serviço à comunidade como membro da Igreja, Sua Esposa.


Jesus Cristo : transcendente e imanente.

O cristianismo autêntico não apenas não nega o corpo, a sexualidade e a dimensão sensível da existência, como também se situa radicalmente fora do dualismo platônico. Este coloca a verdade transcendente como radicalmente separada da dimensão corpórea ou sensível, imanente, e, mais do que isso, como estando estas duas dimensões em um conflito intransponível. A verdade, transcendente, seria passível de ser intuída e tocada somente por nossas almas, alcançada apenas na proporção em que se conseguisse, o máximo possível, desvencilhar-se do corpo e da dimensão sensível, fontes de engano. Tal incorreção filosófica – contida também no gnosticismo – aparece e reaparece em diversas heresias, sob diversos nomes, ao longo da história da Igreja.

É quase uma unanimidade entre as heresias, por mais distintas que pareçam, uma dificuldade em aceitar uma realidade básica e essencial do cristianismo autêntico : o fato de que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Cristo é Homem sem deixar de ser Deus, e é Deus sem deixar de ser Homem. Nós, de fé católica, adoramos a Humanidade de Cristo, não apenas a sua Divindade, pois adoramos o Cristo inteiro. Tal perfeita Humanidade, que em tudo foi igual à nossa com a exceção do pecado, foi o instrumento de Deus para a nossa salvação. A dificuldade em aceitar esta verdade fundamental da fé cristã aparece, inclusive, na base de todo o protestantismo. O problema é que tal verdade é exatamente aquela através da qual se dá a nossa Salvação : a ponte criada entre a transcendência e a imanência, entre o divino e o humano, ponte que segue, construída e aberta, dentro de toda grande basílica, e de toda pequena paróquia, concretamente presente dentro de todo sacrário; a gloriosa Comunhão do divino com o humano, à qual somos convidados por Cristo. E essa ponte já era mantida desde muito antes da construção do primeiro templo católico, é claro, quando os apóstolos, com a comunidade cristã primitiva, celebravam a Eucaristia após a ascensão de Cristo, ainda que isso fosse feito numa pequena casa, escondida da perseguição dos judeus e dos romanos.

‘Se os homens conhecessem o valor da Santa Missa, a polícia teria que estar sempre às portas das igrejas para manter a ordem por causa da grande quantidade de pessoas que a assistiriam’. Qual a razão de tal frase, do nosso amado São Pio de Pietrelcina? Basta imaginar como seria a frequência nas igrejas, diariamente, se toda a humanidade subitamente soubesse, reconhecesse, se desse conta de que na Eucaristia nós recebemos o Corpo e o Sangue de Deus literalmente, em nossas almas, para nelas operar Suas graças…


Deus tem um Nome e é o Senhor da História.

Também é digno de nota, aqui, o fato de que em outras tradições religiosas e místicas, costuma-se buscar, através de um esforço do ser humano para desligar-se das ‘distrações’ sensíveis – isto é, tudo o que é sensível sendo visto como obstáculo -, uma unidade puramente espiritual com a divindade (anônima) que descansaria dentro de cada um, em que o homem poderia dizer à divindade, ‘eu = tu’. Na tradição judaico-cristã, por sua vez, é o próprio Deus que procura o homem, lá onde ele está, e faz sua Aliança com ele, revelando seu Santo Nome ao ser humano, a começar pelas revelações veterotestamentárias : Moisés disse a Deus : ‘Quando eu for para junto dos israelitas e lhes disser que o Deus de seus pais me enviou a eles, que lhes responderei se me perguntarem qual é o seu nome?’ Deus respondeu a Moisés : ‘EU SOU AQUELE QUE SOU’. E ajuntou : ‘Eis como responderás aos israelitas : (Aquele que se chama) EU SOU envia-me junto de vós.’ (Ex 3,13-14).

Deus nos criou, temos o Seu Espírito em nós, mas Deus é também o totalmente Outro por excelência, é o Todo-Poderoso, Inefável, Criador do céu e da terra. Revela-Se na imanência e na História, mas permanece transcendente e Eterno. Diz o salmista : ‘O Senhor, do alto do céu, observa os filhos dos homens, para ver se, acaso, existe alguém sensato que busque a Deus.’ (Sl 13,2). O Criador nos busca e entra em relação conosco, pede que percebamos Seus sinais, que atendamos aos Seus chamados, faz-Se encontrar por nós, quer que entremos em relação com Ele, pela oração, e que O acolhamos em nossos corações; Tu + eu; Tu + cada um de nós.

Deus apresenta-Se ao homem numa relação face a face, digamos, corpo a corpo. Quando isso acontece, Ele não apaga a subjetividade do homem, mas, pelo contrário, concretiza-a, revela-a, dá ao homem seu verdadeiro nome; e a Seu Nome, que é Santo, revela-O, mas ao mesmo tempo guarda-O na eternidade do seu mistério. Assim é Deus : revela-Se a nós, mas permanece sendo o Inefável, o Inexprimível. Inesquecível a passagem do Livro do Gênesis em que Jacó, no deserto, luta com um homem que em seguida revela-Se como sendo o próprio Deus, que ganha corporeidade e toca em Jacó. ‘‘Teu nome não será mais Jacó, retomou ele, mas Israel, porque lutaste com Deus e com os homens, e venceste.’ Jacó perguntou-lhe : ‘Peço-te que me digas qual é o teu nome.’ ‘Por que me perguntas o meu nome?’, respondeu ele. E abençoou-o no mesmo lugar. Jacó chamou àquele lugar Fanuel : ‘porque, disse ele, eu vi a Deus face a face, e conservei a vida’.’ (Gn 32, 28-30).

Com isso, podemos compreender o caráter não-espiritualista da fé no Deus que se revela nas Sagradas Escrituras. A esse respeito, diz o Cardeal Ratzinger : ‘Na mística, vale o primado da interioridade, absolutizando-se, assim, a experiência espiritual. Isso implica que Deus seja totalmente passivo em relação aos homens e que o conteúdo da religião só pode ser a submersão do homem em Deus. Não há nenhum ato de Deus, mas somente a ‘mística’ do homem, o caminho gradativo para a união. O caminho monoteísta parte de uma consideração oposta : aqui, o homem é passivo, o que atua nele é Deus; aqui, o homem nada pode por si mesmo, mas, em contrapartida, há uma ação de Deus, um chamado de Deus, a salvação abrindo-se para o homem na obediência a esse chamado’. Estamos falando de um Deus em ação, que nos procura. ‘Deus procura o homem no meio do mundo e das atividades mundanas e terrenas, vai atrás do homem, entra em relação com ele. Poder-se-ia dizer : a ‘mística’ da Bíblia não é uma mística pictórica, mas verbal, sua revelação não é exibição do homem, mas palavra e ação de Deus. Não é primariamente a descoberta de uma verdade, mas ato do próprio Deus que age na história. O seu sentido não é que a realidade divina se torna visível, mas fazer o receptor da revelação portador da mensagem divina. Pois aqui, em contraposição à mística, Deus é o que atua, e é Ele quem cria a salvação para o homem’.

Todo o espírito heroico dos Santos, todo o seu poder espiritual – como o de Maria, a Torre de Marfim, Senhora do Universo e de toda a Criação, que esmaga as heresias e o demônio – advém de uma total e irrestrita obediência a Deus e Suas ações. ‘Eis aqui a serva do Senhor’… Deus faz maravilhas em quem o serve; em quem mostra a Ele, com docilidade, sua pequenez.

Deus, que havia revelado o Seu Nome, EU SOU, e inspirado os patriarcas e os profetas, encarnou-Se como Jesus Cristo, a Palavra, o Logos de Deus. ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus’ (Jo 1,1). ‘E o Verbo se fez carne’… Deus ganhou um Rosto, um Corpo, revelou-Se como Verdade, deixando-nos conhecer Seu projeto salvífico para a humanidade. O que podemos fazer para sermos salvos é ajoelhar em humildade diante Dele, Revelado e Ressuscitado, e orarmos em súplica : Meu Senhor… Pois Jesus Cristo é, efetivamente, o Senhor do Céu e da Terra. Somos seus servos, e que alegria, que plenitude, encontramos em servi-Lo! ‘Ao simples ecoar / do vosso nome eterno, / joelhos vão dobrando / o céu, a terra, o inferno’.

Na oração, diante de Deus, de Cristo Ressuscitado, descobrimos a nós mesmos, alma e corpo. ‘Ninguém sabe o que é seu corpo até que tenha orado. É no exercício dessa grande função respiratória (Pneuma-Espírito), que é a oração, que nós tomamos consciência de nosso corpo, que o ‘enchemos’ verdadeiramente. A oração é mesmo a função última do corpo, sua função mais perfeita, sua grande função biológica, pois a rigor não existe vida (bios) a não ser pelo Verbo (Logos) e pelo Espírito. Além de todas as suas funções biológicas, no sentido mais comum, o corpo só se realiza na função orante, inaugurada no tempo e levada à perfeição no universo escatológico da ressurreição. A posição que nosso corpo assume na oração, ‘esquema’ tão importante na iconografia cristã primitiva, antecipa e prepara sua forma definitiva de ressuscitado’ (François Cassingena-Trevedy).


‘Quem diz que o Verbo de Deus não veio na carne é o Anticristo’.

Em homilia feita no dia 16/09/2016, o Papa Francisco falou a respeito da ‘lógica da fé Cristã’ – a maneira fundamental de pensar que nasce do verdadeiro assentimento à verdade revelada – que ele descreve como sendo a ‘lógica do dia de depois de amanhã’, que olha para a ressurreição do corpo.

‘É fácil para todos nós’, disse o Santo Padre, ‘entrar na lógica do passado, porque é concreta’, e é também ‘fácil entrar na lógica do aqui-e-agora, porque nós o vemos’. Quando, no entanto, olhamos para o futuro, então pensamos que ‘é melhor não pensar’, ou caímos na tentação de não pensar no futuro até o fim. ‘A lógica do dia depois de amanhã, esta é difícil. (…) A ressurreição : Cristo ressuscitou (…) e está claro que Ele não ressuscitou como um espírito. Na passagem em Lucas sobre a ressurreição : ‘Mas me toquem’. Um espírito não tem carne, não tem ossos. ‘Toquem-me, me deem de comer’. A lógica do dia depois de amanhã é a lógica na qual entramos na [ressurreição da] carne’.

‘Nós traímos um certo gnosticismo, e pensamos que tudo será espiritual, porque temos medo da carne’. O Papa clama aos cristãos que digam ‘não’ a uma piedade espiritualista, e entrem na lógica da carne de Cristo. Não esqueçam, diz ele, ‘que esta foi a primeira heresia’ que o apóstolo João condena : ‘Quem diz que o Verbo de Deus não veio na carne é o Anticristo’.

‘Nós temos medo de aceitar e sustentar as últimas consequências da carne de Cristo. Uma piedade espiritualista é mais fácil, um pietismo sutil; mas entrar na lógica da carne de Cristo, isso é difícil. E esta é a lógica do dia de depois de amanhã. Nós vamos ressuscitar como Cristo, com nossa carne’.

O Papa já havia clamado aos cristãos, em outra ocasião, que não apenas dessem esmolas aos pobres, aos miseráveis necessitados, jogando para eles algumas moedas rapidamente para livrar-se deles, mas que não tivessem medo de tocá-los. ‘Quantas vezes encontramos um pobre e, mesmo sendo generosos e sentindo compaixão, não o tocamos. Oferecemos uma moeda, mas evitamos tocar sua mão. Esquecemos que aquele é o corpo de Cristo! Jesus nos ensina a não ter medo de tocar o pobre e o excluído, porque Ele está neles. Tocar o pobre pode nos purificar da hipocrisia’.

A humanidade de Deus, em Cristo, revela-nos de uma vez por todas que ‘O corpo, de fato, e só ele, é capaz de tornar visível o que é invisível : o espiritual e o divino. Foi criado para transferir para a realidade visível do mundo o mistério oculto desde a eternidade em Deus, e assim ser sinal d’Ele’ (Teologia do Corpo 19,4). Adoramos o Corpo de Cristo e o Seu Sagrado Coração, ‘tabernáculo do Altíssimo’. Adoramos a Cruz e as imagens de Cristo, pois são sinal do mistério da verdadeira encarnação de Deus. Veneramos as imagens da Virgem Maria e dos Santos, pois nos remetem aos protótipos, que, efetivamente, viveram e pisaram esta terra, e trouxeram (continuam trazendo) à nossa realidade material e sensível – após todo pecado, terra de exílio – a plenitude da Divindade. Quando se beija a mão de um padre, está-se prestando respeito à autoridade espiritual conferida por Cristo aos seus apóstolos, para ministrar o caminho da salvação na economia sacramental da Igreja.

São Pio de Pietrelcina, o mais extraordinário místico católico do século XX, teve os estigmas de Cristo em suas mãos, pés e na lateral do tórax por 50 anos. É assim a vida dos maiores místicos cristãos da nossa história : eles têm o seu coração transverberado, as feridas de Cristo revividas em seu próprio corpo, e a mais imensa capacidade de amar, face a face, corpo a corpo. ‘Agora eu me alegro nos sofrimentos por vós e completo em minha carne o que resta das aflições do Cristo em favor de seu corpo, que é a Igreja’, diz o inspirado Apóstolo Paulo (Cl 1, 24).


Ética e espiritualidade.

Uma outra ligação entre o corpo e o espírito na fé cristã, já presente em toda a tradição veterotestamentária, vem da total indissociabilidade da espiritualidade com a ética e a moral.

A sociedade contemporânea, amplamente mundana e antieclesial, está sendo ‘educada’ para rejeitar a moral judaico-cristã, e a divulgar uma vaga ‘espiritualidade’ dissociada de toda ‘religião’, a partir dos enganosos imperativos do poder global contemporâneo, que se serve também das ideologias revolucionárias-totalitárias de viés marxista, para impor globalmente uma mudança de consciência que favoreça a aceitação de suas pautas mais caras, como o controle populacional e, para isso, a legalização do aborto e da eutanásia, o ‘casamento’ gay, a ideologia de gênero etc. – em suma, a descaracterização da família, do casamento e da sexualidade como instituições naturais. Sobre isso, no livro ‘Poder Global e Religião Universal’, Mons. Juan Claudio Sanahuja mostra como, hoje, quer-se estabelecer uma ‘religião’ universal sem dogmas nem hierarquias, mais de acordo com o projeto de poder totalitário que está em curso, através de uma tentativa de neutralização e esvaziamento do conteúdo da Revelação Divina tal como anunciada e protegida pela Igreja há dois milênios. A tradição judaico-cristã, com sua defesa da dignidade irredutível de toda vida humana (da concepção até a morte), e de outros valores fundamentais para a salvaguarda da mesma em sua realização plena, é (e permanecerá sendo) obstáculo para a revolução antinatural do mundo.

No ambiente secular, em que se dissemina a desinformação e a confusão – além da obstinação ideológica – muitos passam a rejeitar a Igreja como sendo uma instituição ‘antiquada’, e a apostar em práticas ‘espirituais’ inteiramente dissociadas de qualquer código ético e moral claro. Quer-se religiões, seitas ou práticas em cujas atividades a pessoa possa ter algum ‘bem-estar’, sentir-se ‘espiritualizada’, ou então obter realizações pessoais (em geral, de cunho material), mas que possa seguir vivendo como ‘quiser’, determinando suas próprias regras de ação e relação, sem ser ‘importunada’ por uma moral fundamental e imutável, que fosse compartilhada e sustentada pela comunidade. Vive-se uma ‘espiritualidade’ difusa, que não transforma toda a conduta do ser humano, mas, pelo contrário : que sustenta o relativismo moral dos dias atuais. Pode-se pecar à vontade – ‘nada é pecado’, isso seria questão de pontos de vista, sempre relativos – mas depois tem-se uma sessão de alguma coisa, seja lá o que for, para sentir-se bem, e obter ‘bons fluidos’.

Na espiritualidade cristã, conhecemos que, para estarmos próximos de Deus e protegidos contra os ataques do diabo e de seus demônios, é necessário que obedeçamos aos mandamentos divinos. Aquele que obedece aos mandamentos divinos mas não é nenhum místico, não faz experiências sublimes de meditação, ainda assim está salvo, mantém-se em território espiritual protegido. Não poderíamos dizer o mesmo do contrário. De nada adianta uma mística desobediente. (Daí, também, o engano das práticas ‘espirituais’ que recorrem à magia, adivinhação, comunicação com espíritos, e ofendem o coração de Deus, ignorando Seus mandamentos). A obediência aos mandamentos nos mantêm em Deus, no seu jardim, e assim somos inspirados por Ele. Recorrendo novamente ao Cardeal Ratzinger, sabemos que ‘para os diversos caminhos religiosos fora da revolução iniciada pelos profetas, salvas são as almas interiores, seja qual for a religião a que pertençam. Para o cristianismo, são os crentes, qualquer que seja o grau de interioridade que eles alcançaram. Uma criancinha, um trabalhador sobrecarregado de trabalho, quando creem, são maiores do que os grandes ascetas’. Existem grandes personalidades religiosas fora do cristianismo. ‘Mas isso não tem importância alguma; o que importa é a obediência à palavra de Cristo’ (Jean Daniélou).

É pela obediência completa aos mandamentos de Deus que – mesmo antes da Ressurreição escatológica da Carne, que nos foi prometida por Cristo e que professamos em nosso Credo –  obtemos, não apenas a salvação de nossas almas, mas também a redenção de nossos corpos mesmo nessa vida de exílio, pois, pela obediência a Deus, podemos recuperar a integração corpo-alma e a abertura ao Espírito Santo, ‘distribuidor dos dons celestes’, e viver conforme a Sua Vontade.

‘Comerás livremente o fruto de qualquer espécie de árvore que está no jardim; contudo, não comerás da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comeres, com toda a certeza morrerás’ (Gn 2, 16-17). A transgressão dos mandamentos divinos leva à morte : isto é, à ruptura entre o corpo e a alma.

‘Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho’ (Sl 119,105). Deus nos revelou Suas Leis, porque nos ama imensamente, e quer que saibamos o que fazer para recuperarmos a vida que perdemos com o pecado, quer que recuperemos a nossa própria realidade. Fomos desorientados pelo Pecado; este nos cega para a visão do Criador, e então, desobedientes, nos frustramos em todas as tentativas de encontrarmos a nós mesmos. Deus, nosso Pastor, quer nos reorientar, quer nos reconduzir ao Seu rebanho, quer nos devolver o acesso à Árvore da Vida, que perdemos no pecado. Trata-se, desde a Criação, e desde a Redenção, de uma constante escolha entre comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, proibida a toda criatura, ou comer da Árvore da Vida, entregando a Deus o que é de Deus, isto é – tudo, e nós mesmos. Em espírito, e em corpo.

‘Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância.’ (Jo 10,10).

Quando pecamos, a vida escapa de nós, sentimos nossos corpos e almas esvaziarem-se de consistência e de sentido. Na comunhão bem feita com Deus, consistência e sentido são a própria matéria inseparável da vida, e quando sentimos isso, a ação de Deus, o Inefável, torna-se verdadeiramente palpável… Palpável na paz profunda e eterna, que suspende o tempo, que recai sobre o espírito e irriga o corpo na Eucaristia. Na atmosfera sobrenatural e milagrosa da adoração ao Santíssimo Sacramento… Em que, no sagrado silêncio, todos os fiéis parecem dizer em uníssono : Deus, como sois Real! Como sois o Dono de toda a Realidade! Como a vida é irreal sem Vós! Não Vos pedimos nada além da Vossa Una e Trina Presença. Quando entrais num ambiente, ó Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho, Espírito Santo, a tudo santificais e realizais… Na adoração ao Santíssimo, tudo o que é puro em nossos corações, tudo o que já foi purificado em nós pela conformação ao Cristo e à Virgem Maria, regozija interiormente, em paz e alegria; e tudo o que ainda não se santificou, mexe, incomoda, constrange-nos diante da Perfeição; toda inclinação para o pecado treme dentro de nós em santo temor. E como Jacó despertado do sono, depois de ter visto a escada para o céu, deitado sozinho ao ar livre com a cabeça sobre uma pedra, exclamamos : ‘Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!’ (Gn 28,16).

‘E, cheio de pavor, disse : ‘Quão terrível é este lugar! É nada menos que a casa de Deus; é aqui, a porta do céu.’ No dia seguinte, pela manhã, tomou Jacó a pedra sobre a qual repousara a cabeça e a erigiu em estela, derramando óleo sobre ela. Deu o nome de Betel [em hebraico, Casa de Deus] a este lugar, que antes se chamava Luza. Jacó fez então este voto : ‘Se Deus for comigo, se ele me guardar durante esta viagem que empreendi, e me der pão para comer e roupa para vestir, e me fizer voltar em paz para a casa paterna, então o Senhor será o meu Deus.’’ (Gn 28,17-21).

Após encontrarmos com Deus corpo a corpo, após vermos tão de perto a escada para o céu como Jacó, não há como não querer retornar no dia seguinte mais dignos dessa visão, mais puros e conformados ao Cristo, para melhor subi-la. A Virgem Santíssima, que é a própria escada para subir ao céu, pois foi a escada que o céu usou para descer à terra, é nosso mais precioso auxílio, guarda-nos durante esta viagem, como Mãe da Igreja, para levar-nos à Comunhão com seu Filho Ressuscitado, que reina no topo e em todo lugar. A porta da Igreja é estreita – entra-se somente com a luta pela inteira conversão a Ele – mas do outro lado há pão para comer (Eucaristia), há roupa para vestir (a unção do Espírito Santo, o revestimento do ‘novo Homem’, isto é, de Cristo, o novo Adão). Há paz, plenitude de vida e verdade, no retorno à casa paterna. Há também uma boa Mãe.

‘Quem crê em mim, como diz a Escritura : De seu seio jorrarão rios de água viva’ (Jo 7,38).’


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