Mostrando postagens com marcador pecado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pecado. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Pecados Mortais e Veniais: o que você precisa saber?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do diácono Alexandre Varela e Viviane Varela


‘Muitos protestantes dizem que ‘não existe pecadinho e pecadão : todos os pecados são equivalentes e tornam a pessoa igualmente culpada’. Essa ideia é totalmente sem lógica e vem de uma interpretação errada desta passagem da Bíblia : ‘Pois quem guardar os preceitos da Lei, mas faltar em um só ponto, se tornará culpado de toda ela’ (Tg 2, 10).

Alguém em sã consciência pode mesmo acreditar que uma criança ou que um mendigo que roubou uma maçã porque estava passando fome é tão culpável diante de Deus quanto um homicida que planejou a morte de alguém para ficar com a sua herança?

A Igreja Católica ensina que, basicamente, há dois tipos de pecados

  • os pecados MORTAIS (graves), que separam a alma da amizade com Deus. Se não houver arrependimento, conduzem ao Inferno, ou seja, à morte da alma;
  • os pecados VENIAIS (leves), que diminuem a graça na alma, mas não condenam ao Inferno.

São João revelou que há pecados que conduzem à morte da alma, e há outros que não : ‘Se alguém vê seu irmão cometer um pecado que não o conduza à morte, reze, e Deus lhe dará a vida; isso para aqueles que não pecam para a morte. Há pecado que é para morte; não digo que se reze por esse. Toda iniquidade é pecado, mas há pecado que não leva à morte.’ (1 Jo 5, 16-17).

Diante de Pilatos, Jesus também ensinou que há uma hierarquia de gravidade entre os pecados : ‘quem me entregou a ti tem pecado maior’ (Jo 19, 11b). E, no ato do lava-pés, Pedro pede que Jesus lave suas mãos e também a cabeça, mas Jesus diz que aquilo não era necessário, pois ‘Aquele que tomou banho não tem necessidade de lavar-se; está inteiramente puro’ (Jo 13,10a). Ou seja, Pedro só precisava ser purificado de seus pecados veniais, que são como a poeira nos pés.

O Catecismo da Igreja Católica esclarece que um pecado pode ser mortal ou venial, dependendo da intenção e da dimensão do dano gerado (Catecismo, n. 2484). Quando um fiel tem a consciência de que está em pecado grave, ele não deve se aproximar da Eucaristia para comungar. Para que um pecado seja mortal (grave), é preciso que esteja de acordo com os três pontos abaixo. Se faltar apenas um ou mais desses elementos, o pecado é venial :

  • é matéria grave
  • o pecador sabia que era pecado
  • fez porque quis, com total liberdade

Nos Evangelhos, Jesus delineia claramente a grande diferença de culpabilidade entre uma pessoa que faz coisas más por falta de conhecimento do que era o certo, e outra, que faz o que é mau com plena consciência do erro : 

O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis, será açoitado com poucos golpes. Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. (Lc 12, 47-48).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/pecados-mortais-e-veniais-o-que-voce-precisa-saber.html 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Pecados que agridem o nome de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Luiz Antônio de Araújo Guimarães 


‘Para que fique bem claro, o segundo mandamento da lei divina é ‘Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão!’ (Ex 20,7) e isso requer uma atenção redobrada porque, em muitos casos, as pessoas podem cometer pecados sem que saibam que era pecado. 

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2144, recorda : ‘A deferência para com o nome de Deus exprime o respeito que é devido ao mistério do próprio Deus e a toda a realidade sagrada que ele evoca’. Tendo essa compreensão é necessário que, para manter esse respeito, a pessoa saiba distinguir o que fere o nome santo do Senhor. Dentre os pecados que vão ao encontro do segundo Mandamento, observe-se blasfêmia, autossuficiência e mentira. 

A blasfêmia é o pecado que mais fere a dignidade do nome de Deus : ‘A blasfêmia opõe-se diretamente ao segundo mandamento. Ela consiste em proferir contra Deus – interior ou exteriormente – palavras de ódio, de ofensa, de desafio, em falar mal de Deus, faltar-lhe deliberadamente com o respeito, abusar do nome de Deus’ (Catecismo da Igreja Católica, 2148). O blasfemador desse nome é uma pessoa que não reconhece a soberania e a santidade de Deus e acha que pode dizer o que quer sem que lhe traga algum prejuízo. Engana-se! O maior prejuízo será para ela perder o Céu caso não se arrependa e mude de conduta. Vale lembrar que ‘(…) a proibição da blasfêmia se estende às palavras contra a Igreja de Cristo, os santos, as coisas sagradas. É também blasfemo recorrer ao nome de Deus para encobrir práticas criminosas, reduzir povos à servidão, torturar ou matar. O abuso do nome de Deus para cometer um crime provoca a rejeição da religião’ (Catecismo da Igreja Católica, 2148). 

Quanto ao pecado da autossuficiência é o ser humano achar que tudo lhe é possível e que ele não depende do nome de Deus para nada. Por exemplo : pais que não batizam o filho ou pessoas que não querem ser batizadas e acham que a vida segue normalmente sem a necessidade de ser batizado ‘em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’ pecam por autossuficiência. Receber o Batismo é, por sua vez, acolher o nome do Deus, que é Pai e Filho e Espírito Santo e, por meio desse nome, receber a sua divina proteção. ‘No começo do dia, de uma oração e também de tarefas importantes, o cristão coloca-se sob o ‘sinal da cruz’ e inicia a sua ação em ‘nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’. A invocação nominal do Deus trino, por quem estamos cercados de todos os lados, santifica as coisas que empreendemos; ela concede-nos a bênção e fortalece-nos nas dificuldades e nas tentações.’ (Catecismo Jovem da Igreja Católica – Youcat, 360) 

Já o pecado da mentira é ferir a plena verdade que o nome de Deus traz consigo : ‘Dizer a alguém o seu nome é um sinal de confiança. Se Deus nos disse o seu nome, é porque Ele se dá a conhecer e porque nos permite o acesso a Ele mediante esse mesmo nome. Deus é todo verdade; por isso, peca gravemente quem invoca a verdade e o nome de Deus para testemunhar uma mentira’ (Catecismo Jovem da Igreja Católica – Youcat, 359). A mentira em si já é pecado e mentir usando o nome Deus o é mais ainda, porque é querer reduzir a plena verdade que é Deus a um fato ilusório, falso. Condutas como essas não convêm, de forma alguma, a um cristão que busca viver em Deus e para Deus. 

Diante de tais constatações que ferem o santíssimo nome do Senhor, que não falte no coração e na mente de toda pessoa, e particularmente dos jovens, o espírito de reflexão interior para ter o máximo cuidado de não tomar o nome de Deus em vão. 

Se assim o fizer, sua vida não somente estará em perfeita comunhão com Deus, mas terá credibilidade diante dos irmãos e irmãs. Boa reflexão interior!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/pecados-que-agridem-o-nome-de-deus.html


domingo, 25 de agosto de 2024

Pecados que ferem o amar a Deus sobre todas as coisas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Luiz Antônio de Araújo Guimarães 


‘Talvez alguns jovens não se deem conta de que há pecados que ferem gravemente o amor a Deus sobre todas as coisas e partem do princípio de fechar o coração ao amor divino, o que fará com que não se conheça a plenitude do amor que é o próprio Deus. 

O Catecismo Jovem da Igreja Católica, conhecido como Youcat, apresenta no número 355 tais proibições quanto ao primeiro mandamento. A primeira diz que é proibido ‘venerar outros deuses ou divindades falsas, adorar um ídolo ou vender a alma a um bem terreno (dinheiro, influência, sucesso, beleza, juventude etc.)’. Diante de uma sociedade que preza muito o ter e o prazer em detrimento do ser, muitos acabam por reverenciar falsos deuses, oriundos do seu imaginário e que satisfazem a sua vontade e alimentam seu ego. Por exemplo, a influência ou fama é um falso deus. Ser alguém conhecido, famoso, não é pecado, porém, quando a fama passa a ocupar o primeiro lugar na vida e é desejada a qualquer preço aí sim se torna um pecado. Igualmente são os demais bens terrenos, como o Youcat apresenta.

A segunda proibição é ‘ser supersticioso, isto é, em vez de crer no poder, na orientação e na bênção de Deus, aderir a práticas esotéricas, mágicas ou ocultas, incluindo a adivinhação e o espiritismo’. Nossa! Como essa realidade da superstição assalta por demais a juventude! É preciso levar os jovens a pensar sobre Deus e saber que somente a Ele deve ser dada toda honra, glória, poder, soberania e majestade, além de se deixar guiar por Ele, porque quem assim procede não se torna supersticioso, quer dizer, não se deixará conduzir pelo esoterismo, magia ou ocultismo. 

Uma terceira proibição é ‘provocar Deus com palavras e atos’. Ninguém, no bom uso de sua consciência, deve provocar o Senhor, porque dessa forma é como se quisesse estar no mesmo nível de Deus. Com Ele se dialoga por meio da oração, mas, sem provocá-lo. Jesus, que é Deus feito homem, por meio da oração do Pai-Nosso ensinou a humanidade a chamar Deus de Pai e a reconhecer que a vontade dele é o melhor para a vida de todo aquele que o invoca. Certamente, quem não reza não se lança no querer do Senhor e corre o risco de insultá-lo, cometendo assim um pecado. 

Quarta proibição é cometer um sacrilégio. Convém deixar bem claro o que é sacrilégio. Diz o Youcat: ‘Latim sacrilegium = roubo num templo. É o roubo, a violação ou a profanação de algo sagrado’. O que é sagrado deve ser sempre velado, preservado e ser mantida sua dignidade. A hóstia, por exemplo, após ser consagrada na santa Missa passa a ser corpo e sangue de Nosso Senhor, Jesus Cristo. O sacrário, que é o local sagrado onde são guardadas para a comunhão aos enfermos e a adoração eucarística, deve ser altamente preservado, pois ali dentro não se conserva algo qualquer, mas sim o próprio Jesus em forma de Eucaristia. Daí a importância de velar e zelar pelo ambiente da capela do Santíssimo Sacramento onde fica o sacrário, pois violar a Eucaristia é um pecado grave. 

A quinta e última proibição é ‘adquirir poder sagrado de um modo corrupto e profanar o sagrado comercialmente (simonia)’. Apresenta esse aspecto de modo bem claro o Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2121 ‘A simonia define-se como a compra ou venda das realidades espirituais. A Simão, o mago, que queria comprar o poder espiritual que via operante nos apóstolos, Pedro responde : ‘Vá contigo o teu dinheiro para a perdição, porque julgaste poder adquirir por dinheiro o dom de Deus’ (At 8,20). O apóstolo conformava-se, assim, à Palavra de Jesus : ‘Recebestes de graça, pois dai gratuitamente’ (Mt 10,8). É impossível alguém apropriar-se dos bens espirituais e comportar-se a respeito deles como proprietário ou dono, pois eles têm a sua fonte em Deus e só dele se podem receber gratuitamente’. 

Após esse percurso, convém lembrar que para não cair na tentação de cometer tais pecados é preciso ter o coração aberto a Deus, buscá-lo por meio da oração e deixar-se conduzir por sua santa vontade que, sem sombra de dúvida, é o melhor para sua vida. Assim amará a Deus sobre todas as coisas. Esse caminho, por sua vez, só você pode trilhar e experimentar. Avante!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/pecados-que-ferem-o-amar-a-deus-sobre-todas-as-coisas.html



sexta-feira, 5 de março de 2021

‘Quem de vós pode acusar-me de pecado?’ Jesus Cristo, ‘verdadeiro homem’ – Segunda Pregação da Quaresma de 2021

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap,

pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano)

Tradução : P. Ricardo Farias, OFMCap

 

O pensamento moderno, iluminista, nasce sob o signo da máxima de viver ‘etsi Deus non daretur’, como se Deus não existisse. O pastor Dietrich Bonhoeffer retomou esta máxima, buscando dar-lhe um conteúdo cristão positivo. Nas suas intenções, não era uma concessão ao ateísmo, mas um programa de vida espiritual : fazer o próprio dever também quando Deus parecer ausente; em outras palavras, não fazer dele um Deus – tapa-buracos, sempre pronto a intervir onde o homem falhou.

Também nesta versão, a máxima é discutível e foi, justamente, contestada. Mas a nós, neste momento, ela interessa por outra razão. Existe um perigo mortal para a Igreja, e é o de viver ‘etsi Christus non daretur’, como se Cristo não existisse. É o pressuposto com o qual o mundo e seus meios de comunicação falam todo o tempo da Igreja. Dela, interessam a história (sobretudo a negativa, não a da santidade), a organização, o ponto de vista sobre os problemas do momento, os fatos e as fofocas dentro dela. Raramente se encontra mencionada a pessoa de Jesus. Há alguns anos, foi proposta – e ainda vigora em alguns países – a ideia de uma possível aliança entre fiéis e não fiéis, baseada nos valores civis e éticos comuns, nas raízes cristãs da cultura e assim por diante. Um pacto, em outras palavras, não baseado no que aconteceu no mundo com a vinda de Cristo, mas no que aconteceu em seguida, depois dele.

A isso se acrescenta um fato objetivo, infelizmente, inevitável. Cristo não entra em questão em nenhum dos três diálogos mais vivazes em curso hoje, entre a Igreja e o mundo. Não entra no diálogo entre fé e filosofia, porque a filosofia se ocupa de conceitos metafísicos, não de realidades históricas, como é a pessoa de Jesus de Nazaré; não entra no diálogo com a ciência, com a qual se pode unicamente discutir sobre a existência ou não de um Deus criador e de um projeto inteligente abaixo da evolução; não entra, enfim, no diálogo inter-religioso, onde se ocupa do que as religiões podem fazer juntas, em nome de Deus, pelo bem da humanidade.

Na preocupação – além do mais, justíssima – de responder às exigências e provocações da história e da cultura, nós corremos o perigo mortal de nos comportarmos, também nós, fiéis, ‘etsi Christus non daretur’. Como se fosse possível falar da Igreja prescindindo de Cristo e do seu Evangelho. Tocaram-me fortemente as palavras pronunciadas pelo Santo Padre na Audiência Geral de 25 de novembro passado. Dizia – e se entendia pelo tom que isso o tocava profundamente –:

Aqui [nos Atos dos Apóstolos, 2,42] encontramos quatro caraterísticas essenciais da vida eclesial : primeira, a escuta do ensinamento dos apóstolos; segunda, a salvaguarda da comunhão recíproca; terceira, a fração do pão; e quarta, a oração. Elas lembram-nos que a existência da Igreja tem sentido, se permanecer firmemente unida a Cristo, isto é, na comunidade, na sua Palavra, na Eucaristia e na oração. É o modo de nos unirmos a Cristo (...). A pregação e a catequese dão testemunho das palavras e dos gestos do Mestre; a busca constante da comunhão fraterna preserva dos egoísmos e dos particularismos; a fração do pão realiza o sacramento da presença de Jesus no meio de nós : Ele nunca estará ausente, na Eucaristia é precisamente Ele, Ele vive e caminha conosco. E por fim, a oração, que é o espaço do diálogo com o Pai, através de Cristo no Espírito Santo. Na Igreja, tudo o que cresce fora destas ‘coordenadas’ está desprovido de fundamento.

As quatro coordenadas da Igreja, como se vê, reduzem-se, nas palavras do papa, a uma só : permanecer ancorada em Cristo. Tudo isso fez nascer em mim o desejo de dedicar estas meditações quaresmais à pessoa de Jesus Cristo. Tive que superar, eu mesmo por primeiro, uma objeção. Um olhar no índice dos documentos do Vaticano II, no verbete ‘Jesus Cristo’, ou uma rápida passagem pelos documentos pontifícios dos últimos anos, fala-nos dele infinitamente mais do que podemos dizer nestas breves meditações quaresmais. Qual é, então, a utilidade de escolher este tema? É que aqui se falará somente dele, como se existisse só ele, e valesse a pena se ocupar só dele (o que é, definitivamente, a verdade!).

Podemos fazê-lo porque não somos constrangidos, como é o Magistério, a nos ocuparmos também de outras questões : dos problemas pastorais, daqueles éticos, sociais, ambientais, neste momento, dos problemas criados pela pandemia. Ai se fizer, naturalmente, somente o que fazemos aqui, mas ai se jamais o fizer. Da minha experiência com a televisão, aprendi uma coisa. Existem vários modos de enquadrar um objeto. Há o ‘plano total’, no qual se enquadra quem fala com tudo o que o circunda; há o ‘primeiro plano’, no qual se enquadra somente a pessoa que fala; há, enfim, o chamado ‘primeiríssimo plano’, no qual se enquadra apenas o rosto, ou mesmo somente os olhos de quem fala. Eis o que, nestas meditações, nós propomos em fazer, com a ajuda de Deus, primeiríssimos planos sobre a pessoa de Jesus Cristo.

O nosso intuito não é apologético, mas espiritual. Em outras palavras, não falamos para convencer os outros, os não fiéis, mas para que ele se torne sempre mais realmente o Senhor da nossa vida, o nosso tudo, ao ponto de nos sentirmos também nós, como o Apóstolo, ‘alcançados por Cristo’ (Fl 3,12) e poder dizer com ele – ao menos como desejo – ‘Para mim, de fato, o viver é Cristo’ (Fl 1,21). A pergunta que nos acompanhará não será, portanto : ‘Que lugar Jesus ocupa hoje no mundo ou na Igreja?’, mas : ‘Que lugar Jesus ocupa na minha vida?’. Será isto, além de tudo, o melhor meio para estimular outros a se interessarem por Cristo, isto é, o modo mais eficaz de fazer evangelização.

Mas, primeiramente, um esclarecimento. De qual Cristo pensamos falar? Existem, de fato, diversos ‘Cristos’ : há o Cristo dos historiadores, dos teólogos, dos poetas, existe até mesmo o Cristo dos ateus [1]. Falamos do Cristo dos Evangelhos e da Igreja. Mais precisamente, do Cristo do dogma católico que o Concílio de Calcedônia de 451 definiu em termos que, de vez em quando, é voltar a escutar, ao menos em parte, no texto original :

Na sequência dos santos Padres, ensinamos unanimemente que se confesse

um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo,

igualmente perfeito na divindade e perfeito na humanidade,

sendo o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem,

composto duma alma racional e dum corpo, consubstancial ao Pai pela sua divindade,

consubstancial a nós pela sua humanidade, ‘semelhante a nós em tudo, menos no pecado’ (...).

Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único, que devemos reconhecer em duas naturezas (...).

A diferença das naturezas não é abolida pela sua união;

antes, as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas numa só pessoa e numa só hipóstase.

Podemos falar de um triângulo dogmático sobre Cristo : os dois lados são a humanidade e a divindade de Cristo, e o vértice, a unidade da sua pessoa.

O dogma cristológico não quer ser uma síntese de todos os dados bíblicos, uma espécie de destilado que encerra em si toda a imensa riqueza das afirmações relativas a Cristo que se leem no Novo Testamento, reduzindo o tudo à sucinta e árida fórmula : ‘duas naturezas, uma pessoa’. Se assim fosse, o dogma seria tremendamente redutivo e até perigoso. Mas não é assim. A Igreja crê e prega de Cristo tudo o que o Novo Testamento afirma dele, sem exceção. Mediante o dogma, buscou somente traçar um quadro de referência, estabelecer uma espécie de ‘lei fundamental’ que toda afirmação sobre Cristo deve respeitar. Tudo o que se diz de Cristo deve, assim, respeitar esse dado certo e indiscutível, isto é : que ele é Deus e homem ao mesmo tempo; melhor, na mesma pessoa.

Os dogmas são ‘estruturas abertas’ (Bernhard Lonergan), prontas para acolher tudo o que de novo e genuíno que cada época descobre na palavra de Deus, em torno daquelas verdades que eles pretenderam definir, não encerrar. São abertos a evoluir a partir de seu interior, desde que sempre ‘no mesmo sentido e na mesma linha’. Isto é, sem que a interpretação dada em uma época contradiga a da época precedente. Aproximar-se de Cristo pela via do dogma não significa, por isso, resignar-se em repetir exaustivamente sempre as mesmas coisas sobre ele, talvez mudando apenas as palavras. Significa ler a Escritura na Tradição, com os olhos da Igreja, isto é, lê-la de modo sempre antigo e sempre novo.

Cristo homem perfeito

Vejamos o que significa tudo isso, aplicado ao dogma da perfeita humanidade de Cristo, que é o ‘primeiríssimo plano’ que queremos lançar sobre Jesus nesta meditação.

Durante a vida terrena de Jesus, ninguém jamais pensou em pôr em dúvida a realidade da humanidade de Cristo, isto é, o fato de que ele fosse realmente um homem como os outros. Quando fala da humanidade de Jesus, o Novo Testamento se mostra interessado mais pela santidade dela, que da verdade ou realidade dela, mais do que pela sua perfeição moral do que pela sua completude ontológica.

No momento do Concílio de Calcedônia, esta ideia da humanidade de Cristo não mudou, mas a atenção não é mais sobre ela. Contra a heresia Docetista, a Igreja teve que afirmar que Cristo tivera uma verdadeira carne humana; contra a heresia Apolinarianista, que tivera também uma alma humana, e contra a heresia Monotelista, deverá combater mais tarde, no VII século, para fazer reconhecer a existência em Cristo também de uma vontade e, portanto, de uma liberdade, realmente humana. Por causa das heresias acenadas, todo o interesse pelo Cristo ‘homem’ se move do problema da novidade, ou santidade, de tal humanidade, ao da sua verdade ou completude ontológica.

O Novo Testamento, eu dizia – não está interessado tanto em afirmar que Jesus é um homem ‘verdadeiro’, mas que é o homem ‘novo’. Ele é definido por São Paulo ‘o último Adão’ (eschatos), isto é, ‘o homem definitivo’ (cf. 1Cor 15,45ss.; Rm 5,14). Cristo revelou o homem novo, aquele ‘criado à imagem de Deus, em justiça e santidade da verdade’ (Ef 4,24; cf. Cl 3,10). Jesus Cristo é ‘o Santo de Deus’ : assim, ele é solenemente proclamado em dois momentos da sua vida terrena (...). Jesus não é tanto o homem que se assemelha a todos os outros homens, quanto o homem ao qual todos os outros devem se assemelhar. Somente dele se deve dizer o que os filósofos gregos diziam do homem em geral, isto é, que ele é ‘a medida de todas as coisas’!

Uma vez posto a salvo o dado dogmático e ontológico da perfeita humanidade de Cristo, hoje nós podemos voltar a valorizar este dado bíblico primário. Devemos fazê-lo também por um outro motivo. Ninguém hoje nega que Jesus tenha sido um homem, como faziam os docetistas e os outros negadores da plena humanidade de Cristo. Assiste-se, antes, a um fenômeno estranho e inquietante : a ‘verdadeira’ humanidade de Cristo é afirmada em tácita alternativa à sua divindade, como uma espécie de contrapeso.

É uma espécie de corrida geral para quem se lança mais à frente em afirmar a ‘plena’ humanidade de Jesus de Nazaré, até a atribuir-lhe não apenas o sofrimento, a angústia, a tentação, mas também a dúvida e até mesmo a possibilidade de cometer erros. Assim o dogma de Jesus ‘verdadeiro homem’ se tornou ou uma verdade pressuposta que não incomoda e não inquieta ninguém; pior, uma verdade perigosa que serve para legitimar, ao invés de contestar, o pensamento secular. Afirmar a plena humanidade de Cristo é hoje como avançar por uma porta aberta.

A santidade de Cristo

Dediquemos, portanto, o resto do tempo à nossa disposição para contemplar (é a palavra justa) a santidade de Cristo, a deixarmo-nos deslumbrar, antes de tirar dela qualquer consequência operativa. É este o ‘primeiríssimo plano’ sobre Jesus que queremos fazer nesta meditação : deixar-nos fascinar pela infinita beleza de Cristo, o ‘mais belo entre os filhos dos homens’.

A observação dos evangelhos nos faz ver que a santidade de Jesus não é somente um princípio abstrato, ou uma dedução metafísica, mas é uma santidade real, vivida momento por momento e nas situações mais concretas da vida. As Bem-aventuranças, para dar um exemplo, não são apenas um belo programa de vida que Jesus traça para os outros; é a sua própria vida e a sua experiência que ele desvela aos discípulos, chamando-os a entrar na sua mesma esfera de santidade. As Bem-aventuranças são o autorretrato de Jesus.

Ele ensina o que faz; por isso, pode dizer : ‘Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração’ (Mt 11,29). Ele diz para perdoar os inimigos, mas nos impulsiona, ele mesmo, a perdoar até aqueles que o estão crucificando, com as palavras : ‘Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem’ (Lc 23,34). Não é, de resto, este ou aquele episódio que se presta para ilustrar a santidade de Jesus, mas cada ação, cada palavra saída de sua boca.

Ao lado deste elemento positivo que consiste na constante e absoluta adesão à vontade do Pai, a santidade de Cristo também apresenta um elemento negativo, que é a absoluta falta de todo pecado : ‘Quem de vós pode acusar-me de pecado?’, diz Jesus aos seus adversários (Jo 8,46). Sobre este ponto, temos um coro unânime de testemunhos apostólicos : ‘Aquele que não conheceu pecado’ (2Cor 5,21); ‘ele não cometeu pecado algum, nenhum engodo foi encontrado em sua boca’ (1Pd 2,22); ‘ele mesmo foi tentado em tudo, à nossa semelhança, sem todavia pecar’ (Hb 4,15); ‘tal precisamente o sumo sacerdote que nos convinha : santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores’ (Hb 7,26). João, na primeira carta, não se cansa de proclamar : ‘Ele é puro...; nele, não há pecado...; ele é justo’ (1Jo 3,3-7).

A consciência de Jesus é um cristal transparente. Jamais, ainda que mínima admissão de culpa, ou pedido de desculpas ou de perdão, nem diante de Deus, nem dos homens. Sempre a tranquila certeza de estar na verdade e justiça, de ter agido bem; que é completamente diferente da presunção humana de justiça. Nenhum outro personagem da história ousou dizer de si a mesma coisa.

Uma tal ausência de culpa – e de admissão de culpa! – não está ligada a esta ou àquela passagem ou frase do evangelho, de cuja historicidade se possa duvidar, mas transpira de todo o evangelho. É um estilo de vida que se reflete em tudo. Pode-se buscar nas brechas mais estreitas dos evangelhos e o resultado é sempre o mesmo. Não basta, para explicar tudo isso, a ideia de uma humanidade excepcionalmente santa e exemplar. Esta, de fato, seria até desmentido por aquilo. Uma tal segurança, uma tal exclusão de pecado, como aquela que se nota em Jesus, indicaria sim uma humanidade excepcional, mas excepcional no orgulho, não na santidade. Uma consciência assim feita ou é em si mesma o maior pecado jamais cometido, maior do que o de Lúcifer, ou então é a pura verdade. A ressurreição de Cristo é a prova concreta de que era a pura verdade.

‘Santificados em Cristo Jesus’

 Passemos, agora, a ver o que a santidade de Cristo significa para nós. E aqui nos vem encontro imediatamente uma boa notícia. Há, de fato, uma boa notícia, um alegre anúncio, também a propósito da santidade de Cristo. Não é tanto que Jesus é o Santo de Deus, ou o fato de que também nós devemos ser santos e imaculados. Não, a alegre surpresa é que Jesus comunica, doa, presenteia-nos a sua santidade. Que a sua santidade é também a nossa. E mais : que ele mesmo é a nossa santidade.

Cada pai humano pode transmitir aos filhos o que tem, mas não o que é. Se for um artista, um cientista, ou também um santo, não é certo que os filhos nasçam também eles artistas, cientistas ou santos. Ele pode, no máximo, ensinar-lhes, dar-lhes um exemplo, mas não os transmitir quase como por herança. Jesus, ao invés, no batismo, não somente nos transmite o que tem, mas também o que é. Ele é santo e nos faz santos; é Filho de Deus e nos faz filhos de Deus.

Reafirma-o também o Vaticano II : ‘Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por merecimento próprio, mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Batismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos’ (LG, n. 40). A santidade cristã, antes que um dever, é um dom.

O que fazer para acolher este dom e o que fazer dele, por assim dizer, uma experiência vivida e não apenas acreditada? A primeira e fundamental resposta é a fé. Não uma fé qualquer, mas a fé mediante a qual nos apropriamos do que Cristo adquiriu para nós. A fé que dá o golpe de audácia e o que faz dar o golpe de mestre à nossa vida cristã. Paulo escreveu : ‘Cristo Jesus (...) o qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e redenção, para que, como está escrito, ‘quem se gloria, no Senhor se glorie’’ (1Cor 1,30-31). O que Cristo se tornou ‘para nós’ – justiça, santidade e redenção – pertence-nos; é mais nosso do que se o tivéssemos feito nós! ‘Pois como não pertencemos mais a nós mesmos, mas a Cristo que nos readquiriu a um alto preço, daí segue-se que – escreve o grande mestre bizantino Cabásilas – o que é de Cristo nos pertence, é mais nosso do que aquilo que provém de nós’ [2].

Jamais me canso de repetir, a este respeito, o que escreveu São Bernardo :

Eu, na verdade, tomo confiantemente para mim (no original, usurpo!), das vísceras do Senhor, o que me falta, porque elas transbordam de misericórdia. (...) O meu mérito, portanto, é a misericórdia do Senhor. Certamente, não serei privado de mérito enquanto o Senhor não for privado de misericórdia. Se as misericórdias do Senhor são muitas, também eu sou muito grande no que se refere aos méritos. (...) Cantarei talvez a minha justiça? ‘Senhor, quero lembrar-me só da tua justiça’ (cf. Sl 71,16). Esta, na verdade, é também minha; porque te fizeste para mim justiça da parte de Deus (cf. 1Cor 1,30) [3].

Não devemos nos resignar em morrer antes de ter feito, ou renovado, esta espécie de ‘ataque surpresa’, a nós sugerida por São Bernardo. Este santo atrevimento! São Paulo frequentemente exorta os cristãos a se ‘despojarem do homem velho’ e se ‘vestirem de Cristo’ [4]. A imagem do despir-se e revestir-se não indica uma operação somente ascética, consistente no abandonar certos ‘hábitos’ e substitui-los por outros, isto é, no abandonar os vícios e adquirir as virtudes. É primeiramente uma operação a ser feita mediante a fé. Em um momento de oração, neste tempo de Quaresma, alguém se põe diante do Crucifixo e, com um ato de fé, entrega-lhe todos os próprios pecados, a própria miséria passada e presente, como quem se despoja e joga no fogo os próprios trapos sujos; depois se reveste da justiça que Cristo adquiriu para ele. Diz, como o publicano no templo : ‘Meu Deus, sê propício para mim, que sou pecador!’, e volta para casa ‘justificado’ (cf. Lc 18,13-14).

Alguns Padres da Igreja encerraram em uma imagem este grandioso segredo da vida cristã. Imagine, dizem, que tenha acontecido, no estádio, uma épica luta. Um valoroso enfrentou o cruel tirano que mantinha cativa a cidade e, com imensa fadiga e sofrimento, venceu-o. Você estava abrigado, não combateu, não labutou nem teve feridas. Mas, se admira o valoroso, se se alegra com ele pela sua vitória, se lhe trança coroas, se anima e estimula a assembleia pro ele, se se inclina com alegria ao triunfante, beija-lhe a fronte e lhe aperta a mão; enfim, se assim delira por ele, a ponto de considerar com sua a vitória, eu lhe digo que certamente terá parte no prêmio do vencedor.

Mas há ainda mais : suponha que o vencedor não tenha nenhuma necessidade do prêmio conquistado para si, mas você deseja, mais que tudo, ver honrado o seu artífice e considera como prêmio do seu combate a coroação do amigo, neste caso, aquele homem talvez não receberá a coroa, ainda que não tenha fadigado nem se ferido? Claro que a receberá! Assim, dizem esses Padres, acontece entre Cristo e nós. É ele o valoroso que, na cruz, venceu o grande tirano do mundo e nos restituiu a vida [5]. De nós, espera-se que não sejamos ‘espectadores’ distraídos por tanta dor e tanto amor. Escreve São João Crisóstomo :

Nós não ensanguentamos as armas, não estivemos no combate, não fomos feridos nem vimos a luta; no entanto, alcançamos a vitória. O combate foi do Senhor e a coroa foi nossa. Ora, como a vitória também é nossa, imitemos os soldados e cantemos hoje, com vozes alegres, os louvores e cânticos da vitória. Digamos, louvando o Senhor [6].

Naturalmente, nem tudo termina aqui. Da apropriação, devemos passar à imitação. O texto do Concílio recordado sobre a santidade como dom, prossegue dizendo : ‘É necessário, portanto, que, com o auxílio divino, conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade que receberam. O Apóstolo admoesta-os a que vivam como convém a santos’ (Ef 5,3), ‘como eleitos de Deus, santos e amados, se vistam de sentimentos de compaixão, com bondade, humildade, mansidão e paciência’ (Cl 3,12) ‘e alcancem os frutos do Espírito para a santificação (cf. Gl 5,22; Rm 6,22)’.

Mas temos tantas outras ocasiões para falar e ouvir falar do dever de imitar Cristo e cultivar as virtudes, que, por uma vez, é bom nos determos aqui. Também porque se não dermos aquele primeiro salto na fé que nos abre à graça de Deus, jamais iremos muito longe na imitação. ‘Não se chega das virtudes à fé – dizia São Gregório Magno –, mas da fé às virtudes’ [7].

Se não quisermos nos despedir sem ao menos um pequeno propósito prático, eis aqui um que pode nos ajudar. A santidade de Jesus consistia em fazer sempre o que agradava ao Pai. ‘Eu sempre faço – dizia – o que é do seu agrado’ (Jo 8,29). Tentemos nos perguntar o mais frequente que pudermos, diante de toda decisão a se tomar e toda resposta a dar : ‘Qual é, no caso presente, a coisa que Jesus gostaria que eu fizesse?’ e fazê-la sem adiar. Saber qual é a vontade de Jesus é mais fácil que saber, em abstrato, qual é ‘a vontade de Deus’ (ainda que as duas coincidam de fato). Para conhecer a vontade de Jesus, não devemos fazer outra coisa senão recordar o que diz no Evangelho. O Espírito Santo está ali, pronto para nos recordá-lo.

 

Fonte :

*Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-03/segunda-pregacao-quaresma-2021-cardeal-raniero-cantalamessa.html

------------------------

[1] Cf. Milan Machovec, Gesú per gli atei, Cittadella Editrice, Assisi 1973.

[2] Cf. N. Cabásilas, Vida em Cristo, IV,6 (PG 150,613).

[3] Cf. Bernardo de Claraval, Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, 61,4-5 (PL 183, 1072).

[4] Cf. Cl 3,9; Rm 13,14; Gl 3,27; Ef 4,24.

[5] Cf. N. Cabásilas, Vida em Cristo, 5 (PG 150, 516ss.).

[6] João Crisóstomo, De coemeterio et de cruce (PG, 49,396).

[7] Cf. S. Gregório Magno, Homilia sobre Ezequiel, II,7 (PL 76, 1018).

domingo, 8 de março de 2020

Luxúria: este pecado capital não se refere a sexo apenas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


 TEMPTATION BY LECHERY
*Artigo do Padre Robert McTeigue, SJ


‘A luxúria é listada como um dos sete pecados capitais. Aristóteles identifica a pessoa caracterizada pelo vício como ‘cruel’, alguém que é governado principalmente por paixões. As paixões não são puramente físicas, mas isso é outra história para outra época. Uma pessoa cruel pode querer ficar bêbada; uma pessoa astuta pode querer te embebedar. Se entendermos a luxúria como uma forma de desejo incessante, e o tipo mais perigoso de luxúria como conivente, podemos notar que a luxúria não é apenas uma dinâmica corporal.

Vamos colocar desta forma : luxúria = mente sobre a matéria.

O provérbio ‘A corrupção dos melhores é o pior’ é uma maneira útil de entender a desordem da alma, que pode sucumbir à luxúria. Nossas paixões básicas, deixadas sem controle, podem nos levar a um comportamento abaixo da dignidade humana e prejudicial à saúde. E se o que é mais alto em nós for deixado sem orientação, permitido a ser estimulado por desejos de novidade e autobusca que normalmente se associa a desejos mais simples e básicos?

No pecado sexual, a pessoa humana permite que seu desejo seja afixado ao que a natureza e Deus não permitiram. A luxúria sexual é a birra de uma pessoa egoísta, enfurecida, porque a lei moral diz : ‘Não ultrapasse essas fronteiras – ou mais!’. E se encararmos a luxúria como uma birra da alma em resposta às linhas traçadas pela Revelação Sagrada? Por exemplo : ‘Foi assim que Deus definiu o casamento’; ‘Este é o propósito do sexo’; ‘É assim que Deus deve ser adorado.’

A novidade é um desejo desordenado, que pode tornar-se imperioso por uma pessoa que deveria conhecer melhor Deus. Uma pessoa assim não está satisfeita nem completa com a Revelação Sagrada. Como uma pessoa promíscua quer sexo nos seus próprios termos, também a alma entregue à luxúria da novidade quer Deus nos seus próprios termos.

A alma indisciplinada, recusando-se a aprender a se satisfazer com a revelação de Deus, cede a um desejo infinito. Isso não deveria nos surpreender. Somos feitos para o infinito; se não somos preenchidos com um bem infinito, ficaremos com um vazio infinito. A alma ilustra a fórmula : LUXÚRIA = MENTE SOBRE A MATÉRIA. Ou seja, a luxúria recusa limites. A alma indisciplinada, recusando-se a se satisfazer com Deus, começa a ecoar a serpente : ‘Você não morrerá; pois Deus sabe que quando você comer, seus olhos serão abertos e você será como Deus, conhecendo o bem e o mal.’ (Gênesis 3, 4-5)

A alma indisciplinada pode embebedar-se com o poder (aparente, mas fugaz) de reescrever a revelação, redefinindo Deus – procurando maneiras sempre novas de decidir por nós mesmos o que é verdadeiro, bom, bonito, santo, divino, diabólico. Mas qualquer viciado lhe dirá que nunca é suficiente. Você sempre cai após a alta; a emoção diminui – e diminui muito rapidamente. São necessárias doses cada vez maiores, que alcançam cada vez menos. Eventualmente, alguém pára (ou morre).

Deus é o autor da Revelação Sagrada. Ou somos alimentados e nutridos por ela, ou cedemos às demandas de desejos que nunca podem descansar. Vamos trabalhar e orar juntos para que rendamos à verdade, em vez de nos esforçarmos para ser seu mestre.’


Fonte :

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Uma reflexão para a Quaresma: o que é, afinal de contas, o pecado?


 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Aleteia Brasil


‘Estamos na Quaresma. Embora o cuidado da vida de graça seja crucial em cada instante da vida, a Quaresma é um período litúrgico particularmente oportuno para revisarmos com mais profundidade a nossa vida de graça e de união com Cristo.

Para isto, é preciso revisar a nossa relação com o pecado.

Comecemos com a reflexão mais óbvia – e, por isso mesmo, tantas vezes descuidada : o que é o pecado?

O conceito de pecado é bastante simples : basicamente, o pecado é um ato de egoísmo exagerado. Pecado é preferir a si mesmo e antepor-se a Deus e aos outros, cedendo às paixões desordenadas que nos colocam no centro da nossa própria existência e negando a nossa natureza que só se completa quando se abre plenamente ao próximo e a Deus.

O pecado é a recusa a instaurar com Deus e com os outros uma relação de amor.

O pecado é um ‘converter-se às criaturas’ e ‘rejeitar o Criador’.

Em geral, o pecador só deseja os prazeres proporcionados pelas criaturas; ele não necessariamente quer rejeitar o Criador. No entanto, ao se deixar seduzir por satisfações fugazes proporcionadas pelas criaturas, o pecador sabe, implicitamente, que está agindo contra o amor do Criador : ele sente que o prazer terreno não o preenche, mas, mesmo assim, não resiste a ele. É por isso que o pecado fere o próprio pecador, afastando-o da plenitude oferecida por Deus.

E é por isso que o pecado ofende a Deus: não porque Deus, como tal, seja diminuído, mas porque nós próprios, ao pecar, nos diminuímos diante da grandeza que Ele nos oferece.

Para Jesus, o pecado nasce no interior do homem (cf. Mt 15, 10-20). É por isso que é necessária a transformação interior, do coração. Para Jesus, o pecado é uma escravidão : o homem se deixa ficar em poder do maligno, valorizando falsamente as coisas deste mundo, deixando-se arrastar pelo imediato, por satisfações sensíveis que não saciam a nossa sede de amor e de plenitude.’


Fonte :

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O pecado reprime o homem : Introdução à Teologia do Corpo – Parte 1

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Rômulo Cyríaco


‘Recomendamos, para melhor aproveitamento desta série, a leitura prévia do seu Prólogo :


_________________________

Nestes primeiros artigos, serão desenvolvidas as questões referentes à unidade e à inocência originais na vida humana logo após a Criação; o Pecado Original; e as consequências deste, antevendo o chamado redentor de Cristo a todos nós.


Pecar é perder a si mesmo

O Pecado Original reprimiu o ser humano verdadeiro – represou, no ser humano, a sua verdade. Isto quer dizer que, pela hereditariedade do Pecado, nós ganhamos uma estrutura pessoal em que nossa verdade está distante de nosso ser, afastada de nossas consciências. No entanto, esta, precisamente por ser a verdade, não se perde nunca, e permanece pedindo para irromper em nossas vidas, no seio da histórica artificialidade da humanidade.

Os pecados atuais, mortais ou veniais, mantêm-nos reprimidos, isto é, desintegrados, distantes de Deus e de nós mesmos. Motivo este pelo qual vive-se, com tamanha frequência, com um enorme senso de vazio e de frustração, enquanto, estranhamente, vive-se todas as promessas de felicidade do mundo. A pessoa se pergunta : mas o que há de errado comigo? A resposta é : você está depositando sua esperança em um mundo cuja substância própria é a perda da esperança. É como querer curar uma ferida num espinho – o mesmo que a gerou. A incredulidade e a desesperança são a própria matéria da qual é feita o mundo, e é neste que você, pela insensatez e desorientação geradas pelo Pecado, está depositando as suas expectativas de alegria e de paz. Sem perceber, você está apostando no pecado como projeto de vida, como se aí fosse encontrá-la. Mas, como poderia ser projeto de vida aquilo que, precisamente, retira a mesma de nós?

Está aí a tragédia do mundo humano pós-Pecado Original : o sentido é buscado comumente naquilo que o elimina; investe-se a vida, logo, naquilo que a transforma em morte. E depois, ainda, não se consegue entender o que está se passando! Não poderia ser diferente, pois : o cego não pode enxergar. Como cobrar do cego que não se dirija novamente ao precipício? É preciso que, antes, o Evangelho e o encontro com a pessoa de Cristo lhe restitua a visão.

Por quê, aqui, relaciona-se ‘repressão’ com ‘desintegração’? É que, se estamos inteiros, de fato, então estamos com Deus, que inteiros nos criou. Mas, após o Pecado, Adão esconde-se e foge de Deus, temendo-O : por hereditariedade, assim também nós temos a tendência de fazer. Para escondermo-nos de Deus, desintegramo-nos, dividindo a nossa essência em pedaços, e pressionando a boa parte destes para a inconsciência, de modo a deixarmos de ver, interiormente, a imagem e semelhança de Deus em nós mesmos. O que tentamos fazer é escondê-Lo em nós, com a trágica esperança de que assim Ele também não nos veja. É assim que nós, em plena luz do dia, estamos como Adão, escondendo-nos de Deus em um arbusto – como se qualquer arbusto ou montanha, por maior que fosse, pudesse esconder algo ou alguém de Deus. Culpados do Pecado, feridos por esta culpa, nós não queremos olhar para a integridade de nós mesmos e reconhecer a nossa miséria. A culpa pelo pecado e o orgulho estão lado a lado : numa mão, a repressão (da culpa), noutra, a resistência que a sustenta. O homem se entristece e se enfraquece com o pecado, mas luta para não deixá-lo, temendo as consequências de um retorno humilde ao Criador. Adão ouve a voz de Deus no jardim e tem medo. Afinal, não é este o medo que tantos têm, quando a voz de Deus começa a ressoar forte demais no interior? Esse é o medo comum de todos que ainda não se desmontaram diante de Deus, para que Ele possa, com sua graça, devolver a sua integridade e a sua dignidade.

A vida humana que resiste à graça de Deus, assemelha-se a de crianças de colo, em tudo dependentes dos seus pais, que – após fazerem uma primeira besteira – resolvessem fingir que são adultas e que vivem sozinhas em suas casas, ignorando a existência dos seus genitores e responsáveis, e fugindo deles de um cômodo a outro. Ainda obteriam da parte deles o seu sustento básico, pois os pais não deixariam seus filhos morrerem : mas não poderiam desenvolver as suas vidas até a sua plenitude, na medida em que negariam a educação, a orientação e o apoio dos pais, todo o sustento espiritual da filiação que poderia lhes dar vida plena e a liberdade. Após o Pecado Original, e cada pecado atual, o ser humano perde a si mesmo porque perde a comunhão com Deus, seu Criador e Sustentador. Mas, em vez de se reconhecer criança de colo, e olhar para o Pai que está de braços abertos e estendidos, pedindo ajuda a Ele para superar sua fraqueza, vira a cara, fingindo-se adulto, por medo de ser punido, e pela rigidez do orgulho.

Com a encarnação de Cristo, iniciou-se na História o chamado definitivo, que havia sido antecipado desde o início dos tempos, e desde a Antiga Aliança com Abraão, para que todos (os que quiserem) possam reencontrar o Pastor e retornar à Casa, retomando, pela Cruz, o acesso à árvore do centro do jardim, com o batismo, a absolvição dos pecados, e o Pão da Vida.


A unidade e a inocência originais

Deus, quando criou o ser humano, deu-nos este mandamento : ‘Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer’ (Gn, 2,16-17). O Pecado Original nada mais foi do que o momento em que o ser humano, em sua liberdade, transgrediu esse mandamento divino, e, portanto, teve de morrer – perdendo o acesso integral que tinha à Árvore da Vida. Era uma condição, a nós dada por Deus : respeitar livremente um precioso limite, dentro do qual gozaríamos para sempre da vida no Paraíso. Um limite, apenas, do qual dependia toda a estrutura da nossa inspiração pela Santíssima Trindade em nossa vida corporal.

Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança. Isto imprime em nós uma dignidade maior que a do restante das espécies, as quais, por isso, Deus a nós submeteu, para sermos, com Ele, corresponsáveis diretos pelo cuidado da Criação. No princípio, vivendo em comunhão com o Criador, estávamos em íntegro contato com os Seus desígnios para conosco. Nossas almas, integradas aos nossos corpos, participavam docemente no Ser de Deus, como ovelhas dóceis, inteiramente atentas e obedientes aos sinais do Pastor.

Fazíamos o bem e evitávamos o mal, não por sabermos o que era bom e mau por nosso próprio juízo, mas espontaneamente. Deixávamos tal conhecimento reservado a Quem ele pertence, ao Deus Criador, e pela comunhão íntima com nossas almas, Ele nos transmitia naturalmente a Sua Sabedoria, da qual compartilhávamos, Nele depositando toda a nossa confiança. Somente Deus pode nos orientar para o verdadeiro bem, e nos livrar do mal. De nada adianta tentar avaliar bem e mal por juízo próprio, como se pudéssemos chegar a uma conclusão diferente – e, ainda assim, válida e verdadeira – daquela já conhecida por Deus. Há somente uma verdade, absoluta e imutável, sobre a bondade ou a maldade de nossas ações, e esta advém de Deus.

Aquela unidade primeira do ser humano com Deus, refletia-se na unidade original do homem com a mulher. Quando Deus fez Eva para ser a companheira de Adão, este exclamou, ao vê-la : ‘Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!’ (Gn 2,23). O homem olha para sua mulher, e sente que ela é parte dele mesmo : há, entre o casal, perfeita complementaridade, visível até mesmo pela forma anatômica de seus corpos. Deus fez um para o outro, e somente vivendo com e para o outro, é que homem e mulher se completam, tornando-se um só, e se realizam. Da complementaridade à inseparabilidade. ‘Não é bom que o homem esteja só’ (Gn 2,18).

‘Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne. Ora, os dois estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonhavam’ (Gn 2,24-25).

Adão e Eva, um diante do outro, não sentiam vergonha pela exposição de seus corpos nus, precisamente pela sua unidade e inocência originais. Não estavam realmente expostos, porque não havia, então, nenhuma constrição de seus corpos, mas integração completa entre corpo e alma, e entre eles mesmos. Eram uma só carne, e ‘ninguém jamais quis mal à sua própria carne’ (Ef 5,29). Sua sexualidade, masculina e feminina, era sinal da complementaridade que causava o movimento recíproco, entre eles, de integral doação e acolhimento, espiritual e corporal. Tal movimento, nos primeiros seres humanos – o matrimônio original – foi perfeito, pela sua concomitante comunhão com o Criador, que tornava ausente todo medo e toda desconfiança. Não havia nenhum desejo, em Adão ou em Eva, de usar, ou de dominar o outro. Não haviam ainda comido da árvore do conhecimento do bem e do mal, e, por isso, escolhendo dela não comer, apenas obedeciam às doces e paradisíacas instruções de Seu Criador, vivendo em casal como uma só carne.


A liberdade da alma humana

Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, e dotou-o, por isso mesmo, de liberdade. O ser humano, dotado de alma e intelecto, era livre para escolher a vida em comunhão perfeita com seu Criador, ou escolher perdê-la, ao comer da árvore do conhecimento de bem e do mal. A serpente realmente tentou Eva, mas não retirou a sua liberdade de dizer não – assim como o diabo não nos pode forçar a pecar, mas apenas nos tentar, aproveitando-se de nossa milenar fraqueza. Deus quer a Sua criatura perto Dele, vivendo em comunhão com Ele, mas não quer forçá-la a fazer isso. O Amor de Deus por nós é gratuito e livre, e assim também Ele quer que seja o nosso amor por Ele. Qual é o mérito de um amor forçado? Deixa de ser amor no mesmo instante em que se força. Deus nos chama para perto Dele, nos ajuda a amá-Lo, e, mais ainda, quando queremos amá-Lo, Ele nos dá as condições como graça. Mas nunca nos força.

O ser humano, tentado a conhecer algo da existência que dele estava oculto – a ciência do bem e do mal – comeu daquele fruto proibido, e teve de morrer. Perder o amor a Deus é o mesmo que morrer, pois, ao esconderem-se nossas almas da percepção viva do seu Criador, ao qual desobedeceram, começam a resistir às Suas graças, à Sua unção vital. Almas que se encolhem, retraem-se e escondem-se, logo, sujeitam-se mais facilmente a quaisquer impulsos do corpo e mesmo aos mais baixos impulsos do seu estado decaído, incapazes de avaliar se estes favorecem ou jogam no lixo a sua original vocação. Avaliar, discernir em profundidade, seria retomar o contato íntimo com a alma e sua expansão : isso seria, também, retomar o contato com Deus, percebê-Lo, aceitá-Lo e, logo, curvar-se a Ele em docilidade e obediência. Mas o ser humano resistente, com medo ou orgulhoso, prefere, para poupar-se dos incômodos que convidam à transformação profunda, ceder à sua carne, ou aos impulsos decaídos de suas almas. Ceder ao pecado passa a ser a triste condição que ‘protege’ o ser humano, resistente, contra a percepção e a ação de seu Deus.

O amor por Deus não pode se separar da obediência a Ele. No instante em que Eva aceitou comer daquela árvore, seu amor por Deus estava comprometido, pois transgredia o Seu mandamento. Por isso o diabo, a velha serpente, estabelece em sua vida intelectual um culto à desobediência, como movimento de ‘liberdade’ : esta ideia demoníaca ganha ampla ressonância na cultura e no pensamento humanos. É o que os demônios sopram em nossos ouvidos sempre que podem – e o que já lemos nas páginas de tantos filósofos modernos : não deixar-se jamais determinar pela obediência a uma autoridade Absoluta, viver a potência do enxame demoníaco, que não se reduz à Unidade de nenhum ‘tirano’ centralizador, que escapa do domínio tradicional do Ser com um ‘puro devir’, com a indeterminação ‘molecular’ de sua ‘multiplicidade’, com o caos ‘rizomático’ de sua fragmentação, com a confusão de sua ‘horizontalidade’.

Alguns filósofos (refiro-me, mais especificamente, a Gilles Deleuze e Félix Guattari em ‘Mil Platôs’, de 1980) chegam mesmo a enaltecer Satanás como líder contestador, quando este diz : ‘eu sou Legião’ (Mc 5,9), tratando a tal frase como revelação e expressão da potência revolucionária do anonimato da multidão, contra a ‘verticalidade falocêntrica’, ‘individualista’ e ‘identitária’, do ‘homem patriarcal’, ‘burguês’, ‘branco’, ‘Europeu’, ‘heteronormativo’. Sabemos que o diabo quis destruir a civilização ocidental e seus pilares fundacionais muito antes de sugerir esta ideia nos ouvidos de Karl Marx e de Antonio Gramsci, de Gilles Deleuze e Michel Foucault, entre outros. Pobre ser humano, que vê mais valor em Satanás do que em seu Redentor, e cai na armadilha da serpente, que pinta o fruto e as correntes da morte com as falsas cores de uma pretensa liberdade. Palavras como ‘docilidade’ e ‘obediência’ ligam imediatamente o alerta da paranoia daqueles homens modernos, ativistas contestadores, ‘desconfiadores’ profissionais, escravos de sua incredulidade. Muitos não podem mais perceber como sermos dóceis justamente Àquele que nos dá a Vida, significa reconquistarmos a liberdade, o vigor, e a própria realização de nós mesmos no Outro. Muitos começam a preferir o inferno, a serem dóceis e humildes no paraíso. Significativamente, os mesmos filósofos que enaltecem a Legião de Lúcifer, esquecem-se de citar o que vem antes e depois da autoapresentação do demônio como Legião, no Evangelho de Marcos. Antes de dizê-lo, o demônio fala a Jesus, através do homem que possuiu : ‘Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te por Deus que não me atormentes’ (Mc 5,7). Satanás, diante do poder divino de Cristo, é obrigado a dizer a verdade, e afirmar a autoridade do Verbo. Depois, Jesus permitiu que a Legião de demônios entrasse nos corpos de uma manada de porcos, que se precipitaram no mar e afogaram-se (Mc 5,10-13). Tal é o destino de quem, filosoficamente, valoriza a falsa ‘força’ do demônio contra Deus.

Essas filosofias revolucionárias, contrárias a qualquer senso de autoridade, não aceitam que é a resistência obstinada à Autoridade de Deus Criador, o que mais expõe os homens como presas fáceis da autoridade do homem do mundo, e, logo, do diabo. As autoridades malignas do mundo – material e espiritual – protegem o homem resistente ao Espírito Santo contra a temida entrega a Deus, e assim conquistam a sua servidão. O Pecado Original tornou os seres humanos presas mais fáceis da falsa autoridade do diabo, que a muitos convence de que, servindo a ele, encontram-se ‘livres’ de Deus e de suas exigências para com eles, exigências que faz parecer terríveis. O ser humano passa, tantas vezes, a preferir a mais baixa e vil escravidão, com tons de contestação e ‘total autonomia’, e gozos mundanos, do que a verdadeira liberdade no serviço ao Deus Amor, cujas exigências são as de que retomemos a nossa liberdade e nossa capacidade de amar e viver na liberdade. De que recuperemos o brilho que somente a Vida, que vem concretamente da fonte divina, pode dar à nossa realidade, abandonando a palidez do pecado, e as maquiagens do demônio, que sempre saem no dia seguinte e revelam a falsidade e o vazio do seu projeto.

Quando nos encontramos com Deus, mais Ele Se torna presente e age em nossas vidas, cumulando-nos de graças e transformando-nos sobrenaturalmente, permitindo que O conheçamos pessoalmente, como Deus Pessoal que É. Por outro lado, para aqueles que servem ao diabo, mais o mesmo se faz parecer ausente, fazendo o seu escravo achar que realmente é ‘autônomo’, e que não faz o que faz em serviço às forças do mal, ao exército da resistência a Deus, mas por sua própria conta e nobre ‘independência’.

Nós, que buscamos servir a Deus, sabemos a Quem servimos, e este serviço se torna então consciente e livre, sempre recompensador, ainda que tantas vezes difícil, árduo e desafiador – pois o discípulo não está acima do seu mestre, e se nosso Mestre foi perseguido, também nós o seremos. Já o serviço mundano ao diabo, pelas próprias estratégias dos demônios, é na maioria das vezes inconsciente, e sem nenhuma verdade como recompensa. Deus Se apresenta ao homem e revela o Seu nome : EU SOU AQUELE QUE SOU (IAHWEH). O diabo, por sua vez, depende de que seu nome permaneça velado, e diz : não sou ninguém, sou muitos, ‘sou Legião’. Deus é Aquele que ilumina, esclarece, revela e diferencia. O diabo só se sustenta na confusão, nas trevas e na língua dupla – enquanto Deus, Glorioso e Todo-Poderoso, ainda permite que ele o faça, antes de precipitá-lo no mar dentro de uma manada de porcos.

Deus é a única Autoridade incontornável em todo lugar, Criador e Fonte da Vida, da qual o homem pode tentar se esconder, e contra a qual pode se revoltar, mas da qual não pode escapar. Deus é Onisciente, Onipotente, Onipresente, e o Seu Verbo virá nos julgar no fim dos tempos. Ainda assim, a humanidade vem ao longo dos séculos sofisticando-se em suas estratégias para manter-se escondida de Deus – para crescer na ilusão de que se esconde de Deus – seguindo o teatro demoníaco de suas mais disseminadas tendências pecaminosas. Os demônios, há muito, declararam guerra contra Deus, e uma quantidade imensa de seres humanos está alistando-se e militando de bom grado nesse exército. O problema é que, quando se desobedece a Deus, o máximo que se pode viver é um simulacro, uma ‘paródia demoníaca’ de liberdade (cf. RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância, página 224), em que, ao se desrespeitar o mais importante dos limites – aquele que nos garante o acesso interior à Vida – muitos outros, internos e externos, começarão a ser desrespeitados, e o ser humano acaba por violar a dignidade dos outros e a sua própria. Não há uma terceira opção : ou temos 1) o reconhecimento de Deus como Criador, a obediência a Ele e a entrada na Vida Eterna; ou 2) a negação de Deus, e a entrada no reino temporário da morte, que, no fim, somente Deus dirá se será eterna ou não.

Quem nunca sentiu que fez, falou, ouviu, viu ou pensou um pouco demais – mais do que teria sido bom fazer, falar, ouvir, ver ou pensar – ultrapassando assim um limite que teria sido melhor respeitar para resguardar-se daquela dor persistente, daquele incômodo profundo, daquela perda de sentido? São estes os limites que estão impressos em nossas almas, desde que Deus nos fez, e que somos livres para respeitar, mantendo-nos próximos Dele e de Sua alegria, ou para ultrapassar, perdendo, a Deus e a nós mesmos, em troca de um pouco mais… de um pouco demais.

Quando ultrapassamos estes limites, sabemos como sentiram-se Adão e Eva, no Éden, ao se tornarem escravos do pecado no instante mesmo em que julgavam ser mais livres.

Ser ‘livre’ das exigências de Deus, é ser escravo da concupiscência e de Satanás : a transgressão gera vício, e tende-se à reincidência. O que se fez, falou ou viu demais, é difícil des-fazer, des-falar, des-ver, a não ser pelo perdão sacramental e pela graça de Deus. O ser pode se embrutecer, e torna-se então mais difícil apreciar a virtude e a pureza. Hoje, a humanidade começa a pensar que a liberdade se define pela normatização da ultrapassagem dos limites, negando a sua própria essência mais original, numa lógica em que o pecado virou virtude, e a virtude pecado. Não tendo a consciência de que, com esse pensamento distorcido, cai na mais servil escravidão, distancia-se da verdadeira liberdade, que é somente obtida no reconhecimento de Deus como Criador, e de si como criatura, recolocando e aceitando cada um no seu devido lugar.


A atualização do pecado

O pecado atual, em nosso cotidiano histórico, é a pressão contrária que fazemos, resistindo à irrupção de nossa vocação profunda afastada no Pecado Original, ou, quando já conseguimos nos reconectar em algum grau com essa vocação, resistindo à manutenção de sua realização. Estando já fluente na língua do mundo, o ser humano teme que, reaprendendo a língua original de sua própria alma, será deportado do tecido social como estrangeiro indesejado – porque o discípulo não é maior que seu mestre (Lc 6,40), e o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Mt 8,20). Faz-se concessões ao pecado, perde-se a alma para se ter as falsas consolações do mundo, e o respeito humano. E quanto mais o mundo é desejado em seus próprios termos – o prazer hedonístico, a ganância pelo sucesso, o apego material, o reconhecimento dos outros etc. – mais se desaprende a língua de nossas próprias almas, mais as mensagens da alma tornam-se inaudíveis ou incompreensíveis, ou os ouvidos, resistentes. O ser humano faz-se estrangeiro em sua própria terra, e resiste a obter, de Deus, a sua nacionalidade perdida, o seu direito de primogenitura.

Após o Pecado Original, como consequência, surge na vida humana a concupiscência, e Adão e Eva passam a olhar um para o outro como objetos atraentes, que prometem prazer sensual ou sexual, e não mais como sujeitos de uma comunhão de pessoas, considerados em sua completa dignidade, na indissociabilidade entre seu corpo, sua alma e sua subjetividade. Surge o egoísmo, como maior obstáculo para a experiência do amor. Logo, homem e mulher passam a ter vergonha de seus corpos e sexos, que precisam, então, ser cobertos. Pois agora os olhos se abriram, e vê-se um pouco demais. O germe do desejo pornográfico nasce com a concupiscência dos olhos – e a pornografia, em si, é a exacerbação grotesca e caricatural da mesma : não mais apenas usar o outro, despersonalizando-o na experiência, mas despersonalizá-lo ainda mais além, através de meras imagens-fetiche de seu corpo dessubjetivado, em que o domínio dos olhos sobre o outro-objeto é ainda maior e completo, e elimina-se inteiramente o risco do envolvimento emocional e racional que se tem com a presença viva de uma pessoa.

A percepção interior da concupiscência em nós mesmos faz surgir um medo e uma insegurança de que a mesma, no outro, manifeste neste um desejo de apenas usar-nos, servir-se de uma parte de nós, e descartar-nos, não acolhendo-nos inteiramente em comunhão. Nós temos medo da inocência e da pureza, pois estas, se vencerem em nós nossa própria malícia, podem nos tornar presas da concupiscência do outro. Doar-se, a partir disto, passa a ser risco iminente de sofrer, de ser abandonado, pelo egoísmo do outro, que, como nós, tem dificuldade de amar. Uns começam a se proteger através de uma atitude hiperdefensiva. Outros, mais ofensivamente, protegem-se através de uma hiperconcupiscência, que, superando a do outro, tenderá a fazê-lo sofrer primeiro, antes que isso aconteça consigo – ‘antes o outro do que eu’. Outros, ainda, defendem-se através de uma combinação desregulada das duas posturas.

A partir do Pecado Original, algumas fraturas ou rupturas ocorreram : entre o ser humano e o seu Criador; entre o homem e a mulher; e entre a alma e o corpo do ser humano. Como já vimos, o ser humano começa a fugir de Deus, com medo Dele. O homem e a mulher não se relacionam mais como uma só carne, ou nisso encontram grande dificuldade; atraem-se, mas fogem um do outro ao mesmo tempo, pois passa a haver um conflito entre o prazer da carne (visto e vivido como um valor em si mesmo) e a comunhão unitiva das pessoas. Da mesma maneira, a alma e o corpo de um só ser humano, atraem-se mas fogem da mútua integração, instaurando um doloroso desequilíbrio no seio mesmo do ser. Os impulsos da carne que são contrários à realização da alma passam a dominar, e, satisfeitos, fazem crescer uma proporcional insatisfação existencial na alma, que o cego, que não pode enxergar, tantas vezes sequer compreende de onde vem.

Podemos compreender, então, que o ser humano verdadeiro é aquele criado por Deus à Sua imagem e semelhança no princípio da Criação, caracterizado por uma plena integração de todas as suas partes e aspectos, que convergiam para a realização da vontade e do original desígnio do seu Criador. Nada no primeiro homem e na primeira mulher era mecânico : profundamente integrados, em si, entre si e com Deus, eram abundantemente irrigados pelas forças da Vida e pela unção do Espírito Santo, que provêm de Deus Pai. Todas as dimensões constitutivas da totalidade do ser humano – as dimensões sexual, emocional e racional – formavam um todo indissolúvel, em que nenhuma destas partes reivindicava uma prioridade em detrimento das outras, e, integradas, obedeciam ao Espírito de Deus, de maneira que todas as ações do ser humano, homem e mulher, sozinhos e juntos, eram movimentos visíveis, no mundo sensível, da presença espiritual, da santidade e da beleza de Deus na Sua Criação. Ver o verdadeiro ser humano agir, no princípio, era ver os movimentos de Deus em toda a profundidade e força dos Seus pensamentos.

A desobediência fez com que a imagem e semelhança de Deus que há em nós se tornasse distante e embaçada, recuperada apenas ao custo de grande esforço, e, claro, da graça do Espírito. O ser humano desde então, enfraquecido e dado ao pecado, constantemente se desintegra em suas experiências. Ora, cede a impulsos sensuais que estão em completo desacordo com suas emoções e pensamentos racionais, e com as aspirações de sua alma, de modo que obtém um prazer efêmero, mas sente-se fragmentado, e posteriormente sofre a ressaca do vazio emocional e da perda do sentido racional. Ora, apega-se a emoções secundárias, patológicas, desconectadas de suas forças vitais motrizes, e também de sua razão, ao ponto de dessensibilizar-se para estas em um emocionalismo inconsistente. Ora, ainda, vive preso em pensamentos e racionalizações fora do contato com suas emoções e sexualidade. São muitos os modos históricos possíveis de desintegração e desestruturação do ser humano, em sua resistência à integração, consigo mesmo, com o outro e com Deus. O que tal desintegração perpetua é a separação entre o corpo e a alma, experiência de morte ou perda de vida. Em cada pecado atual, a dor que sentimos é a dor da nossa irrealização : fica faltando o nosso ser real, afastado, que nos aguarda em Deus.

Assim, sabemos que para estarmos realizados, isto é, para nos tornarmos reais, precisamos buscar ao máximo, nessa vida de exílio, a proximidade com a imagem e semelhança de Deus que está inscrita no fundo de nossas almas, trazê-la à tona e a ela dar corpo, para que, com o resgate dessa semelhança, vivamos mais integrados e em comunhão com nosso Criador e Seus desígnios para conosco. E isto podemos pedir diretamente a Ele, em oração. Todo católico é chamado a buscar a santidade, e isso significa esforçar-se, recorrendo a Deus e aos sacramentos, para não permitir que o pecado atual continue embaçando e distorcendo a imagem e semelhança de Deus em nós.


A repressão da sexualidade

O mundo moderno muito tocou na questão da ‘repressão sexual’, conceito-chave na psicanálise, apropriado pelas falsificações marxistas da realidade. Desse conceito, e de seus desdobramentos, resultou a visão de mundo na qual, para o homem ser enfim livre, bastava-se produzir uma cultura libertária no que diz respeito à sexualidade. Códigos éticos e morais que dessem ainda um molde à sexualidade humana, orientando-nos sobre o que, nesse âmbito, é bom ou mau fazer, passaram a ser vistos como instrumentos de controle burguês no domínio desta classe sobre as outras. A repressão sexual (da ‘moral sexual burguesa’) gerava a neurose, e a neurose impedia a disseminação do espírito revolucionário. Bastava, então, retirar a repressão sexual, e não haveria mais neurose – portanto, ocorreria também a revolução completa. Esse raciocínio farsante, no entanto, possui uma trágica verdade para o homem contemporâneo : quando não dominamos mais a nossa sexualidade, passamos a aceitar mais automaticamente que os detentores do poder cultural e político revolucionem até a última camada do nosso ser ao seu bel-prazer.

Passamos, ao longo das décadas, não apenas a uma sociedade liberal e permissiva no que diz respeito à vida sexual das pessoas, mas a uma que reprime, mesmo, qualquer tentativa de resgatar uma orientação ética e moral fundamental para dar contorno e sentido à sexualidade e ao ato sexual. Com isso, no entanto, a angústia e a miséria humana só aumentaram. A falsidade dessa tendência está justamente em perpetuar a visão desintegrada sobre o ser humano. A sexualidade é hoje, amplamente, liberada de uma maneira exclusivamente mecânica, evitando-se uma ligação íntima da mesma com a vida emocional e racional das pessoas, sejam crianças, adolescentes ou adultos. Dando prioridade à sexualidade (casual, quando não banalizada) frente a todas as outras dimensões do ser humano e em detrimento das mesmas, a visão moderna da pessoa humana apenas se afastou ainda mais de sua realização, e mais se vive, hoje, de uma maneira contrária à satisfação de nossas mais profundas e verdadeiras necessidades, de amarmos e sermos amados.

As visões de mundo psicanalítica e marxista consideram o ‘pecado’ como sendo nada mais que uma ideia criada pela civilização ocidental patriarcal, espécie de instrumento de controle comportamental, para incutir culpa nas consciência humanas e assim dominar o comportamento dos seres em sociedade. Pobre homem que acreditou nessa visão de mundo, nessa fantasia ideológica, e liberou indiscriminadamente sua sexualidade, desintegrando-a da completude do seu ser. Entra-se, assim, no império do desejo, em que toda culpa e hesitação são considerados como inimigos a serem removidos, para que o indivíduo vá, em expansão, ao encontro do mundo, ainda que, depois, retorne miserável do mesmo encontro, porque não soube enxergar o quanto a hesitação e a culpa eram, ainda, uma mensagem distante da sua alma, tentando avisar à consciência que aquele desejo era falso, que não provinha do âmago do seu ser. O ser humano desintegrado e desenraizado, vivendo fora de si mesmo, é muito mais facilmente manipulado, e pode, a qualquer momento, incorporar um novo e mais falso desejo, afogando mais e mais a sua verdade. A mentalidade moderna privilegia a realização dos desejos das pessoas, mais que a realização das pessoas elas mesmas. Seu desejo acima de você mesmo.

O pecado não é uma ideia que reprime o homem artificialmente. O Pecado Original e o pecado atual são acontecimentos que efetivamente desintegram e reprimem a sexualidade humana natural, entendida como força motriz original da complementaridade total do homem e da mulher, convidados pela mesma força ao movimento recíproco de livre doação de si e acolhimento do outro em um vínculo relacional sólido e definitivo, do qual não participa apenas a sexualidade, mas a totalidade do ser, em corpo, emoção, razão, subjetividade e espírito.

No que se refere à sexualidade, a experiência que se torna mais difícil ao ser humano após o Pecado Original é, precisamente, o tornar-se uma só carne com uma pessoa do outro sexo, em definitiva doação e completo acolhimento – vínculo pleno afirmado no prazer e no sofrimento, na satisfação e na frustração. No entanto, nossas almas, ainda que decaídas e desorientadas, dessensibilizadas para a percepção de sua própria vocação original, não perdem esta mesma vocação, de modo que todos nós continuamos a aspirar pela comunhão das pessoas, e com Deus. Convivem e batalham, no homem, vontade original de comunhão e resistência pecaminosa à mesma. Desejo e incapacidade de amar. Os seres humanos, em suas diversas relações sociais, encontram-se e vinculam-se, e desejam isto, mas, simultaneamente, utilizam de todas as estratégias que possuem, conscientemente ou não, para protegerem-se do caráter definitivo destas relações e vínculos, em especial os amorosos e conjugais, sofrendo por antecipação o peso do compromisso e a possível exigência de sacrifício pelo outro, e também o abandono que pode derivar da fraqueza do outro.

A intimidade sexual faz de um homem e de uma mulher uma só carne, e, não importa qual seja a intenção do casal no ato, e seu comportamento antes ou depois, é assim que a alma sente a união que se deu. No entanto, esta experiência, de intimidade inigualável, torna-se cada vez mais banalizada e estimulada a adolescentes e jovens imaturos, que não estão aptos a responderem à intensidade existencial, vinculativa e unitiva de tal experiência, e com isso fragmentam-se e ferem seus corações, consciências e almas, e os dos outros. Sentem-se vazios e usados, o corpo foi dado, a alma foi dada, sem que nenhuma pessoa tenha sido doada, ou, por outro lado, acolhida. Todo o senso de preservação de si e de sua intimidade está sendo retirado das novas gerações, que cada vez mais violam a sua própria dignidade, de bom grado, ao dar acesso ao seu corpo – através de imagens e experiências – a desconhecidos ou recém-conhecidos que queiram usá-lo, consumi-lo. E isso, hoje, começa a ser visto como um valor. É, pelo contrário, a disposição emocional para a doação de si e o acolhimento do outro, que passa a ser vista com desconfiança. Pensa-se haver algo de errado com a pessoa que, após haver transado, deseja logo se aproximar e se envolver emocionalmente.

Pobre humanidade, pensando que, com esse comportamento, está libertando a sua sexualidade – dos supostos imperativos (‘burgueses, patriarcais’) do amor romântico e do compromisso, que os revolucionários associam à propriedade privada, sendo os seus ideais ‘nada é de ninguém’, ‘ninguém é de ninguém’ – quando, na realidade, assim fazendo, agrava mais e mais a histórica repressão da sexualidade natural do ser humano, que, quando saudável, é sempre integrada com a totalidade do ser, sendo a força que move a totalidade do ser a ser-para um outro, a doar-se como pessoa inteira, para uma outra pessoa inteira, que se doará também e será acolhida, preenchendo assim a vida humana de sentido, densidade e consolidação.

Nos próximos artigos, veremos como Nosso Senhor Jesus Cristo, em Si mesmo, revelou-nos o Caminho que devemos buscar e viver, na terra, para superarmos o reino da morte e do pecado, recuperarmos a vida eterna, e a vocação original de nossas almas e corpos, que se realizam no dom de si. Cristo nos ensina a devolver aos nossos corpos e à nossa sexualidade o seu devido valor, e faz-nos saber, novamente, que não se pode doar o que não se possui.

São João Paulo II, rogai por nós.’


Fonte :