Mostrando postagens com marcador Escritura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escritura. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de maio de 2022

Um pequeno percurso hermenêutico no Ocidente

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘A questão hermenêutica do Ocidente não pode ser vista sem a sua preocupação com o texto bíblico por parte do povo judeu. A história judaica é contada a partir da sua relação com Javé e não deve ser desassociada dessa característica.

Diante dos diversos eventos históricos que aconteceram ao povo, tais como o primeiro Êxodo, quando o povo de Israel deixa o Egito, a presença da monarquia que se inicia com Saul e segue até o exílio na Babilônia, passando pelo período pós-exílio e os períodos de dominação egípcio, grego e romano, surge então uma necessidade espiritual por parte do povo de interpretar sua história, bem como seu livro sagrado, a Torá, que a fornece a ‘plena verdade necessária à vida do homem’.

Nesse sentido, é importante considerar que essa hermenêutica não tem um caráter filosófico, mas sim espiritual. Assim, dentro da hermenêutica judaica, como bem nos mostra Jearond, é possível identificar quatro métodos de interpretação : a literária, que de maneira mais simples consistia na interpretação do deuteronômio, partindo do pressuposto de que a interpretação do texto era o que estava escrito, a midrashica, que posteriormente desenvolvida, tinha o intuito de extrair do texto algo que a mais do que sua simples imediatez, a pésher, usado nas comunidade de Quram, cujo objetivo estava em descobrir os mistérios divinos, sendo uma atualização do método midráshico e alegórico, que tinha como intento uma leitura mais simbólica do texto da Torá.

O Cristianismo, que nasce dentro desse contexto de interpretação, desenvolveu a interpretação tipológica, ou seja, os textos judaicos eram lidos a partir do evento Cristo. Com a luta contra os gnósticos, duas escolas de interpretação surgem no meio cristão. De um lado, a escola de Alexandria que, ancorada na fé da Igreja, tinha o intuito de uma interpretação arraigada no método alegórico, sendo Orígenes um dos grandes expoentes dessa escola.

Do outro lado, a escola de Antioquia, mais fundada na tradição judaica, dava ênfase ao campo gramatical e textual das Escrituras, tendo sido um de seus teólogos Teodoro de Mapsuéstia denunciador do perigo da hermenêutica de Orígenes de negar a realidade da história bíblica. Ainda que as duas escolas trabalhem com paradigmas bem diferentes, ‘esses dois paradigmas não foram jamais observados de forma estritamente separados dentro da Igreja primitiva’.

Dentre os diversos teólogos que se aventuraram no campo de uma hermenêutica do texto bíblico, ora defendendo uma escola, ora defendendo outra, foi Agostinho o grande responsável por sintetizar as linhas de pensamento de Alexandria com a de Antioquia. Sua proposta foi fazer uma análise detalhada do texto para melhor compreender seu sentido espiritual. Como a coisa é diferente daquilo que ela se refere, as Escrituras devem ser vistas como produção humana que faz referência a Deus.

Seguindo Agostinho, as Escrituras poderiam, então, serem trabalhadas de forma análoga às formas de trabalho com textos não cristãos e ser interpretada usando os mesmos métodos utilizados para análises textuais. Uma vez que sua perspectiva para a interpretação do texto bíblico deve ser o amor e não o texto por si mesmo, pode-se dizer que a leitura hermenêutica de Agostinho se centra na prática.

Esse simples percurso mostra as diversas teias necessárias para se compreender a questão hermenêutica no cristianismo. Investir nisso é, ainda hoje, uma tarefa teológica de suma importância.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1577087/2022/05/um-pequeno-percurso-hermeneutico-no-ocidente/

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O que é a Septuaginta e por que ela é importante?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

septuagint
*Artigo de Philip Kosloski,
escritor e designer gráfico




‘Aproximadamente 200 anos antes do nascimento de Jesus, foi feita uma tradução grega das escrituras hebraicas que se tornou amplamente aceita como uma tradução legítima (e até inspirada).

A tradição relata como o rei Ptolomeu II do Egito estabeleceu uma vasta biblioteca em Alexandria. E ele queria ter ali uma cópia das escrituras hebraicas.

Ptolomeu então enviou representantes a Jerusalém e convidou anciãos judeus a preparar uma nova tradução grega do texto. Setenta e dois anciãos, seis de cada uma das 12 tribos de Israel, chegaram ao Egito para atender ao pedido.

Eles foram levados à ilha de Pharos, onde, ao fim de 72 dias, seu trabalho estaria concluído. O rei Ptolomeu ficou satisfeito com o resultado e colocou o trabalho em sua biblioteca.

Outra tradição acrescenta que todos os tradutores foram colocados em salas separadas e instruídos a produzir seu próprio texto. Quando a tarefa foi concluída, os tradutores compararam todos os textos e descobriram que cada um era milagrosamente idêntico aos outros.

O resultado desse trabalho mais tarde ficou conhecido como Septuaginta (da palavra grega relacionada a 70) e ficou especialmente popular entre os judeus de língua grega durante os séculos que se seguiram. Muitos desses judeus se converteram ao cristianismo e, como resultado, a Septuaginta se tornou uma fonte primária para os escritores do Evangelho e muitos outros cristãos primitivos.

Alguns séculos depois, ao formular o cânone oficial das Escrituras, a Igreja Católica procurou a Septuaginta para discernir quais livros manter. O cânone católico do Antigo Testamento incluía alguns textos e acrescentava outros (por exemplo, os Livros de Judite, Tobias, Sabedoria, Eclesiástico) originalmente escritos em grego, não em hebraico e, portanto, não considerados parte das Escrituras Judaicas, mesmo respeitados e lidos por judeus.

Embora a história da formação da Septuaginta seja considerada pelos estudiosos bíblicos modernos como uma lenda sem uma base histórica real, a localização e o período da tradução geralmente são considerados verdadeiros.

De acordo com a Enciclopédia Católica, é mais provável que ‘judeus alexandrinos, usando o Pentateuco traduzido em suas reuniões litúrgicas, também desejavam ler os livros restantes e, portanto, gradualmente os tenham traduzido para o grego, que se tornara sua língua materna; isso seria muito mais provável, pois seu conhecimento do hebraico diminuía constantemente’.

Qualquer que seja a origem do texto grego, seu caráter antigo ainda é altamente valorizado, e os tradutores bíblicos geralmente consultam a Septuaginta para entender melhor determinada passagem bíblica.


Fonte :

domingo, 7 de dezembro de 2014

Santo Ambrósio, Bispo e Doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Nasceu em Treves, pelo ano 340, de uma família romana, fez os seus estudos em Roma e iniciou em Sírmio a carreira da magistratura. Em 374, vivendo em Milão, foi inesperadamente eleito bispo da cidade e recebeu e recebeu a ordenação no dia 7 de dezembro. Fiel cumpridor do seu dever, distinguiu-se sobretudo na caridade para com todos, como verdadeiro pastor e doutor dos fiéis. Protegeu corajosamente os direitos da Igreja; com seus escritos e atos defendeu a verdadeira doutrina da fé contra os Arianos. Morreu no Sábado Santo, dia 4 de abril de 397.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de Santo Ambrósio, 
Bispo e Doutor da Igreja :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Das cartas de Santo Ambrósio, bispo
(Epist. 2,1-2,4-5.7: PL 16 edit. 1845,847-881)   (Sec. IV)

O encanto de tuas palavras inspire confiança ao povo.
‘Recebestes o múnus sacerdotal e, sentado à popa da Igreja, governas a barca em meio às ondas. Segura bem o leme da fé, para que as fortes procelas do mundo não te perturbem. O mar é, na verdade, grande e vasto, mas não temas : ele a tornou firme sobre os mares e sobre as águas a mantém inabalável (Sl 23,2).

Por isso, não é sem razão que, entre tantas agitações do mundo, a Igreja do Senhor, edificada sobre a pedra apostólica, permanece firme e, contra o ímpeto das águas te apóias sobre inabalável fundamento. É batida pelas ondas, mas não abalada; e embora muitas vezes os elementos deste mundo a sacudam com grande fragor, ela oferece aos navegantes cansados o mais seguro porto de salvação. Ela flutua no mar, mas também corre pelos rios, sobretudo aqueles rios dos quais se diz : Levantaram os rios a sua voz (Sl 92,3). São os rios que brotam do coração daqueles que beberam da água de Cristo e receberam o Espírito de Deus. Quando transbordaram de graça espiritual, esses rios levantam a sua voz.

Há também um rio que corre para os seus santos como uma torrente. Existe ainda o ímpeto do rio que alegra a alma tranqüila e pacífica. Quem receber da plenitude desse rio, como João Evangelista, Pedro e Paulo, levanta a sua voz. É do mesmo modo que os apóstolos difundiram até os confins da terra, como num canto harmonioso, a voz da pregação evangélica, assim o que receber da plenitude desse rio começa anunciar o Evangelho do Senhor Jesus.

Recebe, portanto, da plenitude de Cristo para que tua voz também se manifeste. Apanha a água de Cristo, essa água que louva o Senhor. Apanha de muitos lugares a água que as nuvens dos profetas deixam cair.

Quem apanha a água dos montes ou a retira e bebe das fontes, também começam a orvalhar como as nuvens. Enche, pois, o íntimo do teu espírito com esta água, para que a terra da tua alma seja regada e tenhas a fonte em tua própria casa.

Quem muito lê e compreende, fica repleto; e quem está repleto pode regar os demais, por isso, diz a Escritura : se as nuvens estiverem carregadas farão cair a chuva sobre a terra (Eclo 11,3).

As tuas pregações sejam fluentes, puras e claras, de modo que o teu ensinamento moral penetrem suavemente nos que te escutam e o encanto de tuas palavras inspire confiança ao povo, deste modo ele te seguirá, de boa vontade, para onde conduzires. Os teus discursos sejam repletos de inteligência. Por isso, diz Salomão : os lábios do sábio são as armas da sabedoria (cf. Prov. 15,7); e noutra passagem : o pensamento dirige teus lábios, isto é, os teus sermões brilhem pela tua clareza, e teus discursos e explicações dispensem as opiniões alheias. Que tua palavra seja capaz de se defender por si mesma. Em si, não saia de tua boca nenhuma palavra inútil e sem sentido.’
  

Fonte :
‘In Liturgia das Horas I’, 1034, 1036

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

São João Crisóstomo, Bispo e Doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Bento XVI, Papa Emérito
  
1. Vida

Pode-se dizer que João de Antioquia, chamado Crisóstomo, isto é ‘Boca de ouro’, ainda hoje está vivo devido à sua eloquência e também às suas obras. Um copista anónimo deixou escrito que elas ‘atravessam toda a terra como relâmpagos buliçosos’. Os seus escritos permitem também a nós, como aos fiéis do seu tempo, que foram repetidamente privados dele por causa dos seus exílios, de viver com os seus livros, apesar da sua ausência. Foi quanto ele próprio sugeriu do exílio numa sua carta (cf. A Olimpiade, Carta 8, 45).

Nascido por volta de 349 em Antioquia da Síria (hoje Antakaya, no sul da Turquia), ali desempenhou o ministério presbiteral durante onze anos, até 397, quando, nomeado Bispo de Constantinopla, exerceu na capital do Império o ministério episcopal antes dos dois exílios, que foram um a pouco tempo do outro, entre 403 e 407...

Tendo ficado órfão de pai em tenra idade, viveu com a mãe, Antusa, que lhe transmitiu uma requintada sensibilidade humana e uma profunda fé cristã. Tendo frequentado os estudos primários e superiores, coroados pelos cursos de filosofia e retórica, teve como mestre Libânio, pagão, o mais célebre mestre de retórica da época. Na sua escola, João tornou-se o maior orador da antiguidade grega tardia. Baptizado em 368 e formado na vida eclesiástica pelo Bispo Melézio, foi por ele instituído leitor em 371. Este acontecimento marcou a entrada oficial de Crisóstomo no cursus eclesiástico. Frequentou, de 367 a 372, o asceterio, uma espécie de seminário de Antioquia, juntamente com um grupo de jovens, alguns dos quais se tornaram depois Bispos, sob a guia do famoso exegeta Diodoro de Tarso, que iniciou João na exegese histórico-literária, característica da tradição antioquena.

Retirou-se depois durante quatro anos entre os eremitas no vizinho monte Silpio. Prosseguiu aquele retiro por outros dois anos, que viveu sozinho numa gruta sob a orientação de um ‘idoso’. Naquele período dedicou-se totalmente à meditação ‘das leis de Cristo’, dos Evangelhos e especialmente das Cartas de Paulo. Tendo adoecido, encontrou-se impossibilitado de se curar sozinho, e por isso teve que regressar à comunidade cristã de Antioquia (cf. Palladio, Vita 5). O Senhor, explica o biógrafo, interveio com a enfermidade no momento justo para permitir que João seguisse a sua verdadeira vocação. De facto, escreverá ele mesmo que, colocado na alternativa de escolher entre as adversidades do governo da Igreja e a tranquilidade da vida monástica, teria preferido mil vezes o serviço pastoral (cf. Sul sacerdocio, 6, 7) : precisamente para isto Crisóstomo se sentia chamado. E realiza-se aqui a mudança decisiva da sua história vocacional: pastor de almas a tempo inteiro! A intimidade com a Palavra de Deus, cultivada durante os anos da eremitério, tinha amadurecido nele a urgência irresistível de pregar o Evangelho, de doar aos outros o que tinha recebido nos anos da meditação. O ideal missionário lançou-o assim, alma de fogo, no cuidado pastoral.

Entre 378 e 379 regressou à cidade. Diácono em 381 e presbítero em 386, tornou-se célebre pregador nas igrejas da sua cidade. Pronunciou homilias contra os arianos, seguidas pelas comemorativas dos mártires antioquenos e por outras sobre as principais festas litúrgicas : trata-se de um grande ensinamento da fé em Cristo, também à luz dos seus Santos. O ano de 387 foi ‘o ano heróico’ de João, o da chamada ‘revolta das estátuas’. O povo derrubou as estátuas imperiais, em sinal de protesto contra o aumento das taxas. Naqueles dias de Quaresma e de angústia por causa das punições infligidas por parte do imperador, ele pronunciou as suas 22 vibrantes homilias sobre as estátuas, finalizadas à penitência e à conversão. Seguiu-se o período da serena actividade pastoral (387-397).

Crisóstomo coloca-se entre os Padres mais fecundos : dele chegaram até nós 17 tratados, mais de 700 homilias autênticas, os comentários a Mateus e a Paulo (Cartas aos Romanos, aos Coríntios, aos Efésios e aos Hebreus), e 241 cartas. Não foi um teólogo especulativo. Mas transmitiu a doutrina tradicional e segura da Igreja numa época de controvérsias teológicas suscitadas sobretudo pelo arianismo, isto é, pela negação da divindade de Cristo. Portanto, ele é uma testemunha confiável do desenvolvimento dogmático alcançado pela Igreja nos séculos IV-V. A sua é uma teologia requintadamente pastoral, na qual é constante a preocupação da coerência entre o pensamento expresso pela palavra e a vivência existencial. É este, em particular, o fio condutor das maravilhosas catequeses, com as quais preparava os catecúmenos para receber o Baptismo.

Próximo da morte, escreveu que o valor do homem consiste no ‘conhecimento exacto da verdadeira doutrina e na rectidão da vida’ (Carta do exílio). As duas coisas, conhecimento da verdade e rectidão na vida, caminham juntas : o conhecimento deve traduzir-se em vida. Cada uma das suas intervenções tinha sempre por finalidade desenvolver nos fiéis o exercício da inteligência, da verdadeira razão, para compreender e traduzir em prática as exigências morais e espirituais da fé.

João Crisóstomo preocupa-se por acompanhar com os seus escritos o desenvolvimento integral da pessoa, nas dimensões física, intelectual e religiosa. As várias fases do crescimento são comparadas a outros tantos mares de um oceano imenso : ‘O primeiro destes mares é a infância’ (Homilia 81, 5 sobre o Evangelho de Mateus). De facto ‘precisamente nesta primeira idade se manifestam as inclinações para o vício e para a virtude’. Por isso a lei de Deus deve ser desde o início impressa na alma ‘como numa tábua de cera’ (Homilia 3, 1 sobre o Evangelho de João) : de facto esta é a idade mais importante. Devemos ter presente como é fundamental que nesta primeira fase da vida entrem realmente no homem as grandes orientações que dão perspectiva justa à existência. Por isso Crisóstomo recomenda : ‘Precavei as crianças desde a mais tenra idade com armas espirituais, e ensinai-lhes a persignar a fronte com a mão’ (Homilia 12, 7 sobre a primeira Carta aos Coríntios). Vêm depois a adolescência e a juventude : ‘à infância segue-se o mar da adolescência, onde os ventos sopram violentos..., porque cresce em nós... a concupiscência’ (Homilia 81, 5 sobre o Evangelho de Mateus). Por fim, chegam o noivado e o matrimónio : ‘À juventude segue-se a idade da pessoa madura, na qual chegam os compromissos de família : é o tempo de procurar esposa’ (ibid.). Do matrimónio, ele recorda as finalidades, enriquecendo-as com a referência à virtude da temperança de uma rica trama de relações personalizadas. Os esposos bem preparados impedem o caminho do divórcio : tudo se desenvolve com alegria e podem-se educar os filhos para a virtude. Depois, quando nasce o primeiro filho, ele é ‘como uma ponte; os três tornam-se uma só carne, porque o filho une as duas partes’ (Homilia 12, 5 sobre a Carta aos Colossences), e os três constituem ‘uma família, pequena Igreja’ (Homilia 20, 6 sobre a Carta aos Efésios).

A pregação de Crisóstomo realizava-se habitualmente durante a liturgia, ‘lugar’ no qual a comunidade se constrói com a Palavra e com a Eucaristia. Nela, a assembléia reunida expressa a única Igreja (Homilia 8, 7 sobre a Carta aos Romanos), a mesma palavra dirige-se em qualquer lugar a todos (Homilia 24, 2 sobre a primeira Carta aos Coríntios), e a comunhão eucarística torna-se sinal eficaz de unidade (Homilia 32, 7 sobre o Evangelho de Mateus). O seu projecto pastoral estava inserido na vida da Igreja, na qual os fiéis leigos com o Baptismo assumem o ofício sacerdotal, real e profético. Ele diz ao fiel leigo : ‘Também a ti o Baptismo torna rei, sacerdote e profeta’ (Homilia 3, 5 sobre a segunda Carta aos Coríntios). Provém daqui o dever fundamental da missão, porque cada um de certa forma é responsável da salvação dos outros : ‘Este é o princípio da nossa vida social... não nos interessarmos apenas de nós!’ (Homilia 9, 2 sobre o Génesis). Tudo isto se desenvolve entre dois pólos : a grande Igreja e a ‘pequena Igreja’, a família, em relação recíproca.

Como podeis ver, queridos irmãos e irmãs, esta lição de Crisóstomo sobre a presença autenticamente cristã dos fiéis na família e na sociedade, permanece ainda hoje actual como nunca. Rezemos ao Senhor para que nos torne dóceis aos ensinamentos deste grande Mestre da fé.


2. Pensamento

...Depois do período passado em Antioquia, em 397 ele foi nomeado Bispo de Constantinopla, a capital do Império romano do Oriente. Desde o início, João projectou a reforma da sua Igreja: a austeridade do palácio episcopal devia servir de exemplo para todo o clero, viúvas, monges, palacianos e ricos.

Infelizmente, muitos destes, atingidos pelos seus juízos, afastaram-se dele. Solícito pelos pobres, João foi chamado também ‘Esmoler’. De facto, como administrador atento ele conseguiu criar instituições caritativas muito apreciadas. O seu arrojo nos vários âmbitos fez com que ele se tornasse para alguns um rival perigoso. Ele, contudo, como verdadeiro Pastor, tratava todos de modo cordial e paterno. Sobretudo, destinava considerações sempre ternas às mulheres e cuidados especiais ao matrimonio e à família. Convidava os fiéis a participar na vida litúrgica, por ele tornada esplendorosa e atraente com genial criatividade.

Não obstante o coração generoso, não teve uma vida tranquila. Pastor da capital do Império, viu-se com frequência envolvido em questões e intrigas políticas, devido aos seus contínuos relacionamentos com as autoridades e as instituições civis. Depois, a nível eclesiástico, foi acusado de ter superado os confins da própria jurisdição, e tornou-se assim alvo de fáceis acusações. Outro pretexto contra ele foi a presença de alguns monges egípcios, excomungados pelo patriarca Teófilo de Alexandria, que se refugiaram em Constantinopla. Uma acesa polêmica foi depois originada pelas críticas feitas por Crisóstomo à imperatriz Eudóxia e às suas palacianas, que reagiram desacreditando-o e insultando-o. Chegou-se assim à sua deposição, no sínodo organizado pelo mesmo patriarca Teófilo em 403, com a consequente condenação ao primeiro breve exílio. Depois do seu regresso, a hostilidade suscitada contra ele desde o protesto contra as festas em honra da imperatriz que o Bispo considerava como festas pagãs, suntuosas, e a expulsão dos presbíteros encarregados dos Baptismos na Vigília pascal de 404, marcaram o início da perseguição de Crisóstomo e dos seus seguidores, os chamados ‘Joanitas’.

Então, João denunciou os factos ao Bispo de Roma, Inocêncio I. Mas já era demasiado tarde. No ano de 406 teve de novo que se refugiar no exílio, desta vez em Cucusa, na Arménia. O Papa estava convencido da sua inocência, mas não tinha o poder de o ajudar. Um Concílio, querido por Roma para uma pacificação entre as duas partes do Império e entre as suas Igrejas, não pôde ser realizado. O deslocamento extenuante de Cucusa para Pytius, meta nunca alcançada, devia impedir as visitas dos fiéis e interromper a resistência do exilado extenuado :  a condenação ao exílio foi uma verdadeira condenação à morte! São comovedoras as numerosas cartas do exílio, nas quais João manifesta as suas preocupações pastorais com tonalidades de participação e de sofrimento pelas perseguições contra os seus. A marcha rumo à morte terminou em Comano, no Ponto. Aqui, João moribundo, foi levado para a capela do mártir São Basilisco, onde rendeu a alma a Deus e foi sepultado, mártir ao lado do mártir (Palladio, Vita 119). Era o dia 14 de Setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. A reabilitação teve lugar em 438 com Teodósio II. As relíquias do santo Bispo, colocadas na igreja dos Apóstolos em Constantinopla, foram depois trasladadas em 1204 para Roma, para a primitiva Basílica constantiniana, e agora jazem na capela do Coro dos Cónegos da Basílica de São Pedro. A 24 de Agosto de 2004, uma considerável parte delas foi doada pelo Papa João Paulo II ao Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla. A memória litúrgica do santo celebra-se a 13 de Setembro. João XXIII proclamou-o padroeiro do Concílio Vaticano II.

Foi dito acerca de João Crisóstomo que, quando foi colocado no trono da Nova Roma, isto é, Constantinopla, Deus mostrou nele um segundo Paulo, um doutor do Universo. Na realidade, em Crisóstomo há uma unidade substancial de pensamento e de acção tanto em Antioquia como em Constantinopla. Mudam só o papel e as situações. Meditando sobre as oito obras realizadas por Deus no suceder-se dos seis dias no comentário do Génesis, Crisóstomo deseja reconduzir os fiéis da criação ao criador :  ‘É um grande bem’, diz, ‘conhecer o que é a criatura e o que é o Criador’.

Mostra-nos a beleza da criação e a transparência de Deus na sua criação, a qual se torna assim quase que uma ‘escada’ para subir a Deus, para o conhecer. Mas a este primeiro passo acrescenta-se um segundo : este Deus criador é também o Deus da condescendência (synkatabasis). Nós somos débeis na ‘subida’, os nossos olhos são débeis. E assim Deus torna-se o Deus da condescendência, que envia ao homem pecador e estrangeiro uma carta, a Sagrada Escritura, de modo que criação e Sagrada Escritura completam-se. À luz da Escritura, da carta que Deus nos deu, podemos decifrar a criação. Deus é chamado ‘pai terno’ (philostorgios) (ibid.), médico das almas (Homilia 40, 3 sobre o Génesis), mãe (ibid.) e amigo afectuoso (Sobre a providência 8, 11-12). Mas a este segundo passo primeiro a criação como ‘escada’ para Deus e depois a condescendência de Deus através duma carta que nos deu, a Sagrada Escritura acrescenta-se um terceiro passo. Deus não só nos transmite uma carta :  em definitiva, desce Ele mesmo, encarna-se, torna-se realmente ‘Deus connosco’, nosso irmão até à morte na Cruz. E a estes três passos Deus é visível na criação, Deus dá-nos uma sua carta, Deus desce e torna-se um de nós acrescenta-se no final um quarto passo. No arco da vida e da acção do cristão, o princípio vital e dinâmico é o Espírito Santo (Pneuma), que transforma as realidades do mundo. Deus entra na nossa existência através do Espírito Santo e transforma-nos do interior do nosso coração.

Nesta panorâmica, precisamente em Constantinopla João, no comentário continuativo dos Actos dos Apóstolos, propõe o modelo da Igreja primitiva (Act 4, 32-37) como modelo para a sociedade, desenvolvendo uma ‘utopia’ social (quase uma ‘cidade ideal’). De facto, tratava-se de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Por outras palavras, Crisóstomo compreendeu que não é suficiente dar esmola, ajudar os pobres sempre que precisem, mas é necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade; um modelo baseado na perspectiva do Novo Testamento. É a nova sociedade que se revela na Igreja nascente. Portanto João Crisóstomo torna-se assim realmente um dos grandes Padres da Doutrina Social da Igreja :  a velha ideia da ‘polis’ grega é substituída por uma nova ideia de cidade inspirada na fé cristã. Crisóstomo defendia com Paulo (cf. 1 Cor 8, 11) a primazia de cada cristão, da pessoa como tal, também do escravo e do pobre. O seu projecto corrige assim a tradicional visão grega da ‘polis’, da cidade, na qual amplas camadas de população eram excluídas dos direitos de cidadania, enquanto na cidade cristã todos são irmãos e irmãs com iguais direitos. A primazia da pessoa é também a consequência do facto que, realmente partindo dela, se constrói a cidade, enquanto que na ‘polis’ grega a pátria era superior ao indivíduo, o qual estava totalmente subordinado à cidade no seu conjunto. Assim, com Crisóstomo tem início a visão de uma sociedade construída pela consciência cristã. E ele diz-nos que a nossa ‘polis’ é outra, ‘a nossa pátria está no céu’ (Fl 3, 20) e esta nossa pátria também nesta terra nos torna iguais, irmãos e irmãs, e obriga-nos à solidariedade.

No final da sua vida, do exílio nos confins da Arménia, ‘o lugar mais remoto do mundo’, João, voltando à sua primeira pregação de 386, retomou o tema que lhe era tão querido do plano que Deus prossegue em relação à humanidade :  é um plano ‘indizível e incompreensível’, mas certamente guiado por Ele com amor (cf. Sobre a providência 2, 6). É esta a nossa certeza.

Mesmo se não podemos decifrar os pormenores da história pessoal e colectiva, sabemos que o plano de Deus se inspira sempre no seu amor. Assim, apesar dos sofrimentos, Crisóstomo reafirmava a descoberta de que Deus ama cada um de nós com um amor infinito, e por isso deseja que todos se salvem. Por seu lado, o santo Bispo cooperou nesta salvação generosamente, sem se poupar, ao longo de toda a sua vida. De facto, ele considerava o fim último da sua existência a glória de Deus, que já agonizante deixou como extremo testamento :  ‘Glória a Deus por tudo!’ (Palladio, Vita 11).’
  
 (19 de setembro de 2007)
(26 de setembro de 2007)


Fonte :
Bento XVISantos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.  


sexta-feira, 28 de março de 2014

Não é possível manter conceitos como "não praticante"

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Dom Alberto Taveira Corrêa,
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

‘Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá" (Ef 5, 14). A luz e o dia que vencem a escuridão são imagens que perpassam as culturas e as épocas, presentes também em várias concepções da vida humana em diversas religiões. Também a Sagrada Escritura recorre com frequência a esta polarização entre a luz e as trevas, como apresenta a Igreja durante estes dias de Quaresma. 

A Igreja vive uma estação claramente catecumenal, proporcionando aos que já são batizados acompanharem os irmãos e irmãs que serão batizados na Vigília Pascal e renovarem seus compromissos. Neste percurso formativo, todos os cristãos são convidados a se confrontarem com Cristo, Água viva que sacia a humanidade, Luz do Mundo, vencedor das trevas do pecado, Cristo, Ressurreição e vida. Na presente etapa, o convite é dirigido a todas as pessoas que querem deixar-se tocar por Jesus, acompanhados por um certo cego de nascença, na narrativa esplendorosa do Evangelho de São João (Jo 9, 1-38). Jesus realiza uma obra nova, recria o cego, que alcança o ponto mais alto de sua existência: "Quando Jesus o encontrou, perguntou-lhe: 'Tu crês no Filho do Homem?' Ele respondeu: 'Quem é, Senhor, para que eu creia nele?' Jesus disse: 'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo. Ele exclamou: 'Eu creio, Senhor!' E ajoelhou-se diante de Jesus" (Jo 9,35-38).

Ouvi de uma mulher, cega de nascença, na autoridade de seus mais de oitenta anos, uma afirmação desconcertante: "Agradeço a Deus por ser cega, pois a maior parte dos pecados começa com a vista! Não enxergando, posso pecar menos, dizia magistralmente esta senhora que nunca leu uma letra, diante de alguém que se tinha debruçado várias vezes diante da palavra do Evangelho: "Se teu olho direito te leva à queda, arranca-o e joga para longe de ti! De fato, é melhor perderes um de teus membros do que todo o corpo ser lançado ao inferno" (Mt 5,29). Trata-se uma revolução na escala de valores que pode orientar a vida, na qual importa efetivamente uma vida distante do pecado! É que Deus não nos fez para o egoísmo e a maldade, mas para a virtude e para o bem!

O presente de Deus que nos foi confiado no Batismo, a iluminação da fé, abre horizontes diferentes para a vida inteira. O próprio Batismo já foi chamado "iluminação". Os cristãos hão de aproveitar a graça da purificação quaresmal, lavar seus olhos, ou quem sabe passar um bom colírio (Cf. Ap 3,18), para enxergar de novo e de forma renovada a vida e os acontecimentos. Cabe-lhes mudar o rumo da vida e contribuir para que o mundo se conforme aos valores do Reino de Deus. Ora, trata-se de fazer opções diferentes, afastando-se da escuridão do pecado, buscando lá dentro, no Batismo recebido, as forças para lutar contra a correnteza.

A Igreja nos oferece, através das leituras da Escritura escolhidas para o Tempo Quaresmal, indicações precisas, para que a luz de Deus, que um dia brilhou em nós pelo Batismo, jamais se esconda e não se apague em nós o seu fulgor, como muitas vezes cantamos num hino de renovação do Sacramento da iluminação! Sim, queremos que o amor plantado em nossos corações ajude os irmãos a caminharem, guiados pelas mãos de Deus, na nova Lei do Evangelho. É na escola de São Paulo (Ef 5, 8-14) que encontramos os frutos da luz!

A luz de Deus resplandece na bondade com que os cristãos são chamados a agir. Pequenos gestos de atenção, olhares feitos de simplicidade, iniciativas comunitárias, compromisso com o bem. Mesmo quando nos sentimos limitados, ou quando efetivamente pecamos pela fraqueza que nos acompanha, ser filhos da luz significa não compactuar com as más intenções, mas purificar-nos decididamente, comprometendo-nos com o bem.

Os homens e as mulheres marcados pela graça batismal se comprometem com a justiça e não aceitam qualquer vínculo com meios ilícitos em vista de objetivos como o lucro, a projeção social ou qualquer outro proveito a ser alcançado indignamente. Consequências? Palavra dada, lisura nos negócios, retidão na administração dos bens, irrepreensibilidade no comportamento social.

Mais ainda, no programa de vida decorrente do Batismo: a opção pela verdade. A história da Igreja e da humanidade está repleta de exemplos de homens e mulheres retilíneos em seu comportamento, capazes de suscitar santa inveja em gerações que os sucedem. É claro que tal escolha tem consequências, inclusive sofrimento ou derramamento do próprio sangue para serem coerentes com a verdade. São pessoas das quais "o mundo não era digno"(Hb 11,38), que enfrentaram todos os desafios, sem jamais ceder no compromisso assumido. E escolheram a Verdade que é Jesus Cristo, sem inventar suas próprias verdades ou meias-verdades.

Para alcançar tais alturas, as quais todos somos destinados, quem se descobre filho da luz, no sentido que São Paulo, na Carta aos Efésios (5, 8-14) e a Igreja entendem, busca o discernimento do que agrada ao Senhor. Um dos pontos de referência se encontra nos mandamentos, resumidos no amor a Deus e ao próximo. Outra ajuda preciosa no discernimento é a chamada "regra de ouro" (Cf. Mt 7,12), que propõe fazer aos outros aquilo que desejamos que seja feito a nós mesmos. Vale também escutar as outras pessoas, conselheiros e conselheiras que nos ajudam a ver ângulos diferentes quando se trata de tomar decisões. Mais ainda, é na escuta da Palavra de Deus e na oração que se identifica cada passo a ser dado na vida.

A seriedade com que o cristão assume sua vida exige ainda que ele não se associe com as obras das trevas. De fato, tudo o que precisa ficar escondido, resistindo à luz da verdade, traz consigo suspeita e desconfiança, pelo que a prática das virtudes evangélicas acrescenta ainda a exigência de radicalidade. Não dá para ser meio cristão e meio pagão. Se quisermos ser honestos com a própria consciência e com a verdade, não será possível manter conceitos como "não praticante", referindo-se a cristãos que entenderam a beleza da graça recebida no Batismo.

O apelo feito pela Igreja é, sim, pela seriedade na vivência cristã. E este é o tempo oportuno, a hora da graça e da salvação. Cresça em número e qualidade o povo amado por Deus. E como, graças a Deus, a maioria das pessoas que se envolvem conosco recebeu o Batismo, é hora de dizer: ninguém fique de fora!’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/nao-e-possivel-manter-conceitos-como-nao-praticante


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

São Jerônimo

Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)


‘Ó Deus, criador do universo, que vos revelastes aos homens, através dos séculos, pela Sagrada Escritura, e levastes a vosso servo São Jerônimo a dedicar a sua vida ao estudo e à meditação da Bíblia, dai-me a graça de compreender com clareza a vossa palavra quando leio a Bíblia.

São Jerônimo ilumine e esclareça a todos os adeptos das seitas evangélicas para que eles compreendam as Escrituras, e se dêem conta de que contradizem a religião Católica e a própria Bíblia, porque eles se baseiam em princípios pagãos e supersticiosos.

São Jerônimo ajude-nos a considerar o ensinamento que nos vem da Bíblia acima de qualquer outra doutrina, já que é a palavra e o ensinamento do próprio Deus. Fazei que todos os homens aceitem e sigam a orientação do nosso Pai comum expressa nas Sagradas Escrituras.

São Jerônimo, rogai por nós.’



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A arte da 'Lectio Divina'

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
   
*Artigo de Pe. Michael Casey, OCSO

Tal como é usada ultimamente, a ‘lectio divina’ é entendida como uma meditação orante dos textos da Bíblia e outros assuntos que formam a fé da Igreja. O termo ‘lectio divina’ originalmente se referia à leitura das Escrituras durante a Liturgia. Com o aumento da alfabetização e a disponibilidade de livros, o contexto destas leituras se tornou menos comunitário e mais pessoal, como pode ser constatado na distribuição de livros individuais que São Bento faz para a leitura durante a Quaresma. Essa leitura pessoal serviu de complemento para a Liturgia e tornou-se traço característico da espiritualidade beneditina. Ela deixou de ser uma experiência de escuta comunitária e tornou-se um diálogo interior do coração com o texto e, através do texto, com Deus.


Dinâmica

A ‘lectio’ se diferencia substancialmente de uma simples leitura e mesmo da ‘leitura espiritual’. Ela está a serviço da oração e vai além da mera absorção do conteúdo de uma página. A formulação clássica dinâmica foi dada por Guigo, o Cartuxo (†1188) : lectio, meditatio, oratio, contemplatio – (leitura, meditação, oração, contemplação). O que foi lido deve ser primeiramente digerido e assimilado por um processo de serena repetição, no qual buscamos nos tornar progressivamente harmonizados à sua sutil repercussão no coração. O texto, deste modo, serve como um espelho que traz realidades profundas à consciência. Essa elevada conscientização mostra nossa necessidade do auxílio divino e prontamente nos conduz à oração.

Algumas vezes, nesse diálogo com Deus, nos tornamos mais conscientes de Deus do que de nossas próprias necessidades e passamos do mais simples ao mais profundo estado de contemplação. Assim a ‘lectio’ pode ser vista como caminho para a contemplação. Isto não quer dizer que os quatro passos constituem um método sequencial a ser seguido ou que cada um deles está sempre presente na ‘lectio’. Com frequência, as diferentes fases se estendem por todo o dia, na medida em que a atenção à Palavra é prolongada e continuamos a responder ao que foi lido no modo como vivemos.


Prática

Inicialmente precisamos adquirir uma disciplina de leitura minuciosa, prestando atenção a toda palavra e sentença, sem nos permitir passar por cima de nada. Essa reflexão é ajudada pela leitura em voz alta, aprendendo a articular ou vocalizar a palavra como um meio de diminuir o ritmo e evitar a distração. É como ler poesia : o som das palavras cria ecos interiores, que se tornam pontos de associação intuitivos que se prendem mais facilmente à memória. Na ‘lectio’, a intenção é afetiva e não cognoscitiva, é o esforço do coração que deseja entrar em contato com Deus e desse modo restaurar nossas vidas.

Uma leitura mais ampla pode nos ajudar a fugir de perguntas especulativas que de outro modo dissipariam nossas energias. Essa preparação não é a ‘lectio’, mas é uma boa ajuda.

A atenção ao ambiente de nossa ‘lectio’ ajudará a nos conduzir mais suavemente à oração. Qualquer coisa que possamos fazer em termos de escolha de lugar, postura, ou assegurar o silêncio manterá afastadas possíveis agitações. Usar um ícone ou uma vela, ou reverenciar o livro das Escrituras poderá nos levar a um ambiente muito orante.


O Espírito Beneditino

Três termos encontrados na tradição monástica descrevem uma atitude apropriada para a ‘lectio’. Nossa leitura deve ser assídua, ou generosa, o que significa que envolve um emprego permanente de energia e demandará um sacrifício de tempo que poderíamos devotar a outras coisas. A ‘lectio’ tem que ser feita com espírito de reverência, expresso no modo como tratamos o livro sagrado em si, em nossa postura e na maneira com que tomamos medidas práticas de excluir do ambiente o que não é sagrado. É a reverência que nos faz manter o silêncio e a receptividade para ouvir a palavra que fala ao nosso espírito e traz a salvação. Ao abrir o livro sagrado, abrimos a nós mesmos, permitimos nos tornar vulneráveis, - desejosos de sermos atravessados pela espada de dois gumes. A isso São Bento se refere como compunção, nos permitindo experimentar a dupla dinâmica de todo genuíno encontro com Deus : de um lado a progressiva conscientização de nossa urgente necessidade de perdão e cura, e de outro, uma profunda confiança na superabundante misericórdia de Deus.


Desafios

Duas áreas exigem vigilância constante. Primeiro, não devemos ser meros ouvintes, mas cumpridores da Palavra. A menos, que vamos à nossa ‘lectio’ com um precedente desejo de conversão, será inútil o exercício. Nossa ‘lectio’ se desenvolverá mais plenamente quando buscamos encarnar o que é lido em nosso modo de agir. Quando Deus parece silencioso, frequentemente é porque há : ou uma resistência latente, ou muito barulho interior causado pela multiplicidade de outras preocupações. Algumas vezes, as dificuldades que experienciamos na ‘lectio’ servem como um convite a reexaminarmos nossa vida e a nos esforçarmos por estabelecer nela uma melhor harmonia com o que lemos. Segundo, temos que renunciar à procura por novidade. A ‘lectio’ precisa ser regular e não errante. Precisamos, como insiste São Bento, ler os livros da Escritura por inteiro, do início ao fim, serenamente, trabalhando nosso jeito através do Evangelho ou dos Profetas do Antigo Testamento, desejando ser surpreendido, resistindo à tentação de exercer total controle sobre o que se lê.


Alegria

A ‘lectio’ exige muito de nós, mas é uma experiência enriquecedora que renova constantemente nossa vida espiritual. A Palavra de Deus amplia a perspectiva de nossa experiência, dá sentido às nossas lutas e mantém viva a chama da esperança. Acima de tudo, o contato com a Sagrada Escritura é uma fonte de alegria e deleite para o coração, conduzindo-nos a um relacionamento cada vez mais profundo com Deus, a quem buscamos, e com Jesus, que nos chamou.



Fonte :
* Pe. Michael Casey, OCSO, monge da Abadia de Tarrawara, Austrália.

- Artigo extraído de THE BENEDICTINE HANDBOOK, Anthony Marett-Crosby, Editor. Part One : ‘Tools of Benedictine Spirituality’.

Revista Beneditina nrº 46, Abril/Junho de 2012, traduzido do inglês e editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais.

------------------------

Bibliografia :

Benedict of Nursia, Rule for Monasteries, Ch. 48
CASEY, Michael, The Art of Sacred Reading, Dove, Melbourne, 1995.
CASEY, Michael, Sacred Reading, Triumph Books, Liguori, 1996.
Guigo II, The Ladder of Monks and Twelve Meditations, Cistercian Publications, Kalamazoo, 1981, pp. 67-86.