Mostrando postagens com marcador sermão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sermão. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de abril de 2023

Os Sermões sobre o Cântico dos Cânticos de São Bernardo de Claraval

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA

 

‘Sermões sobre o Cântico dos Cânticos’ : Eis o título de uma das clássicas obras de São Bernardo de Claraval (1090-1153). Foi publicada, em tradução brasileira, pela Editora Permanência do Rio de Janeiro.

O livro é extenso – são oitenta e seis sermões – e denso. Daí, ser nossa intenção, aqui, propor, à luz de boas fontes, apenas um comentário geral sobre os Sermões. Seu ‘‘gênero literário’ é mais livre […]. Não obstante, é claro que as coleções de sermões registradas por escrito e publicadas sofreram um paciente trabalho de redação e edição’ (Bernardo Olivera, OCSO. Introducción a los Padres e Madres cistercienses de los siglos XII e XIII. Burgos : Fonte & Monte Carmelo, 2020, p. 79). Ora, o Cântico dos Cânticos é um poema de amor do Antigo Testamento que faz o homem se reencontrar com Deus de um modo esponsal. Trata-se de um livro ‘escrito com arte pelo Espírito Santo’ (Pierre Riché. Vida de São Bernardo. São Paulo : Loyola, 1981, p. 63). Nele, o ‘diálogo entre a esposa e o esposo não é senão aquele que existe entre a alma e o Verbo Divino, entre a Igreja e Cristo’ (idem, p. 62). Daí a questão : que metodologia ou ‘linha exegética’ – diríamos hoje – usava o Abade de Claraval para suas explanações nessa obra?  

Versículo por versículo

Responde-nos o próprio Riché, ao demonstrar – de modo mais detalhado – a procura do santo por Aquele que ele ama, Jesus Cristo : ‘Bernardo explica versículo por versículo nos sentidos alegórico e místico. Com admirável domínio, com uma arte raramente alcançada, Bernardo dedica os nove primeiros sermões ao beijo, sem jamais perturbar-se, nem perturbar seus ouvintes. Quando é levado a falar da sexualidade, ele age com calma e sem complexos, pois vive sóbria e castamente, graças à leitura e à oração. Ele passa sem dificuldade do canto nupcial ao da união mística. Na sua trajetória, conduz seus monges do jardim à adega, da adega ao quarto. O jardim é o da criação, da reconciliação vinda do Salvador, da colheita, do fim do mundo. As adegas guardam os aromas, os unguentos e o vinho, isto é, as três regras de vida segundo a disciplina, a natureza e a graça. Tudo isso requer um longo encaminhamento. O beijo da alma e do Verbo de Deus mal acaba de se realizar, eis que corre o risco de findar bruscamente. Bernardo confidencia aos seus monges que seu diálogo com Cristo é muitas vezes difícil. Desde o começo em que o Verbo se retirou, tudo isso começa imediatamente a enlanguescer no torpor e arrefece’ (idem, p. 63).

São Bernardo

Dom Bernardo Bonowitz, OCSO, antigo abade do Mosteiro de Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente (PR), completa a explanação de Riché assegurando que São Bernardo foi um grande admirador de Orígenes, importante místico, filósofo e exegeta cristão do século III. Daí ter, como ele, por referência os três livros bíblicos atribuídos ao sábio rei Salomão : Eclesiastes, Provérbios e Cântico dos Cânticos. Para o santo, sem essa sequência não se consegue compreender a contento o Cântico dos Cânticos. Eis as oportunas palavras de Bonowitz : ‘O Cântico dos Cânticos é escrito em linguagem figurativa, usa as metáforas do amor carnal humano para aludir aos mistérios da união espiritual entre Deus e a alma e, diz Bernardo prudentemente, se você não tiver passado pela formação providenciada pelos dois livros anteriores de Salomão, Eclesiastes e Provérbios, é mais do que provável que você não compreenderá a terceira obra, que tudo coroa’ (São Bernardo, o numerólogo. Campinas: Ecclesiae, 2019, p. 18).

Em suma, o estudioso só tem a louvar a Editora Permanência pela publicação dessa obra magna de São Bernardo. Não deve, contudo, deixar de notar pontos que deveriam ser revistos. Por exemplo, as abreviaturas da Sagrada Escritura : Judite aparece, na página 21, como JDt, quando, via de regra, se usa Jt; Sabedoria, na página 20, Sab, mas deveria ser Sb; Hebreus, na página 113, vem como Hebr e o correto seria Hb etc. A palavra consequência está com trema nas páginas 38 e 108, por exemplo. A nota 1 diz, sem mais, que São Roberto de Molesmes foi o fundador de Cister, quando, na verdade, Cister é fruto de uma comunidade fundadora a incluir os santos abades Roberto, Alberico e Estêvão Harding. Ainda : o nome da obra poderia aparecer sempre, como no título, Cântico dos Cânticos) mas, no corpo do livro, vem Cantar dos Cantares. No sumário, há Deus com d minúsculo (Sermão LV), igreja em vez de Igreja (Sermão XXX) etc.’ 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/04/16/os-sermoes-sobre-o-cantico-dos-canticos-de-sao-bernardo-de-claraval/

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ave Maria! Dos sermões de São Tomás de Aquino

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

São Tomás de Aquino entre Platão e 
Aristóteles esmaga Averróis

Prólogo da *Revista Pedras Vivas

            Tomás de Aquino OP (1225-1274) foi frade dominicano, filósofo, teólogo, expoente da escolástica, proclamado santo e Doutor da Igreja, cognominado Doctor Communis ou Doctor Angelicus. Começou sua instrução inicial em Monte Cassino, mas depois foi para a universidade (studium generale) que havia sido criada em Nápoles. Foi lá que Tomás provavelmente foi introduzido nas obras de Aristóteles, Averróis e Maimônides, todos que influenciariam sua filosofia teológica. Foi igualmente durante seus estudos em Nápoles que Tomás sofreu influencia de João de São Juliano, um pregador dominicano em Nápoles que fazia parte do esforço ativo intentado pela ordem dominicana para recrutar seguidores devotos. Aos 19 anos, contra a vontade da família, entrou na ordem fundada por Domingos de Gusmão. Estudou filosofia em Nápoles e depois em Paris. Estudou teologia em Colônia e, em Paris, tornou-se discípulo de Santo Alberto Magno, que ‘descobriu’ e se impressionou com a sua inteligência. Por este tempo foi apelidado de ‘boi mudo’. Dele, disse Santo Alberto : ‘Quanto este boi mugir, o mundo inteiro ouvirá o seu mugido’. Foi mestre na Universidade de Paris, tendo morrido aos 49 anos, na Abadia de Fossanova, quando se dirigia para Lion a fim de participar do Concílio, a pedido do Papa.


AVE MARIA!
 Dos Sermões de São Tomás de Aquino


A Saudação Angélica

PRÓLOGO

1. O saudação angélica é dividida em tres partes :
A primeira, composta pelo Anjo : Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu entre as mulheres (Lc 1, 28).
A segunda é obra de Isabel, mãe de João Batista, que disse : Bendito é o fruto do teu ventre.
A terceira parte, a Igreja acrescentou : Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte.
O Anjo não disse : Ave Maria e sim, Ave, Cheia de graça. Mas este nome de Maria, efetivamente, se harmoniza com as palavras do Anjo, como veremos mais adiante.


AVE

2. Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos Anjos.
A Sagrada Escritura louva Abraão por ter dado hospitalidade aos Anjos e por te-los reverenciado.
Mas um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se tinha ouvido dizer antes que o Anjo tivesse saudado à Santíssima Virgem, reverenciando-a e dizendo : Ave.

3. Se na antiguidade o homem reverenciava o Anjo e o Anjo não reverenciava o homem, é porque o Anjo é maior que o homem e o é por três diferentes razões :
Primeiramente, o Anjo é superior ao homem por sua natureza espiritual.
Está escrito : Dos seres espirituais Deus fez seus Anjos (Sl 103).

4. O homem tem uma natureza corruptível e por isso Abraão dizia a Deus : Falarei ao meu Senhor, eu que sou cinza e pó (Gn 18, 27).
Não convém que a criatura espiritual e incorruptível renda homenagem à criatura corruptível.
Em segundo lugar, o Anjo ultrapassa o homem por sua familiaridade com Deus.
Com efeito, o Anjo pertence  à família de Deus, mantendo-se a seus pés. Milhares de milhares de Anjos o serviam, e dez milhares de centenas de milhares mantinham-se em sua presença, está escrito em Daniel (7, 10).
Mas o homem é quase estranho a Deus, como um exilado longe de sua face pelo pecado, como diz o Salmista : Fugindo, afastei-me de Deus (Sl 54).
Convém, pois, ao homem honrar o Anjo por causa de sua proximidade com a majestade divina e de sua intimidade com ela.
Em terceiro lugar, o Anjo foi elevado acima do homem, pela plenitude do esplendor da graça divina que possui. Os Anjos participam da própria luz divina em mais perfeita plenitude. Pode-se enumerar os soldados de Deus, diz Jó (25, 3) e haverá algum sobre quem não se levante a sua luz? Por isso os Anjos aparecem sempre luminosos. Mas os homens participam também desta luz, porém com parcimônia e como num claro-escuro.
Por conseguinte, não convinha ao Anjo inclinar-se diante do homem, até o dia em que apareceu uma criatura humana que sobrepujava os Anjos por sua plenitude de graças, por sua familiaridade com Deus e por sua dignidade.
Esta criatura humana foi a Bem-Aventurada Virgem Maria. Para reconhecer esta superioridade, o Anjo lhe testemunhou sua veneração por esta palavra : Ave.


CHEIA DE GRAÇA

5. Primeiramente, a Bem-Aventurada Virgem ultrapassou todos os Anjos por sua plenitude de graça, e para manifestar este preeminência o Arcanjo Gabriel inclinou-se diante dela, dizendo : cheia de graça; o que quer dizer : a vós venero, porque me ultrapassais por vossa plenitude de graça.

6. Diz-se também da Bem-Aventurada Virgem que é cheia de graça, em três perspectivas :
Primeiro, sua alma possui toda a plenitude de graça. Deus dá a graça para fazer o bem e para evitar o mal. E sob esse duplo aspecto a Bem-Aventurada Virgem possuía a graça perfeitissimamente, porque foi ela quem melhor evitou o pecado, depois de Cristo.
O pecado ou é original ou atual; mortal ou venial.
A Virgem foi preservada do pecado original, desde o primeiro instante de sua concepção e permaneceu sempre isenta de pecado mortal ou venial.
Também está escrito, no Cântico dos Cânticos (4, 7) : Tu és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula.
 ‘Com exceção da Santa Virgem, diz Santo Agostinho, em seu livro sobre a natureza e a graça; todos os santos e santas, em sua vida terrena, diante da pergunta ; ‘estais sem pecado?’ teriam gritado a uma só voz : ‘Se disséssemos : estamos sem pecado (cf. 1Jo 1, 6), estaríamos enganando-nos a nós mesmos e a verdade não estaria conosco’.
 ‘A Virgem Santa é a única exceção. Para honrar o Senhor, quando se trata a respeito do pecado, não se faça nunca referencia à Virgem Santa. Sabemos que a ela foi dada uma abundancia de graças maior; para triunfar completamente do pecado. Ela mereceu conceber Aquele que não foi manchado por nenhuma falta’.
Mas o Cristo ultrapassou a Bem-Aventurada Virgem. Sem dúvida, um e outro foram concebidos e nasceram sem pecado original. Mas Maria, contrariamente a seu Filho, lhe é submissa de direito. E se ela foi, de fato, totalmente preservada, foi por uma graça e um privilégio singular de Deus Todo Poderoso que é devido aos méritos de seu Filho, Jesus Cristo, Salvador do gênero humano (N.T.)

7. A Virgem realizou também as obras de todas as virtudes. Os outros santos se destacaram por algumas virtudes, dentre tantas. Este foi humilde, aquele foi casto, aquele outra, misericordioso, por isto são apresentados como modelo para esta ou aquela determinada virtude; como, por exemplo, se apresenta São Nicolau, como modelo de misericórdia.
Mas a Bem-Aventurada Virgem é o modelo e o exemplo de todas as virtudes. Nela achareis o modelo da humildade. Escutai suas palavras : Eis a escrava do Senhor (Lc 1, 38). E mais : O Senhor olhou a humildade de sua serva (Lc, 1, 48). Ela é também o modelo da castidade : ela mesma confessa que não conheceu homem (cf. Lc 1, 43). Como é fácil constatar, Maria é o modelo de todas as virtudes.
A Bem-Aventurada Virgem é pois cheia de graça, tanto porque faz o bem, como porque evita o mal.

8. Em segundo lugar, a plenitude de graça da Virgem Santa se manifesta no reflexo da graça de sua alma, sobre sua carne e todo o seu corpo.
Já é uma grande felicidade que os santos gozem de graça suficiente para a santificação de suas almas. Mas a alma da Bem-Aventurada Virgem Maria possui uma tal plenitude de graça, que esta graça de sua alma reflete sobre sua carne, que, por sua vez, concebe o Filho de Deus.
Porque o amor do Espírito Santo, nos diz Hugo de São Vitor, arde no coração da Virgem com um ardor singular, Ele opera em sua carne maravilhas tão grandes, que dela nasceu um Homem Deus, como avisa o Anjo à Virgem Santa : Um Filho santo nascerá de ti e será chamado Filho de Deus (Lc 1, 35).

9. Em terceiro lugar, a Bem-Aventurada Virgem é cheia de graça, a ponto de espalhar sua plenitude de graça sobre todos os homens.
Que cada santo possua graça suficiente para a salvação de muitos homens é coisa considerável. Mas se um santo fosse dotado de uma graça capaz de salvar toda a humanidade, ele gozaria de uma abundancia de graça insuperável. Ora, essa plenitude de graça existe no Cristo e na Bem-Aventurada Virgem.
Em todos os perigos, podemos obter o auxílio desta gloriosa Virgem. Canta o esposo, no Cântico dos Cânticos (4, 4) : Teu pescoço é como a torre de Davi, edificada com seus baluartes. Dela estão pendentes mil escudos, quer dizer, mil remédios contra os perigos.
Também em todas as ações virtuosas podemos beneficiar-nos de sua ajuda. Em mim há toda a esperança da vida e da virtude (Ecl 24, 25).     


MARIA

10. A Virgem, cheia de graça, ultrapassou os Anjos, por sua plenitude de graça. E por isto é chamada Maria, que quer dizer, ‘iluminada interiormente’, donde se aplica a Maria o que disse Isaias : O Senhor encherá tua alma de esplendores (Is 58, 11). Também quer dizer : ‘iluminadora dos outros’, em todo o universo; por isso, Maria é comparada, com razão, ao sol e à lua.


O SENHOR É CONVOSCO

11. Em segundo lugar, a Virgem ultrapassa os Anjos em sua intimidade com o Senhor.  O Arcanjo Gabriel reconhece esta superioridade, quando lhe dirige estas palavras : O Senhor é convosco, isto é, venero-vos e confesso que estais mais próxima de Deus do que eu mesmo estou. O Senhor, está, efetivamente, convosco.
O Senhor Pai está com Maria, pois Ele não se separa de maneira nenhuma de seu Filho e Maria possui esse Filho, como nenhuma outra criatura, até mesmo angélica. Deus mandou dizer a Maria, pelo Arcanjo Gabriel (Lc 1, 35). Uma criança santa nascerá de ti e será chamada Filho de Deus.
O Senhor está com Maria, pois repousa em seu seio. Melhor do que a qualquer outra criatura se aplicam a Maria estas palavras de Isaias : Exulta e louva, casa de Sião, porque o Grande, o Santo de Israel está no meio de ti (Is 12, 6).
O Senhor não habita da mesma maneira com a Bem-Aventurada Virgem e com os Anjos. Deus está com Maria, como seu Filho; com os Anjos, Deus habita como Senhor.
O Espírito Santo está em Maria, como em seu templo, onde opera. O Arcanjo lhe anunciou : O Espírito Santo virá sobre ti (Lc 1, 35). Assim, pois, Maria concebeu por efeito do Espírito Santo e nós a chamamos ‘Templo do Senhor’, ‘Santuário do Espírito Santo’ (cf. liturgia das festas de Nossa Senhora).
Portanto, a Bem-Aventurada Virgem goza de uma intimidade com Deus maior do que a criatura angélica.
Com ela está o Senhor Pai, o Senhor Filho, o Senhor Espírito Santo, a Santíssima Trindade inteira. Por isso canta a Igreja : ‘Sois digno trono de toda a Trindade’.
É esta então a palavra mais nobre, a mais expressiva, como louvor, que podemos dirigir à Virgem.

MARIA

12. Portanto o Anjo reverenciou a Bem-Aventurada Virgem, como a mãe do Soberano Senhor e, assim, ela mesma como Soberana. O nome de Maria, em siríaco significa soberana, o que lhe convém perfeitamente.

13. Em terceiro lugar, a Virgem ultrapassou os Anjos em pureza. Não só possuía em si mesma a pureza, como procurava a pureza para os outros. Ela foi puríssima de toa culpa, pois foi preservada do pecado original e não cometeu nenhum pecado mortal ou venial, como também foi livre de toda pena.


BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES

14. Três maldições foram proferidas por Deus contra os homens, por causa do pecado original.
A primeira foi contra a mulher, que traria seu filho no sofrimento e daria à luz com dores.
Mas a Bem-Aventurada Virgem não está submetida a estas penas. Ela concebeu o Salvador sem corrupção, trouxe-o alegremente em seu seio e o teve na alegria. A Ela se aplica a palavra de Isaias : A terra germinará, exultará, cantará louvores (Is 35, 2).

15. A segunda maldição foi pronunciada contra o homem : Comerás o teu pão com o suor de teu rosto (Gn 3, 9). A Bem-Aventurada Virgem foi isenta desta pena. Como diz o Apóstolo : Fiquem livres de cuidados as virgens e se ocupem só com o Senhor (1Cor 7, 32-34).
A terceira maldição foi comum ao homem e à mulher. Em razão dela devem ambos tornar ao pó.
A Bem-Aventurada Virgem disto também foi preservada, pois foi, com o corpo, assunta aos céus. Cremos que, depois de morta, foi ressuscitada e elevada ao céu. Também se lhe aplicam muito apropriadamente as palavras do Salmo : Levanta-te, Senhor, entra no teu repouso; tu e a arca da tua santificação (Sl 131, 8).


MARIA

16. A Virgem foi pois isenta de toda maldição e bendita entre as mulheres. Ela é a única que suprime a maldição, traz a bênção e abre as portas do paraíso.

17. Também lhe convém, assim, o nome de Maria, que quer dizer, ‘Estrela do Mar’. Como os navegadores são conduzidos pela estrela do mar ao porto, assim, por Maria, são os cristãos conduzidos à Glória.


BENDITO É O FRUTO DE VOSSO VENTRE

18. O pecador procura nas criaturas aquilo que não pode achar, mas o justo o obtém. A riqueza dos pecadores está reservada para os justos, dizem os Provérbios (13, 22). Assim Eva procurou o fruto, sem achar nele a satisfação de seus desejos. A Bem-Aventurada Virgem, ao contrário, achou em seu fruto tudo o que Eva desejou.

19. Eva, com efeito, desejou de seu fruto três coisas :
Primeiro, a deificação de Adão e dela mesma e o conhecimento do bem e do mal,  como lhe prometera falsamente o diabo : Sereis como deuses (Gn 3, 5), disse-lhes o mentiroso. O diabo mentiu, porque ele é mentiroso e o pai da mentira (cf. Jô 8, 44). E por ter comido do fruto, Eva, em vez de se tornar semelhante a Deus, t0ornou-se dessemelhante. Por seu pecado, afastou-se de Deus, sua salvação, e foi expulsa do paraíso.
A Bem-Aventurada Virgem, ao contrário, achou sua deificação no fruto de suas entranhas. Por Cristo nos unimos a Deus e nos tornamos semelhantes a Ele. Diz-nos São João : Quando Deus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é (1Jo 3, 2).

20. Em segundo lugar, Eva desejava o deleite (cf. Gn 3, 6), mas não o encontrou no fruto e imediatamente conheceu que estava nua e a dor entrou em sua vida.
No fruto da Virgem, ao contrário, encontramos a suavidade e a salvação. Quem come minha carne tem a vida eterna (Jo 6, 55).

21. Enfim, o fruto de Eva era sedutor nos aspecto, mas quão mais belo é o fruto da Virgem que os próprio Anjos desejam contemplar (cf. 1Pd 1, 12). É o mais belo dos filhos dos homens (Sl 44, 3), porque é o esplendor da glória de seu Pai (Hb 1, 3) como diz São Paulo.

22. O fruto da Virgem Maria é bendito por Deus, que de tal forma encheu-o de graças, que sua simples vinda já nos faz render homenagem a Deus. Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, declara São Paulo (Ef 1, 3).
O fruto da Virgem é bendito pelos Anjos. O Apocalipse (7, 11) nos mostra os Anjos caindo com a face por terra e adorando o Cristo com seus cantos : O louvor, a glória, a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos. Amém.
O fruto de Maria é também bendito pelos homens : Toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai, nos diz o Apóstolo (Fl 2, 11). E o Salmista 9Sl 117, 26) o saúda assim : Bendito o que vem em nome do Senhor.

Assim, pois, a Virgem é bendita porém, bem mais ainda, é o seu fruto.


Fonte :
Revista Pedras Vivas – Ano XV – nrº 68 e 69 – Mai/Jun e Jul/Ago de 2012, editada pelos oblatos seculares do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro/RJ
Contato : osrio@osb.org.br

Pai Nosso e Ave Maria,
Sermões de Santo Tomás de Aquino. 
Editora Permanência, Rio de Janeiro 2003.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O NATAL DO SENHOR

p/ Maria Vanda andrade da Silva
(Ir. Maria Silvia - Obl. OSB/SP)


 Dos Sermões de São Leão Magno, papa
 (Sermo 1 in Nativitate domini, 1-3)  (Séc V)

Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade.

              "Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos. Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade.

               Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. A causa da alegria é comum a todos, porque nosso Senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima a vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime o pagão porque é chamado à vida.

               Quando chegou a plenitude dos tempos, fixada pelos insondáveis desígnios divinos, o Filho de Deus assumiu a natureza do homem para reconciliá-lo com o seu Criador, de modo que o demônio, autor da morte, fosse vencido pela mesma natureza que antes vencera.

                Eis porque, no nascimento do Senhor, os anjos cantam jubilosos: glória a Deus nas alturas; Paz na terra aos homens de boa vontade (Lc. 2,14). Eles vêem a Jerusalém celeste ser formada de todas as nações do mundo. Diante dessa obra inexprimível do amor divino, como não devem alegrar-se os homens, em sua pequenez, quando os anjos, em sua grandeza, assim se rejubilam?

                Amados filhos, demos graças a Deus Pai, por seu Filho, no Santo; pois, na imensa misericórdia com que nos amou, compadeceu-se de nós. E quando estávamos mortos, por causa de nossas faltas, Ele nos deu a vida com Cristo (Ef 2,5) para que fôssemos nele uma nova criação, nova obra de suas mãos.

               Despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne.

               Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade. E já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro. Recorda-te que foste arrancado do poder das trevas levado para a luz e o reino de Deus.

                Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob o jugo do demônio, porque o preço de tua salvação é o sangue de Cristo".

(In Liturgia das horas, I, pg 362/363 Ed. Vozes e Ou, 1999)
 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Natividade de Nossa Senhora

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



Do 'Sermão do Nascimento da Mãe de Deus'

              ‘Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? Vede-o para que nasceu. Nasceu para que dEla nascesse Deus. (...) Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde; perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios; perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo; perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação; perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança. Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz; os discordes, para Senhora da Paz; os desencaminhados, para Senhora da Guia; os cativos, para Senhora do Livramento; os cercados, para Senhora da Vitória. Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho; os navegantes, para Senhora da Boa Viagem; os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso; os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte; os pecadores todos, para Senhora da Graça; e todos os seus devotos, para Senhora da Glória. E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus’ .

 
Fonte :
Padre António Vieira, missionário português da Companhia de Jesus e um dos mais influentes personagens do século XVII


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

São Lourenço huesca de Valência

 Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)


São Lourenço serviu o sagrado Sangue de Cristo 

São Lourenço (Espanha, 225? - Roma, 10/Agosto/258).
Um dos diáconos da Igreja de Roma, foi martirizado por
  ordem do Imperador Valeriano I. A grelha na sua mão lembra
  a forma como foi matirizado, queimado lentamente numa
grelha.
São Lourenço serviu o sagrado Sangue de Cristo

A Igreja Romana apresenta-nos hoje o dia glorioso de São Lourenço quando ele calcou o furor do mundo, desprezou sua sedução e num e noutro modo venceu o diabo perseguidor. Nesta mesma Igreja – ouvistes muitas vezes – Lourenço exercia o ministério de diácono. Aí servia o sagrado sangue de Cristo; aí, pelo nome de Cristo, derramou seu sangue. O santo apóstolo João expôs claramente o mistério da ceia ao dizer: Como Cristo entregou sua vida por nós, também nós devemos entregar as nossas pelos irmãos (1Jo 3,16). São Lourenço, irmãos, entendeu isto; entendeu e fez; e da mesmíssima forma como recebeu daquela mesa, assim a preparou. Amou a Cristo em sua vida, imitou-o em sua morte.
 

Também nós, irmãos, se de verdade amamos, imitemos. Não poderíamos produzir melhor fruto de amor do que o exemplo da imitação; Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo para seguirmos suas pegadas (1Pd 2,21). Nesta frase, parece que o apóstolo Pedro quer dizer que Cristo sofreu apenas por aqueles que seguem suas pegadas e que a morte de Cristo não aproveita senão àqueles que caminham em seu seguimento. Seguiram-no os santos mártires até à efusão do sangue, até à semelhança da paixão; seguiram-no os mártires, porém não só eles. Depois que estes passaram, a ponte não foi cortada; ou depois que beberam, a fonte não secou.
Tem, irmãos, tem o jardim do Senhor não apenas rosas dos mártires; tem também lírios das virgens, heras dos casados, violetas das viúvas. Absolutamente ninguém, irmãos, seja quem for, desespere de sua vocação; por todos morreu Cristo. Com toda a verdade, dele se escreveu: Que quer salvos todos os homens, e que cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2,4).
Compreendamos, portanto, como pode o cristão seguir Cristo além do derramamento de sangue, além do perigo de morte. O Apóstolo diz, referindo-se ao Cristo Senhor: Tendo a condição divina, não julgou rapina ser igual a Deus. Que majestade! Mas aniquilou-se, tomando a condição de escravo, feito semelhante aos homens e reconhecido como homem (Fl 2,7-8). Que humildade!
Cristo humilhou-se: aí tens, cristão, a que te apegar. Cristo se humilhou: por que te enches de orgulho? Em seguida, terminada a careira desta humilhação, lançada por terra a morte, Cristo subiu ao céu; sigamo-lo. Ouçamos o Apóstolo: Se ressuscitastes com Cristo, descobri o sabordas realidades do alto, onde Cristo está assentado à destra de Deus (Cl 3,1).

-- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V).  Capturado In Portal dos Santos.

domingo, 10 de junho de 2012

O Sermão de Santo António aos Peixes - Capítulo VI



PERORAÇÃO
        

Na sexta e última etapa do sermão, o Padre António Vieira faz uso de um desfecho marcante para impactar os ouvintes, na esperança de que eles pratiquem os bons ensinamentos :   

v  Acentua que a irracionalidade, a inconsciência e o instinto dos peixes são melhores do que a racionalidade, o livre arbítrio, o entendimento e a vontade própria do homem  

v  Relata que os peixes e os homens nunca chegarão ao sacrifício final, uma vez que os peixes já vão mortos e os homens vão mortos de espírito 
 

v  Na bíblia, ao citar determinados animais escolhidos para sacrifício, Deus exclui os peixes, pela impossibilidade de chegarem vivos ao altar da imolação; afinal, Ele não quer seres mortos para enaltece-lo 
 
v  A repetição de ‘Louvai’ e ‘Deus’ cria uma atmosfera sonora cada vez mais intensa, apontando para a finalidade da prédica : louvar o Altíssimo.
Nosso missionário almeja que os homens imitem os peixes, convertam-se, guardem obediência e respeito ao Senhor.                 

Utiliza o hino Benedicite para finalizar o sermão num tom festivo, próprio à comemoração de Santo António, cuja festa 'corria solta' em 1654. 
 


Capítulo VI

‘Com esta última advertência vos despido (216), ou me despido de vós, meus Peixes. E para que vades consolados do Sermão, que não sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar de uma desconsolação mui antiga, com que todos ficastes desde o tempo em que se publicou o Levítico (217). Na Lei Eclesiástica ou Ritual do Levítico, escolheu Deus certos animais, que lhe haviam de ser sacrificados; mas todos eles ou animais terrestres ou aves, ficando os peixes totalmente excluídos dos sacrifícios. E quem duvida que esta exclusão tão universal era digna de grande desconsolação e sentimento para todos os habitadores de um elemento tão nobre, que mereceu dar a matéria (218) ao primeiro Sacramento (219)? O motivo principal de serem excluídos os peixes, foi porque os outrosanimais podiam ir vivos ao sacrifício, e os peixes geralmente não, senão mortos; a cousa morta não quer Deus que se lhe ofereça, nem chegue aos seus Altares. Também este ponto era mui importante e necessário aos homens, se eu lhes pregara a eles. Oh quantas Almas chegam àquele Altar mortas, porque chegam e não têm horror de chegar, estando em pecado mortal! Peixes, dai muitas graças a Deus de vos livrar deste perigo, porque melhor é não chegar ao Sacrifício, que chegar morto. Os outros animais ofereçam a Deus o ser sacrificados; vós oferecei-lhe o não chegar ao sacrifício; os outros sacrifiquem a Deus o sangue e a vida; vós sacrificai-lhe o respeito e a reverência.  

Ah peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade! Quanto melhor me fora não tomar a Deus nas mãos, que tomá-lo tão indignamente! Em tudo o que vos excedo, peixes, vos reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é melhor que a minha razão e o vosso instinto melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento; eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade. Vós fostes criados por Deus, para servir ao homem, e conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me para o servir a ele, e eu não consigo o fim para que me criou. Vós não haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante dele muito confiadamente, porque o não ofendestes; eu espero que o hei-de ver, mas com que rosto hei-de aparecer diante do seu divino acatamento, se não cesso de o ofender? Ah que quase estou por dizer que me fora melhor ser como vós, pois de um homem que tinha as minhas mesmas obrigações, disse a Suma Verdade (220), que melhor lhe fora não nascer ou não nascer homem: Si natus non fuisset homo ille. E pois os que nascemos homens, respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento, contentai-vos, Peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso. 

Benedicite, cete, et omnia quae moventur in aquis Domino: Louvai, Peixes, a Deus, os grandes e os pequenos, e repartidos em dois coros tão inumeráveis, louvai-o todos uniformemente. Louvai a Deus, porque vos criou em tanto número. Louvai a Deus, que vos distinguiu em tantas espécies; louvai a Deus, que vos vestiu de tanta variedade e formosura; louvai a Deus, que vos habilitou de todos os instrumentos necessários para a vida; louvai a Deus, que vos deu um elemento tão largo e tão puro; louvai a Deus, que, vindo a este mundo, viveu entre nós, e chamou para si aqueles que convosco e de vós viviam; louvai a Deus, que vos sustenta; louvai a Deus, que vos conserva; louvai a Deus, que vos multiplica; louvai a Deus, enfim, servindo e sustentando ao homem, que é o fim para que vos criou; e assim como no princípio vos deu sua benção, vo-la dê também agora. Amen. Como não sois capazes de Glória, nem de Graça, não acaba o vosso Sermão em Graça e Glória.’

-------------------------------------------------

(216) O mesmo que despeço, forma que já então existia.

(217) Livro da Bíblia, cuja finalidade é regular o culto entre os hebreus. O nome vem do fato de ter sido a tribo de Levi a escolhida para o serviço litúrgico. O primeiro livro do Levítico pode considerar-se um ritual dos sacrifícios.

(218) Água.

(219) O sacramento do batismo, que é realizado com o “elemento” água.

(220) Deus.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O Sermão de Santo António aos Peixes - Capítulo V

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


CONFIRMAÇÃO


Na quinta etapa do sermão, o Padre António Vieira, numa visão de caráter particular, prossegue a crítica aos peixes e ao comportamento dos homens :

1º - O Roncador – referência ao ruído que este peixe faz
. simboliza a arrogância, a soberba e o‘muito falar’
          
2º - O Pegador – peixe pequeno que se agarra aos maiores
. simboliza o parasitismo e a adulação
         
3º - O Voador – peixe que cobiça viver no elemento água e no
elemento ar, contrariando sua natureza
. simboliza a presunção e o capricho 

4º - O Polvo – disfarça-se, muda de cor e ataca de emboscada
. simboliza a hipocrisia e a traição


v Todos eles contrapõem-se a Santo António, que era cândido e sincero

v Nosso pregador utiliza como exemplos bíblicos : São Pedro, Santo Ambrósio, São Basílio e o Gigante Golias 

 


Capítulo V

 
'Descendo ao particular, direi agora, peixes, o que tenho contra alguns de vós. E começando aqui pela nossa costa, no mesmo dia em que cheguei a ela, ouvindo os Roncadores (161) e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira. É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?! Se com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o Espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua. Isto não é regra geral; mas é regra geral que Deus não quer Roncadores, e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam. São Pedro, a quem muito bem conheceram vossos antepassados, tinha tão boa espada, que ele só avançou contra um exército inteiro de Soldados Romanos; e se Cristo lha não mandara meter na bainha, eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas que a de Malco(162). Contudo, que lhe sucedeu naquela mesma noite? Tinha roncado e barbateado (163) Pedro (164) que, se todos fraqueassem, só ele havia de ser constante até morrer, se fosse necessário; e foi tanto pelo contrário, que só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar. Antes disso já tinha fraqueado na mesma hora em que prometeu tanto de si. Disse-lhe Cristo no Horto que vigiasse, e vindo daí a pouco a ver se o fazia, achou-o dormindo com tal descuido, que não só o acordou do sono, senão também do que tinha blasonado (165): Sic non potuisti una hora vigilare mecum (166). Vós, Pedro, sois o valente que havíeis de morrer por mim, e não pudestes uma hora vigiar comigo? Pouco há tanto roncar, e agora tanto dormir? Mas assim sucedeu. O muito roncar antes da ocasião, é sinal de dormir nela. Pois que vos parece, irmãos Roncadores? Se isto sucedeu ao maior peixe, que pode acontecer ao menor peixe? Medi-vos, e logo vereis quão pouco fundamento tendes de blasonar, nem roncar.
 
Se as Baleias roncaram, tinham mais desculpa a sua arrogância na sua grandeza. Mas ainda nas mesmas Baleias não seria essa arrogância segura. O que é a Baleia entre os peixes, era o Gigante Golias entre os homens. Se o Rio Jordão e o mar de Tiberíades têm comunicação com o Oceano, Filisteus (167). Quarenta dias contínuos esteve armado no campo, desafiando a todos os arraiais de Israel, sem haver quem se lhe atrevesse; e no cabo, que fim teve toda aquela arrogância? Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda, para dar com ele em terra. Os arrogantes e soberbos tomam-se com Deus; e quem se toma com Deus, sempre fica debaixo. Assim que, amigos roncadores, o verdadeiro conselho é calar e imitar a Santo António. Duas cousas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder. Caifás (168) roncava de saber: Vos nescitis quidquam (169) Pilatos (170) roncava de poder: Nescis quia potestatem habeo (171)? E ambos contra Cristo. Mas o fiel servo de Cristo, António, tendo tanto saber, como já vos disse, e tanto poder, como vós mesmo experimentastes, ninguém houve jamais que o ouvisse falar em saber ou poder, quanto mais blasonar disso. E porque tanto calou, por isso deu tamanho brado.

Nesta viagem, de que fiz menção, e em todas as que passei a Linha Equinocial, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado também aos peixes. Pegadores (172) se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram. De alguns animais de menos força e indústria (173) se conta que vão seguindo de longe aos Leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes Pegadores, tão seguros ao perto como aqueles ao longe; porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso e mais a fome. Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou e pegou de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto (174), depois que os nossos Portugueses o navegaram; porque não parte Vice-Rei ou Governador para as Conquistas, que não vá rodeado de Pegadores, os quais se arrimam a eles, para que cá lhe matem a fome, de que lá não tinham remédio. Os menos ignorantes desenganados da experiência, despegam-se e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos Pegadores do mar.

Rodeia a Nau o Tubarão nas calmarias da Linha com os seus Pegadores às costas, tão cerzidos com a pele, que mais parecem remendos ou manchas naturais, que os hóspedes ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de quatro Soldados, arremessa-se furiosamente à presa, engole tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia companha a alá-lo (175) acima, bate fortemente o convés com os últimos arrancos (176); enfim morre o tubarão, e morrem com ele os Pegadores. Parece-me que estou ouvindo a São Mateus (177), sem ser Apóstolo pescador, descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes (178), diz o evangelista, apareceu o Anjo a José no Egipto, e disse-lhe, que já se podia tornar para a pátria porque eram mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino: Defuncti sunt enim Qui quaerebant animam Pueri. Os que queriam tirar a vida a Cristo Menino, eram Herodes e todos os seus, toda a sua família, todos os seus aderentes (179), todos os que seguiam e pendiam (180) da sua fortuna. Pois é possível que todos estes morressem juntamente com Herodes? Sim: porque em morrendo o tubarão, morrem também com ele os Pegadores: Defuncto Herode, defuncti sunt Qui quaerebant animam Pueri (181). Eis aqui, peixezinhos ignorantes e miseráveis, quão errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes. Tomai o exemplo nos homens, pois eles o não tomam em vós, nem seguem, como deveram, o de Santo António.

Deus também tem os seus Pegadores. Um destes era David, que dizia: Mihi autem adhaerere Deo Bonum est (182).  Peguem-se outros aos grandes da terra, que eu só me quero pegar a Deus. Assim o fez também Santo António, e senão, olhai para o mesmo Santo, e vede como está pegado com Cristo e Cristo com ele. Verdadeiramente se pode duvidar, qual dos dois é ali o pegador; e parece que é Cristo, porque o menor é sempre o que se pega ao maior, e o Senhor fez-se tão pequenino, para se pegar a António. Mas António também se fez Menor, para se pegar mais a Deus (183). Daqui se segue, que todos os que se pegam a Deus, que é imortal, seguros estão de morrer como os outros Pegadores. E tão seguros, que ainda no caso em que Deus se fez Homem e morreu, só morreu para que não morressem todos os que se pegassem a ele. Bem se viu nos que estavam já pegados, quando disse: Si ergo me quaeritis, sinite hos abire (184): Se me buscais a mim, deixai ir a estes. E posto que deste modo só se podem pegar os homens, e vós, meus peixezinhos, não, ao menos devereis imitar aos outros animais do ar e da terra, que quando se chegam aos grandes e se amparam do seu poder, não se pegam de tal sorte que morram juntamente com eles. Lá diz a Escritura daquela famosa árvore, em que era significado o grande Nabucodonosor (185), que todas as aves do céu descansavam sobre os seus ramos, e todos os animais da terra se recolhiam à sua sombra, e uns e outros se sustentavam de seus frutos; mas também diz, que tanto que foi cortada esta árvore, as aves voaram e os outros animais fugiram. Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com eles.

Considerai, Pegadores vivos, como morreram os outros que se pegaram àquele peixe grande, e porquê. O Tubarão morreu porque comeu, e eles morreram pelo que não comeram. Pode haver maior ignorância, que morrer pela fome e boca alheia? Que morra o Tubarão porque comeu, matou-o a sua gula; mas que morra o Pegador pelo que não comeu, é a maior desgraça que se pode imaginar! Não cuidei que também nos peixes havia pecado original. Nós os homens, fomos tão desgraciados, que outrem comeu e nós o pagamos. Toda a nossa morte teve princípio na gulodice de Adão e Eva; e que hajamos de morrer pelo que outrem comeu, grande desgraça! Mas nós lavamo-nos desta desgraça com uma pouca de água (186), e vós não vos podeis lavar da vossa ignorância com quanta água tem no mar.

Com os Voadores tenho também uma palavra, e não é pequena a queixa. Dizei-me, Voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? O mar fê-lo Deus para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com nadar, e não queirais voar, pois sois peixes. Se acaso vos não conheceis, olhai para as vossas espinhas e para as vossas escamas, e conhecereis que não sois ave, senão peixe, e ainda entre os peixes não dos melhores. Dir-me-eis, Voador, que vos deu Deus maiores barbatanas que aos outros do vosso tamanho. Pois porque tivestes maiores barbatanas, por isso haveis de fazer das barbatanas asas? Mais ainda mal, porque tantas vezes vos desengana o vosso castigo. Quisestes ser melhor que os outros peixes, e por isso sois mais mofino (187) que todos. Aos outros peixes do alto, mata-os o anzol ou a fisga (188), a vós sem fisga nem anzol, mata-vos a vossa presunção e o vosso capricho. Vai o navio navegando e o Marinheiro dormindo, e o Voador toca na vela ou na corda, e cai palpitando. Aos outros peixes mata-os a fome e engana-os a isca, ao Voador mata-o a vaidade de voar, e a sua isca é o vento. Quanto melhor lhe fora mergulhar por baixo da quilha e viver, que voar por cima das entenas e cair morto. Grande ambição é, que sendo o mar tão imenso, lhe não basta a um peixe tão pequeno todo o mar, e queira outro elemento mais largo. Mas vede, peixes, o castigo da ambição. O Voador fê-lo Deus peixe, e ele quis ser ave, e permite o mesmo Deus que tenha os perigos de ave e mais os de peixe. Todas as velas para ele são redes, como peixe, e todas as cordas, laços, como ave. Vê, Voador, como correu pela posta (189) o teu castigo. Pouco há nadavas vivo no mar com as barbatanas, e agora jazes em um convés amortalhado nas asas. Não contente com ser peixe, quiseste ser ave, e já não és ave bem peixe; nem voar poderás já, nem nadar. A Natureza deu-te a água, tu não quiseste senão o ar, e eu já te vejo posto ao fogo. Peixes, contente-se cada um com o seu elemento. Se o Voador não quisera passar do segundo ao terceiro, não viera a parar no quarto (190). Bem seguro estava ele do fogo, quando nadava na água, mas porque quis ser borboleta das ondas, vieram-se-lhe a queimar as asas.

À vista deste exemplo, Peixes, tomai todos na memória esta sentença: Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem. Quem pode nadar e quer voar, tempo virá em que não voe nem nade. Ouvi o caso de um Voador da terra: Simão Mago (191), a quem a Arte Mágica, na qual era famosíssimo, deu o sobrenome, fingindo-se, que ele era o verdadeiro Filho de Deus, sinalou (192) o dia em que nos olhos de toda Roma havia de subir ao Céu, e com efeito começou a voar muito alto; porém a oração de São Pedro, que se achava presente, voou mais depressa que ele, e caindo lá de cima o Mago, não quis Deus que morresse logo, senão que nos olhos também de todos quebrasse, como quebrou, os pés. Não quero que repareis no castigo, senão no género dele. Que caia Simão, está muito bem caído; que morra, também estaria muito bem morto, que o seu atrevimento e a sua arte diabólica o merecia. Mas que de uma queda tão alta não rebente, nem quebre a cabeça ou os braços, senão os pés? Sim, diz São Máximo (193), porque quem tem pés para andar, e quer asas para voar, justo é que perca as asas e mais os pés. Elegantemente o Santo Padre: Ut Qui paulo ante volare tentaverat, subito ambulare non posset; et Qui pennas assumpserat, plantas amitteret (194). E Simão tem pés e quer asas, pode andar e quer voar; pois quebrem-se-lhe as asas, para que não voe, e também os pés, para que não ande. Eis aqui, Voadores do mar, o que sucede aos da terra, para que cada um se contente com o seu elemento. Se o mar tomara exemplo nos rios, depois que Ícaro (195) se afogou no Danúbio, não haveria tantos Ícaros no Oceano.

Oh alma de António, que só vós tivestes asas e voastes sem perigo, porque soubestes voar para baixo e não para cima! Já São João (196) viu no Apocalipse (197) aquela mulher, cujo ornato gastou todas as suas luzes ao Firmamento, e diz que lhe foram dadas duas grandes asas de Águia: Datae sunt mulieri alae duae Aquilae magnae (198). E para quê? Ut volaret in desertum: para voar ao deserto. Notável cousa, que não debalde lhe chamou o mesmo Profeta, grande maravilha. Esta mulher estava no Céu: Signum magnum apparuit in coelo, mulier amicta Sole (199). Pois se a mulher estava no Céu e o deserto na terra, como lhe dão asas para voar ao deserto? Porque há asas para subir e asas para descer. As asas para subir são muito perigosas, as asas para descer muito seguras; e tais foram as de Santo António. Deram-se à Alma de Santo António duas asas de Águia, que foi aquela duplicada sabedoria natural e sobrenatural tão sublime, como sabemos. E ele que fez? Não estendeu as asas para subir, encolheu-as para descer; e tão encolhidas, que sendo Arca do Testamento (200), era reputado, como já vos disse, por Leigo (201) e sem ciência. Voadores do mar (não falo com os da terra) imitai o vosso Santo Pregador. Se vos parece que as vossas barbatanas vos podem servir de asas, não as estendais para subir, porque vos não suceda encontrar com alguma vela ou algum costado, encolhei-as para descer, ide-vos meter no fundo em alguma cova; e se aí estiverdes mais escondidos, estareis mais seguros.

Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão Polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que São Basílio e Santo Ambrósio. O Polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um Monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma Estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta
hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja Latina e Grega(202), que o dito Polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do Polvo, primeiramente, em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no Camaleão são gala, no Polvo são malícia; as figuras, que em Proteu (203) são fábula, no Polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que o outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado (204), e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas (205)? Não fizera mais; porque nem fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o Polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o Polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O Polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é à luz, para que não distinga as cores. Vê, Peixe aleivoso (206) e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!

Oh que excesso tão afrontoso e tão indigno de um elemento tão puro, tão claro e tão cristalino como o da Água, espelho natural não só da terra, senão do mesmo Céu! Lá disse o Profeta por encarecimento (207), que nas nuvens do ar até a água é escura: Tenebrosa aqua in nubibus aeris (208). E disse nomeadamente nas nuvens do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento, e não à água; a qual em seu próprio elemento sempre é clara, diáfana (209) e transparente, em que nada se pode ocultar, encobrir nem dissimular. E que neste mesmo elemento se crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem público um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor! Vejo, Peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossos mares, me estais respondendo e convindo, que também nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes (210), ciladas e muito maiores e mais perniciosas (211) traições. E sobre o mesmo sujeito que defendeis, também podereis aplicar aos semelhantes outra propriedade muito própria; mas pois vós a calais, eu também a calo. Com grande confusão, porém, vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis, pois o não posso negar. Mas ponde os olhos em António, vosso Pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo (212), fingimento ou engano. E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser Português, não era necessário ser Santo.

Tenho acabado, Irmãos Peixes, os vossos louvores e repreensões, e satisfeito, como vos prometi, às duas obrigações do sal, posto que do mar, e não da terra; Vos estis sal terrae. Só resta fazer-vos uma advertência muito necessária, para os que viveis nestes mares. Como eles são tão esparcelados (213) e cheios de baixios, bem sabeis que se perdem e dão à costa muitos navios, com que se enriquece o mar e a terra se empobrece. Importa, pois, que advirtais (214), que nesta mesma riqueza tendes um grande perigo, porque todos os que se aproveitam dos bens dos naufragantes, ficam excomungados e malditos. Esta pena de excomunhão, que é gravíssima, não se pôs a vós senão aos homens, mas tem mostrado Deus por muitas vezes, que quando os animais cometem materialmente o que é proibido por esta lei, também eles incorrem, por seu modo, nas penas dela, e no mesmo ponto começam a definhar, até que acabam miseravelmente. Mandou Cristo a São Pedro que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe que tomasse, acharia uma moeda, com que pagar certo tributo. Se Pedro havia de tomar mais peixe que este, suposto que ele era o primeiro, do preço dele, e dos outros podia fazer o dinheiro com que pagar aquele tributo, que era de uma só moeda de prata, e de pouco peso com que mistério manda logo o Senhor que se tire da boca deste peixe, e que seja ele o que morra primeiro que os demais? Ora estai atentos. Os peixes não batem moeda no fundo do mar, nem têm contratos com os homens, donde lhes possa vir dinheiro; logo, a moeda que este peixe tinha engolido, era de algum navio que fizera naufrágio naqueles mares. E quis mostrar o Senhor que as penas que São Pedro ou seus sucessores fulminam contra os homens, que tomam os bens dos naufragantes, também os peixes a seu modo as incorrem, morrendo primeiro que os outros, e com o mesmo dinheiro que engoliram atravessado na garganta. Oh que boa doutrina era esta para a terra, se eu não pregara para o mar! Para os homens não há mais miserável morte, que morrer com o alheio atravessado na garganta; porque é pecado de que o mesmo São Pedro, e o mesmo Sumo Pontífice não pode absolver. E posto que os homens incorrem a morte eterna, de que não são capazes os peixes, eles contudo apressam a sua temporal (215), como neste caso, se materialmente, como tenho dito, se não abstêm dos bens dos naufragantes. '
------------------------------
(161) Roncador : peixe cujo ruído se parece com o de um porco. Vive nas costas de Portugal e é uma espécie de corvina.

(162) João, 18, 10. Servo do pontífice a quem São Pedro na sua impetuosidade cortou a orelha direita, logo curada por Cristo, quando aquele vinha para O prender.

(163) Bravatear, fanfarronar.

(164) O principal discípulo de Cristo e um dos doze Apóstolos.

(165) Gabar.

(166) Marcos, 14, 37



(167) Originários de Kahptor, talvez a ilha de Creta, eram inimigos dos hebreus e contra eles combateram.

(168) Sumo sacerdote, nomeado por Valério em 18 D.C. e destituído no ano 36 por Vitélio. Foi ele quem decidiu da morte de Cristo e presidiu ao Sinédrio que resolveu prendê-lo.

(169) João, 11, 46.

(170) Pôncio Pilatos – 6º procurador Romano da Judeia desde o ano 26 a 36, sob o governo do Imperador Tibério. Embora reconhecesse a inocência de Cristo, permitiu que ele fosse condenado à morte. Para sinal de que estava inocente deste crime, lavou as mãos.


(171) João, 19, 10

(172) Peixe a que alguns dão o nome de Rémora.

(173) Intenção, propósito.

(174) Do mar alto.

(175) Içar, levantar, erguer.

(176) Esforço.

(177) Filho de Alfeu, cobrador de impostos de Cafarnaum, ao serviço de Herodes Antipas. Atribui-se-lhe o primeiro Evangelho.

(178) Herodes Antipas, tetrarca da Galileia e da Pérsia, filho de Herodes, o Grande. Roubou de seu irmão a mulher, Herodíade, fato que motivou uma grande censura de São João Baptista. Por isso, virá a ser decapitado por instigação de Herodíade. Em 38 D.C. Herodes dirigiu-se a Roma com o fim de obter do imperador Calígula, o título de rei, mas acabou deposto do seu cargo e exilado.

(179) Partidários, dependentes.

(180) Depender.

(181) Mateus, 2, 20.

(182) Salmo, 72, 2


(183) Alusão à mais corrente figuração de Santo António, representado com o menino Jesus ao colo.

(184) João, 18, 8 

(185) Um dos mais famosos monarcas de Babilonia, famoso pelas suas conquistas e pelo cativeiro a que sujeitou os hebreus. (605 – 562 A. C.).


(186) A água do batismo.

(187) Mesquinho.

(188) Espécie de arpão em forma de garfo para apanhar peixe.

(189) Vir depressa

(190) Os quatro elementos da natureza, segundo os pensadores antigos eram: o primeiro a terra, o segundo a água, o terceiro o ar e o quarto o fogo.

(191) Conhecido por Mago por se dedicar à prática da magia, atraindo desta forma o povo. Quando São Pedro e São João se dirigem a Samaria para impor o Espírito Santo aos fiéis, Simão Mago pede aos apóstolos que lhe vendam o dom de dar o Espírito Santo. Pelo fato foi repreendido severamente por São Pedro e acabou por se submeter à verdade.
(192) Marcar, indicar.

(193) Teólogo grego e abade do Mosteiro de Crisópolis no séc. VII. Por ter se mantido fiel à sua fé, arrancaram-lhe a língua e a mão direita, tendo sido deportado para o Cáucaso, onde morreu.

(194) São Máximo


(195) Personagem mitológica grega que, ao pretender voar com asas de cera, caiu no mar e aí se afogou, quando as asas derreteram. Filho de Dédalo, inventor do labirinto, na ilha de Creta.

(196) Apóstolo e Evangelista do séc. I, filho de Zebedeu e de Salomé, irmão de Tiago Maior, um dos primeiros discípulos de Cristo. Escreveu o quarto Evangelho do Novo Testamento, bem como o Apocalipse.

(197) Revelação de realidades que por si só são inacessíveis à compreensão do homem. A própria etimologia da palavra relaciona-o com " Escondido, oculto". Foi escrito por São João e termina o Novo Testamento.

(198) Apocalipse, (1), 2, 14

(199) Apocalipse, 12, 1.


(200) Também conhecida por Arca da Aliança entre Jeová e os hebreus. Nela estavam encerradas as Tábuas da Lei, que Moisés recebera no Monte Sinai.

(201) No seu significado teológico o termo Leigo opõe-se ao de Clerical, com funções distintas. Daí falar-se, em apostolado laico, enquanto exercido por pessoas sem ordens clericais.

(202) Também conhecidos por Padres da Igreja, eram elementos do clero regular e secular que se distinguiam na virtude e haviam contribuído para a definição dos dogmas da religião cristã.

(203) Deus marinho da mitologia grega que tinha o poder de se metamorfosear em toda a espécie de animais e elementos. Revelava o futuro apenas àqueles que conseguissem capturá-lo ao meio-dia.

(204) Desprevenido.

(205) Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos, a quem estava confiada a guarda do dinheiro daquele grupo. Infiel no seu cargo, veio a atraiçoar o Mestre, vendendo-o aos seus inimigos por trinta moedas de prata. Pouco depois da prisão de Cristo, dominado pelo desespero, enforcou-se.

(206) Pérfido, desleal, perverso, malévolo.

(207) Exagero.

(208) Salmo, 17, 12


(209) Translúcida.

(210) Engano, cilada, traição.

(211) Prejudicial, perigoso.

(212) Cilada, traição.

(213) Costa ou margem cheia de escolhos à flor da água, mais ou menos cobertos segundo as marés.

(214) Notar, considerar.

(215) A sua morte temporal.