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segunda-feira, 31 de julho de 2023

«Amo a vida e gosto de repetir que a vida é bela!»

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

O padre Manuel João Pereira Correia no Togo, país da África Ocidental onde foi missionário de 1985 a 1993 e de 2002 a 2010

*Artigo de Tomek Basinski

‘Como nasceu a tua vocação missionária?

A minha vocação missionária... nasceu comigo! Desde a minha infância que sentia o desejo de ser padre, talvez por influência da minha mãe que, quando eu era muito pequeno, me perguntava durante a Santa Missa : «Manuelzinho, não gostavas de ser padre também?» Esse desejo cresceu comigo, de tal forma que quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia com convicção : «Quero ser padre!» Os meus colegas e alguns familiares riram-se de mim, mas o sonho manteve-se vivo.

Quando tinha 10 anos, durante a escola primária, veio um comboniano e falou-nos com entusiasmo da vocação missionária. Por fim, perguntou-nos quem gostaria de ir para África com ele. Mas ninguém levantou a mão. Nem mesmo eu, por timidez. O professor, que talvez tenha pressentido que eu poderia ser um «candidato», chamou-me durante o intervalo e apresentou-me àquele promotor vocacional. Alguns meses mais tarde, fui aceite no seminário. E assim nasceu a minha vocação de padre comboniano.

Devo salientar que a decisão de dar o meu «sim» definitivo ao Senhor não nasceu de um esclarecimento das minhas dúvidas, mas sim de uma convicção íntima de que, mesmo que o futuro revelasse que a minha decisão tinha sido arriscada ou mesmo errada, o Senhor daria sentido à minha história. Esta convicção tornou-se para mim como uma «promessa de sentido» : «Estarei sempre contigo para dar sentido à tua vida!» Esta promessa sempre me acompanhou e iluminou os momentos difíceis da minha vida.

Poucos dias antes da minha ordenação [15 de Agosto de 1978], o meu pai confidenciou-me que, no momento da minha concepção, os meus pais fizeram uma espécie de oração ou consagração : «Senhor, se o nosso primeiro filho for um rapaz, nós oferecemo-lo a ti para ser padre!» E contou-me que não me tinha dito isto antes para não me condicionar na minha escolha. Outra confidência, da minha mãe (que guardo só para mim!), comoveu-me profundamente. Vejo-me na vocação de Jeremias, com as suas dúvidas, medos e timidez, mas chamado por Deus desde o ventre da sua mãe!

Trabalhaste em diferentes comunidades e países até que, em 2010, aconteceu algo que te obrigou a regressar e a ficar na Europa. O que é que aconteceu?

Comecei a ter dificuldade em andar e perguntei-me o que seria. No início, pensei que era falta de exercício. À noite, depois de terminar as minhas atividades, comecei a andar de bicicleta. Quando se tornou claro que era outra coisa, fui a um neurologista, que me aconselhou a regressar imediatamente ao meu país, Portugal, para fazer exames e me deu uma carta num envelope fechado para apresentar a um especialista. Quando cheguei a casa, abri-a e li o veredicto. Diagnóstico provável : esclerose lateral amiotrófica (ELA). Em Lisboa, este diagnóstico foi-me confirmado. Quando perguntei ao médico qual seria a evolução da doença, ele respondeu-me : «Muito simples, primeiro vai andar com muletas, depois numa cadeira de rodas, depois...».

Agradeci-lhe pela sua franqueza e fui-me embora!  Regressei a África (Togo) para terminar os últimos meses do meu serviço como responsável dos Combonianos na África Ocidental (Togo, Gana e Benim) e no final do ano regressei à Europa.

Como é que reagiste quando recebeste o diagnóstico do médico?

Na primeira noite, chorei um pouco, confesso, mas depois o Senhor concedeu-me uma graça que eu não esperava : uma grande serenidade, que sempre me acompanhou. É claro que, no início, me perguntei porque é que aquela desgraça tinha de me acontecer, mas dei logo a resposta a mim próprio : «E porque é que não tinha de te acontecer a ti? Por acaso és privilegiado?»

Pensava muitas vezes quando estaria completamente preso no meu corpo, mas uma certeza dava-me paz : «Não estarei sozinho, o Senhor será prisioneiro dentro de mim!» Pensei também na possibilidade de ficar completamente isolado da realidade exterior, mas outra convicção cresceu em mim : «Terei sempre a possibilidade de viver no mundo interior que habita na catedral do meu coração!»

O teu ministério mudou certamente à medida que a tua doença foi progredindo.

Sim, sem dúvida. No início, esperava viver, no máximo, alguns anos. De fato, vi morrer amigos que conheci com a mesma doença.  Como o Senhor me deu alguns anos a mais (já se passaram mais de doze anos!), pensei em dar a minha pequena contribuição no campo da formação permanente dos colegas, criando um blogue e partilhando com eles material de formação. Enquanto a minha situação o permitiu, prestei-me a colaborar com alguns grupos, dando o meu testemunho e cultivando amizades.

Disseste uma vez que a tua cadeira de rodas se tornou um púlpito para ti.... Como é que vês isso?

Sim, creio que a minha cadeira de rodas é o púlpito que Deus me deu para proclamar a Palavra de Deus. Creio que a nossa cruz é o lugar mais adequado para proclamar a Palavra. Vejo-me como o profeta Jonas no ventre da baleia, que me conduz para onde Deus quer que eu vá. Navego no mar da vida, entre as suas duas margens. De um olho da baleia olho para a vida nesta margem, do outro olho vislumbro a outra margem que nos espera, na bruma da fé e da esperança.

Sempre que me lembro de ti, vejo um homem sereno e sorridente. De onde vem essa tua alegria?

A serenidade que me acompanha desde o início da minha doença é um dom de Deus. Tenho a certeza disso, porque estava bastante preocupado com problemas de saúde, que não me faltaram na missão. Peço ao Senhor um sorriso todos os dias. 

O padre Manuel João recorre a um «ponteiro ocular», um programa de computador especializado que lê o movimento dos olhos para juntar as letras e formar palavras e, assim, comunica e atualiza continuamente o seu blogue (www.comboni2000.org) 


Desde 2018 que estás completamente imóvel. Como é que vives a dependência dos outros?

É a minha maneira de viver o meu voto de pobreza : estar em necessidade e ter de pedir tudo! Mas é também uma forma de cultivar a gratidão por cada pequena coisa. Além de agradecer a Deus por todas as pessoas que generosamente me ajudam, tento sempre retribuir com um sorriso nos lábios e uma bênção no coração. Por outro lado, isto é muito fácil porque todos me amam e me mimam!

E como é que comunicas com os outros, por exemplo, agora comigo?

Comunico sobretudo com os meus olhos, a única parte do meu corpo que ainda consigo mexer. Com os meus olhos escrevo, graças a um computador com um software especial que «lê» os movimentos dos meus olhos. Uma das muitas maravilhas da tecnologia!

Como é que vives a tua vocação missionária?

Amo a vida e gosto de repetir que a vida é bela! Tento transmitir este sentimento de admiração às pessoas que me rodeiam.

Por vezes, as pessoas que experimentam a doença e o sofrimento sentem dor e revolta em relação a Deus. Qual é hoje a tua relação com Deus?

Na doença descobri a generosidade de Deus! Durante alguns anos impressionou-me a imagem da visita do Senhor como um ladrão. Sentia que se tratava de uma visita dolorosa. Espontaneamente, pedia ao Senhor que não me visitasse como um ladrão. Que viesse como um amigo e batesse à minha porta, mesmo como um amigo importuno, a ponto de me obrigar a abrir-la, por amizade ou por força! Quando o Senhor me visitou com uma doença, exclamei espontaneamente : «Senhor, tu és um ladrão!» Uma vez por outra, ele tirava-me alguma coisa.  Descobri, no entanto, que Ele é um ladrão muito especial. Nunca nos tira nada sem nos deixar algo mais precioso! 

 O que é que dirias às pessoas que perderam a esperança e são infelizes no seu sofrimento e na sua doença?

Eu diria que a vida é sempre uma oportunidade! Desde o início da minha doença, uma convicção acompanha-me : a vida nunca fecha uma porta sem abrir outra. Só que, muitas vezes, ficamos tão obstinadamente presos a essa porta fechada que não nos apercebemos de que, entretanto, se abre outra porta.  No início, a doença era para mim como uma parede escura que cortava completamente todas as perspectivas de horizonte. A convicção de que a vida é sempre uma oportunidade levou-me a olhar para essa parede com outros olhos e a vislumbrar uma porta, até então invisível aos meus olhos, que me ofereceu uma nova visão da vida, mais profunda, mais ampla e mais bela, atrevo-me a dizer! É claro que a fé me ajudou neste processo. Claro que há situações que são particularmente trágicas, difíceis de aceitar e de gerir. Para o crente, é a hora da esperança e da fé no triunfo da vida, de que a cruz e a morte são a gestação. Ao não crente, diria para confiar no instinto da beleza da vida. Também esse é um caminho de esperança que nos conduz, ainda que inconscientemente, à Vida!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/991/amo-a-vida-e-gosto-de-repetir-que-a-vida-e-bela/


terça-feira, 23 de maio de 2023

Polônia: mosteiro de Przemyśl acolhe mulheres e crianças, refugiadas da Ucrânia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Pawel Rytel-Andrianik


‘As Servas da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria de Stary Wieś vivem em Przemyśl, a 12 km da fronteira com a Ucrânia. Desde as primeiras horas após o início da guerra, comprometeram-se na ajuda aos refugiados da Ucrânia.

A irmã Ewa Mehal relata : «No primeiro dia da guerra, começamos a oferecer sanduíches e bebidas quentes na fronteira, na estação de comboios e no centro de refugiados. Muitas pessoas traziam comida para os refugiados, mas apercebemo-nos que essas pessoas estavam a dormir na estação. Estávamos especialmente preocupadas em assegurar que as mães com crianças pequenas, os idosos e os deficientes pudessem ter um alojamento à noite. Íamos à estação ferroviária, onde os refugiados estavam acampados à espera dos comboios, e oferecíamos-lhes dormida no mosteiro. Com o nosso carro, levávamo-los para a nossa casa».

Contudo, isto não foi fácil, pois eram convidados por pessoas para eles desconhecidas. «Era preciso conquistar a sua confiança. Era preciso romper as barreiras, gerar a confiança neles pois nem todos queriam ir dormir num lugar desconhecido. Estavam preocupados em saber o que teria acontecido depois, longe da estação, porque queriam estar perto da fronteira», recorda a irmã Ewa.

O primeiro auxílio

A irmã Ewa Mehal descreveu o primeiro socorro aos refugiados assustados e famintos provenientes da Ucrânia : «a primeira coisa era uma refeição quente, começava-se por isto. Depois um banho para se lavar e a dormida. Contemporaneamente realizamos um armazém para ter ao alcance as coisas mais necessárias, pois havia muitos benfeitores da Polonia e do exterior. Perguntávamos a estas pessoas o que lhes era mais necessário para prosseguir a viagem. Chegavam pessoas muito cansadas que nos diziam que não se lavavam há dias. Às vezes chegavam diretamente dos refúgios».

Mães com crianças pequenas

«As mães com filhos pequenos estavam na situação mais difícil. A criança mais nova tinha três semanas. Foi necessário criar condições especiais para estas mães e os bebês precisavam de cuidados especiais. Fizemos um parque infantil no pátio. Por vezes, as famílias vinham ter conosco a altas horas da noite e as crianças nem sequer queriam entrar em casa, mas começavam imediatamente a brincar no pátio», relata a irmã Ewa Mehal.

A religiosa recorda também as saídas à noite : «Por vezes, quando alguém precisava de ajuda, íamos à estação à meia-noite. Nestes casos, tratava-se muitas vezes de crianças pequenas. Os voluntários telefonavam da estação a dizer que havia uma família ou uma mãe com vários filhos que não tinham onde dormir. Nós levávamo-las para casa. Depois, voltávamos a acompanhá-las ao comboio com o qual queriam continuar a viagem».

O mutirão envolvido no apoio a refugiados

«Devido ao grande número de refugiados que chegavam continuamente à Casa de Przemyśl (cerca de 40 pessoas por dia), fomos apoiadas pelas nossas irmãs das outras casas da Congregação. Chegaram a Przemyśl para ajudar os refugiados três irmãs que trabalham na Ucrânia e quando a guerra começou estavam na Polonia : a irmã Krystyna, a irmã Łucja e a irmã Irina. O seu conhecimento da língua ucraniana ajudou na comunicação com os refugiados», disse a irmã Ewa Mehal.

A organização de uma ajuda tão rápida e eficaz foi possível graças ao envolvimento de muitas pessoas. A irmã Ewa Mehal sublinhou : «Todas as irmãs — tanto na Polonia como no estrangeiro, incluindo a Ucrânia — participaram na ajuda aos refugiados através da oração e do serviço, fazendo donativos em dinheiro e bens materiais, organizando recolhas e participando em iniciativas. Prepararam também transportes de alimentos, vestuário, medicamentos, material para medicação e produtos de higiene».

A gratidão

As pessoas que experimentaram esta ajuda estão muito gratas. Eis um dos e-mails que enviaram às irmãs na Ucrânia que ofereceram os primeiros socorros nas suas casas :

«Gostaríamos de agradecer de coração às Irmãs pelo carro que nos ofereceram para a nossa viagem rumo à nova casa na Inglaterra. A possibilidade de viver convosco multiplicou em nós a fé no ser humano; apesar dos momentos difíceis que vivemos no presente, pudemos ver uma mão estendida. Estamos muito gratos a vós, a toda a família, pela vossa ajuda. Foi também para nós a experiência do amor de Deus e da sua presença na nossa vida. Ele não nos deixa sozinhos, mas, especialmente nos momentos difíceis, enviou-nos os Seus anjos que tomaram conta de nós. Taras». Chegaram muitos agradecimentos como este.

A ajuda das irmãs na Polônia

Desde o início do conflito, mais de 1000 casas de religiosas na Polonia participam de diferentes formas na ajuda aos refugiados da Ucrânia. Além das atividades na Polonia, na Ucrânia atualmente desempenham o seu ministério 154 religiosas polacas, ou seja, um total de 40% das religiosas. De acordo com os dados mais recentes da Consulta das Congregações religiosas femininas, atualmente os ucranianos estão presentes em 213 casas e centros religiosos. As pessoas que desejarem apoiar as irmãs na ajuda aos ucranianos podem contactar a Consulta das Congregações religiosas femininas.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-05/projeto-sisters-irmas-servas-imaculada-conceicao-refugiados-ucra.html

domingo, 5 de dezembro de 2021

Escutar, acompanhar, amar. Um percurso repleto de gratidão.

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo d0 Padre Alfredo Sampaio Costa, SJ


‘Queremos com estas simples reflexões evocar nossa vida espiritual na sua riqueza e complexidade. Trazer de volta sentimentos vividos, memórias fortes de experiências marcantes de encontros e desencontros, saudades e esperanças. Apesar de defendermos que nossa vida espiritual é ‘nossa’, ‘pessoal’, se queremos ser sinceros temos que admitir que não vivemos nossa vida sozinhos. E que o que dá sabor, gosto, prazer à vida é que ela é vivida com muitas outras pessoas! Na nossa tradição cristã desde tempos longínquos encontramos a figura dos mestres das escolas filosóficas gregas, seguidos pelos ‘Padres e Madres do deserto’, pelos ‘staretz’ russos, pelos ‘gurus’ do Oriente, e que hoje conhecemos como acompanhantes ou orientadores espirituais. Eles se tornam companheiros e companheiras imprescindíveis no caminho.

Se quiséssemos escolher três palavras para evocar atitudes fundamentais básicas para nossa vida espiritual, poderíamos tomar estas : Escutar – Acompanhar – Amar. Poderíamos inclusive dizer que a última (ou seria a primeira?) – AMAR – engloba as outras duas? Só ama de verdade quem sabe escutar e está disposto(a) a acompanhar! E não pode acompanhar de verdade quem não escuta o outro autenticamente!

Essas reflexões terão um efeito diferenciado conforme o público que as vai ler. Para aqueles e aquelas que já provaram de uma orientação espiritual, seja como acompanhantes ou acompanhados, terá a marca de uma renovação nesta importante missão. E para quem ainda não teve essa oportunidade, quiçá seja um estímulo para abrir-se à importância que cada uma destas 3 palavras tem na vida de todos nós!

Comecemos pelo ESCUTAR.

Começando pelo ‘escutar’

Creio que se há algo importante a ser levado a cabo por nós, é aprimorar nossa capacidade de escuta. Pode vir em nosso socorro o famoso texto de Rubem Alves intitulado ‘Escutatória’1.  Sigamos alguns trechos e os comentemos oportunamente.

‘Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil […]

Vivemos em um mundo onde todo mundo quer falar e não somente. Quer que a ‘sua’ fala prevaleça sobre as demais. Já ‘aprender a escutar’ não parece ter muita atração realmente num planeta onde a grande maioria já se considera ‘preparados e preparadas’ para falar sobre tudo sem precisar ouvir ninguém.

Parafraseio Alberto Caeiro : ‘Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.’ Daí a dificuldade : a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor […]’

Quantas conversações transformam-se em disputas onde só um alcança a vitória! Não aguentamos ouvir o que a outra pessoa diz sem interpor imediatamente nossas ideias!

Estamos muito longe da ‘liberdade interior’ e da ‘humildade de coração’ do discípulo e da discípula que quer realmente aprender do outro um ensinamento para a vida!

É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades.

Primeira : ‘Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado’.

Segunda : ‘Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.’ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

Uma das piores experiências que podemos ter na vida é nos abrirmos a alguém de corpo e alma e notar que a pessoa não está nos escutando em profundidade. As marcas ficarão gravadas para sempre, afetando negativamente futuras tentativas de abertura a um familiar, a um amigo e inclusive a Jesus e a Deus Pai.

‘Quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto : a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros : a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto…’ (Rubem Alves, O amor que acende a lua, pág. 65.)

Começar a ouvir coisas que não ouvíamos! Eis o desafio e a meta diante de nós na vida espiritual e no trato com as pessoas! 

Ouvir, ouvir-se : as audições que dão sentido à existência

Só tomamos consciência de si através do sentir, experimentamos nossa existência pelas ressonâncias sensoriais e perceptivas que não cessam de nos atravessar.

Sentir é ao mesmo tempo desdobrar-se como sujeito e acolher a profusão do exterior.

Só aquilo que faz sentido, de maneira ínfima ou essencial, penetra o campo da consciência, suscitando assim um instante de atenção2.

O homem abre uma passagem na sonoridade incessante do mundo ao emitir sons ou provocando-os por suas palavras, por seus feitos e gestos. Mesmo fechando os olhos, os sons circunstantes o desguarnecem quando ele pretende se defender deles, e eles superam os obstáculos fazendo-se ouvir, indiferentemente da intenção do indivíduo. Os ouvidos sempre se abrem ao mundo, ‘não respeitando nem porta nem clausura alguma, como de fato acontece com o olho, com a língua e com outras aberturas do corpo. Por isso me esforço para que sempre, todas as noites, continuamente, eu possa ouvir, e através do ouvir, perpetuamente aprender’3.

Diante da palavra escutada, penetrado por ela não obstante a sua vontade, o homem está sempre em posição de acolhida ou de recusa. Ele entra ou não em ressonância. O som é mais enigmático que a imagem, já que ele se dá no tempo e no fugaz, aí onde a visão permanece impassível e explorável. Para identificá-lo é necessário permanecer na escuta, e ele não se renova permanentemente, e desaparece no exato instante em que é ouvido4.

A sonoridade do mundo lembra sua contingência, lá onde os outros sentidos são dóceis a novas solicitações : rever uma paisagem de outono ou um pôr de sol sobre a colina, degustar hoje e amanhã o sabor de um prato ou de um vinho, recorrer ao mesmo perfume, acariciar novamente a face da pessoa amada. O som se perde e foge ao nosso controle bem como à vontade sua de ouvi-lo novamente, salvo através do recurso a instrumentos técnicos que o controlam e o difundem à vontade5.

Ser ouvido significa ser compreendido. A audição penetra para além do olhar, ela imprime um relevo aos contornos dos acontecimentos, povoa o mundo com uma soma inesgotável de presenças, habita as existências defraudadas. Ela sinaliza o sussurro das coisas aí onde nada seria decifrável de outro modo. O som, assim como o odor, revela o que está para além das aparências, forçando as coisas a testemunharem suas presenças inacessíveis ao ouvido.

Ao escutar o relato da vida de alguém, na perspectiva de poder participar dessa vida oferecendo o ouvido e o coração, fazemos a experiência de comunhão e solidariedade com o outro. O que terá um impacto ainda maior quando se tratar de ‘dar ouvidos’ aos clamores dos mais frágeis e descartados da nossa sociedade.

Querer ouvir o outro, desejar profundamente ouvir a si mesmo, sempre no intuito de penetrar ainda mais profundamente no sentido que reveste a nossa existência e as dos nossos irmãos e irmãs, faz-nos encarnar a atitude existencial fundamental do próprio Cristo, homem-para-os-demais, Encarnação do Amor inesgotável de Deus por toda a humanidade sofredora.’

Notas :

[1] Fonte: http://rubemalves.locaweb.com.br/hall/wwpct3/newfiles/escutatoria.php. Acesso em 19/11/2021.

[2] Cf. David Le Breton, Antropologia dos Sentidos, Petrópolis: Vozes 2016, 27.

[3] F. Rabelais, «Le tiers livre », Ouvres Completes. Paris: Seuil 1979, 429.

[4] Cf. David Le Breton, Antropologia dos Sentidos, 129-130.

[5] Cf. David Le Breton, Antropologia dos Sentidos, 134.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1553628/2021/12/escutar-acompanhar-amar-um-percurso-repleto-de-gratidao/

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Bíblia: ação e gratidão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE

 

‘Setembro, mês da Bíblia : ‘Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça’ (2 Tim 3, 16). Ela não é uma coleção de verdades abstratas, mas, sim, a revelação de uma realidade concreta, daquilo que Deus realizou na realidade histórica de seu povo, nas reflexões das criaturas humanas, as quais contaram com a graça e o dom, ao mergulharem nas atividades, distinguindo-se inusitadamente dos demais escritos, no seu caráter sagrado e na sua inspiração e revelação divina.

No mês da Palavra de Deus, a gratidão que Deus aceita e acolhe é a que vem do coração humilde, um coração convicto de que só o Senhor suscita ‘o querer e o fazer’, segundo o apóstolo Paulo. Nada mais lhe é agradável do que agradecer a Deus pelos grandes benefícios, que é o mesmo que implorar o cumprimento de sua ação salvífica, na ternura e na misericórdia divina, num Deus que, no Filho, quer reconciliar o mundo consigo.

O mês de setembro, o da Bíblia, tem como foco despertar nossa consciência do Deus infinito e do mistério de amor, que quer de seus seguidores um sólido redescobrimento de sua presença, à medida que as pessoas são inseridas no mundo e comprometidas com seu projeto de amor, levadas adiante pelo Filho de Deus, Jesus de Nazaré. Por isso mesmo é que Deus quer, através do Livro Sagrado, enriquecer, com seu duradouro amor, as criaturas que Ele criou, convencendo-as da morada permanente.

Infundido e persuadido pelo Espírito de Deus, de tal modo, somos convidados a acreditar numa missão árdua e elevada, com excessos de precedentes – fruto do indizível mistério da palavra de Deus –, e na eficácia inexprimível da oração, sinal evidente a nos ensinar, num olhar confiante para o céu, vendo as estrelas, a lua, compreendendo, na graça desse mesmo Deus, a beleza infinita a atrair as pessoas, sendo preciosa a criatura humana, entre todas, embora a menor – abaixo dos anjos –, mas que recebeu o poder e o vigor divino de tudo dominar (cf. Sl 8).

Inspirados e animados pelo Livro Sagrado, que saibamos olhar o mundo, num sincero desejo de fermentá-lo e transformá-lo, apresentando-lhe sinais de esperança e solidariedade, seguros daquilo que é mais elevado e cristalino, de que Deus leva em conta nosso esforço, bem como o testemunho coerente e a interior disposição de lutar e gostar de viver. Assim seja!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1536674/2021/09/biblia-acao-e-gratidao/

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Como a humildade leva à gratidão, segundo São Vicente de Paulo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Philip Kosloski,
escritor e designer gráfico


‘Muitas pessoas, religiosos ou leigos, apontam para a importância da gratidão na busca de uma vida feliz. A capacidade de agradecer a Deus e aos outros é uma habilidade essencial para todos nós aprendermos.

No entanto, é mais fácil falar do que fazer, pois temos uma tendência natural de tomar as coisas como garantidas, especialmente se nossas vidas são abençoadas com muitos bens materiais. De fato, é mais fácil para nós querer mais do que agradecer pelo que temos.

A chave para superar essa inclinação gananciosa e promover um espírito de ação de graças é a virtude da humildade.

São Vicente de Paulo explica esse princípio espiritual :

Uma apreciação viva da graça dada a você deve torná-lo humilde, pois a apreciação gera gratidão … Qualquer um que considerar calmamente o que fez sem Deus não pode deixar de perceber que o que faz com Deus não é mérito próprio.

Ao mesmo tempo, São Vicente de Paulo mostra como a gratidão pode levar à humildade :

Nada tende a nos humilhar diante da misericórdia de Deus como a multidão de Seus dons para conosco; assim como nada tende a nos humilhar diante de Sua justiça como a multidão de nossos erros. Vamos considerar o que Ele fez por nós.

A Virgem Maria é um dos principais exemplos de humildade. Ela sempre agradeceu a Deus por seus feitos maravilhosos :

Foi nesse espírito que a Santíssima Virgem confessou que Deus lhe havia feito ‘grandes coisas’; apenas para que ela possa se humilhar e exaltá-Lo. ‘Minha alma glorifica o Senhor’, disse ela, em razão dos presentes que Ele havia lhe dado.

Se tivermos dificuldade em agradecer por tudo o que nos foi dado, promovamos em nossa alma um espírito de humildade, reconhecendo a presença de Deus em nossas vidas. Ele é quem nos guia e nos fornece diariamente.

Quando reconhecemos o cuidado providencial de Deus por nós, podemos elevar nossos corações a Ele e agradecê-lo por tudo o que Ele nos deu. Esse mesmo espírito de humildade também direcionará nossas ações para os outros, reconhecendo o quão dependentes somos das pessoas e das coisas que elas fazem por nós.

Gratidão e humildade andam de mãos dadas e ambos nos ajudam a desvendar a chave para uma vida cheia de alegria.’


Fonte :

terça-feira, 2 de julho de 2019

A herança de São José para Jesus


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 SAINT JOSEPH ICON
*Artigo do Frei Kleber Moresco, OFMcap


‘Por muito tempo o trabalho braçal foi entendido como um castigo. No relato de Gênesis, depois do pecado, Deus diz a Adão : ‘Com o suor do teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo’ (3,19).

Os trabalho por muito tempo foi considerado como tarefa dos escravos, pois quem trabalha não tem liberdade. Na Idade Média essa ideia se tornou tão clara que o Império Romano usava um objeto para tortura chamado Tripalium, e deste objeto proveio a palavra ‘trabalho’.

Muitas pessoas continuam pensando como na Idade Média, deixam de aproveitar o tempo que têm, sonhando com o dia em que serão ‘libertas’ disso por meio de uma aposentadoria. Fazem o seu trabalho com mal humor, pois apenas suportam esse tempo, para ganhar um salário. O trabalho não é um castigo, o trabalho é um dom; o próprio Deus nos convida a colaborar com Ele na Criação.

Os relatos bíblicos mostram José como um homem muito silencioso, mas fazem questão de afirmar que ele era carpinteiro. Deus escolheu José para ser o Pai adotivo de Jesus. A herança de José para Jesus, além da educação e caráter, foi o seu ofício de carpinteiro (Mc 6,3). Jesus herdou da humanidade o dom de trabalhar.

São José não trabalhava simplesmente para ganhar dinheiro, ele trabalhava porque trabalhar é um dom. Quando a intenção do trabalho é simplesmente acumular bens esquecendo as relações de justiça, assim como o império romano, somos torturados ou torturadores dos fracos. Contudo, quando o trabalho é oferecido a Deus como manifestação de colaboração e gratidão, ele se torna fonte de vida.

A Trindade é um exemplo de trabalho contínuo por amor. Deus Pai através do trabalho ‘pede a ajuda da humanidade’ para construção do Reino (CIC 378). Jesus chama as pessoas a trabalharem com o coração e não com as redes : ‘Farei de vós pescadores de homens’ (Mt 4,19). Tudo isso só é possível porque a todo momento o Espírito Santo está tocando os corações ‘O Espírito sopra onde quer’ (Jo 3,8). Deus trabalha continuamente no coração e na vida das pessoas, apenas com o sopro do Espírito abrimos os ouvidos ao chamado de Jesus para colaborar na construção de um mundo com mais respeito, justiça e gratidão.

O trabalho é uma virtude dos humildes, dos santos, e característica do próprio Deus (Jo 5,17).’


Fonte :

domingo, 9 de julho de 2017

A gratidão e outras gentilezas que nos faltam

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

'Fico imaginando porque o mundo anda tão agressivo, tão áspero, às vezes tão desagradável'
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor


‘Uma das mais belas e pedagógicas passagens dos Evangelhos está descrita por Lucas, no capítulo 17 de seu livro, onde conta que dez leprosos vieram até Jesus pedir por sua cura. Compadecendo-se deles, curou-os e os enviou, como era praxe na época, para se apresentarem aos sacerdotes que constatariam a cura e os libertariam da exclusão social imposta aos portadores daquela doença. Pouco tempo depois, somente um deles retornou para agradecer o imensurável bem que recebera. Curiosamente ele era o único estrangeiro daqueles dez. E Jesus se admirou, comentando com seus discípulos : ‘Eram dez os curados, e somente este estrangeiro voltou para agradecer o que recebeu!’

Desde que me entendo por gente, aprendi a agradecer tudo o que recebia. Era uma frase comum na boca de meus pais, quando me viam recebendo alguma coisa, e distraia-me com o que recebera : ‘O que você vai dizer?’ E aquele toque despertava-me para expressar : ‘Muito obrigado!’. E de tanto ser lembrado, aprendi que sempre deveria fazer isso. Contudo, mais do que decorar as palavras, aprendi que elas manifestavam minha gratidão por ter ganho alguma coisa de alguém. Aos poucos fui descobrindo como era bom dizer ‘obrigado’ para quem me proporcionava algo, e também como me era agradável ouvir o mesmo, quando era eu quem dava alguma coisa. Depois aprendi que gratidão é uma palavra de origem latina, gratia ou gratus, que significa agradável, portanto algo que nos traz satisfação. Ou seja, quando me sinto grato e consequentemente movido a agradecer, o faço porque aquilo me trouxe satisfação. Da mesma forma que me compraz a satisfação daquele que recebeu algo dado por mim.

Mas isso não é somente uma coisa superficial e passageira. Pesquisas científicas sugerem que sentimentos de gratidão são benéficos ao bem estar emocional subjetivo, como descrevem os psicólogos e pesquisadores da Universidade de Miami, Emmons & McCullough, em seu livro ‘A psicologia da gratidão’, de 2004. Em outras palavras, a gratidão nos faz bem, tanto quando damos como quando recebemos alguma coisa.

Refletindo sobre esse assunto, fico imaginando porque o mundo anda tão agressivo, tão áspero, às vezes tão desagradável a ponto de pessoas se afastarem do convívio familiar e social, buscando refúgio em lugares mais isolados ou limitando sua vida a ambientes afastados de multidões. Onde não existe a gratidão, onde as pessoas perderam o hábito saudável de dizer ‘obrigado!’, ‘agradecido!’, a convivência entre humanos se torna pouco ou nada agradável.

Mas não é somente a gratidão, que tanto bem nos faz, a gentileza que hoje nos falta. Também outras atitudes, no rotineiro de nossas vidas, contribuem significativamente para a nossa felicidade, nosso bem estar e consequentemente para a nossa saúde. Entre elas, destaca-se o corriqueiro pedido de ‘licença!’. Com o crescimento das cidades, os ambientes públicos tornaram-se repletos de pessoas agitadas, apressadas, intranquilas, e por consequência, ignorando quase totalmente a presença de outras pessoas em torno de si. Tomemos um supermercado, como exemplo. Preocupadas com as compras, a escolha dos produtos e a seleção de preços mais accessíveis, as pessoas são incapazes de dizer ‘com licença!’ ao passar num dos corredores semiobstruídos por outros compradores.

Nas portas de entrada e saída, pessoas têm o péssimo hábito de parar em conversas despreocupadas. Mesmo que nossa vontade seja a de passar por ali como um trator, nada nos custa pedir : ‘com licença!’. Da mesma forma, ao ter de atravessar por uma fila num banco ou em qualquer outro lugar, para passar para o outro lado, também um ‘com licença’ com certeza nos ajudará a aliviar a tensão do dia a dia.

E o que nos custa pedir desculpas, quando esbarramos em alguém, ou quando derrubamos algo que estava em suas mãos, num ônibus, num lugar qualquer? Esta é, aliás, uma das formas mais eficientes para desarmarmos a agressividade das pessoas que se sentem por demais incomodadas quando lhes esbarramos.

Poderia desfiar um longo rosário dessas pequenas, mas necessárias atitudes de cortesia, mas encerro com uma que pode ser considerada a mãe de todas as outras. Quando criança, aprendi a pedir a benção dos meus pais, tios e avós, sempre que os encontrava pela primeira vez no dia. Enquanto minha mãe esteve viva, eu já com mais de 70 anos de idade, nunca cheguei em sua casa sem lhe pedir a benção. O mesmo fiz com meus tios. E hoje tenho a doce saudade de ouvir o suave ‘Deus te abençoe!’ que tanto representava para mim.  Nos dias atuais, vejo filhos, netos, chegarem juntos dos seus pais, avós, e mal balbuciarem um ‘Oi’. E isso, quando o fazem...  Percebo que eles não têm a menor noção do significado e da plenitude do pedido de benção, independentemente de filiações religiosas.

Hoje todos têm pressa, mal enxergam os outros humanos em sua volta. Corpo e mente estão ocupados, apressados, superlotados de compromissos, a maioria totalmente inútil. Por isso mesmo esquecem-se da importância do ‘obrigado’, do ‘por favor’, do ‘com licença’ do ‘sua benção!’. E por isso mesmo, o mundo anda tão amargo, tão fútil, tão pragmático, deixando a vida sem sabor, sem alegria, até mesmo sem sentido. Resgatando as gentilezas que estão em extinção, quem sabe resgatamos também a satisfação de sermos realmente humanos?’


Fonte :


sábado, 8 de outubro de 2016

Gratidão : o agradecimento é a memória do coração

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

O maior drama vivido por um ateu é não ter a Quem agradecer.
*Artigo de Padre Adroaldo Palaoro, Jesuíta


‘A tradição judaica transmite este ensinamento : ‘Aquele que desfruta de um bem qualquer neste mundo sem dizer antes uma oração de gratidão ou uma benção, comete uma injustiça’.

A ação de graças está no coração mesmo da liturgia e da oração cristãs. A sorte e a felicidade do cristão consistem em poder dar graças a Alguém. O maior drama vivido por um ateu é não ter a Quem agradecer.

A pessoa compreende que ‘tudo é dom e graça de Deus’ e esquecer de agradecer é passar ao lado daquilo que constitui a beleza da vida. Agradecer é muito mais que dar graças. Implica reconhecimento e correspondência. ‘Ali onde não há gratidão, o dom fica perdido’ (Bruno Forte).

Lucas situa o relato no caminho de subida a Jerusalém, no limite entre Galileia e Samaria, lugar chave de disputas religiosas. Os leprosos que saem ao encontro de Jesus e gritam de longe pedindo-lhe que os cure, são dez. Significativamente, a lepra não distingue entre judeus e gentios, galileus e samaritanos. Todos são irmãos na miséria.

No relato podemos identificar os mesmos componentes presentes em outras narrações semelhantes de curas : apresentação da situação de enfermidade (‘dez leprosos vieram ao seu encontro’), petição de cura (‘Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!’), intervenção de Jesus (‘Ide apresentar aos sacerdotes’), cura (‘enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados’) e reação diante do milagre.

É este último elemento que está mais desenvolvido na cena, e nele enfatiza-se o contraste da atitude de um dos leprosos (um samaritano que volta para agradecer a Jesus) com a dos outros nove. Na realidade, os outros nove leprosos curados não fazem senão cumprir as instruções de Jesus : ir e apresentar-se aos sacerdotes. Mas só um tem a suficiente finura espiritual para reconhecer profundamente o dom recebido e, deixando de lado as prescrições legais, dá primazia à expressão de agradecimento.

A gratidão parece apresentar-se aqui como um plus, como algo que deveria brotar com naturalidade nas relações humanas e na vida de fé, e não como uma atitude estatisticamente minoritária (um entre dez).

O samaritano sente que para ele começa uma vida nova; de agora em diante, tudo será diferente : poderá viver de maneira mais digna e ditosa. Sabe a quem ele deve isso. Precisa encontrar-se com Jesus.

Esta é a fé do samaritano que confia em Jesus, que crê no agradecimento mais que nas leis do sistema religioso. O agradecimento como atitude vital parece requerer, pois, uma especial sensibilidade espiritual, precisamente essa que encontramos nos santos e santas.

Caberia perguntar-nos quais são as razões que nos dificultam esta vivência da gratidão, quando esta deveria brotar de modo espontâneo e natural frente a tanto bem recebido.

No início de uma carta de Santo Inácio a um de seus primeiros companheiros, Simão Rodrigues, lemos isto : ‘À luz da divina bondade me parece que, embora outros possam pensar de modo diferente, a ingratidão é o mais abominável dos pecados aos olhos de nosso Criador e Senhor, e de todas as criaturas capazes de aproveitar-se em sua divina e eterna glória. Já que é esquecimento das graças, bens e bençãos recebidas; e além disso aqui se encontra a causa e começo de todos os pecados e desgraças. Pelo contrário, a gratidão que reconhece as bênçãos e bens recebidos é estimada e amada não só na terra senão também no céu’ (18 de março – 1542).

Na vivência cristã, a gratidão nasce com naturalidade e espontaneidade nos corações humildes, nas pessoas conscientes de que aquilo que recebem não é por mérito ou retribuição. Tudo é gratuidade.

Elas adquirem a fina percepção de que tudo é Graça, tudo é ‘de graça’, são ‘agraciadas’, ‘cheias de graça’... Precisamente porque perceberam suas vidas como um presente, voltam-se para Deus, entregando-lhe ‘tudo o que têm e possuem’.

Marcada pela gratidão, a pessoa deseja sempre corresponder o melhor, rejeitando todo tipo de mediocridade na entrega e no serviço.

O agradecimento é uma atitude fundante e fecunda que possibilita viver o cotidiano com outro ‘sabor’, com outro ‘ar’. Do agradecimento brota um estado interior de consolação, de disponibilidade, de agilidade em dar resposta às demandas da vida, de uma sensibilidade mais viva para perceber tudo aquilo que a vida cotidiana tem de dom e sem ansiedade por não receber compensações ou recompensas.

O agradecimento é a experiência humana que mais ativa a generosidade como atitude vital de nossa existência de criaturas amadas e presenteadas por Deus.

O agradecimento como atitude básica na vida é a tomada de consciência daquilo que estamos recebendo, a acolhida dos bens que nos são dados e das pessoas que nos vêm ao encontro; é viver não tanto dependente daquilo que cremos que merecemos e não nos dão, quanto daquilo que, sem haver merecido, nem esperado, nem pedido, recebemos e continuamos recebendo no dia a dia.

Esse ‘agradecer’ de fundo, esse viver ‘agradecidamente’ não nos é favorecido pela cultura consumista que nos incita a estar sempre mais dependentes daquilo que não temos que daquilo que nos é dado com abundância; uma cultura que fomenta e aviva uma eterna insatisfação, matando a capacidade de ‘recordar tantos benefícios recebidos pela criação, redenção e dons particulares’ (S. Inácio).

O que é que se encontra ‘de graça’? Onde? Quem pratica essa aventura da ‘mão aberta’, da largueza de coração? Há aqueles que não conhecem a palavra ‘gratuito’ e, por isso, são petrificados frente à gratidão. São surdos e mudos para o ‘muito obrigado’.

A gratidão é alegria, a gratidão é amor. É por isso que ela se aproxima da caridade, que seria como uma gratidão sem causa, uma gratidão incondicional. Que virtude mais leve, mais luminosa, mais humilde, mais feliz!!! Gratidão = desfrutar a eternidade no cotidiano da vida.


Para meditar na oração :

É importante cuidar de nossa gratidão, mantê-la viva e ativa. Não é natural que percamos a memória, a consciência do muito que temos recebido e continuamos recebendo, como possibilidades de vida e de sentido, como dons e capacidades, como criatividade e sonhos...

Cabe a nós, como seguidores de Jesus, pensar e falar agradecidamente, ter gestos de gratuidade. Ser agradecido se aprende agradecendo e tudo se pacifica quando o gratuito marca nosso ser por inteiro. A vida nova vem da Vida recebida e partilhada; ela nos coloca acima do êxito e do fracasso, pois está no nível da gratuidade.

- Diante d’Aquele de quem tudo procede, faça memória de todos os dons recebidos, deixando brotar do seu coração uma atitude de contínua ação de graças.’


Fonte :