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quinta-feira, 24 de abril de 2025

O jovem rico (Mt 19,16-26)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo da Madre Escolástica Ottoni de Mattos, OSB

Abadessa de Santa Maria, SP


‘Lendo esta passagem de Mt 19,16-26, fixemo-nos nas primeiras palavras : ‘Alguém se aproximou de Jesus’ Contemplemos a diversidade de pessoas que se aproximam de Jesus no evangelho de Mateus e suas diferentes motivações. Ponhamo-nos em movimento para ir ao seu encontro :

4,3 : o tentador aproxima-se de Jesus para o pôr à prova;

4,11 : os anjos aproximam-se para o servir;

8,2 : um leproso aproxima-se para ser purificado;

8,19-20 : um escriba aproxima-se e propõe-se seguir Jesus em toda a parte;

13,36 : os discípulos aproximam-se para perguntar o sentido de uma parábola;

17,14 : um homem aproxima-se para implorar compaixão para seu filho lunático;

26,7 : uma mulher aproxima-se com o frasco de alabastro para ungir a cabeça de Jesus;

26,49 : Judas aproxima-se para dar a Jesus o beijo da morte.

Aqui, em 19,16, alguém se aproxima e pergunta : ‘Que devo fazer de bom para ter a vida eterna?’ A pessoa que se aproxima nesta passagem é chamada de ‘alguém’ (eis em grego). Isso significa que pode ser cada um de nós. No entanto, é alguém que se dirige a Jesus como ‘Mestre’;

- procura a vida eterna;

- é um jovem;

- observa os mandamentos;

- é sem meias medidas, ainda que se afaste todo triste porque se vê na impossibilidade de receber a única coisa que lhe falta…

Não ter nada, somente ‘um tesouro nos céus’ é a lição final.

Olhemos o texto com mais atenção. É composto por duas cenas distintas, muito estruturadas literalmente :

I. Diálogo de alguém com Jesus

a) Aproximar-se de Jesus (v. 16 a)

            b) interrogar Jesus (v 16. b)

                        c) Receber uma resposta de Jesus (v. 17)

            b’) interrogar Jesus (v. 18 a)

                        c’) receber uma resposta de Jesus (v. 18-19)

            b’’) interrogar Jesus (v. 20)

                        c’’) receber uma resposta de Jesus (v. 21)

a’) afastar-se de Jesus

Este diálogo está enquadrado pela antítese que expressa um conflito e um combate, fortes, porque tocam um engajamento de toda a vida e até do ‘pós-vida’. Para O TODO, é pedido tudo :

v. 16 : ‘Aproximar-se’ é o oposto de ‘afastar-se’ (v. 22)

v. 16 ‘Ter a vida eterna’ é o oposto de ‘ter grandes bens’ (v. 22)

No interior do debate, no v. 21, as antíteses são numerosas : ir # vir; vender # possuir; dar aos pobres # ter um tesouro. Estes paralelismos antitéticos são um contraste com a síntese muito estável do anúncio de Jesus : entrar na vida, entrar no reino dos céus, entrar no reino de Deus (v. 17.23.24)

O moço está preocupado com o TER; sendo rico e habituado a possuir tudo, quer, com boa intenção e lógica, possuir a vida eterna. Jesus apresenta-lhe uma outra realidade : ‘Ser perfeito…seguir-me’ e para isso nada ter. Trata-se de um despojamento total em vista do Absoluto que o chama. Como sublinha Romano Guardini : ‘Possuir seja o que for, já é ser rico (…) O que importa é a posse em si mesma’ São Bento nos lembra isto no capítulo das Boas Obras : ‘Nada preferir ao amor de Cristo’ (RB 4,21). Também no fim da Regra, como alguém que dá testemunho de ter feito um percurso sério na vida cristã e monástica, diz : ‘Nada, absolutamente nada preferir ao Cristo, que nos conduza juntos para a vida eterna’ (RB 72,11-12).

Os mandamentos da lei, expressos sob forma negativa, mostram já a necessidade de que falte algo, que faz um vazio na vida, um vazio necessário para uma plenitude : desapegar-se do instinto de matar, de cometer adultério, de roubar, de fazer um falso testemunho. Paulo Beauchamp afirma : ‘As proibições do diálogo (decálogo) fazem o vazio diante de um espaço em que Deus não pede nada’ Nos mandamentos aqui citados concentra-se toda a Lei.

Então, ‘que me falta ainda?’ (v. 20) ‘Se queres ser perfeito’ (v. 21). O adjetivo teleios, do verbo teleio, significa literalmente uma ‘ação realizada até ao fim’, ‘chegada à maturidade’. Aliás é o que evoca já a raiz da palavra grega que significa ‘mandamento’, entolé: en toleios, em vista de uma realização. Este moço não chegou ainda à maturidade, embora observe os mandamentos; ele vive entre um vender e um possuir, dar aos pobres e ter para si; está no começo do caminho. O fundador do hassidismo, Baal-Shem-Tov, o rabino do séc. 17, dá-nos esta pérola da tradição judaica :

‘Eis as palavras que Moisés disse a todos os filhos de Israel, no além Jordão, no deserto (Dt 1,1) Há os que pensam ter encontrado a Deus e não o conhecem. Há os que pensam suspirar para Deus de longe, e Deus está bem perto. Quanto a ti, pensa sempre que estás na beira do Jordão e que ainda não entraste no país. E se pensas que já observas um bom número de mandamentos, fica sabendo que ainda não fizeste nada’.

O jovem em todas as suas aproximações e afastamentos, nos seus numerosos vai e vem, guarda a ilusão de ser cumulado com seus próprios bens. Não consegue aceitar o vazio, que é o espaço para o outro, para o Cristo nele.

II – Diálogo de Jesus com os discípulos

a) As palavras de Jesus

            1. Dificilmente um rico entrará (v. 23)

            2. Mais fácil um camelo passar (v. 24)

            b) A pergunta dos discípulos a Jesus : ‘Quem então pode ser salvo?)

a’) As Palavras de Jesus

            1. Impossível aos homens (v. 26)

            2. Possível a Deus (v. 26)

No coração da antítese – ‘dificilmente…mais fácil’ – a pergunta dos discípulos jorra como um drama, diz respeito à salvação : ‘Quem então pode ser salvo?’ (v. 25). ‘Ser salvo’ é uma realidade que aparece muitas vezes no Evangelho de Mateus, desde o começo. Coloquemo-nos na presença da pergunta :

– está ligada ao nome de Jesus : ‘O chamará Jesus, pois Ele salvará o povo dos seus pecados’ (Mt 1,21)

– também pode estar ligada a um perigo : ‘Senhor salva-nos, pois perecemos’ (Mt 8,25)

– uma doença : ‘Se ao menos tocar na sua veste, serei salva’ (Mt 9, 21-22).

O que é visado em nossa perícope está expresso no versículo ‘Aquele que perseverar até ao fim (eis telos) será salvo (Sotesetai)’ (Mt 10,22). Estamos de novo na perspectiva da realização, consumação. Nada chegará à realização, fora desta visão. Mas concretamente para Jesus, ir até ao fim, significa ir até à cruz, a porta pela qual se entra na vida. A questão é tão séria que Jesus deixa entender que tal coisa só é possível a Deus. Assim Jesus nos ensina a necessária dependência de Deus para se ser salvo. O próprio Jesus não se salva sozinho. E, no entanto, é justamente a isso que o convidam quando ele está na cruz : ‘Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz’(Mt 27,40). E ainda : ‘Salvou outros, e não pode salvar-se a si mesmo’ (Mt 27,42).

Jesus, Deus e homem não quis passar sem um vazio, como diz São Paulo aos Filipenses 2,16 e ss : ‘Ele que era de condição divina, não se agarrou ao ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, (…) e como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz’. Salvar-se a si mesmo, não é ir até ao fim do despojamento de si mesmo, é descer da cruz, não precisar dela. E no entanto, essa é a chave do despojamento, do despossuir-se.

Conclusão

Como nos diz a Carta aos Hebreus, Moisés ‘considerou a humilhação do Cristo como uma riqueza maior que os tesouros do Egito, pois ele tinha os olhos na recompensa final’ (Heb 11,26). A tradição judaica nos diz que Moisés entrou na vida por meio do beijo de Deus. Mesmo se chegarmos a viver 120 anos em diálogo com Deus, nós precisamos, como ele, deixar-nos corajosamente desinstalar das nossas certezas formais e das nossas ilusões. ‘De começo em começo’, a caminho, seguindo a Cristo pelo buraco profundo e fascinante, e pela inovação desta pergunta que nunca se responde ‘Que me falta ainda?’'.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/117

domingo, 3 de abril de 2022

Uma vida ao serviço dos pobres

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Giorgio Bernardelli,

jornalista

 

‘A Irmã Bertilla Capra, missionária da Imaculada Conceição, italiana da região de Bérgamo, chegou em Junho de 1970 a Andhra Pradesh, o seu primeiro destino missionário. Tinha 32 anos. «A minha vocação para a missão surgiu ao ler as revistas missionárias», conta. «Posteriormente, ingressei nas Missionárias da Imaculada. Antes de partir frequentei um curso de especialização sobre o cuidado de leprosos em Fontilles, Espanha. Não obstante, o impacto com a realidade da Índia, e com os leprosos em particular, foi muito difícil

Alguns meses depois teve outra experiência igualmente forte. Em 1971, a guerra ensanguentou o país vizinho, o Bangladesh, e milhares de refugiados abandonaram o país e dirigiram-se para a Índia. A Irmã Bertilla mudou-se para Calcutá, onde viveu essa experiência de acolhimento ao lado da Madre Teresa, que se encontrava na linha da frente ajudando aqueles que tinham perdido tudo. «Trabalhei com ela e as suas irmãs na altura da epidemia de cólera», recorda a missionária da Imaculada Conceição. «Nesses meses em Calcutá a situação era dramática, não podíamos sequer contar os mortos. Nunca mais voltei a ver nada parecido na minha vida. A Madre Teresa era uma mulher fisicamente frágil, mas mesmo nessas situações extremas ela estava cheia de tanta luz

Depois, regressou a Eluru, na Índia rural, para continuar o seu labor com os doentes de lepra e os seus filhos, que tinham sido alojados num albergue especial. «Como tinham nascido nas colônias de leprosos – recorda –, não era prudente que eles permanecessem lá. Era importante que tivessem a oportunidade de crescer de forma saudável, fora desse ambiente.» Em 1981, foi coordenar o Centro Dermatológico Vimala, um centro de saúde que a sua congregação religiosa abriu nos imensos subúrbios de Bombaim. É nesse lugar onde diariamente continua a trabalhar.

Cuidar dos leprosos

Entretanto, muitas coisas mudaram no tratamento da lepra : «Quando cheguei pela primeira vez a esta zona de Bombaim – explica –, as irmãs que abriram o Centro em 1979 tinham identificado entre doze e treze mil leprosos na área. Hoje em dia, existem apenas algumas centenas de casos.» Este é o resultado dos grandes avanços que se deram no campo da medicina : a lepra é agora uma doença que pode ser curada mais facilmente, com medicamentos que se adquirem com relativa facilidade e, se forem tomadas medidas a tempo, as deformidades no corpo podem ser evitadas. No entanto, a luta contra a lepra ainda requer muitos esforços de controle e prevenção.

«Continuamos a realizar campanhas de sensibilização entre a população que nos foi confiada pelo Governo nesta pobre periferia da imensa cidade de Bombaim», afirma a irmã Bertilla. «Fizemos um bom trabalho : hoje somos capazes de manter a doença sob controle. Temos de considerar que chegam a esta metrópole pessoas oriundas de todas as partes da Índia; é fácil que haja casos ocultos, porque a lepra não se manifesta com sintomas imediatos. É uma doença bastante latente : o período de incubação é longo, começa com pequenas manchas que os agentes sanitários e as pessoas podem reconhecer facilmente

Atualmente, o Centro Vimala alberga cerca de sessenta pacientes, homens e mulheres, e tem um pequeno albergue com cerca de dez crianças que, de formas diferentes, contactaram com esta doença nas suas famílias. Cuidar dos doentes implica também cuidar desses menores.

Lepra e covid-19

A missionária pensa que na periferia de Bombaim a lepra é uma doença que será difícil eliminar completamente. «Não creio que possa ser erradicada», afirma a missionária da Imaculada Conceição. «Deve ser controlada, e é isso que estamos a fazer. Com o nosso pessoal paramédico percorremos as áreas que o Governo nos atribuiu : ensinamos as pessoas a reconhecer os sintomas e explicamos a quem devem recorrer caso tenham dúvidas ou precisem de apoio. Porque o importante é tratar a doença logo que se identifica. É a única maneira para deixarmos de ter casos em que o corpo fica desfigurado. Podemos consegui-lo se controlarmos a situação no território», explica a Ir. Bertilla.

Esta é também a chave para ajudar a superar o estigma social que sempre acompanhou a lepra, como os Evangelhos nos relatam. «A lepra e a sua estigmatização são duas coisas que estão relacionadas» – continua a missionária. «É penoso ver uma pessoa deformada com a lepra em estado avançado e as pessoas no carro afastarem-se dela, mas é uma reação humana. Outras vezes, são os próprios doentes de lepra que se retiram para os guetos dos bairros-de-lata porque não querem ser vistos nesse estado. Por esta razão, é muito importante esclarecer que a lepra não é uma maldição, mas uma doença, curável como muitas outras doenças. Temos de lhes dizer que, quando é diagnosticada e tratada no início, não causa danos permanentes. Temos de prosseguir neste caminho com muita paciência.»

A Índia enfrenta também a pandemia causada pelo coronavírus. A covid-19 está a causar uma grave crise econômica, que afeta especialmente as pessoas mais pobres. «Os mais vulneráveis são os que mais sofrem desde que os confinamentos começaram», sublinha a missionária. «Tentamos ajudar as pessoas tanto quanto podemos : todos os nossos leprosos são pobres. Começamos a comprar arroz, cereais, açúcar, para distribuir pequenos cabazes no círculo de pessoas que conhecemos : conseguimos repartir quinhentos. Mas, numa metrópole como Bombaim, é como uma gota de água no oceano. A pobreza propaga-se. Não consigo imaginar como as pessoas conseguem sobreviver nos bairros-de-lata.» 

Há outra situação que, para a missionária, é particularmente preocupante. «Em Bombaim, as escolas também estiveram fechadas durante meses. As crianças que vivem conosco também não puderam frequentar as escolas onde iam regularmente. Teoricamente, houve ensino à distância, mas como podiam os pobres, sem os meios adequados, segui-lo? Mais uma vez, são os mais desfavorecidos que sofrem as consequências, pondo em causa o seu processo educativo.»

No entanto, mesmo nestes tempos difíceis não devemos desesperar. «O Senhor fala-nos nestas circunstâncias – acrescenta a apóstola dos leprosos –, não devemos perder a esperança : a nossa fé sustenta-nos. Devemos aproximar-nos mais do Senhor em momentos como estes. É um momento propício para fazer um exame de consciência

A alegria da missão

Há alguns anos, em parte para resolver algumas dificuldades decorrentes da renovação do seu visto, a Ir. Bertilla pediu e obteve a cidadania indiana. Mas não foi apenas uma escolha ‘burocrática’. «Adoro a minha missão, estou satisfeita com o serviço que presto», explica. «Acolhi com muita alegria as mudanças que vi na Índia ao longo de todos estes anos. Aprendo muito com as pessoas a quem procuro servir. Quando cheguei à Índia, queria mudar rapidamente as situações que encontrava. Mas depois vi que aqui as pessoas permanecem calmas, fazem o seu trabalho em todas as circunstâncias sem ficarem demasiado alarmadas. E, então, pensei : sou eu que ainda tenho muito para aprender

Depois de cinco décadas na Índia, a Ir. Bertilla ainda tem um sonho que desejaria ver realizado. «Gostaria que o nosso povo tivesse uma vida melhor», declara a missionária. «Quando percorro estes enormes bairros-de-lata de Bombaim e vejo os barracos onde não há sequer água, o meu coração aperta-se de dor. Há ainda muito a fazer, mas não é fácil. Desde que aqui trabalhamos, conseguimos estabelecer 25 famílias : demos-lhes um espaço para habitar, um quarto decente para viverem uma vida melhor. Fazemo-lo sempre que é possível. No entanto, dos 22 milhões de habitantes de Bombaim, um terço ainda vive em condições deploráveis

Outro tipo de riqueza, contudo, a Ir. Bertilla continua a distribuí-la com abundância. «Uma das coisas mais belas que a Índia me deu foi o Diwali, o Festival da Luz», diz ela a sorrir. «Os hindus celebram-na de acordo com a sua mitologia : a luz conquista a escuridão e as ruas e as casas enchem-se de luzes. Para nós, cristãos, essa celebração ganha um novo significado, pois Jesus Cristo é a luz do mundo. E esta é a mensagem que queremos anunciar a estas pessoas», conclui a missionária.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/700/uma-vida-ao-servico-dos-pobres/

domingo, 26 de agosto de 2018

Franciscanos transformam vagões de trem em convento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
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Quando pensamos em um convento, imaginamos uma construção formada por claustro, pátios, capela e outros espaços. Este não é o caso de um grupo de frades franciscanos no Sul da Itália, que adaptou vagões de trem para o uso religioso.

O convento dos Frades Menores Renovados, conhecido como ‘A estação da alma’, está localizado no bairro de Scampia, uma das regiões mais perigosas e pobres da cidade de Nápoles, Itália.

No local, há cinco vagões que são utilizados como claustro, capela e espaços comuns. Também há um jardim, um contêiner, que foi adaptado para receber as visitas e uma oficina.

O superior do convento, Frei Carlo, disse ao jornal ‘Corriere del Mezzogiorno’ que estes vagões foram doados pela Ferroviária Estatal, que os colocou com gruas no terreno, que foi doado por um morador local.

Nós não escolhemos viver nos vagões, não foi algo programado. Quando chegamos aqui, esperávamos contêineres e enquanto aguardávamos, adaptamos estes vagões abandonados, que datam da década de 40. Era uma situação provisória, mas que se converteu em nosso estilo de vida’, disse à rede de televisão italiana Rai1 outro grupo de frades.

Segundo Frei Carlo, os oito religiosos da comunidade não tem recursos próprios. ‘Não temos dinheiro, sobrevivemos graças a generosidade dos napolitanos que nos trazem comida e dividimos o que nos resta com os necessitados’.

O trem representa o caminho itinerante, mas também a simplicidade e a precariedade’, afirmou o superior ao portal ‘Famiglia Cristiana’.

Com estes valores buscamos recuperar a espiritualidade e os ensinamentos de São Francisco. Também como viajamos constantemente, porque nada é nosso, não podemos fixar raízes em nada’, acrescentou.

Como parte de seu apostolado, os Frades Menores Renovados colaboram com uma paróquia local, onde celebram missas, visitam hospitais, presídios e casas.




  








Aqui sempre nos visitam, vem e pegam o que serve para elas. Também alguns de nossos frades caminham pelo bairro e conhecem a realidade das pessoas da região. Nós tratamos de dar consolo e falar com eles. Especialmente buscamos escutá-los e fazer com que eles vejam a vida com olhos mais cristãos’, expressou o superior da comunidade.

Frei Carlo disse ao ‘Corriere del Mezzogiorno’ que no bairro de Scampia ‘a degradação e o envolvimento com o crime é muito intenso. No entanto, muitos fiéis estão dispostos a sair desta realidade e nos buscam para ter consolo. Alguns gostariam de sair do ‘sistema’, mas poucos conseguem, porque já estão muito envolvidos’.

A Ordem dos Frades Menores Renovados está presente em outras partes da Itália e em países como Colômbia e Tanzânia. Eles não estão ligados à Ordem dos Frades Menores.

Confira reportagem em italiano :


 Fonte :

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Queres ser pobre?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Marta Arrais, 
Professora


Temos cada vez mais frio. O fervilhar que nos queimava a beirinha da pele da alma, que nos fazia querer curar todas as feridas do mundo, foge-nos e arrefece-nos. Temos cada vez mais frio. Amontoam-se coisas que não precisamos nos corredores de tudo o que somos. Compramos o que não nos faz falta para sentir que conseguimos ter algo que nos pertence de verdade, que é nosso. Vamos anoitecendo e arrefecendo perante o espreitar da consciência que nos assegura que estamos cada vez mais perdidos. Ajoelhamo-nos diante do que brilha mas não tem luz. Rendemo-nos ao que nos dá uma amostra de alegria para depois perdermos o riso outra vez. Guardamo-nos de sentir e de amar para proteger as paredes do nosso coração e, com esse escudo vazio, fazemos nascer mais dor. Estamos perdidos. Olhamos como quem procura o que não pode ser visto. Sentado ao nosso lado está Jesus. Põe a mão na nossa. Esgueira o seu coração para mais perto do nosso e espera-nos. Espreita-nos. Não nos diz nada porque os grandes amigos sabem ler as entrelinhas do nosso silêncio. Enterramos a cara nas mãos sujas da tristeza que cultivamos e não encontramos Jesus. Ele, respirando as esperanças que tem em nós, coloca-se à nossa frente e acena com a mão. No centro do seu aceno está cravada a sombra da sua chaga. Atrás do Seu olhar está a luz de um dia de sol. Temos cada vez mais frio. Somos pobres e a nossa fé parece uma roupa rasgada, coçada e triste. Temos tudo e somos pobres. Estamos magros de esperança. Temos fome de luz. Estamos surdos de amor. Amputados nos gestos. Jesus quer-nos pobres de coração, mas quer que vistamos a alma de lavado. Não quer que nos arrastemos dentro das nossas faltas de tudo. Das nossas falsas riquezas. Jesus quer-nos pobres de amor, para que sintamos sempre a falta de amar melhor. Quer que voltemos a ser crianças e que tenhamos saudades do seu colo. Quer que saibamos nascer outra vez quando a vida nos despir de possibilidades e de sonhos. Tudo nos parece incrivelmente difícil. Enrolamos o corpo nas nossas dificuldades e adormecemos a pensar que Jesus fez as malas e partiu de nós. Mas Aquele que nunca desiste embala-nos num sono ausente de medos e feridas e sopra-nos aos ouvidos do coração o mais bonito de todos os segredos :

«Ser pobre é querer ser sempre mais. Ser pobre é querer ter sempre menos. Ser pobre é guardar o perdão no lugar do rancor e da vingança. Ser pobre é querer abrir os braços a quem já nos espera. Ser pobre é ser menino. Que, mesmo tendo tudo, valoriza e ama aquilo que não cabe em lugar nenhum. A alegria de quem nunca se cansa de ser alegre. Ser pobre é continuar a ser tudo mesmo quando já não se tem mais nada.»’


Fonte :
* Artigo na íntegra


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Conexão Haiti (Capítulo 3 de 3)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Novas carreiras : Jacson Casimir trabalha como barman no Vicolo Nostro, 
restaurante italiano no bairro do Brooklin, em São Paulo. 
Ele foi um dos 400 imigrantes haitianos que chegaram à capital paulista 
na primeira semana de abril de 2014.

* Artigo de Kevin Damasio

A jornada de sonhos e dramas do mais novo e crescente
grupo de imigrantes do Brasil


‘De volta ao ônibus, os haitianos tentam descontrair o clima, mas logo as gargalhadas dão lugar ao silêncio. As incertezas são muitas. Onde arrumar emprego. Como ganhar dinheiro suficiente para enviar ao Haiti. Ter moradia razoável. Aprender português. Adaptar-se à nova cidade... Por outro lado, a esperança, que os fez superar a tortuosa rota na mão dos coiotes, reluz nas expressões de cada um. Ainda não sabem como, mas estão perto de se estabelecer no Brasil e poder ajudar os familiares a reconstruir suas vidas.

Mais 2.900 quilômetros de estrada nos aguardam. Angeline Aimable ajeita-se a todo instante na poltrona, sem achar posição confortável. O olhar expressivo reflete a coragem com que essa haitiana de 22 anos, grávida de seis meses, vem viajando desde seu país. Por fim, ela resolve esticar a blusa no chão do corredor e deita de barriga para cima. Descansa assim por meia hora. De São Paulo, Angeline ainda terá de encarar mais oito horas de ônibus até Curitiba, no Paraná, ao encontro do primo.

No começo da noite, estamos na rodoviária de Vilhena, na divisa com o Mato Grosso. Os problemas aparecem. A maioria dos haitianos já não tem dinheiro para comer. Alguns reclamam de fome, outros vão apenas ao banheiro e voltam à plataforma de embarque. A cena persiste no dia seguinte. Em Várzea Grande, dois haitianos perguntam o preço do café com leite em um restaurante, mas não têm os 2 reais. A fome gera, no fim do dia, uma cena de solidariedade : seis grupos de quatro haitianos dividem marmitas. Lembro-me do que muitos haviam me dito : ‘Somos do mesmo país. Somos irmãos’.

Seguimos madrugada adentro. Atravessamos o Mato Grosso do Sul e o interior paulista. A última parada antes do destino final é em Ourinhos. Os imigrantes dominam o banheiro, lavando o rosto e os cabelos com sabonete e xampu na pia. A maioria não tem dinheiro para tomar café, inclusive eu. Na passagem por Boituva, Tertulien Pressoir, de 34 anos, pergunta se já chegamos a São Paulo. Abens Alcy, na poltrona ao lado, quer saber onde estamos. A cena se repete quando passamos por Barueri e por Osasco. Estamos perto. A ansiedade fica clara no silêncio que agora impera. A fome aperta. Abro um pacote de biscoito integral e divido com outros nove haitianos.

Às 2 da tarde, desembarcamos na estação Barra Funda. O alívio por ter chegado ao destino dura pouco. Novos problemas aparecem. Não há ninguém para receber e orientar os imigrantes. Mal pego minha mala no bagageiro e os haitianos se aglomeram ao meu redor com diversas questões. Todos querem saber o que fazer a seguir.

Alguns, para seguir viagem – Campinas, Santa Catarina, Curitiba, Goiânia –, precisam ligar para conhecidos e pedir o número do bilhete de ônibus. Outros vão ficar em São Paulo, em abrigos provisórios ou na casa de conterrâneos. Uma vida nova está prestes a começar. Por fim, vamos todos de metrô para o Centro da capital.

A Casa do Migrante pode abrigar 110 pessoas por noite. De janeiro a setembro deste ano, passaram por ali 3.462 haitianos – no total, em 2013, foram 2.272. Os viajantes recebem alimentação, suporte jurídico, psicológico e de saúde, além de aulas de português e inglês. Paolo Parise, de 47 anos, padre italiano que coordena a Missão Paz, dirige-se aos recém-chegados, acompanhado de um intérprete brasileiro e outro haitiano. Explica que não há espaço para todos dormirem ali, então muitos ficarão no abrigo da prefeitura, do outro lado da rua. Em um salão, todos aguardam para jantar – comida, finalmente.

Uma das maiores preocupações da Missão Paz é evitar que os imigrantes acabem submetidos a empregos suspeitos – não raro em condições análogas à escravidão. Contratantes assim, segundo Paolo Parise, espalham-se pelas portas das estações de metrô na região central de São Paulo. Em agosto, duas operações de fiscais do trabalho, com suporte da polícia, resgataram um grupo de 19 bolivianos e 12 haitianos reféns de tais situações em confecções clandestinas.

Para evitar o problema, a Missão Paz criou o Eixo Trabalho, pelo qual quase 2 mil imigrantes já conseguiram emprego. Em dois dias da semana, empresários vão ao abrigo, onde são orientados sobre o processo de contratação. A equipe da missão exige salários justos, expõe as condições de trabalho e faz o cadastro das empresas. Enquanto isso, os imigrantes assistem a palestras sobre direitos e deveres trabalhistas e são informados sobre as vagas disponíveis. Em seguida, contratantes e imigrantes encontram-se. Após três meses, assistentes sociais visitam as empresas para acompanhar a situação.

Foi assim que Jacson Casimir, de 24 anos, e outros quatro conterrâneos conseguiram vagas em um restaurante italiano de São Paulo. A firma contratante foi fiadora no aluguel de uma casa de três quartos para os haitianos, pagou o primeiro mês de aluguel e comprou para o grupo roupa de cama, toalhas, artigos de higiene, uniformes e sapatos. Os 60 empregados do restaurante doaram quase 2.000 reais, quantia que serviu para a primeira compra de mercado dos imigrantes. Durante 15 dias, um funcionário os acompanhou até o restaurante para ensinar a pegar ônibus. ‘Sou muito grato por tudo isso’, diz Jacson, já em bom português.

Trabalho não é tudo. É preciso ter onde viver, e muitos imigrantes já engrossam as fileiras por demandas habitacionais na cidade. Tertulien Pressoir, que veio no mesmo ônibus que eu desde Rio Branco, alojou-se com sua prima, Nacilia Nacius, em um prédio em frente à Praça da Sé – uma ocupação praticamente só de haitianos, administrada pelo grupo Luta por Moradia Digna. O apartamento tem apenas um cômodo, que serve como quarto, sala e cozinha. O banheiro comunitário fica no corredor.

Nacilia, de 32 anos, veio para o Brasil antes do marido, pela rota ilegal, em janeiro de 2013. Rony Saincilien, de 35, chegou após quatro meses. Falar espanhol os ajudou a aprender português e arrumar emprego – ele em construção civil, ela em uma confeitaria. Recebem, juntos, 2.000 reais e plano de saúde. Para morar na ocupação, pagam 300 reais mensais, quase metade do que lhes custava o aluguel de um apartamento no Cambuci. Os três filhos pequenos do casal ficaram em Cap Haïtien, com os pais de Nacilia – que está grávida de novo. As ligações semanais não são suficientes para diminuir a tristeza, evidente no olhar distante dela ao falar de Ronika, Carly e Hannah.

Saudade. Eis um drama elementar na vida dos imigrantes, mesmo os que concretizam o sonho de se estabelecer no Brasil. ‘Depois que meu filho nascer, vou ganhar documento’, conta Nacilia, referindo-se ao visto permanente. ‘Meu marido então vai poder buscar os outros no Haiti’.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http ://viajeaqui.abril.com.br/materias/imigrantes-haitianos-no-brasil?pw=3

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Conexão Haiti (Capítulo 2 de 3)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Após chegarem em São Paulo, muitos haitianos se encaminham para a 
Casa do Migrante, onde são acolhidos pelo padre Paolo Parise (no centro).

* Artigo de Kevin Damasio

A jornada de sonhos e dramas do mais novo e crescente
grupo de imigrantes do Brasil

‘Apesar dos percalços, os imigrantes seguiram para Lima e depois para Cusco. Ali, os coiotes avisaram que, para continuar, queriam pelo menos mais 50 dólares. Castin convenceu-os de que não tinha. Os peruanos, contudo, permitiram que ele continuasse o percurso sem pagar – pois o espanhol falado pelo haitiano, mesmo ruim, facilitava o diálogo com o resto do grupo.

Em Puerto Maldonado, na Amazônia peruana, Castin passou duas noites em um quarto de hotel barato, compartilhando uma tábua de madeira que servia de cama com duas conterrâneas. O trio juntou 45 novos soles para contratar um táxi capaz de levá-los à fronteira entre Peru e Acre. Por instrução do taxista, passaram a noite em um hotel em Iñapari, cidade fronteiriça e vizinha da acreana Assis Brasil. De manhã, foram até Brasileia. Retiraram o protocolo de refúgio na Polícia Federal e em seguida tomaram uma lotação, ao preço de 25 dólares cada um. Duas horas e meia de estrada depois, chegaram ao abrigo de imigrantes em Rio Branco. Exaustos, famintos e quase sem dinheiro.

O refúgio de Brasiléia, a primeira parada da maioria dos imigrantes até meados deste ano, passou por grandes crises. A pior foi de março a abril de 2014, com a enchente do Rio Madeira – 2 500 estrangeiros ficaram sitiados no precário município de 20 mil habitantes. Aviões da Força Aérea Brasileira levavam mantimentos ao Acre e seguiam para Rondônia com imigrantes, que dali partiam para outros destinos. Em julho, quando Castin chegou ao país, o abrigo oficial acreano havia acabado de ser transferido para a capital Rio Branco, na Aliança, uma chácara com capacidade para abrigar 250 pessoas.

As secretarias estaduais de Desenvolvimento Social (Seds) e de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) alternam a cada semana a coordenação do espaço. Os haitianos dividem-se em dois blocos para homens e um para mulheres. Há ainda um setor para imigrantes de outros países, em grande parte senegaleses, e outro para mulheres grávidas ou com crianças pequenas. A maioria dos estrangeiros fica ali por no máximo 15 dias, o tempo de tirar CPF, carteira de trabalho e se vacinar contra febre amarela, hepatite e tétano. Acompanhantes de jovens e crianças, assim como grávidas, hospedam-se por mais tempo. Café da manhã (pão com manteiga e café com leite), almoço e jantar são financiados pelo governo do Acre. As marmitas são sopa ou refeições tradicionais no Haiti, com arroz e feijão empapados, macarrão ao alho e óleo, legumes cozidos e um tipo de carne, sobretudo frango ensopado.

Como era de esperar, um mercado surgiu no abrigo para atender às demandas dos imigrantes – materiais e emocionais. Na lan house local, meia hora de internet custa 1 real. Negócios mais informais podem ser bem promissores – no dia em que visito o lugar, o senegalês Abdoulahat Lô permite que os imigrantes façam ligações em seu laptop, em troca de 2 reais por minuto. Conheço Charles Pierre Kenny, um haitiano de 27 anos que fala português – aprendeu o idioma quando foi intérprete na Minustah. O objetivo dele é o mesmo de todos : enviar dinheiro à família. ‘No Haiti, se não gastar muito, dá para viver com 200 dólares por mês’, diz. Pai, mãe e irmão ficaram em Porto Príncipe. No terremoto de 2010, a casa deles foi abaixo. A família mora num barraco enquanto, aos poucos, constrói outra casa.

As mulheres gestantes ou com crianças são geralmente haitianas que vieram encontrar parentes já estabelecidos no país. Gaelle Cesar, de 18 anos, grávida de oito meses, insiste na idéia de ir de avião para Santa Catarina, ao encontro da mãe. Precisaria de autorização médica, e por isso Antonio Crispim, coordenador do abrigo, vai levá-la para consulta no dia seguinte. Ela vem conversar comigo. ‘Sou forte. Não tenho problema em viajar. Atravessei do Equador ao Peru em muitos ônibus. Foram sete dias para chegar até aqui. Sei que Deus vai me ajudar’, diz. Sua fé em que tudo vai dar certo funciona. Depois da consulta, ela é autorizada a viajar.

Os imigrantes têm três opções para continuar a viagem : por conta própria, contratados por empresários ou com os ônibus fretados pelo governo acreano para São Paulo. Os destinos variam conforme as ofertas de emprego. Nos dez dias que passo no abrigo, um abatedouro de aves de Paranavaí, no Paraná, recruta 74 haitianos – entre eles, Castin e Kenny – e um frigorífico de suínos de Estrela, no Rio Grande do Sul, leva outros 30.

Um ônibus é confirmado para São Paulo. Um funcionário anuncia a viagem no megafone, e todos correm para entregar os passaportes. As 44 vagas são preenchidas em 15 minutos.

O destino é a estação Barra Funda, na capital paulista. Partimos às 7 da noite. O clima é de alegria e apreensão. A viagem será longa, exaustiva. Nas 66 horas seguintes, vamos encarar 3.800 quilômetros de estrada, com oito paradas de meia hora para comer e usar o banheiro. Quase todos vão para a Casa do Migrante, um projeto coordenado por missionários cristãos que fazem um trabalho assistencialista com os refugiados.

De madrugada, atravessamos de balsa o caudaloso Rio Madeira, que separa Acre e Rondônia. Às 5 da madrugada, chegamos a Porto Velho. Mudamos para um ônibus mais apertado, porém em bom estado. Eu me acomodo em uma poltrona no meio do veículo e caio no sono. Duas horas depois, fazemos a primeira parada do dia. Na lanchonete, os haitianos refestelam-se com fatias de pão caseiro com manteiga derretida. Café com leite aquece do frio matinal.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http ://viajeaqui.abril.com.br/materias/imigrantes-haitianos-no-brasil?pw=2