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quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Shevchuk: a Grande Fome queria matar desejo de liberdade dos ucranianos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Pessoa coloca trigo diante da estátua da 'Memória Amarga da Infância', de Petro Drozdowsky, no complexo do Genocídio Holodomor do Museu Nacional em Kiev. (Photo by Oleg Petrasyuk)

*Artigo de Svyatoslav +

Pai e Primaz da Igreja Greco-Católica Ucraniana


‘‘Transcorre a 93ª semana da grande guerra que o ocupante russo trouxe à nossa pacífica terra ucraniana. Ao longo de toda a linha da frente, a tensão nos combates persiste sem tréguas. O inimigo bombardeia constantemente cidades e aldeias ao longo das fronteiras das nossas regiões de Chernihiv, Sumy e Kharkiv. Onde quer que possa estender a sua mão assassina, o inimigo continua a atacar as pacíficas cidades e aldeias da Ucrânia.

No Dia da Memória do Holodomor, quando a Ucrânia recorda o 90º aniversário da grande fome e do genocídio, a nossa cidade, Kiev, a nossa capital, foi palco do mais massivo ataque de drones na história da guerra. Esta luta atual, este confronto com o mal que a Ucrânia trava hoje, tem todos os sinais de uma batalha espiritual.

Sabemos que na guerra espiritual, quando uma pessoa que crê enfrenta as forças do mal, essas forças podem ser extremamente poderosas e o seu ataque pode ser intensamente forte. No entanto, a vitória contra o mal é definida como resiliência. Vence quem não se rende. Vence quem não abaixa as mãos. Vence quem resiste neste confronto.

Não podemos destruir os espíritos do mal nos espaços celestiais, mas podemos opor-nos ao seu ataque, que nunca é eterno, nem sempre forte, mas temporário. Observamos hoje uma situação semelhante na Ucrânia. O inimigo quer desgastar o nosso povo, quer nos fazer perder a fé, nos desanimar e deseja a nossa rendição. No entanto, a Igreja ucraniana, as nossas Igrejas e organizações religiosas permanecem como portadoras de esperança. Levamos conosco Cristo, que é a fonte da resiliência do nosso povo. É por esta razão que resistiremos como nação, como Estado, como povo de Deus. Hoje, queremos dizer a nós mesmos e ao mundo inteiro : a Ucrânia resiste, a Ucrânia luta, a Ucrânia reza!

Noventa anos desde a grande carestia e genocídio na Ucrânia. Esta última é uma data triste e dolorosa. O regime de Stalin matou mais de sete milhões de ucranianos pela fome artificial. Esta carestia era artificial porque, embora as terras ucranianas tivessem produzido colheitas abundantes naquele ano, as autoridades soviéticas confiscaram tudo.

Esta carestia foi um verdadeiro genocídio, uma vez que o Estado tinha a intenção deliberada de matar os ucranianos como nação, como povo, como cultura. A Grande Fome teve como objetivo não apenas matar o corpo, mas também semear um medo paralisante em relação ao desejo de liberdade.

A Grande Fome tinha por objetivo matar permanentemente o desejo dos ucranianos de serem eles mesmos, o desejo de serem pessoas livres.

E, infelizmente, esse trauma, que é um trauma espiritual, assim como um trauma psicológico, tem a propriedade inerente de ser transmitido de geração em geração. E, infelizmente, constitui uma parte da nossa situação atual, da nossa identidade, a de uma nação pós-genocídio. É por isso que hoje é tão importante lembrar e homenagear aqueles que foram inocentemente mortos pela fome na Ucrânia.

Mas este ato de recordação e comemoração tem um efeito terapêutico e curativo. A recordação nos liberta. A memória nos faz compreender que ser nós mesmos não só é possível, mas também necessário. Não somente é legítimo desejar a liberdade, mas o Senhor Deus nos dá esta liberdade como seu dom. O dom da dignidade, o dom da liberdade. É por isso que os ucranianos estão profundamente gratos a todos aqueles que hoje, juntamente connosco, prestam homenagem às vítimas desta grande catástrofe, que tocou os próprios alicerces da humanidade.

Este trauma superou em muito as fronteiras do povo ucraniano. Estamos gratos a todos os países que reconhecem o Holodomor como um genocídio. Mais de trinta nações em todo o mundo já comemoram esta ferida e a dor da Ucrânia.

Podemos observar que a atual guerra que a Rússia está travando contra a Ucrânia tem todos os indicadores de um genocídio. A Rússia pretende subjugar mais uma vez a Ucrânia como a sua antiga colônia e extinguir o próprio desejo de liberdade do povo ucraniano. Pretende suprimir esta capacidade de liberdade nos ucranianos. Contudo, vemos que a Ucrânia não foi aniquilada há 90 anos e a Ucrânia não se rende. Continuará a resistir também hoje.

Apelo a todas as pessoas de boa vontade em todo o mundo. Dirijo-me a todos aqueles que atualmente têm o que comer e que, durante este inverno, vivem em condições confortáveis ​​e quentes. Convido-vos a pensar nos sete milhões de ucranianos que necessitarão de assistência imediata para se alimentarem e manterem aquecidos neste Inverno. O Holodomor de 90 anos atrás e a guerra em curso na Ucrânia hoje são ambos causados ​​pelo mesmo mal : o insaciável imperialismo russo.

Vamos unir forças e juntos deter o mal. Permaneçamos unidos na luta contra as forças do mal, naquela que é uma batalha espiritual. Porque a batalha da Ucrânia hoje é uma luta pela liberdade humana em todos os países, em todas as culturas e entre todos os povos.

Deus, proteja a Ucrânia. Deus, cure a ferida do nosso povo. Esta ferida, que hoje completa 90 anos, mas também este trauma, infligido ao nosso povo por esta cruel guerra de longa duração. Deus, abençoe as crianças da Ucrânia. Dê-nos forças para não nos cansarmos. Dá-nos forças para resistir, porque sabemos que o mal pode ser derrotado não pelo poder humano, mas apenas pelo poder de Deus. Portanto, Deus, abençoe a Ucrânia com a tua justa paz celestial.’’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-11/ucrania-mensagem-arcebispo-greco-catolico-kiev-93-semana-guerra.html


terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Parlamento Europeu reconhece Holodomor como genocídio

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo da Vatican News


Holodomor é o nome dado à fome que foi provocada no território da Ucrânia de 1932 a 1933 pela antiga URSS (União das Repúblicas Soviéticas Socialistas), que causou várias milhões de mortes. O termo deriva da expressão ucraniana moryty holodom, combinando as palavras ucranianas holod (fome, carestia) e moryty, (matar de fome, esgotar), e a combinação das duas palavras visa destacar a intenção de provocar a morte pela fome.


‘O Parlamento Europeu reconheceu nesta quinta-feira, 15, como genocídio o Holodomor, a fome na Ucrânia causada pela União Soviética há 90 anos, que resultou na morte de vários milhões de pessoas.

‘Felicito o Parlamento Europeu pelo reconhecimento do Holodomor como um genocídio do povo ucraniano’, escreveu o presidente ucraniano Volodymyr Zelesnky no Twitter após o anúncio da decisão da União Europeia. ‘Estou grato à presidente Roberta Metsola’, escreveu ele no tweet, ‘aos eurodeputados e a toda a Europa unida por esta importante e justa decisão’, ‘espero um ulterior reconhecimento do Holodomor como um genocídio por parte de todos os países civilizados do mundo’.

Num texto votado quase por unanimidade (507 votos a favor, 12 votos contra e 17 abstenções), os eurodeputados reunidos em Estrasburgo consideram que o Holodomor (extermínio pela fome, em ucraniano) foi cometido ‘pelo regime soviético com a intenção de destruir um grupo de pessoas impondo deliberadamente condições de vida que conduzem inexoravelmente à sua aniquilação física’.

‘Os atuais crimes russos na Ucrânia são uma reminiscência do passado’, insistiu em um comunicado de imprensa o Parlamento Europeu, que na quarta-feira em Estrasburgo entregou seu Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento ao povo ucraniano, que luta contra a invasão da Rússia.

Os parlamentares pedem a ‘todos os países e organizações’ que também reconheçam esta fome como genocídio diante de um ‘regime russo que manipula a memória histórica para sua própria sobrevivência’.

Na Audiência Geral de 23 de novembro, ao rezar pela paz no mundo e pelo fim de todos os conflitos, o Papa Francisco havia recordado o aniversário ‘do terrível genocídio do Holodomor, o extermínio pela fome em 1932-33 causado artificialmente por Stalin. Rezemos pelas vítimas deste genocídio e rezemos por tantos ucranianos, crianças, mulheres e idosos, crianças, que hoje sofrem o martírio da agressão.’

Chamada de ‘o celeiro da Europa’ pela fertilidade de seus solos negros, a Ucrânia perdeu de quatro a oito milhões de habitantes na grande fome de 1932-1933, em um cenário de coletivização de terras, orquestrada segundo historiadores por Stalin para reprimir qualquer nacionalista e separatista desejo neste país, então uma república soviética.

A Ucrânia faz campanha há anos para que o Holodomor seja oficialmente reconhecido como genocídio, um conceito cunhado durante a Segunda Guerra Mundial.

A Rússia nega categoricamente tal classificação, argumentando que a grande fome que assolou a União Soviética no início dos anos 1930 causou não apenas vítimas ucranianas, mas também russas, cazaques, alemães do Volga e membros de outros povos.

A Alemanha, que em novembro também reconheceu o Holodomor como genocídio, foi acusada por Moscou de ‘demonizar’ a Rússia.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2022-12/parlamento-europeu-reconhece-holodomor-gucrania-enocidio.html

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Shevchuk: guerra não impede o Natal. Parar de nos matar é o primeiro passo para a paz

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Salvatore Cernuzio,

enviado a Kiev (Ucrânia)


‘‘Parar as ações militares, deixar de nos matar, este será o primeiro passo para uma paz autêntica e duradoura. A paz é algo mais profundo do que a ausência de guerra. Não se trata apenas de vencer a guerra, mas de vencer o próprio espírito da guerra, vencê-la nas suas causas’.

Enquanto pronuncia mais um premente apelo sincero pela Ucrânia e seu povo, na estante atrás do arcebispo-mor de Kiev-Halyč, Sviatoslav Shevchuk, há um capacete e um colete à prova de balas. ‘Sinta o quanto eles pesam... no início costumávamos usá-los todos os dias. Alguém brincava : são as novas vestes litúrgicas!’, conta o chefe da Igreja Greco-Católica ucraniana aos jornalistas em missão nas Embaixadas junto à Santa Sé da Polônia e Ucrânia, que recebe no arcebispado com biscoitos e café.

A alegria do natal 

Muita coisa mudou desde aqueles primeiros dias terríveis no final de fevereiro da agressão russa na Ucrânia em que, diz Shevchuk apontando para uma janela : ‘dali se via descer uma chuva de fogo’. Ele próprio havia se refugiado com centenas de pessoas na cripta da Catedral da Ressurreição. Hoje ele fala mais relaxado. O seu pensamento dirige-se sobretudo para a chegada do Natal : ‘Temos o costume de entoar cânticos natalícios aos nossos próximos, especialmente aos mais necessitados, para partilhar alegria e as felicitações. Todos agora perguntam : haverá alegria de Natal, será permitido cantar ou devemos estar calados e chorar? Eu disse sim e sim, vai ter Natal. Temos o direito de celebrar a alegria natalina que não vem da diversão profana, mas do Céu porque vai nascer o Príncipe da Paz’.

Festa no front e em abrigos 

Essas festividades chegarão até o front. De fato, haverá alguém que cantará para os soldados engajados nas linhas de combate, anuncia Shevchuk. ‘Na época soviética – recorda – as canções natalinas eram uma forma de protesto contra o regime comunista ateu. As pessoas cantavam para superar ansiedades e tristezas. Os cantos são uma expressão da fé cristã, são uma catequese que canta o nascimento de Jesus, por isso muitos se preparam para ir cantar com os nossos soldados na fronteira. Sei que vários estudantes estão se organizando’. A mesma festa será realizada em todos os abrigos antiaéreos e em todos os abrigos : ‘Celebraremos o Natal no frio e no escuro. Isso nos fará experimentar na pele a história da Sagrada Família, também no frio e no escuro, mas com uma alegria celestial’.

Não se acostumar com isso 

É, portanto, uma mensagem de esperança que o líder greco-católico quer difundir em meio aos ataques na Ucrânia e à libertação de muitas cidades. ‘Sim, mas você tem que ter cuidado. Quando você ouve o alarme de ataque aéreo, não se dá mais muita atenção. Isso demonstra que o perigo não diminui, mas as pessoas se acostumam psicologicamente. É um risco, porque agora temos o fenômeno dos mísseis. Eles podem cair em qualquer lugar, tanto em Kiev como em Lviv. Não há lugar seguro na Ucrânia.’

A emergência do frio 

Diante da eventualidade, porém, é mais urgente lidar com as emergências. E a primeira no momento para a Ucrânia devastada pela guerra é o frio e a incapacidade de se aquecer devido a picos de corrente e racionamento de eletricidade. ‘O frio é a causa da quinta onda de deslocados internos’, explica Shevchuk. ‘Desde o início da guerra, primeiro os oligarcas pegavam o dinheiro e fugiam, depois aqueles que, com seus próprios meios, encontravam hotéis e outros lugares e ainda as pessoas sem nada que fugiam de mãos vazias. Penso na família da cidade de Boryspil', que caminhou descalça à noite 23 km, junto com seus filhos. Por fim, houve uma quarta leva de refugiados que não foi muito longe, mas procurou o primeiro povoado e esperou o momento de voltar para casa. Agora a nova onda, a quinta : os refugiados termais que fogem não da guerra, mas do frio e lotam o centro-leste da Ucrânia’.

Uma cozinha no subsolo da casa do arcebispo 

‘Não estávamos preparados para o fenômeno da falta de eletricidade e da necessidade de alimentar tanta gente’, diz Shevchuk. ‘De imediato, tomamos medidas para construir cozinhas para oferecer refeições quentes.’ Uma cozinha será construída logo abaixo de sua casa : ‘Em poucos dias ficará pronta, temos que organizar a logística de distribuição dos alimentos. Como Igreja não podemos pensar em alimentar a todos, mas tentamos receber todos que podemos. É o nosso cuidado pastoral’. Uma pastoral de proximidade.

Mensagens diárias de vídeo 

É precisamente essa proximidade que levou Shevchuk, todos os dias desde 24 de fevereiro, a produzir uma mensagem em vídeo divulgada na web. Uma iniciativa exigente, cuja origem o responsável da Igreja Greco-Católica assim explica : ‘No primeiro dia todos estavam desorientados, viam-se helicópteros russos e fogos do céu, o mundo inteiro começou a chamar-me : estão vivos? Onde estão? O que fazem? Não sabia o que dizer : não sei se estarei vivo daqui a duas horas, pensava. Então eu disse para o secretário : vamos produzir uma mensagem para confirmar que estamos vivos. Percebi que com essas mensagens eu poderia ajudar as pessoas a racionalizar o medo e falar sobre a esperança que vem da fé. Depois de 2-3 semanas, eu me perguntei : vale a pena? Então, um dia, fui à atormentada cidade de Zhytomyr e em uma paróquia uma idosa se aproximou de mim para dizer : 'Vivemos em constante terror, temos medo, é bom que fales conosco'. 'Mas, senhora, eu não sei mais o que dizer a vocês!'. 'Não importa o que dizes, importa que fales conosco'. Então compreendi que mesmo que não soubesse mais o que dizer, é importante que as pessoas ouçam a voz da própria Igreja que as acompanha’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2022-12/ucrania-natal-guerra-sviatoslav-schevchuk.html