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quarta-feira, 1 de abril de 2026

O pórtico da Paixão: devoções para o início da Semana Santa

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Rodrigo Rios

 

‘Com o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, inicia-se a Semana Maior. Nela, somos convidados a adentrar profundamente no mistério da Redenção, assim como Jesus entrou em Jerusalém. É fundamental recordar que a Quaresma ainda não se findou; por isso, o espírito de penitência permanece presente, manifestado liturgicamente pela cor roxa e pelo silêncio meditativo.

Os três dias que antecedem o Tríduo Pascal não constituem um mero intervalo, mas um período de ascese e preparação. Historicamente, esses eram os momentos finais de purificação dos catecúmenos que seriam batizados na Vigília Pascal. Ao rememorarmos essa tradição, somos impelidos a buscar práticas que nos tornem mais puros, preparando nosso ‘traje de festa’, a veste batismal da alma, para a grande Solenidade das solenidades.

Em muitas comunidades, o povo fiel cultiva devoções que enriquecem a compreensão dos mistérios da salvação. Destaco aqui algumas das mais significativas.

O Terço ou Coroa das sete dores de Nossa Senhora 

Esta prática conduz-nos à meditação desde a profecia de Simeão até o sepultamento de Cristo que muito fez doer o coração de Nossa Senhora. A Virgem Maria esteve presente de modo único junto à Cruz. Por isso, unir-se às suas dores é o caminho mais curto para consolar o coração de Cristo.

A procissão do encontro 

Uma das expressões mais belas da religiosidade popular luso-brasileira. Geralmente, a imagem do Senhor dos Passos (Jesus carregando a cruz) e a de Nossa Senhora das Dores partem de lugares distintos para se encontrarem em um ponto central. Tradicionalmente, os homens acompanham o Senhor dos Passos e as mulheres seguem a Virgem. Esse rito rememora o doloroso encontro entre Mãe e Filho na Via dDolorosa, movendo os fiéis à contrição.

Sermão das Sete Palavras 

Trata-se de uma profunda meditação sobre a agonia de Cristo através das sete últimas expressões ditas por Ele na Cruz. É uma síntese harmônica dos quatro Evangelhos que revela o testamento de amor e misericórdia do Redentor.

O Ofício das Trevas (Tenebrae) 

Uma das cerimônias mais impressionantes e psicologicamente densas da tradição cristã. Durante o canto dos salmos, as velas do candelabro são apagadas uma a uma, simbolizando o abandono sofrido por Jesus. O uso das matracas ao final, o chamado Strepitus, evoca o terremoto e a desolação da natureza diante da morte do seu redentor. A última vela, que permanece acesa, mas é momentaneamente escondida, representa a divindade de Cristo que, embora oculta na morte, jamais se apaga.

Outras práticas 

Além dessas práticas, o fiel dispõe da Via Sacra, do rosário, das meditações espirituais dos santos, das orações e de tantas outras. O essencial é não perder de vista o sentido destes dias: cada exercício espiritual deve ser um tijolo no edifício espiritual que estamos construindo, permitindo-nos participar do mistério pascal com renovado fervor. Procedendo assim, seremos capazes de tocar a totalidade deste mistério que nos salva.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-03/portico-paixao-devocoes-inicio-semana-santa0.html

 

sábado, 23 de março de 2024

9 coisas que deve saber sobre o Domingo de Ramos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Redação da ACIDIGITAL


O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa comemorando não um, mas dois acontecimentos muito significativos na vida de Cristo.

Aqui estão as 9 coisas que você precisa saber sobre essa data.

1. Este dia é chamado de ‘Domingo de Ramos’ ou ‘Domingo da Paixão’

O primeiro nome vem do fato de se comemorar a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, quando a multidão o recebeu com ramos de palmas (João 12, 13).

O segundo nome provém do relato da Paixão que é lido neste domingo, porque de outro modo não seria lido em um domingo, já que no próximo a leitura tratará da Ressurreição.

Segundo a carta circular do Vaticano sobre ‘A Preparação e Celebração das Festas Pascais’ de 1988, o Domingo de Ramos ‘une num todo o triunfo real de Cristo e o anúncio da paixão. Na celebração e na catequese deste dia sejam postos em evidência estes dois aspectos do mistério pascal’.

2. Ocorre uma procissão antes da Missa

A procissão pode ocorrer apenas uma vez, antes da Missa. Pode ser tanto no sábado, como no domingo.

‘Desde a antiguidade se comemora a entrada do Senhor em Jerusalém com a procissão solene, com a qual os cristãos celebram este evento, imitando as aclamações e os gestos das crianças hebreias, que foram ao encontro do Senhor com o canto do Hosana’, detalha a carta das celebrações da Páscoa.

3. Pode-se levar palmas ou outros tipos de plantas na procissão

Não é necessário usar folhas de palmeira na procissão, também podem utilizar outros tipos de plantas locais, como oliveiras, salgueiros, abetos ou outras árvores.

De acordo com o Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia : ‘Os fiéis gostam de conservar em suas casas, e às vezes no local de trabalho, os ramos de oliveira ou de outras árvores, que foram abençoados e levados na procissão’.

4. Os fiéis devem ser instruídos sobre a celebração

De acordo com o Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia, ‘os fiéis devem ser instruídos sobre o significado desta celebração para que possam compreender seu significado’.

‘Deve ser lembrado, oportunamente, que o importante é a participação na procissão e não só a obtenção das folhas de palmeira ou de oliveira’, que também não devem ser conservadas ‘como amuletos, nem por razões terapêuticas ou mágicas para afastar os maus espíritos ou para evitar os danos que causam nos campos ou nas casas’, indica o texto.

5. Jesus reivindica o direito dos reis na entrada triunfal em Jerusalém

O Papa Emérito Bento XVI explica em seu livro ‘Jesus de Nazaré : Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição’ que Jesus Cristo reivindicou o direito régio, conhecido em toda a antiguidade, da requisição de meios de transporte particulares. 

O uso de um animal (o burro) sobre o qual ninguém havia montado é mais um indicador do direito régio. Jesus queria que seu caminho e suas ações fossem compreendidos com base nas promessas do Antigo Testamento que nele se tornaram realidade.

‘Ao mesmo tempo, esse atrelamento a Zacarias 9,9 exclui uma interpretação ‘zelota’ da sua realeza : Jesus não Se apoia na violência, não começa uma insurreição militar contra Roma. O seu poder é de caráter diferente; é na pobreza de Deus, na paz de Deus que Ele individualiza o único poder salvador’, detalha o livro.

6. Os peregrinos reconheceram Jesus como seu rei messiânico

Bento XVI também assinala que o fato de os peregrinos estenderem suas capas no chão para que Jesus caminhe também ‘pertence à tradição da realeza israelita (2 Reis 9, 13)’.

‘A ação realizada pelos discípulos é um gesto de entronização na tradição da realeza davídica e, consequentemente, na esperança messiânica’, diz o texto.

Os peregrinos, continua, ‘cortam ramos das árvores e gritam palavras do Salmo 118 – palavras de oração da liturgia dos peregrinos de Israel – que nos seus lábios se tornam uma proclamação messiânica : ‘Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem do nosso pai Davi! Hosana no mais alto dos céus!’ (Mc 11, 9-10; cf. Salmos 118, 26)’.

7. ‘Hosana’ é um grito de alegria e uma oração profética

No tempo de Jesus essa palavra tinha significado messiânico. Na aclamação de Hosana se expressam as emoções dos peregrinos que acompanham Jesus e seus discípulos : o jubiloso louvor a Deus no momento da entrada processional, a esperança de que tivesse chegado a hora do Messias.

Ao mesmo tempo, era uma oração que indicava que o reino davídico e, portanto, o reino de Deus sobre Israel, seria restaurado.

8. A multidão que aplaudiu a chegada de Jesus não é a mesma que exigiu sua crucificação

Em seu livro, Bento XVI afirma que, os três Evangelhos sinóticos, assim como o de São João, mostram claramente que aqueles que aplaudiram Jesus na sua entrada em Jerusalém não eram seus habitantes, mas as multidões que acompanhavam Jesus e entraram na Cidade Santa com ele.

Este ponto é mais claro no relato de Mateus, na passagem depois do Hosana dirigido a Jesus : ‘E entrando em Jerusalém, a cidade inteira agitou-se e dizia : ‘Quem é este?’. A isso as multidões respondiam : ‘Este é o profeta Jesus, o de Nazaré de Galileia’’ (Mt 21, 10-11).

As pessoas tinham escutado falar do profeta de Nazaré, mas isso não parecia importar para Jerusalém, e as pessoas de lá não o conheciam.

9. O relato da Paixão desfruta de uma solenidade especial na liturgia

A Carta das Celebrações das Festas Pascais diz o seguinte no número 33

‘É aconselhável que seja cantada ou lida segundo o modo tradicional, isto é, por três pessoas que representam a parte de Cristo, do cronista e do povo. A Passio é cantada ou lida pelos diáconos ou sacerdotes ou, na falta deles, pelos leitores; neste caso, a parte de Cristo deve ser reservada ao sacerdote’.

A proclamação da paixão é feita sem os portadores de castiçais, sem incenso, sem a saudação ao povo e sem o toque no livro; só os diáconos pedem a bênção do sacerdote.

‘Para o bem espiritual dos fiéis, é oportuno que a história da Paixão seja lida integralmente sem omitir as leituras que a precedem’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.acidigital.com/noticia/47652/9-coisas-que-deve-saber-sobre-o-domingo-de-ramos

quinta-feira, 1 de abril de 2021

A Paixão de Cristo analisada por um médico católico

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de J-P Mauro,

escritor


‘O médico católico Timothy Millea examinou as últimas 18 horas da vida de Jesus e a tensão a que seu corpo foi submetido durante a Paixão e Crucificação. O cirurgião católico determinou, a partir dos relatos dos Evangelhos e das imagens do Sudário Turim – supostamente a mortalha de Cristo – que a causa mais provável de sua morte foi a perda de sangue. As informações foram dadas em uma palestra nos Estados Unidos.

Catholic News Service relata que, de acordo com o médico, o corpo humano contém cerca de 5 litros de sangue, e que perder apenas 40% deste volume o coloca em risco de choque hipovolêmico, uma condição com risco de vida. Depois de uma noite inteira de espancamentos, flagelação e sua derradeira Crucificação, Jesus provavelmente tenha ultrapassado esse limiar.

Cristo se esvaziou. Como cirurgião, digo que uma palavra deixa nosso cabelo em pé : sangrar. Se você não consegue parar um sangramento, não conseguirá manter o paciente vivo’, disse o doutor Millea.

Algumas pessoas perguntam : Jesus realmente morreu de fatores físicos, ou ele – como Deus – disse : ‘OK, meu trabalho está feito’. Como ele viveu esse tempo é um dos maiores mistérios divinos’, acrescentou o cirurgião.

O médico explicou que seu interesse pelo assunto – a causa da morte de Cristo – surgiu quando ele leu um artigo de 1986 sobre a morte física de Jesus Cristo no Jornal da Associação Médica Americana. Em sua pesquisa sobre o assunto, descobriu que essa discussão vem ocorrendo desde o século XVI.

Depois de vários estudos, o cirurgião concluiu que o homem do Sudário de Turim pesava cerca de 79 quilos. Apesar de a tradição nos dizer que Jesus foi açoitado 39 vezes, para o especialista a imagem no Sudário exibe quase 400 feridas – e todas sangravam no dia da morte.

Os romanos provavelmente usaram um flagrum, um tipo de chicote feito de cordões de couro de 2 metros de comprimento com objetos de metal, vidro quebrado e bolas de chumbo. Cada golpe do chicote tinha o potencial de deixar dezenas de feridas. ‘Foi um meio diabolicamente eficaz de atingir os tecidos até a profundidade muscular’, disse Millea.

A coroa de espinhos também poderia ter provocado muitas feridas. ‘Toda vez que os soldados acertavam os espinhos, eles penetravam no couro cabeludo. Se você já teve um corte no seu couro cabeludo, você sabe que isso faz você sangrar como um louco’, lembrou o médico.

Sobre a cruz, Millea afirmou que Jesus provavelmente só estava carregando a trave, já que a cruz inteira seria muito pesada. Ele disse : ‘Você tem um homem de 79 quilos que foi espancado, está sangrando, não comeu, dormiu ou bebeu nada e vai conseguir carregar mais de 100 quilos? Ele caiu três vezes? É um milagre que ele não tenha caído mais’, acrescentou o especialista.

Mais perda de sangue ocorreu quando Jesus foi pregado pelos pulsos. Millea observa que os pregos não teriam sido passado pelas mãos, pois não seriam capazes de suportar o peso do crucificado.

Millea também lembrou que outros médicos e historiadores especulam que a morte de Cristo poderia ter sido causada por asfixia (porque a respiração era muito difícil na cruz) ou mesmo por um ataque cardíaco após passar por um trauma tão intenso durante tanto tempo.

Mas o cirurgião disse que a perda de sangue não é apenas uma explicação médica para a morte de Jesus, mas também uma explicação bíblica. Os cordeiros abatidos no Antigo Testamento podem ser uma referência a Jesus, pois a causa da morte dos animais era também a perda de sangue.

Por fim, ele descreveu os eventos da Paixão e Morte de Jesus como ‘uma história trágica, uma história horrível, uma história dolorosa’, mas ao terminar sua apresentação, o médico mostrou uma imagem do Cristo ressuscitado, lembrando ao público que ‘essa história não termina como nós terminamos esta apresentação nesta noite’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2019/04/15/a-paixao-de-cristo-analisada-por-um-medico-catolico/

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Paixão de Cristo em Imagens: a história da Via Sacra


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 As representações da Via Crucis são presentes em todas as Igrejas do mundo.
*Artigo de Josette Saint-Martin
Tradução : Ramón Lara


A origem da Via Sacra funde-se com a peregrinação dos primeiros cristãos a Jerusalém. O mais antigo testemunho conhecido é o de Éteria (1), um nobre da Galícia, Espanha, que, no século IV, visitou os lugares santos e participou de liturgias locais. Quatro períodos marcaram a evolução dessa devoção.



O século XV marca o início da iconografia da 'Via Sacra'

A partir do século XV, um ponto de viragem surgiu com o desenvolvimento da devoção às ‘quedas da paixão’ ou, na Alemanha e nos Países Baixos, ‘quedas sob a cruz’. Além disso, na Alemanha e em Roma, as ‘quedas de Cristo’ são veneradas, às vezes, seguindo um caminho marcado de colunas erguidas e levando a uma Igreja.

Muitos Calvários florescem na Europa, caminhos devocionais que constituem a forma primitiva da Via Sacra. Se há uma queda, há uma parada e ao mesmo tempo aparece a devoção às Estações de Cristo cujo número varia de seis a dezoito em certos casos. A diversidade também prevalece também no caminho proposto, que pode começar com a despedida de Jesus de sua mãe, no Jardim das Oliveiras ou, em outros casos, com a aparição de Jesus diante de Pilatos. A iconografia da Via Sacra começa a tomar forma neste momento. Adam Kraft erigiu entre 1477 e 1508, em Nuremberg, a pedido de um burguês em retorno de Jerusalém, sete estações terminando com uma dedicada à Nossa Senhora da Piedade. Por outro lado, em sua peregrinação espiritual, a carmelita flamenga Jan Pascha(2) menciona catorze estações.

No século XVI, o comerciante de tecidos Romanet Boffin, que morava em parte do que era o Império Romano, descobriu a Via Sacra de sete estações de Freiburg e decidiu erguer um similar em sua cidade. No século XVII, na França, por outro lado, encontramos um dos lugares com mais devoção às estações da Via Sacra, Mont-Valérien, com suas capelas marcando 11 estações.


Enquanto as Estações da Cruz ainda existem em uma estrutura de doze paradas, uma nova proposta com catorze começou a ganhar terreno no século XVIII. O trabalho do cientista holandês Andrichomius(3), baseado na Terra Santa, contribuiu grandemente para a harmonização do número delas. Com o apoio de Clemente XII, que em 1731 fixou o número de catorze, esta fórmula das Estações da Cruz foi difundida nas igrejas paroquiais e os conventos franciscanos a adotaram. Um dos seus grandes promotores foi São Leonardo de Port Maurice, falecido em 1751, que estabeleceu uma estação em cada lugar onde pregava em missão, sendo a mais famosa as Estações da Cruz do Coliseu, abençoada em 1750.

Uma prática que se espalha na França no século XIX

No século XIX, a prática se espalhou sob a Restauração, quando os missionários investem no campo da pastoral em uma população muito descristianizada após a Revolução Francesa. É neste momento que o caminho que começa com o julgamento e termina com a sepultura de Cristo, é introduzido na França, através de padres, imigrantes da Itália na época da Revolução, e que depois voltaram para a França.


As representações figurativas se cruzam na história e são o resultante, por um lado, de peregrinações à Terra Santa e, por outro lado, de imitações popular destas peregrinações, mas também da harmonização e equilíbrio realizado por estudiosos. Os Mistérios rezados no coro da igreja como o Mysterium resurrectionnis de Jesus Cristo, também contribuíram para familiarizar as pessoas e artistas nessas imagens que catequizavam visualmente os espectadores da Idade Média sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Assim, a evolução das representações de cenas da Paixão de Cristo seguiu a sensibilidade cristã e a Cruz permanece hoje como uma apresentação estruturada em torno de dois polos : A meditação sobre a Paixão e os passos de Jesus acompanhado por um meio visual diretamente acessível que joga com a sensibilidade e a fé, a memória e a consciência, do povo fiel ao amor de Cristo.’


(1) - Hervé Savon, « Égérie, Journal de voyage (Itinéraire) », Introduction, texte critique, traduction, notes, index et cartes par Maraval (Pierre) in Revue belge de philologie et d'histoire, tome 65, fasc. 1, 1987.
(2) - Jan Pascha, Pérégrination spirituelle, Louvain, Vincent et Abel, 1563, p.630.
(3) - Adrichem (van) Christiaan ou Andrichomius, Theatrum Terrae Sanctae et biblicarum historiarum cum tabulis geographicis aere expressis, Cologne, In Officina Birckmannica, 1613.


Fonte :

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Viver ressuscitados

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Bernardino Frutuoso,
Jornalista


‘Celebramos o mistério salvífico da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Tempo privilegiado em que fazemos memória viva do amor incondicional e libertador de Jesus de Nazaré. Ele é condenado à morte depois de um processo político-religioso e, na lógica do dom, aceita morrer na cruz, como um excluído. Mas esse madeiro, paradoxalmente, deixa de ser símbolo de derrota, fraqueza e morte e converte-se num kairós, um sinal de vida que remete ao futuro. Deus, contrariando a vitória fatal que a morte parece ter na História, em fidelidade à aliança de amor com a humanidade, ressuscita o crucificado.

Na pessoa de Jesus Cristo e na sua ressurreição triunfa o princípio da vida e todas as virtualidades escondidas no ser humano explodiram e implodiram numa surpreendente e absoluta realização. Como declara São Paulo (1Cor 15, 45), Jesus é o «novo Adão», Senhor da História, e a sua ressurreição toca tudo e todos. A humanidade, a Terra e o próprio Universo são transfigurados. Assim, os crentes afirmamos com fé e esperança cristãs que morremos para viver mais, melhor e para sempre, percebendo que «a morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto», como expressa belamente Fernando Pessoa.

A ressurreição, fundamento central da fé cristã, no entanto, não é só um assunto escatológico, uma esperança futura; irrompe na nossa história e impele-nos a aceitar Jesus e a configurar-nos com Ele no hoje do nosso quotidiano. É o crucificado-ressuscitado quem nos indica esse caminho de metanóia. Apresenta-se e convive com as mulheres e homens seus seguidores, aquece o seu coração com a sua proximidade, palavras e gestos. Essa experiência de amor pós-pascal confirma os discípulos na fé e dá-lhes força para assimilar a boa notícia de Jesus. Partem, por isso, em missão, anunciando o Reino da Vida a todos os povos da Terra e, por essa esperança invencível na ressurreição, sem a qual a nossa fé seria vã, são perseguidos e martirizados.

Ser cristão é acolher o Espírito do ressuscitado e peregrinar, no aqui e agora da História, como audazes e alegres discípulos missionários. Se vivemos no coração de Deus, estamos chamados como Jesus a entregar a vida como um dom e a continuar o seu projeto, comprometendo-nos ativamente em favor do bem, a fraternidade, o amor, a justiça, a misericórdia, a solidariedade, a dignidade, a verdade, o belo... Ajudando Deus a construir um mundo melhor, defendendo a vida dos mais débeis, os crucificados de hoje. Essa é a mística que mobiliza Etty Hillesum, jovem holandesa de origem judaica, que durante o domínio nazi se oferece para trabalhar no campo de trânsito dos judeus de Westerbork, nos Países Baixos – em 1943 é deportada para Auschwitz e morre nesse ano com 29 anos. Essa mulher, de espiritualidade profunda, que descobre Deus no mais íntimo do seu ser e assume a sua causa : «E, quase a cada batida do coração, torna-se isto mais nítido : que tu não nos podes ajudar, que nós devemos ajudar-te» (12 de Julho de 1942). Ser cristão é ser testemunha da ressurreição, assumindo o estilo de Jesus, percebendo a humanidade como lugar de exigência de amor, e em cada pessoa – como afirmava Etty em 15 de Setembro de 1942 – amar um pedaço de Deus.’


Fonte :

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Deus amou tanto o mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

‘O silêncio desta Sexta-feira da Paixão não é apenas uma inquietação para uma sociedade que não costuma silenciar. Trata-se de possibilidade única para fixar o olhar em um momento fundamental capaz de corrigir dinâmicas equivocadas da sociedade, de cultivar no coração humano a sensatez e a sensibilidade necessárias para condutas solidárias. No centro desse momento principal está Cristo Crucificado: a escolha de Deus para revelar ao mundo o seu supremo amor, ensinando a cada pessoa que o caminho é amar o próximo. Deus deu o seu Filho Único por amor à humanidade, para a salvação do mundo.

O amor é, pois, o único parâmetro de toda medida, de toda meta, de todo o sentido a ser dado à vida, de toda a razão para se viver. Ultrapassa o limite de normas e leis. Oportuno é lembrar que Jesus desafia a compreensão reduzida à norma de um mestre da lei, instigando-o a compreender que o horizonte maior e verdadeiro é o amor. E a paixão, morte e ressurreição de Cristo, acontecimento insubstituível e inigualável, a sua condição de Filho de Deus – Deus e homem -, o tornam fonte inesgotável do amor.

O horizonte religioso e confessional ensina que Cristo Crucificado, morto e ressuscitado é a referência para que o ser humano defina seus caminhos. Perder esse fundamento central oferecido no silêncio da Sexta-feira Santa é um risco perigoso, pois esse momento é a possibilidade de reencontrar rumos perdidos e de superar dinâmicas que provocam descompassos no coração da humanidade. É justamente o distanciamento da reverência a Cristo Crucificado, a indiferença em relação à paixão e morte de Jesus, que explicam as dificuldades da sociedade para articular-se em novos padrões civilizatórios, à altura de outros avanços e conquistas.

Diferentemente de reconhecer o ensinamento de Jesus, que entrega sua vida para salvar a humanidade, o mundo insiste nas escolhas mesquinhas, nas interpretações das leis que estão muito aquém do alcance do amor. Com entendimentos estreitos, não são conseguidas as respostas urgentes esperadas. A quebra do silêncio meditativo na Sexta-feira Santa, que qualifica o coração a partir do misericordioso gesto de Jesus Cristo, Deus e Homem, comprova o preço alto que se paga numa sociedade em que outras pessoas – e não Jesus – são compreendidas como parâmetro para juízos.

A pretensão humana de ser em si o parâmetro ético de decisões e escolhas, com subjetivismos destruidores, é um equívoco. Há uma referência maior que pode oferecer fundamentos adequados para normatizações e escolhas acertadas. Essa referência é o amor, que tem como fonte Cristo Crucificado. Na oferta que faz de si, Jesus manifesta a sua autoridade, alicerce que sustenta a vida humana no amor de Deus. Reconhecer que Deus amou tanto o mundo a ponto de oferecer o seu Filho Único para a salvação da humanidade é necessidade urgente para evitar situações que são terríveis: os envolvidos em corrupção, os terroristas que atentam contra a vida, os juízes e os representantes do povo que também a ameaçam quando consideram legalizar o aborto, cidadãos que não se comprometem com as práticas que objetivam a ética, o bem, a paz e a justiça.

O silêncio da Sexta-feira Santa, a coragem de fixar o olhar n’Ele, o crucificado, fecunde em cada coração uma instigante interpelação para se orientar a partir do amor, do amor em Cristo Jesus revelado. Desse modo, ecoe nos corações a lógica inigualável e convincente de Deus, que amou tanto o mundo e por isso deu o seu Filho Único para que todo aquele que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.’


Fonte :

sábado, 4 de abril de 2015

'Ecce homo!'

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 * Artigo de Pe. Raniero Cantalamessa, OFM,
pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano)

‘Acabamos de ouvir o relato do julgamento de Jesus perante Pilatos. Há nele um momento que nos pede uma atenção especial.

Pilatos mandou então flagelar Jesus. Os soldados teceram de espinhos uma coroa, puseram-na sobre a sua cabeça e o cobriram com um manto de púrpura. Aproximavam-se dele e diziam : Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas. Pilatos saiu outra vez e disse-lhes : Eis que vo-lo trago fora, para que saibais que não acho nele nenhum motivo de acusação. Apareceu então Jesus, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse : Ecce homo! Eis o homem!’ (Jo 19,1-5).

Entre as muitas pinturas que retratam o Ecce Homo, há uma que sempre me impressionou. É de Jan Mostaert, pintor flamengo do século XVI, e está na National Gallery de Londres. Tentarei descrevê-la. Ela nos ajudará a imprimir melhor na mente o episódio, já que o pintor transcreve fielmente, em cores, os dados do relato evangélico, especialmente do relato de Marcos (Mc 15,16-20).

Jesus tem na cabeça uma coroa de espinhos. Um feixe de arbustos espinhosos que estava no pátio, talvez para fazer fogo, deu aos soldados a ideia dessa cruel zombaria da sua realeza. Da cabeça de Jesus descem gotas de sangue. Sua boca está semiaberta, como que lutando para respirar. Sobre os ombros, sulcados pelos golpes recentes da flagelação, um manto pesado e desgastado, mais próximo da lata que da estopa. Ele tem os pulsos amarrados por uma corda grosseira; em uma das mãos, eles colocaram um pedaço de pau a fazer as vezes de cetro e, na outra, um feixe de varetas, símbolos que ridicularizavam a sua majestade. Jesus não pode mover sequer um dedo; é o homem reduzido à total impotência, o protótipo de todos os algemados da história.

Meditando sobre a Paixão, o filósofo Blaise Pascal escreveu certa vez estas palavras : ‘Cristo está em agonia até o fim do mundo : não podemos dormir durante este tempo(1). Há um sentido em que estas palavras se aplicam à pessoa de Jesus mesmo, ou seja, à cabeça do corpo místico e não apenas aos membros. Não apesar de Ele ter ressuscitado e estar vivo, mas justamente porque Ele ressuscitou e está vivo. Deixemos de lado, no entanto, este significado misterioso demais para nós e falemos do sentido mais claro daquelas palavras. Jesus está em agonia até o fim do mundo em cada homem ou mulher submetidos aos mesmos tormentos. ‘Vós o fizestes a mim’ (Mt 25, 40) : Ele não disse esta frase apenas sobre quem acredita nele; ele a disse sobre cada homem e cada mulher famintos, nus, maltratados, presos.

Ao menos por uma vez, não pensemos nos males sociais, coletivos : a fome, a pobreza, a injustiça, a exploração dos fracos. Desses males já se fala muitas vezes, embora nunca o suficiente, e há o risco de se tornarem abstrações. Categorias, não pessoas. Pensemos agora no sofrimento dos indivíduos, das pessoas com nome e identidade concreta; nas torturas decididas a sangue frio e infligidas voluntariamente, neste exato momento, por seres humanos contra outros seres humanos, inclusive crianças.

Quantos ‘Ecce homo’ no mundo! Meu Deus, quantos ‘Ecce homo’! Quantos prisioneiros na mesma condição de Jesus no pretório de Pilatos : sozinhos, algemados, torturados, à mercê de soldados ásperos e cheios de ódio, que se entregam a todo tipo de crueldade física e psicológica, divertindo-se em ver sofrer. ‘Não podemos dormir, não podemos deixá-los sós!’.

A exclamação ‘Ecce homo!’ não se aplica somente às vítimas, mas também aos carnífices. Ela quer dizer : eis aqui do que o homem é capaz! Com temor e tremor, digamos ainda : eis do que somos capazes nós, homens! Muito distante da marcha inexorável do Homo sapiens sapiens, o homem que, segundo alguns, nasceria da morte de Deus e tomaria o seu lugar (2).

* * *

Os cristãos não são, certamente, as únicas vítimas da violência homicida que há no mundo, mas não se pode ignorar que, em muitos países, eles são as vítimas marcadas e mais frequentes. Jesus disse um dia aos seus discípulos : ‘Chegará uma hora em que aqueles que vos matarem julgarão estar honrando a Deus’ (Jo 16, 2). Talvez estas palavras nunca tenham achado na história um cumprimento tão pontual quanto hoje.

Um bispo do século III, Dionísio de Alexandria, nos deixou o testemunho de uma Páscoa celebrada pelos cristãos durante a feroz perseguição do imperador romano Décio : ‘Eles nos exilaram e, sozinhos entre todos, fomos perseguidos e lançados à morte. Mas, ainda assim, celebramos a Páscoa. Todo lugar em que se sofria tornou-se para nós um lugar de celebração da festa : fosse um acampamento, um deserto, um navio, uma pousada, uma prisão. Os mártires perfeitos celebraram a mais esplêndida das festas pascais ao ser admitidos no banquete celeste(3). Será assim para muitos cristãos também na Páscoa deste ano, 2015 depois de Cristo.

Houve alguém que teve a coragem de denunciar, como leigo, a indiferença perturbadora das instituições mundiais e da opinião pública em face de tudo isto, lembrando a quais consequências essa indiferença já levou no passado (4). Corremos todos o risco, tanto instituições quanto pessoas do mundo ocidental, de ser Pilatos que lavam as mãos.

A nós, no entanto, não é permitido fazer qualquer denúncia neste dia. Trairíamos o mistério que estamos celebrando. Jesus morreu gritando : ‘Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem’ (Lc 23, 34). Esta oração não é simplesmente murmurada; é gritada para ser bem ouvida. Na verdade, não é sequer uma oração, mas uma exigência imperativa, feita com a autoridade de quem é Filho : ‘Pai, perdoa-os!’. E como Ele mesmo disse que o Pai escuta todas as suas orações (Jo 11,42), devemos acreditar que Ele ouviu também esta última feita na cruz, e que, portanto, aqueles que crucificaram o Cristo foram perdoados por Deus (é claro que não sem antes se arrependerem de alguma forma) e estão com Ele no paraíso, testemunhando para toda a eternidade o ponto até o qual pode chegar o amor de Deus.

Essa ignorância, como tal, estava só nos soldados. Mas a oração de Jesus não se limita a eles. A grandeza divina do seu perdão consiste no fato de que o perdão também é oferecido aos seus inimigos mais ferozes. É para eles que Jesus alega a desculpa da ignorância. Mesmo que eles tenham agido com astúcia e malícia, eles realmente não sabiam o que faziam, não pensavam que estavam crucificando um homem que era de fato o Messias e Filho de Deus! Em vez de acusar os seus adversários, ou de os perdoar confiando ao Pai Celestial o cuidado de vingá-lo, Ele os defende.

Seu exemplo sugere aos discípulos uma generosidade infinita. Perdoar com a sua mesma grandeza de alma não pode envolver simplesmente uma atitude negativa, de renunciar a querer o mal para quem faz o mal; deve traduzir-se, em vez disso, em uma vontade positiva de lhes fazer o bem, mesmo que apenas com uma oração dirigida a Deus em seu favor. ‘Orai por aqueles que vos perseguem’ (Mt 5, 44). Esse perdão não deve procurar compensação nem sequer na esperança de um castigo divino. Deve ser inspirado por uma caridade que desculpa o próximo, mesmo sem fechar os olhos para a verdade, e que tenta parar os maus para que eles não façam mais mal aos outros nem a si mesmos.

Quereríamos dizer : ‘Senhor, o que nos pedes é impossível!’, mas Ele nos responderia : ‘Eu sei. E morri para vos dar o que vos peço. Não vos dei apenas o mandado de perdoar, nem apenas um exemplo heroico de perdão; com a minha morte, eu vos dei a graça que vos torna capazes de perdoar. Eu não deixei ao mundo apenas um ensinamento sobre a misericórdia, como tantos outros também deixaram. Eu sou Deus e, para vós, fiz brotarem da minha morte rios de misericórdia. Deles podeis beber a mãos cheias no Ano Jubilar da Misericórdia que tendes pela frente’.

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Então, indagará alguém, seguir a Cristo é sempre um resignar-se passivamente à derrota e à morte? Pelo contrário! ‘Tende coragem’, disse Ele aos apóstolos antes da Paixão : ‘Eu venci o mundo’ (Jo 16, 33). Cristo venceu o mundo vencendo o mal do mundo. A vitória definitiva do bem sobre o mal, que se manifestará no fim dos tempos, já aconteceu, de fato e de direito, na cruz de Cristo. ‘Esta é hora do juízo deste mundo’ (Jo 12, 31). Desde aquele dia, o mal é o perdedor : tanto mais perdedor quanto mais parece triunfar. O mundo já foi julgado e condenado em última instância, com sentença inapelável.

Jesus derrotou a violência sem opor a ela uma violência maior ainda, e sim sofrendo-a e revelando toda a sua injustiça e inutilidade. Ele inaugurou um novo tipo de vitória, que Santo Agostinho resumiu em três palavras : ‘Victor quia victima’ – ‘vencedor porque vítima(5). Foi ao ‘vê-lo morrer assim’ que o centurião romano exclamou : ‘Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!’ (Mc 15, 39). Os outros se perguntavam o que significava o alto brado que Jesus tinha dado ao morrer (Mc 15, 37). O centurião, que era experiente em lutas e lutadores, reconheceu de imediato que aquele era um grito de vitória (6).

O problema da violência nos persegue, nos choca, inventando formas novas e espantosas de crueldade e de barbárie. Nós, cristãos, reagimos horrorizados à ideia de que se possa matar em nome de Deus. Alguém poderia objetar : mas a Bíblia também não está cheia de histórias de violência? Deus mesmo não é chamado de ‘Senhor dos Exércitos’? Não é atribuída a Ele a ordem de exterminar cidades inteiras? Não é Ele quem decreta, na Lei mosaica, numerosos casos de pena de morte?

Se tivessem dirigido a Jesus, durante a sua vida, esta mesma objeção, Ele certamente teria respondido o que respondeu sobre o divórcio : ‘Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim’ (Mt 19,8). Também sobre a violência, ‘no princípio não foi assim’. O primeiro capítulo do Gênesis mostra um mundo onde a violência não é sequer pensável, nem dos seres humanos entre si, nem entre homens e animais. Nem sequer para vingar a morte de Abel, e assim punir um assassino, é lícito matar (cf. Gn 4, 15).

O genuíno pensamento de Deus é expresso pelo mandamento ‘Não matarás’, e não pelas exceções abertas na Lei, que são concessões à ‘dureza do coração’ e dos costumes dos homens. A violência, depois do pecado, infelizmente faz parte da vida; e o Antigo Testamento, que reflete a vida e deve servir à vida, procura pelo menos, com a sua legislação e com a própria pena de morte, canalizar e conter a violência para que ela não se degenere em arbítrio pessoal (7).

Paulo fala de uma época caracterizada pela ‘tolerância’ de Deus (Rm 3, 25). Deus tolera a violência como tolera a poligamia, o divórcio e outras coisas, mas educa o povo para um tempo em que o seu plano original possa ser ‘recapitulado’, como para uma nova criação. Esse tempo chega com Jesus, que, na montanha, proclama : ‘Ouvistes o que foi dito : olho por olho, dente por dente; mas eu vos digo : não resistais aos malvados; se alguém vos bater na face direita, oferecei também a outra... Ouvistes o que foi dito : amai o vosso próximo e odiai o vosso inimigo; eu, porém, vos digo : amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem’ (Mt 5,38-39; 43-44).

O verdadeiro ‘sermão da montanha’ que mudou o mundo, no entanto, não é aquele que Jesus fez um dia sobre uma colina da Galileia, mas aquele que Ele proclama agora, silenciosamente, na cruz. No Calvário, Ele pronuncia um definitivo ‘não!’ à violência, opondo a ela não apenas a não-violência, mas o perdão, a bondade e o amor. Se ainda houver violência, ela já não poderá, sequer remotamente, remontar a Deus e revestir-se da sua autoridade. Fazer isto significa retroceder na ideia de Deus a estágios primitivos e grosseiros, superados pela consciência religiosa e civil da humanidade.

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Os verdadeiros mártires de Cristo não morrem com os punhos cerrados, mas com as mãos juntas. Tivemos tantos exemplos recentes! Foi Ele que, aos 21 cristãos coptas mortos pelo Estado Islâmico na Líbia em 22 de fevereiro, deu a força para morrerem murmurando o Seu nome. Rezemos nós também :

Senhor Jesus Cristo, oramos pelos nossos irmãos de fé que são perseguidos e por todos os Ecce homo que estão, neste momento, sobre a face da terra, cristãos e não cristãos. Maria, tu, ao pé da cruz, te uniste ao Filho e murmuraste com Ele : ‘Pai, perdoa-os’. Ajuda-nos a vencer o mal com o bem, não só no grande palco do mundo, mas também na vida cotidiana, dentro da nossa casa. Tu, que, ‘ao sofrer com teu Filho que morria na cruz, colaboraste de modo tão especial para a obra do Salvador com a obediência, a fé, a esperança e a caridade ardente’ (8), inspira nos homens e mulheres da nossa época pensamentos de paz, de misericórdia e de perdão. Que assim seja’’.


Fonte :
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(1) Blaise Pascal, ‘O mistério de Jesus’ (Pensamentos, nº 553).
(2) F. Nietzsche, A gaia ciência,III, 125.
(3) Dionísio de Alexandria, in Eusébio, História ecl., VII, 22, 4.
(4) Ernesto Galli della Loggia, ‘L’indifferenza che uccide’, in ‘Corriere della sera’ 28 de julho de 2014, pág. 1.
(5) S.Agostinho, Confissões, X, 43.
(6) Cf. F. Topping ‘An impossible God’.
(7) Cf R. Girard, Delle cose nascoste sin dalla fondazione del mondo, Adelphi, Milão 19963.
(8) Lumen gentium, nº 61.