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segunda-feira, 17 de julho de 2023

Cada um tem seu tempo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ana Lydia Sawaya


Após a teoria da relatividade de Einstein sabemos que o tempo não é uma dimensão absoluta, mas relacional e depende das circunstâncias e do contexto. Ou seja, sua medida varia – pode correr mais rápido ou mais devagar… 

Essa relatividade física pode ser reconhecida também em nossa experiência pessoal. Por exemplo, há uma diferença abissal entre uma hora realizando uma coisa que entedia ou faz sofrer como ir ao dentista e a mesma hora fazendo uma coisa que se gosta muito. O tempo, no primeiro caso, dura imensamente mais, parece que nunca passa, e no segundo caso passa tão rápido que nem percebemos. Mesmo que o espaço coberto pelos ponteiros do relógio seja o mesmo.

Gregos

Os gregos usavam três termos diferentes, kronosaiòn e kairòs, para designar o tempo. Kronos era usado para descrever a sucessão de instantes, o tempo na sua sequência cronológica e quantitativa, na mitologia grega era representado como um gigante, filho de Urano e Gaia que devorava seus próprios filhos até ser derrubado por Zeus. Aiòn expressava a temporalidade da vida, os intervalos, percalços e anacronismos da existência pessoal e representava a dimensão da consciência humana irredutível a qualquer lógica somativa e linear. Kairòs, o último filho de Zeus, era representado como um menino com asas nos pés, em constante movimento, com um tufo de cabelo na testa e nuca raspada para indicar a dificuldade em agarrá-lo. Ele segurava uma haste na qual uma balança repousava. Representava a hora certa, indicava o momento propício, oportuno, adequado, que devia ser apreendido no rápido instante que passa, o tempo ‘presente’, em relação ao qual uma capacidade vigilante e atenta permite compreender melhor o desenvolvimento do futuro. É o tempo onde se joga a liberdade humana e quando a inteligência e reconhecimento dos sinais pode determinar a felicidade no futuro. 

Percepção do tempo

Santo Agostinho acrescentará à compreensão do tempo a nossa pessoa, a pessoa de cada um de nós enquanto ‘percebe’ o tempo. Dirá que no espirito humano reside a percepção do tempo. O tempo é uma realidade que pode ser apreendida apenas a partir do espirito humano (Confissões, livro XI, cap. 27, resposta 36, Paulus, pg. 353 – 354, 17 edição, 2004) :

É em ti (meu espírito), repito, que meço os tempos. Meço, enquanto está presente, a impressão que as coisas gravam em ti no momento em que passam, e que permanece mesmo depois de passadas, e não as coisas que passaram para que a impressão se reproduzisse. É essa impressão que meço, quando meço os tempos. 

Esse espírito pensa, sente, age, interage com os outros e com a realidade à sua volta. O seu pensar, sentir e modo de agir está relacionado e de certa forma depende da cultura onde cresceu e da história do seu povo. Tudo isso influenciará e modificará a sua percepção do tempo.

Como viver o tempo

Heidegger dirá que a existência humana é na sua raiz ontológica temporalidade originária. (Martin Heidegger Il Concetto Di Tempo, Adelphi Edizioni, 8 ed., 2006, pg. 13). A vida humana é tempo e é determinada, essencialmente, por como vivo o tempo. E como viver o tempo para um cristão? Pode-se dizer que o modo cristão de viver o tempo no tempo, é sintetizado por uma palavra : Paciência.

A paciência é aceitar o tempo próprio de cada ser : é dar o tempo adequado ao nosso tempo pessoal; é aceitar o tempo de Deus e aceitar o tempo do outro. É pela vossa paciência que ganhareis a vida (Lc 21,19) diz Jesus já no final da sua missão terrena e próximo à sua prisão e crucifixão. Quanta paciência ele precisou ter… Até com seus amigos que não o compreendiam… São Paulo diz que a primeira característica do amor é a paciência (1Cor 13,4).

Presença de Deus

A paciência é um modo sábio de viver o tempo, saber esperar a recompensa futura e não querer agarrá-la a qualquer custo no instante fugaz. É saber esperar o dia certo para a ação do Espírito Santo. É saber conservar e valorizar a própria liberdade e a de outrem. De onde nasce essa sabedoria? Da capacidade de perceber a eternidade presente no instante. Se meu próprio limite, uma outra pessoa ou uma situação irritam-nos, nos enfurecem ou nos desencorajam e deprimem, paremos um pouco e busquemos reconhecer a eternidade presente naquele momento. Há algo além, acima, das coisas que vejo, ouço, toco ou sinto que governa tudo. As minhas sensações e percepções, não são tudo. Além das coisas que vejo, ouço, toco ou sinto, que estão na dimensão do espaço (no caso, sufocante…), há uma outra dimensão : o tempo. A. Heschel em seu livro O Schabat explica bem essa diferença (Editora Perspectiva, 2018, pgs. 127-128) :

As coisas do espaço expõem uma independência ilusória. As coisas criadas ocultam o Criador. É na dimensão do tempo onde se encontra Deus, onde o homem torna-se ciente de que cada instante é um ato da criação, um Começo, abrindo novas estradas para realizações finais. O tempo é a presença de Deus no mundo do espaço, e é no tempo que somos capazes de sentir a unidade de todos os seres. A criação, somos ensinados, não é um ato que ocorreu uma vez no tempo, uma vez e para sempre. O ato de trazer o mundo à existência é um processo contínuo. O chamado de Deus trouxe o mundo à existência, e este chamado prossegue. Existe este momento presente porque Deus está presente. Cada instante é um ato de criação. Um momento não é terminal mas um lampejo, um sinal do Começo. O tempo está em perpétua inovação, um sinônimo para a criação contínua. O tempo é a dádiva de Deus ao mundo do espaço.

Para não ficarmos presos apenas à dimensão do espaço sufocante, é preciso pararmos para reconhecer a eternidade do instante, e dar tempo ao tempo. Peçamos ao Senhor a graça de não perder as ocasiões que Ele nos dá para parar, dar-se conta da dimensão do tempo, e poder viver, o que se chama no final das contas, amor.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/04/23/cada-um-tem-seu-tempo/


quinta-feira, 29 de junho de 2023

É preciso cuidar do tempo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Ana Lydia Sawaya


É preciso cuidar do tempo! Toda coisa é bela no seu tempo devido, diz o Eclesiastes (Coélet). A vida é hevel, um sopro, afirma o texto hebraico deste livro sapiencial, uma tradução melhor que vaidade das vaidades (Prologo,2) do latim vanitas. Hevel – sopro, exprime algo que é evanescente, que não se pode agarrar, nem muito menos governar. Hevel é uma palavra muito usada na Bíblia. São um sopro (hevel) os filhos de Adão, diz o salmo 62,10. O homem é como um sopro, os seus dias são como sombra que passa, recorda-nos o salmo 144,4. Eu me desfaço, não viverei ainda muito. Deixa-me, porque os meus dias são um sopro, lamenta Jó (7,16).

Coélet usa o termo hevel não no sentido moral ou metafísico, mas com uma acepção muito concreta, como a descrever a percepção, o sentido físico, do tempo que passa muito rápido debaixo do sol. Significa o tempo concreto da vida : tudo passa como um sopro. Por isso, preste atenção!

Realista

Coélet não exprime uma visão pessimista da vida. Os exegetas modernos referem que se trata da constatação que na vida terrena, sob o sol, nada é completo, pleno e nem nos sacia totalmente. Por isso, não se pode colocar no lugar de Deus, não se vê tudo e não se compreende a totalidade da realidade. A condição do ser humano aqui na terra é contingente. Coélet é um homem realista, com o pé no chão, que não tem a pretensão de superar os confins da sua humanidade, mas busca refletir sobre a sua existência terrena (capítulos 1 e 2).

O capítulo 3 nos oferece uma esplêndida explicação sobre o tempo. Inicia com 7 palavras em hebraico que querem significar a totalidade e por isso são o resumo do que Coélet quer dizer. Descobrimos que o tempo ali é outro… Nós conhecemos bem o tempo newtoniano (Δt), pois aprendemos a raciocinar de acordo com o implacável e preciso horário do relógio. O relógio é um modo de dar ‘espaço’ ao tempo. O tempo se torna uma ‘coisa’, e assim parece tangível. 

Modernidade

A. Heschel em seu livro O Schabat diz que a modernidade privilegiou o espaço em detrimento do tempo, mas ganhando ‘espaço’, o ser humano diminuiu a si mesmo (Editora Perspectiva, 2018, pg. 9) : 

A civilização técnica é a conquista do espaço pelo homem. É um triunfo frequentemente alcançado pelo sacrifício de um ingrediente essencial da existência, isto é, o tempo. Na civilização técnica nós gastamos tempo para ganhar espaço. Intensificar nosso poder no mundo do espaço é o nosso maior objetivo. No entanto, ter mais não significa ser mais. O poder que alcançamos no mundo do espaço termina abruptamente na fronteira do tempo. Mas o tempo é o coração da existência.

Aprofundando essa constatação, afirma logo em seguida (pgs.11-12) :

Todos nós ficamos enfeitiçados pelo esplendor do espaço, pela grandeza das coisas do espaço. […] Realidade, para nós, é coisidade, e consiste de substâncias que ocupam espaço; mesmo Deus é concebido pela maioria de nós como uma coisa. O resultado de nossa coisificação é nossa cegueira à toda realidade que deixa de se identificar como uma coisa, como um fato real. Isto é óbvio em nosso entendimento do tempo, o qual sendo desprovido de coisa e de substância, nos parece como se não tivesse realidade.

Diferença

Diz que não se trata de desprezar a importância do espaço, do visível, do material, do tocável, mas de denunciar a hipervalorização do espaço em detrimento do tempo (cf. pg. 13). O espaço é mensurável, está sob nosso controle visual, pode ser abrangido pelo nosso olhar. O tempo não. A única maneira de medi-lo é reduzi-lo ao espaço e ao movimento que nele ocorre. Essa diferença se vê ao compararmos o espaço sagrado (necessário e de grande ajuda) com a experiência do sagrado que uma pessoa faz, que é uma experiência interior que se dá num tempo, em um momento, mas que não ocupa um ‘espaço’. 

Diferentemente do conceito de eterno retorno de Nietzsche que vê o tempo como um fluxo caótico sem objetivo, na Bíblia a temporalidade é valorizada em sua forma linear, dentro de uma dimensão histórica (cf. Giuseppe Savagnone, Il tempo è superiore allo spazio: indicazioni per la pastorale familiare, Tredimensioni 15, 2018, pgs. 48-57). Uma história que caminha para um cumprimento. Por isso, para o mundo bíblico o tempo não representa a inconsistência do ser e seu dissolver-se em um fluxo perene, mas está impregnado com um anseio de completude. 

Plenitude

Papa Francisco dirá, por isso, que o tempo é superior ao espaço (Evangelii Gaudium, 222-225) e afirma que ‘dar prioridade ao tempo significa ocupar-se de iniciar processos mais do que possuir espaços’ (EG 223). Relembra-nos as palavras do Beato Pedro Fabro : ‘O tempo é o mensageiro de Deus’ (EG 171). Por isso, a plenitude da vida de uma pessoa e do mundo todo só pode ser alcançada através de uma gradualidade e de um respeito aos processos que constroem os povos, e precisam ser vividos pouco a pouco e dentro da dimensão da paciência. ‘O espaço cristaliza os processos, o tempo, ao contrário, nos projeta para o futuro e nos impulsiona a caminhar com esperança’ (Lumen Fidei 57). 

De um modo muito belo, A. Heschel explica que o mundo bíblico é um mundo que privilegia o tempo e visa a sua santificação antes de tudo (pgs. 14-15) :

Para Israel, os acontecimentos singulares do tempo histórico foram espiritualmente mais significativos do que os processos repetitivos no ciclo da natureza (para as festividades anuais), muito embora o sustento físico dependesse dessa última. Enquanto as divindades de outros povos estavam associadas aos lugares ou coisas, o Deus de Israel era o Deus dos acontecimentos : o Redentor da escravidão, o Revelador da Torá, manifestando-se a Si Mesmo em acontecimentos da história, mais do que em coisas ou lugares. Assim, a fé no incorpóreo, no inimaginável, nasceu.

Prioridade

Mas voltemos ao capítulo 3 de Coélet : que tempo é esse? Começa-se a perceber a dimensão que perdemos ao desconsiderar a prioridade do tempo, pelo fato que seja no texto hebraico como no grego, há duas palavras para tempo que o qualificam de forma diferente. Há no grego o tempo cronológico (kronos) e o tempo oportuno (kairòs) e que no hebraico são expressos pela palavra zeman e et respectivamente. Se voltarmos outra vez ao texto na língua original, diz Coélet : 

Há um momento (zeman) para tudo e um tempo (oportuno – et) para todo propósito debaixo do sol. Tempo (et) de nascer, e tempo (et) de morrer; tempo (et) de plantar, e tempo (et) de arrancar a planta. Tempo (et) de matar e tempo (et) de curar; tempo (et) de destruir, e tempo (et) de construir […] (cf. Ecl. 3,2-8)

Eternidade

Para cada tempo que se pode medir (zeman) há um tempo (et) adequado, oportuno. São 14 antíteses que englobam todas as circunstâncias às quais somos chamados a aderir e a viver plenamente. Coélet mostra que cada realidade foi feita por Deus com o seu contraste e complementariedade, tudo é dual e tem o seu oposto; esta é a harmonia. No versículo 11 diz : tudo o que ele fez é apropriado ao seu tempo (et). Também colocou no coração do homem o conjunto do tempo (em hebraico olam que significa eternidade, universo), sem que o homem possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim.

Não obstante Deus ter feito cada coisa bela e no momento oportuno (pois o instante para Deus é et e não apenas zeman), e embora o coração do ser humano possua essa sombra de eternidade, não conseguimos ter a visão do todo. 

Vivamos, porém, o et com alegria, diz Coélet (v. 12) : …não há felicidade para o homem a não ser a de alegrar-se e fazer o bem durante a vida. O Talmud dirá que nos será cobrado por Deus todas as vezes que tivemos oportunidade de gozar de uma boa comida e uma boa bebida e não soubemos gozar delas bem.

Lembremo-nos, portanto, que cada instante de tempo possui a eternidade e que nós habitamos neste instante eterno porque fomos criados por Deus à sua imagem. 

Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens…

Não queiras ser de amanhã.

Faze-te sem limites no tempo.

Vê a tua vida em todas as origens.

Em todas as existências.

Em todas as mortes.

E sabe que serás assim para sempre.

Não queiras marcar a tua passagem.

Ela prossegue :

É a passagem que se continua.

É a tua eternidade…

É a eternidade.

És tu.

(Cecília Meireles, Cânticos, II)

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/04/16/e-preciso-cuidar-do-tempo/


domingo, 8 de agosto de 2021

Tempo de decidir, momento decisivo e complexo. Orar a própria situação de eleição - Parte 2

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Alfredo Sampaio Costa, SJ


‘Nestes tempos sombrios, somos assolados por medos de todo tipo. Se não bastasse o pavor de sermos contaminados ou de contaminar nossos entes queridos, experimentamos também o medo de olhar para dentro de nós mesmos, pois somos conscientes que nem sempre temos vivido essa situação de modo conforme ao Evangelho. Mas é preciso rezar (e muito!) durante o tempo da pandemia. Vamos dar mais um passo esta semana, lembrando, no entanto, que cada passo implica o anterior, que continua sendo válido.

Segundo passo – Atentos aos desejos profundos que nos movem

Para sermos pessoas de discernimento precisamos ter a paixão de fazer em tudo a vontade de Deus, como Jesus. Paixão pelo Reino, pela verdade, pela justiça, pela paz. Ter um grande desejo de conhecer sempre mais e melhor o que Deus quer de nós, aqui e agora1. Ao rezar sobre o que fazer nesse tempo de indecisões e inseguranças, Inácio nos orienta a considerarmos que força ocupa em nossa vida essa Paixão pelo Reino!

Diante de cada possibilidade que se apresenta a nós, importa muito considerar os motivos interiores que nos movem a tomar esta ou aquela decisão. Normalmente somos movidos por uma mistura de motivos, alguns deles talvez nos atraiam mais. A presença de motivos mistos não nos impede de sermos conscientemente movidos pelo Amor de Deus, mas é preciso dirigir nossos pensamentos e sentimentos para Deus com todo o nosso coração, alma e mente, com toda a nossa força 2. O Amor de Deus é que deve ser o motivo principal que nos move.

Rezar nossos desejos profundos, que movem nossa decisão : ‘O Reino de Deus é semelhante a um tesouro escondido em um campo que um homem encontra’ (Mt 13,44). Esse tesouro está em nós. Decidir a própria vida é buscar e encontrar esse tesouro oculto, nosso desejo profundo. Essa busca de nosso tesouro exige paciência e escuta, isto é, atenção e disponibilidade aos sinais que Deus nos faz, em nós mesmos e ao nosso redor. A filósofa judia Simone Weil pressentia isto quando escrevia em seu livro Attente de Dieu3 : ‘Os bens mais preciosos não devem ser buscados, mas sim esperados, porque o homem não pode encontrá-los por seus próprios meios’.

Desejos e discernimento : Os desejos têm uma grande importância no discernimento espiritual. O jesuíta Anthony de Mello ilumina essa verdade em uma história que ele nos conta de como devemos proceder para descobrir o chamado de Deus:

O discípulo era um judeu. Ele perguntou : ‘Qual boa obra eu devo realizar que seja aceitável a Deus?’. ‘Como eu poderia saber?’, disse o Mestre. ‘A sua Bíblia diz que Abraão praticou a hospitalidade e Deus estava com ele. Elias amava rezar e Deus estava com ele. Davi governou um reino e Deus estava com ele também. Há algum modo para que eu possa encontrar o trabalho que me cabe fazer?’. ‘Sim. Procure pela mais profunda inclinação do seu coração e a siga4.

Contrariamente ao modo negativo que os desejos são vistos na tradição cristã posterior, Jesus dirigia as pessoas a irem ao encontro dos seus desejos quando elas estavam em busca de direção para suas vidas. O evangelho de João (1,30-36) descreve a experiência dos dois discípulos de João Batista que se põem a seguir a Jesus e este se volta e lhes pergunta : ‘O que vocês querem?’. ‘Rabi, onde moras?’. ‘Vinde e vede’. Santo Inácio nos seus Exercícios também segue essa visão positiva dos desejos na vida espiritual. Ele instrui os exercitantes a iniciarem cada período de oração comunicando os seus desejos que enchem o seu coração (EE 48). ‘Pedir o que quero e desejo’ é essencial à oração inaciana. Inácio articula uma espiritualidade do desejo5.

Selecionando nossos desejos na oração : Quando olhamos para nossos corações, deparamo-nos com uma mescla de desejos, sonhos, esperanças, necessidades, temores e desejos. Alguns dos nossos desejos são compatíveis com outros; alguns são mutuamente excludentes. Somos conscientes também que os desejos podem afetar nossa vida seja positiva seja negativamente. Alguns desejos podem nos escravizar e dissipar nossas energias; outros têm a capacidade de gerar poder e energizar nossas vidas. Eis porque é muito importante rezar sobre os nossos desejos : A oração é o lugar onde nós selecionamos os desejos que nós escolhemos seguir6. O processo envolve identificá-los, avaliá-los e selecioná-los.

Discernir o desejo é separar o que há nele de ambição e o que há de comunhão : do desejar coisas ao viver a comunhão de desejos entre pessoas. Separar as duas forças do desejo humano : discernir o ‘Desejo’ nos desejos dispersos, descobrir que somos ‘desejáveis’ para os demais e que somo ricos para bendizer. O progresso no amor e no desejo é um despojamento de tudo e de todos. Temos que tender a uma libertação do coração, que vai se abrindo ao amor e à graça de um novo encontro. Trata-se de despertar uma atenção aguda às atrações do coração, à emergência do Desejo7.

Seguir a Jesus no ‘mais’ do desejo : A pessoa que se põe em contato com os relatos do evangelho é chamada a se identificar com as figuras evangélicas em sua forma de experimentar a proximidade de Jesus, no seu convite a viver uma vida diferente da que vivia até então, nas vicissitudes que esse caminho de seguimento comporta; é chamada, em suma, a converter estas experiências concretas em experiências-chave para sua própria vida. Desde modo, viver o seguimento de Jesus se converte em uma categoria evangélica da vocação cristã e reflexa, com as estruturas dinâmicas próprias desta figura, o processo de aventura de reabilitação radical do desejo, que se converte em processo de amadurecimento e confirmação da eleição de vida8.

Jesus, o mediador do Desejo de Deus, pelo fascínio e atração que suscita, seduz e adestra o desejo a ir mais longe, mais além dos desejos cultivados pelo mundo, mais além inclusive do que o próprio sujeito desejante se suponha capaz de alcançar, nem sequer de poder imaginar : o ‘mais’ do desejo. A missão de Jesus é iniciar-nos no desejo vindo de Deus, porque não conhecemos o dom de Deus, e a este nem a carne nem o sangue podem revelar, mas só Deus mesmo, no rosto e no amor de seu Amado. Jesus é o Mestre do desejo e seu Desejo é o original, onde se podem mirar todos os desejos realmente humanos.’

 

Notas :

(1) Luís González-Quevedo, Discernimento Espiritual – As Regras Inacianas, São Paulo: Loyola 2013,12.

(2) Cf. Tad Dunne, Spiritual Exercises for Today, 154.

(3) Simone Weil, Attente de Dieu, Paris: La Colombe 1950, 120.

(4) Anthony de Mello, One Minute Wisdom, New York: Doubleday and Company 1975, 15.

(5) Wilkie Au and Noreen C. Au, The Discerning Heart. Exploring the Christian Path, New York/ Mahwah, N.J. : Paulist Press 2006, 133.

(6) Wilkie Au and Noreen C. Au, The Discerning Heart, 138.

(7) Xavier Quinzá Lleó, Ordenar el caos interior. Una propuesta espiritual. Santander- Bilbao: Mensajero – Sal Terrae 2011, 94.

 (8) Xavier Quinzá Lleó, Ordenar el caos interior, 104-105.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1532032/2021/08/tempo-de-decidir-momento-decisivo-e-complexo-orar-a-propria-situacao-de-eleicao-segundo-passo/

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Controlar as expectativas é o jeito mais simples de perdoar


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo de Octavio Messias


‘Quando lembro, já com algum distanciamento, de mágoas que ficaram no passado, elas já não doem mais tanto. Certa vez li uma frase em um desses memes motivacionais, cujo autor desconheço, que no entanto me fez muito sentido : O tempo cura tudo; só não cura o tempo que você perdeu esperando o tempo passar para curar tudo o que você teria vivido se não tivesse esperado tanto tempo.  A fala, que até anotei, me pareceu de um saber muito arguto no sentido de distinguir dois sentidos básicos da existência : o passado ou o futuro.

Quando conseguimos enxergar adiante, nossas vidas andam, novas oportunidades aparecem, o trabalho prospera e os relacionamentos florescem. Ao nos encontrarmos presos no rancor, ressentidos, por exemplo, com alguém de quem gostamos – seja namorada (o), cônjuge, pais, filho, amigos –, fica mais difícil que novos laços se estabeleçam e que a sua vida prospere rumo à felicidade. Ficamos presos naquela dor ainda não curada, ‘como uma ferida exposta’, uma vez um sábio amigo me falou. Uma ferida exposta ainda propensa a latejar. 

Claro, é necessária muita reflexão – e muitas vezes até análise – para curar as feridas e assimilar as mágoas do passado; no entanto, quanto menos tempo perdermos nesse processo de elaboração, mais tempo teremos desfrutar daquilo de mais sagrado que temos ao nosso dispor : viver. E, pela minha experiência pessoal, o atalho mais rápido para se curar das feridas do passado é perdoar.

Para conseguir perdoar, precisamos conseguir apontar o quanto daquela mágoa é responsabilidade do outro, e o quanto ela foi infligida por mim, uma dor resultante da frustração das minhas próprias expectativas. Tirar a culpa do outro e entender, aceitar e assumir nossa própria responsabilidade pelos desencantos que vivemos. Pois, embora doloroso seja, não somos tão cândidos quanto tendemos a preferir imaginar. 

Um exemplo pueril que, na minha opinião, ilustra bem esse tipo de impasse : na época da faculdade, me frustrava com frequência com um amigo quando ele não aceitava me acompanhar nas festas do diretório acadêmico. De quem era a responsabilidade pelo meu desgosto, minha, que projetei a expectativa de ter meu fiel escudeiro na festa, ou dele, um indivíduo com disposições, impressões e opiniões próprias que, em pleno exercício do seu livre-arbítrio, optou por não sair em uma determinada noite? 

Ou quando me frustrava com frequência com uma ex-namorada que não se sentia tão disposta a me acompanhar em eventos sociais, o que, sem perceber, eu julgava ser sua obrigação, embora logicamente não fosse. Temos de entender que, em relacionamentos, lidamos com emoções, e não podemos julgar, cobrar ou condenar outra pessoa pela maneira como ela se sente. 

Assim como nós, o outro não é perfeito, tem suas próprias limitações e questões emocionais, e dificilmente enxerga determinado impasse da mesma maneira. Não tem como imaginar – nem deve se propor a satisfazer – tudo que dele esperamos, tampouco tem responsabilidade pela maneira como nos sentimos. Isso cabe apenas a nós mesmos, no pleno exercício do nosso livre-arbítrio. 

Passei a ter um relacionamento muito mais saudável com os meus pais desde que resolvi perdoá-los, seja quais tenham sido as mágoas que me afligiram no passado. Procurei entender que na maioria das vezes (senão todas), eles não agiram com esse intuito. Eles são fruto de outros tempos, outros valores, outras visões de mundo, e entendi que aproveito meu relacionamento com eles muito mais desde o momento em que passei a entender e a respeitar quem eles são, e não quem eu poderia desejar que eles fossem. Faz mais sentido lidar com eles e aproveitá-los como são, do que perder tempo, disposição e energia esperando algo que não condiz com quem são. 

O que me parece um exercício saudável, observar o outro, pelo que deseja e por quem de fato é, ao invés de por aquilo que espero dele. Assim tendo a não mais me frustrar, e também a aprender com o que de mais singular essa pessoa tem a me oferecer, ainda que seja inesperado, requeira diálogo e assimilação. 

Perceber que, ao perdoar, ao abrir mão do papel de capataz e de julgar, quem ganha vida nova e deixa o passado para trás é você. Isaías, 43:25 : Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais de seus pecados.’


Fonte :
*Artigo na íntegra

sábado, 4 de janeiro de 2020

Cristo, Senhor do tempo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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 Cristo é o Senhor do tempo pois ressignifica a história da humanidade
*Artigo de Daniel Couto

O tempo, ‘Se ninguém me pergunta, eu o sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada’.(AGOSTINHO, Confissões, XI, 14, 17)


‘Os seres humanos, cada vez mais, estão sujeitos a uma nova opressão : a escravidão do tempo. Vivemos na era da velocidade, do imediatismo, da ‘falta de tempo’, da exigência de prazos, da fuga da velhice, da expectativa de vida cada vez mais estendida. Desenvolvemos transtornos psicológicos que estão intimamente relacionados às exigências hodiernas e ficamos aprisionados na inaptidão de lidar com essa ‘nova ordem’. Estamos mergulhados em saudosismos por um passado que já não mais existe e projeções de um futuro que nos parece inalcançável.

Como não podemos fugir desta realidade, precisamos, de alguma maneira, ressignificá-la a partir dos elementos da tradição. Se voltarmos o nosso olhar para a ‘maneira de viver’ de outros povos, culturas e tempos, encontraremos diversos exemplos que ajudam a interpretar a vida a partir de outras chaves. As religiões, em suas expressões e, particularmente, nas práticas rituais, buscam inserir os seres humanos na temporalidade do divino. Os cristãos têm, portanto, na figura de Jesus e na história da revelação divina, um modo de viver o tempo que ‘rompe’ com a lógica da sua época e, do mesmo modo, configura-se como modelo para nossa vida.

Antes de refletirmos sobre esse novo olhar sobre o tempo, experimentado de maneira radical pelo Galileu, é preciso entendermos que essa é uma das questões filosóficas/teológicas mais interessantes e discutidas de todos os ‘tempos’. Qual é a origem do tempo? Qual é a temporalidade na qual se insere a divindade? O tempo existe ou é apenas uma apreensão que temos sobre a realidade? O tempo pode ser explicado ou apenas vivido?

No mundo grego, tomando como exemplo a sociedade e o pensamento da Grécia Antiga, o tempo está ligado ao movimento natural do cosmos. O movimento perfeito, infinito, é o movimento circular, que determina os ciclos, pode ser tomado sobre qualquer ponto, e representa a organização do universo. O tempo, como entidade, também possui uma personalidade que, hora observa os eventos, como uma testemunha universal, ora é o próprio responsável pelo andar do ‘destino’. De certa maneira, tempo, movimentos celestes e destino sempre estiveram ligados. Lembremos, também, que o ‘tempo oportuno’ do nascimento do messias foi anunciado por meio de um movimento celeste : o aparecimento da estrela.

Aristóteles, por outro lado, busca sistematizar essa contagem temporal, dizendo que o ‘tempo é o número do movimento, segundo o antes e o depois’. O movimento do universo é ininterrupto, e o que chamamos de tempo é apenas uma medida, tomando como ponto de partida um marco. Quando determinamos essa referência podemos dizer sobre um passado, isto é, um movimento que aconteceu anteriormente ao início da contagem e um futuro, que acontecerá após a medida atual. De qualquer maneira, isso demonstra a inexistência do tempo como substância, valendo-se apenas como medida de um movimento que não depende dele.

O cristianismo, neste mesmo caminho, possui em sua narrativa mitológica, diversos elementos que nos ajudam a entender o tempo segundo a ‘medida humana’ e a ‘medida divina’. Diferente dos gregos, nós acreditamos em um Deus criador, com o universo gerado a partir de sua palavra, uma ação inicial que provoca o primeiro movimento e, consequentemente, o ‘início dos tempos’. Somente por isso ele é anterior a tudo, o princípio e o fim, pois é dele que advém toda a temporalidade, materialidade, movimento e criação. O divino está para além do tempo, pois é a criação, por ele gerada, que determina a temporalidade. O tempo está ligado, fundamentalmente, ao mundo e à nossa vida. Sobre a vida de Deus não podemos dizer do tempo, porque ela ultrapassa todas as nossas categorias.

Dentro desta perspectiva, Agostinho elucidará, já no século 3 d.C., que a única existência temporal possível é o ‘agora’. Sobre o passado não é possível fazer nada além de recordar, ele não existe senão em nossa memória. Mesmo quando relembramos ou trazemos para o presente esses fatos, o que existe é o agora da recordação, não o acontecimento rememorado. Do mesmo modo, o futuro é apenas projeção de uma situação vivida no presente. Só é possível almejar algo que conhecemos elevando as expectativas ou planejando mudanças na rota do ‘agora’. O ontem é lembrança no agora daquilo que se foi e o amanhã é projeção no agora daquilo que pode vir-a-ser.

O filósofo afirma que o que ‘parece claro e manifesto é que nem o futuro, nem o passado existem, e nem se pode dizer com propriedade, que há três tempos: o passado, o presente e o futuro. Talvez fosse mais certo dizer-se : há três tempos : o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro, porque essas três espécies de tempos existem em nosso espírito e não as vejo em outra parte. O presente do passado é a memória; o presente do presente é a intuição direta; o presente do futuro é a esperança.’ (Confissões, XI, 20, 1)

Portanto, como a mística cristã, pode nos ajudar a viver a temporalidade?

Talvez seja interessante recordarmos o que cantamos na proclamação do Natal : ‘Hoje nasceu para nós um salvador’. A temporalidade cristã é o agora. É no hoje, no cotidiano, na vida ordinária que a manifestação do divino acontece. Uma presença que não é rodeada de pirotecnias e alardes, mas se expressa na simplicidade e trivialidade do dia-a-dia. Jesus, uma criança, filho de mulher, pertencente a uma história e cultura pela lei e filiação paterna, ressignifica todo o tempo no agora. Ele condensa a tradição do antigo testamento e projeta todo pensamento cristão em si. No agora da pessoa de Jesus Cristo o reino acontece e o Pai se faz visível para os seres humanos. O senhor do tempo, palavra criadora, assume a temporalidade da criação, vive segundo a cronologia, o movimento, a geração e a corrupção da matéria para nos mostrar que a Palavra de Deus vive no hoje. Jesus está presente no meio dos seus porque é na ruptura do tempo, no tempo oportuno da revelação (kairós) que vivemos.

Durante séculos a tradição busca assumir essa maneira de viver apresentada pelo Filho de Deus, principalmente ao buscar respostas para os dilemas existenciais. O caminho não é deixar de lado o trabalho, as questões políticas e sociais, os conflitos e o convívio, mas entender que só existe uma oportunidade de ‘proclamar a palavra’ : o agora. O amor não é para ser vivido no amanhã, nem a caridade planejada para o ‘tempo da conversão’. Os seres humanos clamam por vida ‘agora’. As guerras precisam de intervenções de paz ‘agora’. A fome precisa ser saciada ‘agora’. A justiça e o Reino são clamores do povo que vive o ‘hoje da história’. É desta maneira que a Palavra de Deus é atemporal, a mesma ontem, hoje e sempre, porque ela sempre terá o que dizer aos nossos anseios e clamores.

Na história da humanidade, costumeiramente datada a partir do ‘evento’ Jesus Cristo, aprendemos que tudo o que vivemos, tudo o que somos, e tudo o que ainda podemos ser só é experimentado no tempo. Não seria diferente com Deus, que se faz um de nós. O ‘evento’ Jesus não somente marca uma ruptura no tempo/espaço, mas também nos mostra que cotidianamente precisamos viver essa intervenção divina. A encarnação do verbo é profundamente humana, mostrando que são os seres humanos que constroem o tempo, que são os seus senhores, assim como Jesus. Não devemos ser escravos do tempo, uma vez que ele existe apenas por causa da nossa capacidade de racionalizar o movimento, mas é o tempo que deve ser lugar oportuno da manifestação do amor. Ao redor do mundo, esférico é claro, os cristãos celebram suas liturgias, lugar da memória desse encontro entre o céu (dimensão divina) e a terra (dimensão da criação), a presença de Deus ‘hoje’ na história. Hoje o filho se encarna, hoje o Evangelho é anunciado, hoje o pão é partilhado, hoje vivemos a paixão, hoje o Cristo é condenado à morte e ressuscita e hoje somos enviados pelo mundo para restaurar a dignidade de todas as pessoas pelo amor. Cristo é o Senhor do tempo pois ressignifica a história da humanidade mostrando que a vida acontece na dimensão ordinária e cotidiana. Eu, você e todos os seres humanos vivendo, cada dia, a encarnação do amor.’


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segunda-feira, 5 de junho de 2017

O tempo voa!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor
 
‘A reclamação que mais ouvimos hoje, é de que o tempo está passando depressa demais, ou então ficou mais curto. Será que as 24 horas do dia encolheram? Em 1952, Winfried Otto Schumann, físico alemão descreveu um campo eletromagnético poderoso que se situa a cerca de 100km acima do nível terrestre. Esse campo possui uma ressonância (daí chamar-se Ressonância de Schumann), mais ou menos constante, da ordem de 7,83 pulsações por segundo, que são saudáveis para a ecologia e o funcionamento do nosso organismo. Contudo, a partir dos anos 80 essas pulsações foram se acelerando, chegando a 13 herz por segundo. Com isso, muitas mudanças ocorreram na natureza, e uma delas é o possível ‘encurtamento’ dos dias, talvez por provocar alterações nos níveis de serotonina e melatonina em nosso organismo. Todavia a ciência convencional questiona a validade dessas afirmações, pairando dúvidas acerca da Ressonância de Schumann. Mas fica como uma hipótese a ser considerada.

Existem porém, outras explicações mais plausíveis, e sobretudo com causas que podem ser controladas por nós mesmos, talvez até ‘alongando’ os dias que reclamamos tão curtos.

Para começar, há que se assumir uma atitude essencial à consecução de bons resultados, nesse e em outros propósitos : ser honesto para consigo mesmo, o que geralmente não acontece. Quando erramos, somos capazes de olhar-nos nos próprios olhos e afirmar que fizemos ou não fizemos determinadas coisas. Nosso apego à autoimagem de ‘perfeitos’ é uma das forças mais dominadoras que nos comanda. Por ela, afirmamos que não erramos, mesmo diante das mais evidentes consequências e provas de nossos erros. Já os deprimidos, aqueles que possuem pouca, ou nenhuma autoestima, agem de maneira bem diferente. Mesmo não tendo feito nada de errado, assumem a responsabilidade de faltas que não cometeram, talvez em busca de punições que acreditam merecer. Por isso reafirmo : temos de ser honestos com nós mesmos, para corrigir a suposta escassez de tempo e, por que não, tantas outras situações de sofrimento provocadas pelas mentiras que vivemos repetindo para nós mesmos.

Em tempos passados, quando o ritmo das atividades não era tão frenético como hoje, quase ninguém reclamava por estar com falta de tempo. O telefone celular, que aparentemente veio para facilitar contatos, ao fazê-lo gerou mais compromissos para seus usuários. Além disso, frequentemente atropela atividades que deveriam fluir tranquilas, interrompendo o fluxo natural das coisas, e acrescentando mais ao que pretendíamos fazer no intervalo de tempo destinado a uma única tarefa. Com isso, o que poderia ser feito em uma hora, com os acréscimos ocorridos aumenta-se, e muito, o tempo gasto. Em decorrência disso, as pessoas vão habituando-se a comprimir mais atividades do que seria razoável num mesmo espaço de tempo, deixando-as sempre atrasadas para seus compromissos. Exemplo flagrante são os ambulatórios e consultórios médicos, sempre com um número muito maior de pacientes (hoje, impacientes...) do que o adequado para um tempo normal de atendimento. E o pior desse descontrole é o agravamento do estresse, concorrendo para o aumento de acidentes, especialmente de trânsito, pelo ritmo inconsequente imposto às pessoas.

Outra causa comum para o ‘encurtamento do tempo’, é a falta de controle e planejamento de muitas pessoas. Mesmo sabendo que têm um compromisso às X horas, nunca iniciam seus preparativos para ele, num tempo verdadeiramente suficiente para não ter que aprontar correrias – e fazer mal feito – seus arranjos. Aqui se inserem especialmente as mulheres – mas também alguns homens – que sabendo o tempo que gastam para se arrumar, reservam somente uma parte dele para isso, utilizando o restante para uma ‘rápida’ conferida no Iphone, o envio de duas ou três mensagens, bem ‘curtinhas’ e outras coisinhas mais, justificando : ‘É rapidinho... ainda tenho tempo...’ Quando essas pessoas se dão conta, já estão atrasadas e ‘arrancam os cabelos’, se irritam e brigam para conseguir completar seus preparativos no pouco tempo que lhes restou, não admitindo qualquer observação a respeito.

Voltando à questão da honestidade para consigo próprio : se alguém aponta esse comportamento para aquela pessoa, ela contesta, diz que não é verdade, e que com ela não é assim. Além da cascata de explicações e justificativas, quase sempre fica ressentida, magoada, ofendida mesmo, com quem lhe faz observações a respeito de sua impontualidade.

Hoje o tempo não está curto, apenas parece curto. Ou melhor : o fazemos curto. Tudo pela falta de planejamento adequado, pelo excesso de atividades que se opta assumir, pela inautenticidade para consigo mesmo, na modernidade líquida em que vivemos. Onde tudo escorre rapidamente, não deixando tempo suficiente para os excessos que queremos fazer, esquecidos do que realmente importa : genuína qualidade de vida; relacionamentos afetivos sólidos; e portanto, viver feliz.

O tempo? Este continua e continuará o mesmo, por milhões e milhões de anos...’

           
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