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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

A responsabilidade da pregação cristã para com o diálogo em tempos de intolerância

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Francisco Thallys Rodrigues

 

‘A base fundamental da pregação cristã é o anúncio da boa nova do Reinado de Deus, proclamado por Jesus, este que se expressa como um tempo novo para os excluídos, pobres e sofredores. O princípio fundamental da fé cristã é o amor a Deus e ao próximo vivido no cotidiano da vida. Seguir Jesus é manifestar o amor de Deus pela humanidade por meio da palavra e do testemunho. Neste contexto, denunciar as injustiças e situações de exploração deve ser parte integrante da espiritualidade dos cristãos de todos os tempos, expressos em palavras e atos. O problema é que muitas vezes a denúncia da injustiça e o anúncio da boa nova do Reino tem cedido espaço para discursos pretensamente ‘neutros’, sem posição diante das ameaças à vida, ou em outros casos tem cedido espaço para o discurso de ódio. Qual a importância da pregação cristã num contexto de dificuldade de diálogo?

Na palavra e ação de Jesus encontramos uma abertura fundamental ao próximo, independentemente de sua situação ou condição. Acolhe a todos que o procuram nas mais variadas situações não se atendo a questões culturais, religiosas ou étnicas. Isto ocorre mesmo com aqueles que claramente se opunham a ele ou procuravam matá-lo. O Reinado de Deus anunciado por Jesus não foi imposto, mas trata-se de um convite que supõe uma adesão livre e por amor. A pregação de Jesus tem por base fundamental a experiência filial com Deus, ela é acompanhada por um testemunho sincero e fecundo. Os cristãos devem reconhecer-se nesta experiência filial com o Pai que conduz a vivência da fraternidade com os irmãos e irmãs. Filiação e fraternidade tornam-se essenciais numa vida segundo o Espírito.

No decorrer dos séculos, a pregação, acompanhada do testemunho, tornou-se o eixo fundamental para o crescimento do cristianismo seja nos espaços celebrativos ou mesmo na expansão da atividade missionária. Tão grande era a importância da pregação cristã que, no contexto medieval, surgiu uma ordem (dominicanos) especialmente dedicada à pregação em vista da conversão daqueles que muitas vezes eram considerados ‘hereges’. Mesmo em nossos tempos, uma quantidade significativa de pessoas dirige-se semanalmente, ao menos, às igrejas e templos para participarem de celebrações que dedicam uma parte, ou quase sua totalidade, à pregação a partir dos textos bíblicos.

Quando se considera o momento atual, marcado pela crescente polarização em todos os setores e o crescimento do ódio, a pregação cristã tanto pode favorecer espaços de abertura e diálogo, quanto pode levar ao acirramento de ânimos, aumentando a segregação e o ódio. Quando se parte do princípio de que o respeito e a capacidade de escuta são exigências fundamentais do amor cristão, o diálogo torna-se possível. Trata-se de um processo de maturidade para reconhecer que o outro tem igual dignidade mesmo que não professe a mesma fé ou que não concorde com o que pensamos. Dentro das próprias comunidades cristãs torna-se urgente insistir em sua diversidade como expressão dos próprios dons do Espírito, tendo consciência de que o Evangelho de Jesus é ponto fundamental que nos une. Tal experiência quando asseverada nas pregações pode favorecer maior solicitude diante do próximo. Não faltam exemplos de homens e mulheres que, em cada tempo e lugar, estabeleceram diálogos, aparentemente impossíveis, tal é o caso de Francisco de Assis com o Sultão; ou Charles de Foucauld com os mulçumanos no deserto africano.

Por outro lado, a pregação cristã pode conduzir ao fechamento em si mesmo quando os pregadores estabelecem uma linha divisória entre os espirituais e os profanos ou se quiser outra linguagem, entre os batizados e os ‘do mundo’. Nesta concepção, estes últimos encontram-se destituídos de valor porque não acolheram a boa nova de Deus, não se ‘converteram’. Neste caso, o diálogo só é possível quando os ‘perdidos’ decidem entrar num processo de conversão ou mostram alguma disposição para fazê-lo. Do contrário, o diálogo torna-se impossível. O extremismo de tal posição pode levar ao cerceamento do outro, tal como aconteceu também na história, por mais de uma vez, aos judeus e, no caso brasileiro, às religiões de matriz afro. O crescente ódio dos cristãos motivados por pregações de cunho farisaico, fundamentalista e, porque não dizer elitista (no sentido de termos os salvos e os condenados), é uma enorme contradição com o Evangelho de Jesus e com a vida dos cristãos.

Neste cenário, os pregadores cristãos deveriam insistir no diálogo como elemento fundamental para a vivência do Evangelho. O diálogo supõe capacidade de abertura, reconhecimento de valor e consideração do outro como irmão e não como inimigo. O caminho parece ser insistir na necessidade de construir pontes e estabelecer diálogos, pequenos consensos que possam conduzir a uma abertura. Além disso, não se deve esquecer que o mais fundamental deverá ser o testemunho dado no cotidiano da vida que como fermento na massa transforma o mundo.

Portanto, o papel da pregação cristã neste cenário é convidar ao seguimento de Jesus que exige uma constante conversão para o serviço a Deus e aos irmãos e irmãs. Estes não podem ser compreendidos unicamente como aqueles que fazem parte da mesma confissão de fé, mas deve incluir a todos sem distinção. A pregação cristã será mais evangélica na medida em que expressar aquilo que foi o mais fundamental na vida de Jesus : o amor feito doação a todos os irmãos e irmãs a partir da experiência filial com o Pai animado pelo Espírito.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1534402/2021/08/a-responsabilidade-da-pregacao-crista-para-com-o-dialogo-em-tempos-de-intolerancia/

sexta-feira, 12 de março de 2021

‘E vós, quem dizeis que eu sou?’ Jesus Cristo, ‘verdadeiro Deus’ – Terceira Pregação da Quaresma de 2021

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap,

pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano)

Tradução : P. Ricardo Farias, OFMCap

 

Recordemos brevemente o tema e o espírito destas meditações quaresmais. Propusemo-nos em reagir à tendência difundidíssima de falar da Igreja ‘etsi Christus non daretur’, como se Cristo não existisse, como se fosse possível entender tudo dela, prescindindo dele. Propusemo-nos, porém, em reagir a isso de um modo diverso do habitual : não buscando convencer o mundo e seus meios de comunicação de erro, mas renovando e intensificando a nossa fé em Cristo. Não em chave apologética, mas espiritual.

Para falar de Cristo, escolhemos a via mais segura, que é a do dogma : Cristo verdadeiro homem, Cristo verdadeiro Deus, Cristo uma só pessoa. Aquela do dogma é uma via por nada velha e ultrapassada. ‘A terminologia dogmática da Igreja primitiva – escreveu Kierkegaard, um dos maiores representantes do pensamento moderno existencialista – é como um castelo encantado, onde repousam em um sono profundo os príncipes e as princesas mais graciosos. Basta apenas despertá-los, para que se levantem em toda a sua glória’ [1].

Assim, trata-se justamente disso : de despertar os dogmas, de infundir neles vida, como quando o Espírito entrou nos ossos ressequidos vistos por Ezequiel e ‘eles viveram e se puseram de pé’ (Ez 37,10). Na vez passada, buscamos fazer isso, em relação ao dogma de Jesus ‘verdadeiro homem’; hoje, queremos fazê-lo com o dogma de Cristo ‘verdadeiro Deus’.

O dogma de Cristo ‘verdadeiro Deus’

Em 111 ou 112 depois de Cristo, Plínio, o Jovem, governador da Bitínia e do Ponto, escreveu uma carta ao Imperador Trajano, pedindo-lhe indicações sobre como se comportar nos processos instaurados contra os cristãos. Segundo as informações tomadas – escreve ao Imperador – ‘toda a sua culpa ou erro consistia em se reunirem habitualmente em um dia estabelecido antes da aurora e entoar, em coros alternados, um hino a Cristo como a um Deus’ : carmen Christo quasi Deo dicere [2]. Estamos na Ásia Menor, há poucos anos da morte do último apóstolo, João, e os cristãos proclamam já no canto a divindade de Cristo! A fé na divindade de Cristo nasce com o nascer da Igreja.

Mas o que é desta fé hoje? Façamos, primeiramente, uma breve reconstrução da história do dogma da divindade de Cristo. Ele foi sancionado solenemente no Concílio de Niceia de 325, com as palavras que repetimos no Credo : ‘Creio em um só Senhor, Jesus Cristo... Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai’. Para além dos termos usados, o sentido profundo da definição de Niceia – como se deduz de Santo Atanásio, que foi sua testemunha e intérprete mais fidedigno – era que, em toda língua e em toda época, Cristo deve ser reconhecido como Deus no sentido mais forte e mais alto que a palavra ‘Deus’ tem em determinada língua e cultura, e não em qualquer outro sentido derivado e secundário.

Foi preciso quase um século de assentamento antes que esta verdade fosse recebida, na sua radicalidade, por toda a cristandade. Uma vez superados os refluxos de arianismo devidos à chegada de povos bárbaros que tinham recebido a primeira evangelização dos heréticos (Godos, Visigodos e Longobardos), o dogma se tornou patrimônio pacífico de toda a cristandade, seja oriental como ocidental.

A Reforma Protestante o manteve intacto, e mais, aumentou sua centralidade; contudo, inseriu nele um elemento que, mais tarde, dará margem a prolongamentos negativos. Para reagir ao formalismo e ao nominalismo que reduziam os dogmas a exercícios de virtuosismo especulativo, os reformadores protestantes afirmam: ‘Conhecer Cristo significa reconhecer os seus benefícios, não indagar as suas naturezas e os modos da encarnação’ [3]. O Cristo ‘para mim’ se torna mais importante do que o Cristo ‘em si’. Ao conhecimento objetivo, dogmático, opõe-se um conhecimento subjetivo, íntimo; ao testemunho exterior da Igreja e das próprias Escrituras sobre Jesus, antepõe-se o ‘testemunho interior’, que o Espírito Santo presta a Jesus no coração de cada fiel.

O Iluminismo e o racionalismo encontraram nisso o terreno adequado para a demolição do dogma. Para Kant, o que conta é o ideal moral proposto por Cristo, mais do que a sua pessoa. A teologia liberal do século XIX reduz praticamente o cristianismo apenas à dimensão ética e, particularmente, à experiência da paternidade de Deus. Despoja-se o Evangelho de todo o sobrenatural : milagres, visões, a ressurreição de Cristo. O cristianismo torna-se apenas um sublime ideal ético que pode prescindir da divindade de Cristo e, até mesmo, da sua existência histórica. Gandhi, que, infelizmente, conhecera o cristianismo nesta versão redutiva, escreveu : ‘Não me importaria nem mesmo se alguém demonstrasse que o homem Jesus, na realidade, jamais viveu, e que o que se lê nos evangelhos não é nada mais do que fruto da imaginação do autor. Apesar de que o sermão da montanha permanecesse verdadeiro aos meus olhos’.

A versão mais próxima a nós desta tendência redutiva do cristianismo é aquela popularizada por Bultmann, em nome, desta vez, da demitologização : ‘A fórmula ‘Cristo é Deus’ – ele escreve – é falsa, em todo sentido, quando ‘Deus’ é considerado como ser objetivável, seja ela entendida segundo Ário ou segundo Niceia, em sentido ortodoxo ou liberal. Ela está correta se ‘Deus’ for entendido como o evento da atuação divina’ [4]. Em palavras menos veladas : Cristo não é Deus, mas em Cristo há (ou opera) Deus. Estamos bem distantes, como se vê, do dogma definido em Niceia. Diz-se de querer, deste modo, interpretar o dogma antigo com categorias modernas, mas, na realidade, não se faz outra coisa a não ser repropor, às vezes nos mesmos termos, soluções arcaicas (Paulo de Samósata, Marcelo de Ancira, Fotino), já avaliadas e rejeitadas pela consciência da Igreja.

Se, das discussões dos teólogos, considerando-se diversas reflexões, passa-se ao que, da divindade de Cristo, pensa o povo comum nos países cristãos, fica-se sem palavras. Após um concílio local dominado pelos opositores de Niceia (Rimini, ano 359), São Jerônimo escreveu : O mundo inteiro ‘emitiu um gemido e se surpreendeu em se rever ariano’ [5]. Nós teríamos muito mais razão que ele de gemer e fazer nossa a sua exclamação de estupor.

Cristo ‘verdadeiro Deus’ nos Evangelhos

Mas agora, devemos ter fé em nosso intuito. Por isso, deixemos de lado o que pensa o mundo e busquemos despertar em nós a fé na divindade de Cristo. Uma fé luminosa, não desfocada, ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, isto é, não só crida, mas também vivida. Também vivida, a Jesus não interessa tanto o que dizem dele ‘os homens’, mas o que dizem dele os seus discípulos. A pergunta está perenemente no ar : ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’ (Mt 16,15). É a ela que queremos buscar responder nesta meditação.

Partamos justamente dos evangelhos. Nos sinóticos, a divindade de Cristo jamais é declarada abertamente, mas é continuamente subentendida. Recordemos algumas frases de Jesus : ‘O Filho do Homem tem, na terra, autoridade para perdoar pecados’ (Mt 9,6); ‘Ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho’ (Mt 11,27); ‘O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão’ (frase esta, presente idêntica em todos os três Sinóticos) [6]. ‘O Filho do Homem é senhor também do sábado’ (Mc 2,28); ‘Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se assentará em seu trono glorioso. Todas as nações da terra serão reunidas diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos’ (Mt 25,31-32). Quem, a não ser Deus, pode perdoar os pecados em nome próprio e se proclamar juiz final da humanidade e da história?

Assim como basta um fio de cabelo ou uma gota de saliva para reconstruir o DNA de uma pessoa, assim, basta apenas uma linha do Evangelho, lida sem preconceitos, para reconstruir o DNA de Jesus, para descobrir o que ele pensava de si mesmo, mas não podia dizer abertamente para não ser incompreendido. A transcendência divina de Cristo literalmente transpira de cada página do Evangelho.

Mas é sobretudo João quem fez da divindade de Cristo o objetivo primário do seu evangelho, o tema que tudo unifica. Ele conclui o seu evangelho dizendo : ‘Estes (sinais), porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome’ (Jo 20,31), e conclui a sua Primeira Carta quase com as mesmas palavras :  ‘Eu vos escrevo estas coisas, a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna’ (lJo 5,13).

Um dia, como tantos outro, estava celebrando a Missa em um mosteiro de clausura. O trecho evangélico da liturgia era a página de João, em que Jesus pronuncia repetidamente o seu ‘Eu Sou’ : ‘De fato, se não crerdes que ‘Eu Sou’, morrereis nos vossos pecados... Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então sabereis que ‘Eu Sou’... Antes que Abraão existisse, Eu Sou’ (Jo 8,24.28.58). O fato de que as palavras ‘Eu Sou’, contrariamente a toda regra gramatical, no lecionário fossem escritas com duas maiúsculas, unido certamente a alguma outra causa mais misteriosa, fez acender uma fagulha. Aquela palavra ‘explodiu’ dentro de mim.

Eu sabia, dos meus estudos, que no evangelho de João havia numerosos ‘Eu Sou’, ego eimi, pronunciados por Jesus. Sabia que isso era um fato importante para a sua cristologia; que, com esses, Jesus se atribui o nome que Deus reivindica para si em Isaías : ‘Para que saibais e acrediteis em mim, e compreendais que Eu sou’ (Is 43,10). Mas o meu conhecimento era literário e inerte, e não suscitava emoções particulares. Naquele dia, era algo totalmente diverso. Estávamos no tempo pascal e parecia que o próprio Ressuscitado proclamasse o seu nome divino no céu e na terra. O seu ‘Eu Sou!’ iluminava e enchia o universo. Eu me sentia muito pequeno, como alguém que assiste, por acaso e distante, uma cena improvisa e extraordinária, ou a um grandioso espetáculo da natureza. Não se tratou mais do que uma simples emoção de fé, nada mais, porém, daquelas que, quando passam, deixam no coração uma marca indelével.

É de causar estupor a iniciativa que o Espírito de Jesus permitiu a João levar a termo. Ele abraçou os temas, símbolos, expectativas, enfim tudo aquilo que havia de religiosamente vivo, seja no mundo judaico, como no helenístico, pondo tudo isso a serviço de uma única ideia, melhor, de uma única pessoa : Jesus Cristo é o Filho de Deus e o Salvador do mundo. Ele aprendeu a língua dos homens do seu tempo, para gritar em seu meio, com todas as próprias forças, a única verdade que salva, a Palavra por excelência, ‘o Verbo’.

Somente uma certeza revelada, que tem por detrás de si a autoridade e a própria força de Deus e do seu Espírito, podia ser explicada em um livro com tal insistência e coerência, chegando, de inúmeros pontos diversos, sempre à mesma conclusão : a identidade total da natureza entre o Pai e o Filho : ‘Eu e o Pai somos um’ (Jo 10,30). Um ‘só’ (neutro unum), note-se bem, não uma só pessoa (masculino unus)!

‘Corde creditur : crê-se com o coração’

Assim como para a humanidade, também a propósito da divindade de Cristo, agora podemos mostrar como o antigo dogma, objetivo e ontológico, é capaz de acolher e valorizar o dado moderno subjetivo e funcional, enquanto, como vimos, o contrário foi um tanto difícil. Nenhuma das chamadas ‘cristologias a partir de baixo’, aquelas, para entendermos, que partem do Jesus ‘profeta escatológico e sumo revelador do Pai’, ou do Cristo, ‘o homem em quem a consciência de Deus atingiu o seu máximo nível’ (F. Schleiermacher), ou ainda, do Cristo ‘pessoa humana em quem subsiste a natureza divina’ (e não pessoa divina que subsiste em uma natureza humana!) : nenhuma, repito, destas cristologias conseguiu se elevar até abraçar o verdadeiro mistério da fé cristã e salvaguardar a plena divindade de Cristo. A razão do insucesso é explicada por Jesus e foi bem compreendida por João, que a expõe : ‘Ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu’ (Jo 3,13). De fato, é possível para Deus, se assim o quiser, fazer-se homem, mas não é possível ao homem fazer-se Deus!

Com estas premissas, podemos voltar a valorizar toda a dimensão subjetiva e personalista do dogma : o Cristo ‘para mim’, posto em primeiro plano pelos Reformadores, o Cristo conhecido por seus benefícios e pelo testemunho interior do Espírito. Este é o melhor fruto do ecumenismo, o das ‘diferenças reconciliadas’, não opostas, como diz o nosso Santo Padre. Não é uma concessão ‘pro bono pacis’, mas uma necessidade e um enriquecimento recíproco. Todos nós precisamos dar à nossa fé esta dimensão pessoal, íntima, para que ela não seja repetição morta de fórmulas antigas ou modernas. Sobre este ponto, somos todos chamados em causa : católicos, ortodoxos e protestantes, da mesma maneira.

São Paulo diz que ‘é com o coração que se crê para a justiça; e com a boca, professa-se a fé para a salvação’ (Rm 10,10). ‘É das raízes do coração que sobe a fé’, comenta Agostinho [7]. Na visão católica, como naquela ortodoxa, e também, em seguida, naquela protestante, a profissão da reta fé, isto é, o segundo momento deste processo, frequentemente tomou tanto relevo ao ponto de deixar na sombra aquele primeiro momento que se desenvolve nas profundidades escondidas do coração. Todos os tratados De fide, escritos após Niceia, tratam da ortodoxia da fé; hoje, dir-se-ia da fides quae, não da fides qua, das coisas a serem cridas, não do ato pessoal do crer.

Este primeiro ato de fé, justamente porque acontece no coração, é um ato ‘singular’, que pode ser feito apenas pelo indivíduo, em total solidão com Deus. No evangelho de João, ouvimos Jesus fazer repetidamente a pergunta : ‘Crês isto?’ (Jo 9,35; Jo 11,26); e, cada vez, esta pergunta suscita do coração o grito da fé : ‘Sim, Senhor, eu creio!’. Também o símbolo de fé da Igreja começa assim, no singular : ‘Creio’, não : ‘Cremos’.

Também nós devemos aceitar passar por este momento, de se submeter a este exame. Se, à pergunta de Jesus : ‘Crês isto?’, alguém responde imediatamente, sem nem pensar : ‘Claro que creio’, e acha até estranho que uma pergunta semelhante seja dirigida a um fiel, a um sacerdote ou a um bispo, quer dizer provavelmente que ainda não descobriu o que significa realmente crer, jamais experimentou a grande vertigem da razão que precede o ato de fé. A divindade de Cristo é o cume mais alto, o Evereste da fé. Crer em um Deus nascido em um estábulo e morto em uma cruz! Isto é muito mais exigente do que crer em um Deus distante, que cada um pode representar ao próprio gosto.

É preciso começar a demolir em nós, fiéis e homens da Igreja, a falsa persuasão de que estamos bem no que se refere à fé e que, no mais, devemos trabalhar ainda pela caridade. Talvez não seja um bem, quem sabe, por um pouco de tempo, não querer demonstrar a ninguém, mas interiorizar a fé, redescobrir as suas raízes no coração!

Devemos recriar as condições para uma retomada da fé na divindade de Cristo. Reproduzir o impulso de fé do qual nasceu o dogma de Niceia. O corpo da Igreja outrora produziu um esforço supremo, com o qual se ergueu, na fé, acima de todos os sistemas humanos e de todas as resistências da razão. A maré da fé uma vez subiu a um nível máximo e sua marca permaneceu na rocha. No entanto, é preciso que se repita a subida, não basta a marca. Não basta repetir o Credo de Niceia; é preciso renovar o impulso de fé que então se teve na divindade de Cristo e do qual não houve igual nos séculos.

A praxe da Igreja (e não só da Igreja Católica!) prevê uma profissão de fé da parte do candidato, antes de receber o mandato de ensinar teologia. Esta profissão de fé tem comportado, frequentemente, além da recitação do credo, o compromisso de ensinar algumas coisas precisas – e a não ensinar outras igualmente precisas – que, naquele momento da história, eram temas particularmente sensíveis. Pensemos no juramento contra o modernismo.

A mim parece que se deveria verificar sobretudo uma coisa : que quem ensina teologia aos futuros ministros do Evangelho creia firmemente na divindade de Cristo. Verificar isto mediante um discernimento fraterno e franco, melhor do que com um juramento. Houve toda uma geração de sacerdotes após o Concílio (certamente, não por causa do Concílio!) que saiu do seminário e se apresentou à ordenação com ideias muito confusas e desfocadas sobre quem é o Jesus que devia anunciar ao povo e tornar presente no altar na Missa. Muitas crises sacerdotais, estou convencido, começaram e começam aqui.

Ecumenismo e evangelização

O que evidenciamos tem importantes consequências também para o ecumenismo cristão. Existem, de fato, dois ecumenismos possíveis : o da fé e o da incredulidade; um que reúne todos aqueles que creem que Jesus é o Filho de Deus e que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, e um que reúne todos aqueles que se limitam a ‘interpretar’ (cada um à própria maneira e segundo o próprio sistema filosófico) estas coisas. Um ecumenismo no qual, no máximo, todos creem as mesmas coisas porque ninguém crê mais realmente em nada, no sentido forte da palavra ‘crer’.

A distinção fundamental dos espíritos, no âmbito da fé, não é a que distingue entre católicos, ortodoxos e protestantes, mas a que distingue aqueles que creem no Cristo Filho de Deus e aqueles que não creem; segundo São Paulo, ‘todos os que, em todo lugar, invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso’ (1Cor 1,2), e os que não o invocam.

Há uma unidade nova e invisível que vai se formando e que passa pelas diversas Igrejas. Esta unidade invisível e espiritual, por sua vez, tem necessidade vital do discernimento da teologia e do magistério, para não cair no perigo do fundamentalismo ou na vã presunção de poder formar uma espécie de Igreja transversal, fora das Igrejas existentes e, particularmente, da Igreja Católica. Mas, uma vez vislumbrada e superada esta tentação, trata-se de um fato que não podemos mais nos permitir ignorar.

O verdadeiro ‘ecumenismo espiritual’ não consiste somente em rezar pela unidade dos cristãos, mas em compartilhar a mesma experiência do Espírito Santo. Consiste naquela que Agostinho chama ‘societas sanctorum’, a comunhão dos santos, que, às vezes, dolorosamente, pode não coincidir com a ‘communio sacramentorum’, ou seja, compartilhar dos mesmos sinais sacramentais.

A fé na divindade é importante sobretudo em vista da evangelização. Existem edifícios ou estruturas metálicas feitas de forma que, se você tocar em um determinado ponto ou levantar uma determinada pedra, tudo desmorona. Assim é o edifício da fé cristã, e esta sua ‘pedra angular’ é a divindade de Cristo. Removida esta, tudo se desagrega e desmorona, começando pela fé na Trindade. De quem se forma a Trindade, Cristo não é Deus? Não por nada, basta se por entre parênteses a divindade de Cristo, que se põe entre parênteses também a Trindade.

Santo Agostinho dizia : ‘Não é grande coisa crer que Jesus morreu; nisto creem até os pagãos e os ímpios; todos creem nisso. Mas é algo realmente grande crer que ele ressuscitou’. E concluía : ‘A fé dos cristãos é a ressurreição de Cristo’ [8]. A mesma coisa se deve dizer da humanidade e divindade de Cristo, cujas morte e ressurreição são as respectivas manifestações. Todos creem que Jesus seja homem; o que faz a diversidade entre crentes e não crentes é crer que ele também seja Deus. A fé dos cristãos é a divindade de Cristo!

‘Conhecer Cristo é reconhecer os seus benefícios’

‘Conhecer Cristo é reconhecer os seus benefícios’, nós ouvimos. Concluamos justamente recordando dois destes benefícios, que são os mais capazes de responder às necessidades profundas do homem de hoje e de sempre : a necessidade de sentido e a necessidade de vida.

Não é verdade que o homem moderno deixou de se propor a questão sobre o sentido da vida. Há alguns anos, um conhecido intelectual escreveu : ‘A religião morrerá. Não é um desejo, muito menos uma profecia. Já é um fato que está aguardando seu cumprimento... Passada a nossa geração e talvez aquela de nossos filhos, ninguém mais considerará a necessidade de dar um sentido à vida um problema realmente fundamental... A técnica levou a religião ao seu crepúsculo’ [9]. Claro, não se interroga sobre o sentido último da vida quem se prestou a outras coisas... Mas, quando estas vão desaparecendo – juventude, saúde, fama – muitos voltam a se propor aquela pergunta. Fazem-na ainda mais neste tempo de pandemia em que, fechados frequentemente em casa, homens e mulheres finalmente têm tido o tempo de refletir e se interrogar.

Há uma pintura, dentre as mais famosas da arte moderna, que representa visivelmente aonde leva a convicção de que a vida não tem sentido. Em um fundo avermelhado que inspira angústia, um homem atravessa correndo uma ponte, passando por dois indivíduos que parecem alheios e indiferentes a tudo; tem os olhos rabiscados; com as mãos em torno à boca, emite um grito e se entende que é um grito de desespero.

Jesus disse : ‘Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não caminha na escuridão’ (Jo 8,12). Quem crê em Cristo, tem a possibilidade de resistir à grande tentação da falta de sentido da vida, que frequentemente leva ao suicídio. Quem crê em Cristo não caminha nas trevas : sabe de onde vem, sabe para onde vai e o que fazer enquanto isso. Sobretudo, sabe que é amado por alguém e que este alguém deu a vida para demonstrá-lo!

Jesus também disse : ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá’ (Jo 11,25). E o evangelista, mais tarde, escreverá aos cristãos : ‘Eu vos escrevo estas coisas, a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna (...). Ele é o verdadeiro Deus e a Vida eterna’ (1Jo 5,13.20). justamente porque Cristo é ‘verdadeiro Deus’, é também ‘vida eterna’ e dá a vida eterna. Isto não nos tira necessariamente o medo da morte, mas dá ao fiel a certeza de que a nossa vida não termina com ela.

Repensemos em algo de tudo isso quando, domingo, proclamamos o segundo artigo do Credo :

Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,

Filho unigênito de Deus,

nascido do Pai antes de todos os séculos :

Deus de Deus, luz da luz,

Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,

gerado, não criado,

consubstancial ao Pai.

Por ele todas as coisas foram feitas.

 

Fonte :

*Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-03/cantalamessa-terceira-meditacao-divindade-de-cristo-texto-integr.html

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[1] Cf. Søren Kierkegaard, Diario, II, A 110 (anno 1837).

[2] Cf. Plínio, o Jovem, Epistularum liber, X,96.

[3] Cf. Filipe Melâncton, Loci theologici, in Corpus Reformatorum, Brunsvigae 1854, p. 85.

[4] Cf. R. Bultmann, Glauben und Verstehen, II, Tübingen 1938, p. 258.

[5] Cf. S. Jerônimo, Dialogus contra Luciferianos, 19 (PL 23, 181) : «Ingemuit totus orbis et arianum se esse miratus est».

[6] Mc 13,31; Mt 24,35; Lc 21,33.

[7] Cf. Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de João, 26,2 (PL 35,1607).

[8] Cf. Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos 120, 6.

[9] Na revista ‘MicroMega’ 2, 2000, pp. 187s.

 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

‘Veio morar entre nós’ - Terceira Pregação do Advento de 2020

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  

*Artigo do Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap,

pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano)

Tradução : P. Ricardo Farias, OFMCap

 

‘Entre vocês existe um que você não conhece!’ É o grito triste de João Batista ouvido no Evangelho do Terceiro Domingo do Advento que gostaríamos de receber neste último encontro antes do Natal.

Na memorável mensagem ‘Urbi et orbi’ de 27 de março passado na Praça São Pedro, após ter lido o evangelho da tempestade acalmada, o Santo Padre se perguntava em que consistia a ‘pouca fé’ que Jesus censurava nos discípulos, e explicava :

Não é que deixaram de crer N’Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam : ‘Mestre, não te importas que pereçamos?’ (Mc 4,38). Não te importas : pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles. Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer : ‘Não te importas de mim’. É uma frase que fere e desencadeia turbulência no coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se importe mais de nós do que Ele.

Podemos perceber também uma outra nuance na reprovação de Jesus. Eles não tinham entendido quem era que estava com eles no barco; não tinham entendido que, com ele dentro, o barco não podia afundar porque Deus não pode perecer. Nós, discípulos de hoje, cometeremos o mesmo erro dos apóstolos e mereceremos a mesma reprovação de Jesus se, na violenta tempestade que se abateu sobre o mundo com a pandemia, nós nos esquecêssemos que não estamos sós no barco e à deriva nas ondas.

A festa do Natal nos permite alargar o horizonte : do mar da Galileia ao mundo inteiro, dos apóstolos a nós : ‘E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós’ (Jo 1,14). O verbo grego no aoristo, eskenosen (literalmente, ‘fincou a tenda’), expressa a ideia de uma ação cumprida e irreversível. O Filho de Deus desceu sobre esta terra e Deus não pode perecer. O cristão pode proclamar com razão mais forte do que a do salmista :

Deus é nosso refúgio e fortaleza,

socorro sempre encontrado nos perigos.

Por isso, não temeremos,

e se a terra tremer, e se as montanhas afundarem no mar (...).

Deus está em seu meio, ela não se abalará (Sl 46,2-4).

‘Deus está conosco’, isto é, está do lado do homem, é seu amigo e aliado contra as forças do mal. Devemos reencontrar o significado primordial e simples da encarnação do Verbo, para além de todas as explicações teológicas e dos dogmas construídos sobre ela. Deus veio habitar em nosso meio! Quis fazer deste evento o seu nome próprio : Emanuel, Deus-conosco. O que Isaías profetizara, ‘A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel’ (Is 7,14), tornou-se fato realizado.

Devemos, eu dizia, remetermo-nos para antes de todas as controvérsias cristológicas do V século – para antes dos concílios de Éfeso e Calcedônia – para reencontrar o paradoxo e o escândalo encerrados na afirmação : ‘A Palavra se fez carne’. É interessante voltar a escutar a reação de um pagão culto do II século, que veio a tomar conhecimento daquela afirmação dos cristãos. ‘Filho de Deus – exclamava o filósofo Celso, horrorizado – um homem vivido há poucos anos?’ Logos eterno, alguém ‘de ontem ou anteontem?’, um homem ‘nascido em um lugarejo da Judeia, de uma pobre fiandeira?’ [1]. Não admira. A união perfeita da divindade e da humanidade na pessoa de Cristo era a maior de todas as novidades possíveis, ‘a única coisa nova debaixo do sol’, como o define São João Damasceno [2].

A primeira grande batalha que a fé em Cristo teve que encarar não foi aquela acerca de sua divindade, mas sobre sua humanidade e a verdade da encarnação. À origem desta recusa, estava o dogma de Platão, segundo o qual ‘nenhum Deus se mistura ao homem’ [3]. Santo Agostinho descobriu, por experiência própria, a raiz última da dificuldade em crer na encarnação, ou seja, a falta de humildade. ‘Não sendo humilde – escreve nas Confissões – eu não compreendia a humildade de Deus’ [4].

A sua experiência nos ajuda a entender a raiz última do ateísmo moderno e nos indica o único modo possível para superá-lo. A partir de Hermann Samuel Reimarus no século XVIII, tudo foi um assalto à verdade histórica do Evangelho e à divindade de Cristo. Jesus disse : ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim’ (Jo 14,6). Uma vez declarada intransitável esta única via de acesso a Deus, foi fácil passar primeiro ao deísmo e, em seguida, ao ateísmo.

A experiência de Agostinho – eu dizia – indica também a via para superar o obstáculo : depor o orgulho e aceitar a humildade de Deus. ‘Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos’ (Mt 11,25) : toda a história da incredulidade humana é explicada por estas palavras de Cristo. A humildade fornece a chave para entender a encarnação. É preciso pouca força para expor-se; é preciso muita, ao contrário, para colocar-se de lado e se apagar. Deus é esta força ilimitada de ocultação de si mesmo : ‘Mas esvaziou-se, assumindo a forma de servo... Humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte’ (Fl 2,7-8).

Deus é amor, por isso é humildade! O amor cria dependência da pessoa amada, uma dependência que não humilha, mas torna felizes. As duas frases ‘Deus é amor’ e ‘Deus é humildade’, são como dois lados da mesma moeda. Mas o que significa a palavra humildade aplicada a Deus e em que sentido Jesus pode dizer : ‘Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração’ (Mt 11,29)? A explicação é que a humildade essencial não consiste no ser pequeno (pode-se ser pequeno sem, de fato, ser humilde); não consiste no considerar-se pequeno (isso pode depender de uma má ideia de si mesmo); não consiste em proclamar-se pequeno (pode-se dizê-lo sem crê-lo); consiste em fazer-se pequeno e fazer-se pequeno por amor, para elevar os demais. Neste sentido, realmente humilde é somente Deus.

Quem é como o Senhor, o nosso Deus, que reina em seu trono nas alturas,

mas se inclina para contemplar o que acontece nos céus e na terra?

Ele levanta do pó o necessitado e ergue do lixo o pobre (Sal 113, 5-7).

Tinha-o compreendido, sem muitos estudos, Francisco de Assis, que, em seus ‘Louvores a Deus Altíssimo’, em um certo ponto, voltado para Deus, diz : ‘Vós sois humildade!’, e em sua ‘Carta a toda a Ordem’, exclama : ‘Vede, irmãos, a humildade de Deus’ [5]. Eis que se humilha – escreve em uma de suas Admoestações – diariamente, como quando veio do trono real ao útero da Virgem’ [6].

O Natal é a festa da humildade de Deus. Para celebrá-la em espírito e verdade, devemos nos fazer pequenos, como devemos nos abaixar para entrar pela porta estreita que dá acesso à Basílica da Natividade em Belém.

‘No meio de vós está quem não conheceis!’ 

Mas voltemos ao coração do mistério : ‘E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós’. Deus está conosco, irrevogavelmente. Isto é, de agora em diante, o objeto central da profecia cristã. Zacarias saúda o Precursor chamando-o ‘profeta do Altíssimo’ (Lc 1,76) e Jesus diz que ele é ‘muito mais que profeta’ (Mt 11,9). Mas em que sentido João Batista é um profeta? Onde está a profecia, em seu caso? Os profetas bíblicos anunciavam uma salvação futura; João Batista não anuncia uma salvação futura; aponta, ao contrário, para alguém que está presente ali, diante dele. Os profetas antigos ajudavam o povo a ultrapassar a barreira do tempo; João Batista ajuda o povo a ultrapassar a barreira, ainda mais espessa, das aparências contrárias. O Messias tão esperado – aguardado pelos patriarcas, anunciado pelos profetas, cantado pelos salmos – seria, portanto, aquele homem de aspecto e origens tão humildes e ordinárias, do qual tudo se sabe, inclusive o vilarejo de origem?

É relativamente fácil acreditar em algo de grandioso e divino, quando se projeta em um futuro indefinido : ‘naqueles dias’, ‘nos últimos tempos’, em uma paisagem cósmica, com os céus que orvalham doçura e a terra que se abre para germinar o Salvador (cf. Is 45,8). É mais difícil quando se deve dizer : ‘Ei-lo! É ele!’. O homem é tentado a logo dizer : Só isso? ‘De Nazaré pode sair algo de bom?’ (Jo 1,46); ‘Este, porém, nós sabemos de onde é’ (Jo 7,27).

Este era um dever profético sobre-humano, e se entende porque o Precursor é definido ‘muito mais que profeta’. Ele é o homem que aponta para uma pessoa e pronuncia um peremptório ‘Eis, Ei-lo! Eis o Cordeiro de Deus!’ (Jo 1,29). Que calafrio deve ter experimentado o corpo daqueles que receberam por primeiro tal revelação. Uma poderosa ação do Espírito Santo acompanhava as palavras do Precursor e revelava tal verdade aos corações bem dispostos. Passado e futuro, espera e cumprimento se encontravam. O arco voltaico da história da salvação se fechava.

Creio que João Batista nos deixou o seu mesmo dever profético : continuar a gritar : ‘No meio de vós está quem não conheceis!’ (Jo 1,26). Ele inaugurou a nova profecia que não consiste – eu dizia – em anunciar uma salvação futura, mas em revelar a presença de Cristo na história : ‘Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos’ (Mt 28,20). Cristo não está presente na história somente porque se escrive e se fala continuamente dele, mas porque ressuscitou e vive segundo o Espírito. Não só intencionalmente, mas realmente. A evangelização começa a partir daí.

No tempo do Batista, o que criava dificuldade era o corpo físico de Jesus, a sua carne tão semelhante à nossa, exceto o pecado. Hoje, é sobretudo o seu corpo místico, a Igreja, a criar dificuldade e a escandalizar. Tão semelhante ao resto da humanidade, não excluído nem mesmo o pecado! Como o Precursor fez reconhecer Cristo sob a humildade da carne aos seus contemporâneos, assim é necessário fazê-lo reconhecer hoje na pobreza e na miséria da sua Igreja, e na pobreza e miséria da nossa própria vida.

O que Paulo acrescenta a João

 Mas devemos acrescentar algo ao que foi dito até aqui. Não importa, de fato, apenas saber que Deus se fez homem; importa saber também que tipo de homem Deus se fez. É significativo o modo diverso e complementar em que João e Paulo descrevem, cada qual, o evento da encarnação. Para João, ela consiste no fato de que a Palavra era Deus e se fez carne (cf. Jo 1,1-14); para Paulo, no fato de que ‘Cristo, existindo em forma divina, assumiu a forma de servo’ (cf. Fl 2,5ss.). Para João, a Palavra, sendo Deus, fez-se homem; para Paulo, ‘Cristo, de rico que era, tornou-se pobre’ (cf. 2Cor 8,9).

A distinção entre o fato da encarnação e o modo dela, entre a sua dimensão ontológica e aquela existencial, interessa-nos porque lança uma luz singular sobre o problema atual da pobreza e da postura dos cristãos em relação a ela. É de ajuda dar um fundamento bíblico e teológico à opção preferencial pelos pobres, proclamada no Concílio Vaticano II. ‘Os Padres conciliares – escreveu Jean Guitton, observador leigo no Vaticano II – reencontraram o sacramento da pobreza, isto é, a presença de Cristo sob as espécies daqueles que sofrem’ [7].

O ‘sacramento’ da pobreza! São palavras fortes, mas fundamentadas. Se, de fato, pelo fato da encarnação, a Palavra, em certo sentido, assumiu cada homem (assim pensavam alguns Padres gregos), pelo modo em que ela se realizou, ele assumiu, em um título todo particular, o pobre, o humilde, o sofredor. ‘Instituiu’ este sinal, como instituiu a Eucaristia. Assim, aquele que pronunciou sobre o pão as palavras : ‘Isto é o meu corpo’, pronunciou as mesmas palavras também sobre os pobres. Ele o fez quando, falando do que se fez – ou se deixou de fazer – pelo faminto, pelo sedento, pelo prisioneiro, pelo nu e pelo exilado, declarou solenemente : ‘Foi a mim que o fizestes’ e ‘Foi a mim que o deixastes de fazer’ (Mt 25,31ss).

Tiremos a consequência que deriva de tudo isso no plano da eclesiologia. São João XXIII, por ocasião do Concílio, cunhou a expressão ‘Igreja dos pobres’ [8]. Ela se reveste de um significado que vai além daquele que comumente se entende. A Igreja dos pobres não é constituída apenas pelos pobres da Igreja! Em certo sentido, todos os pobres do mundo – sejam eles batizados ou não – pertencem a ela. ‘Mas – contesta-se – não tiveram a fé, nem receberam o batismo!’. É verdade, mas nem mesmo os Santos Inocentes, que festejamos depois do Natal, tinham-no recebido. Sua pobreza e sofrimento, se isentos de culpa, aos olhos de Deus, são seu batismo de sangue. Deus tem muitas maneiras de salvar, mais do que possamos imaginar, ainda que estas maneiras – sem exceção – ‘por um modo só por Deus conhecido’ [9], passam por meio de Cristo.

Os pobres são ‘de Cristo’, não porque se declaram pertencentes a ele, mas porque ele os declarou pertencentes a si, declarou-os seu corpo. Isto não quer dizer que basta ser pobre e faminto neste mundo para entrar automaticamente no reino final de Deus. As palavras : ‘Vinde, benditos de meu Pai’ são dirigidas àqueles que cuidaram dos pobres, não necessariamente aos próprios pobres, pelo simples fato de terem sido materialmente pobres em vida.

A Igreja de Cristo é, portanto, imensamente mais vasta do que dizem os números e as estatísticas. Não por simples modo de dizer, ou por triunfalismo – especialmente hoje – fora de lugar. Ninguém, além de Jesus, proclamou : ‘Todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes’ (Mt 25,40), onde o ‘irmão mínimo’ não indica apenas o fiel em Cristo, mas todo homem.

Daí deriva que o Papa – e com ele os demais pastores da Igreja – seja realmente o ‘pai dos pobres’. É uma alegria e um estímulo para todos nós ver o quanto este papel foi assumido pelos últimos Sumos Pontífices e, de maneira toda particular, pelo pastor que hoje senta na cátedra de Pedro. Ele é a voz mais fidedigna que se levanta em defesa deles, em um mundo que conhece apenas a seleção e o descarte. Ele, com certeza, não ‘se esqueceu dos pobres’! A Escritura contém uma bênção especial para quem assume o cuidado com o pobre :

Feliz, quem pensa no indigente...

O Senhor o guardará e lhe preservará a vida,

há de fazê-lo feliz na terra,

e não o entregará à fúria dos seus inimigos (Sl 41,2-3).

Sobre Maria e José, lê-se no evangelho que ‘não havia lugar para eles na hospedaria’ (Lc 2,7). Também hoje não há lugar para os pobres na hospedaria do mundo, mas a história mostrou de que lado estava Deus e de que lado deve estar a Igreja. Ir aos pobres é imitar a humildade de Deus, é fazer-se pequeno por amor, para elevar os que estão abaixo.

Mas não nos iludamos : isso é algo que pode ser mais fácil dizer do que fazer. Um antigo Pai do deserto, Isaac de Nínive, deu este conselho àqueles que são forçados pelo dever a falar de coisas espirituais que ele ainda não alcançou com vida : ‘Fale dele como alguém que pertence à classe dos discípulos e não com autoridade, depois tendo humilhado a sua alma e feito menor do que qualquer um de seus ouvintes’ [10]. E foi assim que falei sobre isso. 

‘Nele faremos a nossa morada’

 ‘E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós’. Antes de concluir, devemos passar do plural ao singular. Não veio genericamente ao mundo, mas pessoalmente, em cada alma que crê. Jesus disse : ‘Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos a nossa morada’ (Jo 14,23). Portanto, Cristo não está presente apenas na barca do mundo ou da Igreja; está presente no pequeno barco da minha vida. Que pensamento, se conseguíssemos crer realmente! Santa Isabel da Trindade aí encontrou o segredo da própria santidade. ‘Parece-me – escrevia a uma amiga – ter encontrado o meu céu aqui na terra, pois o céu é Deus, Deus está em minha alma. No dia que entendi isso, tudo se iluminou’ [11].

Com as restrições que põe ao culto público e à frequência às igrejas, a pandemia poderia ser a ocasião para muitos para descobrir que não encontramos Deus apenas indo à Igreja; que podemos adorar Deus ‘em espírito e verdade’ e conversar com Jesus também estando fechado em casa, ou em nosso quarto. O cristão jamais poderá se abster da Eucaristia e da comunidade, mas, quando isto for impedido por força maior, não deve pensar que sua vida cristã se interrompeu. Se jamais encontrou Cristo no próprio coração, jamais o encontrará fora, no sentido forte do termo.

Há uma afirmação ousada sobre o Natal, que é repetida época após época, pela boca de grandes doutores e mestres espirituais da Igreja: Orígenes, Santo Agostinho, São Bernardo, Angelus Silesius, e vários outros. Substancialmente, assim reza : ‘De que me adianta que Cristo tenha nascido uma vez em Belém, de Maria, se ele não não nasce pela fé também em meu coração?’ [12]. ‘Onde é que Cristo nasce, no sentido mais profundo, senão em teu coração e em tua alma?’, escreve Santo Ambrósio [13]. ‘O Verbo de Deus, afirma São Máximo Confessor, quer repetir em todos os homens o mi­stério da sua encarnação’ [14]. Uma verdade, como se vê, realmente ecumênica.

Ecoando esta mesma tradição, São João XXIII, na mensagem de Natal de 1962, elevava esta ardente oração : ‘Ó Verbo eterno do Pai, Filho de Deus e de Maria, renovai também hoje, no segredo das almas, o admirável prodígio do vosso nascimento’. Façamos nossa esta oração, mas, na situação dramática em que nos encontramos, acrescentemos também a ardente súplica da liturgia natalícia : ‘Ó Rei das nações. Desejado dos povos; Ó Pedra angular, que os opostos unis : Oh, vinde e salvai este homem tão frágil, que um dia criastes do barro da terra!’ [15]. Vinde e reerguei a humanidade extenuada pela longa prova desta pandemia.

 

Fonte :

*Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-12/raniero-cantalamessa-terceira-pregacao-advento-2020.html

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[1] Cf. Orígenes, Contra Celso, I,26.28; VI,10.

[2] De fide orthodoxa, 45.

[3] Cf. Platão, Simposio, 203º; cf. Apuleio, De deo Socratis, 4 : ‘Nullus deus miscetur ho minibus’.

[4] Confissões, VII, 18.24).

[5] Carta a toda a Ordem, 28.

[6] Admoestações 1,16.

[7] Cf. J. Guitton, citado por R. Gil, Presencia de los pobres en el concilio, in ‘Proyección’ 48, 1966, p. 30.

[8] In AAS 54, 1962, p. 682.

[9] Gaudium et spes, 22.

[10] Isaac de Nínive, Discursos ascéticos, 4.

[11] Cf. Carta 107 à Condessa De Sourdon (1902).

[12] Cf. Orígenes, Commento al vangelo di Luca 22,3 (SCh 87,p. 302); Angelo Silesio, Il Pellegrino cherubico, I, 6 1 : ‘Wird Christus tausendmal zu Bethlehem geborn / und nicht in dir : du bleibst noch ewiglich verlorn’.

[13] Cf. Santo Ambrósio, In Lucam, 11,38.

[14] Cf. São Máximo Confessor, Ambigua (PG 91,1084).

[15] Antífona das Vésperas de 22 de dezembro.