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quarta-feira, 15 de julho de 2020

O crescimento dos movimentos fundamentalistas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

Como a ânsia de se garantir um lugar no paraíso, infelizmente, ainda é a grande tara do movimento cristão, discursos fundamentalistas agradam muito.

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘O fundamentalismo religioso é algo crescente no mundo contemporâneo. Não somente o de matriz evangélico-cristã, mas também os que existem em várias outras religiões. Geralmente associados a uma espécie de nacionalismo, têm sido utilizados em campanhas eleitorais de cunho conservador para atrair uma parcela da população que tem na religião seu ponto de apoio e regra de vida. 

A questão que surge é : por que o discurso fundamentalista ganha tantos adeptos na contemporaneidade, quando se tem cada vez mais acesso à informação, ao conhecimento do universo, das culturas e das sociedades? Mesmo em países considerados ‘mais desenvolvidos’, esse crescimento também pode ser observado. De certa maneira, isso joga por terra o velho discurso colonial eurocêntrico, em que o restante do mundo precisa ser educado na racionalidade e, portanto, seria carente de salvadores que instruíssem nos caminhos verdadeiros. 

Se esses movimentos fundamentalistas crescem independentemente da região do globo, deve haver algo que torna seu discurso atrativo. Talvez esse fascínio se dê pelas certezas que trazem. Afinal, todo fundamentalista tem como certo aquilo que deve ser feito, bem como o modo de se fazer e o que é requerido pela divindade a qual se segue. Está tudo lá de maneira clara e objetiva. Até mesmo as recompensas e as condenações estão bem delimitadas, podendo, muitas vezes, ser critério para o ranqueamento de fiéis, classificando-os como mais perto ou longe do que se considera realidade última e sentido da existência. Embora em nosso país estejamos mais acostumados a ver o fundamentalismo no cristianismo, isso não é característica exclusiva sua. 

Contudo, nesse caso específico, ainda há um livro que, de acordo com as posturas fundamentalistas, seria indefectível e palavra ipsis litteris de Deus. Isso agrava ainda mais o cenário, dado que é difícil discutir contra os argumentos ‘Deus disse’ ou ‘Deus quis dessa forma’. 

Uma vez que vivemos em uma sociedade com relações cada vez mais líquidas – consequência de um capitalismo feroz e um modo de vida baseado no consumo –, na qual as certezas são constantemente questionadas por todos os lados, e considerando que grande parcela da população cristã liga o termo fé a ‘ausência de dúvidas’, não é difícil entender o porquê de tamanha adesão ao conservadorismo e fundamentalismo. Afinal, esses movimentos propõem as respostas e os modos corretos de se fazer as coisas. 

Diante do vazio no qual o sujeito contemporâneo ocidental se encontra, agarrar-se a algo que traga certezas bem definidas é um convite bastante tentador, mesmo que tais movimentos neguem a mensagem cristã – muito embora eles atribuam a si a característica de portadores da ‘verdadeira mensagem de Deus’, que levará todas as pessoas que as seguirem para um lugar chamado céu. Como a ânsia de se garantir um lugar no paraíso, infelizmente, ainda é a grande tara do movimento cristão, tais discursos fundamentalistas agradam muito. 

A mensagem de Jesus, porém, não tem a ver com certezas, mas com compromisso e entrega ao próprio Deus e, consequentemente, ao próximo que carece de nós. Esta atitude é a única comprovação possível de que realmente se ama a Deus, como nos mostra a carta de 1 João, em seu capítulo 4. Nesse cenário, o anúncio evangélico de que Deus ama a todos, independentemente do que fazem (colocando até mesmo as pessoas consideradas escórias da sociedade em primeiro lugar no Reino de Deus), e que sua graça é ofertada sem demandar nada de volta de ninguém, soa como discurso absurdo, libertino e comunista para muitos fundamentalistas, como algo que visa desvirtuar a vontade divina para a humanidade. 

Diante disso, vale lembrar que Jesus também foi considerado assim pelos fundamentalistas de seu tempo, tendo sido acusado por eles de ser o blasfemo contra Javé, deturpador da fé que acreditavam ser a verdadeira e, portanto, digno de morte. 

Tomando tudo isso em consideração, somente uma teologia que recupere a boa nova do amor de Deus, que está muito além dos fundamentalismos textuais e religiosos, é capaz de fomentar o mesmo movimento revolucionário e não violento que foi o de Jesus. O filho do carpinteiro, nascido no meio do povo simples, animado pelo Espírito, mostrava que era possível uma sociedade diferente, na qual não havia rico ou pobre, livre ou escravo, servo ou senhor, visto que, no novo Reino que há de vir, toda desigualdade é suplantada. É com base nessa esperança que se deve buscar hoje uma sociedade que traga as marcas daquilo que se crê ser o governo de Deus sobre o novo céu e a nova terra, nos quais habita a justiça.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1458357/2020/07/o-crescimento-dos-movimentos-fundamentalistas/


domingo, 24 de março de 2013

Meditação Cristã e Liberdade

Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)
 
Meditação Cristã na Quaresma  
 
                        Apresentamos, aos leitores, um texto que nos incitou a refletir mais sobre o termo liberdade, utilizado pelo autor, especialmente nesta semana de Páscoa.  Sem nenhuma pretensão de alargar o seu conteúdo, muito menos de explicitá-lo, (porque desnecessário, ante a sua clareza), sentimos apenas uma necessidade de enfatizar que a LIBERDADE, (primeira) nos foi dada por Deus e segundo Ele é que devemos usá-la.  Pois quando Deus, criou o homem, o conduziu para o amor e para a liberdade. Deu-nos, aprioristicamente, amor para nos unirmos e liberdade para crescermos.

                       Então, para não ficarmos presos a uma visão do homem quase que somente antropológica e sociológica, lembremos o grito de Santo Agostinho, (Bispo de Hipona), sobre a nossa dependência e carência inegável de sermos UM com DEUS,  logo, condicionados em nossa liberdade: 
“Irmãos, qual a duração de nossos anos? Eles se desfazem cada dia. Os que eram não são mais, os que virão ainda não são. Uns passaram, outros virão só para passar por sua vez. O hoje só existe no instante em que falamos. As primeiras horas passaram, outras ainda não existem, virão, mas para se arremessar ao nada. [...]. Ninguém possui em si mesmo a estabilidade. O corpo não possui o ser, não permanece em si mesmo. Muda com a idade, muda com o tempo e os lugares, muda com as doenças e os acidentes. Os astros também não têm estabilidade; têm suas mudanças secretas, evoluem no espaço[...], não são estáveis, não são o ser.
O coração do homem também não é estável. Quantos pensamentos, quantos impulsos o movem, quantas volúpias o agitam e o dilaceram! O próprio espírito do homem , embora dotado de razão, muda, não tem o ser. Quer e não quer, sabe e ignora, lembra e esquece. Ninguém possui em si a unidade do ser[...]. Depois de tantos sofrimentos, doenças, dificuldades, e penas, VOLTEMO-NOS HUMILDEMENTE PARA ESSE UM. ENTREMOS NESSA CIDADE, CUJOS HABITANTES PARTICIPAM DO PRÓPRIO SER.   (Comentário ao Salmo 121,6 (PL 36,1623). – In Fontes, Olivier Clement – Ed. Subiaco.

                                           Segue o Texto  de D. Lawrence Freeman - OSB.


                                             Adentramos o espiritual através do poder da simples atenção transcendendo as limitações do ego. Para nós, durante estes dias, a história da paixão, morte e ressurreição do Senhor é o portal para este domínio. O poder da atenção é a chave que o abre. No espírito, o poder de todas as limitações é suspenso. "Onde o espírito está, há liberdade". Certos estados mentais podem imitar essa liberdade de espírito. Muitas pessoas desejam a liberdade desses estados e usam meios artificiais para induzi-los. Mas, por estes meios, as limitações de espaço e tempo são enfraquecidas ou dobradas, não transcendidas. O caminho para o espiritual respeita as leis da natureza.
                                         Quando a dimensão espiritual se abre para nós - em nós - ela lança uma nova luz sobre os mundos do espaço e do tempo em cujas limitações ainda vivemos. Continuamos humanos - limitados - mas as limitações não impedem a abertura total do nosso ser ao divino. Tornamo-nos divinamente humanos.

                                              Os mistérios da Páscoa são semelhantes aos que o mundo antigo chamava rituais de iniciação. A transformação final ainda está por vir. Mas aqui e agora - se não cochilarmos, se tirarmos a atenção de nossas limitações e o sofrimento que causam - iniciamos o processo e provamos o vinho novo que Jesus bebe conosco no Reino.
                                        O primeiro passo é entrar na história e deixá-la trabalhar em nós.         A meditação nos ajuda a ouvi-la, mas também nos abre para o ilimitado domínio do espírito, que é o significado e o propósito da história.