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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Regência de processos


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Todos devem se reconhecer, como pessoas que integram uma sociedade, construtoras do conjunto de processos que impactam a rede de relações.
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Ninguém é autossuficiente. A humanidade configura-se a partir das relações - cada pessoa depende da outra para sobreviver.  Em cada etapa de sua história, as civilizações se constituem a partir do modo como os mais diferentes processos são conduzidos. É a partir dessa condução que se configuram culturas e dinâmicas no âmbito da política, da economia e, inclusive, das religiões. Por isso, a regência qualificada dos processos fecunda respostas novas. Na direção oposta, quando a condução é equivocada, perpetuam-se atrasos, com graves prejuízos. Assim é importante reconhecer : é fundamental investir na regência dos processos, atitude determinante para cuidar da vida em suas muitas formas, do próprio planeta, nossa Casa Comum.

Todos os processos socioculturais, econômicos, administrativos e humanitários dependem de atitudes individuais. Nesse sentido, cada pessoa, no cumprimento de suas próprias responsabilidades, deve assumir o compromisso de sempre agir de modo eficaz. E isso significa promover relações mais humanizadas, capazes de cultivar a solidariedade – remédio determinante e, sem exageros, o mais necessário, para se construir um mundo melhor.

Para compreender essa situação, vale recorrer a um contexto próximo a todos : a realidade doméstica. Imagine duas pessoas. Uma prepara o alimento. A outra se dedica a cuidar do ambiente onde a família se reunirá para a refeição. No fim, o lugar está perfeitamente arrumado.  Porém, o alimento não foi preparado adequadamente – ficou com gosto de ‘cabo de guarda-chuva’, conforme o dito popular. Percebe-se que uma das pessoas conseguiu reger, com qualidade, um dos processos. A outra, não foi bem-sucedida. E, no fim, ambas perderam, sem conseguir deliciar-se com uma boa refeição.

Obviamente, não se pode esperar que todos os indivíduos reúnam, desde sempre, os requisitos necessários para desempenharem bem os seus papéis. Mas, deve ser a meta de cada pessoa buscar as condições para cuidar, de modo qualificado, das próprias responsabilidades. Isso inclui dedicar-se ao indispensável exercício da autocrítica, para avaliar se, de fato, as próprias atribuições estão sendo exercidas de modo responsável e apropriado. Todos devem se reconhecer, como pessoas que integram uma sociedade, construtoras do conjunto de processos que impactam a rede de relações.

Desenvolver a competência para conduzir processos é fundamental na conquista de avanços, em diferentes áreas e instituições. De modo contrário, uma pessoa com fraco desempenho na regência de dinâmicas pode dizimar uma organização. Por isso se diz que uma instituição assimila traços da feição de seu dirigente. Pode ser inovadora ou de conservação, não importa, vai refletir o perfil do gestor. Lamentavelmente, por vezes, é marcada por retrocessos, refletindo a incapacidade de seu dirigente. Vale, pois, rever sempre os métodos de gestão, buscando identificar e superar os vícios que ferem a moralidade, a corrupção, a falta de vontade política, particularmente quando inviabiliza conquistas para o povo.

Qualificar a ação humana na regência de processos exige considerar, especialmente, as influências de aspectos ambientais e da interioridade na conformação da conduta de cada pessoa. Deve-se cuidar dos muitos aspectos exteriores que ajudam a constituir as pessoas – os ambientes familiar, educativo e cultural, por exemplo, promovendo práticas pedagógicas e organizacionais arejadas, e até ousadas, capazes de impulsionar a evolução humana, inspirar a elaboração de respostas adequadas aos desafios contemporâneos.

Ao mesmo tempo, a atuação qualificada na gestão das muitas dinâmicas da vida depende do que vem da interioridade : as atitudes, as escolhas, as decisões e os modos de agir. Cada pessoa precisa se orientar pelos parâmetros da moralidade e da ética. Se todos agissem dessa forma, muitos passivos poderiam ser evitados, pois ninguém iria candidatar-se a determinada função sem antes realizar um necessário exercício de autocritica e avaliar, com honestidade, se, de fato, está preparado para assumir os desafios do cargo que deseja ocupar. Consequentemente, as instituições estariam livres das cegueiras que impedem o seu desenvolvimento e cada pessoa ocuparia o lugar adequado às suas características individuais. Ao mesmo tempo, com o contínuo processo de autocrítica, os indivíduos poderiam se desenvolver, conquistando novas competências. O crescimento pessoal, orientado para a promoção do bem comum, levaria as instituições a ampliarem os processos de participação, determinantes para se alcançar sucesso em diferentes projetos. Afinal, uma grande rede de agentes focados em um objetivo partilhado confere mais inteligência às dinâmicas institucionais.

 Oportuno lembrar que o cérebro humano é um território extenso, com conexões equivalentes ao número de astros de uma galáxia. Cada cidadão dispõe, assim, de todas as condições para evoluir e, dessa forma, oferecer contribuições na edificação de um mundo melhor. Sem esse compromisso com o próprio desenvolvimento pessoal, todos perdem, não por falta de condições, mas pela incapacidade de gerenciar as próprias responsabilidades. É tarefa de cada pessoa capacitar-se para a regência de processos, dedicando-se à própria qualificação, para contribuir na defesa da vida e do planeta, a nossa Casa Comum.’


Fonte :

domingo, 12 de junho de 2016

Apátridas : Em busca de uma nacionalidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Carlos Reis,
Jornalista


Cerca de 10 milhões de pessoas são apátridas em duas dezenas de países. A cada 10 minutos nasce, em algum lugar do mundo, um bebê apátrida. Políticas discriminatórias estão na raiz de muitas situações de pessoas sem nacionalidade. Com isso, muitas vezes não têm acesso a direitos básicos.


‘Nacionalidade é o elo legal entre um Estado e um indivíduo. A apatridia refere-se à condição de um indivíduo que não é considerado como um nacional por nenhum Estado.

A ausência de uma pátria é uma condição degradante e enfraquecedora que influencia quase todos os aspectos da vida de uma pessoa. Aqueles que não são reconhecidos como cidadãos de um país não podem, com frequência, matricular-se na escola, trabalhar legalmente, possuir imóveis, casar-se ou viajar. Podem ter dificuldade em ser hospitalizados e não conseguir abrir uma conta bancária ou receber uma pensão. Se são vítimas de roubo ou de violação, podem ver-se impossibilitados de apresentar queixa, porque, aos olhos da lei, não existem. Muitas vezes, não têm sequer um nome reconhecido oficialmente. A exclusão produz sequelas psicológicas, já que os jovens apátridas descrevem-se a si mesmos como ‘invisíveis’, ‘estrangeiros’ e ‘sem valor’. Outros têm a sensação paradoxal de ter sentido de pertença e ao mesmo tempo serem excluídos.

«Há muitas maneiras de uma pessoa se tornar apátrida. Todos os dias, apátridas nascem. Outros tornaram-se apátridas devido a acontecimentos do passado. Milhões devem a sua condição à criação, conquista, divisão, descolonização ou libertação do país de onde eles próprios ou os seus antepassados são oriundos», observa a agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Quando a soberania de um Estado é afetada, põe-se imediatamente a questão de quem é e quem não é cidadão. Com frequência, os que não entram nas categorias definidas não têm para onde ir. Outros nunca tiveram nacionalidade ou perderam-na devido a leis mal concebidas, sistemas administrativos ineficazes ou incompatibilidades entre sistemas jurídicos de diferentes países. Uma minoria importante de apátridas é vítima da forma mais perniciosa de privação de nacionalidade, a exclusão de grupos inteiros de pessoas ligada à discriminação política, religiosa ou étnica.


Aqui estou, aqui pertenço

A Declaração Universal dos Direitos Humanos estipula que todos os indivíduos têm direito a uma nacionalidade. O vínculo é adquirido com base no nascimento registado no território de um país, no laço de parentesco com outro cidadão ou na naturalização após casamento com um cidadão de um país. A naturalização pode também ser concedida em caso de residência num país.

«Políticas discriminatórias estão na raiz de muitas situações de apatridia, pelo que apatridia não é uma fatalidade», aponta a ACNUR. Na Ásia, grandes grupos de apátridas beneficiaram de avanços políticos e legislativos no Sri Lanka, Bangladesh e, sobretudo, no Nepal, onde 2,6 milhões de pessoas obtiveram certificados de nacionalidade em 2007.

Na América Central, uma decisão do Tribunal Constitucional da República Dominicana, em 2013, fez com que dezenas de milhares de dominicanos de ascendência haitiana fossem privados da sua nacionalidade. No Oriente Médio, legislações que discriminam com base no gênero criam riscos de apatridia. Nos países do Golfo, populações ficaram à margem dos processos de independência e, no Iraque, muitos curdos feili foram privados das suas nacionalidades até 2006 [existem três famílias de curdos : kermanji, zaza, surani e feili. Os curdos feili habitam nos Estados de Kermanshah e Lursitan, no Irã e nos Estados que confinam com estes no Iraque. A população total no Irã estima-se em dois milhões e meio e no Iraque em 600 mil, ndr]. Em África, parte dos núbios no Quênia não usufruem de direitos de cidadania e, na Costa do Marfim, a falta de clareza do estatuto nacional afeta um grande número de pessoas.

A ACNUR apela aos governos dos países para que tomem medidas para pôr fim ao problema da apatridia em até dez anos, nomeadamente o registo de todos os nascimentos, direito à nacionalidade de crianças filhas de pais apátridas e direito de as mulheres transmitirem a nacionalidade aos filhos. A agência calcula que mais de um terço dos apátridas do mundo são crianças. Se tiverem os seus próprios filhos, essa geração também será apátrida e a crise perpetuar-se-á.

Mais de 97 % dos apátridas concentram-se em 20 países. Só no Myanmar, Costa do Marfim, República Dominicana, Estônia e Tailândia nascem anualmente 70 mil crianças sem nacionalidade reconhecida. Ainda assim, entre 2003 e 2013, «graças a ações de governos de diferentes países, mais de quatro milhões de pessoas apátridas adquiriram ou tiveram reconhecida a nacionalidade», reconhece a ACNUR.’


Fonte :
* Artigo na íntegra


terça-feira, 7 de junho de 2016

Sucateamento de tesouros

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘É alto o preço que se paga em decorrência do sucateamento da máquina pública. Um doloroso prejuízo que atingirá também gerações futuras. Exemplo emblemático é o que ocorre com a educação : o acúmulo de déficits dificulta a construção de novas possibilidades. É muito preocupante a lista de tudo o que se perde quando não se trata adequadamente essa importante área. Compromete-se o tecido da cultura, tornando-o incapaz de garantir às instituições o adequado funcionamento. A análise de todo esse processo merece uma profunda reflexão que se desdobre em novas atitudes, particularmente de líderes nos âmbitos regionais. Uma tarefa que exige adequada compreensão do atual contexto sociopolítico.

Esse exercício requer, prioritariamente, considerar a realidade mais próxima - o domicílio, o ambiente de trabalho, a prática religiosa, os representantes escolhidos - mas, sem deixar de olhar para o que se localiza na amplitude de uma nação como a brasileira.  Quando o cidadão passa um ‘pente-fino’ nas inúmeras situações que formam seu cotidiano, percebe com nitidez pontos relevantes das muitas fragilidades que corroem o tecido social. Só assim será possível detectar os vícios que levam à mediocridade e até mesmo ao desrespeito em relação aos tesouros que se tem. Ignorar esses hábitos ruins traz consequências nefastas, a exemplo da tibieza da representação política, em contextos regionais e nos cenários mais amplos. Faltam vozes com força de convencimento, pessoas com capacidade para articular e produzir projetos, atrair benefícios e imprimir dinâmicas com inventividade e competência.

A política passa, então, a carecer de líderes com autoridade para defender o bem comum e impulsionar projetos que garantam destaque nacional a contextos regionais. O resultado é o espetáculo da mediocridade que impacta negativamente as diferentes esferas da vida, com graves desdobramentos. Ainda no âmbito da educação, constata-se a timidez da incidência do mundo acadêmico sobre o cotidiano das pessoas. A grande rede de ensino, que reúne instituições governamentais e particulares, muitas de tradição e qualidade, não consegue dar novos rumos às mentalidades. Com isso, muitos desconhecem os valores de sua própria região e de suas raízes. A educação formal não chega a tocar o âmago da consciência e, com isso, perde-se a força da cultura, necessária para produzir riquezas inovadoras e libertárias. O que se percebe é certo comodismo e a falta de inteligência que alicerçam o desconhecimento sobre as heranças históricas, ambientais e religiosas.

A força dominadora da mediocridade vai tomando conta e não se tem o ânimo necessário para se falar da ética. Grande é o desconhecimento para se falar e compreender os parâmetros da solidariedade. Há uma cegueira quanto à prática da distribuição de bens. Pouca sensibilidade para efetivamente defender os mais fracos. Progressivamente, esmaece a referência a Deus, com o consequente enfraquecimento da indispensável defesa cotidiana da justiça. Com isso, no âmbito político, profissional e empresarial, prioriza-se mais o que atende a interesses individuais e partidários. Fica obscurecida a nobre tarefa de se deixar interpelar por um sentido mais amplo da vida.

Assim, são preocupantes os consequentes processos de desumanização, muitos deles irreversíveis, como é o caso da violência e do desrespeito à sacralidade da dignidade de toda pessoa. Não menos grave é o caos ético que sucateia experiências familiares, enfraquece narrativas que sustentam as tradições e, dessa forma, corrói os tesouros da cultura, depreda os acervos patrimoniais, escava, escandalosamente, pelo lucro, as paisagens, passa por cima de povoados e pessoas, apagando suas histórias.

É urgente que cada pessoa busque cuidar ‘da própria casa’, sob pena de perdas maiores. Especialmente, quando se pensa no povo mineiro, essa tarefa requer a elaboração de uma consciência social e política, religiosa e cultural condizente com a história tricentenária de Minas Gerais. Desse modo, será possível efetivamente reconhecer, reverenciar e respeitar a herança de antepassados que escreveram uma história mais exitosa, menos mesquinha, mais audaciosa e menos medíocre. Efetivamente serão valorizadas as tradições, sem a negociação do que se tem como herança. Oportuna é uma reação de todos os segmentos no cenário da própria cultura regional para aperfeiçoar competências, redescobrir valores e riquezas que precisam ser adequadamente tratados. Nesse caminho se configura luminosidade na consciência cidadã para tornar sempre mais forte e qualificado o território dessa pátria menor, determinante para sustentar a grandeza da pátria maior e, assim, debelar, definitivamente, o sucateamento de tesouros.’


Fonte :
* Artigo na íntegra