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sábado, 7 de dezembro de 2024

Irã terá seu primeiro cardeal. Saiba quem é o franciscano e astrônomo Dominique Joseph Mathieu

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Gianni Valente


‘O Papa Francisco chamou-o para guiar a antiga sede episcopal de Ispahan, ereta já em 1629, depois de ter mudado o  nome para Arquidiocese de Teerão-Isfahan dos Latinos. Depois decidiu criá-lo cardeal, no Consistório de sábado, 7 de dezembro.

Padre Dominique Joseph Mathieu, 61 anos, franciscano conventual, será o primeiro cardeal titular de uma sé episcopal em solo iraniano. Ele não ostenta ‘títulos’ específicos que de alguma forma o predestinaram para tal posição. Não estudou e não se preparou toda a vida para assumir aquela singular missão, tão delicada.

No entanto, se agora olhar para trás, tudo se recompõe e se realinha em sua vida repleta de coisas. No fluxo das recordações, detalhes à primeira vista secundários aparecem para ele agora como peças-chave do percurso. E cada passo – confidencia hoje – ‘parece ter-me preparado de alguma forma para a condição que estou vivendo agora’.

Abadias, mosteiros e terras de fronteiras 

Dominique Joseph nasceu em Arlon, na Bélgica francófona, e cresceu na região flamenga de Bruges, a ‘Veneza do Norte’. Das terras da sua infância e adolescência recorda também os mosteiros e as grandes abadias, como as de Orval e Zevenkerken, frequentemente visitadas com a família. E se depara imediatamente com as modulações invisíveis, linguísticas e culturais, que também dividem pessoas e classes colocadas pela história para partilhar o mesmo recanto do mundo.

Aos domingos, em Bruges, Dominique serve na Missa como coroinha até os 20 anos, também na catedral. Participa da Missa diária, junto com alguns amigos da escola. No início são cerca de dez, e no final dos seus cursos dois. A certa altura, por falta de participantes, a Missa deixou de ser celebrada. «Eu tinha 13 ou 14 anos», recorda hoje o arcebispo Mathieu, «e fui ao diretor da escola para perguntar se a celebração diária poderia ser retomada. O sacerdote voltava propositalmente à tarde, quando as aulas terminavam, para celebrar uma Missa especialmente para os estudantes. Ele fez isso durante vários anos, e muitas vezes o único presente na Missa era eu. Quando penso nisso, me toca mesmo agora. Foi um testemunho muito forte. Agora acontece também comigo de celebrar sozinho. E então penso naquele padre, que durante muitos anos celebrou Missa para uma só pessoa, e fez isso por mim. Repito para mim mesmo que nem ele nem eu celebramos nunca sozinhos, porque a Missa é sempre celebrada em comunhão com toda a Igreja universal. E esta é a Igreja».

Jesus e as estrelas

 Em Bruges, desde muito jovem, o futuro arcebispo de Teerã entrelaça o seu caminho cristão com a sua paixão pela astronomia. O seu primeiro telescópio chegou quando ele tinha 12 anos. À noite, perscruta o céu e as estrelas. «Mas eram como dois paralelos que seguiam separadamente. Até o dia em que percebi que mesmo perscrutando o espaço estava cheio de estupor e gratidão pelas maravilhas de Deus.’

Desde que é bispo, o padre Mathieu deixou um pouco de lado a astronomia. Muito pouco tempo e muito complicado para levar consigo os instrumentos para observar e fotografar as estrelas. Mas o surpreende o destino de viver hoje na terra onde os antigos sacerdotes perscrutavam o céu do alto dos Zigurates. E para os batizados que agora estão com ele, compartilha a sua outra paixão, a gastronomia, preparando doces e coisas boas para comer.

A Ordem franciscana 

«Nasci no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio de Pádua», recorda padre Dominique. E para ele é somente o primeiro sinal com que o Santo de Assis quis atrair a sua vocação para a grande família dos filhos de São Francisco. Mosteiros, encontros com histórias e epopeias franciscanas, como a dos Frades Capuchinhos que em Arlon, sua cidade natal, e em outros lugares escolheram viver nas colinas para vigiar e dar o alarme em caso de incêndios. No quarto da casa do avô encontra os livros de um parente distante que foi missionário capuchinho no Congo.

«Lia com paixão as histórias dos Oblatos de Maria Imaculada no Canadá e aquelas dos missionários jesuítas na China. Mas o livro que mais me impressionou foi um livro antigo sobre São Francisco, com páginas amareladas.’

Um padre de origem holandesa envia a ele material informativo sobre o franciscano conventual Maximiliano Kolbe, martirizado pelos nazistas. Assim, aos 16 anos, Dominique passou a Semana Santa no Convento dos Franciscanos Conventuais de Lovaina.

São os anos que se seguem ao Concílio Vaticano II, quando também a vida religiosa está buscando uma nova identidade. Há também tensões e dialéticas acaloradas. «No refeitório, vi padres discutindo entre si, e isso não me escandalizou, pelo contrário : significava que estávamos com os pés no chão, e os padres se mostravam pelo que eram, não querem oferecer de si mesmos e de sua vida no convento uma imagem adocicada.’

Ao entrar na comunidade, padre Mathieu escolhe precisamente os franciscanos conventuais. Durante o período de formação passado na Bélgica, não faltam problemas. Na Flandres de então, havia uma hostilidade crescente em relação aos flamengos de língua francesa, identificados como uma aristocracia que no passado tinha feito sofrer os seus outros compatriotas. «Com o tempo - acrescenta o arcebispo de Teerã - conciliei-me também com aquele período cheio de tensões, o que me ajudou a tomar consciência da diversidade e também dos conflitos, sem cultivar preconceitos em relação aos povos e às culturas».

Dominique Joseph é o primogênito e tem duas irmãs. «Os meus pais diziam-me que estavam felizes com a minha vocação, nunca me bloquearam, mas repetiam-me : se vires que as coisas não vão bem, lembra-te que podes sempre voltar para casa. Isso me incomodou um pouco no começo. Então entendi que o maior sinal do amor deles era justamente deixarem sempre a porta aberta».

Depois do Noviciado na Alemanha, do período de estudos vivido em Roma, padre Dominique recorda também o tempo passado na prisão Regina Coeli, onde era capelão o seu confrade Vittorio Trani, há 50 anos grande testemunha da missão entre os presos. «Havia vários prisioneiros muçulmanos - recorda o arcebispo Mathieu - e queríamos fazer algo para lhes permitir ter um lugar para rezar na prisão. Era um problema novo. Encontramos os tapetes e o Alcorão oferecidos pela Mesquita dos etíopes. Funcionou por algumas semanas, então começaram as discussões. Na época, quem tinha que administrar logisticamente a iniciativa não sabia a diferença entre xiitas e sunitas... Voltando à Bélgica, também lá me interessei pela prática religiosa dos prisioneiros muçulmanos, mas lá o problema já era enfrentado há algum tempo, tudo já estava rigorosamente regulamentado e nós, cristãos, não podíamos sequer ter contato com os muçulmanos para os ajudar. Foi então que fui estudar árabe literário na Mesquita...’.

A missão em tempos de secularização  

Ordenado sacerdote, padre Mathieu regressa à Bélgica e vive mais de 20 anos a conotação missionária da sua vocação religiosa em terras de secularização, onde se sente fortemente o ‘desmatamento da memória cristã’, como dizia o cardeal belga Godfried Danneels. Hoje ele recorda : «Há tempos que não existiam vocações e havia um grande abismo entre mim e a geração anterior. Naquela situação, eu sabia que nunca receberia incentivo para partir em missão. A missão era ali».

Trata-se de. aceitar a realidade das coisas. As circunstâncias dadas. Padre Dominique torna-se Vigário Provincial e depois Provincial, enquanto o número de frades diminui. Sucedem-se fusões, movimentos e fechamentos de casas religiosas. Decide-se concentrar os franciscanos conventuais na casa de Bruxelas, onde têm o convento imerso nos bairros de imigração. Para não fechar a Província Belga, pede-se o apoio das outras Províncias conventuais da Europa. «Buscávamos os caminhos em meio às consequências da secularização e da globalização com que nos deparávamos». Leigos e leigas agregavam-se em torno ao padre Dominique. Uma comunidade que já então ‘mostrava ter necessidade da sua liberdade’ para continuar a crescer ao longo do caminho.

A surpresa libanesa 

Em 1993, o futuro arcebispo de Teerã viaja ao Líbano para a ordenação sacerdotal de César Essayan, seu colega de estudos, atual Vigário Apostólico de Beirute para os católicos de rito latino. Depois da guerra civil, Beirute ainda está tomada por escombros, com tanques por toda parte. No entanto, ele fica impressionado com a força de recomeçar das pessoas mais pobres, que permaneceram no país sofrendo sem poder partir, e com a fé das pessoas que encontra nos santuários. Dez anos mais tarde, e depois de um longo tempo de trabalho na Bélgica, a sua vida vira uma nova página, quando se torna disponível para ir para o País dos Cedros.

«Na minha viagem em 1993 vi que no Líbano havia um potencial de jovens a serem acompanhados em seu crescimento. Em Beirute, encontrei-me trabalhando em uma paróquia de língua francesa, onde pude imediatamente envolver-me em trabalhos pastorais’. No Líbano assumiu também a função de Mestre de Noviços. E experimenta a alegria de poder retomar os ritmos de vida comunitária, aos quais teve que renunciar durante os anos de missão na Bélgica.

No Líbano testemunhou as tensões entre o país, em particular o Hezbollah-Amal, e Israel (‘Via no Bekaa o drone que sempre sobrevoava o país e, fazendo astronomia, calculei que passava cada minuto e 52 segundos’). Ainda no Líbano, pela primeira vez soube que nos Palácios Vaticanos começavam a avaliar a possibilidade de convidar um franciscano para ir como bispo ao Irã.

Um nome para o Irã 

Em 2019, o Geral dos Franciscanos Conventuais pede ao padre Mathieu para retornar a Roma, à Cúria Geral na Basílica dos Santos XII Apóstolos, como Assistente Geral.

Naqueles anos, depois que diminuiu a presença de religiosos de rito latino no Irã entre 2015 e 2018, permaneceu sobre a mesa a proposta da Santa Sé aos Franciscanos Conventuais de indicar um dos frades a serem enviados ao Irã, até que o Padre Geral dos Conventuais o comunica  de ter indicado o seu nome em resposta ao pedido da Santa Sé. Mas são os primeiros meses da pandemia de Covid 19 e o padre Dominique Joseph é atingido por uma grave infecção pulmonar. Hoje ele diz : «Tinha comigo uma relíquia de São Charbel trazida do Líbano. Disse a mim mesmo : se eu morrer e o Senhor me acolher, não precisarei mais pensar em tudo isso. Então, em qualquer caso, não sou eu quem decide».

Em vez disso, o padre Joseph Dominique se recupera. Ainda em mau estado, dirige-se à Congregação para as Igrejas Orientais, onde os superiores lhe agradecem e lhe dizem que ‘o Santo Padre está muito feliz’ com a sua disponibilidade para ir ao Irã. «Para dizer a verdade - confidencia hoje o arcebispo de Teerã–Isfahan - eu não havia comunicado oficialmente qualquer aceitação da minha parte. Não havia dito sim e não havia dito não. Havia somente aquele pensamento quando imaginei que poderia morrer, e havia colocado todas as decisões nas mãos do Senhor».

Fora dos conformismos

 Dominique Joseph Mathieu é nomeado arcebispo de Teerã-Isfahan dos Latinos em 8 de janeiro de 2023. Em sua nova aventura, ele percebe que atrás de si, a apoiá-o, está a fraternidade dos Franciscanos Conventuais : «Muitas vezes - reconhece o padre Mathieu - quando se fala de Frades Menores Conventuais, dá-se maior importância à ‘pequenez’ e à pobreza. Na realidade, deveríamos também colocar a ênfase na fraternidade. Antes de tudo, somos uma fraternidade.’ Em Teerã, agora, não há nenhum sacerdote que o auxilie no seu trabalho pastoral. E diferentemente das Igrejas católicas de outros ritos, aquela de rito latino não tem nenhum reconhecimento legal nem status jurídico definido. É também por isso que os encontros com funcionários de departamentos governamentais podem por vezes tornar-se cansativos.

Para constituir uma associação legalmente reconhecida, são necessários pelo menos 15 iranianos católicos latinos, e agora os membros da comunidade católica de rito latino presentes no Irã são principalmente estrangeiros, funcionários de embaixadas, mulheres provenientes das Filipinas, Coreia e outros países.

Por isso, hoje, o padre Dominique Joseph faz votos que o cardinalato recebido seja útil sobretudo para abrir portas e intensificar a sua consideração por parte dos aparatos iranianos, aumentando as relações e os contatos também por meio dos canais entre o Irã e a Santa Sé, que sempre permaneceram abertos após a revolução de Khomeini.

Existe uma continuidade específica na relação entre a República Islâmica do Irã e a Santa Sé que resiste a todas as campanhas anti-iranianas e à propaganda desenfreada no Ocidente.

«Ao longo da minha vida - sublinha o arcebispo de Teerã - aprendi a viver em situações de fronteira, a reconhecer a diversidade e a libertar-me dos estereótipos e dos clichês no olhar pessoas e povos. Certamente – continua padre Dominique – a população do Irã é muito acolhedora e percebo que é um país cheio de contrastes, longe das caricaturas que circulam’.

As portas fechadas podem se abrir

No Irã, os católicos de rito latino são realmente um pequeno rebanho. Cerca de 2.000 pessoas, das quais pelo menos 1.300 são provenientes das Filipinas. Pequenas realidades, que abrem questões sobre o sentido e o horizonte da missão, sobre a escolha de manter uma presença e também uma diocese naquela situação. O arcebispo de Teerã-Isfahan não hesita. Ele diz : «Um confrade irmão me contou sobre uma pessoa que antes de se tornar cristã rezou durante mais de 10 anos diante da porta fechada de uma igreja armênia no norte do Irã. Rezar diante de uma porta faz entender a importância de estar ali. Uma porta é uma porta, mesmo que permaneça fechada, e mais cedo ou mais tarde poderá abrir-se para mostrar o amor de Cristo por todos, com os gestos mais do que com as palavras, como sugeria São Francisco’.

No entanto, o trabalho ao qual dedicar tempo e energia está todo contido nas dinâmicas elementares da vida eclesial : as Missas, o catecismo, a celebração dos sacramentos, as obras de caridade. As mesmas dinâmicas que na ordinariedade dos dias eram vividas e partilhadas nos mosteiros e beguinários da Bélgica, entre os quais cresceu o padre Dominique.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-12/primeiro-cardeal-ira-franciscano-dominique-joseph-mathieu.html

sábado, 9 de abril de 2022

Peter Turkson é escolhido para liderar a Academia de Ciências Sociais do Vaticano

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Gerard O'Connell

Tradução  : Ramón Lara


‘O Papa Francisco nomeou o cardeal Peter Turkson, de 73 anos, como o novo chanceler da Pontifícia Academia de Ciências, segundo um anunciou do Vaticano nesta segunda feira dia 04 de abril.

Ele sucede ao arcebispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo, que completa 80 anos em setembro próximo e é chanceler da academia desde 1998.

A Pontifícia Academia das Ciências Sociais foi instituída pelo Papa João Paulo II em 1º de janeiro de 1994. Seu objetivo é ‘promover o estudo e o progresso das ciências sociais, econômicas, políticas e jurídicas, e assim oferecer à Igreja os elementos que ela pode usar no estudo e desenvolvimento de sua doutrina social’ (‘Vitae Mysterium’ nº 1).

A nomeação não foi nenhuma surpresa. Há algum tempo havia rumores de que o Papa Francisco nomearia o cardeal ganense internacionalmente conhecido e muito querido para outro cargo de alto nível na Santa Sé depois que completasse seu mandato de cinco anos como prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Turkson era então o prelado africano mais antigo que trabalhava na Cúria Romana. Em dezembro, o Papa Francisco anunciou que o cardeal jesuíta Michael Czerny sucederia ao cardeal Turkson como chefe interino do dicastério.

Desde 2009, o cardeal Turkson representa a Santa Sé nos mais altos níveis internacionais, inclusive em conferências das Nações Unidas e na cúpula de Davos, na Suíça. O cardeal se envolveu com ministros do governo em todos os continentes e é conhecido pelas igrejas em todo o mundo. Também falou sobre muitos dos principais tópicos no campo da justiça social, direitos humanos, paz, meio ambiente e, mais recentemente, sobre a pandemia e olhando para o mundo pós-pandemia.

Sua nova posição lhe permite maior liberdade e possibilita que ele continue no mesmo caminho, concentrando-se em questões específicas de importância global sem o pesado fardo de ter que gerenciar um departamento complexo de cerca de 70 funcionários, como havia feito nos últimos cinco anos no dicastério para o desenvolvimento humano.

Nascido em uma família de 10 crianças no oeste de Gana, o cardeal Turkson me disse em uma entrevista para o La Stampa em 2012 : ‘Meu tio paterno era muçulmano. Nós vivíamos juntos; não temos nenhum traço de medo do Islã em minha família. Minha mãe era metodista, meu pai católico. Esta é a família inter-religiosa e o contexto em que cresci.’ Turkson disse que seu tio cuidou dele quando era menino, e ‘quando meu tio envelheceu, eu cuidei dele até que morreu’.

O cardeal Turkson estudou em seminários em Gana e Nova York e foi ordenado sacerdote em 1975. Depois de alguns anos de trabalho pastoral, seu bispo o enviou a Roma para estudar Escritura no Pontifício Instituto Bíblico, onde obteve a licenciatura e a doutorado em estudos das escrituras. Ele fala vários idiomas além do inglês, incluindo francês, italiano e alemão.

São João Paulo II nomeou o cardeal Turkson como arcebispo de Cape Coast, Gana, em 1992, e o nomeou cardeal em seu último consistório em 2003. O Papa Bento XVI o chamou a Roma em 2009 para servir como presidente do Pontifício Conselho para a Justiça e Paz. O Papa Francisco o confirmou neste último cargo e depois, como parte de sua reforma da Cúria Romana, nomeou o cardeal como primeiro prefeito do novo Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. O dicastério surgiu em 1º de janeiro de 2017, após a incorporação de vários conselhos pontifícios, incluindo o Pontifício Conselho Justiça e Paz, que o cardeal havia liderado.

Turkson participou dos dois últimos conclaves papais, 2005 e 2013, e foi listado na mídia internacional entre os candidatos a papa, no último conclave. O cardeal é muito próximo do Papa Francisco, e a nomeação é uma confirmação dessa relação.

A Pontifícia Academia de Ciências Sociais tem ‘não menos de 20 e não mais de 40 homens e mulheres’ pontifícios acadêmicos ‘representando adequadamente as várias disciplinas das ciências sociais e regiões geográficas’. Eles são nomeados pelo Papa ‘após nomeação do corpo acadêmico com base em suas competências e contribuições destacadas nas ciências sociais e em sua integridade moral’. A academia é chefiada por um presidente e assistida pelo chanceler, ambos nomeados pelo Papa. O chanceler administra efetivamente a academia.

A sede da academia fica na Casina Pio IV na Cidade do Vaticano. Concluída em 1561, antiga residência de verão do Papa Pio IV e cercada pelas árvores e gramados dos jardins do Vaticano, a Casina é um tesouro bem preservado de afrescos, relevos de estuque, mosaicos e fontes do século XVI. O chanceler pode optar por residir lá.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1572863/2022/04/o-popular-cardeal-ganense-peter-turkson-e-escolhido-para-liderar-a-academia-de-ciencias-sociais-do-vaticano/

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Francisco e a nomeação de um cardeal em segredo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé 


‘Folheando algumas páginas de um manual de História da Igreja, e depois focando na parte que trata da trajetória dos papas, notei que falta uma coisa : o papa Francisco nomear um cardeal sem que ninguém saiba. Parece estranho, mas é algo previsto pelo Código de Direito Canônico, a ‘Constituição’ da Igreja.

O cânone (artigo) 351,3, diz :

A pessoa promovida à dignidade cardinalícia, cuja criação o Romano Pontífice anunciar, reservando para si o nome in pectore, não fica entretanto obrigada a nenhum dever dos Cardeais nem goza de nenhum dos seus direitos; a partir da publicação do seu nome pelo Romano Pontífice, fica obrigada aos mesmos’.

Isso quer dizer que o sumo pontífice tem a liberdade de nomear um cardeal in pectore - do latim, no peito, no segredo do coração - sem comunicar o nome ao Vaticano. Neste caso, em primeiro momento, ele não divulga quem é a pessoa nem para o colégio cardinalício. Todos só ficarão sabendo que existe um in pectore no dia do consistório, a cerimônia na qual o Santo Padre lê o decreto oficial para concessão do título. Porém, fica a critério do pontífice escolher quando será a revelação do nome, que pode acontecer até anos depois.

Trata-se de uma exceção. Eles são cardeais, integram o colégio cardinalício, mas não gozam dos direitos ligados à função até a nomeação pública. Ou seja, não podem votar num conclave, participar de reuniões de cardeais nem chefiar um escritório do Vaticano. É diferente do que acontece em circunstâncias normais.

No domingo passado, Francisco anunciou a criação de 13 novos cardeais. Isso não quer dizer que eles já podem vestir, imediatamente, a roupa vermelha. Só depois do dia 28 de novembro, data em que o papa celebra a missa na qual lhes são entregues as insígnias cardinalícias e tomam posse de uma igreja.

Seguindo uma antiga tradição, o cardeal se torna titular de uma igreja da diocese de Roma, já que passa a ser um braço direito do papa, o bispo da cidade. É por isso que vemos o brasão dos purpurados no alto da fachada de alguns templos da capital.

Quem já aplicou a fórmula in pectore?

O papa Martinho V foi quem começou com essa prática, no século 14. A normativa para a aplicação da regra, na época, não era muito clara. Mas certamente foi motivada por questões políticas, dado que um dos escolhidos era seu próprio sobrinho, Prospero Collona, membro de uma das famílias mais poderosas de Roma, na época.

O último a fazer uso do recurso foi o Papa João Paulo II. Em 1979, um ano depois de eleito, ele fez cardeal o arcebispo de Xangai, Ignatius Kung Pin-me, mas só levou a escolha a público em 1991. Em 1998, deu o barrete cardinalício a Marian Jaworski (bispo de Leópolis, na Ucrânia) e Jamos Pujats (bispo de Riga, capital da Letônia). Porém, o papa polonês divulgou sua decisão só em 2001.

As nomeações foram secretas também por motivação política, como ocorre na maioria das vezes em que o pontífice recorre a essa medida. Todos os condecorados viviam ou já tinham sofrido perseguição em países que estavam sob o regime comunista.

Pujats, por exemplo, foi considerado persona non grata pela KGB, o serviço secreto soviético, durante muitos anos. E Ping-mei passou 30 anos preso por não admitir que os católicos fossem controlados pela chamada ‘Igreja Patriótica’ do Partido Comunista. Inclusive, foi próprio João Paulo II a dar-lhe a notícia de que seria cardeal durante uma reunião, a portas fechadas, no Vaticano.

Em 2003, aconteceu algo muito peculiar. João Paulo II disse na celebração dos 30 novos cardeais daquele ano que ‘além dos 30 recém-empossados existia mais um in pectore’. No entanto, o nome jamais foi revelado. O pontífice morreu em 2005, antes da convocação de um novo consistório. 

Pensando na renovação do acordo firmado entre China e Santa Sé recentemente, comecei a refletir sobre o tema. Diante do que já aconteceu anos atrás, e olhando para a ousadia de Francisco, não é difícil pensar na possibilidade. Além disso, a diplomacia pontifícia reitera que todos os bispos chineses passam a ser considerados legítimos. 

Não é algo previsto pelo trato, mas o Papa poderia nomear alguém desse modo para se aproximar dos católicos chineses, tendo em vista a complexidade da situação, e o fato de que alguns não se sentem confortáveis, ainda, com o acordo. E se ele escolhesse um bispo que, no passado, fez parte da chamada ‘igreja clandestina’, como gesto de reconhecimento pelo esforço de manter-se fiel a Roma nos períodos mais difíceis?

Por outro lado, para dar um passo como esse, há uma série de implicações diplomáticas. Se fosse hoje, Pequim certamente não ficaria muito contente com a ideia. Então tudo vai depender dos frutos dessa discreta reaproximação entre os dois países. Será que é a próxima surpresa que Francisco nos reserva? Ele pode dar essa cartada inesperada?  É o que veremos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1480084/2020/10/francisco-e-a-nomeacao-de-um-cardeal-em-segredo//


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Consistório 2017 : Origens e história do Colégio Cardinalício

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

O título de cardeal foi reconhecido pela primeira vez durante o pontificado de Silvestre I.


‘A história dos cardeais começa por estar ligar ao clero de Roma e já vem de longe : o título de cardeal foi reconhecido pela primeira vez durante o pontificado de Silvestre I (314-335).

Inicialmente o título de cardeal (do latim ‘cardo/cardinis’, que significa ‘eixo’) era atribuído genericamente a pessoas ao serviço de uma igreja ou diaconia, reservando-se mais tarde aos responsáveis das igrejas titulares de Roma e das igrejas mais importantes da Itália e do mundo.

Os cardeais nascem do grupo de 25 presbíteros das comunidades eclesiais primitivas (títulos) em Roma, nomeados pelo Papa Cleto (séc. I), e dos 7 (posteriormente 14) diáconos que cuidavam dos pobres nas várias regiões da cidade; dos 6 diáconos palatinos (responsáveis pela administração dos seis departamentos do palácio de Latrão, em Roma) e dos 7 bispos suburbicários (as sete dioceses mais próximas de Roma), todos eles conselheiros e colaboradores do Papa.

Segundo as notas históricas do ‘Anuário Pontifício’, a partir do ano 1150 formaram o Colégio Cardinalício com um decano, que é o bispo de Ostia (localidade próxima de Roma), e um Camerlengo, na qualidade de administrador dos bens.

O decano é eleito, como se refere no Código de Direito Canônico (Cân. 352, § 2), pelos cardeais com o título de uma Igreja suburbicária (Albano, Frascati, Ostia, Palestrina, Porto-Santa Ruffina e Velletri-Segni).

É no século XI que os Cardeais passam a ter uma função mais próxima do que são hoje : em 1050, para contrariar as disputas entre várias famílias de Roma que queriam dominar o papado, o Papa Leão IX (1049-54) chama vários homens que considera capazes de o ajudar a reformar a Igreja.

Nove anos depois, Nicolau II decide que o Papa passaria a ser eleito apenas pelos cardeais.

No século XII, começaram a ser nomeados cardeais também os prelados que residiam fora de Roma : primeiro os bispos e arcebispos; desde o século XV, também os patriarcas (Bula ‘Non mediocri’ de Eugénio IV, ano 1439); mesmo quando eram padres, os cardeais tinham voto nos Concílios.

O número de Cardeais, que por norma nos séculos XIII-XV não era superior a 30, foi fixado em 70 por Sisto V : 6 cardeais-bispos, 50 cardeais-presbíteros, 14 cardeais-diáconos (Constituição ‘Postquam verus’, de 3 de Dezembro de 1586).

No Consistório Secreto de 15 de dezembro de 1958, João XXIII derrogou o número de cardeais estabelecidos por Sisto V. O mesmo São João XXIII, com o Motu Próprio ‘Cum gravissima’, de 15 de abril de 1962, estabeleceu que todos os cardeais fossem ‘honrados com a dignidade episcopal’.

O Beato Paulo VI, com o Motu Próprio ‘Ad Purpuratorum Patrum’, de 11 de fevereiro de 1965, determinou o lugar dos patriarcas orientais no Colégio Cardinalício.

O mesmo Papa, com o Motu Próprio ‘Ingravescentem aetatem’, de 21 de novembro de 1970, dispôs que ao completarem 80 anos de idade, os cardeais deixam de ser membros dos dicastérios da Cúria Romana e de todos os organismos permanentes da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano; além disso perdem o direito de eleger o Papa e, portanto, também o direito de entrar em Conclave.

No Consistório secreto de 5 de novembro de 1973, Paulo VI estabeleceu que o número máximo de cardeais com a faculdade de eleger o Papa se fixasse em 120; São João Paulo II, na Constituição Apostólica ‘Universi Dominici Gregis’, de 22 de fevereiro de 1996, reiterou estas disposições.

Os requisitos para serem eleitos são, basicamente, os mesmos que estabeleceu o Concílio de Trento na sua sessão XXIV de 11 de novembro de 1563 : homens que receberam a ordenação sacerdotal e se distinguem pela sua doutrina, piedade e prudência no desempenho dos seus deveres.

Hoje, os cardeais ‘constituem um colégio peculiar, ao qual compete providenciar à eleição do Romano Pontífice’, como refere o CDC (cânone 349).

As funções dos membros do Colégio Cardinalício vão, no entanto, para além da eleição do Papa : qualquer cardeal é, acima de tudo, um conselheiro específico que pode ser consultado em determinados assuntos quando o Papa o desejar, pessoal ou colegialmente.

Como conselheiros do Papa, os cardeais atuam colegialmente com ele através dos consistórios ordinários ou extraordinários, com a finalidade de fazer uma consulta importante ou tratar de outros assuntos de relevo.

Durante o período de ‘Sé vacante’, após a morte ou renúncia do Papa, o Colégio Cardinalício desempenha uma função central no governo geral da Igreja e no do Estado da Cidade do Vaticano.

Os cardeais são tratados com o título de ‘eminência’; segundo os Tratados de Latrão, todos os cardeais que residem em Roma são cidadãos do Estado da Cidade do Vaticano (art. 21).’

           
Fonte :


terça-feira, 23 de maio de 2017

Pela primeira vez em 500 anos, um bispo convertido será elevado a cardeal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Resultado de imagem para dom Anders Arborelius 

‘Papa Francisco não para de surpreender: no próximo dia 28 de junho, ele nomeará cinco novos cardeais e, entre eles, o arcebispo de Estocolmo, dom Anders Arborelius, primeiro prelado sueco a obter a púrpura cardinalícia desde a reforma luterana, em 1517.

Hoje religioso carmelita, dom Anders se converteu ao catolicismo na Suécia, país de forte tradição protestante. O arcebispo de 68 anos de idade recebeu o batismo quando tinha 20. Faz 46 anos que ele entrou na ordem dos carmelitas descalços.

O jovem tinha lido a autobiografia de Santa Teresinha de Lisieux, que o motivou a entrar na ordem carmelita. Uma decisão significativa, considerando que converter-se ao catolicismo na Suécia equivaleu, durante séculos, a perder direitos civis. As coisas só mudaram nos anos 1970, quando a liberdade de culto para todas as confissões no país passou a ser permitida com a mudança das normas impostas havia mais de quatrocentos anos pelo rei Gustavo de Vasa (1496-1560).

A nomeação do novo cardeal sueco é uma ponte para uma ‘periferia existencial’ da Europa onde ser católico é um estigma. A minoria católica na Suécia sofreu dura repressão até poucas décadas atrás.

Dom Anders, que recebeu o Papa Francisco na sua viagem a Lund em 1º de novembro de 2016, é testemunha da ação da Igreja em seu país para responder à secularização progressiva (e agressiva) dessa nação escandinava. Os frutos têm vindo : aos poucos, vem aumentando o número de novos conversos católicos na Suécia.


A trajetória de dom Anders Arborelius

Ele foi consagrado bispo na catedral católica de Estocolmo em 29 de dezembro de 1998, sendo o primeiro bispo católico de origem sueca em seu próprio país desde os tempos da reforma luterana do século XVI.

Seu testemunho como converso e bispo sueco levará experiência concreta ao Colégio de Cardeais que assessoram o Santo Padre no diálogo ecumênico e pastoral, especialmente para responder aos preconceitos ancestrais que persistem contra os católicos na Suécia e nos outros países influenciados pela reforma protestante.

Em 21 de janeiro de 2014, o Papa já o havia nomeado consultor do Conselho Pontifício para os Leigos.

O futuro cardeal Arborelius nasceu em Sorengo, na Suíça, em 24 de setembro de 1949, filhos de pais suecos que se divorciaram quando ele tinha 4 anos. Cresceu com a mãe em Lund, no sul da Suécia.

A família Arborelius era luterana, mas não praticante. A vocação ao sacerdócio do jovem Anders começou a se manifestar quando ele conheceu as freiras do convento de Santa Brígida e foi descobrindo mais da espiritualidade católica.

Ele entrou na ordem dos padres carmelitas descalços em 1971 e fez a profissão perpétua em Bruges, Bélgica, em 1977. Estudou Filosofia e Teologia na Bélgica e no Teresianum de Roma. Ao mesmo tempo, estudou línguas modernas na Universidade de Lund, conforme se lê na biografia oficial. Foi ordenado sacerdote na cidade de Malmö em 8 de setembro de 1979, festa da Natividade de Maria.

De 2005 a 2015 foi presidente da Conferência Episcopal da Escandinávia e, a partir de 2015, vice-presidente. Também foi membro da Comissão da Presidência do Conselho Pontifício para a Família entre 2002 e 2009.’

           
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