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sábado, 9 de abril de 2022

Peter Turkson é escolhido para liderar a Academia de Ciências Sociais do Vaticano

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Gerard O'Connell

Tradução  : Ramón Lara


‘O Papa Francisco nomeou o cardeal Peter Turkson, de 73 anos, como o novo chanceler da Pontifícia Academia de Ciências, segundo um anunciou do Vaticano nesta segunda feira dia 04 de abril.

Ele sucede ao arcebispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo, que completa 80 anos em setembro próximo e é chanceler da academia desde 1998.

A Pontifícia Academia das Ciências Sociais foi instituída pelo Papa João Paulo II em 1º de janeiro de 1994. Seu objetivo é ‘promover o estudo e o progresso das ciências sociais, econômicas, políticas e jurídicas, e assim oferecer à Igreja os elementos que ela pode usar no estudo e desenvolvimento de sua doutrina social’ (‘Vitae Mysterium’ nº 1).

A nomeação não foi nenhuma surpresa. Há algum tempo havia rumores de que o Papa Francisco nomearia o cardeal ganense internacionalmente conhecido e muito querido para outro cargo de alto nível na Santa Sé depois que completasse seu mandato de cinco anos como prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Turkson era então o prelado africano mais antigo que trabalhava na Cúria Romana. Em dezembro, o Papa Francisco anunciou que o cardeal jesuíta Michael Czerny sucederia ao cardeal Turkson como chefe interino do dicastério.

Desde 2009, o cardeal Turkson representa a Santa Sé nos mais altos níveis internacionais, inclusive em conferências das Nações Unidas e na cúpula de Davos, na Suíça. O cardeal se envolveu com ministros do governo em todos os continentes e é conhecido pelas igrejas em todo o mundo. Também falou sobre muitos dos principais tópicos no campo da justiça social, direitos humanos, paz, meio ambiente e, mais recentemente, sobre a pandemia e olhando para o mundo pós-pandemia.

Sua nova posição lhe permite maior liberdade e possibilita que ele continue no mesmo caminho, concentrando-se em questões específicas de importância global sem o pesado fardo de ter que gerenciar um departamento complexo de cerca de 70 funcionários, como havia feito nos últimos cinco anos no dicastério para o desenvolvimento humano.

Nascido em uma família de 10 crianças no oeste de Gana, o cardeal Turkson me disse em uma entrevista para o La Stampa em 2012 : ‘Meu tio paterno era muçulmano. Nós vivíamos juntos; não temos nenhum traço de medo do Islã em minha família. Minha mãe era metodista, meu pai católico. Esta é a família inter-religiosa e o contexto em que cresci.’ Turkson disse que seu tio cuidou dele quando era menino, e ‘quando meu tio envelheceu, eu cuidei dele até que morreu’.

O cardeal Turkson estudou em seminários em Gana e Nova York e foi ordenado sacerdote em 1975. Depois de alguns anos de trabalho pastoral, seu bispo o enviou a Roma para estudar Escritura no Pontifício Instituto Bíblico, onde obteve a licenciatura e a doutorado em estudos das escrituras. Ele fala vários idiomas além do inglês, incluindo francês, italiano e alemão.

São João Paulo II nomeou o cardeal Turkson como arcebispo de Cape Coast, Gana, em 1992, e o nomeou cardeal em seu último consistório em 2003. O Papa Bento XVI o chamou a Roma em 2009 para servir como presidente do Pontifício Conselho para a Justiça e Paz. O Papa Francisco o confirmou neste último cargo e depois, como parte de sua reforma da Cúria Romana, nomeou o cardeal como primeiro prefeito do novo Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. O dicastério surgiu em 1º de janeiro de 2017, após a incorporação de vários conselhos pontifícios, incluindo o Pontifício Conselho Justiça e Paz, que o cardeal havia liderado.

Turkson participou dos dois últimos conclaves papais, 2005 e 2013, e foi listado na mídia internacional entre os candidatos a papa, no último conclave. O cardeal é muito próximo do Papa Francisco, e a nomeação é uma confirmação dessa relação.

A Pontifícia Academia de Ciências Sociais tem ‘não menos de 20 e não mais de 40 homens e mulheres’ pontifícios acadêmicos ‘representando adequadamente as várias disciplinas das ciências sociais e regiões geográficas’. Eles são nomeados pelo Papa ‘após nomeação do corpo acadêmico com base em suas competências e contribuições destacadas nas ciências sociais e em sua integridade moral’. A academia é chefiada por um presidente e assistida pelo chanceler, ambos nomeados pelo Papa. O chanceler administra efetivamente a academia.

A sede da academia fica na Casina Pio IV na Cidade do Vaticano. Concluída em 1561, antiga residência de verão do Papa Pio IV e cercada pelas árvores e gramados dos jardins do Vaticano, a Casina é um tesouro bem preservado de afrescos, relevos de estuque, mosaicos e fontes do século XVI. O chanceler pode optar por residir lá.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1572863/2022/04/o-popular-cardeal-ganense-peter-turkson-e-escolhido-para-liderar-a-academia-de-ciencias-sociais-do-vaticano/

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Francisco e a nomeação de um cardeal em segredo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé 


‘Folheando algumas páginas de um manual de História da Igreja, e depois focando na parte que trata da trajetória dos papas, notei que falta uma coisa : o papa Francisco nomear um cardeal sem que ninguém saiba. Parece estranho, mas é algo previsto pelo Código de Direito Canônico, a ‘Constituição’ da Igreja.

O cânone (artigo) 351,3, diz :

A pessoa promovida à dignidade cardinalícia, cuja criação o Romano Pontífice anunciar, reservando para si o nome in pectore, não fica entretanto obrigada a nenhum dever dos Cardeais nem goza de nenhum dos seus direitos; a partir da publicação do seu nome pelo Romano Pontífice, fica obrigada aos mesmos’.

Isso quer dizer que o sumo pontífice tem a liberdade de nomear um cardeal in pectore - do latim, no peito, no segredo do coração - sem comunicar o nome ao Vaticano. Neste caso, em primeiro momento, ele não divulga quem é a pessoa nem para o colégio cardinalício. Todos só ficarão sabendo que existe um in pectore no dia do consistório, a cerimônia na qual o Santo Padre lê o decreto oficial para concessão do título. Porém, fica a critério do pontífice escolher quando será a revelação do nome, que pode acontecer até anos depois.

Trata-se de uma exceção. Eles são cardeais, integram o colégio cardinalício, mas não gozam dos direitos ligados à função até a nomeação pública. Ou seja, não podem votar num conclave, participar de reuniões de cardeais nem chefiar um escritório do Vaticano. É diferente do que acontece em circunstâncias normais.

No domingo passado, Francisco anunciou a criação de 13 novos cardeais. Isso não quer dizer que eles já podem vestir, imediatamente, a roupa vermelha. Só depois do dia 28 de novembro, data em que o papa celebra a missa na qual lhes são entregues as insígnias cardinalícias e tomam posse de uma igreja.

Seguindo uma antiga tradição, o cardeal se torna titular de uma igreja da diocese de Roma, já que passa a ser um braço direito do papa, o bispo da cidade. É por isso que vemos o brasão dos purpurados no alto da fachada de alguns templos da capital.

Quem já aplicou a fórmula in pectore?

O papa Martinho V foi quem começou com essa prática, no século 14. A normativa para a aplicação da regra, na época, não era muito clara. Mas certamente foi motivada por questões políticas, dado que um dos escolhidos era seu próprio sobrinho, Prospero Collona, membro de uma das famílias mais poderosas de Roma, na época.

O último a fazer uso do recurso foi o Papa João Paulo II. Em 1979, um ano depois de eleito, ele fez cardeal o arcebispo de Xangai, Ignatius Kung Pin-me, mas só levou a escolha a público em 1991. Em 1998, deu o barrete cardinalício a Marian Jaworski (bispo de Leópolis, na Ucrânia) e Jamos Pujats (bispo de Riga, capital da Letônia). Porém, o papa polonês divulgou sua decisão só em 2001.

As nomeações foram secretas também por motivação política, como ocorre na maioria das vezes em que o pontífice recorre a essa medida. Todos os condecorados viviam ou já tinham sofrido perseguição em países que estavam sob o regime comunista.

Pujats, por exemplo, foi considerado persona non grata pela KGB, o serviço secreto soviético, durante muitos anos. E Ping-mei passou 30 anos preso por não admitir que os católicos fossem controlados pela chamada ‘Igreja Patriótica’ do Partido Comunista. Inclusive, foi próprio João Paulo II a dar-lhe a notícia de que seria cardeal durante uma reunião, a portas fechadas, no Vaticano.

Em 2003, aconteceu algo muito peculiar. João Paulo II disse na celebração dos 30 novos cardeais daquele ano que ‘além dos 30 recém-empossados existia mais um in pectore’. No entanto, o nome jamais foi revelado. O pontífice morreu em 2005, antes da convocação de um novo consistório. 

Pensando na renovação do acordo firmado entre China e Santa Sé recentemente, comecei a refletir sobre o tema. Diante do que já aconteceu anos atrás, e olhando para a ousadia de Francisco, não é difícil pensar na possibilidade. Além disso, a diplomacia pontifícia reitera que todos os bispos chineses passam a ser considerados legítimos. 

Não é algo previsto pelo trato, mas o Papa poderia nomear alguém desse modo para se aproximar dos católicos chineses, tendo em vista a complexidade da situação, e o fato de que alguns não se sentem confortáveis, ainda, com o acordo. E se ele escolhesse um bispo que, no passado, fez parte da chamada ‘igreja clandestina’, como gesto de reconhecimento pelo esforço de manter-se fiel a Roma nos períodos mais difíceis?

Por outro lado, para dar um passo como esse, há uma série de implicações diplomáticas. Se fosse hoje, Pequim certamente não ficaria muito contente com a ideia. Então tudo vai depender dos frutos dessa discreta reaproximação entre os dois países. Será que é a próxima surpresa que Francisco nos reserva? Ele pode dar essa cartada inesperada?  É o que veremos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1480084/2020/10/francisco-e-a-nomeacao-de-um-cardeal-em-segredo//