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sábado, 27 de novembro de 2021

O verdadeiro significado do Advento

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Washington Paranhos, SJ

 

‘A palavra ‘advento’ é de origem latina e significa ‘chegada’, ‘aproximação’, ‘vinda’. No Ano Litúrgico, o Advento é um tempo de preparação para a segunda maior festa cristã : o Natal do Senhor. Este tempo é marcado por uma vivência mais profunda da vida de oração. A leitura orante deste período nos coloca em contato com as profecias de salvação do Antigo Testamento, com a expectativa que os cristãos da Igreja primitiva tinham da Parusia e com os eventos principais que antecederam o nascimento de Jesus.

A liturgia do tempo do advento contém uma autêntica espiritualidade litúrgica, centrada na vinda do Senhor e sua espera; a vinda do Senhor na carne e no fim dos tempos, assim como sua constante presença na Igreja que é prefigurada de modo particular em Maria, virgem, mãe da esperança. Três figuras bíblicas nos são apresentadas e ganham destaque na celebração do Advento : todos os personagens do Antigo Testamento que expressam o anseio pela vinda do Messias, especialmente o livro de Isaías e os Salmos 79 e 84; João Batista, porque foi vocacionado a ser o precursor do Messias; Maria, porque foi escolhida por Deus para ser a mãe do Salvador.

A espiritualidade do Advento também é marcada por algumas atitudes básicas : a preparação para receber o Cristo; a oração e a vivência da esperança cristã. A preparação para receber o Senhor se dá na vivência da conversão e da ascese. Precisamos ter um olhar atento sobre nós e a realidade que nos cerca e nos empenharmos para correspondermos com a ação do Espírito de Deus que quer restaurar todas as coisas.

Para John Henry Newman o nome do cristão é ‘aquele que espera o Senhor’. Porém, devemos reconhecer que durante séculos, no Ocidente, a expectativa da vinda do Senhor tem sido uma dimensão ausente na vida de fé dos cristãos. Alguém já escreveu : ‘Estou cansado de ver os cristãos que esperam a vinda de seu Senhor com a mesma indiferença com que esperam a chegada do ônibus’.

O revelador dessa realidade é a maneira habitual de compreensão e vivência do Advento. Estou convencido de que o Advento hoje, é o tempo litúrgico menos compreendido em seu valor e significado. Foi reduzido apenas ao tempo de preparação para a festa de Natal. Que triste! Não se entende que o Advento é a chave de todo o ano litúrgico : a escatologia é a verdade esquecida de todo o ano litúrgico.

O Advento é a chave para entender a celebração das festas da manifestação do Senhor em carne e osso : os fatos que imediatamente precederam o nascimento de Jesus Cristo, seu nascimento em Belém, a demonstração aos Magos, o batismo no Jordão…. Compreendidos em sua inteligência espiritual, os textos litúrgicos do Advento não expressam apenas a expectativa de um nascimento já ocorrido na história de uma vez por todas, mas sim a expectativa da vinda definitiva de Cristo em sua glória.

O modo de viver o Advento é símbolo da perda generalizada da dimensão escatológica que é uma das características distintas do cristianismo ocidental moderno e contemporâneo. A espiritualização progressiva da escatologia levou a existência cristã a sofrer de um grave mal : a amnésia da Parusia. Observamos como a doença do nosso tempo é a vontade de esquecer o advento de Deus, mas devemos recordar que somos homens e mulheres do Advento, que têm em seus corações a urgência da vinda de Cristo, e com olhos que espiam, buscando nos horizontes de suas vidas seu rosto amanhecendo.

Hoje, devemos reconhecer, que há uma patologia no modo de viver o Advento. Na realidade, o Advento é o único e específico tempo cristão, isto porque um tempo de jejum e penitência como a Quaresma compartilhamos com o Islã, o tempo da Páscoa com o judaísmo, mas a expectativa da vinda do Kyrios é apenas cristã. Só nós cristãos aguardamos o retorno de Cristo prometido : ‘Sim, eu venho em breve. Amém!’ (Ap 22,20). Por essa razão, privar o ano litúrgico de sua dimensão escatológica constitutiva significa subtrair da fé cristã a dimensão da esperança.

Assim compreendido e vivido, o Advento seria um momento muito mais eloquente no ano litúrgico para os fiéis de hoje. Homens e mulheres que lutam para ter esperança porque são privados de toda a esperança, às vezes até incapazes de esperar. Por essa razão, é necessário prestar atenção às liturgias que são muito festivas chegando ao limite do superficial, excessiva em tons e acentos, como se devemos sempre e a qualquer custo fazer festa.

Precisamos de liturgias capazes de dar razões para esperançar corações cansados e fatigados, capazes de reerguer todos que, como os discípulos de Emaús, param ‘com um rosto triste’. Sabemos que a dificuldade em acreditar e em confiar nos outros, na vida, no futuro, é um dos traços que caracterizam os homens e as mulheres do nossos dias e isso não pode deixar de impactar e marcar a fé do crente contemporâneo.

Entendendo o ano litúrgico não apenas como um ciclo, um anel fechado em si mesmo, mas como um movimento helicoidal que coloca a fé no caminho, no preciso contexto antropológico, cultural e social em que vivemos, para entender que nossas liturgias, e mais geralmente as celebrações dos sacramentos, são hoje chamadas a hospedar uma maneira de viver a fé, mesmo entre os crentes mais assíduos, que não é mais, como no passado, a soma de certezas inabalável, mas a expressão de um desejo por algo e de alguém em quem se pode esperar, de modo que acreditar signifique abrir-se e apegar-se a uma esperança.

De fato, hoje a fé precisa ser vivida principalmente como abertura à esperança. Nutrir a esperança, essa é hoje a primeira tarefa do ano litúrgico, dando razões para alimentar e exercitar-se no crer que não se é realidade visível, e essas realidades são nossa salvação. Sair da precariedade em que se encontra para entrar um dia na condição de beatitude em Deus. ‘Só a esperança na vida eterna nos torna devidamente cristãos’, escreveu Agostinho.

Hoje é muito difícil falar de esperança, dar razões da esperança, mas essa é a tarefa atual do ano litúrgico, porque a falta de esperança torna o homem estranho ao tempo, irremediavelmente ausente deste tempo presente. A esperança é exatamente esta : querer infinitamente o finito, é viver eternamente o tempo. Como Emmanuel Mounier escreveu em um ensaio dedicado a Péguy, a esperança ‘recria o que o hábito desfaz. É a fonte de todos os nascimentos espirituais, de toda liberdade, de toda a novidade. Precisamos semear começos onde o hábito leva à morte’.

O tempo do Advento é um tempo propício para animar a virtude da esperança, com a consciência de que somente Deus é o Salvador do mundo e que n’Ele reside o sentido de toda a existência. A virtude da esperança, suscitada pela vinda de Cristo, encontra no tempo do Advento um complemento necessário : a vigilância.

Maranatha, Vem Senhor Jesus!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1552492/2021/11/o-verdadeiro-significado-do-advento/

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Presépio negro

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
 
*Artigo de Padre José Vieira,
Missionário Comboniano
  
Enternecem-me as representações africanas do presépio, esculpidas ou pintadas. Singelas, lineares, às vezes minimalistas, outras vezes com explosões de cor, luz e movimento como os ícones etíopes da natividade que tanto me fascinam: olhares enormes, redondos, contemplativos; corpos solenes; mãos esguias, adoradoras; uma paleta de cores ricas de vida : amarelos, azuis, encarnados, brancos… Cabeças e asas de anjos a anunciar a grande alegria : nasceu-vos um Salvador!

O presépio é uma criação plástica de Francisco de Assis. Montou-o pela primeira vez com figuras de barro em 1223 na floresta de Grécio, no Lácio italiano. Com o andar do Cristianismo através das muitas culturas, foi ajuntando matizes e materiais locais que aprofundam o mistério da encarnação : Jesus faz-se homem em cada raça, é mistério intercultural.

Há um pensar que me vara o coração com um estremecimento apertado : se, em vez de nascer em Belém da Judeia, Jesus tivesse nascido, por exemplo, em Bentiu – no Sudão do Sul, Bourem – no Mali, Bongor – no Chade, Blama – na Serra Leoa, ou no Bailundo – em Angola, que chance teria de chegar à idade adulta?

A infância africana continua sob céus pesados apesar dos grandes progressos na assistência sanitária das últimas décadas. A Unicef, a agência da ONU para a infância, denuncia que no Sahel, no Nordeste da África, a crise alimentar ameaça cerca de 6,4 milhões de crianças de má nutrição aguda, afetando o seu desenvolvimento integral; que 2,4 milhões de crianças estão a ser atingidas pela crise na República Centro-Africana; que mais de 2,5 milhões de crianças sofrem de má nutrição severa aguda na República Democrática do Congo; que a guerra étnica no Darfur e nos montes Nuba, no Sudão, deixou as crianças vulneráveis às doenças e à fome, incluindo 1,2 milhões que sofrem de má nutrição aguda.

As estatísticas da mortalidade infantil são ainda mais tremendas : a Organização Mundial de Saúde diz que na África 8,1 % das crianças morrem antes de fazerem cinco anos. Em números redondos, em 2013, faleceram 2,9 milhões de crianças africanas com menos de cinco anos, um contador implacável de cinco crianças a morrer por cada minuto que passa.

A ONG Child Mortality documenta que, na África Subsariana, uma em cada 12 crianças morre antes dos cinco anos (nos países ricos o rácio é de uma por 147). Por países, em Angola perecem 15,7% das crianças antes dos cinco anos, no Chade 13,9%, na Somália 13,7%, na República Centro-Africana 13% e no Mali 11,5%. Portugal tem uma taxa de mortalidade infantil de 0,4% : morrem quatro crianças por cada mil nascimentos antes dos cinco anos.

O que é que mata os bebês africanos? Infecções, pneumonias, diarreias, malária, má nutrição e outras doenças facilmente tratáveis com medicamentos baratos e vacinas. Mas as crianças continuam a morrer...

Relacionada com a natividade africana está também a mortalidade materna. Os números são do Banco Mundial e da ONU e respeitam ao ano de 2013 : na Serra Leoa, o país com o índice mais elevado, morrem 1100 mães por 100 mil partos vivos. Segue-se o Chade com 980, a vizinha República Centro-Africana com 880, o Burundi com 740 e o Sudão do Sul e a República Democrática do Congo com 730. Em Portugal, a mortalidade materna é de oito mães por cada 100 mil nascimentos. As mamães morrem de complicações antes, durante e depois do parto, porque os governos canalizam os recursos para a guerra, descuidando da saúde pública. Muitas são demasiado jovens para gerar filhos...

O Papa Francisco escreveu uma frase muito eloquente na exortação apostólica A Alegria do Evangelho : «Na sua encarnação, o Filho de Deus convida-nos à revolução da ternura!»


Fonte :