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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O caminho do amor é o da noite escura

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

João da Cruz pintado por Francisco de Zurbarán

*Artigo de Augusto O.


‘Diz-se dos santos como figuras exemplares no seguimento de Cristo. Embora a santidade seja atributo divino, Deus, conforme texto do Levítico (20,7), chama o ser humano a ser santo como ele o é. Portanto, é um projeto humanamente possível, ao qual diversas escolas espirituais vão se propor a delinear o caminho.

Nesse sentido, é emblemática a mística, isto é, ‘caminho de união espiritual’ proposta por João da Cruz.  Esse frei espanhol que viveu no século 16 a trata desde a perspectiva do enamoramento e do que chama ‘matrimônio espiritual’. De fato, só compreendemos o significado amplo da sexualidade séculos depois, a partir de Freud, mas esse santo já compreendia, desde a (i)lógica da espiritualidade, que a união com Deus se dá desde essa potência humana. A santidade, figurada pelas núpcias, consiste numa interpenetração divino-humana.

Aqui se fala de lógica e ilógica porque a espiritualidade tem e traz sentido, mas este não é acessível por uma razão instrumental, como o quiseram operar diversos intelectuais. Deus é melhor compreendido pelos místicos e pelos poetas. João da Cruz foi os dois. Assim, não se compreende seus escritos se não pela experiência da oração, porque se trata mais de um saborear do que de uma compreensão intelectual que não implica a vida e os afetos.

Em um de seus escritos, Ditos de luz e amor, João é categórico em algo que pode expressar bem o ponto de partida de toda sua espiritualidade. Ele diz : ‘O que Deus pretende é fazer-nos deuses por participação, sendo-o Ele por natureza, como o fogo que tudo converte em fogo’. O santo entende que o chamado divino é o da participação humana na natureza divina, um processo de deificação, embora este, como criatura, jamais será como aquele. Deus é. O humano é em Deus. Por hora, enquanto não se dá a união total e definitiva, cada um vai sendo, está em devir, como se diz filosoficamente.

O desafio desse caminho é deixar-se inflamar por Deus, consumir-se nas divinas chamas do seu amor. Aliás, Jesus nos evangelhos relê o Levítico ao dizer ‘sede perfeitos como o Pai do céu é perfeito’ (Mateus 5,48) e ‘sede misericordiosos como o Pai do céu é misericordioso’ (Lucas 6,36). Perfeito vem de perfacere, já feito, pronto, concluído. O humano, imagem e semelhança de Deus, ainda está em processo. Vivemos ainda no sexto dia da criação, Deus ainda não descansou. Só no sétimo alcançaremos o ser (em Deus).

Entretanto, a perfeição não consiste num cumprimento de regras, ela se realiza no amor, que é a natureza divina. A vivência da misericórdia, do amor, consiste na perfeição evangélica, onde quem se deixa consumir por Deus também inflama o mundo. Desse modo, a mística de João da Cruz será exigente, não porque proponha a vivência das virtudes teologais depois de uma renúncia ao mal, como possa parecer a quem o lê, mas porque ela entende que o amor de Deus deve ser o absoluto da pessoa.

Compreendendo a limitação do criado, a espiritualidade do santo carmelitano coloca em Deus a iniciativa de unir-se ao humano, que o atrai. Ele purificará o amor da pessoa através de um caminho, simbolizado na subida de um monte, como no livro Subida ao monte Carmelo. Contudo, esse trajeto é paradoxal. Para subir, é preciso descer ao próprio íntimo; para encontrar a luz, há de se passar pela escuridão. A noite escura de João da Cruz é a pedagogia de Deus que purifica os sentidos humanos para um amor gratuito, onde a pessoa vai o encontrando sem sentir, transcendendo até mesmo o saber. Como escreve o santo, ‘Entrei-me a onde não soube e quedei-me não sabendo, toda ciência transcendendo’.

A pessoa em noite escura, cuja descrição parece com a de uma depressão ou angústia profunda, não sente gosto por nada, nem pelas coisas de Deus. Isso porque elas são meios, e Deus mesmo é o fim; um fim que está no começo e no meio. Ou seja, na escuridão, quem o busca só sente sua ausência, apesar de estar permeado por ele.

Essa busca só termina quando o divino não é buscado, quando cessa toda atividade e a pessoa se deixa encontrar por ele. A mística de João da Cruz é o caminho de entrega, de deixar as próprias resistências e abandonar-se no amor. Por isso o santo usa as imagens da amada (alma) e do amado (Deus), porque a figura do masculino belicista dos ideais de cavalaria do seu tempo não lhe servem.

As imagens do feminino com sua paradoxal fragilidade e fortaleza são a melhor descrição duma espiritualidade que não parte de um ascetismo voluntário ou do zelo religioso que persegue hereges. Antes, consiste na implicação de contrários de quem perdido se encontra; na fraqueza, fortalece-se.  ‘Esquecida, quedei-me, o rosto reclinado sobre o Amado; tudo cessou. Deixei-me, largando meu cuidado, por entre as açucenas olvidado’, termina a noite escura.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1474245/2020/10/o-caminho-do-amor-e-o-da-noite-escura/


domingo, 14 de dezembro de 2014

São João da Cruz, Presbítero e Doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


‘A vida de São João da Cruz  foi marcada pela pobreza. ‘Pobreza que primeiro o abraçou e que depois fora por ele abraçado como valor no qual achou um grande tesouro’.

Quando seu pai morreu, São João da Cruz tinha apenas dois anos. Com nove anos foi acolhido numa espécie de orfanato para meninos pobres e ali recebe os primeiros estudos e os meios para sobreviver. Precisou trabalhar desde cedo para ajudar no sustento da família. Teve, portanto, uma infância pobre e difícil, marcado por privações de todo o tipo.

Esta realidade dura da vida poderia ter-lhe enchido de revolta e o levado a sucumbir à ganância de ter o que lhe faltou. Mas ao contrário, para São João da Cruz a pobreza que ele viveu foi à chave para as suas grandes experiências no caminho de Deus. É por ela que conseguimos compreender a noite, a negação, o nada. Ele experimentou concretamente a ausência de tudo o que o coração humano deseja (bens, afetos, consolações) e nesta ausência encontrou Deus, o Tudo, diante do qual todas as coisas são nada.

A experiência da pobreza, por ele vivida à flor da pele, molda profundamente o seu espírito.

Fez-se carmelita logo jovem. Mas descontente com a vivência autêntica do evangelho do Carmelo estava decidido ir para a ordem Cartuxa, que possui uma vivência particularmente radical da vida consagrada. Foi quando conhece Santa Tereza de Jesus, que lhe garante poder viver essa radicalidade almejada no Carmelo mesmo. Para tanto, fala de seus anseios reformadores já em exercícios e o convida a ajudá-la a iniciar a reforma no ramo masculino. Seus anseios e suas buscas coincidiam, havia uma comunhão de desejo e ideal entre eles, dois grandes corações que se identificam, de modo que empreendem juntos a reforma do Carmelo.

Houve um momento onde a reforma carmelita começa a ser perseguida para desacelerar o processo. Os Padres calçados tomam medidas para impedir a expansão e até mesmo conseguir a eliminação dos calçados. Em meio a esses conflitos frei João da Cruz foi o que mais sofreu as consequências sendo preso duas vezes : uma no início de 1576 e outra em dezembro e 1577. Esse último foi o tempo mais doloroso, mais também o mais rico da vida de João da Cruz.

Foi nos nove meses de prisão – num rincão sujo, sem luz nem diálogo, respirando o mesmo ar e vestindo a mesma roupa – que tem a maior experiência do nada que o acompanhou a vida toda e ele nunca hesitou em abraçar. Transformou o momento doloroso de privações de toda espécie num profunda experiência religiosa e psicológica. Em meio a escuridão, o isolamento, o abandono por parte de seus irmãos, a privação da Eucaristia, os maus tratos, ele confirma suas convicções evangélicas para saborear Deus na sua total pureza sem misturá-lo com os consolos terrenos. Privado de tudo, de toda espécie de consolo material, humano ou espiritual ele se une a Deus num amor verdadeiramente puro.

Depois da prisão ele reassume seus cargos no Carmelo até o momento em que, num capítulo da ordem ele teve que se opor aos caminhos que queriam tomar contrários às inspirações de Tereza, já falecida. Em função disso tiram tudo dele e até querem expulsá-lo da ordem; ele é posto de lado, maltratado, desprezado, abandonado, caluniado e passa por mais uma terrível noite. Mas com o seu coração abrandado e unido a Deus, não se deixa abater. No fim de sua vida, já doente, onde poderia escolher um tratamento melhor, prefere ir para um mosteiro cujo o superior o olhava com maus olhos. Oprimido pelas dores físicas e morais era consolado pela sua união de amor com Deus, falecendo em 1591.

São João da Cruz é místico, filósofo, teólogo e escritor – poeta – e doutor da Igreja. São João da Cruz define o amor como trabalhar em despojar-se e desnudar-se por Deus de tudo que não é Deus (2º livro da Subida, 5,7), colocando em relevo a necessidade de purificação do amor, partindo da realidade desordenada em que o amor se encontra e revelando aquilo que toca o homem no seu ordenamento.’


Fontes :
* Artigo na íntegra de http://pantokrator.org.br/po/artigos-pantokrator/historia-de-sao-joao-da-cruz/


sábado, 14 de dezembro de 2013

São João da Cruz, Presbítero e Doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Bento XVI, Papa Emérito
                                                                                                                                                        
            Reformador da ordem carmelita, com Santa Teresa, São João da Cruz foi proclamado doutor da Igreja pelo Papa Pio XI em 1926, e chamado na tradição Doctor mysticus, Doutor místico.

            João da Cruz nasceu em 1542 no povoado de Fontiveros, perto de Ávila, na Velha Castela, filho de Gonzalo de Yepes e de Catalina Alvarez. A família era extremamente pobre porque o pai, de nobre origem de Toledo, tinha sido explulso de casa e deserdado por ter casado com Catalina, uma humilde tecelã de seda. Órfão de pai em tenra idade, com nove anos transferiu-se com a mãe e o irmão Francisco para Medina del Campo, perto de Valladolid, centro comercial e cultural. Ali frequentou o Colegio de los Doctrinos, desempenhando também alguns trabalhos humildes para as irmãs da Igreja – Convento da Madalena. Em seguida, considerando as suas qualidades humanas e os seus resultados nos estudos, foi admitido primeiro como enfermeiro no Hospital da Conceição, depois no Colégio dos Jesuítas, recém-fundado em Medina del Campo : ali João entrou com dezoito anos e estudou ciências humanas, retórica e línguas clássicas durante três anos. No final da formação, ele viu claramente qual era a sua vocação : a vida religiosa e, entre as muitas ordens presentes em Medina, sentiu-se chamado ao Carmelo.
 
            No verão de 1563 começou o noviciado com os Carmelitas da cidade, assumindo o nome religioso de João de São Matias. No ano seguinte foi destinado à prestigiosa Universidade de Salamanca, onde por três anos estudou artes e filosofia. Em 1567 foi ordenado sacerdote e voltou a Medina del Campo para celebrar a sua primeira Missa circundado pelo carinho dos familiares. Precisamente ali teve lugar o primeiro encontro entre João e Teresa de Jesus. O encontro foi decisivo para ambos : Teresa expôs-lhes o seu plano de reforma do Carmelo também no ramo masculino da ordem e propôs a João que se adaptasse ‘para maior glória de Deus’; o jovem sacerdote ficou fascinado pelas idéias de Teresa, a ponto de se tornar um grande defensor do projeto. Os dois trabalharam juntos alguns meses, compartilhando idéias e propostas para inaugurar quanto antes possível a primeira casa de Carmelitas Descalços : a abertura ocorreu a 28 de dezembro de 1568 em Duruelo, lugar solitário da província de Ávila. Com João formavam esta primeira comunidade masculina reformada outros três companheiros. Ao renovar a sua profissão religiosa segunda a Regra primitiva, os quatro assumiram um novo nome : João denominou-se ‘da Cruz’, como depois será conhecido universalmente. No final de 1572, a pedido de Santa Teresa, tornou-se confessor e vigário do Mosteiro da Encarnação em Ávila, onde a santa era prioresa. Foram anos de estreita colaboração e amizade espiritual, que a ambos enriqueceram. A esse período remontam inclusive as mais importantes obras teresianas e os primeiros escritos de João.
 
            A adesão à reforma carmelita não foi fácil e causou a João também graves sofrimentos. O episódio mais traumático foi, em 1577, o seu rapto e aprisionamento no Convento dos Carmelitas de Antiga Observância de Toledo, devido a uma acusação injusta. O santo permaneceu preso durante meses, submetido a privações e constrições físicas e morais. Ali compôs, além de outras poesias, o célebre Cântico espiritual. Finalmente, na noite entre 16 e 17 de agosto de 1578, conseguiu fugir de modo aventuroso, refugiando-se no Mosteiro das Carmelitas Descalças da cidade. Santa Teresa e os companheiros reformados celebraram com imensa alegria a sua libertação e, após um breve período de recuperação das forças, João foi destinado para a Andaluzia, onde transcorreu dez anos em vários conventos, especialmente em Granada. Assumiu cargos cada vez mais importantes na ordem, até se tornar vigário provincial, e completou a redação dos seus tratados espirituais. Depois, voltou para a sua terra natal, como membro do governo geral da família religiosa teresiana, que já gozava de plena autonomia jurídica. Habitou no Carmelo de Segóvia, desempenhando a função de superior daquela comunidade. Em 1591 foi eximido de qualquer responsabilidade e destinado à nova província religiosa do México. Enquanto se preparava para a longa viagem com outros dez companheiros, retirou-se num convento solitário perto de Jaén, onde adoeceu gravemente. João enfrentou com serenidade e paciência exemplares enormes sofrimentos. Faleceu na noite entre 13 para 14 de dezembro de 1591, enquanto os irmão de hábito recitavam o Ofício matutino. Despediu-se deles, dizendo : ‘Hoje vou cantar o Ofício no Ceu’. Os seus restos mortais foram transladados para Segóvia. Foi beatificado por Clemente X em 1675 e canonizado por Bento XIII em 1726.
 
            João é considerado um dos mais importantes poetas líricos da literatura espanhola. As obras principais são quatro : Subida ao Monte Carmelo, Noite escura, Cântico espiritual e Chama de amor viva.
 
            No Cântico espiritual, São João apresenta o caminho de purificação da alma, ou seja, a posse progressiva e jubilosa de Deus, até que a alma chegue a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é por Ele amada. A Chama de amor viva continua nesta perspectiva, descrevendo mais pormenorizadamente o estado de união transformadora com Deus. A comparação utilizada por João é sempre a do fogo : assim como o fogo, quanto mais arde e consome a madeira, tanto mais se torna incandescente até se tornar chama, também o Espírito Santo, que durante a noite escura purifica e ‘limpa’ a alma, com o tempo ilumina-a e aquece-a como se fosse uma chama. A vida da alma é uma festa contínua do Espírito Santo, que deixa entrever a glória da união com Deus na eternidade.
 
            A Subida ao Monte Carmelo apresenta o itinenário espiritual sob o ponto de vista da purificação progressiva da alma, necessária para escalar a montanha da perfeição cristã, simbolizada pelo cimo do monte Carmelo. Tal purificação é proposta como um caminho que o homem empreende colaborando com a obra divina, para libertar a alma de todo o apego ou afeto contrário à vontade de Deus. A purificação, que para alcançar a união com Deus deve ser total, começa a parir da vida dos sentidos e continua com a que se alcanca por meio das três virtudes teologais : fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade. A Noite escura descreve o aspecto ‘passivo’, ou seja, a intervenção de Deus neste processo de ‘purificação’ da alma. Com efeito, o esforço humano sozinho é incapaz de chegar às profundas raízes das más inclinações e hábitos da pessoa : só os pode impedir, mas não os consegue erradicar completamente. Para o fazer, é necessária a ação especial de Deus, que purifica radicalmente o espírito e o dispõe para a união de amor com Ele. São João define ‘passiva’ tal purificação, precisamente porque, embora seja aceita pela alma, é realizada pela obra misteriosa do Espírito Santo que, como chama de fogo, consome toda a impureza. Neste estado, a alma é submetida a todo o tipo de provações, como se se encontrasse numa noite escura.
 
            Estas indicações sobre as obras principais do santo ajudam-nos a aproximar-nos dos pontos salientes da sua vasta e profunda doutrina mística, cuja finalidade é descrever um caminho seguro para alcançar a santidade, a condição de perfeição à qual Deus chama todos nós. Segundo João da Cruz, tudo o que existe, criado por Deus, é bom. Através das criaturas, nós conseguimos chegar à descoberta daquele que nelas deixou um vestígio de Si. De qualquer modo, a fé é a única fonte confiada ao homem que conhecer Deus como Ele é em si mesmo, como Deus Uno e Trino. Tudo o que Deus queria comunicar ao homem, disse-o em Jesus Cristo, a Sua Palavra que Se fez carne. Jesus Cristo é o único e definitivo caminho para o Pai (cf. Jo 14,6). Qualquer coisa criada nada é em comparação com Deus, e nada vale fora d’Ele : por conseguinte, para alcançar o amor perfeito de Deus, todos os outros amores se devem conformar em Cristo com o amor divino. Daqui deriva a insistência de São João da Cruz sobre a necessidade da purificação e do esvaziamento interior para se transformar em Deus, que é a única meta da perfeição. Esta ‘purificação’ não consiste na simples falta física das coisas ou do seu uso; o que torna a alma pura e livre, ao contrário, é eliminar toda a dependência desordenada das coisas. Tudo deve ser inserido em Deus como centro e fim da vida. Sem dúvida, o longo e cansativo processo de purificação exige o esforço pessoal, mas o verdadeiro protagonista é Deus : tudo o que o homem pode fazer é ‘dispor-se’, estar aberto à obra divina e não lhe por obstáculos. Vivendo as virtudes teologais, o homem eleva-se e valoriza o próprio compromisso. O ritmo de crescimento da fé, da esperança e da caridade caminha a par e passo com a obra de purificação e com a união progressiva com Deus, até se transformar n’Ele. Quando alcança esta meta, a alma imerge-se na própria vida trinitária, e São João afirma que ela consegue amar a Deus com o mesmo amor que Ele a ama, porque a ama no Espírito Santo. Eis por que motivo o doutor místico afirma que não existe verdadeira união de amor com Deus, se não culmina na união trinitária. Neste estado supremo, a alma santa conhece tudo em Deus e já não deve passar através das criaturas para chegar a Ele. A alma já se sente inundada pelo amor divino e alegra-se completamente nele.
 
            Caros irmãos e irmãs, no fim permanece esta pergunta : com a sua mística excelsa, com este árduo caminho rumo ao cimo da perfeição, este santo tem algo a dizer também a nós, ao cristão normal que vive nas circunstâncias desta vida de hoje, ou é um exemplo, um modelo apenas para poucas almas escolhidas que podem realmente empreender este caminho da purificação, da ascese mística? Para encontrar a resposta, em primeiro lugar temos de ter presente que a vida de São João da Cruz não foi um ‘voar sobre as nuvens místicas’, mas uma vida muito árdua, deveras prática e concreta, quer como reformador da ordem, onde encontrou muitas oposições, quer como superior provincial, quer ainda no cárcere dos seus irmãos de hábito, onde esteve exposto a insultos incríveis e a maus-tratos físicos. Foi uma vida dura, mas precisamente nos meses passados na prisão ele escreveu uma das suas obras mais bonitas. E assim podemos compreender que o caminho com Cristo, o andar com Cristo, ‘o Caminho’, não é um peso acrescentado ao fardo já suficientemente grave da nossa vida, não é algo que tornaria ainda mais pesada esta carga, mas é algo totalmente diferente, é uma luz, uma força que nos ajuda a carregar este peso. Se um homem tem em si um grande amor, este amor quase lhe dá asas, e suporta mais facilmente todas as moléstias da vida, porque traz em si esta grande luz; esta é a fé : ser amado por Deus e deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus. Este deixar-se amar é a luz que nos ajuda a carregar o fardo de todos os dias. E a santidade não é uma obra nossa, muito difícil, mas é precisamente esta ‘abertura’ : abrir as janelas da nossa alma, para que a luz de Deus possa entrar, não esquecer Deus, porque é precisamente na abertura à Sua luz que se encontra a força, a alegria dos remidos. Oremos ao Senhor para que nos ajude a encontrar esta santidade, deixando-nos amar por Deus, que é a vocação de todos nós e a verdadeira redenção.
 
(16 de fevereiro de 2011)
 
Fonte :
* Bento XVI, Santos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.