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quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Uma carta de mais de mil anos dá testemunho: os cristãos são a alma do mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da Aleteia


‘Durante muitos e longos séculos, um elegante manuscrito composto em grego permaneceu ignorado no mais abissal dos silêncios. O texto, de origens até hoje misteriosas, só foi encontrado, e por acaso, no longínquo ano de 1436, em Constantinopla, junto com vários outros manuscritos endereçados a um certo ‘Diogneto’.

Se não há certeza sobre o seu autor, sabe-se que o destinatário do escrito era um pagão culto, interessado em saber mais sobre o cristianismo, aquela nova religião que se espalhava com força e vigor pelo Império Romano e que chamava a atenção do mundo pela coragem com que os seus seguidores enfrentavam os suplícios de uma vida de perseguições e pelo amor intenso com que amavam a Deus e uns aos outros.

O documento que passou para a posteridade como ‘a Carta a Diogneto’ descreve quem eram e como viviam os cristãos dos primeiros séculos. Trata-se, para grande parte dos estudiosos, da ‘joia mais preciosa da literatura cristã primitiva’.

Confira a seguir os seus parágrafos V e VI, que compõem o trecho mais célebre deste tesouro da história cristã :

‘Os cristãos não se distinguem dos outros homens nem por sua terra, nem por sua língua, nem por seus costumes. Eles não moram em cidades separadas, nem falam línguas estranhas, nem têm qualquer modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, nem se deve ao talento e à especulação de homens curiosos; eles não professam, como outros, nenhum ensinamento humano. Pelo contrário : mesmo vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes de cada lugar quanto à roupa, ao alimento e a todo o resto, eles testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal.

Vivem na sua pátria, mas como se fossem forasteiros; participam de tudo como cristãos, e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é sua pátria, e cada pátria é para eles estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Compartilham a mesa, mas não o leito; vivem na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas, com a sua vida, superam todas as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, ainda assim, condenados; são assassinados, e, deste modo, recebem a vida; são pobres, mas enriquecem a muitos; carecem de tudo, mas têm abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, recebem a glória; são amaldiçoados, mas, depois, proclamados justos; são injuriados e, no entanto, bendizem; são maltratados e, apesar disso, prestam tributo; fazem o bem e são punidos como malfeitores; são condenados, mas se alegram como se recebessem a vida. Os judeus os combatem como estrangeiros; os gregos os perseguem; e quem os odeia não sabe dizer o motivo desse ódio.

Assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo; os cristãos, por todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não pertencem ao mundo. A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são visíveis no mundo, mas a sua religião é invisível. A carne odeia e combate a alma, mesmo não tendo recebido dela nenhuma ofensa, porque a alma a impede de gozar dos prazeres mundanos; embora não tenha recebido injustiça por parte dos cristãos, o mundo os odeia, porque eles se opõem aos seus prazeres desordenados. A alma ama a carne e os membros que a odeiam; os cristãos também amam aqueles que os odeiam. A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; os cristãos estão no mundo, como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita em uma tenda mortal; os cristãos também habitam, como estrangeiros, em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada no comer e no beber, a alma se aprimora; também os cristãos, maltratados, se multiplicam mais a cada dia. Esta é a posição que Deus lhes determinou; e a eles não é lícito rejeitá-la’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2014/11/21/uma-carta-de-mais-de-mil-anos-da-testemunho-os-cristaos-sao-a-alma-do-mundo/

sexta-feira, 2 de março de 2018

Dom Orani João Tempesta comenta a Carta 'Placuit Deo'


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Brasão Vaticano
*Artigo do Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


‘Uma breve carta dirigida aos bispos, aprovada pelo Papa Francisco aos 16 de fevereiro de 2018, oriunda da Sessão Plenária da Congregação da Doutrina da Fé no dia 24 de janeiro de 2018, e, assinada na Sede da Congregação aos 22 de fevereiro de 2018, publicada nesta quinta-feira, dia 1º de março de 2018, contendo sete laudas que subdividida em seis tópicos, com 15 parágrafos numéricos, incluindo a Introdução; O impacto das transformações culturais de hoje sobre o significado da salvação cristã; O desejo humano de salvação; Cristo, Salvador e Salvação; a salvação na Igreja, corpo de Cristo e concluindo com o Comunicar a fé, esperando o Salvador. 
A Carta retoma o início da Dei Verbum ratificando o caminho da salvação em Cristo que deve ser sempre aprofundado e que na realidade hodierna torna-se de difícil compreensão diante das transformações culturais.
No segundo tópico, com três parágrafos, a realidade se apresenta por meio do «individualismo centrado no sujeito autônomo», cuja a figura de Cristo corresponde a um modelo para prática da generosidade em gestos e palavras, mas não da transformação da condição humana, configurada na Trindade. Também apresenta uma salvação apenas interior e não de relações com os demais e com o mundo criado. Assim a Encarnação do Verbo se torna algo cada vez menos compreensível, distanciando-se da família humana e da história.
No Magistério Ordinário do Papa Francisco menciona duas tendências ou desvios, semelhando-se, em linhas gerais comuns, a heresias antigas : pelagianismo e gnosticismo . Espelhando um neo-pelagianismo o homem atual, autônomo, salva-se sozinho, independente de Deus e dos demais, tudo depende de suas forças individuais e cegando «novidade do Espírito de Deus». Já o neo-gnosticismo oferece uma salvação subjetiva, «com o intelecto para além da carne de Jesus rumo aos mistérios da divindade desconhecida». 
Libertando, pois, a pessoa do corpo e do mundo material. Esses erros antigos têm algo de familiar com os atuais movimentos, apesar das diferenças do contexto histórico. As duas tendências — o individualismo neo-pelagiano e o desprezo neo-gnóstico do corpo — desconfiguram a fé em Cristo. A salvação é a nossa união com Cristo Encarnado, Irmão Maior, que viveu, sofreu, morreu e ressuscitou, proporcionando nova ordem relacional com o Pai e entre os homens e mulheres, levando-nos ao dom de seu Espírito.
O homem, na ânsia de saber quem é, pois existe, busca a felicidade utilizando-se de meios diversos para alcança-la. No entanto, a felicidade se mescla com a esperança da saúde física, com o bem-estar financeiro, de uma paz interior e convivência pacífica com o outro. A par disso, o desejo de salvação torna-se um compromisso frente um bem maior, marcado pela resistência e superação da dor, levando-nos a lutar pelo bem, defendendo-nos do mal.
«A vocação última de todos os homens é realmente uma só, a divina».  A plenitude da Salvação é o rejeitar a autossuficiência humana, pensando que coisas e bens materiais lhe proporcionaram a autorrealização. A revelação é algo mais, pois «Se a redenção, ao contrário, devesse ser julgada ou medida pela necessidade existencial dos seres humanos, como poderíamos evitar a suspeita de termos simplesmente criado um Deus-Redentor à imagem de nossas próprias necessidades?». 
O mundo todo é bom, biblicamente falando! O mal nasce no coração do homem que se fecha em si mesmo, separando-se da fonte de comunhão e vida que é Deus. A fé nos leva a uma salvação do homem todo, da pessoa humana inteira que é chamada a ter vida e vida plena.
Deus nunca desiste do homem e na história da salvação vemos desde Adão esta fidelidade e o insistir terno de uma aliança que nós rompemos constantemente. O homem cai, Deus vem e o ajuda a levantar uma, duas, três e quantas vezes, for necessário. Deus não desistindo de nós, na plenitude dos tempos, nos envia Jesus que anuncia o Reino e ao acolhê-l’O, acolhemos a Salvação.
Tradicionalmente a Salvação sempre se dá por iniciativa e dom de Deus, ou seja, de forma descendente. Com Jesus, dar-se-á numa dinâmica inversa, de forma ascendente. O agir não será de uma maneira individualista, mas sempre em comunhão, uma vez que agir humano e agir divino se coadunam para um único fim : a salvação. Assemelhando-nos a Cristo, impulsionados pelo Espírito Santo, realizamos as obras do Criador.
Em Jesus Encarnado, O Filho nos faz filhos e irmãos uns dos outros, tornando-nos uma só família humana numa nova relação com Deus. Porquanto, Jesus Encarnado possibilita a mediação concreta da salvação de Deus com os filhos de Adão.
Enfim, nem reducionismo individualista da tendência pelagiana e nem reducionismo neo-gnóstico que promete uma libertação interior, respondem a salvação, uma vez que Jesus é Salvador e Salvação, e «em certo modo, o princípio de toda graça segundo a humanidade». 
Igreja é o local da salvação trazida por Jesus. A Igreja é mediadora da salvação, «sacramento universal de salvação», garantindo que a realização se dá na comunhão de pessoas em comunhão com a Trindade. Através do Batismo entramos na vereda da Salvação. Podendo crescer sempre mais com a Eucaristia, fonte e cume do amor. E mesmo caindo podemos ser regenerados e reconciliados com o Pai e os irmãos, por meio do sacramento da Penitência.
Esta economia soteriológica dos sacramentos compreende o corpo humano, que longe de ser peso, torna-se linguagem sacramental. Na encanação de Jesus e no mistério pascal perpetua-se a obra de misericórdia do Pai para com os filhos, compadecendo dos sofrimentos destes.
«A salvação integral, da alma e do corpo, é o destino final ao qual Deus chama todos os homens». Conscientes da vida plena somos impulsionados e nos comprometemos a proclamar a todos com alegria e luz a Boa-Nova : o Evangelho! Para tanto é mister uma relação dialógica, construtiva com as demais religiões, pois Deus opera em todos, de boa vontade, mesmo que veladamente. O último inimigo a ser vencido é a morte. Com as virtudes teologais – fé, esperança e caridade – e o exemplo de Maria e das Testemunhas cremos que somos cidadãos dos céus e gozaremos da glória eterna.
Vamos aprofundar o texto, deixar que ele ilumine a nossa realidade de hoje e consequentemente colocar em prática esta importante carta da Congregação para a Doutrina da Fé e que, mesmo diante das mudanças sociais, a salvação seja sempre anunciada e oferecida para que muitas pessoas continuem enamoradas pelo Divino Redentor.’


Fonte :