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quinta-feira, 9 de março de 2023

Dom Walmor: A terceira vez

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil


‘É a terceira vez que a Igreja Católica no Brasil, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), promove a Campanha da Fraternidade dedicando-se, de modo pertinente e profético, ao tema da fome : ‘Fraternidade e Fome’. A primeira vez foi em 1975, a segunda, em 1985. Essa recorrência na promoção missionária e evangelizadora da Campanha da Fraternidade, a partir do tema da fome, guarda elementos interpelantes à cidadania civil e à cidadania do Reino, aos discípulos e discípulas do Mestre Jesus. O Brasil voltou ao mapa da fome, apesar de ser reconhecidamente um ‘celeiro’ do mundo. Muitos brasileiros sofrem por não ter o que comer - há um Brasil que sente fome. Trata-se de problema político e social, como também uma interpelação aos que creem em Cristo, o Salvador e Redentor : ‘Dai-lhe vós mesmos de comer’, disse Jesus aos seus discípulos, diante do sofrimento de uma multidão que estava faminta.

A Campanha da Fraternidade, pela terceira vez, enfrenta o flagelo da fome. Há 48 anos, quando a Igreja no Brasil convocou uma Campanha da Fraternidade sobre a fome pela primeira vez, uma multidão dos adultos de hoje, em cargos importantes na sociedade, eram crianças, ou nem tinham nascido. Tristemente, quase meio século depois, o flagelo da fome de muitos brasileiros não foi superado. Comprova-se que não bastam as indispensáveis estratégias lógicas da tecnologia e da ciência. É preciso ir além, buscando a iluminação que vem da fé, com sua lógica essencial à qualificação da humanidade. A fé é capaz de alicerçar um horizonte inspirador na sociedade brasileira. A fome é um dos mais graves flagelos que ameaçam o ser humano, humilhando a todos. Exige o alcance de soluções com rapidez, pois leva a mortes, a sequelas que serão carregadas pelo resto da vida, considerando especialmente a fragilidade das crianças, dos enfermos e dos idosos. Por isso mesmo, o Papa Francisco afirma, profeticamente, na sua mensagem dedicada à Campanha da Fraternidade 2023, que a fome é um crime - o alimento é um direito.

A Igreja Católica, servidora da humanidade, na promoção e defesa da vida, de modo obediente ao seu único Senhor e Pastor, Jesus Cristo, convoca fiéis, homens e mulheres de boa vontade, a enfrentarem a fome : ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’. No caminho percorrido e celebrado durante a Quaresma, a liturgia da Igreja ecoa o compromisso de conversão dos cidadãos do Reino de Deus. Essa conversão é testemunhada quando se busca efetivar uma nova organização social e política capaz de superar, urgentemente, o sofrimento de quem não tem o que comer. A fome de Deus, a ser permanentemente saciada pela proclamação e escuta da Palavra de Deus, deve fecundar o exercício cidadão de se buscar vencer a carência alimentar de muitas famílias. Assim, os cidadãos devem trabalhar na superação da fome, exigindo também do poder público um tratamento adequado para combatê-la.

A busca pela conversão não dispensa o compromisso com ações efetivas para promover o direito de todos à alimentação. Afrontar o problema da fome encontrando soluções urgentes é vivência fecunda deste tempo da Quaresma, em preparação para frutuosamente celebrar a Páscoa. Assim, não se deve apenas esperar soluções de instâncias governamentais. A sociedade, de um modo geral, deve investir em novo estilo de vida, mais solidário com o próximo e com a casa comum, na perspectiva da ecologia integral. Essa perspectiva da corresponsabilidade leva a reconhecer que a fome não é problema somente de quem padece por não ter o que comer. Todos, compreendendo os ensinamentos de Jesus, devem buscar soluções criativas, evidentemente reconhecendo as responsabilidades de governantes e líderes da sociedade.

A gravidade do problema da fome, reiteradamente apontada pela Campanha da Fraternidade, é mal que precisa ser erradicado ‘pela raiz’. Isto significa investir sempre, e cada vez mais, na solidariedade, partilhando as dores do próximo, que é irmão e irmã. A Doutrina Social da Igreja Católica ensina, sublinhando ser questão de honra e fidelidade ao Evangelho de Jesus, sobre o sentido da destinação universal dos bens da Criação : deve favorecer a todos, ser garantido como direito. Essa lição da Doutrina Social da Igreja Católica permite contestar modelos econômicos excludentes e perversos, que precisam ser urgentemente substituídos, sob pena de um colapso geral - já há sinais muito evidentes de diferentes colapsos na vida da humanidade.

Neste momento, o apelo é à compreensão do desafiador flagelo da fome. Por se saber que tem gente passando fome no Brasil, ‘cai por terra’ qualquer crítica aos propósitos da Campanha da Fraternidade 2023. Eventuais críticas à Campanha apenas escancaram o rosto dos indiferentes, distanciados da autenticidade da fé. São atitudes que apenas indicam a importância daqueles que, efetivamente, se dedicam à construção de um novo tempo, enquanto estão na peregrinação para o Reino definitivo. Importante lembrar : entrarão no Reino definitivo os que obedecem ao Senhor da vida, escutando, compassivamente, a sua interpelação : ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’. Seja, pois, acolhida, pela terceira vez, a convocação da Campanha da Fraternidade, reconhecendo a presença de Jesus em cada pessoa que sofre com a fome, na atenta escuta de Sua Palavra – ‘Tive fome e me destes de comer’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domhelder.edu.br/noticias/pagina/religiao

quarta-feira, 1 de março de 2023

Apelos da Quaresma

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil 


‘A Liturgia da Igreja Católica oferece à humanidade, como interpelação e convocação, a vivência da Quaresma, com o grande apelo nascido do coração de Jesus : ‘Convertei-vos e crede no Evangelho’. As comunidades de fé, em rede, ainda mais intensamente, se tornam escolas de espiritualidade comprometidas com a vida, dom sagrado e inviolável. São quarenta dias para investir, qualificadamente, no despertar da consciência de cidadãos e de cristãos, à luz do Evangelho de Jesus Cristo. No ciclo do Ano Litúrgico, a Quaresma possibilita a experiência de reformar o tecido do próprio coração, revestindo-o do mais alto e nobre sentido da misericórdia de Deus. Leva à melhor compreensão sobre o mistério da paixão e morte do Senhor Jesus no horizonte pascal, pela certeza da vitória da vida sobre a morte, do amor sobre todo ódio. O apelo do Mestre pela conversão de todos deve ecoar na interioridade de cada pessoa, para que a humanidade seja capaz de alcançar novas respostas, essenciais à superação de sentimentos que estão na contramão da fraternidade universal e da solidariedade.

A fraternidade universal e a solidariedade são urgentes para fecundar direitos humanos e resgatar a civilização contemporânea de lógicas perversas, a exemplo daquela imposta pelo mercado - frio e calculista - e superar sentimentos que manipulam perigosamente o coração, como preconceitos e a busca por vingança. Não há discipulado sem conversão diária, profunda, pela aprendizagem de dinâmicas ensinadas e celebradas durante o tempo quaresmal. O apelo de Jesus, ‘Convertei-vos e crede no Evangelho’, exige, de cada um, o gesto humilde de aceitar os limites humanos. Trata-se de passo essencial no caminho rumo à purificação, para vencer sentimentos que alimentam disputas, vinganças e indiferenças. A vivência da Quaresma contribui para combater perspectivas que estreitam o ser humano na mesquinhez, inviabilizando a prevalência do respeito nas relações.

A Quaresma aponta o caminho de uma humanização espiritual e afetiva. A sua vivência contribui para a superação de muitas situações tristes, a exemplo daquelas em que pessoas capazes de promover importantes iniciativas pela sua inteligência, competência na gestão de processos, com significativa participação na história de instituições, se apequenam quando são contaminadas por sentimentos de apego, mesquinhez ou ingratidão. Oportuno e sábio é acolher o horizonte indicado por Jesus - buscar a conversão e a vivência do Evangelho. Trata-se de uma pérola preciosa encontrada no Sermão da Montanha, carta magna do cristianismo, narrada pelo evangelista Mateus.

Do quinto ao sétimo capítulo do Sermão da Montanha, dentre outros aspectos, merecem atenção as referências à prática do jejum, da esmola e da oração, com propriedades para requalificar a condição humana que facilmente se distancia de valores e princípios essenciais a uma vida mais equilibrada. O jejum remete o discípulo a uma conduta contrária ao tratamento soberbo e arbitrário dos bens da criação, despertando o compromisso social e político para efetivar uma organização da sociedade onde se respeite e se promova o bem como direito inalienável de todos. A esmola diz respeito ao sentido da solidariedade como expressão da nobreza no coração humano, deixando-se incomodar, em todos os sentidos, pela condição miserável e excludente de muitos irmãos e irmãs. A oração é a experiência única e insubstituível para alcançar o coração de Deus, estabelecendo um diálogo com o Pai, educando-se para enxergar o mundo e o próximo a partir da perspectiva do Criador.

Acolher a interpelação da Campanha da Fraternidade contribui para bem viver o tempo da Quaresma. Em 2023, a Campanha da Fraternidade adverte para a grave situação daqueles que estão no mapa da fome e da insegurança alimentar, sublinhando um apelo de Jesus Mestre : ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’. A palavra do Mestre interpela seus discípulos a vivenciarem uma nova lógica : a solidariedade. Sem solidariedade, persistirá o problema da fome, não solucionado pela hegemonia de outras lógicas e interesses que estão na contramão de uma adequada cidadania e da genuína vivência do Evangelho. Neste tempo da Quaresma, sejam acolhidos os apelos do Salvador e Redentor. Promova-se a lógica da solidariedade cuja raiz está na grandeza da misericórdia de Deus, o Pai de todos, constituída pelo princípio intocável de que todos são irmãos e irmãs. O convite a todos é para que se engajem na vivência do tempo quaresmal, fecundados pelo silêncio da escuta do Evangelho e dos clamores dos pobres. Todos se atentem para os apelos da Quaresma, nascidos no coração misericordioso de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domhelder.edu.br/noticias/pagina/religiao