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domingo, 21 de agosto de 2022

Quatro possíveis faces da Teologia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

As teologias, como toda e qualquer ciência humana, têm várias faces. Ao longo da história diversas delas já foram mostradas. No Ocidente, então, fortemente influenciado pela cultura greco-romana e pela teologia de matriz judaico-cristã, fica, talvez, mais fácil de percebê-las.

A primeira seria a face do moralismo, tão difundido em meios fundamentalistas, sejam católicos, sejam protestantes. Essa face, por sua vez, dado o seu aspecto carrancudo, é aquela que constantemente é responsável por fazer com que as pessoas, principalmente as mais jovens, afastem-se das igrejas, por não verem sentido em uma lista de regras impostas sem o menor pudor, como algo vindo do céu e escrito em pedras a ser observado para todo sempre. Da mesma forma, essa face é aquela que é vista como a condenadora dos que estão do ‘lado de fora’, ‘longe dos caminhos do Senhor’, por simplesmente não estarem dispostas a seguir o que é dito pela instituição.

Outra face muito conhecida da teologia cristã é a que traz um ar de superioridade e desdenho com relação ao que lhe é diferente. Essa teologia, que se considera melhor, maior e mais perfeita do que as outras religiões e outras formas de pensar, também se revela constantemente no dia a dia das pessoas. Essa, por apresentar um rosto mais amigável, atrai para si diversas pessoas que, não raras as vezes, querem se sentir merecedoras, exclusivas e certas de que estão no caminho que deveriam estar.

Contudo, um olhar atento mostra que essa face da teologia é tão excludente quanto a primeira da qual falamos, só que ao invés de gritar como um senhor carrancudo contra as crianças que brincam à sua porta, essa fica na espera de que a bola com a qual brincam atinja seu quintal para, então, esvaziá-la e acabar com toda a alegria e diversidade que tanto lhe incomoda.

Por fim, podemos perceber a face da indiferença. Aquela que se mostra quando diversas instituições, preocupadas somente com o céu e um mundo porvir, mostram-se como indiferentes frente a tudo o que acontece na sociedade. É a face que afirma : ‘nós não somos deste mundo e, portanto, não devemos nos incomodar com ele’, fruto de uma teologia desencarnada, que não aprendeu nada com o exemplo de Jesus de Nazaré. Em busca de um lugar no céu, esquece-se de que é no chão do mundo que o Reino de Deus vai tomando forma. Em outras palavras, tal face da teologia abandona justamente aquilo que lhe dá fundamento.

Essas três faces da teologia, infelizmente, talvez sejam as mais percebidas em nossa sociedade contemporânea.

Uma outra face, porém, precisa aparecer mais e sobressair a essas outras. Essa face é a do cuidado. Cuidado que, por definição, pressupõe a empatia, pressupõe o ouvir atento, a disposição de caminhar junto, o amor recíproco, a renúncia ao poder.

Toda vez que tal face não se mostra, o que se percebe é uma teologia cristã que se afasta dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, causando mais mal do que bem àqueles e àquelas que convivem com esse tipo de igreja.

Resgatar a face do cuidado com o outro e com a natureza é tarefa fundamental para uma teologia que deseja ser uma voz digna de ser ouvida no mundo contemporâneo. Sem isso, seremos como loucos que se imaginam falando para multidões e sendo ovacionados, quando na realidade estamos somente em mais um delírio em nosso quarto pequeno e afastado de tudo.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1586196

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Não é cristã a pretensa superioridade do cristianismo


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Fabrício Veliq,
teólogo protestante


‘Dialogar nunca foi algo fácil de fazer. Qualquer pessoa que tenha que conviver com outra, em algum momento, enfrentará o desafio de comunicar a si mesma e, ao mesmo tempo, ouvir a comunicação que venha da outra pessoa com quem se convive.

Um dos pontos mais comuns, e talvez menos perceptível numa suposta tentativa de diálogo, é a questão da superioridade. E, logicamente, a palavra suposta aqui tem um papel importante. Isso porque todo diálogo pressupõe a igualdade de dignidade entre as pessoas que vão para esse diálogo. Se um dialogante se considera superior ao outro, dificilmente dali se espera que saia um diálogo nos moldes tradicionais. No lugar, geralmente o que ocorre são tentativas de convencimento da outra pessoa, ou falsas disposições de ouvir o que esta tem a dizer.

No que tange ao diálogo interreligioso o mesmo acontece. É muito comum, principalmente no meio cristão ocidental, este se considerar superior às outras religiões com as quais propõe um diálogo. Na maioria das tentativas, ao longo da história, o cristianismo sempre se colocou como aquele que detém a verdade absoluta e como o responsável por anunciar essa verdade a todas as nações.

Nesse bojo, consequentemente estão as nações cuja religião majoritária não é o cristianismo. Assim, tornou-se comum que quando uma pessoa cristã chega à determinada região em que o cristianismo não é a religião oficial, sinta-se impelida a converter toda aquela área para aquela que considera a religião mais suprema de todas e que, coincidentemente, é a dele.

Quando isso acontece, as propostas de diálogo vão para o lado proselitista, ou seja, tenta-se de todos os modos mostrarem que as outras religiões estão erradas e o cristianismo possui todas as respostas corretas para todas as questões da humanidade. As outras religiões, por sua vez, se mostrariam como tentativas de dar respostas sem, contudo, alcançar a profundidade delas, necessitando, assim, que o cristianismo chegue e anuncie os termos e conceitos corretos e necessários para se agradar a Deus.

Essa posição de superioridade inviabiliza todo o diálogo e, ao mesmo tempo, está longe do conceito de encarnação proposto por Jesus, e anunciado nos Evangelhos. A encarnação, que quer dizer ‘assumir a carne do mundo’ revela que Deus se fez humano ou, em outras palavras, assumiu a realidade do mundo como sua própria realidade, a fim de revelar quem ele realmente é, ou seja, total doação e total amor para com aqueles e aquelas a quem ama.

Esse humilhar-se do Criador ao nível da criatura revela que toda pretensão de superioridade deve ser, a exemplo de Cristo, deixada de lado, o que sem dúvidas, tem consequências para toda e qualquer proposta de diálogo, seja comum, seja interreligioso. A encarnação mostra que para revelar Deus é necessário estar disposto a se entregar como ele também se entregou e amar como ele amou. Em outras palavras, a encarnação revela que é somente no amor e por meio dele que é possível dizer quem Deus é.

Assim, se a identidade cristã está baseada na identidade de Cristo, então toda pessoa cristã, quando se propuser a dialogar, deve abandonar a ideia de se considerar melhor do que aquele ou aquela com quem se dialoga. No nível macro, o cristianismo deve abrir mão de sua pretensão de superioridade e se colocar como a menor religião de todas, a mais humilde, a que está disposta a aprender com as outras em reciprocidade, considerando essas religiões tão dignas de fala como o próprio cristianismo se considera, sem com isso perder sua identidade, que é Cristo e seu modo de ser, que é amor. Ao fazer isso, coloca em prática aquilo que Jesus ensinou quando disse : ‘quem quiser ser o primeiro entre vós, seja o último e servo de todos’ (Mc 9,35).

Abrir mão da pretensa superioridade, talvez, seja uma das tarefas mais difíceis para o cristianismo contemporâneo, que durante muito tempo se acostumou a ser a maior religião do mundo e o responsável por ditar os padrões éticos, morais, sociais e culturais da humanidade.

Ainda que a partir da modernidade isso não seja mais uma realidade, permanece em muitos líderes e pessoas cristãs a ideia de que o mundo precisa se converter ao cristianismo para que ele seja um lugar melhor, esquecendo que, seguindo os ensinamentos de Jesus, não devemos pretender ter um império cristão sobre os outros, mas, como sal na comida, desaparecer no mundo para, por meio do amor, fazer a real diferença que esta terra aguarda ansiosamente.


Fonte :