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terça-feira, 2 de maio de 2023

O amor à verdade e o medo do relativismo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 *Artigo de Francisco Borba Ribeiro Neto


‘Recentemente, ajudei na edição do Caderno Fé e Cultura, do jornal ‘O São Paulo’, dedicado ao pensamento de Bento XVI. Vendo o muito que se escreveu sobre ele, fiquei impressionado com um certo ‘desvio’ na interpretação de suas ideias. Ele ficou muito conhecido por sua condenação à ‘ditadura do relativismo’, mas seu amor à Verdade é bem menos reconhecido. Trata-se de um erro comum entre os cristãos bem-intencionados. O diabo, no livro de C.S. Lewis, Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz (Thomas Nelson Brasil, 2017), ensina seu discípulo a não se preocupar quando as pessoas concentrarem todas as suas energias em combatê-lo – basta que elas olhem mais para ele do que para Deus, para se deixarem levar pelo mal. É uma antiga sabedoria cristã : se nos detemos muito na maldade, deixamos de perceber onde e como a bondade se manifesta. Ao lutar contra a maldade, nos tornamos maus por perdermos a noção de como ser bom. Condenando o relativismo, perdemos a intimidade com a verdade.

Neste tempo de fake news

Infelizmente, a reação de certos bons cristãos à disseminação de fake news se tornou emblemática desse problema. Estão mais preocupados em saber de onde saiu a notícia supostamente falsa e quem está denunciando sua falsidade e/ou seu autor. Se é de autoria de um adversário político, o caso é tratado como exemplo da falsidade ideológica do outro – sem maiores escrúpulos em saber se era verdade ou não. Se é de autoria de um correligionário, invoca-se a liberdade de expressão e não se adentra nos aspectos verídicos ou falsos da notícia. Tanto num caso quanto no outro, o amor à própria se impõe ao amor para com a verdade.

É fato que, após um longo tempo de hegemonia de uma ideologia relativista, criadora das chamadas ‘pós-verdades’, que imagina que não existem fatos, apenas narrativas, o mundo começou a se dar conta de que a fidelidade à verdade, mesmo que nas mínimas coisas, é indispensável tanto para a vida social quanto para a liberdade pessoal. Numa sociedade que não faça a mínima referência à verdade, o poder se torna o único critério de decisão. Quem tem poder, não apenas diz o que deve ser feito, mas diz como as coisas devem ser conhecidas e entendidas. Trata-se da maior das dominações, pois nem mesmo se tem a liberdade de saber que as coisas poderiam ser diferentes.

Nesta situação atual, a tragédia, para muitas pessoas bem-intencionadas, é que ao invés de aderirem mais à verdade, passaram a buscar com mais afinco ao poder. Alguns influenciadores parecem ter uma ideia de ‘dobrar a aposta’, deturpando a realidade para que ela pareça ainda mais assustadora, buscando as situações mais escabrosas, referindo-se às narrativas mais absurdas. Ao invés de mirarem a verdade, com a intensão de combaterem a falsidade acabam por difundi-la!

Seguir o exemplo de um homem que amou profundamente a verdade

Bento XVI amou profundamente a verdade. Denunciou algumas vezes o relativismo, mas dedicou muito mais ocasiões a explicitar a verdade. Se procurarmos seguir seus ensinamentos, o que aprendemos?

Em primeiro lugar, a verdade é indissociável do amor. Deus é amor; o amor verdadeiro é o propulsor de todo desenvolvimento humano. Essas duas ideias, presentes em títulos de suas encíclicas (Deus cartas est e Caritas in veritate) deveriam orientar todo discernimento cristão. O amor frequentemente está ausente ou adulterado no mundo, mas nosso olhar para a realidade ainda não é o de Cristo se não formos capazes de descobrir o amor que se esconde no real e/ou que pode iluminar o real. Os profetas da raiva e do ressentimento propagam a si próprios, mas não a Cristo.

Além disso, Bento XVI sempre associa a fidelidade à verdade com humildade. Ele nos lembra que não somos ‘donos da verdade’, somos ‘servidores da verdade’ e que não precisamos temer os acertos dos demais justamente porque se sabe possuído por essa verdade. Por isso, ser fiel à verdade implica também em saber reconhecer os acertos dos outros e nos deixarmos corrigir por eles. Combater o relativismo implica em aceitar a relatividade de nossas posições humanas para aderir sempre mais ao único absoluto que reside em Deus.

O amor humilde de Bento XVI à verdade e ao outro chega a ser vertiginoso. Para ele, o único lugar a partir do qual o cristão pode dialogar com as outras religiões, sendo respeitoso para com elas, mas sem renunciar à verdade, é o da kenosis de Cristo na cruz – o esvaziamento radical de sua divindade, culminando na morte como homem, que Ele faz por amor a nós. Lutamos tanto para não sermos cancelados, para que nossas posições sejam respeitadas… Mas será nosso amor, que até mesmo se humilha para buscar o bem do outro, que comunica a verdade!

Que possamos viver o amor de Deus por nós com tal intensidade que tenhamos a humildade e a liberdade que Bento XVI nos propôs. O mundo precisa da verdade, mas ela será comunicada pela beleza de rostos humanos transfigurados pelo amor.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/02/19/o-amor-a-verdade-e-o-medo-do-relativismo/

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Lógica, remédio para o relativismo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA


‘Nossa época está cheia de teses relativistas. Por relativismo entende-se a recusa de qualquer verdade filosófica ou ética de valor universal a nos dar caminhos seguros.

Essa doutrina nega a distinção entre verdadeiro e falso, no plano da razão, e entre bem e mal no campo ético. Desse modo, uma definição filosófica ou uma ação ética ficariam condicionadas ao tempo e ao espaço nos quais se dão e ao gosto ideológico das pessoas que protagonizam um debate ou uma ação, mas não a uma instância perene objetiva e válida.

No terreno filosófico, o relativismo ensina que não se pode chegar a uma verdade objetiva, portanto, real fora da própria pessoa, dado que o ser humano não conheceria a realidade como ela é, mas apenas como ele, subjetivamente, a concebe, de acordo com o que dela consegue alcançar em seus parâmetros de pensamento.

Ora, o relativismo muda, com isso, o conceito clássico de verdade. Esta é a concordância do intelecto com a realidade : o que se vê – com evidência – sobre a mesa é uma pedra, não um pão. Para o relativista, no entanto, tem-se o contrário. Verdade seria a adequação ou a concordância da coisa (res, rei, no Latim) ao intelecto. A verdade passa a ser subjetiva ou pessoal (cada um tem a sua), não objetiva e universal (válida a todos).

Na prática, o relativismo levaria ao caos, mas, se bem observado, é absurdo em si mesmo. Sim, se a pessoa vê uma pedra, mas diz ser pão, deveria – por coerência – comê-la. Se não a come por reconhecer que é pedra, afirma existir, então, verdade (é uma pedra) e erro (achar que era um pão). Esse reconhecimento destrói a base do relativismo.

No plano ético, também não existiriam normas morais válidas a todos os seres humanos. Os valores morais variariam de acordo com o tempo (a história) e a cultura (o local) na qual a pessoa vive, segundo seus conceitos subjetivos, e não se fundariam normas universais. Apenas os direitos – também subjetivos – de quem convive com o relativista é que seriam, em parte, respeitados.

O único princípio absoluto seria o próprio homem com sua liberdade. Liberdade para tudo, pois não há nenhuma instância objetiva – Deus e sua lei natural moral – acima desse homem. Ora, ‘se o fundamento da Moral fosse a vontade dos povos, ou ainda as decisões dos seus chefes ou as sentenças dos seus juízes, então tudo o que se aprovasse legalmente se converteria num bem, mesmo que autorizasse a mentir, roubar ou matar. A lei moral deve surgir de alguma coisa impressa na natureza humana, a que chamamos lei natural. É uma lei que obriga todos os homens e que nem sempre coincide com os gostos do momento de cada governante, de cada sociedade, de cada pessoa’ (Alfonso Arguiló. É razoável crer? São Paulo: Quadrante, 2006, p. 134).

Todavia, o bom-senso e a Lógica filosófica levam a ver que o relativismo é absurdo. Daí, tentar ele se impor por meio de uma verdadeira ditadura que rotula quem lhe é contrário de fundamentalista (‘acuse os outros do que você é!’), bem como formula argumentações para tentar calar seus opositores. Tais argumentos são, no entanto, contraditórios, de modo a não resistirem a uma análise atenta.

Com efeito, escreve Arguiló que ‘por não ter um ponto de referência claro a respeito da verdade, o relativismo leva à confusão global entre o bem e o mal. Se se analisam com um pouco de detalhe as suas argumentações, é fácil observar, como explica Peter Kreeft, que quase todas costumam refutar-se a si próprias : ‘A verdade não é universal’ (exceto esta verdade que você acaba de afirmar?). ‘Ninguém pode conhecer a verdade’ (a não ser você, segundo parece). ‘A verdade é incerta’ (então também é incerto o que você diz!). ‘Todas as generalizações são falsas’ (esta também?).  ‘Você não pode ser dogmático’ (com essa mesma afirmação, você mostra que é bastante dogmático). ‘Não me imponha a sua verdade’ (o que significa que neste momento você me está impondo as suas verdades). ‘Não existem absolutos’ (absolutamente…?). ‘A verdade é apenas uma opinião’ (a sua opinião, pelo que vejo). E assim por diante’ (Idem, p. 118).

Fiquemos atentos e questionemos o relativismo. Ele não resistirá à Lógica.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/08/02/logica-remedio-para-o-relativismo/