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sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Porque a religião pode provocar violência extrema?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de José Brissos-Lino


‘O fenômeno religioso é complexo e presta-se a flutuações emocionais que muitas vezes extravasam para fora do campo espiritual, partindo do espaço da crença para ações de afirmação pública na sociedade e por vezes através de instrumentos e ações de violência.

Sabemos que o sectarismo leva um crente a deslegitimar crenças alheias e a partir do princípio de que todos os outros, sendo infiéis, laboram no erro sendo por isso prejudiciais à humanidade.

O mundo choca-se de vez em quando com o extremismo religioso. Desta vez foi com uma criança de oito anos em risco de ser condenada à pena de morte por blasfêmia no Paquistão, um caso que a revista Visão reportou. Os juristas afirmam que nunca tal tinha sucedido com alguém tão novo. Um clérigo paquistanês acusou o menino de urinar intencionalmente no tapete da biblioteca de uma madraça (escola religiosa muçulmana), onde estavam guardados livros religiosos. A família diz que a criança nem tem noção do que é uma blasfêmia, continuando ainda ‘sem perceber qual foi o crime e por que foi mantido na prisão durante uma semana’.

A sua libertação sob fiança foi pretexto suficiente para uma multidão de fanáticos muçulmanos incendiar um templo hindu e destruir o seu interior, como forma de protesto, obrigando vários membros daquela minoria religiosa no Punjab a fugir, deixando para trás as suas casas, oficinas e trabalho. Toda a comunidade hindu ficou assustada e a recear reações violentas. Segundo um familiar da criança : ‘Não queremos voltar àquela zona. Não achamos que alguma ação concreta e significativa vá ser tomada contra os culpados ou para proteger as minorias que vivem aqui’. O ataque foi organizado e planejado pois os vândalos fecharam uma estrada próxima e publicaram vídeos do ato nas redes sociais.

Segundo os ativistas dos direitos humanos as leis contra a blasfêmia são usadas abusivamente contra as minorias no Paquistão pela maioria muçulmana.

Kapil Dev, um ativista de direitos humanos, citado pelo The Guardian, exige que ‘as acusações contra o menino sejam retiradas imediatamente’ e pede ao governo que ‘dê segurança à família e a todos aqueles que foram forçados a fugir’.

Mas porque sentirão os crentes a obrigação de ‘defender a honra’ do seu Deus perante os que têm fé diferente, de forma violenta? Será esse deus [1] assim tão fraco e impotente que não consegue sequer defender-se a si mesmo, ou os fiéis interiorizaram o conceito duma divindade mesquinha e vulnerável? Os extremismos religiosos são uma autêntica praga, dando sempre a imagem de um deus fraco, que não consegue defender-se de quem o ataca e que precisa que os homens façam isso por ele, atacando muitas vezes fiéis da mesma religião sob pretextos pusilânimes.

Mas isto não acontece só com o islã pois também o cristianismo tem idêntico histórico. Nem sucede apenas no Oriente Médio ou em países sem tradição democrática, uma vez que também a Ocidente se observa ainda hoje violência verbal e física por parte de grupos cristãos contra minorias religiosas ou ideologias políticas. Veja-se o caso do assalto ao Capitólio cujo folclore incluiu bandeiras de grupos cristãos ou os ataques de cristãos a terreiros de candomblé e a agressividade de setores religiosos no Brasil bolsonarista contra adversários políticos.

O primeiro-ministro do Paquistão condenou formalmente o ataque, ordenou à polícia que agisse contra os agressores e prometeu que o governo restaurará o templo, mas ainda não terão havido detenções. A verdade é que os ataques a templos hindus no país aumentaram nos últimos anos, revelando um crescendo de fanatismo e extremismo religioso, e os relatórios internacionais apontam o Paquistão como um dos países onde a liberdade religiosa está mais condicionada pela violência das multidões e ameaças de violência relacionados com supostos atos de blasfêmia.

A grande questão de pretender defender a ‘honra’ do seu deus com recurso à violência não passa, afinal, da convicção de que o seu deus reage à provocação e ofensa de forma humana, mas também a presunção de que as crenças pessoais são indiscutíveis e intocáveis por terceiros, sendo aí que nasce todo o fanatismo e extremismo religioso em nome de qualquer divindade.’

Nota do autor : [1] Grafei o termo ‘deus’ com inicial minúscula, pois todos os deuses que precisam de defesa humana são minúsculos, pequenos demais.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1538255/2021/09/porque-a-religiao-pode-provocar-violencia-extrema/

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Desarmar Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano


‘A intenção de oração do papa para o passado mês de Janeiro era sobre o diálogo inter-religioso. No vídeo feito para a difundir, Francisco disse : «Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente, procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos. Nesta multidão, nesta variedade de religiões só há uma certeza que todos podemos ter: somos todos filhos de Deus.»

Somos filhos de Deus, mas indispostos e com dificuldade de diálogo e de entendimento. O diálogo inter-religioso é, por isso, necessário para que possamos conhecer, entender e trabalhar juntos pela paz e a justiça. Desde o famoso encontro de Assis – em 1986, entre João Paulo II e representantes das várias religiões – que oficialmente as iniciativas de diálogo se multiplicaram. São momentos simbólicos cuja função é dar o exemplo de encontro e promover o aprofundamento do diálogo de vida e de ideias entre os crentes das várias fés.

Dado que a maioria das pessoas no mundo são crentes, as religiões são interlocutoras imprescindíveis em qualquer entendimento que possa conduzir à paz. O teólogo Hans Küng enunciou o princípio em 2001 na Assembleia Geral das Nações Unidas : «Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo com paz e justiça sem um novo paradigma de relações internacionais, baseado em padrões éticos globais.»

Tal «roteiro para a paz» nunca terá sido tão óbvio como hoje, num momento em que o radicalismo islâmico, sob a forma de grupos tão extremistas quanto o Estado Islâmico, al-Shabaab ou Boko Haram, tem vindo a revelar a face mais odiosa da religião e a exportar o terror. Por outro lado, tornou-se claro que tais grupos, que se alimentam de uma «mística» alegadamente religiosa, são o fruto de políticas internacionais erradas que tentaram apagar o fogo com gasolina. O que torna especialmente clara a necessidade de um novo paradigma nas relações internacionais, indispensável para assegurar a paz e a justiça.

Ao mesmo tempo, cada religião terá também de fazer o seu trabalho de casa, começando por «desarmar» Deus. Os livros sagrados das várias religiões, especialmente das religiões abraâmicas ou religiões do livro, Judaísmo, Cristianismo e Islão, estão repletos de relatos de violência e de diversas formas de guerra «sagrada». Requer-se, portanto, uma leitura contextualizada, uma hermenêutica correta desses episódios para não imputar a Deus o que é puramente humano e cultural. No caso do Islão, o conceito de «grande jihad» (jihad significa luta, esforço) terá de ser entendido – como o profeta Maomé explica aos seus companheiros na Hadith, o livro que contém as suas palavras e actos – como «a luta pela purificação do coração», «luta espiritual interna» (e não como guerrilha ou terrorismo).

A guerra em nome de Deus é uma blasfêmia : Deus não pode aprovar a guerra ou a morte. Não poucas vezes, as religiões são usadas para encobrir a mera ânsia de poder e domínio geoestratégico. No caso do Islã, a comunidade muçulmana global terá de se dissociar cada vez mais do terrorismo praticado em nome da sua religião, em vez de continuar a proclamar à exaustão que «o Islã é uma religião de paz». Pois todos os extremismos que florescem num caldo de cultura «religioso» pervertem necessariamente a religião.

Deus é o senhor da paz, da justiça e do encontro. Honrá-lo-emos na medida em que admitamos e trabalhemos para desconstruir os preconceitos religiosos que nos dividem e impedem de conhecer a riqueza de outras religiões e de outras tradições religiosas.’


Fonte :