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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Direção espiritual: 6 pontos a ter em mente

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Marzena Devoud


‘Preciso de direção espiritual, para poder pedir conselhos para avançar em minha vida como batizada’, disse Christine a Aleteia. A médica de Cannes, 44 anos, conheceu seu diretor espiritual, um padre jesuíta, há vinte anos. Para a estudante que se convertera e fora batizada dois anos antes, era ‘algo necessário e natural ao mesmo tempo’. ‘Ele era como um guia para mim. Eu não tinha ninguém em minha família para responder minhas dúvidas. Consegui avançar graças à sua ajuda. Ele me ouviu e se preocupou, me apoiou e também soube apontar as coisas que não estavam certas’, explica ela.

Apoio na busca de Deus

Chamada de ‘direção espiritual’ com sua longa tradição na Igreja desde os Padres do Deserto no século IV, a orientação espiritual continua sendo indispensável para muitos cristãos que buscam apoio em sua busca por Deus. Na verdade, ‘mais do que nunca’, adverte o Papa Francisco, que fala disso em sua encíclica Evangeli Gaudium. Diante da falta de pontos de referência de todos os tipos, a demanda por este tipo de acompanhamento está crescendo o tempo todo. A aspiração de ‘viver melhor’ está ecoando em todos os lugares…

Entretanto, a arte do acompanhamento espiritual e do discernimento requer habilidades e regras muito precisas : a experiência, a forma de proceder, a escuta, a prudência e a capacidade de compreensão… Para cultivá-las, é preciso estar bem ciente de todos os pontos de atenção, vigilância ou alerta. O que são eles? Que abordagem deve ser adotada para apoiar alguém espiritualmente? Aqui estão algumas chaves para um acompanhamento espiritual bem-sucedido que os Padres do Deserto, Santo Inácio de Loyola e Santa Teresa d’Ávila consideravam essenciais.

1 – Não cair na confusão entre psicologia e direção espiritual

Os psicólogos não tomaram hoje o lugar dos diretores espirituais? Não, pois a ajuda psicológica não se opõe à ajuda espiritual. O perigo é o de substituir um pelo outro. A pessoa que recorre ao apoio psicológico quer entender o que está acontecendo com ela para melhorar, enquanto que o acompanhamento espiritual é uma busca para poder colocar Deus no coração de sua vida.

O cuidado espiritual não é um processo de duas pessoas, mas um processo de três pessoas, com a presença do Espírito Santo.

‘Há uma distinção essencial entre os dois : o acompanhamento espiritual não é feito ‘a dois’, mas ‘a três’, com a presença do Espírito Santo’. É em seu nome que o acompanhante dirá as coisas e a pessoa que está sendo acompanhada ouvirá. ‘Isto muda tudo’, diz Micheline Claudon, psicoterapeuta que dirige cursos de treinamento para conselheiros espirituais da Anima Mea, à Aleteia.

‘Os sacerdotes e psicólogos têm cada um seu lugar, seu papel e seu campo de competência. Eles não devem tentar fazer o que o outro faz, mesmo que, por mais paradoxal que pareça, a psicologia e a espiritualidade se entendam e falem uma com a outra. Isto é o que diz o Padre Laurent Lemoine, dominicano e psicanalista, autor de ‘What’s New Doctor? La psychanalyse au fil du religieux (Salvator).

Mas como podemos evitar esta confusão? ‘Lutando contra uma certa desconfiança entre os clérigos com relação ao conhecimento do que é o apoio psicológico’. Não é uma questão de escolher um ou outro. Os dois são compatíveis, mesmo que às vezes seja necessário saber como priorizar um ou outro’, explica Micheline Claudon.

2 – Saber sobre as expectativas da outra pessoa

‘Assim que há um encontro no contexto do acompanhamento espiritual, há uma expectativa por parte da pessoa que está sendo acompanhada. Isso será decisivo para a natureza deste encontro. Encontrei na Lettre à un père spirituel um texto sobre o acompanhamento espiritual escrito pelo padre jesuíta Jean Gouvernaire, uma frase de imensa exatidão : ‘Não se aproxima das profundezas de uma pessoa com impunidade’.

Isto significa que um nunca sai incólume do encontro com o outro. Nunca se é neutro por definição. Por que isto é assim? Porque há transferências, um termo que vem da psicanálise. Isso significa que atitudes e contra-atitudes estão envolvidas em todas as nossas relações humanas e serão a força motriz por trás de nossas ações’, diz Micheline Claudon. Estar consciente de que a neutralidade em um encontro ‘acompanhado’ não existe é um ponto muito importante de vigilância.

3 – Assegurar a estrutura do encontro

Outro ponto-chave de atenção é garantir a estrutura do encontro. O diretor espiritual (hoje chamado ‘pai espiritual’ ou ‘conselheiro espiritual’) está, desde o início, em uma posição assimétrica. Estar ciente disso nos permite ter cuidado para não usá-lo de forma inadequada.

Por exemplo, a partir do momento em que o diretor espiritual sabe que a pessoa acompanhada espera algo dele ou dela que a coloque em uma posição inadequada, isto pode levar a uma deriva em direção a um abuso da posição de poder. Padre Laurent Lemoine, capelão do Hospital Sainte-Anne em Paris e psicanalista, recusa-se a aceitar como psicanalista alguém que ele conheceu na capelania. ‘Há um risco, não apenas de confusão, mas de onipotência. Ao se colocar em todos os lugares, você pode confundir a outra pessoa’, disse ele à Aleteia.

4 – Estabelecer limites para si mesmo e para o outro

É essencial que o conselheiro espiritual faça a si mesmo estas duas perguntas : que limites devem ser estabelecidos para si mesmo e para o outro? Que lugar deves ocupar no espaço relacional da pessoa que está acompanhando? ‘Imagine alguém que diz ao seu conselheiro : ‘Ah, ainda bem que eu posso vê-lo, Padre. Você vai ser o meu único contato pessoal da semana!’ ‘É evidente que esta reunião exigirá uma vigilância especial por parte do conselheiro. Independentemente de seu próprio valor e do que aconteça, é claro que a expectativa da pessoa acompanhada será grande’, analisa Micheline Claudon.

5- Evitar o deslize da posição de ‘salvador’

É sempre importante garantir que a pessoa apoiada não se concentre em um único encontro ou em uma única pessoa. ‘Neste tipo de situação, um terapeuta perguntará facilmente à pessoa que está sendo aconselhada sobre seus amigos e suas atividades fora do trabalho. O objetivo? Para evitar focalizar exclusivamente o encontro entre o terapeuta e o paciente, pois há um risco real de escorregar mantendo a posição de ‘salvador’. O mesmo deslize é possível na orientação espiritual.

Para evitar o deslize da posição de ‘salvador’, é essencial seguir um treinamento apropriado.

‘Para evitar isto, nunca é demais repeti-lo, é essencial seguir um treinamento apropriado. Um certo desconforto pode ser um sinal para não ficar isolado, mas ir falar com uma pessoa competente e confiável’, sublinha o psicoterapeuta.

Se o conselheiro se encontra repetidamente na posição de ‘salvador’, ela continua, ele deveria fazer a si mesmo esta pergunta : O que me leva a me encontrar na posição de ‘salvador’ tantas vezes? O que isso significa para mim? Este trabalho requer supervisão para ser capaz de analisá-lo adequadamente. Isso permitirá uma melhor compreensão do próprio funcionamento, mas também da forma como isso terá impacto na relação com a pessoa que está sendo apoiada.

6 – Saber como detectar uma emergência psiquiátrica

Se o conselheiro espiritual for treinado, ele será capaz de detectar uma emergência psicológica ou mesmo psiquiátrica na pessoa que está sendo acompanhada. Se não tiver treinamento, ele pode confundir os sintomas da depressão melancólica (que é a mais grave das depressões) com uma dificuldade ligada ao relacionamento com Deus. Neste caso, não é um problema espiritual, mas uma complicação psiquiátrica grave que pode levar ao suicídio. Se o conselheiro for bem treinado, ele ou ela terá algumas chaves para identificar se o caso exige acompanhamento psiquiátrico imediato.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2022/12/22/direcao-espiritual-6-pontos-a-ter-em-mente/

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A importância da Direção Espiritual


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
St Anthony Abbot and St Paul (the Hermit), SAVOLDO
c. 1515 Oil on canvas, Gallerie dell'Accademia, Venice

*Artigo do Padre Francisco Faus


Necessidade de um ‘técnico’

‘Se você tem direção espiritual, já sabe da importância dessa orientação para manter em andamento a vida interior e, em geral, para progredir na vida cristã. Tanto se a tem como se não a tem, talvez o ajude pensar nas considerações que faremos a seguir.

É interessante lembrar que a Igreja sempre tem recomendado a direção espiritual a todos os que desejam amadurecer seriamente na vida cristã; de forma análoga a como um cardíaco procura a orientação de um cardiologista, e um jogador de futebol, de basquete ou de tênis tem um coach, um técnico- individual ou do time- que os prepara e os orienta. Ninguém é bom técnico de si mesmo.

São Josemaría Escrivá fala disso com uma imagem simples : ‘Convém que conheças esta doutrina segura : o espírito próprio é mau conselheiro, mau piloto, para dirigir a alma nas borrascas e tempestades, por entre os escolhos da vida interior. –Por isso, é vontade de Deus que a direção da nau esteja entregue a um Mestre, para que, com a sua luz e conhecimento, nos conduza a porto seguro’ (Caminho, n.59).


O bom pastor

O confessor e, em geral, a pessoa que atende a direção espiritual de outros, participa da missão do Bom Pastor. Como diz Jesus na parábola, o Bom Pastor conhece as suas ovelhas e elas o conhecem, vai indicando-lhes o caminho e as conduz a bons pastos, também as defende dos ladrões e do lobo (cf. Jo 10,4-14), e procura as que se extraviaram para ajuda-las a voltar (cf. Lc 15, 4-7).

O bom diretor espiritual deve ser um reflexo desse Bom Pastor, que é Jesus. Por isso, é importante pedir luzes ao Espírito Santo para escolher bem o diretor : sempre com plena liberdade, mas com o desejo sincero de avançar espiritualmente. Não adianta escolher um diretor espiritual que seja apenas um padre ‘amigão’ para bater de vez em quando um papo superficial. E, menos ainda, procurar um confessor ou diretor que se limite a ‘compreender-nos’ (Ou seja, a desculpar-nos em tudo!) e que não nos fale com clareza das nossas falhas, nem nos ajude, com afeto e firmeza, a lutar e a retificar os erros.

Para ter uma direção espiritual eficaz é importante que, depois de ter escolhido conscientemente um diretor, sejamos perseverantes e combinemos com ele conversas periódicas, por exemplo, mensais (não mais do que isso). Não se pode chamar de direção espiritual o fato de ter um padre de confiança com quem se conversa só duas vezes por ano, ou com quem se consulta apenas por alguma questão isolada.

Dizia que a escolha do orientador espiritual deve ser livre. Também deve ser livre a nossa decisão de praticar os conselhos que nos sugere. Mas a liberdade exige pensar e decidir responsavelmente. Peça, por isso, ao Espírito Santo – o verdadeiro Diretor divino das nossas almas -, que lhe conceda o dom de entendimento, para compreender o que Ele lhe quer dizer através do diretor espiritual, e o dom de fortaleza, para esforçar-se em cumpri-lo.

Creio que, após mais de cinquenta anos de experiência de direção espiritual, posso afirmar que só vi progredirem espiritualmente - e assim caminharem para a santidade, meta da vida cristã - os que praticam com perseverança um plano de vida espiritual e levam a sério, com constância, a direção espiritual.’


Fonte :