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quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

                                                            
São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno

*Artigo da redação da ACI Digital

‘‘Basílio santo nasceu entre santos. Basílio pobre viveu entre os pobres. Basílio filho de mártires sofreu como um mártir. Basílio sempre pregou com seus lábios e com seus bons exemplos e seguirá pregando sempre com seus admiráveis escritos’, afirmou certa vez São Gregório Nazianzeno sobre seu grande amigo São Basílio Magno. Ambos combateram contra os hereges que negavam a divindade de Jesus e sua festa é celebrada neste dia 2 de janeiro.

São Basílio

São Basílio nasceu em Cesareia (Ásia Menor), por volta do ano 330, em uma família de santos. Seus irmãos foram São Gregório de Niceia, Santa Macrina a Jovem e São Pedro de Sebaste. Seu pai foi São Basílio o Velho, sua mãe, Santa Emélia, e sua avó, Santa Macrina.

Seu companheiro de estudos e inseparável amigo na defesa da fé foi São Gregório Nazianzeno. Quando São Basílio estava no auge de sua carreira profissional, sentiu um grande impulso para abandonar o mundo e foi ajudado por sua irmã Santa Macrina, que, junto à sua mãe viúva e outras mulheres, vivia em uma comunidade em um lugar isolado.

Basílio recebeu o batismo, visitou diversos mosteiros e em um local ermo se entregou ao retiro solitário com a oração e o estudo. Uniram-se a ele alguns discípulos e formou o primeiro mosteiro da Ásia Menor. Seus ensinamentos são vividos até hoje pelos monges do oriente e influenciou até mesmo São Bento, que o considerava seu mestre.

Foi ordenado sacerdote e São Gregório Nazianzeno o incentivou a ajuda-lo com a defesa do clero, as igrejas e as verdades de fé. Foi nomeado primeiro auxiliar do Arcebispo de Cesareia e usou a herança que sua mãe tinha lhe deixado para ajudar os necessitados. Costumava sair com avental e concha distribuindo alimentos.

Mais tarde, substituiu o falecido Arcebispo e defendeu a autonomia da Igreja ante o imperador Valente. Seus fiéis adquiriram o costume de comungar com frequência. Partiu para a Casa do Pai em 1º de janeiro de 379.

São Gregório

São Gregório Nazianzeno nasceu na Capadócia (atual Turquia) no mesmo ano que São Basílio. Seu pai foi São Gregório Maior, Bispo de Nazianzo, sua mãe, Santa Nona, e seus irmãos, Santos Cesáreo e Gorgonia.

Também se uniu a São Basílio na vida solitária, mas foi ordenado sacerdote e demorou um pouco para se render a este serviço. Por volta do ano 372, São Basílio queria consagrá-lo Bispo de Sasima, lugar que estava sobre terrenos em disputa pelas duas Capadócias (território dividido). Isso trouxe inimizade entre os amigos.

Com o tempo, os santos voltaram a se reconciliar e, depois de percorrer várias cidades, São Gregório se estabeleceu em Constantinopla. Foi consagrado Bispo, mas sofreu por difamações e perseguições dos hereges.

O Concílio de Constantinopla (381) estabeleceu e confirmou as conclusões do Concílio de Niceia contra os hereges que negavam a divindade de Cristo e outras verdades de fé.

São Gregório foi nomeado Bispo de Constantinopla, mas seus inimigos colocaram em dúvida a validade de sua eleição. Por isso, para restaurar a paz, o santo voltou a Nazianzo. Ali se tornou Bispo deste território, depois foi para o retiro e partiu para a Casa do Pai em 25 de janeiro do ano 389 ou 390.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://institutohesed.org.br/sao-basilio-magno-e-sao-gregorio-nazianzeno-2/

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

São Basílio Magno e São Gregório de Nazianzo, Bispos e Doutores da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

        Basílio nasceu em Cesaréia da Capadócia, em 330, de uma família cristã; possuidor de grande cultura e muita virtude, começou a levar vida eremítica, mas em 370 foi eleito bispo de sua cidade natal. Lutou contra os arianos; escreveu excelentes obras, sobretudo regras monásticas, observadas até hoje por muitíssimos monges do Oriente. Teve grande solicitude para com os pobres. Morreu no dia 1º de janeiro de 379.


Gregório, nascido no mesmo ano de 330 nas proximidades de Nazianzo, empreendeu muitas viagens com o intuito de adquirir ciência. Acompanhou seu amigo Basílio à solidão, mas foi ordenado presbítero e bispo. Em 381 foi designado bispo de Constantinopla; contudo, devido a divisões existentes naquela Igreja, retirou-se para Nazianzo. Aí morreu no dia 25 de janeiro de 389 ou 390. Pela profundidade de sua doutrina e encanto da sua eloquência, foi cognominado ‘o teólogo’.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Basílio e
São Gregório Nazianzo, Bispos e Doutores da Igreja  :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo
(Oratio 43, in laudem Basilii Magni, 15,16-17.19-21 : PG 36,514-523)  
(Sec. IV)

Como uma só alma em dois corpos
Encontramo-nos em Atenas. Como o curso de um rio, que partindo da única fonte se divide em muitos braços, Basílio e eu nos tínhamos separado para buscar a sabedoria em diferentes regiões. Mas voltamos a nos reunir como se nos tivéssemos posto de acordo, sem dúvida porque Deus assim quis.

Nesta ocasião, eu não apenas admirava meu grande amigo Basílio vendo-lhe a seriedade de costumes e a maturidade e prudência de suas palavras, mas ainda tratava de persuadir a outros que não o conheciam tão bem a fazerem o mesmo. Logo começou a ser considerado por muitos que já conheciam sua reputação.

Que acontece então? Ele foi quase o único entre todos os que iam estudar em Atenas a ser dispensado da lei comum; e parecia ter alcançado maior estima do que comportava sua condição de novato. Este foi o prelúdio de nossa amizade, a centelha que fez surgir nossa intimidade; assim fomos tocados pelo amor mútuo.

Com o passar do tempo, confessamos um ao outro nosso desejo : a filosofia era o que almejávamos. Desde então éramos tudo um para o outro; morávamos juntos, fazíamos as refeições à mesma mesa, estávamos sempre de acordo aspirando aos mesmos ideais e cultivando cada dia mais estreita e firmemente nossa amizade.

Movia-nos igual desejo de obter o que há de mais invejável : A ciência; no entanto, não tínhamos inveja, mas valorizávamos a emulação. Ambos lutávamos, não para ver quem tirava o primeiro lugar, mas para cedê-lo ao outro. Cada um considerava como própria a glória do outro.

Parecia que tínhamos uma só alma em dois corpos. E embora não se deva dar crédito àqueles que dizem que tudo se encontra em todas as coisas, ao nosso caso podia se afirmar que de fato cada um se encontrava no outro e com o outro.

A única tarefa e objetivo de ambos era alcançar a virtude e viver para as esperanças futuras, de tal forma que, mesmo antes de partirmos desta vida, tivéssemos emigrado dela. Nesta perspectiva, organizamos toda a nossa vida e maneira de agir. Deixamo-nos conduzir pelos mandamentos divinos estimulando-nos mutuamente à prática da virtude. E, se não parecer presunção minha dizê-lo, éramos um para o outro regra e o modelo para discernir o certo e o errado.

Assim como cada pessoa tem um sobrenome recebido de seus pais ou adquirido de si próprio, isto é, por causa da atividade ou orientação de sua vida, para nós a maior atividade e o maior nome era sermos realmente cristãos e como tal reconhecidos.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas I’, 1111, 1113
  

domingo, 5 de janeiro de 2014

São Gregório Nazianzeno, Bispo e Doutor da Igreja

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  * Artigo de Bento XVI, Papa Emérito
  
1.     Vida
            Na catequese anterior falei de um grande mestre da fé, o Padre da Igreja São Basílio. Agora gostaria de falar do seu amigo Gregório de Nazianzeno, também ele, como Basílio, originário da Capadócia. Teólogo ilustre, orador e defensor a fé cristã no século IV, foi célebre pela sua eloquência e teve também, como poeta, uma alma requintada e sensível.

            Gregório nasceu de uma família nobre. A mãe consagrou-o a Deus desde o nascimento, que aconteceu por volta de 330. Depois da primeira educação familiar, frequentou as mais célebres escolas da sua época : primeiro foi a Cesareia da Capadócia, onde estreitou amizade com Basílio, futuro bispo daquela cidade, e deteve-se em seguida noutras metrópoles do mundo antigo, como Alexandria do Egito e sobretudo Atenas, onde encontrou de novo Basílio (cf. Oratio 14-24: SC 384, 146-180). Reevocando a sua amizade, Gregório escreverá mais tarde : ‘Então não só eu me sentia cheio de veneração pelo meu grande Basílio devido à seriedade dos seus costumes e à maturidade e sabedoria dos seus discursos, mas induzia a fazer o mesmo também a outros, que ainda não o conheciam... Guiava-nos a mesma ansiedade de saber... Esta era a nossa competição : não quem era o primeiro, mas quem permitisse ao outro de o ser. Parecia que tínhamos uma só alma em dois corpos’. (Oratio 43, 16.20: SC 384, 154-156.164). São palavras que representam um pouco o auto-retrato desta alma nobre. Mas também se pode imaginar que este homem, que estava fortemente projetado para além dos valores terrenos, tenha sofrido muito pelas coisas deste mundo.

            Tendo regressado a casa, Gregório recebeu o Batismo e orientou-se para uma vida monástica : a solidão, a meditação filosófica e espiritual fascinavam-no. Ele mesmo escreverá : ‘Nada me parece maior do que isto : fazer calar os próprios sentidos, sair da carne do mundo, recolher-se em si mesmo, não se ocupar mais das coisas humanas, a não ser das que são estritamente necessárias; falar consigo mesmo e com Deus, levar uma vida que transcende as coisas visíveis; levar na alma imagens divinas sempre puras, sem misturar formas terrenas e errôneas; ser verdadeiramente um espelho imaculado de Deus e das coisas divinas, e tornar-se tal cada vez mais, tirando luz da luz...; gozar, na esperança presente, o bem futuro, e conversar com os anjos; ter já deixado a terra, mesmo estando na terra, transportado para o alto com o espírito’ (Oratio 2, 7: SC 247, 96).

            Como escreve na sua autobiografia (cf. Carmina (histórica) 2, 1, 11 De vita sua 340-349: PG 37, 1053), recebeu a ordenação presbiteral com uma certa resistência, porque sabia que depois teria que ser Pastor, ocupar-se dos outros, das suas coisas, e portanto já não se podia recolher só na meditação. Contudo, aceitou depois esta vocação e assumiu o ministério pastoral em total obediência, aceitando, como com frequência lhe aconteceu na sua vida, ser guiado pela Providencia aonde não queria ir (cf. Jo 21, 18). Em 371, o seu amigo Basílio, bispo de Cesareia, contra o desejo do próprio Gregório, quis consagrá-lo bispo de Sasima, uma cidade extremamente importante da Capadócia. Mas ele, devido a várias dificuldades, nunca tomou posse dela e permaneceu na cidade de Nazianzo.

            Por volta de 379, Gregório foi chamado a Constantinopla, a capital, para guiar a pequena comunidade católica fiel ao Concílio de Niceia e à fé trinitária. A maioria aderia, ao contrário, ao arianismo, que era ‘politicamente correto’ e considerado pelos imperadores útil sob o ponto de vista político. Deste modo, ele encontrou-se em condições de minoria, circundado por hostilidades.

            Na pequena igreja de Anastasis pronunciou cinco Discursos teológicos (Orationes 27-31: SC 250, 70-343) precisamente para defender e tornar também inteligível a fé trinitária, a habilidade do raciocínio, que faz compreender realmente que esta é a lógica divina. E também o esplendor da forma os torna hoje fascinantes. Gregório recebeu, devido a estes discursos, a designação de ‘teólogo’. Assim é chamado na Igreja ortodoxa : o ‘teólogo’. E isto porque para ele a teologia não é uma reflexão meramente humana, ou muito menos apenas o fruto de especulações complicadas, mas deriva de uma vida de oração e de santidade, de um diálogo assíduo com Deus. E precisamente assim mostra à nossa razão a realidade de Deus, o mistério trinitário. No silencio contemplativo, imbuído de admiração diante das maravilhas do mistério revelado, a alma acolhe a beleza e a glória divina.

            Enquanto participava no segundo Concílio Ecumenico de 381, Gregório foi eleito bispo de Constantinopla e assumiu a presidência do Concílio. Mas desencadeou-se imediatamente contra ele uma grande oposição, e a situação tornou-se insustentável. Para uma alma tão sensível estas inimizades eram insuportáveis. Repetia-se o que Gregório tinha lamentado anteriormente com palavras ardentes : ‘Dividimos Cristo, nós que tanto amávamos Deus e Cristo! Mentimos uns aos outros devido à Verdade, alimentamos sentimentos de ódio devido ao Amor, dividimo-nos uns dos outros!’ (Oratio 6, 3: SC 405, 128). Chega-se assim, num clima de tensão, à sua demissão. Na catedral apinhada, Gregório pronunciou um discurso de despedida com grande afeto e dignidade (cf. Oratio 42: SC 384, 48-114). Concluía a sua fervorosa intervenção com estas palavras : ‘Adeus, grande cidade, amada por Cristo... Meus filhos, suplico-vos guardai o depósito (da fé) que vos foi confiado (cf. 1Tm 6, 20), recordai-vos dos meus sofrimentos (cf. Cl 4, 18). Que a graça do Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vós’ (cf. Oratio 42, 27: SC 384, 112-114).

            Regressou a Nazianzo, e por cerca de dois anos dedicou-se ao cuidado pastoral daquela comunidade cristã. Depois retirou-se definitivamente em solidão na vizinha Arianzo, a sua terra natal, dedicando-se ao estudo e à vida ascética. Nesse período compôs a maior parte da sua obra poética, sobretudo autobiográfica ; o De vita sua, uma releitura em versos do próprio caminho humano e espiritual, um caminho exemplar de um cristão sofredor, de um homem de grande interioridade num mundo cheio de conflitos. É um homem que nos faz sentir a primazia de Deus e por isso fala também a nós, a este nosso mundo : sem Deus o homem perde a sua grandeza, sem Deus não há verdadeiro humanismo. Por isso, ouçamos esta voz e procuremos conhecer também nós o rosto de Deus. Numa das suas poesias escrevera, dirigindo-se a Deus : ‘Sê benigno, Tu, o Além de tudo’ (Carmina (dogmática) 1, 1, 29: PG 37, 508). E em 390, Deus acolheu nos Seus braços este servo fiel, que com inteligência perspicaz O tinha defendido nos escritos, e com tanto amor O tinha cantado nas suas poesias.

2.    Pensamento
            Ao longo dos retratos dos grandes Padres e Doutores da Igreja que procuro oferecer nestas catequeses, ... gostaria ainda de completar o retrato deste grande mestre. Procuraremos reunir alguns dos seus ensinamentos. Refletindo sobre a missão que Deus lhe tinha confiado, São Gregório Nazianzeno concluía : ‘Fui criado para me elevar até Deus com as minhas ações!’ (Oratio 14, 6 de pauperum amore: PG: 35, 865). De fato, ele colocou ao serviço de Deus e da Igreja o seu talento de escritor e de orador. Compôs numerosos discursos, várias homilias e panegíricos), muitas cartas e obras poéticas (quase 18.000 versos) : uma atividade verdadeiramente prodigiosa. Tinha compreendido que era essa a missão que Deus lhe confiara : ‘Servo da Palavra, eu adiro ao ministério da Palavra; que eu nunca consinta o descuido deste bem. Eu aprecio esta vocação e desejo-a, ela proporciona-me mais alegria do que todas as outras coisas juntas’ (Oratio 6, 5: SC 405, 134; cf. também Oratio 4, 10).

            O Nazianzeno era um homem calmo e na sua vida procurou fazer sempre obra de paz na Igreja do seu tempo, dilacerada por discórdias e heresias. Com audácia evangélica esforçou-se por superar a própria timidez para proclamar a verdade da fé. Sentia profundamente o anseio de se aproximar de Deus, de se unir a Ele. É o que ele mesmo expressa numa poesia, na qual escreve : entre as ‘grandes flutuações do mar da vida, aqui e além por ventos impetuosos, .../uma só coisa me era querida, unicamente a minha riqueza,/conforto e olvido das canseiras, /a luz da Trindade Santa’. (Carmina (histórica) 2, 1, 15: PG 37, 1250 ss.).

            Gregório fez resplandecer a luz da Trindade, defendendo a fé proclamada no Concílio de Niceia : um só Deus em três Pessoas iguais e distintas Pai, Filho e Espírito Santo ‘tríplice luz que num único/ esplendor se reúne’ (Hino vespertino : Carmina (histórica) 2, 1, 32: PG 37, 512). Portanto, afirma sempre Gregório num seguimento de São Paulo (1Cor 8,6), ‘para mim existe um Deus, o Pai, do qual tudo provém; um Senhor, Jesus Cristo, por meio do qual tudo existe; e um Espírito Santo, no qual tudo existe’ (Oratio 39, 12: SC 358, 172).

            Gregório pôs em grande relevo a humanidade plena de Cristo : para redimir o homem na sua totalidade de corpo, alma e espírito, Cristo assumiu todas as componentes da natureza humana, porque de outro modo o homem não teria sido salvo. Contra a heresia de Apolinário, o qual defendia que Jesus não tinha assumido uma alma racional, Gregório enfrenta o problema à luz do mistério da salvação : ‘O que não foi assumido, não foi curado’ (Ep. 101, 32: SC 208, 50), e se Cristo não tivesse sido ‘dotado de intelecto racional, como teria podido ser homem?’ (Ep. 101, 34: SC 208,50). Era precisamente o nosso intelecto, a nossa razão que tinha e tem necessidade da relação, do encontro com Deus em Cristo. Tornando-se homem, Cristo deu-nos a possibilidade de nos tornarmos por nossa vez como Ele. O Nazianzeno exorta : ‘Procuremos ser como Cristo, porque também Cristo se tornou como nós : tornar-nos deuses por meio d’Ele, dado que Ele mesmo, através de nós, se tornou homem. Assumiu sobre si o pior, para nos doar o melhor’ (Oratio 1, 5: SC 247, 78).

            Maria, que deu a Cristo a natureza humana, é verdadeira Mãe de Deus (Theotókos : cf. Ep. 101, 16: SC 208, 42), e em vista da sua altíssima missão foi ‘pré-purificada’ (Oratio 38, 13: SC 358, 132, quase um distante prelúdio do dogma da Imaculada Conceição). Maria é proposta como modelo aos cristãos, sobretudo às virgens, e como socorro a ser invocada nas necessidades (cf. Oratio 24, 11: SC 282, 60-64).

            Gregório recorda-nos que, como pessoas humanas, devemos ser solidários uns com os outros. Escreve : ‘Todos nós somos uma só coisa no Senhor’ (cf. Rm 12, 5), ricos e pobres, escravos e livres, sadios e doentes; e única é a cabeça da qual tudo provém : Jesus Cristo. E como fazem os membros de um só corpo, cada um se ocupe do outro, e todos de todos. Depois, referindo-se aos doentes e às pessoas em dificuldade, conclui : ‘Esta é a única salvação para a nossa carne e para a nossa alma : a caridade para com eles’ (Oratio 14, 8 de pauperum amore: PG 35, 868ab).

            Gregório ressalta que o homem deve imitar a bondade e o amor de Deus, e portanto recomenda : ‘Se és sadio e rico, alivia a necessidade de quem é doente e pobre; se não caíste, socorre quem caiu e vive no sofrimento; se és feliz, conforta quem está triste; se tens sorte, ajuda quem está aflito pela desventura. Dá a Deus uma prova de reconhecimento, porque és um dos que podem beneficiar, e não dos que têm necessidade de ser beneficiados... Sê rico não só de bens, ou melhor, unicamente dela. Supera a fama do teu próximo desaventurado, imitando a misericórdia de Deus’ (Oratio 14, 26 de pauperum amore: PG 35, 892bc).

            Gregório ensina-nos antes de tudo a importância e a necessidade da oração. Ele afirma que ‘é necessário recordar-se de Deus com mais frequência de quanto se respira’ (Oratio 27, 4: PG 250, 78), porque a oração é o encontro da sede de Deus com a nossa sede. Deus tem sede de que nós tenhamos sede d’Ele (cf. Oratio 40, 27: SC 38, 260). Na oração devemos dirigir o nosso coração para Deus, a fim de nos entregarmos a Ele como oferenda para purificar e transformar. Na oração vemos tudo à luz de Cristo, deixamos cair as nossas máscaras, imergimo-nos na verdade e na escuta de Deus, alimentando o fogo do amor.

            Numa poesia que é ao mesmo tempo meditação sobre a finalidade da vida e vocação implícita para Deus, Gregório escreve : ‘Tens uma tarefa, ó minha alma/ Uma grande tarefa, se quiseres./ Perscruta seriamente a ti mesma, / o teu ser, o teu destino;/ de onde vens e onde deverás pousar;/ procura conhecer se é vida a que vives/ ou se há algo mais./ Tens uma tarefa, ó minha alma,/ portanto purifica a tua vida:/ considera, por favor, Deus e os Seus mistérios,/ indaga o que há antes deste universo/ e o que ele é para ti,/ de onde veio, e qual será o seu destino./ Eis a tua tarefa,/ ó minha alma,/ purifica, portanto a tua vida’ (Carmina (historica) 2, 1, 78: PG 37, 1425-1426). Continuamente o Santo Bispo pede ajuda a Cristo, para se erguer e retomar o caminho : ‘Fui desiludido, ó meu Cristo,/ pelo meu demasiado presumir:/ das alturas caí muito em baixo./ Mas eleva-me de novo agora, porque vejo/ que por mim próprio me enganei;/ se ainda confiar demais em mim mesmo,/ cairei de novo, e a queda será fatal’ (Carmina (historica) 2, 1, 67: PG 37, 1408). Portanto, Gregório sentiu a necessidade de se aproximar de Deus para superar o cansaço do próprio eu. Experimentou o impulso da alma, a vivacidade de um espírito sensível e a instabilidade da felicidade efêmera. Para ele, no drama de uma vida sobre a qual pesava a consciência da própria debilidade e da própria miséria, a experiência do amor de Deus sempre teve a supremacia.

            Tens uma tarefa, alma, diz-nos São Gregório, a tarefa de encontrar a verdadeira luz, de encontrar a verdadeira altura da tua vida. E a tua vida é encontrar-te com Deus, que tem sede da nossa sede.

(8 de agosto de 2007)
(22 de agosto de 2007)

Festa litúrgica : 02 de Janeiro, tal qual São Basílio

Fonte :
* Bento XVI, Santos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.