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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Uma pastoral de escuta, proximidade e acompanhamento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Joaquim Pereira,

Missionário Comboniano

 

‘O padre Roberto Minora, com a sua paciência e bom humor, introduziu-me na realidade social de Marcos Moura, marcada pela pobreza generalizada, crescente violência e os grandes desafios que as famílias enfrentam no quotidiano da vida. Gradualmente, inseri-me nas diversas pastorais das comunidades cristãs que procuramos acompanhar com zelo, amor e compaixão, ao jeito de Jesus. Sabemos muito bem que toda a pastoral vai beber ao múnus de Cristo, isto é, ela está ligada à missão de Cristo, o Bom Pastor.

O acolhimento que recebi por parte das comunidades cristãs foi fervoroso e afetuoso. Fizeram-me sentir parte desta grande família que é o Povo de Deus. Gente simples, respeitosa e guerreira, pois a vida quotidiana é dura para a maior parte das pessoas que moram neste bairro do município de Santa Rita, Paraíba. Porém, a dureza da vida não lhes rouba a alegria de viver e a gentileza no trato com os outros.

Ação pastoral

Partindo do princípio de que a pastoral visa fundamentalmente anunciar Cristo ao mundo e colaborar no projeto humanizador do Pai, ela envolve não apenas os pastores, mas toda a comunidade cristã. Sempre acreditei no protagonismo comunitário e não individual. Também os ritmos, os métodos, o modo de se fazer as coisas são igualmente diferentes em cada situação histórica onde o Evangelho é anunciado e encarnado.

Neste breve tempo de ação pastoral que tenho vindo a realizar na paróquia de Marcos Moura, a minha atuação tem sido mais de escuta, proximidade e acompanhamento, marcada pelo anúncio do Evangelho e formação cristã. De facto, os nossos interlocutores são pessoas que já conhecem a Cristo. Os desafios pastorais apontam mais para uma ação dirigida aos cristãos cuja fé ainda é bastante superficial ou marcadamente de sabor popular. Mas sentimos também a necessidade de ir à procura da «ovelha perdida». As igrejas evangélicas que vemos amontoadas ao longo das ruas com toda a sua gritaria e intenção proselitista podem «apanhar» aqueles cristãos católicos mais desprevenidos quanto a fé e compromisso.

Nesta realidade eclesial onde estamos inseridos, em que as nossas comunidades cristãs são relativamente pequenas, temos procurado encorajar os cristãos a viverem a sua vocação na Igreja em chave missionária, incentivando-os a ter uma presença mais forte nas casas das pessoas em forma de visita planeada em que se reza o terço, se celebra a Eucaristia reunindo os cristãos residentes naquela área e outras iniciativas. Aprecio muito os passos que algumas comunidades têm dado nesta direção de «sair para a rua» no sentido de evangelizar, mas ainda há muito que fazer

Servir os mais necessitados

A ação pastoral envolve, entre outras coisas, o serviço aos necessitados, o estudo bíblico, a dimensão celebrativa que temos procurado promover nas nossas comunidades cristãs. Conscientes de que estamos inseridos numa realidade social bastante pobre, com muitas carências humanas e afetivas, o desafio de uma participação mais generosa por parte das comunidades neste serviço aos mais carenciados é cada vez mais pertinente.

A paróquia, por meio da Pastoral da Criança, realiza ações de apoio aos menores e às suas famílias vulneráveis. Temos também outras instituições de cariz social, animadas e planeadas pelos combonianos e suas respectivas equipas, que dão um apoio extraordinário aos mais desfavorecidos da população. Entre elas, destacamos : o Centro de Formação Educativo Comunitário, sob a direção das Irmãs da Divina Providência; o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Dom Óscar Romero; o Projeto Legal, programa de apoio às crianças e adolescentes em vulnerabilidade social; a Cooperativa de Catadores de Reciclagem. 

Desafios

Sentimos a necessidade de reativar e fortalecer a pastoral juvenil, familiar e vocacional. Infelizmente, a maioria dos cristãos não mostram grande disponibilidade em assumir compromissos e, nesse sentido, há um trabalho enorme a fazer para consciencializar as pessoas e envolvê-las mais nos diversos ministérios da comunidade.

Por fim, manifesto um desejo que trago no coração : poder vislumbrar uma igreja diocesana menos clerical e mais pastoral. Posso correr o risco de estar equivocado, pois estou aqui há pouco tempo, mas é um sentimento que quero expressar de forma fraterna. Citando as palavras do Papa Francisco, tenho a impressão de que a atitude de fundo que mais aflora numa grande parte do nosso clero é de serem «clérigos de Estado» e não «pastores do povo». É um sinal evidente de que existe ainda alguma resistência em se despojar das seguranças «clericais».

   Sonho com uma pastoral de escuta, proximidade e acompanhamento, porque esta foi a prática de Jesus como parte da sua pedagogia do caminho em que Ele agia na vida das pessoas sempre a partir das suas situações concretas e existenciais, e em comunhão constante com o Pai, que O enviou como Servo de todos. Consciente das minhas limitações, desejo também fazer o mesmo caminho.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/actualidade/6/1409/uma-pastoral-de-escuta-proximidade-e-acompanhamento/

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Pastoral da Criança: cuidando da vida, nutrindo a esperança

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Simone Magalhães 

 

‘Médica sanitarista, determinada e doce ao mesmo tempo, doutora Zilda Arns Neumann foi uma mulher extremamente corajosa, que infelizmente nos deixou. Sempre à frente de seu tempo, viveu em busca da defesa de pobres e oprimidos, defendendo e promovendo crianças, gestantes e idosos. Uma guerreira que se mantinha por uma sociedade mais justa, com menos doenças e sofrimento das pessoas. Abrindo o coração, colocando sua emoção e determinação, ela fundou a Pastoral da Criança, em 1983, além da Pastoral da Pessoa Idosa.

Em seu trabalho, a doutora Zilda Arns sempre aliou conhecimento científico à cultura popular, valorizou o papel da mulher sem recursos na transformação social, mobilizou a todos, pobres e ricos, analfabetos e doutores, na busca da vida plena para todos. Ela costumava dizer : ‘Há muito que fazer, porque a desigualdade social é grande. Os esforços que são feitos precisam ser valorizados para que gerem outros ainda maiores’.

Infelizmente, ela se foi no dia 12 de janeiro de 2010, durante um terremoto que devastou o Haiti. Terrível coincidência : nesse mesmo dia, ela discursou sobre como salvar vidas – com medidas simples, educativas e preventivas. Fez o que sempre falou : congregar mais pessoas para se unirem na busca de vida em abundância para crianças e gestantes pobres, deixando sua marca na história do Brasil ao fundar a Pastoral da Criança e Pastoral da Pessoa Idosa.

Muitos foram os ensinamentos que a doutora Zilda Arns nos deixou e que servem de inspiração na ação da Pastoral da Criança. Ela tinha plena consciência de que as transformações da sociedade acontecem a partir de uma pequena comunidade que se organiza : sem deixar de cobrar, de exigir do poder público e da sociedade o cumprimento dos seus deveres. 

Ficou o legado de solidariedade aos mais pobres, de amor à Pastoral da Criança. Seu exemplo nos desafia a valorizar a vida com o dom de Deus. Na missão no Haiti, a médica trabalhou formando redes e parcerias com a sociedade civil, com o Ministério da Saúde, organizações não-governamentais (ONGs), grupos sociais e sempre trabalhando em unidade com a igreja. Em sua vida e missão, lutou por um ideal igualitário e priorizou os princípios da solidariedade, trabalhando por justiça e ética social. Nas suas orientações sempre foi adepta da transparência, do respeito pelas pessoas e pela valorização permanente das crianças, gestantes e das famílias. 

Educação para a vida e saúde infantil

Para Zilda Arns, a educação era um dos pilares fundamentais para promover a vida plena. Ao abordar a importância da educação infantil, ela enfatizava a necessidade de um ambiente educativo que oferecesse, além de profissionais bem formados, espaços e materiais apropriados para o desenvolvimento integral das crianças. Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para educação infantil (Ministério da Educação/Secretaria de Educação Básica), ‘uma boa pré-escola precisa de locais para brincadeiras, atividades pedagógicas e objetos que permitam o desenvolvimento criativo’. Para Zilda, a parceria entre famílias e profissionais era essencial, incentivando a participação ativa dos pais nas atividades escolares.

Não havia condições de educação que fossem oferecidas pelas autoridades locais. Assim, a médica incentivava a Pastoral da Criança e líderes comunitários a se organizarem para garantir às crianças acesso à educação, mostrando que o desenvolvimento começa nas pequenas comunidades que se mobilizam por seus direitos.

Multiplicando saber e solidariedade

Doutora Zilda acreditava em três atitudes essenciais para a missão da Pastoral da Criança : multiplicar o saber, a solidariedade e os esforços. Multiplicar o saber, para ela, significava ensinar às pessoas ações básicas de saúde, como cuidados com a higiene, soro caseiro e o aleitamento materno. Ela fazia questão de valorizar o desenvolvimento infantil e direito ao brincar, oferecendo o suporte necessário nos primeiros mil dias de vida do bebê. Multiplicar a solidariedade era chegar aos lugares mais remotos, ajudando quem mais precisa. E, com determinação, multiplicar os esforços que consistiam em mobilizar políticas públicas, organizações não-governamentais e empresas de responsabilidade social.

Ferramentas para a pastoral

Sempre atenta às inovações, doutora Zilda Arns incentivou o uso de novas tecnologias na Pastoral da Criança, mostrando-se uma visionária. Um exemplo disso foi o AppVisita, uma ferramenta que facilita a comunicação entre os voluntários e as famílias, promovendo o acompanhamento contínuo das crianças e das gestantes. ‘Ela sempre foi adepta das inovações que ajudavam as bases’, comentou Irmã Veroni Medeiros, da Coordenação Nacional da Pastoral da Criança.

A partida no Haiti e o legado de uma vida

Em 2010, doutora Zilda estava no Haiti para levar adiante sua missão quando um terremoto atingiu o país. Naquele mesmo dia, ela discursava sobre a importância de medidas preventivas para salvar vidas, mantendo-se fiel ao seu propósito de promover uma ‘vida em abundância’. Sua partida deixou marcas profundas, mas seu legado permanece vivo na missão da Pastoral da Criança, que segue ativa e fiel aos seus ensinamentos.

Irmã Veroni Medeiros destacou a relevância da doutora para o trabalho da pastoral : ‘Ela sabia que as transformações acontecem nas pequenas comunidades que se organizam, sem deixar de cobrar do poder público o cumprimento dos seus deveres’. Esse compromisso com a transformação social foi enfatizado também por Dom Frei Severino, que afirmou : ‘Vocês, líderes da pastoral, são a manifestação viva do amor de Deus para com os mais frágeis’.

Valorização da família e cuidado com a criança

A Pastoral da Criança desenvolveu metodologias que seguem orientando as famílias em diversos aspectos, como a prevenção à desidratação infantil com o soro caseiro, que salvou milhões de crianças ao redor do mundo. Doutora Zilda tinha um olhar atento ao fortalecimento da família, orientando as mães sobre a importância da alimentação, do aleitamento e da higiene. Lavar as mãos, por exemplo, era uma prática simples que ela valorizava para prevenir doenças.

O Dia Mundial de Lavar as Mãos, comemorado em 15 de outubro, é um marco nas ações de conscientização da pastoral, que promove o hábito entre crianças e famílias. Para Zilda Arns, a conscientização da família era fundamental, a partir dos bons hábitos desenvolvidos na infância e que podem transformar as futuras gerações.

A importância do pré-natal e cuidado com a gestante

A defesa da importância do pré-natal de qualidade para garantir a saúde, tanto da mãe quanto do bebê, desde sempre. Zilda fazia o acompanhamento médico durante toda a gestação, especialmente para grávidas, em situação de vulnerabilidade, o que também faz parte das orientações da Pastoral da Criança. A médica ginecologista doutora Joslaine Lamoglia reforça: ‘O uso de drogas durante a gestação pode causar sérias complicações, como aborto espontâneo e problemas de desenvolvimento para o bebê’. Para a médica Zilda Arns, os cuidados deveriam ser preventivos, promovendo o bem-estar de toda a família.

Amamentação e alimentação saudável

Doutora Zilda promovia a importância da amamentação exclusiva até os 6 meses de idade, valorizando o leite materno, como alimento completo para o bebê. Para ela, a alimentação saudável deveria ser incentivada em toda a família, destacando o papel dos pais na escolha de alimentos nutritivos e na criação de bons hábitos alimentares.

Médica católica na visão dos líderes religiosos

O Papa Francisco, ao falar sobre doutora Zilda Arns, destacou que ela nunca foi indiferente às necessidades do próximo. Dom Frei Bernardo Bahlmann, bispo de Óbidos (PA), descreveu a doutora Zilda como uma mulher de fé e ações concretas, que ‘olhou a realidade da família, considerando aspectos como a amamentação, renda familiar e a higiene’.

Em suas palavras, Dom Amilton Manoel da Silva, bispo de Guarapuava (PR), lembra que ela é uma inspiração para todos que dedicam suas vidas ao cuidado com os mais necessitados. Sua atuação concreta foi – e ainda é – uma referência para líderes religiosos e todos os voluntários que seguem com sua missão.

O futuro da Pastoral da Criança

A Pastoral da Criança continua seu trabalho em milhares de comunidades no Brasil e no mundo, mobilizando mais de 42 mil voluntários. São líderes comunitários, inspirados pela trajetória da doutora Zilda. E continuam dedicando a orientação e apoio às famílias. Desde 1983, a pastoral se mantém como uma presença viva do amor de Deus, cumprindo sua missão de solidariedade e partilha fraterna.

O impacto de doutora Zilda Arns vai além de números ou estatísticas: ele se reflete em cada vida tocada por sua dedicação. A Pastoral da Criança segue em frente, multiplicando o saber e a solidariedade que ela tanto defendia, promovendo uma sociedade mais justa e igualitária para todos.

Um exemplo de amor ao próximo

A história de doutora Zilda Arns Neumann permanece viva em cada gesto de cuidado e acolhimento realizado pela Pastoral da Criança. Ela foi uma mulher de fé e ações concretas, cuja missão ultrapassou barreiras culturais e geográficas. Doutora Zilda nos deixou um legado de amor e dedicação ao próximo. Sua obra continua inspirando e transformando a vida de milhares de pessoas, no rumo de uma sociedade mais justa, fraterna e humana.

            Para os maiores em busca da boa educação

Ambiente limpo e arejado: o local escolar deve ser sempre sem sujeira, bem ventilado e com materiais pedagógicos regularmente higienizados.

Segurança : a escola precisa oferecer segurança com muros, grades e telas de proteção, além de controlar o acesso de visitantes e garantir a entrega segura das crianças.

Alimentação : é muito importante que o cardápio escolar seja saudável, com orientação de nutricionista, evitando opções com excesso de açúcar e gordura.

Estrutura : a escola deve ter espaços apropriados para atividades ao ar livre, descanso e alimentação, sempre ventilados e protegidos do sol

Professores e quantidade de escolares : o número de crianças por professor deve seguir as orientações do Conselho Nacional de Educação, respeitando a faixa etária para garantir atenção adequada.

Proposta pedagógica : a escola deve ter uma proposta pedagógica clara e alinhada aos valores e expectativas dos pais, promovendo o desenvolvimento integral da criança.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/pastoral-da-crianca-cuidando-da-vida-nutrindo-a-esperanca.html


sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Catequistas instituídos, exorcismo e outras tarefas

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Aula de Catequese em pequena comunidade cambojana

*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Agora é pra valer. Com o rito de instituição de ministério do catequista formalizado, agora resta aplicá-lo nas paróquias. Caberá ao bispo decidir quem poderá receber esse reconhecimento ou não. O documento é claro.

Por outro lado, será um desafio convencer os 'leigos clericalizados' que tal reconhecimento é um modo de reforçar a importância desse serviço, não de elevá-lo ao ‘grau’ de sei-lá-o-que. E aquela velha mania de hierarquizar tudo; até o que, pela sua própria natureza, não entra nos moldes de nenhum ‘organograma’ humano.

Jesus Cristo foi o primeiro catequista. Era um mestre de vida que, com seu testemunho, formou discípulos. Portanto, o modelo do catequista é o próprio Cristo.

E os catequistas, por sua vez, são chamados a criar, a partir da sua missão, uma sequela Christi - pessoas sensíveis à voz de Deus, que o coloquem acima de tudo em suas vidas, e mais : que façam do cristianismo um ideal de vida, não uma ideologia que baila à mercê das modas político-ritualísticas de turno.

O ministério do catequista nunca foi algo marginal ou considerado de 'segunda categoria' dentro da história do cristianismo. E quando o Papa Francisco o formaliza, simplesmente faz jus à história dessa prática.

Basta nos recordarmos do que foi o catecumenato na Igreja primitiva, principalmente entre os séculos II e V. Essa preparação para o sacramento do batismo e do crisma era dividida em etapas : primeiro, o candidato era apresentado para a comunidade; depois, participava de uma formação, que poderia durar até 3 anos; por fim, era feito um escrutínio para avaliar se a conduta da pessoa correspondia aos princípios da religião. Caso houvesse a aprovação, o catecúmeno poderia se preparar para receber os sacramentos já na quaresma seguinte.

A carta de Agostinho ao diácono Deogratias, a De catechizandis rudibus, escrita em torno de 400 d.C, traz uma metodologia de ensino feita para os 'rudes', ou seja, àqueles que se preparavam para o batismo. Nada mais era que uma lista de orientações ao instrutor (catequista) sobre como introduzir o neoconvertido aos conteúdos básicos da fé.

Ensinar é para poucos. E despertar interesse pela religião nos tempos de hoje é mais desafiador ainda.

E o Papa Francisco, sabendo que a catequese é a ponta de lança de qualquer projeto de evangelização, dá a ela o lugar devido. E mais : oferece todos os subsídios para que esse serviço, no dia a dia das paróquias, cresça em qualidade.

No documento sobre o rito da instituição do ministério, publicado esta semana pela Congregação para o Culto Divino, mais uma prova de que Francisco não quer que o protagonismo dos leigos se reduza a um slogan, como tem acontecido em muitos lugares. Mas que, concretamente, esses agentes de pastoral assumam a tarefa de 'repropor' o cristianismo ao homem moderno. Tanto que o Vaticano orienta que seminaristas recém-aprovados para o diaconato e freiras evitem assumir a função, justamente para dar espaço ao laicado.

O prefeito da congregação, Dom Arthur Roche, em carta aos presidentes das conferências episcopais, surpreendeu ao falar que o papel de catequista não está restrito ao ensinamento, mas trata-se de uma verdadeira diaconia que engloba o cuidado para com os doentes, a coordenação de iniciativas pastorais e o auxílio direto aos sacerdotes.

Tanto que, num trecho, recorda uma faculdade já prevista pelo rito de iniciação de adultos, e que pode ser exercida por catequistas : a realização de exorcismos menores, caso o bispo considere oportuno. Na Igreja Católica, há dois tipos de exorcismo : os solenes ou maiores, aplicados em caso de possessão (que só podem ser presididos por um bispo ou um padre autorizado) e os menores, que são orações de libertação voltadas especialmente para o catecúmenos.

Ministério dos leitores, acólitos e catequistas para todos os leigos, enquanto um sínodo sobre a sinodalidade reflete, justamente, o papel de todos os batizados na Igreja Católica. Mais católico que isso, impossível. E há quem diga que Francisco não seja católico. Certamente, quem faz essa afirmação, nem sabe o que é catolicidade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1555886/2021/12/catequistas-instituidos-exorcismo-e-outras-tarefas/

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

'Samaritanus bonus': o dever do acompanhamento dos doentes

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
Igreja Católica continua afirmando que "a eutanásia é um crime contra a vida humana porque, com tal ato, o homem escolhe causar diretamente a morte de um outro ser humano inocente"

*Artigo de Alexandre P. Martins,

professor de bioética e ética social


‘O título desse artigo é uma frase da conclusão da carta da Congregação para a Doutrina da Fé, Samaritanus bônus : Sobre o cuidado das pessoas nas fases críticas e terminais da vida, que trata sobre questões éticas e pastorais sobre o fim da vida, especialmente as relacionadas à eutanásia, à a morte assistida e ao cuidado com os enfermos em fase terminal. Essa carta apresenta uma teologia da pastoral da saúde que merece ser estudada e refletida por toda a comunidade católica, mas, particularmente, pelos agentes de pastoral da saúde, parte viva da Igreja que se dedica ao acompanhamento pastoral dos enfermos, realizando concretamente o dever evangélico de acompanhar os doentes, a exemplo do Bom Samaritano.

Samaritanus bonus foi criticada por não apresentar uma perspectiva ética ‘inovadora’, que abriria caminho para a aceitação moral do enceramento da vida por meio da eutanásia ou do suicídio assistido de uma pessoa enferma em situação terminal irreversível. Isso não aconteceu e a Igreja Católica continua afirmando que ‘a eutanásia é um crime contra a vida humana porque, com tal ato, o homem escolhe causar diretamente a morte de um outro ser humano inocente’. Dessa forma, o documento entente que a eutanásia é um ‘ato intrinsecamente mau’ e deve ser rejeitado em qualquer circunstância. A vida humana tem um valor intrínseco que não é diminuído quando uma pessoa não tem mais a mesma vitalidade e caminha para o fim da sua vida. Esse caminho final deve seguir o processo natural de morte, com o acompanhamento da comunidade cristã que promove o cuidado por meio da sua presença junto à pessoa que sofre e o auxílio da medicina para aliviar a dor física.

Muitas questões podem ser discutidas, levando em conta as bases éticas que a carta utiliza para fundamentar sua perspectiva. Pode-se também discutir a interpretação que faz da tradição moral católica para chegar ao total fechamento para qualquer possibilidade de abreviar o processo de morte de um paciente terminal. Ademais, são compreensíveis as interrogações sobre a ausência da visão do papa Francisco a respeito do discernimento pastoral a partir do imperativo da consciência, como ele apresenta na exortação apostólica Amoris Laetitia, apesar de frases de Francisco serem citadas no documento. Todos esses questionamentos, entre outros, têm sua razão de ser e merecem ser discutidos com atenção, embora não será este o objetivo dessa reflexão.

Apesar de vulnerável a fortes críticas, a Samaritanus bonus apresenta uma teologia do acompanhamento pastoral dos enfermos que certamente oferece uma contribuição ao trabalho da pastoral da saúde. A partir da parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 29-37), o documento apresenta que ‘é próprio da Igreja acompanhar com misericórdia os mais fracos no seu caminho de dor, para manter neles a vida teologal e orientá-los à salvação de Deus’. O samaritano é um ‘coração que vê’ o sofrimento do outro, não permitindo outra ação, senão a atitude de cuidar daquele que sofre.

Os agentes de pastoral da saúde vivem de forma privilegiada o ministério da Igreja de cuidar dos doentes, especialmente daqueles que estão sozinhos ou sofrem abandonados devido à sua situação social de pobreza e marginalização. Esse ministério está no coração do evangelho, como o documento destaca : ‘O evangelho da vida é um evangelho da compaixão e da misericórdia, direcionado ao homem concreto, fraco e pecador, para aliviá-lo, mantê-lo na vida da graça e, se possível, curá-lo de toda ferida’.

Reconhecendo essa missão evangélica e a importância da pastoral da saúde, a Congregação para a Doutrina da Fé afirma que o acompanhamento pastoral dos enfermos é parte integral do cuidado dos enfermos em fase terminal, enfatizando a necessidade dos cuidados paliativos, área médica da qual a pastoral da saúde – por meio de capelães e agentes –, deve fazer parte para proporcionar conforto emocional e espiritual. Diz o documento : ‘dos cuidados paliativos faz parte a assistência espiritual ao doente e aos seus familiares. Esta infunde confiança e esperança em Deus ao moribundo e aos familiares, ajudando-os a aceitar a sua morte. É uma contribuição essencial que diz respeito aos agentes de pastoral e à inteira comunidade cristã, a exemplo do Bom Samaritano, para que a rejeição dê lugar à aceitação e sobre a angústia prevaleça a esperança, sobretudo quando o sofrimento se prolonga pela degeneração patológica, ao aproximar-se do fim’.

A Samaritanus bonus foi assinada pelo prefeito da Congregação da Doutrina da Fé – cardeal Luis Ladaria – em 14 de julho de 2020, Festa de São Camilo de Lélis, patrono dos enfermos e dos profissionais da saúde. Não acredito que ele tenha escolhido essa data por acaso, pois São Camilo continua sendo uma inspiração para o cuidado com os enfermos com o ‘coração nas mãos’. Esse documento agora acrescenta que precisamos de um coração que vê o outro que sofre, isto é, um coração samaritano. Com o coração que vê e que age nas mãos de quem cuida, ‘o acompanhamento pastoral chama em causa o exercício das virtudes humanas e cristãs da empatia (en-pathos), da compaixão (cum-passio), do responsabilizar-se pelo sofrimento e compartilhá-lo, e da consolação (cum-solacium), de entrar na solidão do outro para fazê-lo sentir-se amado, acolhido, acompanhado e apoiado’.

O acompanhamento dos doentes é a missão da pastoral da saúde. Se, por um lado, a Samaritanus bonus tem pontos passíveis de questionamentos, por outro, ela oferece uma rica reflexão à pastoral da saúde, uma reflexão que mostra a importância desse trabalho pastoral e que, ao mesmo tempo, oferece uma teologia sobre a missão da Igreja no cuidado com os enfermos, que merece ser estuda pelos grupos de pastoral da saúde para que cresçam no seu testemunho de acompanhar os doentes e sofredores com um coração que vê o sofrimento e age para aliviá-lo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1484650/2020/11/samaritanus-bonus-o-dever-do-acompanhamento-dos-doentes/

domingo, 22 de novembro de 2020

Jesuítas apresentam guia para a pastoral em tempos de pandemia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
Em vista do bem mais universal, jesuítas buscaram preservar a saúde de seus membros

*Artigo do Padre Aaron Pidel, SJ 

Tradução : Ramón Lara


Experiência com a ‘Peste de Milão’ ilustra o discernimento necessário para a suspensão ou não de ministérios

 

‘Quando a Igreja Católica optou por se tornar virtual para seus encontros da Semana Santa no ano passado, tive dúvidas sobre a escala de valores relativa que isso implicava. Jesus certamente nos ensina a priorizar a saúde espiritual sobre as questões temporais : ‘E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo’ (Mt 10,28). Além disso, como jesuíta, estou angustiado pelas histórias de padres mais velhos, nossos antecessores, que se colocaram em perigo para levar a palavra de Deus aos fiéis no passado. ‘Para que servem os filhos de Loyola’, perguntou o bem-aventurado Miguel Pró numa carta escrita pouco antes do seu martírio, ‘se fogem ao primeiro sinal?’. O cancelamento dos sacramentos e ministérios por causa do coronavírus refletiria uma perda de fé ou pelo menos de coragem?

Com essa questão um tanto inquietante em mente, comecei a estudar o registro histórico, especialmente a resposta pastoral dos jesuítas na Itália à chamada Peste de São Carlos em Milão (1576-78). O que encontrei me surpreendeu. Mesmo no contexto da peste, os jesuítas restringiram as ofertas sacramentais para preservar a vida temporal, embora não a vida por si mesma. Mas, ao moderar estrategicamente sua ousadia, eles começaram a brigar com ninguém menos do que com São Carlos Borromeu. O ‘estudo de caso’ pode fornecer um padrão mais indulgente para avaliar a resposta pastoral da Igreja contemporânea.

Antes de descrever em detalhes a estratégia pastoral dos jesuítas e sua lógica, é importante observar algumas semelhanças e diferenças importantes entre la peste di San Carlo e nossa nova pandemia de coronavírus. Às vezes, presume-se que os primeiros modernos não tinham noção do contágio interpessoal e, portanto, do perigo que os ministros no meio da praga representavam, não apenas para eles mesmos, mas para os outros. Isto é falso. No século 16, o conselho de saúde milanês subscreveu a teoria do contágio, tomando isso como a justificativa para confinar os doentes em um hospital isolado (um lazaretto) fora das muralhas da cidade. A peste de Milão revelou-se muito mais virulenta do que a Covid-19. A maioria estima que ao longo de 18 meses, atingiu cerca de 17 mil milaneses, cerca de 15% da população da cidade. O número proporcional de mortes nos Estados Unidos seria de quase 50 milhões. Em suma, os jesuítas milaneses enfrentaram uma crise de saúde que, embora análoga à nossa, pertencia a outra ordem de magnitude.

Como os jesuítas em Milão reagiram a uma peste considerada altamente contagiosa? De acordo com o livro Plague? Contos jesuítas de doenças epidêmicas no século 16, de A. Lynn Martin, os religiosos adotaram o que era mais ou menos a política jesuíta ‘oficial’ para a pastoral no tempo da peste. Com a bênção do superior geral jesuíta, Everard Mercurian, isolaram a maioria dos jesuítas enquanto dedicavam alguns sacerdotes aos ministérios espirituais vitais para as vítimas da peste, especialmente a confissão. Naquela época, Milão tinha comunidades jesuítas vinculadas ao Collegio di Brera e à paróquia de San Fedele. Os religiosos mantiveram os professores e acadêmicos na faculdade, de longe o grupo maior, mas deixaram um punhado de voluntários na Casa di San Fedele para cuidar das vítimas da peste. Dois dos voluntários jesuítas caíram na peste quase imediatamente, e outros então se ofereceram para ocupar seu lugar. Embora os jesuítas não se esquivassem do heroísmo, canalizavam seus impulsos heroicos para colher os maiores dividendos espirituais de seu investimento na vida.

Essa resposta, entretanto, não agradou a todos. São Carlos Borromeu, então cardeal e arcebispo de Milão, censurou amargamente a Ordem Religiosa ao saber que os jesuítas de San Fedele não estavam junto aos enfermos, mas apenas ouvindo suas confissões. Um dos jesuítas do colégio, Bernardino Viottino, revelou em uma carta escrita ao padre Mercurian que tentou em vão apaziguar o arcebispo junto às autoridades teológicas. Tendo aduzido fortes opiniões contra a existência de uma estrita obrigação de dispensar a Comunhão às vítimas da peste, Viottino concluiu : ‘Monsenhor, ensinamos a doutrina que recebemos dos santos doutores e nada mais’. O cardeal Borromeo respondeu : ‘Você não é bispo e não cabe a você dizer o que devemos fazer. Não gosto desta doutrina e não a quero’. Sem dúvida, o arcebispo preferiu a abordagem dos capuchinhos, que enviaram seus frades em massa para ministrar no lazaretto, perdendo 10 ao todo. A Companhia de Jesus claramente usou critérios diferentes para determinar o escopo de sua resposta.

Que princípios guiaram sua deliberação? Os dois mais significativos eram a indiferença, no sentido jesuíta, e o bem mais universal. A indiferença jesuíta encontra expressão clássica no Princípio e fundamento, a consideração introdutória no livro dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Depois de observar que o propósito das pessoas humanas é ‘louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor, e por este meio salvar suas almas’, o Princípio e fundamento chega a uma conclusão bastante estimulante : ‘é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais; mas somente desejemos e escolhamos o que mais nos conduz para o fim para que somos criados’. Essa indiferença à saúde implica, é claro, que um bom jesuíta arriscará sua saúde quando a salvação de almas o exigir. Mas a indiferença à doença, também implícita, significa que um bom jesuíta também não insistirá na autoimolação imprudente. A opção a ser escolhida deve depender unicamente de seu fim : o serviço divino.

De acordo com as constituições jesuítas, porém, este serviço divino maior é praticamente sinônimo do ‘bem mais universal’ : ‘Quanto mais universal é o bem, mais divino’. Este segundo princípio estabelece que os superiores jesuítas, olhando para a Igreja ‘universal’ ao invés de uma única região, devem priorizar missões que atendam às necessidades espirituais mais urgentes ou tenham uma influência espiritual de maior alcance.

Dado esse padrão na escolha das missões, facilmente se percebe por que os jesuítas chegaram a um julgamento prudente diferente daquele do cardeal Borromeo, cujo único horizonte pastoral permaneceu sendo sua diocese infestada de pragas. Como membros de uma ordem religiosa internacional, em contraste, o horizonte dos jesuítas incluía um empreendimento educacional extenso, mas cronicamente insuficiente. Em 1575, os jesuítas tinham 3.905 membros e 210 escolas, muitos deles em regiões de campo de batalha religiosa como a Alemanha. Diante desta situação, continuaram favorecendo a política que Juan de Polanco propôs a São Pedro Canísio já em 1562 :

A escassez de membros que temos na Alemanha obriga-nos a conservá-los da melhor maneira possível para o serviço divino e o bem comum. Embora devamos preferir o bem da alma alheia à nossa própria vida, não devemos expor a vida de um servo eficaz apenas para o consolo de uma pessoa, porque se o servo viver, poderá ajudar muitas almas.

Tendo responsabilidades diferentes das do cardeal Borromeo e ministérios tradicionais diferentes dos praticados pelos capuchinhos, os superiores jesuítas julgaram que o ‘bem mais universal’ seria mais bem servido pelo espírito de prudência e conservação do corpo docente da Ordem.

Em comparação com a abordagem dos jesuítas milaneses às doenças epidêmicas, a resposta da nossa Igreja contemporânea mostra diferenças instrutivas e semelhanças reconfortantes. Do lado das diferenças, os jesuítas milaneses priorizaram a confissão como o sacramento mais coerente com sua segurança. Os jesuítas teriam ficado intrigados ao ver como algumas paróquias durante a pandemia efetivamente suprimiram a confissão ou a restabeleceram por último, depois de todos os outros sacramentos.

Do lado das semelhanças, os jesuítas do século 16, assim como os pastores contemporâneos, não hesitaram em restringir os serviços sacramentais quando confrontados com doenças epidêmicas. Embora alguns, sem dúvida, acabem se afastando do apego excessivo à vida terrena, há boas razões para pensar que muitos permaneceram verdadeiramente indiferentes. Considerando imparcialmente que sua longevidade serviria melhor ao ‘bem mais universal’, eles exibiam uma espécie de autopreservação altruísta. Gosto de pensar que muitos na Igreja contemporânea, ordenados ou leigos, também são motivados por esta indiferença inaciana.

A estratégia pastoral jesuíta do século 16 sugere como se pode enquadrar a escala de valores do Evangelho com uma redução dos sacramentos em tempos de praga. Para aqueles jesuítas, a suspensão sacramental refletia não um medo excessivo do que pode ‘matar o corpo’, mas um julgamento prudente sobre o que pode salvar mais almas. Até o beato Miguel Pró admitia esse critério. Logo após perguntar retoricamente se os ‘filhos de Loyola’ poderiam fugir da luta algum dia, ele se conteve com humildade : ‘Não estou falando em geral; entendo que alguns certamente devem ser poupados, porque serão muito úteis algum dia’.

As palavras de Miguel Pro, portanto, têm duas formas. Lembram aos cristãos que optar pela autopreservação nem sempre é ‘vender’ ou diluir o Evangelho. Mas também lembram aos cristãos que, do ponto de vista do Evangelho, o objetivo de se abster dos sacramentos por um período não é viver mais; mas vivendo mais, sermos mais úteis.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1484257/2020/11/jesuitas-apresentam-guia-para-a-pastoral-em-tempos-de-pandemia/

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Capelães em aeroportos a serviço de 3 bilhões de passageiros

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


‘Capelães católicos na aviação civil provenientes de 23 países estarão reunidos na próxima semana durante a 16ª edição do Seminário mundial, em Roma. O Seminário é promovido pelo Pontifício Conselho da Pastoral para os Migrantes.

O encontro pretende estimular a ação pastoral da Igreja nos aeroportos à luz da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium de Papa Francisco, e também em vista do Jubileu da Misericórdia.


A Pastoral da Aviação Civil

A aviação civil tem um papel muito importante na sociedade moderna. Recentes estatísticas revelam que quase 30 milhões de voos foram registrados em 2014, com mais de 3 bilhões de passageiros transportados. Diante destes números, o Seminário se propõe a ajudar os capelães e membros das capelanias aeroportuárias a compreender, e colocar em prática, as mudanças pastorais necessárias para afrontar os novos desafios diante do aumento na circulação aeroportuária.


Presença fixa

Entre os principais desafios estão a atenção aos passageiros, o cuidado dispensado aos trabalhadores, o compromisso social e atenção à capela. Os capelães têm a tarefa de oferecer uma presença constante e concreta aos passageiros que, mesmo em períodos transitórios, devem ter a possibilidade de um encontro pessoal com Cristo durante os deslocamentos.

A mesma oportunidade deve ser dada aos trabalhadores aeroportuários e de voo que, sujeitos a horários variáveis, nem sempre têm a oportunidade de participar da vida paroquial. Este cuidado é estendido também às suas famílias. Além disso, os capelães também realizam um serviço humanitário. Sobretudo em casos particulares, como o auxílio a imigrantes irregulares retidos nos centros de detenção aeroportuários, ou nas situações de emergência quando o conforto espiritual e a solidariedade destes religiosos são indispensáveis.

Tudo isso acontece a partir da capela, lugar de encontro pessoal com Jesus. Em alguns aeroportos existem ainda salas de oração inter-religiosas que se transformam em ponto de encontro entre diferentes povos, culturas e confissões.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.news.va/pt/news/capelaes-em-aeroportos-a-servico-de-3-bilhoes-de-p
  

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Visitar os Enfermos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

‘A doença nos mostra o quanto somos limitados. A busca da saúde e a preocupação com a dignidade da assistência fazem parte de nossa faina e de nosso próprio instinto. Diante de tantas circunstâncias e situações, a Pastoral dos Enfermos é uma presença da Igreja em todos os âmbitos ligados a esta situação. É o anúncio de que Deus está presente em nossa vida, de maneira especial nesse momento de fragilidade em que aprendemos a trabalhar de um outro modo e a ser mais contemplativo, além do esforço de arrancar o mal pela raiz. É o que celebramos na Unção dos Enfermos. Pela sagrada Unção dos Enfermos e pela oração dos presbíteros, a Igreja toda entrega os doentes aos cuidados do Senhor sofredor e glorificado, para que os alivie e salve. Exorta os mesmos a que livremente se associem à paixão e à morte de Cristo, e contribuam para o bem do povo de Deus.

O Sacramento da Unção dos Enfermos, que podemos receber mais de uma vez quando passamos por doenças graves que necessitam de cuidados, é essa presença de fé e esperança nesse momento da vida. Costuma-se, na celebração, o padre dar ao doente o Sacramento da Confissão, com o propósito de o doente também arrepender-se de seus pecados e viver esse momento na graça de Deus.

Um importante requisito para a realização do Sacramento é a vontade do doente em querer recebê-lo. A família pode aconselhá-lo, chamar o padre a casa dele e propor o Sacramento, mas sem impô-lo ao doente. Recebido com fé, o Sacramento dará muitos frutos e graças.

Jesus sempre teve um grande carinho pelos doentes. Quando os judeus os desprezavam, porque consideravam a doença um castigo de Deus, Ele os acolhia com amor e os curava. ‘E passando, Jesus viu um cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe : Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu : nem ele nem seus pais, mas foi para se manifestarem nele as obras de Deus’ (Jo 9, 1-3). Jesus quis que aqueles que o acompanhavam continuassem sua missão, por isso deu a seus discípulos o dom da cura. ‘Então os discípulos partiram e pregaram para que as pessoas se convertessem. Expulsavam muitos demônios e curavam muitos doentes, ungindo-os com óleo’ (Mc 6, 12s). O Senhor ressuscita e renova este envio e confirma, através de sinais realizados pela Igreja, ao invocar seu nome : ‘Quando colocarem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados’ (Mt 16, 18).

Para aprofundar este tema é que temos a oportunidade de viver mais um Dia Mundial do Doente. Ele foi instituído por São João Paulo II em 1992, e é celebrado, anualmente, em 11 de fevereiro, na festividade de Nossa Senhora de Lourdes. Em nossa Arquidiocese, além da celebração na Basílica de Lourdes, teremos missa especial em hospitais de cada Vicariato com os agentes da pastoral, doentes, familiares, médicos, enfermeiros e funcionários para aprofundar esta proximidade da Igreja junto àquele que sofre.

Para reflexão desse dia, a Santa Sé divulgou, no dia 30 de dezembro de 2014, a mensagem do Papa Francisco para esse XXIII Dia Mundial do Doente.

O tema deste ano convida-nos a meditar uma frase do livro de Jó : ‘Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo’ (29,15). O Papa Francisco encoraja a fazer esta meditação na perspectiva da ‘sapientia cordis’, ou seja, da sabedoria do coração, e frisa que sabedoria do coração significa servir o irmão. Com efeito, as palavras de Jó evidenciam o serviço aos necessitados – insiste o Papa –, recordando aqui as pessoas que permanecem junto dos doentes que precisam de assistência contínua, de ajuda para se lavar, vestir e alimentar.

Este serviço, especialmente quando se prolonga no tempo, pode tornar-se cansativo e pesado; é relativamente fácil servir alguns dias, mas torna-se difícil cuidar de uma pessoa durante meses ou até anos, inclusive quando ela já não é capaz nem de agradecer. E, no entanto, que grande caminho de santificação é este! – exclama o Papa. Em tais momentos, pode-se contar, de modo particular, com a proximidade do Senhor, sendo, também, de especial apoio a missão da Igreja – escreve o Papa –, que continua : sabedoria do coração é sair de si para ir ao encontro do irmão.

Às vezes, o nosso mundo se esquece do valor especial que tem o tempo gasto à cabeceira do doente, porque, obcecados pela rapidez, pelo frenesi do fazer e do produzir, esquece-se a dimensão da gratuidade, do prestar cuidados, do encarregar-se do outro. No fundo, por detrás dessa atitude, há muitas vezes uma fé morna, que esqueceu a palavra do Senhor que diz : ‘a Mim mesmo o fizestes’. Por isso, o Papa Francisco recorda uma vez mais a ‘absoluta prioridade da ‘saída de si próprio’ para se pôr ao serviço do irmão necessitado.

Na mensagem, o Papa Francisco fala das sabedorias :
1-     Sabedoria do coração;
2-    Sabedoria do coração é servir o irmão;
3-    Sabedoria do coração é estar com o irmão;
4-    Sabedoria do coração é sair de si ao encontro do irmão;
5-    Sabedoria do coração é ser solidário com o irmão, sem julgá-lo.

Ao concluir a mensagem, o Papa Francisco se remete a Maria Santíssima, pois foi ela que acolheu em seu ventre a Sabedoria Encarnada, que é Jesus Cristo, e depois recitou uma prece : ‘Ó Maria, Sede da Sabedoria, intercedei como nossa Mãe por todos os doentes e quantos cuidam deles. Fazei que possamos, no serviço ao próximo sofredor e através da própria experiência do sofrimento, acolher e fazer crescer em nós a verdadeira sabedoria do coração’.

Temos um belo serviço de visita aos enfermos, que vejo com alegria que cada vez melhor se organiza. Agradeço a Deus e a tantos irmãos do clero que se desdobram em ser essa presença. Convido outros irmãos e irmãs para que se associem nessa missão evangelizadora e importantíssima, seja nas visitas aos hospitais, seja nas residências. Eu mesmo gostaria de ter mais possibilidade de ter essa presença, e, quando consigo, agradeço a Deus, como pude fazer algumas vezes durante a Trezena de São Sebastião.

Este é um convite que faço a todos os arquidiocesanos, para que, neste Ano da Esperança Cristã, levemos a esperança que é Cristo para os que estão nos leitos hospitalares, ou em suas residências presos a uma cama, enfermos. Tenho visto muitos exemplos e sinais dessa presença.

Que a luz divina do Cristo Ressuscitado brilhe nos corações de todos os enfermos e nas suas famílias. Que Maria Santíssima, Auxiliadora dos Cristãos, Mãe dos Enfermos e Consoladora dos Aflitos nos ensine a aceitar o caminho do sofrimento guiado pela Palavra de Deus, que nos anima e nos guia ao do Cristo Redentor!’


Fonte  :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/visitar-os-enfermos