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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Gaza, denúncia de uma psicóloga: as crianças perderam tudo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Federico Piana


‘As bombas israelenses não apenas destruíram sua casa, mataram sua mãe e sua irmã e feriram gravemente seu pai. Elas também roubaram sua infância. E a palavra. Nazek El Kord cruza o olhar com esta menina palestina de apenas cinco anos devastada pela dor e percebe imediatamente que está diante de um fantasma : apesar de ter se recuperado dos profundos ferimentos causados pelos estilhaços que lhe dilaceraram as pernas e as mãos, sua língua permanecia como paralisada.

Pequenos fantasmas

Nazek, em Gaza, já tinha visto muitos pequenos fantasmas assim. Ela, que é psicóloga clínica infantil e trabalha no Centro Médico Princesa Basma, instalado no Hospital Ahli Arab, se pudesse, contaria cada um deles, mas seria um trabalho imenso, porque significaria fazer uma lista exata de todas as crianças da cidade e da Faixa que permaneceram vivas. Ou que, infelizmente, não conseguiram fugir.

Memórias assustadoras

Com a pequena fantasma, que não fala, Nazek tentou brincar duas vezes por semana durante seis meses, de forma sistemática e terapêutica. ‘No final, lentamente, ela voltou a ter mais autoconfiança e começou a falar novamente. O seu mutismo histérico agora é apenas uma lembrança’. Embora agora haja uma trégua e os bombardeamentos tenham terminado, as crianças de Gaza não se sentem nada seguras, continuam a viver imersas nos piores pesadelos que se materializaram nas suas mentes desde o início do conflito. Nazek, todos os dias, fala com elas, ouve-as, cuida delas. Como pode. ‘Elas ainda têm ataques de pânico, lembranças assustadoras de perdas e destruição. Sentem-se ansiosas, reagem com força a ruídos altos ou movimentos repentinos, como se o perigo ainda estivesse à espreita’, conta à mídia vaticana. No fundo, para as crianças palestinas, a trégua não existe, é apenas uma invenção dos adultos que ‘brincam’ com a tragédia sem sentido da guerra. Pelo contrário, como Nazek repete várias vezes, a suspensão dos bombardeios representa para elas uma breve pausa entre dois medos : o medo do que aconteceu até agora e o medo do que ainda pode acontecer. ‘Mentalmente, as crianças tentam compreender todos os acontecimentos que estão vivendo. Fazem perguntas sérias sobre a morte, a justiça, o futuro. A maioria delas está convencida de que a trégua não durará muito e que em breve a violência recomeçará’.

Traumas prolongados

O medo e o estresse, que se manifestam com ansiedade, tristeza e dificuldade em controlar as próprias emoções, estão provocando a interrupção do crescimento emocional. Em essência, as crianças de Gaza deixaram de ser crianças, mas ainda não se tornaram adultas, estão perdidas em um limbo sombrio dominado por doenças mentais crescentes que devem ser tratadas o mais rápido possível. ‘Após mais de dois anos de conflito — é a amarga acusação de Nazek — quase todas as crianças de Gaza precisam de intervenções psicossociais direcionadas e prolongadas para lidar com os traumas, reconstruir a capacidade de recuperação e apoiar um desenvolvimento emocional saudável. Existem alguns esforços internacionais nesse sentido, mas não são suficientes para atender às necessidades generalizadas e urgentes’.

Para salvar esses pequenos fantasmas, como a menina sem voz que comoveu o coração de Nazek, psicólogos, psiquiatras profissionais, familiares e escolas deveriam poder trabalhar juntos, elaborando caminhos de cura compartilhados. Levando em conta, acrescenta Nazek, acima de tudo, uma coisa fundamental : ‘Quando está emocionalmente presente, muitas vezes é justamente a família a fonte mais forte de cura. Mesmo que agora os pais estejam em dificuldades, se forem ajudados e apoiados, podem oferecer amor, rotina e estabilidade, todos elementos que ajudam a criança a se sentir segura’. Nazek e seus colegas médicos palestinos estão se empenhando ao máximo para alcançar esse objetivo. Mas sem a ajuda da comunidade internacional, é como tentar esvaziar o mar com uma colher : ‘Com base na minha experiência de trabalho em hospitais, existe uma lacuna significativa na oferta de cuidados mentais especializados. E muitas crianças não conseguem receber apoio psicológico adequado’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-12/gaza-denuncia-psicologa-criancas-perderam-tudo.html

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Sudão: maior número de crianças deslocadas do mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Rosa Martins


Cerca de 3, 5 milhões de crianças foram forçadas a fugir de suas casas no Sudão : é a maior crise de deslocamento de menores no mundo. Precisamente 253 bebês e crianças foram evacuados com segurança neste mês dos centros de trânsito em Wad Madani, principal cidade de Aljazira, para um local mais seguro no país.

O deslocamento desses menores se deu após o início dos combates no Estado de Aljazira. Muitas dessas crianças estão migrando pela segunda vez, após terem sido retiradas dos orfanatos de Mygoma, em Cartum, no início deste ano, com o início da guerra em abril.

De acordo com o representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no Sudão, Mandeep O'Brien, ‘a recente escalada do conflito e o fato de que essas crianças tiveram que se deslocar de áreas anteriormente consideradas mais seguras, é um lembrete cruel do preço contínuo que a guerra está cobrando das crianças’.

Para O’brien, a passagem segura foi possível graças à cooperação e à facilitação de ambos os lados do conflito e ao apoio de parceiros importantes. ‘No entanto, enquanto os combates continuarem, nenhuma criança no Sudão estará verdadeiramente segura’, enfatiza.

Uma força-tarefa entre o Ministério do Desenvolvimento Social, o Unicef e parceiros está sendo realizada a fim de fornecer às crianças cuidados médicos, alimentação e nutrição, apoio psicossocial. Soma-se ainda, a estas atividades momentos lúdicos e educacionais, ajuda aos cuidadores e o trabalho com autoridades afins e parceiros relevantes na busca de famílias adotivas para as crianças.

No Sudão, 14 milhões de crianças precisam, com urgência, de ajuda humanitária

Em todo o Sudão, mais de 14 milhões de crianças precisam urgentemente de ajuda humanitária para salvar vidas, o maior número já registrado no país. A guerra no Sudão resultou na maior crise de deslocamento de crianças do mundo. Cerca de 3,5 milhões de crianças foram forçadas a fugir de suas casas devido aos combates.

Mais da metade dos Estados do Sudão (10 dos 18), estão agora em conflito ativo.

Esta escalada da violência continua a ameaçar a vida e o futuro de famílias e crianças : muitas instalações fechadas, danificadas ou destruídas. Os serviços básicos de saúde e nutrição, educação, água, saneamento e proteção foram interrompidos.

O UNICEF, continua a pedir um cessar-fogo imediato em todo o Sudão e reitera seu apelo a todas as partes envolvidas no conflito para que respeitem o direito internacional humanitário e os direitos humanos. Pede que seja garantida a proteção das crianças e que facilitem o acesso humanitário imediato, seguro e sem obstáculos às crianças e famílias nas áreas afetadas. Sem esse acesso, as crianças privadas de ajuda humanitária básica e vital, permanecerão ameaçadas e vulneráveis.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2023-12/sudao-maior-numero-criancas-deslocadas-mundo.html

domingo, 18 de junho de 2023

Fora dos escombros, através dos olhos das crianças, a devastação da Síria

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Beatrice D'Ascenzi


As fotos das crianças que se tornam uma lente de aumento do país destruído. Durante a 7ª Conferência de Apoio ao Futuro da Síria e da Região, em Bruxelas, na Bélgica, foi apresentada a mostra ‘Fora dos escombros : terremotos e a destruição do conflito através dos olhos das crianças’. Uma exposição fotográfica para contar a perspectiva dos pequenos fotógrafos, através do poder de suas fotos. Gianluca Ranzato, gerente humanitário da organização, falou ao Vatican News sobre o objetivo do projeto : ‘A mostra fotográfica é uma tentativa de dar voz às crianças, porque é essencial perceber que o olhar delas deve nos guiar’.

‘Se olharmos as imagens que as crianças nos ofereceram’ - explica Ranzato, ‘o que chama a atenção é como as imagens das áreas afetadas pelo terremoto e as das áreas não afetadas sejam tão tristemente parecidas’. As fotos dos prédios demolidos, ruas cheias de entulho e falta geral de infraestrutura, descrevem um desconforto certamente agravado pelo terremoto, mas já presente na vida dos pequenos fotógrafos porque, como sublinha mais uma vez o gestor humanitário : ‘O terremoto foi um desastre terrível que atingiu um país que vive 12 anos de guerra e uma profunda crise econômica. Isso leva a grande maioria da população a depender de ajuda humanitária e a ter dificuldades de acesso a alimentos, com todas as consequências que isso acarreta’.

O impacto econômico do terremoto

Por meio dessas fotos, as crianças foram capazes não apenas de contar suas experiências, mas também uma perspectiva que muitas vezes por causa da pouca idade é marginalizada, trazendo à tona as dificuldades que surgem para quem vive num território em conflito, como explica ainda Ranzato : ‘As famílias colocam em prática, para enfrentar a falta de alimentos, muitas vezes levam as crianças ao trabalho infantil, casamentos precoces, tráfico humano. As crianças sabem que têm direito a uma vida feliz, a serem protegidas e a uma educação, basta ouvi-las para ter uma bússola clara para intervir’.

Ser criança na Síria

Muitas dessas crianças nunca conheceram um país em paz. Uma situação que tem um efeito fortíssimo na sua saúde mental, que Save the Children tenta proteger ao máximo : ‘Para essas crianças é normal ter 9 e 10 anos e não terem visto nada além do conflito, a destruição e cenários de guerra’, continua Gianluca Ranzato. ‘Isso nos faz entender como é necessário focar nossa atenção na Síria’, disse ele, ressaltando que existe o risco de comprometer seu futuro, deixando-as sozinhas para lutar com as feridas da alma com as quais cresceram. ‘Sem dúvida, esses traumas se curam com o passar das gerações. Não podemos pensar que não haverá consequências para uma população, que no futuro ninguém pagará por esta falta de bem-estar, mas devemos dar um raio de esperança procurando juntos curar essas crianças’, conclui o representante de Save the Children Itália.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2023-06/save-the-children-siria-criancas-guerras.html