Mostrando postagens com marcador comboniano(a). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comboniano(a). Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

A guerra esquecida do Sudão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Bernardino Frutuoso,

jornalista


Neste número da Além-Mar damos um grande destaque ao drama que está a viver o Sudão, envolvido num conflito esquecido, devastador e pouco mediatizado.

A guerra civil começou no dia 15 de Abril de 2023 com confrontos em Cartum, a capital do Sudão, entre o Exército sudanês e as Forças de Ação Rápida (RSF). As duas forças lutam pelo controle do poder no país. O conflito já fez mais de 15 mil mortos e 8,6 milhões de deslocados e refugiados; 24,8 milhões de sudaneses enfrentam insegurança alimentar e, sem ajuda internacional, um milhão de pessoas poderão morrer de fome este ano.

Um ano depois do início do conflito, em Abril passado, as Nações Unidas organizaram a conferência internacional do Sudão em Paris, procurando chamar a atenção para uma das maiores catástrofes humanas no planeta. António Guterres, secretário-geral da ONU, lembrou que, por estar com a atenção centrada nas tensões no Médio Oriente, o mundo «se está a esquecer do povo do Sudão». O diplomata português sublinhou que esta «é uma guerra contra os muitos milhares de civis que foram mortos e dezenas de milhares de mutilados para o resto da vida. É uma guerra contra os direitos humanos e o direito humanitário internacional». Da conferência resultaram as promessas de ajuda no valor de dois mil milhões de euros, mas ainda falta muito para os obter. 

Na declaração final, os participantes na conferência – co-presidida pela Alemanha, França e União Europeia – instaram as partes em conflito a porem termo às violações dos direitos humanos e a permitirem o acesso da ajuda humanitária. Um apelo que não foi ouvido. Percebe-se que nenhum dos grupos armados está disponível para conversar, alcançar um cessar-fogo e traçar um caminho para a paz. Pelo contrário, em Maio, milícias do Darfur que se tinham mantido neutrais desde o princípio do conflito decidiram apoiar o Exército e os combates estenderam-se também a El-Fasher, a capital do Darfur do Norte, a única cidade desse Estado que tinha escapado aos horrores da guerra. 

Sabemos que o país é rico em recursos naturais, nomeadamente urânio e ouro, e as potências estrangeiras, interessadas em explorar esses recursos, financiam os grupos envolvidos na guerra. Numa entrevista ao jornal Público, a investigadora Daniela Nascimento, professora da Universidade de Coimbra, especialista no Sudão, sublinhava, precisamente, que o conflito «está a ser apoiado a partir de fora» : «Temos a Arábia Saudita envolvida, temos o Qatar, os Emirados Árabes Unidos. Temos, por outro lado, as Forças de Apoio Rápido a serem apoiadas no terreno pelo Grupo Wagner, tendo como contrapartida o acesso às minas de ouro do Sudão.»

Apesar desta situação dramática, os missionários continuam o seu labor evangelizador no país. Os Missionários Combonianos e outros religiosos foram obrigados a deixar as suas missões e obras. Em Cartum, como refere o padre Jorge Naranjo, destruíram grande parte da cidade e o Comboni College (Universidade dos Combonianos) deixou de funcionar nas suas instalações e mudou-se para Porto-Sudão, no mar Vermelho, com aulas que se fazem sobretudo em modalidade virtual.

Sem perder a esperança, e levantando a nossa prece a Deus, sonhamos com um futuro melhor para o povo do Sudão’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1234/a-guerra-esquecida-do-sudao/

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Ao serviço das comunidades beduínas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Irmãs combonianas com um grupo de mulheres da comunidade beduína numa aula de inglês

 *Artigo da Irmã Lourdes Garcia, 
Missionária Comboniana

Assalamu Aleikom («a paz esteja convosco») é a saudação com que somos recebidos sempre que visitamos as comunidades beduínas na Palestina. Embora a palavra «paz» faça parte da interação quotidiana, a sua vivência continua a ser um anseio que repousa no coração dos nossos irmãos e irmãs. A ameaça constante de deslocação forçada por parte do Governo israelita, bem como a falta de reconhecimento por parte da Palestina, deixam estas comunidades beduínas numa situação de exclusão, precariedade e pobreza extrema.

Presença fraterna

Há doze anos que as Irmãs Missionárias Combonianas trabalhamos nas comunidades beduínas de Jahalin, situadas no deserto da Judeia. Começámos no campo da saúde, depois no campo da educação, com a criação de jardins-de-infância e, em seguida, em cada comunidade, com atividades de formação para as mulheres. O objetivo é melhorar a educação das crianças, para que possam prosseguir os seus estudos e promover a integração das mulheres, a fim de promover a qualidade de vida nas diferentes comunidades.

Tudo isto com a ajuda de diferentes organizações que apoiaram vários projetos. Está a ser criada uma pequena rede que não é apenas intercongregacional, mas também inter-religiosa, para chegar aos nossos irmãos e irmãs mais vulneráveis. Tenho esperança de que possamos viver e trabalhar juntos para o bem comum, unindo forças cada um a partir da sua própria fé, judeus, muçulmanos, cristãos.

A nossa fé é proclamada através de gestos e ações quotidianas, testemunhando os valores evangélicos do acolhimento, do respeito, do encontro e da generosidade que, assim, se tornam uma realidade. Criaram-se laços de proximidade, diálogo, fraternidade e afeto com os nossos irmãos e irmãs muçulmanos.

Vivendo juntos os momentos significativos das suas vidas, pude conhecer, além da sua cultura e tradições, a realidade íntima destas comunidades, as suas dificuldades ou os problemas das mulheres, por exemplo, que casam muito jovens e não prosseguem os estudos ou adquirem outra formação.

O acolhimento que nos dão com a sua alegria, generosidade e simplicidade faz-nos sentir em casa desde o primeiro momento.

Comunicamos em árabe, que aprendemos para poder expressar-nos. Pessoalmente, a minha comunicação ainda é limitada, mas estou muito feliz por partilhar a vida com eles, por aprender com a sua simplicidade e a sua generosidade. Cada vez que os compreendo um pouco mais e quando me apercebo de que eles também conseguiram compreender-me, vejo a graça de Deus a acompanhar-me e a encorajar-me a ser paciente e perseverante, porque sei que através da língua vou conhecê-los melhor. 

A irmã Lourdes García, à esquerda com um lenço na cabeça, com um grupo de crianças numa escola 

Realidades diversas

Visitamos as comunidades e as famílias para conhecer melhor as suas necessidades e este é um grande desafio. Durante estas visitas, temos observado várias realidades, por exemplo, que as mulheres casam muito novas e já não continuam os estudos ou outra formação. Aparentemente, as famílias dão prioridade aos rapazes; no entanto, estes também não prosseguem os estudos por várias razões, como a falta de meios de transporte, a precariedade econômica ou, simplesmente, porque se dedicam a cuidar das ovelhas. Além disso, a grande maioria não sabe inglês ou hebraico, razão pela qual não têm oportunidades de emprego fora do seu meio.

O compromisso missionário continua também com a pequena comunidade cristã de El-Azariyeh, na cidade de Lázaro. É uma pequena comunidade cristã de cerca de dez famílias. Encontramo-nos todos os dias para rezar o terço com as mulheres, para organizar momentos de oração e para visitar os doentes.

É uma realidade complexa e temos consciência de que estamos aqui há pouco tempo e que ainda temos muito a aprender e a conhecer, mas anima-nos um forte desejo de continuar a missão que as nossas irmãs iniciaram há mais de uma década. Era, em suma, o que São Daniel Comboni queria, que façamos «causa comum com os mais pobres e abandonados». A continuidade com a promoção humana, por meio de cursos de formação para mulheres e jovens, é um modo concreto de os tornar protagonistas da sua própria vida.  

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/995/ao-servico-das-comunidades-beduinas/