quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A África durante a Idade Média

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Musa retratado segurando um Globo de Ouro Imperial no Atlas Catalão de 1375

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘De forma geral, o estudo da chamada Idade Média mostra que essa classificação que abrange o período do século V a XV se concentra em três eixos principais: a formação da cristandade na Europa Ocidental, o desenvolvimento do Império Bizantino na Europa Oriental e o nascimento e expansão da civilização islâmica, desde a Península Ibérica até a Pérsia, abrangendo também o norte da África e o sul da Europa.

Essa periodização histórica, abrangendo também os demais períodos serve para Europa, não se encaixando no estudo dos demais continentes.

Normalmente, quando se chega ao tema da expansão islâmica, a questão das civilizações que se desenvolveram na África nesse período é tratada, porém de forma muito suscinta e de forma pouco expressiva. A África na Idade Média constitui um tema que deve ser compreendido de forma sistemática, para que se possa compreender a formação do mundo moderno e nele as diversas potências europeias.

Formação histórica do continente africano

No continente africano diversas civilizações se destacaram desde a antiguidade. Foi o caso dos cartagineses estabelecidos no noroeste da África que são lembrados quando se fala da expansão do Império Romano do ocidente. Há o caso da civilização egípcia que floresceu no nordeste africano a partir do delta do rio Nilo e se tornou uma grande potência que não pode ser lembrada apenas pelas suas pirâmides. Recordamos também a civilização da Núbia, situada abaixo do Egito; o reino de Axum, que se desenvolveu na região da atual Etiópia, entre outras civilizações.

Essas civilizações, algumas em maior e outras em menor grau, mantiveram contato com as civilizações da Europa Ocidental, como a romana, e outras que se desenvolveram na Península Arábica, nas planícies iranianas e no Extremo Oriente.

O norte da África passou a sofrer, no período da Idade Média, uma intensa penetração da civilização árabe com a expansão islâmica. A partir do século VII, o islamismo passou a expandir-se por toda a Península Arábica e em direção ao norte africano e ao sul europeu, penetrando na Península Ibérica. Nesse período, houve um choque e um enriquecimento cultural da Europa pelo contato com as culturas africanas, e com as civilizações desse continente que já haviam sido cristianizadas.

Na região do Magrebe, a conversão ao islã ocorreu de forma sistemática, seja pelos reinos poderosos como o de Mali ou pelos povos nômades. Com a islamização, a prática da escravidão, que era bem comum no continente africano desde a Antiguidade, intensificou-se. Ao converter meia África, o Islamismo contribuiu para estimular ainda mais a escravidão, que era praticada antes mesmo de Maomé, já no século VI, quando os mercadores árabes frequentavam os portos da costa oriental da África, trocando cereais, carnes e peixes secos com tribos bantus por escravos.

As populações negras que não se tornaram muçulmanas também consideravam a escravidão um fato normal e alguns reis africanos tinham centenas de escravos como soldados e em suas guardas pessoais.

Além do reino de Mali, outros reinos também tiveram destaque no continente africano nesse período, principalmente aqueles que se desenvolveram abaixo do deserto do Saara, tais como o Reino de Gana, o de Kanem-Bornu, Iorubá e Benin. A principal forma de contato e de comércio entre esses reinos eram as caravanas de camelos, que permitiam o deslocamento para longas distâncias em meio ao deserto com uma quantidade grande de mantimentos, pedras preciosas, escravos, metais, porcelanas, tapetes e muitas outras mercadorias.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-12/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano.html

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A importância da África na história mundial

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘A compreensão que se tem sobre a África e sua história ainda é bastante incompleta, sofrendo até mesmo de algumas formas de preconceito. Durante muito tempo, não somente a histórica desse continente, como também de outros continentes periféricos do mundo foi feita a partir de um ponto de vista europeu,

A periodização que se faz em relação à história da Europa em grande parte não serve para a história dos demais continentes. Certos conceitos históricos que se aplicam à Europa como feudalismo, renascimento ou modernismo não podem ser aplicados em seu todo à África.

Nas últimas décadas vários estudos feitos sobre a história africana alimentados pela descoberta de importantes registros arqueológicos provaram que a África tem uma história muito mais rica e grandiosa do que os antigos registros históricos demonstravam.

Registros do protagonismo da África na história

Origem da raça humana

Os mais antigos restos de esqueletos conhecidos de humanos anatomicamente modernos (ou homo sapiens) foram escavados em locais na África Oriental. Restos humanos foram descobertos em Omo, na Etiópia, datados de 195 mil anos, os mais antigos conhecidos no mundo.

Esqueletos de pré-humanos foram encontrados na África datando de 4 a 5 milhões de anos. Acredita-se que o tipo ancestral mais antigo de humanidade conhecido tenha sido o Australopithecus Ramidus, que viveu pelo menos 4,4 milhões de anos atrás.

Expedições de pesca

Os africanos foram os primeiros a organizar expedições de pesca há mais ou menos 90 mil anos. Em Katanda, uma região no nordeste do Zaire (atual Congo), foi recuperada uma série de pontas de arpão finamente trabalhadas, todas elaboradas, polidas e farpadas. Também foi descoberta uma ferramenta, igualmente bem trabalhada, que se acredita ser uma adaga. As descobertas sugeriram a existência de uma cultura primitiva aquática ou baseada na pesca.

A mineração surgiu na África

Os africanos foram os primeiros a se engajar na mineração há cerca de 43 mil anos. Em 1964, uma mina de hematita foi encontrada na Suazilândia, em Bomvu Ridge, na cordilheira de Ngwenya. Por fim, 300 mil artefatos já foram recuperados, incluindo milhares de ferramentas de mineração feitas de pedra. Adrian Boshier, um dos arqueólogos do local, datou a mina com impressionantes 43,2 mil anos de idade.

Pioneirismo na aritmética

Os africanos foram os pioneiros da aritmética básica a mais ou menos 25 mil anos. O osso Ishango, um cabo de ferramenta com entalhes esculpidos encontrado na região de Ishango do Zaire (Congo), perto do Lago Edward, demonstra esse pioneirismo. Originalmente, pensava-se que a ferramenta de osso tinha mais de 8 mil anos, mas uma datação recente mais sensível deu datas de 25 mil anos. Na ferramenta há 3 fileiras de entalhes. A linha 1 mostra três entalhes esculpidos ao lado de seis, quatro esculpidos ao lado de oito, dez esculpidos ao lado de dois cincos e, finalmente, um sete.

Organização política e social :

Reinos como Songhay, Kerma, Napata, Ashanti, Abomey, Oyo e Mossi tinham um Estado altamente organizado, com instituições complexas como um conselho de anciãos, que definia e controlava o poder exercido pelo governante da tribo, semelhante ao senado romano e um sistema administrativo e burocrático que era muito parecido com o sistema de outras partes do mundo.

Os impérios africanos

Assim como acontecia em outras partes do mundo, também na África foram formados alguns impérios com formações de Estado que abrangiam vários povos em uma só entidade. Esta formação se dava normalmente por meio de conquistas. Foram numerosos e importantes nas suas relações comerciais, políticas e culturais.

Movimentos de descolonização

O século XX foi marcado por movimentos, revoltas e acontecimentos. No continente africano foi o tempo das independências, que caminharam juntas à Guerra Fria, quando União Soviética e Estados Unidos polarizaram o mundo e, no contexto africano, foram decisivas com suas posições, por diferentes motivos, contrárias ao colonialismo.

O ano de 1960, sobretudo, ficou marcado como Ano Africano pois um número expressivo de países conquistou sua independência do colonialismo francês e inglês, especialmente por meio de oposições pacíficas. Esses movimentos levaram à redescoberta da história das diversas regiões da África e à valorização de várias personalidades oriundas do continente.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-11/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano1.html

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Eu preciso ser a presença de Cristo para os oficiais, diz capelão da Marinha do Brasil

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Padre Thiago Lemos dos Santos. | Crédito: Arquivo pessoal.

*Artigo de Nathalia Queiroz


‘‘Apesar de eu ser um oficial da marinha sempre faço questão que me vejam em primeiro lugar como um sacerdote, porque eu preciso ser a presença de Cristo para os oficiais’, diz o capelão da Marinha do Brasil (MB), padre Thiago Lemos dos Santos, que ocupa o posto de Primeiro-Tenente, à ACI Digital.

A missão dele é dar assistência religiosa aos militares através dos atendimentos diários, missas, confissões e presença em operações humanitárias.

‘O meu comportamento, a minha vocação sacerdotal precisa mostrar para eles : esse é um militar, mas tem algo especial. Ele é um sacerdote de Deus’, disse. ‘O capelão na marinha dá assistência religiosa exclusivamente. Diferente dos outros militares que tem muitas outras atividades, nós, capelães, somos responsáveis só pela assistência religiosa’.

Para o padre Thiago, a assistência religiosa nas Forças Armadas é muito importante, pois ‘são homens e mulheres que muitas vezes abrem mão do convívio com suas famílias e estão privadas da assistência religiosa’. Por ficarem muito tempo embarcados ou em regiões isoladas, ‘muitos podem se sentir sozinhos, longe de suas famílias, mas Deus está protegendo e guardando cada um deles’.

Segundo ele, a missão do capelão é lembrar isso diariamente. ‘Os capelães estamos aqui em nome do nosso arcebispo militar dom Marconi dizendo para essas pessoas que a Igreja lembra’ deles.

‘O capelão militar é um ministro religioso encarregado de prestar assistência religiosa a alguma corporação militar (Marinha, Exército, Aeronáutica, Polícias Militares e aos Corpos de Bombeiros Militares)’, diz o site do Ordinariato Militar do Brasil, cujo atual arcebispo é dom Marcony Vinícius Ferreira.

‘Nas instituições militares existem as capelanias evangélicas e católicas, as quais desenvolvem suas atividades buscando assistir aos integrantes das Forças nas diversas situações da vida’, continua o site. ‘O atendimento é estendido também aos familiares. A atividade de capelania é importante no meio militar, pois contribui na formação moral, ética e social dos integrantes das Unidades Militares em todo o Brasil’.

O padre Thiago já esteve em diferentes operações, especialmente em situações de calamidade. ‘Eu participei da missão Abrigo pelo Mar que foi socorrer em São Sebastião (SP) os atingidos pelas chuvas fortes, participei no Rio Grande do Sul, quando houve as enchentes’, conta.

Segundo o capelão, nessas missões, ‘atuamos em primeiro lugar cuidando da nossa tripulação, preparando-os para a missão, tentando dar-lhes um sentido para estarem deixando suas famílias e se colocarem em perigo e mostrar-lhes o lado espiritual disso’.

Ele também contou que aproveitam os exercícios navais para levar ajuda a quem mais precisa. ‘Fomos para a África e levamos toneladas de alimentos para a diocese de São Tomé e Príncipe. Fizemos uma campanha de doação de leite, doamos quase uma tonelada para a creche que o bispo mantinha’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.acidigital.com/noticia/66483/eu-preciso-ser-a-presenca-de-cristo-para-os-oficiais-diz-capelao-da-marinha-do-brasil


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Bento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 


*Artigo da Comunidade Mundial para Meditação Cristã

 

‘Pode a busca por um caminho espiritual levar ao próprio egocentrismo do qual tenta escapar? Não raramente. Os monges do deserto estavam profundamente conscientes desse perigo, especialmente na solidão, e confiavam sobretudo na relação abade-discípulo para evitá-lo. Foi, no entanto, Bento de Núrsia (480-550) quem concebeu uma fórmula magistral e sapiencial de formação para a vida mística, baseada na comunidade em vez de um mestre pessoal. Sua Regra , porém, é magistral sobretudo em sua modéstia – e apesar de não conter nenhuma doutrina mística direta.

Até mesmo seu nome é anônimo, significando ‘o bem-aventurado’, como Buda era frequentemente chamado por seus seguidores. A história de sua vida é conhecida por meio de relatos lendários de milagres, coletados como ilustrações teológicas pelo Papa Gregório, um ex-monge da Regra de São Bento. Esses relatos inspiraram inúmeras obras de arte, com destaque para os belíssimos afrescos de Signorelli e Sodoma no Monte Oliveto Maggiore, que por si só já valeriam uma semana de retiro. Bento iniciou sua jornada monástica de forma tipicamente desértica. Abandonou os estudos em Roma (‘sabiamente ignorante’), algo curioso para o fundador do sistema que preservou o conhecimento na Idade das Trevas. Tomou o hábito de um eremita próximo e passou anos em uma gruta (Sacro Speco) em Subiaco, perto de Roma, ainda hoje um dos lugares mais sagrados e repletos de presença espiritual do mundo. Ensinou o Evangelho aos camponeses pagãos ao seu redor, antecipando o ramo missionário de sua linhagem espiritual nos séculos futuros. Quando alguns monges sem liderança nas proximidades imploraram que ele viesse ser seu abade, ele, gentilmente, mas imprudentemente, aceitou. Ele era rigoroso demais para eles e, não pela última vez na história monástica, a comunidade tentou assassinar seu abade. Ele os deixou, mas permaneceu na forma cenobítica (comunitária) de vida monástica, em vez de retornar à solidão. Ele fundou doze mosteiros, cada um com doze monges. Sociólogos modernos que leem a regra notam a ênfase no pequeno número de monges para uma dinâmica de grupo saudável. Mesmo na grande comunidade, ele organiza os membros em ‘decanatos’ de dez. Contudo, no Capítulo Um de sua Regra sobre ‘Os Tipos de Monges’, ele vê a solidão como o objetivo. Após um período ‘longo’ não especificado no mosteiro, aqueles que ‘fortaleceram-se … passam da linha de frente nas fileiras de seus irmãos para o combate solitário no deserto’.

A simbologia militar pode parecer mais adequada para homens brincando de soldados. No entanto, as mulheres, incluindo a própria irmã de Bento, Escolástica, que, segundo uma história, rezava melhor e com mais sabedoria do que o irmão, respondem tanto quanto os homens, com certas adaptações, à sabedoria psicológica da Regra. O objetivo do símbolo militar não é o uso da força, mas a solidariedade, a obediência e a boa gestão em uma missão coletiva. A breve Regra provavelmente foi composta ao longo de muitos anos e parece ter um segundo final anexado. A maior parte do material foi extraída diretamente da Regra do Mestre, uma das muitas outras regras monásticas contemporâneas. O Papa Gregório, com a eficiência centralizadora romana , selecionou a de Bento para uso em toda a Igreja Ocidental. O gênio de Bento se revela no que ele omitiu de seu original e no Prólogo, que é de sua autoria. Ele tinha consciência de que estava criando uma regra mais branda do que as da era dourada. ‘Lemos que os monges não devem beber vinho de forma alguma, mas, como os monges de nossos dias não podem ser convencidos disso, concordemos ao menos em beber com moderação.’ Essa via média e o bom senso, aliados a uma estrutura de vida firme, porém flexível, e a princípios perenemente válidos de gestão do tempo, fizeram da Regra, depois da Bíblia, o texto mais influente da civilização europeia por um milênio. Abades e líderes empresariais ainda a utilizam e recorrem a ela em busca de luz sobre questões sociais contemporâneas. E, curiosamente, os melhores comentários sobre a Regra podem não ter sido escritos, como frequentemente se afirma, em quartos de hotel, mas certamente são compostos hoje por mulheres e, sem dúvida, um dia por Oblatos.

A Regra é uma obra-prima de racionalidade, modéstia e autotranscendência. No último capítulo, geralmente o menos comentado, Bento a chama de uma pequena Regra para iniciantes . Aqueles que desejam prosseguir para o ensino médio ou mesmo para a pós-graduação devem consultar Cassiano e os padres. Então, de que maneira essa pequena Regra prepara aqueles que buscam a Deus e anseiam pela experiência contemplativa de ver a Deus e ouvir a Sua Palavra? Primeiramente, identificando o próprio chamado : ‘Há alguém aqui que anseia pela vida e deseja ver a Deus?’. Citando salmos e a literatura sapiencial, como costuma fazer, Bento identifica a busca por Deus com o objetivo da vida humana. Essa vida não deixa de ser humana e variável uma vez que o objetivo esteja sendo buscado. Quando o ‘primeiro fervor da conversão’ se dissipa, seus irmãos não parecem mais santos ou mesmo melhores amigos. A estabilidade, então, é um dos votos que Bento define e requer perseverança tanto física quanto mental. Ele teria gostado do ditado rabínico : ‘Você não é obrigado a ter sucesso, mas não tem permissão para desistir’. Mas, sendo Bento, ele sabe que as pessoas desistirão, e por isso dá ao monge três chances antes que ele seja expulso e não possa retornar.

Para equilibrar a estabilidade que, de outra forma, se tornaria estática, seu segundo voto enfatiza o compromisso com uma conversão contínua de vida e conduta, uma forma da busca incessante por Deus na vida mística descrita por Gregório de Nissa. E a obediência – idealmente ou eventualmente praticada sem demora, espontaneamente e por amor, não por medo – completa a tríade. A obediência deve ser praticada verticalmente em relação ao abade e horizontalmente entre os monges, tornando-se assim semelhante à de Cristo. Ao contrário de ordens religiosas posteriores que viam a vontade de Deus nos mandamentos do superior, Bento permite ao monge apelar caso lhe seja ordenado fazer algo que considere impossível. Se falhar, ele deve fazer o possível para obedecer e confiar em Deus.

O mosteiro é o laboratório onde os votos e as ‘ferramentas das boas obras’ preparam o monge para os desafios mais elevados. Se bem administrado, torna-se um lugar tão amoroso e libertador que se assemelha ao cume, mas isso depende de uma boa gestão. Primeiramente, a gestão do tempo, encontrando o equilíbrio certo entre o trabalho físico, a lectio (leitura espiritual) e a oração, que correspondem à composição do ser humano como corpo, mente e espírito. O tipo de oração que Bento descreve é a salmodia e a leitura comunitárias – uma lectio coletiva que serve de preparação para a verdadeira oração contemplativa. O estresse é a ruptura da harmonia humana natural. A paz é o bom funcionamento de todos esses elementos. A murmuração (fofoca e queixa) é especialmente destacada por seu ataque corrosivo à paz. A gestão organizacional na Regra demonstra as virtudes romanas da paternidade da gravidade, com pouco espaço (pelo menos oficialmente) para a alegria. Em suma, o abade tem uma tarefa impossível. Ele deve ser capaz de manter a lista das ferramentas distribuídas para o trabalho a cada dia e adaptar-se constantemente a cada temperamento diferente. Ele tem a palavra final, mas está sujeito à Regra e deve consultar.

É uma descrição maravilhosa, breve, vívida e humana do estilo de vida cristão, no qual ‘todos os membros viverão em paz’. Exceções confirmam qualquer regra, e Bento faz muitas delas, especialmente para os idosos, os doentes e as crianças, os membros mais vulneráveis de qualquer sociedade. As fraquezas do corpo e do caráter são tratadas com paciência – uma característica rara na maioria das doutrinas espirituais. No entanto, há uma determinação inabalável (‘não preferir nada ao amor de Cristo’) que jamais transforma moderação em concessão. Ao se concentrar no cotidiano, como faz, Bento alcança algo surpreendente. Vemos Deus refletido no ordinário – Cristo dançando em mil lugares. E, no entanto, ele insiste que isso ainda é o jardim de infância espiritual, apenas o começo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/bento-2/

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

“Dei Verbum”, padre Girolami: o Papa lembra que Deus se revela na história

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Eugenio Bonanata


‘A primazia da história, a leitura dos textos sagrados, a relação de amizade com o Senhor, a oração. São numerosos os temas abordados pela constituição dogmática Dei Verbum que o Papa Leão XIV colocou no centro da catequese da audiência geral da quarta-feira, na Sala Paulo VI, no âmbito do novo ciclo dedicado à redescoberta dos documentos do Concílio Vaticano II.  ‘A Dei Verbum esclarece qual é o significado e a maneira pela qual Deus se revela aos homens’, afirma padre Maurizio Girolami, presidente da Associação Bíblica Italiana. E ‘é significativo – acrescenta – que o Papa tenha querido começar justamente pela introdução deste documento, onde se define o diálogo entre Deus e os homens como um diálogo que ocorre em uma relação de amizade’.

Uma longa gestação

‘Deus se revela em primeiro lugar através de palavras autênticas’, acrescenta padre Girolami, lembrando como, a esse respeito, o Papa destacou ‘a diferença’ entre a palavra e a conversa de circunstância, bem como a importância de se dedicar à oração. ‘Deus se revela também através de eventos intimamente relacionados’, sublinha o sacerdote, que convida a considerar a longa gestação que teve a Dei Verbum, texto aprovado em 18 de novembro de 1965, poucas semanas antes do encerramento da assembleia, em 8 de dezembro. ‘Na verdade, porém, foi um dos primeiros textos a ser apresentado pela comissão preparatória’.

O contexto histórico-cultural

Qual é o motivo desse longo processo? ‘Os padres conciliares – explica o sacerdote – precisavam chegar a um acordo sobre como entender a revelação cristã : se apenas como palavras, verdades reveladas, ou se, como ensina a Sagrada Escritura, havia uma história a ser acolhida, composta tanto de palavras quanto de eventos’. O contexto cultural, teológico e filosófico da época, ainda marcado pelo iluminismo e pelo positivismo, bem como pela grande controvérsia com a reforma protestante, estimulou essa reflexão que levou a colocar a história no centro do mistério da revelação divina. ‘Não se trata apenas de ter textos – afirma padre Girolami –, o cristianismo não é a religião do livro, mas, como também nos disse o Papa Bento XVI, é em primeiro lugar o encontro com Jesus, do qual certamente a Sagrada Escritura é a testemunha privilegiada, mas não sem o leito que a transporta, ou seja, a tradição e a vida da Igreja’.

O olhar sobre a realidade

Padre Girolami também cita a recente carta apostólica do Papa Leão, Uma fidelidade que gera futuro, divulgada em 22 de dezembro passado, por ocasião do sexagésimo aniversário dos decretos conciliares Optatam totius e Presbyterorum Ordinis. Os dois documentos sobre a formação sacerdotal estão em plena sintonia com o espírito da Dei Verbum. ‘Os padres conciliares – explica ele – pediam uma revisão profunda dos estudos de teologia, porque obviamente não se tratava mais de estudar as verdades reveladas, como se Deus quisesse revelar algo de si mesmo de forma abstrata, como se fosse uma filosofia a ser aprendida, mas era preciso voltar ao contexto da história, sabendo ouvir a história’. 

‘A Bíblia – continua padre Girolami – nos diz que é através de rostos, encontros e pessoas que Deus revela seu plano de salvação’. E é justamente aí que reside o poder da constituição dogmática, que convida todos os fiéis – não apenas os especialistas – a ler a Sagrada Escritura e a alimentar a familiaridade com os Textos Sagrados. ‘É graças à Dei Verbum – sublinha ainda o presidente da Associação Bíblica Italiana – que hoje podemos dizer que o Senhor continua a acompanhar a sua Igreja e a revelar o seu rosto através da vida da Igreja. A nossa catequese, o nosso ensino teológico já não é uma repetição de fórmulas pré-fabricadas, por mais corretas que sejam, mas que correm o risco de não comunicar nada. Em vez disso, é a Igreja que se questiona continuamente sobre como anunciar o Evangelho eterno de Jesus Cristo na história, no hoje, com a linguagem do homem contemporâneo’.

O processo de renovação

O documento, portanto, ofereceu a estrutura teológica para todo o Concílio Vaticano II. ‘A Dei Verbum nos permite compreender qual foi o espírito e a perspectiva correta com a qual a Igreja repensou a si mesma, sua missão no mundo, o sentido da Sagrada Escritura e da tradição, e como viver a experiência cristã hoje, dando primazia e valor à história e a este mundo amado por Deus’. Segundo padre Maurizio Girolami, além disso, a intuição teológica da constituição dogmática está na base de todo o processo de renovação estabelecido pelo Concílio : da liturgia à linguagem, até às estruturas e instituições. ‘Provavelmente – conclui – se não tivesse havido a Dei Verbum, toda a vida da Igreja, a nova evangelização de todos os últimos Pontífices, não teria tido a profundidade teológica que teve’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-01/padre-girolami-papa-leao-xiv-recorda-deus-se-revela-na-historia.html


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A África antes da colonização europeia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘O continente africano era um lugar civilizado no tempo em que os primeiros viajantes europeus começaram a entrar em contato com continente. Quando chegaram ao Golfo da Guiné e desembarcaram em Vaida (na África Ocidental), por exemplo, os capitães e tripulantes dos barcos ficaram surpresos ao encontrar ruas bem traçadas, cercadas de ambos os lados por várias léguas por duas fileiras de árvores. Durante dias eles puderam viajar num país de campos cultivados, habitado por homens vestidos com roupas coloridas produzidas em suas próprias tecelagens.

No Reino do Congo, encontraram pessoas vestidas de seda ou veludo, como vestiam as pessoas mais graduadas da Europa.

Antes da colonização o continente africano abrigou Estados bem organizados e administrados minuciosamente. A situação dos países da costa oriental – Moçambique, por exemplo – era exatamente a mesma com tribos organizadas, funções sociais bem definidas e uma economia que garantia a sobrevivência de todos mesmo em períodos mais críticos como no tempo da seca ou de calamidades naturais.

As grandes civilizações africanas

Durante o período que chamamos de Idade Média (séculos V ao XV), poderosos Estados se desenvolveram na África Ocidental e por sua enorme riqueza, tornaram-se o principal eixo de comércio entre o mar Mediterrâneo e o interior da África.

O reino de Gana. Gana já era um reino rico antes da chegada dos comerciantes do norte e os documentos deixados por esses comerciantes (árabes e berberes) informam o que foi Gana, e relatam um império extraordinário, também chamado de Terra do Ouro. O império tinha como capital Kumbi-Saleh. Dessa cidade, o rei e seus nobres controlavam povos vizinhos, obrigando-os a pagar impostos em troca de proteção. Além disso, Gana controlava o comércio tanto das mercadorias que eram trazidas do norte (como sal e tecidos), quanto das que saíam do interior da África (como ouro e escravos). Na capital, o comércio era intenso e os seus 20 mil habitantes recebiam diariamente as caravanas que vinham de diversas regiões. Entre os séculos 9 e 10, Gana viveu seu apogeu, sendo um dos mais ricos reinos do mundo, segundo Ibn Haukal, viajante árabe da época.

O reino de Mali. O Reino de Mali era, a princípio, uma região do Império de Gana habitada pelos mandingas. Era composto por 12 reinos menores ligados entre si, e tinha como capital Kangaba. O Império se tornou herdeiro do Império de Gana, passando a controlar todo o comércio local. O ouro extraído por Mali sustentava grande parte do comércio no Mediterrâneo. Conta-se que, entre 1324 e 1325, Mansa Mussa, em peregrinação a Meca, parou para uma visita ao Cairo e teria presenteado tantas pessoas com ouro, que o valor desse metal se desvalorizou por mais de 10 anos.

Cidades iorubás. A partir do século IX formaram-se as cidades da civilização iorubá, na região da atual Nigéria, já habitada por esse povo desde o século IV.  Os iorubás nunca unificaram suas cidades, mas mantiveram a mesma cultura. A cidade iorubá mais importante era Ifé, considerada sagrada, por ser o berço dos iorubás, segundo a crença local. Outra cidade importante foi Oyo, um centro militar que, no final do século XVII, tinha se expandido até Daomé (atual Benin).

Império de Axum. O Império Axum data do ano 100 d.C., com a fundação da cidade de mesmo nome. No século IV já era o Estado de maior expressão do reino da Núbia e, por conta das relações no Mar Vermelho – local de articulação entre populações africanas e árabes – adotaram o cristianismo, que se espalhou em boa parte do território sob o domínio romano, inclusive no Egito.

Império Zimbábue. O Império Zimbábue existiu entre os anos de 1200 e 1400, no litoral da África Austral, onde hoje estão localizados Moçambique e Zimbábue. Este Império ficou conhecido por seu grande número de construções, que são testemunhos do poder alcançado por ele. Foi um poderoso Estado com hegemonia na região localizada entre os rios Zambeze e Limpopo.

Império Songai. O Império Songai está relacionado com a cidade de Gao, localizada na curva do Níger. Esta cidade foi um importante centro comercial, político e econômico, com poder militar de arqueiros que se lançavam ao Rio Niger.

Registro de avanços e conquistas

Quando os missionários portugueses chegaram ao Congo encontraram um sistema político bem organizado com cobrança de impostos e taxas. Havia, inclusive, um eficiente tribunal e um funcionalismo público estruturado. O estado construiu estradas, impôs portagens, apoiou um grande exército e tinha um sistema monetário baseado no uso de conchas, do qual o chefe supremo tinha o monopólio.

O Reino do Congo tinha também alguns estados satélites como o estado do Ngola (ie Ndongo) localizado na atual Angola. O reino original era aproximadamente do tamanho da França e da Alemanha juntas. Há registros da existência de uma arte metalúrgica especializada no antigo Congo.  Como os artífices Bakongo estavam cientes da toxicidade dos vapores de chumbo, criaram métodos preventivos e curativos, tanto farmacológicos usando doses maciças de mamão e óleo de palma e quanto mecânicos, para combater o envenenamento por chumbo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-11/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano2.html

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Permanecendo no momento presente

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Kim Nataraja


‘Se apenas observarmos nossos pensamentos por um tempo, logo perceberemos que todos eles estão ligados ao passado ou ao futuro. Eles giram em torno de nossas preocupações sobre o que aconteceu, na forma de memórias, boas e ruins, ou sobre o que pode acontecer, nossos medos, esperanças, desejos e planos. Nem mesmo vemos as pessoas e situações como elas realmente são, mas coloridas por nossos pensamentos, opiniões, preconceitos, experiências e emoções. Na verdade, poderíamos facilmente dizer que andamos por aí, em uma paisagem de nossa própria mente, nossos próprios pensamentos, em um mundo de ilusão de nossa própria criação. Ficamos presos em nossa própria história; essa criação de nossa mente pode ser tão poderosa, que pode parecer a única realidade que existe. Pode mascarar a existência de uma Realidade Superior. 

Mas esta Realidade Superior, Deus, é experimentada pelos Místicos como puro ‘Ser’ no ‘Aqui e Agora’ : ‘Entre os nomes, nenhum é mais apropriado do que Aquele-que-é… pois ele habita sempre de novo em um Agora sem cessar.’ (Meister Eckhart)  

Quando Moisés pergunta a Deus quem ele é, ele obtém duas respostas – uma enfatiza o aspecto histórico : ‘Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.’ (Êxodo) e a segunda aponta para o Deus no Aqui e Agora : ‘Eu sou o que sou’ (Êxodo) – ser puro, energia pura, consciência pura. No ‘Evangelho de João’ ouvimos Jesus dizer algo semelhante sobre si mesmo : ‘Antes que Abraão existisse, ‘Eu sou’.’ 

Deixar de lado nossos pensamentos, nos permite permanecer no momento presente. É o ‘caminho estreito’ da atenção em nosso mantra, que nos ajuda a alcançar o silêncio no solo de nosso ser, no aqui e Agora, deixando nosso ser condicionado para trás. A eternidade está no agora. Precisamos perceber que o tempo é realmente feito de uma sequência de momentos do ‘Agora’ – tudo acontece no Agora. Mas distorcemos o Agora, ao habitarmos nas nossas memórias ou ao usarmos este momento precioso como um mero trampolim para antecipar e preparar o futuro. 

Além disso, uma vez que o momento do Agora tenha passado e desaparecido, o que resta dele torna-se parte do passado, uma mera memória. Estas são novamente construções da mente : interpretações de acontecimentos coloridos pelo autoengano, pelo medo, pela esperança ou pela necessidade de consolo, realmente não muito diferente de um sonho ou fantasia. Além disso, essa coloração varia dependendo das mudanças de humor e das circunstâncias. Precisamos abandonar essas miragens; existe realmente apenas o ‘Aqui e Agora’. Estar presente, e ouvir atentamente o mantra nos permite fazer isso, deixar de lado pensamentos e imagens, do passado e do futuro e nos permite ser nosso verdadeiro ‘eu’ habitando no Agora : ‘Ser consciente é viver no momento presente, não ficar preso ao passado, nem antecipar um futuro que pode nunca acontecer. Quando temos plena consciência do presente, a vida se transforma e a tensão e o estresse desaparecem. Grande parte da vida moderna é uma antecipação febril de atividade e emoções futuras. Temos que aprender a recuar para a liberdade e a possibilidade do presente.’ (Bede Griffiths OSB).

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/permanecendo-no-momento-presente/


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Cassiano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Laurence Freeman, OSB


‘João Cassiano, a quem Thomas Merton chamou de ‘mestre da vida espiritual dos monges – a fonte para todos no Ocidente’ e que reconduziu John Main ao caminho da contemplação, nasceu provavelmente na atual Romênia, por volta de 360 d.C. Em seus últimos anos, quando orava, suas distrações eram, pelo menos em parte, alimentadas pelas histórias e poemas que estudara na juventude, o que nos permite imaginar que era uma pessoa culta. Ainda jovem, talvez aos vinte anos, viajou para a Palestina e ingressou em um mosteiro que, mais tarde, considerou insatisfatoriamente morno em seu fervor pelo ‘progresso espiritual’ que Cassiano e muitos de seus contemporâneos tanto almejavam. O monasticismo palestino tinha a reputação de ser marcado por orações excessivamente longas e ostentação. Mas os monges egípcios atraíam multidões de buscadores sérios, bem como turistas espirituais. Os pais e mães espirituais do deserto do norte do Egito – os abades as amas – não se interessavam por turistas ou fama, mas sim pelo autoconhecimento (‘maior que o poder de realizar milagres’) e pelo conhecimento de Deus. Os monges diziam que fugiam de bispos e mulheres, evitando as tentações do clero e da carne. As amas, algumas das quais eram prostitutas arrependidas, não tiveram sua sabedoria tão bem documentada quanto a de seus pares masculinos, mas, por meio de mais de um relato, podemos afirmar que elas se viam e eram respeitadas por seus contemporâneos com igual reverência.

O movimento monástico do deserto que levou Cassiano a deixar sua comunidade em Belém para passar cerca de vinte anos absorvendo a mais pura fonte de sabedoria espiritual de sua época era um movimento laico. Os monges não consideravam seu modo de vida inerentemente superior ao matrimônio e sequer conseguiam decidir com certeza se a vida comunitária ou a solitária era melhor. Sozinho, de quem se pode lavar os pés? Eles eram cristãos. E viviam os paradoxos do Evangelho. Seu lendário pioneiro, Antão do Deserto, renunciou aos seus bens e ao seu lar quando jovem, mergulhando cada vez mais na solidão e em moradas inóspitas, assim como os monges celtas de Skellig Michael, o rochedo íngreme a treze quilômetros da costa de Kerry, cerca de um século depois. A ‘Vida de Antão’, de Atanásio, é um banquete junguiano da luta de uma alma apaixonada pela integração, individuação e autoconhecimento que chamavam de santidade. Assim como em outras épocas de declínio cívico e pessimismo disruptivos – este foi o período da ‘Cidade de Deus’ de Agostinho – as pessoas foram impelidas a retornar à busca por um significado humano fundamental.

Após saciar sua sede no deserto, Cassiano foi impelido por violentas controvérsias teológicas, primeiro a Constantinopla, onde foi ordenado diácono, e depois a Roma, onde se tornou sacerdote. Sua última parada foi Marselha, onde fundou um mosteiro duplo para homens e mulheres. A convite do bispo local, preocupado em conter os aspectos mais radicais do movimento monástico que ali se espalhara, Cassiano escreveu três grandes obras. ‘As Instituições Cenobíticas’ concentram-se mais nas medidas externas para reformar a vida corrompida pelos oito pecados capitais (posteriormente chamados de sete pecados capitais). Um Tratado contra a heresia Nestoriana demonstra sua ortodoxia, mas ele também se depara com algumas divergências sobre a relação entre o livre-arbítrio e a graça, chegando a divergir de Agostinho. Como resultado, ele é homenageado com uma festa em 29 de fevereiro na Igreja Ocidental, apesar de ter sido a inspiração especial de Bento, Tomás de Aquino e Domingos, mas recebe todas as honras na Igreja Oriental.

Sua terceira e maior contribuição para a espiritualidade ocidental e a prática da vida mística são suas ‘Conferências dos Padres’, que Bento fazia seus monges ouvirem diariamente. Elas são apresentadas como diálogos com alguns dos abades do deserto e combinam uma profunda percepção psicológica com teologia e sabedoria bíblica. Com a influência mediadora de Evágrio, o mais intelectual dos padres do deserto, a doutrina de Orígenes permeia as ideias de Cassiano e forma sua própria compreensão singular de oratio pura, a oração pura. O propósito prático da vida monástica, segundo essa sabedoria, é simplesmente alcançar o estado de oração contínua. Analisando isso, Cassiano afirma que há um objetivo imediato e um objetivo final : a pureza de coração e o reino de Deus. A equação se equilibra de forma simples na espiritualidade do deserto : amor perfeito é igual a pureza de coração, que é igual a oração pura.

O problema são os ‘demônios’. Essas tendências e estados de espírito, cuidadosamente observados, foram organizados em um sistema psicoespiritual que mostra a sequência em que surgem, interagem e podem ser pacientemente suportados e, eventualmente, dominados por meio do ascetismo, da amizade espiritual, da discrição e do autoconhecimento. A tentação, é claro, persiste até o fim – a perfeição não é um estado a ser alcançado permanentemente – e, na verdade, é necessária para o progresso. Os oito defeitos principais nos são familiares hoje em uma cultura onde a obesidade (gula), a pornografia (luxúria), o dinheiro (avareza), a violência (raiva), o estresse e a depressão (acídia e tristeza) e a celebridade (orgulho e vaidade) dominam nossos pensamentos, fantasias e manchetes. A cura, então como agora, é a oração.

As Conferências giram em torno de dois ensinamentos (Conferências 9 e 10) sobre a Oração, de Abba Isaac. Na primeira delas, a diversidade da oração é analisada e alguns princípios básicos são descritos. ‘Devemos nos preparar antes do momento da oração para sermos a pessoa que desejamos ser. Pois a mente em oração é moldada pelo estado em que se encontrava anteriormente.’  Toda oração avança em direção àquela ‘oração ardente e sem palavras’ que ‘transcende toda a compreensão humana’ e é a união em e com Cristo. Cassiano cita a autoridade de Antão para insistir que, nesse estado, a autoconsciência finalmente foi deixada para trás, porque ‘essa não é uma oração perfeita na qual o monge compreende a si mesmo ou o que está orando’.

Assunto profundo. E Cassiano fica devidamente impressionado com Abba Isaac. Mas então reclama que ele não lhe mostrou como alcançar isso. Isaac o elogia por fazer a pergunta crucial. A próxima conferência de Isaac ensina a ‘fórmula’, que se tornou a oração monologística (de uma só palavra) do Ocidente, assim como a Oração de Jesus se tornou mais tarde no Oriente. Ele recomendou o versículo Ó Deus, vinde em meu auxílio’que São Bento, certamente em deferência a Cassiano, adotou como abertura do Opus Dei ou Ofício Divino. A fórmula condensa em simplicidade e pureza tudo o que a mente agitada e os sentimentos turbulentos contêm. Repeti-la ‘incessantemente e continuamente’ permite ‘renunciar a todas as riquezas do pensamento e da imaginação’ e passar da pobreza de espírito à pureza de coração. Em uma conclusão extensa da ‘Conferência’, Isaac descreve a maioria dos estados de espírito que qualquer pessoa seriamente comprometida com a oração contemplativa regular experimentará, da euforia à depressão, da distração à sonolência, do medo à inquietação. A fórmula se torna o guia fiel para o objetivo através de todos eles. Ela permanece conosco na ‘adversidade e na prosperidade’ e, por fim, entra no coração, onde é recitada até mesmo durante o sono e desperta conosco pela manhã. ‘Que ela o acompanhe em todos os momentos’, diz ele, especialmente no início e no fim de cada tarefa que você realizar.

Esta oração é distinta, mas indissociavelmente relacionada à lectio, ou leitura das Escrituras, que, segundo Cassiano, torna-se ainda mais enriquecedora e esclarecedora como resultado desta fórmula para a pobreza de espírito, que concentra e unifica nossa atenção. Ele acrescenta que não é tão fácil quanto parece, mas que seus frutos compensam amplamente o esforço envolvido. E, antecipando uma longa e contínua tradição que flui do deserto até nossos tempos áridos, observa que este é um formato simples, a ser mantido por iniciantes; e que, por sua virtude intrínseca, ninguém está excluído do objetivo universal – tanto de monges quanto de prostitutas – o objetivo da pureza de coração.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/cassiano-2/

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A razão do nome do continente africano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Ilustração Mariana Massarani

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Na maioria das vezes nós nos acostumamos com os nomes das pessoas, dos lugares, dos acontecimentos e datas históricos, não pensando no real significado de seu nome ou daquilo que está por trás desse nome. 

Começando essa nova série, é interessante a gente perguntar : Qual a motivação do nome ‘Continente africano’ e porque a África é assim chamada? Como e quando o continente africano recebeu esse nome?

Lar dos primeiros seres humanos

A África é o segundo maior continente do mundo, perdendo em extensão apenas para a Ásia, suplantando todos os demais. Ao todo 54 países se distribuem pelo continente africano. Desse total, 48 são países continentais e outros seis são insulares. Existem também alguns territórios que não são reconhecidos como países, alguns deles bem desconhecidos : Somalilândia, Mayotte, Azawad, Cabinda, Ogoniland, Barotseland e República Árabe Saharaui Democrática.

Mesmo que muitas pessoas não concordem com nisso, a África, pátria dos primeiros seres humanos, é um continente bonito, rico em suas belezas vegetais, animais, minerais e humanas, porém, muitas vezes esquecido, sobretudo, pelo mundo ocidental.

Em relação à denominação do continente, são várias explicações que tentam, segundo os historiadores e estudiosos, justificar o seu nome. A teoria mais aceita e difundida é a que afirma que foram os antigos romanos que deram esse nome ao continente, como homenagem aos AFRI, uma tribo berbere do norte do continente. Os Afri viviam em cavernas perto da cidade de Cartago onde localiza-se a atual Tunísia. 

A cidade de Cartago chegou a se constituir como uma forte potência comercial que se opôs à expansão romana. Por volta de 146 a.C, depois das Guerras Púnicas, Cartago e áreas adjacentes foram conquistadas pelo Império Romano, transformadas em província. Depois disso, os romanos dominaram o Mar Mediterrâneo, constituindo um império de enormes dimensões que dominou e incluiu todo o norte do continente.

Origem do nome do continente

Em vez de dar o nome de Cartago à nova província, ela recebeu o nome de África porque a tribo AFRI tinha sido leal à liderança de Roma. Depois veio a junção com a palavra latina ‘ca’ com o significado de ‘terra’. Como resultado o continente que começamos a estudar desde então passou a se chamar de ‘a Terra dos Afri’.

Existem, porém outras teorias menos difundidas que explicam a razão do nome do continente. Uma dessas teorias parte também da etimologia, afirmando que a palavra África tem origem na palavra latina aprica, que significa ensolarado. Fala-se também do antigo termo grego aphrike, que significa sem frio. Ambos os termos concordam com a mesma explicação, pelo fato de que no continente predomina o tempo ensolarado, com uma menor incidência do frio.

Alguns historiadores também sugerem a existência de uma conexão entre o nome do continente africano com a palavra egípcia ‘af-rui-ka’, que significa ‘voltar-se para a abertura do Ka’. Na mitologia egípcia, Ka era o poder da alma, como se fosse um duplo energético de cada pessoa. Isso significa que ‘af-rui-ka’ pode ser traduzido como ‘o local de nascimento’.

Outra teoria ainda, bem diferente das demais surgiu no início do século XVI, quando o famoso explorador Leo Africanus, que documentava tudo o que via ao visitar muitos lugares no norte da África, sugeriu que o nome África poderia ser derivado da palavra grega ‘a-phrike’, que significa sem frio, ou sem horror. Na verdade, isso é bastante lógico porque outros historiadores sugeriram que os romanos possam ter derivado o nome da palavra latina para ensolarado ou quente, a saber, ‘aprica’. Porém, de onde os romanos tiraram exatamente o nome de África ainda é objeto de questionamentos, pela não aceitação da explicação dada segundo o nome de uma tribo do norte do continente.

As pesquisas arqueológicas e antropomórficas comprovam que a África é o lar dos primeiros seres humanos. Com isso, a expressão ‘local de nascimento’ pode ser considerada mais apropriada, por ser a África o local ancestral, onde se deu o nascimento da humanidade.

De qualquer forma, passamos a tratar de um continente de imensas possibilidades. Inclusive, a própria cartografia que durante séculos colocava o continente europeu como se fosse o centro do mundo, começa a rever os seus conceitos e muitas cartas geográficas e mapas já mostram a centralidade do continente africano no planeta terra, nossa ‘Casa Comum’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-11/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano.html

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O luto não reconhecido no contexto migratório e de refúgio

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mariana Spicacci Rigonati


‘O luto, antes de tudo, é uma experiência singular, onde cada sujeito irá senti-lo de uma forma e tempo diferentes. A maioria das pessoas entende o luto como um processo decorrente de uma ausência física, sendo a mais comum pela morte. Mas, para além da morte, o luto pode também ser sentido a partir de uma quebra ou mudança, como o luto por uma separação relacional, a perda de um emprego, um novo colégio e também uma mudança de estado ou país — esses então chamados de lutos não reconhecidos.

Neste texto abordarei o luto não reconhecido no contexto migratório e de refúgio, não apenas focando no enfoque da transitoriedade entre um país e outro, mas sim naquilo que se perde e se deixa ao chegar em um novo destino, muitas vezes de forma forçada, decorrente de questões políticas, migratórias ou religiosas.

O luto invisibilizado

No contexto migratório e de refúgio, o luto não reconhecido representa uma dimensão frequentemente invisibilizada da experiência de deslocamento forçado. Falamos de um tipo de perda que não recebe validação social adequada, deixando muitas vezes os migrantes, refugiados e apátridas sem o suporte necessário para elaborar suas perdas.

Dentro desse contexto, as perdas vivenciadas pelas pessoas vão muito além da dimensão do território físico. Não se perde apenas a casa, mas também as memórias ali construídas; não se perde somente o bairro, mas os vínculos com os vizinhos, as festas tradicionais e o senso de pertencimento. Perde-se o mundo presumido que cada sujeito constrói para si.

Da mesma forma, não se perde apenas o país de origem, mas o contato cotidiano com a língua materna, as redes de apoio tecidas ao longo de décadas, o reconhecimento e o status profissional, bem como as referências culturais que sustentam a identidade. No caso de pessoas refugiadas, soma-se com frequência a perda de entes queridos em contextos de violência, muitas vezes sem a possibilidade de despedida ou da realização de rituais funerários, aprofundando ainda mais o sofrimento vivido.

Por que esse luto não é reconhecido?

Diversas razões contribuem para a invisibilidade dessas perdas. A sociedade de acolhida muitas vezes marginaliza o migrante, não o deixando elaborar suas perdas, e espera que os mesmos demonstrem gratidão pela oportunidade recebida, o que inibe a expressão de tristeza, reclamações e até mesmo verbalização de saudades da terra de origem. Ainda existe também a invalidação caso essa pessoa não tenha tido uma perda física, e ainda mais caso ela tenha feito seu processo de deslocamento de forma voluntária e sem pressões de violência ou questões ambientais.

A barreira linguística dificulta a nomeação e comunicação das emoções complexas associadas ao luto, assim como dificulta que essas pessoas que migram tenham acesso à rede pública de forma legítima e assistida. Além disso, diferenças culturais nos rituais de luto podem tornar a expressão da dor incompreensível ou inadequada no novo contexto.

Outro ponto é que na maioria das vezes pessoas em deslocamento estão sob alerta, procurando imediatamente empregos, novas recolocações, buscando moradias e lutando pela sua sobrevivência em primeiro lugar. Não sobra tempo hábil ou até mesmo conhecimento necessário para que olhem para suas questões psicossociais, e até mesmo façam o reconhecimento interno de seu processo de elaboração.

Caminhos para o reconhecimento e cuidado

É fundamental criar espaços seguros onde migrantes e refugiados possam nomear e compartilhar suas perdas sem julgamento. Profissionais de saúde mental e serviços de acolhimento precisam desenvolver competência cultural para reconhecer as múltiplas formas de luto migratório.

Intervenções terapêuticas culturalmente sensíveis e acessíveis que respeitem os rituais e significados de origem, enquanto facilitam a construção de novos significados, são caminhos importantes. Grupos de apoio entre pares, onde pessoas com experiências similares possam validar mutuamente suas vivências, também são recursos valiosos.

A educação da sociedade de acolhida sobre as complexidades do processo migratório pode reduzir o estigma e criar ambientes mais acolhedores. Políticas públicas que reconheçam não apenas as necessidades materiais, mas também as dimensões emocionais e existenciais do deslocamento são essenciais.

Uma experiência prática

Posso citar aqui minha experiência prática na condução de grupos com imigrantes venezuelanos, acerca do luto. O grupo foi formado por homens e mulheres venezuelanos, em um total de 15 pessoas, residentes do bairro onde a OSC está localizada. Muitos deles relataram sentimentos de tristeza, isolamento social e dificuldades de integração, especialmente pela barreira linguística e pela limitação no acesso ao mercado de trabalho, assim como dificuldade de lidar com o luto pela transição da Venezuela para o Brasil.

O grupo configurou-se como um espaço de escuta e partilha sobre o luto, além de promover atividades artísticas, culturais e rodas de conversa. Tais iniciativas possibilitaram acolhimento, fortalecimento emocional e resgate do senso de pertencimento comunitário entre os participantes, através de dinâmicas, oficinas de arte e cultura, passeios pela cidade, trocas de saberes individuais e rodas de conversas. Todas as iniciativas foram construídas em conjunto com os participantes e também contaram com organizações parceiras para o financiamento.

A iniciativa mostrou-se eficaz para elaboração do luto em conjunto, assim como o fortalecimento comunitário entre os pares. Os participantes relataram sentir-se mais acolhidos, compreendidos e capazes de nomear suas perdas em um ambiente livre de julgamentos. A possibilidade de compartilhar suas histórias com pessoas que vivenciaram experiências similares criou um senso de pertencimento que havia sido perdido no processo migratório.

Considerações finais

Reconhecer o luto no contexto migratório e de refúgio é um ato de dignidade e humanidade. Significa validar que a construção de uma nova vida não apaga as perdas do passado, mas exige integrá-las em narrativas que permitam tanto honrar o que ficou quanto abrir-se para novas possibilidades. Apenas através desse reconhecimento é possível apoiar processos de reconstrução identitária genuínos e sustentáveis.

O trabalho com populações migrantes e refugiadas exige de nós, profissionais e sociedade de acolhida, um compromisso ético com a escuta atenta, o respeito às diferenças culturais e a criação de espaços onde todas as formas de luto possam ser validadas e elaboradas. Somente assim construiremos uma sociedade verdadeiramente inclusiva e acolhedora.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/o-luto-nao-reconhecido-no-contexto-migratorio-e-de-refugio/