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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Árabes e hebreus, povos das tendas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano
  
‘Já adultos e formados, temos alguma coisa que nos leva às origens de nossa existência e nos conhecemos melhor quem somos. Dá a impressão de que alguns elementos vividos e recebidos constituem um patrimônio pessoal e comunitário que definem nossa identidade. Sem eles seríamos incompletos.
Assim são os povos. Hebreus e árabes viveram experiências de beduínos muito parecidas e muitas delas idênticas. Em ambos está presente o deserto e a tenda. Devido à necessidade de deslocamentos constantes, as tendas eram portáteis, feitas de pele de cabra e de camelo, resistentes às chuvas e às tempestades de areia.
A metade da tenda é para as mulheres e as crianças. Nela está a cozinha e a despensa.  A outra metade, com a abertura, pertence aos homens. Ali ou na frente da tenda, recebem as visitas.
  A tenda do casal de idosos, Abraão e de sua esposa Sara, por ocasião da visita dos três caminhantes, tinha praticamente, as mesmas características. Pela narração, Abraão estava sentado à porta da tenda quando se deparou com três homens à sua frente. Sem delongas organiza a acolhida. Ele entretém as visitas, na metade da frente da tenda, enquanto Sara prepara os alimentos na outra. Indagado sobre a esposa, Abraão informa que ela está na tenda. Apesar de não participar da conversa com os homens, a idosa Sara, afinou o ouvido e ouviu a afirmação que ao retornarem no ano seguinte, ela estaria grávida. Um surto de riso surgiu em Sara e disse : ‘Será que vou dar à luz agora que sou velha?’.
Outra coisa que chama a atenção é quanto à mudança de lugar das tendas. Qual é a motivação de tantos deslocamentos dos beduínos hebreus e árabes? A primeira delas é necessidade de encontrar alimentos e água, numa região carente dos dois elementos. Contudo, havia as brigas entre os grupos de beduínos, na disputa da mesma região. Basta lembrar que Abraão e seu irmão Ló quase se enfrentaram por causa de terras com pastagens. Abraão, para evitar o conflito, deixou Ló escolher a região que quisesse e ele foi para outro lugar.
Os beduínos, apesar de serem um povo fechado, muito arraigado à tradição, destacam-se pela hospitalidade. Eles chegam a oferecer aos hóspedes mais do que as suas posses permitiriam e até contraem dívidas.
Durante as andanças pela península do Sinai, o próprio Deus tinha sua tenda no acampamento do povo. Veio habitar e caminhar com seus beduínos hebreus.’

Fonte :
* Artigo na íntegra

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Para um diálogo entre muçulmanos e cristãos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Zouhir Louassini, 
jornalista, trabalha na Rai Notícias, professor convidado 
em várias universidades e colaborador em jornais árabes, 
incluindo al-Hayat , Lakome e al-Alam , e Radio Medi1 (Marrocos). 

‘Há muitos anos num encontro organizado pela mesquita de Madrid sobre o diálogo entre muçulmanos e cristãos, vivi uma experiência que me fez compreender como é difícil iniciar um diálogo verdadeiro entre as religiões. No congresso estava presente um jovem religioso, imã de uma pequena mesquita numa localidade espanhola, que me contou como foi apoiado pelas irmãs católicas para construir o seu lugar de culto e também como a Igreja tinha ajudado a pequena comunidade muçulmana na zona. Uma terceira pessoa que estava ali conosco, um pouco provocatoriamente, disse com um sorriso: ‘mas então, não são infiéis!’. O religioso replicou irado : ‘São sempre infiéis e a sua única salvação consiste na conversão ao islão!’. E encaminhou-se para a sala a fim de participar no debate programado sobre o diálogo religioso.
  
Com o tempo aprendi que se dialoga não só com quem quer dialogar mas também com quem, efetivamente, o pode fazer. Com efeito, o diálogo entre as religiões não pode consistir apenas no encontrar-se em congressos para falar do tempo, de comida; e muito menos em limitar-se a exaltar o valor da própria fé. O diálogo precisa de sinceridade, de estima entre os interlocutores e, sobretudo, de um conhecimento verdadeiro do outro.

No distante ano de 1967 o historiador e sociólogo Abdallah Laroui publicou na França um dos livros mais úteis para compreender a realidade árabe e a sua evolução : L'idéologie arabe contemporaine : essai critique, com uma introdução de Maxime Rodinson. Naquela obra indica com perspicácia o denominador comum que desempenhou um papel fundamental na elaboração e na expressão de todas as ideologias no mundo árabe: a relação com o Ocidente. Com efeito, há um século que os árabes se definem só em relação ao mundo ocidental e aos seus valores.

Para Laroui esta busca de si próprios gerou três tipos de ideologias, ou melhor, três ‘tipos de árabes’. O primeiro tipo é o ‘liberal’ : é homem político, convencido de que o atraso do mundo árabe é o resultado de muitos séculos de obscurantismo sob o predomínio otomano. A solução, a seu parecer, encontra-se na filosofia das Luzes e na defesa da democracia liberal.

O ‘tecnófilo’ é o segundo tipo : este acredita que nem a liberdade política nem o parlamento sejam o segredo do poder do ocidente. Ao contrário, este consistiria na tecnologia e nas ciências aplicadas que explicaria o seu domínio sobre o mundo.

Por fim, o ‘clérigo’, o homem religioso, que manteve bem firme a oposição entre ocidente e oriente no âmbito da relação entre cristianismo e islão : este terceiro tipo de árabe procura mostrar que o islão foi e será superior ao cristianismo.

Portanto, três tipos. Para os primeiros dois o ocidente pode oferecer modelos a seguir; para o terceiro, ao contrário, fora do próprio mundo há só uma ameaça contra a qual é preciso reagir. Por vários motivos, difíceis de resumir num breve artigo, hoje é o último tipo que predomina culturalmente no mundo árabe.

O terceiro tipo resume uma realidade muito complexa. Nela, privada de verdadeiras instituições religiosas que orientem as suas opções, os que têm um mínimo de influência são incapazes de sair de esquemas mentais, ideológicos, políticos pertencentes a outras épocas. Ao mesmo tempo, os que modernizaram a sua abordagem ao problema permanecem totalmente isolados.

É esta hoje a situação no mundo árabe. Realidades extremistas como o ISIS, um grupo que não supera vinte mil pessoas, mais não são que a ponta do icebergue. Se quisermos começar a derreter este enorme bloco de gelo, seria justo e oportuno partir do fato que os muçulmanos moderados, mesmo se emudecidos, são a maioria. Eles são os únicos interlocutores possíveis para um diálogo baseado no conhecimento, no respeito e na estima recíproca.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de
 http://www.news.va/pt/news/para-um-dialogo-entre-muculmanos-e-cristaos-os-uni