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terça-feira, 16 de abril de 2013

Mulheres que seguiram a Jesus Cristo (Capítulo 2 de 2)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Maria, a Egípcia
Muitos monges e monjas egípcios começaram sua vida monástica a partir de experiências de conversão. A decisão de viver somente para receber a misericórdia de Deus foi para eles o início de uma vida nova, cujo objetivo principal era tornar real e presente esta misericórdia divina em suas existências. Esta nova vida se realizaria então no deserto, sob uma disciplina e ascese rigorosas, e ao mesmo tempo, sob a confiança total na graça de Deus. Como para os Pais e Mães do Deserto, o monge e a monja são entre os cristãos aqueles que mais se sentem necessitados da misericórdia de Deus, usualmente, há nestas narrativas o relato de pecados extremos e de arrependimentos extremos... Benedicta Ward, em seu livro Maria Magdalena e outros relatos, explica que ‘o momento da conversão, assim com os detalhes da vida precedente e sucessiva são enfatizados na obra narrativa para sublinhar a necessidade de redenção em todo ser humano e o poder redentor da misericórdia de Cristo para com todos’. Escrita por São Sofrônio, ‘A Vida de Maria Egipcíaca’ pertence à tradição monástica por ser um dos textos chaves do que se pode chamar de ‘literatura de conversão’, cujo tema principal é a consciência da necessidade da misericórdia de Deus.
A vida de Maria Egipcíaca’ é composta de duas partes. A primeira trata da vida e conduta de Abba Zózima, monge sacerdote da Palestina, e a segunda da vida de Santa Maria Egipcíaca contada por ela mesma ao Abba Zózima, quando os dois se encontram no deserto. O relato da história de sua vida é, em si mesmo, o maior ensinamento de Maria Egipcíaca. A sua história combina elementos de várias fontes, por trás das quais há prostitutas e penitentes, que existiram de fato. Segundo Benedicta Ward, ‘por trás do gênero literário estão presentes numerosos detalhes históricos : a existência em Alexandria e em Jerusalém, como na maior parte das grandes cidades, de mulheres que se prostituíam e, também o dado de que o impacto do cristianismo no Egito e na Palestina assumiu frequentemente a forma de fuga para o deserto’.
Na história de Maria Egipcíaca, há um interessante contraste entre Abba Zózima, um monge sábio e piedoso e a pecadora Maria, que recebe de Cristo o dom da salvação sem nenhuma boa obra, simplesmente pela grande consciência que tinha da sua necessidade de salvação. Aqui volta a pergunta fundamental dos Pais e Mães do deserto : ‘O que devo fazer para ser salvo?’ Maria foi para o deserto para ser salva, e sabia disso. Graças ao seu arrependimento, à contrição de seu coração e à sua total confiança na misericórdia de Deus, ela se transformou naquilo que Abba Zózima desejava ser e não conseguia, pois, no seu íntimo, ele acreditava que alcançaria a salvação com suas próprias obras. Por isso, caía no orgulho, pois pensava consigo :
Haverá sobre a terra algum monge que possa ensinar-me algo de novo, alguém que possa me ajudar a conhecer algo que ainda não conheço ou que tenha feito alguma obra na vida monástica que eu não tenha feito?
Como Deus não quer que o monge seja somente como um servo zeloso, mas que seja um amigo com quem possa falar ao coração, Abba Zózima foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, onde, a partir de seu encontro com Maria Egipcíaca, adquiriu um olhar novo sobre Deus, e esta abertura dos olhos espirituais lhe permitiu contemplar e compreender os caminhos de Deus.
Maria Egipcíaca começa o relato de sua história dizendo :
Minha pátria é o Egito. Enquanto ainda viviam meus pais, aos doze anos de idade, desprezando o afeto deles, fui para Alexandria, e me envergonho somente em pensar como permaneci subjugada pelo vício da luxúria.
Para Hierome Nicolas, ‘esta idade indica a mudança de um status social. A criança não é mais considerada como tal embora não tenha ainda totalmente as prerrogativas de uma pessoa adulta. Como em todas as mudanças, as passagens da vida social e a aquisição de uma liberdade nova, embora limitada, é ocasião de uma crise que afeta não somente a adolescente, mas também o seu meio’. Por isso, ele conclui, a raiz do pecado de Maria Egipcíaca é uma revolta profunda em relação a seus pais, todavia não conscientizada. Ao negar o afeto paterno, ela nega a paternidade de Deus. O pecado de Maria Egipcíaca, mais do que uma violação de uma ordem moral ou social, é uma ruptura da comunhão com Deus que a deixou seguir livre seu caminho, confiada às suas próprias forças.
Maria Egipcíaca seguiu sua experiência de ateísmo vivendo uma vida irresponsável, sem ter o domínio de seus sentidos e paixões. Até que um dia, por pura curiosidade, se uniu aos peregrinos, ‘uma multidão de líbios e egípcios’, que iam de Alexandria para Jerusalém. Ela perguntou a um dos peregrinos : ‘Para onde vão correndo estes homens tão rapidamente?’ E este respondeu que todos subiam ‘para Jerusalém, para a Exaltação da Santa Cruz’. Ela se uniu à tripulação do barco, pagou a passagem com o próprio corpo, e atravessou Mar Mediterrâneo em direção à Terra Santa. Chegando o dia da Exaltação da Santa Cruz, Maria foi com os peregrinos à Igreja do Santo Sepulcro onde estava exposta a relíquia da verdadeira Cruz, mas foi impedida de entrar na igreja, como que por uma força invisível, ‘como se um exército de soldados tivesse sido pago para impedir meu acesso’, ela explica. Foi então que Maria percebeu sua excomunhão :
Finalmente, diz ela, ficou claro para mim o motivo pelo qual me era proibido ver o madeiro vivificante. Com efeito, o conhecimento da salvação havia tocado minha mente e os olhos do meu coração, ao me dar conta de que eram as miseráveis desordens de minhas ações que me impediam de entrar. Comecei então a sentir-me fortemente perturbada e golpeando o peito, suspirava desde o profundo do meu coração, gemendo e lamentando.
Vendo a imagem de Nossa Senhora, orou para a Mãe de Deus para que a ajudasse e rompeu em lágrimas. Na manhã seguinte pôde entrar na igreja e venerar a Santa Cruz. Depois deixou Jerusalém, atravessou o Jordão e seguiu para o deserto, onde viveu por dezessete anos, em contraposição aos dezessete anos que viveu na luxúria.
No átrio da Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, Jesus Cristo veio ao encontro de Maria e, mostrando-lhe a luz verdadeira, libertou-a. No momento de sua conversão, as lágrimas derramadas foram sinal de que a invasão do Espírito Santo provocou a abertura de seu coração. Ela aceitou seu coração como o lugar onde o Espírito Santo pôde fazer sua obra. A partir de sua conversão, Maria convergiu todo o seu ser de pecadora para o amor de Deus que a salvou. O sacrifício de Maria Egipcíaca foi aceito por Deus, e uma vez reconciliada, se reintegrou na comunidade. Paradoxalmente, ela saiu vitoriosa por causa de sua fraqueza, pois sustentada pela rocha que é o Cristo, e com a intercessão de Nossa Senhora, ela restaurou a sua virgindade espiritual e voltou a ser ela mesma, tal como Deus a desejou dede a criação do mundo.
É rica a simbologia que expressa a nova vida de Maria no deserto. Ela fez a experiência da fé e pela fé foi introduzida no mistério de uma existência eucarística, por isso quando foi para o deserto, Maria levou consigo três pães, que como os pães do profeta Elias, nunca acabaram. Com a travessia do rio Jordão, símbolo do Batismo, ela se expôs à ação salvadora de Jesus Cristo. No deserto ela foi Teodidata, isto é, ensinada por Deus, e introduzida no conhecimento das Escrituras sem saber ler. A ascese do deserto e a graça divina deram a seu corpo tal leveza espiritual, que ela pôde atravessar o Jordão caminhando sobre as águas.
Antes de Maria Egipcíaca falecer, Abba Zózima levou para ela a eucaristia e ela comungou, terminando sua vida em total comunhão com o Senhor. Era época da Páscoa quando Zózima encontrou o corpo da santa com as mãos voltadas em oração para o Oriente. Como o verdadeiro eremita está em comunhão com a Igreja, a inscrição na areia encontrada ao lado do corpo da santa revela a união entre a vida eucarística e pascal de Maria no deserto e a Igreja :
Enterra, Abba Zózima, o pequeno corpo da miserável Maria. Restitui à terra o que é seu e junta o pó ao pó. Somente ora por mim, em nome do Senhor, que faleceu neste primeiro dia do mês de Pharmuti, segundo os egípcios, e que segundo os romanos é o nono dia, quer dizer, o quinto dos idos de abril, o dia da Paixão salvífica, depois da Comunhão da divina e sagrada Ceia.
Zózima lavou os pés da santa com suas próprias lágrimas, como a pecadora do Evangelho lavara os pés de Jesus, pois seu coração fora tocado pela compunção. Como já era avançado em idade, - ele morreria logo depois de Maria - Zózima não tinha forças para cavar a sepultura. Mas eis que no meio do deserto apareceu um leão manso, que fez este trabalho para Zózima. Um leão pacificado, assim como as paixões de Maria e o coração de Zózima. Em presença do leão, Zózima cobriu o corpo da santa com terra e fez as orações. Em seguida cada um tomou seu rumo : o leão adentrou no deserto, e Zózima voltou ao seu mosteiro ‘bendizendo e louvando a Deus, e cantando um hino em louvor a nosso Senhor Jesus Cristo’, pois viu ainda uma vez mais a evidência da ação do Espírito Santo na vida daquela serva que tanto agradou a Deus, Maria Egipcíaca.
Uma vez que um olhar sobre as Mães do Deserto pode apresentar a realidade do arrependimento e da salvação, com profundidade e clareza, a história de Maria Egicíaca, por sua vez, consegue transmitir a verdade teológica da salvação com um rosto humano para os leitores e ouvintes de todos os tempos. Além disso, estas mulheres tinham consciência do poder da ação de Deus na vida do cristão por meio da sua Palavra, por isso Maria Egipcíaca diz que ‘a Palavra de Deus, viva e eficaz (Hb 4,12), instrui a inteligência humana desde o seu interior’. Uma leitura orante da vida de Maria Edipcíaca com certeza pode trazer muitos bons frutos para nossas jovens de hoje, especialmente por conduzí-las a uma experiência da misericórdia de Deus, que converte e purifica os corações. Por este motivo, a Igreja do Oriente celebra Maria Egipcíaca no V Domingo da Quaresma como modelo de contrição. Em seu Cânon ela reza : ‘A força de tua cruz, ó Cristo, operou maravilhas, por até esta mulher, que outrora foi prostituta, escolheu seguir o caminho ascético. Abandonada à própria debilidade, se opôs fortemente ao demônio, e obtendo o prêmio da vitória, intercede por nossas almas’. Amém.

 

sábado, 13 de abril de 2013

Mulheres que seguiram a Jesus Cristo (Capítulo 1 de 2)

 
Sinclética
 * Artigo de Ir. Roberta Peluso, OSB
 
Entre os Pais e Mães do deserto costuma-se dizer que uma pessoa pode vir a escolher o caminho ascético ‘por fortaleza’ ou ‘por fraqueza’. No primeiro caso, escolhe quando encontra neste estilo de vida uma maneira de continuar sua caminhada de perfeição cristã. No segundo, quando encontra um caminho que lhe permite uma ruptura com a vida antiga e oferece a oportunidade de uma vida nova, usualmente após uma experiência de conversão. Como exemplo do primeiro caso temos Santa Sinclética e do segundo, Santa Maria, a Egípcia (ou Egipcíaca). Estas mulheres que deixaram o mundo por amor a Cristo e que no deserto combateram contra os vícios do corpo e do pensamento, são conhecidas como Ammas do Deserto, ou seja, Mães do Deserto.
Os relatos das vidas destas santas ilustram a caminhada da vida espiritual cristã. Tanto o relato da ‘Vida e ensinamentos de Sinclética’, de autor anônimo do século V, quanto da ‘Vida de Maria Egipcíaca’, escrita por São Sofrônio, bispo de Jerusalém (séc. VI), têm como pano de fundo a ‘Vida e Conduta de Santo Antão’, escrita por Santo Atanásio de Alexandria no séc. IV. Conta Santo Atanásio que Santo Antão era egípcio de nascimento. Seus pais eram bem posicionados, e como eram cristãos, Santo Antão teve uma sólida formação cristã desde o berço. Depois da morte de seus pais, Santo Antão ficou sozinho com sua irmã mais jovem. Certo dia, quando tinha cerca de dezoito anos, como era seu costume, estava se dirigindo para a igreja, e caminhava pensando sobre a fé e o despojamento dos primeiros cristãos descritos nos Atos dos Apóstolos. Estava tão absorto em seus pensamentos, que chegou atrasado na missa, na hora da leitura do Evangelho. Estavam lendo justamente a passagem em que Jesus diz ao jovem rico : ‘Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá aos pobres, depois vem e segue-me e terás um tesouro nos céus’ (Mt 19,21). A escuta desta Palavra tocou tão profundamente o coração de Santo Antão,...que ao sair da igreja, distribuiu sua herança com as pessoas da aldeia e com os pobres. Deixou sua irmã aos cuidados de umas virgens conhecidas e fiéis. Em seguida, se dedicou à vida ascética, mas perto de sua própria casa, pois segundo Santo Atanásio, ‘não havia ainda no Egito mosteiros tão numerosos, e o monge não sabia absolutamente nada do grande deserto. Quem queria aplicar-se a si mesmo, exercitava-se não longe de sua aldeia’. Sob uma ferrenha disciplina, orientado por outro asceta mais experiente, Santo Antão progrediu na vida espiritual, orando e trabalhando, se instruindo nas virtudes e na ascese e se adestrando no combate contra o demônio. Mais tarde, triunfando nos combates, se dirigiu para os sepulcros e entrando num túmulo, símbolo da gestação para uma vida nova, permaneceu lá sozinho. Depois desta etapa, Santo Antão foi para o deserto, onde morou numa fortificação abandonada definitivamente. Escreve Santo Atanásio que, visitado por monges seculares, ‘em frequentes colóquios, Antão encorajava os monges e determinou vários visitantes a se tornarem monges. Era como que o pai de todos esses mosteiros’.  

Sinclética
O autor – ou autora, não se sabe – da ‘Vida e Ensinamentos de Sinclética’, conta que este nome significa ‘assembléia’, em grego, por isso ela é aquela que congrega em torno de si muitas discípulas. Sinclética nasceu na Macedônia, uma região da Grécia. Seus pais ao terem conhecimento de que as pessoas que viviam em Alexandria, uma cidade do Egito, amavam a Deus e a Cristo, decidiram sair da Macedônia e partir para Alexandria. Atravessaram o Mar Mediterrâneo e foram muito bem acolhidos no novo país. Mas o que lhes agradou não foram os monumentos ou o grande número de habitantes de Alexandria, e sim a fé simples e o amor sincero dos cristãos daquela cidade, por isso o Egito se tornou para eles uma segunda pátria. Como Sinclética era muito bonita, e sua família era bem posicionada, havia muitos jovens que a queriam em casamento, e seus pais esperavam dela o mesmo destino. Mas os planos da jovem eram outros e pouco se interessava pelos seus pretendentes, uma vez que o único esposo que ela desejava era Jesus Cristo. Começa, então, a cena vocacional clássica que bem conhecemos; seus pais, parentes e amigos tentam mudar sua decisão, para que escolha o matrimônio, mas Sinclética permanece ‘sólida como um diamante e não muda seus sentimentos’, descreve o autor. E acrescenta que ela fecha as portas de seus sentidos e conversa somente com Cristo, seu esposo, repetindo as palavras do Cântico dos Cânticos : ‘O meu amado é meu, e eu sou dele’ (Ct 2,16). Quando seus pais morreram, ela e sua irmã cega deixaram a família, e como Santo Antão, venderam seus bens e distribuíram a herança de sua família aos pobres. Em seguida, as duas cortaram os cabelos diante de um sacerdote, e com o coração simples e puro, receberam o nome de virgem. Para os antigos uma virgem era uma mulher inteiramente consagrada a Deus, e que por isso não se casava. Assim como o Pai dos Monges, no começo de sua vida ascética, vão morar nos arredores de Alexandria onde passam o resto de suas vidas.
Se Sinclética não morou no deserto, mas levou uma vida escondida nos arredores da grande cidade de Alexandria, por que ela é considerada uma Mãe do Deserto? Porque conheceu todos os combates do deserto, e não agindo conforme suas capacidades intelectuais, mas conforme a inspiração do Espírito Santo, vivenciou tudo o que ensinou, servindo assim de modelo para aquelas que quisessem seguir o mesmo caminho. Em sua caminhada espiritual, Sinclética progrediu na prática das virtudes, e com a ajuda de Deus, venceu os combates contra os maus pensamentos e os vícios. Seu biógrafo relata que ‘com o passar do tempo, suas virtudes de desenvolveram e o bom odor de seus esforços e de suas vitórias se tornou conhecido... Assim, como os que estão atentos à Palavra de Deus se corrigem e dão fruto, algumas jovens que desejavam avançar na sua vida para Deus começaram a vir até Sinclética para receber seus ensinamentos’.
As jovens discípulas vinham frequentemente para ser orientadas e conhecer o estilo de vida que Sinclética levava. Perguntavam segundo o costume : ‘O que devo fazer para ser salva?’ Eis aí a pergunta chave para entender o monaquismo do deserto : as jovens não perguntavam o que devo fazer para ser feliz? Ou com serei bem-sucedida na vida? Mas o que devo fazer para ser salva? É a mesma pergunta que os discípulos faziam aos Pais do Deserto, em especial a Santo Antão. Isso remete a uma ‘praxis’, - o que fazer – e a um objetivo : a salvação. Por isso os ensinamentos de Sinclética começam com esta máxima : ‘Ser salvo é amar a Deus e a seu próximo’. Sinclética é uma guerreira e seu inimigo principal, como personificavam os antigos, era o demônio com pensamentos maus e grandes tentações. Ela enfrentava corajosamente o adversário e vencia, pois anulava os maus pensamentos com bons pensamentos e as más ações com boas ações. Por isso ela usa muitas imagens fortes para aconselhar suas jovens discípulas :
Lutem contra as armadilhas do inimigo com toda a inteligência’, e acrescentava que ‘os medicamentos comuns que devemos usar contra os pensamentos maus são a ascese e a oração pura’, e ‘antes de mais nada, sejam mestras de seus estômagos, pois isto permite dominar todos os desejos maus’.
Sinclética exercia com suas discípulas aquilo que chamamos hoje de uma ‘autoridade dialogada’. Seus ensinamentos brotaram do diálogo com as jovens, a partir de suas necessidades concretas e não de um ideal que elas deveriam alcançar. Como viviam em Alexandria, que é perto do mar, Sinclética ensina sobre a humildade :
Assim como é impossível construir um barco sem pregos, é impossível ser salva se não se é humilde.
Perguntam as jovens se a pobreza é um grande bem, e Sinclética mostra, com outro exemplo marítimo, que a verdadeira riqueza é o progresso espiritual :
Os caçadores de tesouros suportam as tempestades que fazem cambalear os barcos e combatem contra os outros caçadores que os atacam em alto-mar. Mas quando chegam à terra, caem nas mãos dos bandidos. Nós ao contrário, não precisamos enfrentar tão grandes perigos por causa de nossa verdadeira riqueza!’.
E sobre a vigilância dos pensamentos adverte :
Devemos ficar atentas aos pensamentos maus que nos atacam a partir de dentro e a partir de fora. Quando há uma tempestade, os marinheiros começam a gritar, e os barcos que estão próximos se aproximam para salvá-los. Mas se eles dormem porque o mar está calmo, a água pode entrar por um furo no fundo do barco, e não se dando conta, sucumbem e morrem’. Assim, ‘podemos nos perder tanto pelas faltas exteriores, quanto pelos pensamentos interiores’.
E ainda dá um conselho vocacional : Tudo não convém a todos. Cada qual deve se conhecer bem para escolher bem. Para umas a vida em uma comunidade é boa, para outras é melhor viver só. Há plantas que se dão bem numa terra úmida. Há outras que se dão bem numa terra seca. Acontece o mesmo com os seres humanos’.
            Sinclética viveu até os 80 anos enfrentando até o fim os ataques do inimigo. E ainda encontrava forças para encorajar suas companheiras dizendo-lhes : ‘Sejam fortes e tenham coragem nos momentos difíceis’. No momento de alcançar a vitória e receber a coroa, Sinclética viu coisas extraordinárias : viu o paraíso e uma luz tão brilhante que não conseguiu descrever com suas palavras. Quando chegou o dia e a hora em que aconteceria seu trânsito, acontecimento que ela já havia previsto, Sinclética partiu para o encontro de seu Senhor, e recebeu o Reino dos Céus como recompensa de suas lutas. Pelas virtudes e ensinamentos de Sinclética, o convite que Santo Atanásio faz para ler a ‘Vida e Conduta de Santo Antão’, pode também ser feito por nós às jovens que se aproximam de nossos mosteiros para que conheçam a vida desta santa : ‘Lede essas coisas aos outros irmãos para lhes ensinardes como deve ser a vida dos monges e persuadi-los de que Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo glorifica aqueles que o glorificam, e não só conduz ao reino aqueles que o servem até o fim, mas também, por causa de sua virtude e utilidade dos outros, manifesta e torna célebres em toda parte aqueles que se ocultam e procuram retirar-se’.
 

Fonte :
* Ir. Roberta Peluso, OSB, monja do Mosteiro da Santíssima Trindade – Santa Cruz do Sul – RS
Revista Beneditina nrº 36, Novembro/Dezembro de 2009, editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais.