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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Nascer em Belém


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Iman, 21 anos com sua filha Julan 
Iman, 21 anos com sua filha Julan 

*Artigo de Olivier Bonnel,
jornalista

‘Diante do imponente edifício cor ocre da maternidade da Sagrada Família de Belém, um cartaz colocado próximo de um cruzamento indica a alguns metros de distância a Basílica da Natividade. Já faltam poucos dias para o Natal, e dezenas de peregrinos vindos da Itália e do Brasil, caminham pelas ruas da cidade palestina e se dirigem para a casa natal de Cristo, enquanto os últimos enfeites natalinos são colocados na gigante árvore de Natal da praça da Manjedoura. Nos corredores do hospital, construído em 1882 pelas Filhas da Caridade de Saint Vincent de Paul, o clima é mais tranquilo com relação às ruas que levam à basílica.

Denis Sevaistre, diretor do Hospital da Sagrada Família
Denis Sevaistre, diretor do Hospital da Sagrada Família

Desde o nascimento da primeira criança em 1990, a maternidade da Sagrada Família tornou-se um ponto de referência em toda a Palestina. Administrada pela Ordem de Malta francesa, a estrutura fornece os melhores tratamentos médicos da região para as mulheres grávidas e para os recém-nascidos. A unidade de pediatria e neonatal, inaugurada em 2013, se equipara aos melhores hospitais do mundo. Apesar do peso da história e a força da narração evangélica, nascer em Belém nem sempre significa nascer sob uma boa estrela. O sistema de saúde pública é carente, com administração das autoridades palestinas sempre em dificuldade, consumida pela burocracia e, principalmente, pelo pesado contexto político.

‘Sempre há uma vaga’

A vida diária dos palestinos é realmente muito triste pois as esperanças de paz com o vizinho Estado de Israel parecem sonhos impossíveis. Jerusalém encontra-se a apenas oito quilômetros, mas a Cidade Santa nunca pareceu tão longe. Os controles de segurança são diários e pode-se ver o povo de Belém nas filas para o chekpoint todos os dias a partir das cinco horas da manhã para chegar ao trabalho no horário’, explica Denis Sevaistre, diretor da maternidade. Este ex-oficial do exército francês se estabeleceu em Belém cinco anos atrás, junto com sua esposa. Depois de ter organizado operações de retirada de minas terrestres no Mali e no Afeganistão, agora é responsável pela gestão da estrutura e dos seus 140 funcionários, apesar dos vínculos logísticos e as tensões recorrentes. ‘Aqui sempre há uma vaga’, nos diz. Algumas mulheres vindas para fazer o parto não hesitam em enfrentar horas e horas de carro assim como os detalhados controles do exército israelense. Mas o milagre existe, como sempre. As mulheres são acolhidas. A maior parte delas são muçulmanas. Os recém-nascidos são cuidados e mimados, enrolados em cobertas estampadas com a cruz de malta.

Nos corredores do Hospital da Sagrada Família
Nos corredores do Hospital da Sagrada Família

‘Se Deus quiser, aqui terá paz’

Quando acontecem algumas situações delicadas, mais complicadas, ativa-se o serviço de assistência pediátrica. ‘Somos um hospital de caridade’, diz Denis Sevaistre recordando o objetivo da sua instituição : fornecer uma maternidade de qualidade, sem distinção de religião ou de recursos econômicos. A Sagrada Família assumiu recentemente um assistente social que estuda os casos das famílias mais modestas. Para algumas é solicitado apenas o pagamento simbólico de um shekel.

Aqui 56% dos funcionários do hospital é cristão, muito mais da média nacional palestina. Mas na Sagrada Família não se olham os véus ou as cruzes penduradas no pescoço. Além da excelência médica, esta acolhida leva muitas mulheres palestinas a virem aqui para fazer o parto. ‘É muito especial ter um filho aqui porque é uma cidade santa’, nos diz Butheina, que carrega seu bebê nos braços, Ali, nascido dois dias antes. Para essa muçulmana de 28 anos, Belém é a cidade de Jesus, mencionado como um profeta no Alcorão. E o hospital da Sagrada Família é um oásis de paz.

 Enfermeiras na maternidade
Enfermeiras na maternidade

‘Os políticos constroem muros, os médicos abrem os corações’

A fama do hospital palestino é uma realidade. Os seus médicos, todos palestinos estudaram no exterior, na França, nos Estados Unidos, ou na Ucrânia. Duas enfermeiras da Sagrada Família se formaram no Hospital Bambino Gesù de Roma. ‘Em seguida deram curso para o pessoal local a pedido do Vaticano!’ conta sorrindo e com orgulho Denis Sevaistre. O ex-soldado repete que ‘os políticos constroem muros enquanto os médicos abrem os corações’. Um antídoto a todos os discursos derrotistas.

Na sala dos prematuros, a jovem Iman, 21 anos, vigia sua filha, Julan. Quando nasceu, quatro meses atrás, pesava apenas 830 gramas. Um grande crucifixo enfeita a sala onde estão instaladas nove incubadoras particulares. Todos os dias, esta jovem com o véu viaja de Hebron até o hospital, vai e volta. Sua cidade é apenas a 25 quilômetros de Belém, mas as vezes precisa de uma hora e meia para a viagem. Depois de oito semanas, a unidade de terapia intensiva neonatal fez milagres, Julan agora pesa 2,5 quilos. Todavia, ainda está sendo submetido a neurocirurgia em um hospital de Jerusalém.

Na entrada da sala operatória, imagem da Sagrada Família 
Na entrada da sala operatória, imagem da Sagrada Família

A compaixão antes da segurança

No pátio do hospital, uma estátua de Nossa Senhora encontra-se diante da antiga capela. Domina todo o edifício e arredores. À noite, quando está iluminada parece ter um olhar materno sobre a cidade, como Maria na manjedoura. No jardim encontra-se laranjais, oliveiras, símbolos de paz, que parecem plantados aqui como uma evidência. Nesta manhã, uma jovem francesa fala, feliz, com um amigo palestino. É estagiária na unidade de ginecologia. Marjolaine passou vários meses do ano passado na unidade de maternidade. ‘A minha família e também meus amigos sorriem quando digo que trabalhei na unidade de maternidade de Belém’ diz. ‘O Hospital da Sagrada Família é um lugar verdadeiramente cristão, estamos muito próximos da Natividade, mas é sobretudo uma mensagem de paz e representa toda a sociedade palestina. Vemos as crianças que nascem e as suas famílias. Percebemos também qual é o lugar das mulheres’, acrescenta.

 Ahmed, nascido em Jenin, vê seu filho recém- nascido
Ahmed, nascido em Jenin, vê seu filho recém- nascido

Uma grande árvore de Natal deve ainda ser enfeitada em uma sala da maternidade. Todos os funcionários do hospital levarão os enfeites. Aqui o Natal é celebrado três vezes pelos cristãos de Belém : no dia 25 de dezembro para os católicos, 6 de janeiro para os ortodoxos e 19 de janeiro para os armênios. Três motivos para celebrar com alegria o nascimento de Cristo.

No decorrer da visita, Denis Sevaistre nos conta um caso que o marcou e que vale muitos discursos. ‘Conseguimos mandar uma criança a Tel Aviv em plena festividade judaica de Yom Kippur, quando estava tudo fechado. A criança precisava de uma cirurgia no coração com urgência. No fim chamaram a equipe de cirurgiões e nos mandaram até mesmo uma condução especializada para o transporte’. O diretor da maternidade fala também dos soldados israelenses que, nos checkpoint, ajudam a transferir um recém-nascido em um carro para atravessar o muro. Se não for possível ver à primeira vista, é exatamente ali, nestas pequenas cenas de vida em Belém, que está o milagre do Príncipe da Paz.’


Fonte :

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Belém : Os presépios onde Jesus nasceu

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fenando Félix, 
Jornalista

Chama-se Nicolas. É católico. Vive em Belém, nos territórios da Palestina. Pelo sexto ano consecutivo, vem a Lisboa em nome dos dois por cento de cristãos que ainda vivem na terra onde Jesus Cristo nasceu. Na cidade de Belém, os cristãos já foram maioria. Atualmente, são cerca de 12 500, numa população que ronda os 50 mil habitantes. E correm riscos gravíssimos de vida, uma vez que a maioria muçulmana não lhes dá margem para ter voz na sociedade.

Em Lisboa, Nicolas instala-se na Basílica dos Mártires e percorre outras paróquias da capital portuguesa. Desde os primeiros dias de Novembro e até ao Natal, tem para vender artesanato religioso produzido nas fábricas belenenses.

A cidade de Belém vive do turismo, dos peregrinos. No Natal, recebe cerca de 70 mil. Contudo, muita gente tem medo de ir lá, pois lê, escuta e vê o conflito entre Israel e a Palestina e acha que é perigoso, que há bombas. Então, muitos cristãos, que vivem do artesanato, de madeira de oliveira e madrepérola, tiveram de fechar as suas fábricas e emigrar. Os que permanecem nas suas empresas mantêm a esperança de sobreviver graças a outros cristãos que têm contatos em várias partes do mundo, e levam com eles o artesanato dessas fábricas e vendem-no. É essa a vida escolhida por Nicolas, que, nos restantes meses do ano, trabalha como guia turístico. «Sem cristãos, os Lugares Santos, com o decurso do tempo, tornar-se-ão apenas pedras e prédios», disse Nicolas em entrevista à Rádio Renascença, emissora católica portuguesa, e acrescentou : «Prefiro ficar na minha terra, porque sou um da minoria cristã que fica na Terra Santa e a Terra Santa sem cristãos é um problema grande.»


O Natal na terra de Jesus

Os cristãos de Belém respeitam as celebrações muçulmanas, como o Ramadã ou o Eid-al-Adha, a festa do sacrifício, em memória da sepultura de Abraão. Por sua vez, há dois anos, a autoridade muçulmana colocou uma árvore de Natal na praça da Manjedoura, e deu um pouco mais de vida e de calor à capital mundial do Natal, com mais decoração e mais luzes. Nos dias 24 e 25 de Dezembro, os cristãos mantêm a tradição de estar em família e, juntos, vão às missas na Igreja de Santa Catarina. Todavia, diminuindo a presença cristã, a tradição, as decorações, o ambiente da época perde-se um pouco a cada ano que passa.

Um dos espaços principais das celebrações, assim como das peregrinações a Belém, é a Basílica da Natividade. A igreja primitiva foi construída no século IV, por ordem do imperador Constantino, sobre a gruta onde Jesus nasceu. No século VI, foi substituída por outro templo de maior dimensão. O lugar exato onde Cristo terá nascido está assinalado com uma estrela e com quinze lamparinas, seis com os traços da Igreja Ortodoxa grega, cinco com as marcas da Igreja Apostólica arménia e quatro com sinais da Igreja Católica. Na noite do dia 24, acontece ali um ciclo litúrgico que dura até quase ser dia. Há muitas luzes, orações, estrelas e a consciência de estarem estrangulados pelo muro de cimento erguido por Israel invocando razões de segurança. O artista gráfico Banksy, da Grã-Bretanha, representa eloquentemente este sentimento no seu grafite desenhado a dois passos do posto de controlo da estrada para Jerusalém. A mensagem é : «Jesus não poderia ter nascido na cidade palestina de Belém nos dias atuais por causa do bloqueio israelita.» No grafite, José e Maria – sentada no burro – vêem interrompido o seu caminho pelo muro.


Museu de Belém e fábricas

Nas cercanias dos Lugares Santos de Belém estão situados os dois guardiães das tradições cristãs pela arte : o Holy Land Arts Museum (Museu de Artes da Terra Santa) e as fábricas familiares de artigos religiosos.

Joseph Giacaman, sua irmã Angela e seus filhos Elias e Pedro são uma das mais antigas famílias cristãs em Belém. Têm uma fábrica que trabalha peças de madeira de oliveira e de madrepérola. E vendem numa loja situada no museu. Foi Elias I. Giacaman, pai de Joseph, que criou a firma em 1925.

Produzem representações do presépio que se mantêm fiéis à imaginada por São Francisco de Assis e popularizada pelo mundo, com José, Maria e o Menino na gruta, os camelos e os magos, os anjos, as estrelas. Contudo, fabricam outras mais elaboradas, que podem ser um autêntico manual de catequese, representando em diferentes pisos ou planos as diferentes cenas ligadas ao Natal de Jesus, como a viagem até Belém, o anúncio dos anjos aos pastores, o nascimento, a fuga. E há, ainda, as representações modernas, em que, à representação tradicional, acrescentam elementos atuais, como uma torre de vigia com soldados, por exemplo. As peças mais elaboradas, porque ficam mais caras, são feitas apenas por encomenda. «A maioria dos clientes são estrangeiros – jornalistas, agentes humanitários e diplomatas – com sede em Jerusalém, ou turistas, ou que compram do estrangeiro», conta Joseph. Os membros das fábricas familiares, muitas vezes, trabalham juntos em instalações pequenas, produzindo a maioria das esculturas à mão. Quando concluídas, as peças de madeira são envernizados e não precisam de outros cuidados.

A família Giacaman, como a generalidade dos escultores de madeira em Belém, compram a matéria a agricultores de toda a Cisjordânia. Possuíam terrenos agrícolas, mas agora ficam do outro lado do muro.

As oliveiras são essenciais na região, para combater o clima desértico. E requerem muitos cuidados. Um deles é serem podadas regularmente, a fim de produzirem azeitona duas vezes por ano. Ora, os galhos cortados são uma bênção para os artesãos de Belém. Todavia, eles estão a abrir-se a outras artes artesanais, como bordados, materiais reciclados, sabão de azeite, madrepérola e metais preciosos. Então, surgem, ao lado das figuras de madeira – dos presépios e das estátuas com cenas de Jesus Cristo e da Virgem Maria – outras recriações em vidro reciclado, e jóias, anéis e pulseiras de prata.


Perpetuar a memória

A Basílica da Natividade é uma das mais antigas igrejas no mundo onde os católicos ainda se reúnem para o culto. A presença cristã em Belém tem sido constante nos dois mil anos de Cristianismo. Atualmente, eles precisam de ajuda para manter-se ali. Os artesãos de Belém orgulham-se de ver peças suas dispersas pelo mundo.

Se o mundo tem medo de ir à terra onde Jesus nasceu, por razões de segurança, e se muitos não têm a sorte de poder estar com ‘embaixadores’ deles, como Nicolas, há sempre a hipótese de adquirir peças pela Internet. A Bethlehem Fair Trade Artisans (BFTA), que reúne dezenas de fábricas, é uma opção : www.bethlehemfairtrade.org. 


Fonte  :