terça-feira, 17 de agosto de 2021

O ministério presbiteral em nossos tempos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

O padre é como um maestro que coordena os diferentes sons presentes na comunidade na busca pela mais bela melodia
 

*Artigo do Padre Francisco Thallys Rodrigues


‘O ministério ordenado, especialmente, o presbiterato, sofreu uma série de modificações ao longo do tempo e do espaço. Em cada época, situação e momento assumiu diferentes posições que se expressaram em maior ou menor fidelidade ao ministério das primeiras comunidades cristãs. Em nosso tempo, a figura do presbítero torna-se cada vez mais plural e complexa de modo que qualquer análise deve levar em consideração variáveis inexistentes em outros tempos.

Nas primeiras comunidades cristãs, a figura do presbítero nasce a partir da necessidade de condução e coordenação dentro do espaço das comunidades. Não é o único serviço e nem o mais importante, mas um entre outros que possibilitam a continuidade da tradição de Jesus. Vale recordar, inclusive, que ele não tem relação com o sacerdócio do Antigo Testamento, isto é, o presbítero não é uma nova versão do sacerdote do AT que por sua vez anuncia a boa nova de Jesus.

No processo de expansão e consolidação do que chamamos cristandade, o presbítero passou por uma série de modificações a partir das necessidades daquele momento histórico. Terminou-se por ‘incluir’ uma série de adereços ao ministério, tornando-o por vezes mais ligado ao sacerdócio do AT do que ao próprio ministério presbiteral no NT. Neste processo de avanços e recuos, o Concílio Vaticano II representa uma tentativa de síntese entre as diversas compreensões do ministério em fidelidade as primeiras comunidades e a tradição eclesial.

Mesmo assim, pouco mais de 50 anos do concílio, algumas tarefas e desafios apresentam-se no tempo. E a história como campo aberto de possibilidades nos oferece sempre novas alternativas. Neste cenário torna-se necessário ter clareza dos desafios que se apresentam aos presbíteros. Apresento a seguir alguns pontos de atenção na vivência do ministério presbiteral.

Pluralidade na vivência do ministério do presbítero – Desde suas origens a figura do presbítero está marcada pela diversidade assumida nos diferentes contextos. O problema surge quando a pretensão da diversidade abre espaços para formas anacrônicas de vivência ministerial que não condizem com as exigências do tempo presente, ressuscitando ‘práticas e posturas’ de tempos de cristandade que não mais existem. Apela-se a tradição da Igreja, mas ignora-se a tradição das primeiras comunidades e do próprio Concílio Vaticano II. Qual papel deve ocupar o presbítero em nosso tempo?

Risco de um personalismo exacerbado e fragilidade das relações – Sempre existiu presbíteros que se destacaram por seu carisma, capacidade de vivência do evangelho em resposta aos problemas do mundo presente. Entretanto, verifica-se cada vez uma tendência a entender o ministério como algo ‘próprio’, pessoal e não como uma missão confiada em vista dos irmãos e irmãs. Os laços de comunhão e fraternidade entre os presbíteros e o bispo tornam-se cada vez mais frágeis e problemáticos. Neste sentido, vale questionar : entende que o sacramento da ordem está a serviço do sacramento do batismo? Qual o tipo de promoção vocacional informal realizamos em nossas paróquias, espaços e mídias?

Risco do clericalismo e dos gurus – Quando se exalta demasiadamente a figura do padre, relegando a comunidade um papel de subordinação ou enfocando os ‘pretensos poderes’ da ‘unção sacerdotal’ o resultado é a clericalização do ministro ordenado e dos demais membros da comunidade. O papa Francisco tem alertado para os perigos que o clericalismo traz para a vida da comunidade na medida em que mina a vivência do Evangelho. A sinodalidade é expressão da busca pela comunhão no caminho. Quando se exalta ou se formam gurus, sejam eles cantores ou pregadores, tende-se a esquecer o papel e a importância da comunidade e de seus ministérios.

Desgastes próprios de nosso tempo – O ministério presbiteral sofre os desgastes e estresses próprios e nossos tempos. O comprometimento dos presbíteros com as comunidades, a vivência do Evangelho no espírito da Igreja em saída, não isenta os padres, especialmente os mais jovens, de sofrerem os desgastes psicossomáticos que atinge a população : é um misto de serviço-doação, expectativa versus realidade na vivência ministerial, problemas administrativos, atendimento sacramental, conflitos em nível relacional e constante cobrança. Os jovens tornam-se padres num mundo com uma multiplicidade de ofertas e possibilidades, vindos, muitas vezes, de um ambiente familiar marcado por inúmeros dramas e conflitos, necessitados de referências que possam acompanhar e colaborar no exercício de sua missão. Diante disso, como favorecer um equilíbrio no tempo e no espaço? Como estabelecer relações saudáveis entre os padres jovens e aqueles mais experientes?

O Vaticano II insistiu numa eclesiologia de comunhão na qual o presbítero entende seu ministério como serviço na comunidade, nem único e nem exclusivo. O padre é, na imagem usada por Taborda, como um maestro que coordena os diferentes sons presentes na comunidade na busca pela mais bela melodia. A diversidade não é um problema para a vivência do ministério desde que se tenha presente a eclesiologia de comunhão tal cara ao Novo Testamento, as primeiras comunidades cristãs, acentuada no Concílio Vaticano II e enfocada no ministério do papa Francisco. A tarefa que se impõe é animar todos os batizados no caminho da sinodalidade a partir de uma eclesiologia de comunhão que valorize todos os ministérios, inclusive o do presbítero.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://draft.blogger.com/blog/post/edit/7497682198020775264/7848639346154351876

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