domingo, 9 de setembro de 2018

Os católicos 'mais católicos do mundo'


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Mural colocado em homenagem do Papa Francisco durante visita apostólica aos EUA, em 2015.
*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja

‘O caso Viganò continua tomando as manchetes dos jornais. E não é para menos. Além das fortes acusações que o arcebispo apresenta contra membros do alto escalão do Vaticano, desta vez é o papa, em primeira pessoa, a ser responsabilizado no relatório que o ex-núncio dos Estados Unidos chama de ‘testemunho’. Não é necessário adentrar de novo na questão porque, certamente, você já deve estar saturado com a quantidade de informações sobre o caso. Porém, não dá para ignorar que, em meio ao excesso, informações importantes acabam passando despercebidas, um prato cheio para a instrumentalização do caso. Primeira coisa : suponhamos que a acusação de acobertamento que pesa contra Francisco venha a ser confirmada. Qual suposto acobertamento seria esse? Um acobertamento em relação ao ex-cardeal arcebispo de Washington, Theodore McCarrick. E o que ele fez? Foi acusado pelo assédio de seminaristas, o que não se enquadra em crime de pedofilia. Ainda que para o catolicismo seja algo que fere a moral e a disciplina do sacerdócio, é necessário separar as coisas. Francisco não é acusado de acobertar pedófilo, como muitos meios de comunicação, inclusive no Brasil, divulgaram. Ele tem sido acusado, na verdade, de estar a par da má conduta de McCarrick desde 2013, algo que, até agora, não tem sequer documentação que ateste. Aliás, vale salientar que as lacunas e inconsistências em relação ao envolvimento de Bento XVI e Francisco nesse caso, apresentadas pelo documento de Viganò, ainda não foram esclarecidas por ele mesmo. Em entrevistas a jornais italianos, ele apenas se limitou a repetir que ‘não faz isso por vingança’.

O papa, por sua vez, já demonstrou, pelo menos até agora, que não pretende se pronunciar diante de pessoas que só fazem semear ‘a discórdia, o escândalo e a confusão’, como disse esta semana em missa na casa Santa Marta. Porém, cogita-se que será a Santa Sé a dar uma resposta frente às denúncias, em breve. Neste caso, ficará a cargo secretário de estado -  e papável -,  Pietro Parolin, elaborar uma resposta.

A polêmica serviu para suscitar uma reflexão, a qual complementa algo já levantado por um artigo sobre o neo-ultramontanismo, publicado há algumas semanas. Uma parcela da Igreja americana ostenta um espécie de ‘romanismo mais romano que o de Roma’, algo que tem influenciado muita gente, inclusive no Brasil. No caso dos Estados Unidos, como já lembrou o historiador italiano Massimo Faggioli, que atua como professor no país, muitos desses ‘romanos romaníssimos’ são ex-protestantes que migraram recentemente para a Igreja Católica. Essas pessoas, renunciando ao que consideram ‘um passado sombrio’ por causa da fé protestante, acabam aderindo não À tradição católica na sua totalidade, mas a UMA tradição católica ideologizada e, por conseguinte, contraditória na essência, já que justifica a hostilidade - velada ou não - ao (atual) pontífice em nome da ‘preservação da sã doutrina’. Trata-se de um romanismo sem o romano pontífice, o qual, no século XVI, seria chamado de tudo, menos de catolicismo.

Nem Trento, convocado em pleno renascimento, e precedido por dois pontífices bastante controversos, como Alexandre VI e Júlio II, foi capaz de conceber um romanismo sem papa. Você pode perguntar : mas esse movimento tem força? Não teria se parte da mídia católica americana não o sustentasse. E é ela que tem fomentado, ainda mais, essa ‘busca pela verdade’; uma exigência de esclarecimento bastante parcial que recai única e exclusivamente sobre uma pessoa : o papa. E os outros nomes citados pelo dossiê de Viganò? Ao que parece, pouco importam. O importante é levar o papa à renúncia a todo custo, já que, para eles, finalmente, há clima que favoreça. Sem contar que o pedido de renúncia não é motivado por questões doutrinais, mas por um documento que, pelo fato de referir-se ao papa negativamente, tornou-se tão sagrado que sequer pode ser contestado. No mínimo, o contestador será chamado de papista - título que, no século XVI, era atribuído aos católicos pelos protestantes, diga-se de passagem.

No meio disso tudo, tomando como base a própria história da Igreja, vem o questionamento : qual a verdadeira motivação para se chegar ao extremo de se pedir a renúncia de um papa nos tempos de hoje? Na última vez que um romano pontífice se sentiu forçado a renunciar foi no século XV, em pleno cisma do Ocidente. Será o início de uma ‘guerra civil católica’, desta vez não convocada por cardeais conciliaristas, mas por católicos que deturparam o romanismo? Talvez, para essa facção da igreja americana que tanto defende ‘a verdade’, deveria ser mais urgente dar uma resposta sobre o dossiê da Pensilvânia em vez de propagar militância pró-renúncia.’


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