Mostrando postagens com marcador drama. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador drama. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Moçambique: a situação é dramática em Cabo Delgado

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


*Artigo da reportagem local da Aleteia


‘O tema de Cabo Delgado esteve em destaque ontem na apresentação em Lisboa do Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo da Fundação AIS. Guilherme d’Oliveira Martins, que apresentou o documento, classificou de ‘dramática’ a situação que se vive nesta província no norte de Moçambique, e considerou essencial a cooperação entre todas as organizações presentes no terreno no apoio às populações. 

A situação é dramática e é indispensável que todos ajudem estas populações, designadamente as instituições da sociedade civil e as organizações de base religiosa [que] não podem deixar de ter um papel positivo sobretudo na proteão das pessoas que estão vulneráveis e que são objeto de violência de morte.

O administrador-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian sublinhou durante a sessão de apresentação do Relatório, que decorreu ontem de manhã numa sessão virtual, o papel que o Estado moçambicano deve desempenhar neste conflito causado por grupos terroristas que têm vindo a atacar aldeias, vilas e cidades desde 2017 e que já causaram mais de dois mil mortos e mais também de 700 mil deslocados. 

Vazio de autoridade

É indispensável que haja uma intervenção corajosa por parte da Estado moçambicano’, disse Oliveira Martins, acrescentando que ‘esta questão é absolutamente crucial para não gerar situações de vazio de autoridade’. ‘Deve haver [também] um apoio da comunidade internacional para que não haja um vazio de autoridade e para que haja a possibilidade efetiva de proteção e de salvaguarda das populações’, disse ainda.

Posição semelhante foi tomada por Catarina Martins de Bettencourt. A diretora da Fundação AIS em Portugal enfatizou o papel da sociedade civil e da Igreja no trabalho crucial de apoio às populações deslocadas pelo conflito, lembrando que ‘Moçambique é um dos países mais pobres do mundo, e as pessoas desta região [de Cabo Delgado] são já de si muito pobres também…’ 

Catarina Bettencourt lembrou ainda que a Fundação AIS pertence a uma ‘plataforma de várias organizações que está a tentar fazer um ‘lobby’ positivo no sentido de trazer esta questão para a agenda política de Portugal’, sublinhando ainda o papel que o governo de Lisboa pode desempenhar durante o primeiro semestre deste ano que corresponde à presidência portuguesa do Conselho da União Europeia. 

Catástrofe humanitária

Sobre o trabalho efectivo da Fundação AIS na ajuda humanitária às populações de Cabo Delgado, lembrou que ‘já no fim do ano passado’ foi enviada ‘ajuda de emergência para a Igreja alimentar, vestir, cuidar destes milhares e milhares de deslocados’, e que sem essa ajuda, que tem de continuar, ‘podermos assistir a uma calamidade, uma catástrofe humanitária ainda maior’.

O caso de Cabo Delgado foi discutido já na parte final da apresentação do Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, trabalho de investigação produzido a nível internacional pela Fundação AIS. Moçambique faz parte de um conjunto de países retratados a vermelho no Mapa do Relatório por causa da ‘perseguição’ e ‘discriminação’ aos crentes. É um mapa que engloba o Afeganistão, o Bangladesh, mas também a China, Mianmar, Irão, Coreia do Norte, Líbia ou Índia, num total de 26 países. O caso da Índia mereceu comentários por parte de Guilherme d’Oliveira Martins, em resposta a uma questão colocada no final da sessão de apresentação do Relatório. O facto de estar agendada para a cidade do Porto uma cimeira entre a União Europeia [EU] e a Índia, no âmbito da presidência portuguesa, pode ser importante para o debate das questões relacionadas com os direitos humanos.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/04/25/mocambique-a-situacao-e-dramatica-em-cabo-delgado/

domingo, 20 de setembro de 2020

O drama de imigrantes que atravessam o Canal da Mancha

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo da revista DomTotal

 

‘Depois de anos vagando, semanas de espera em um campo insalubre na costa francesa e sete horas de angústia em um precário barco inflável pelo Canal da Mancha, o kuwaitiano Walid alcançou seu objetivo e superou a travessia da ‘rota da morte’, chegando à Inglaterra. Seu amigo, Falah, ainda espera.

De Grande-Synthe (norte da França) a Dover (sul da Inglaterra), passando pelas águas territoriais francesas, as equipes da reportagem acompanharam por três semanas Walid, seu amigo iraquiano Falah e suas duas filhas, Arwa, de 9 anos e Rawane, de 13, que sofre de uma diabetes grave.

Os 33 quilômetros que separam a Costa de Opala francesa dos penhascos de Dover, no litoral britânico, têm a reputação de ser uma das rotas marítimas mais frequentadas e perigosas do mundo.

Entretanto, desde 2018 as tentativas de travessia se multiplicam. Entre 1º de janeiro e 31 de agosto, 6,2 mil migrantes – segundo a prefeitura marítima francesa do Canal da Mancha e do Mar do Norte – tentaram a sorte em um barco inflável, no caso dos mais afortunados, em um caiaque ou mesmo em uma simples boia.

Crônica de uma travessia

Em uma vegetação rasteira perto de uma ferrovia em Grande-Synthe, cidade do norte da França, sob uma barraca oscilante feita de lonas de plástico, o kuwaitiano Walid, de 29 anos e o iraquiano Falah, de 50, dependem de seus celulares para viver.

É seu único vínculo com a pessoa que dará o sinal verde para que embarquem. Em troca de 3 mil euros (cerca de R$ 19 mil) por pessoa, poderão subir a bordo de um ‘barco pequeno’ – aqueles botes infláveis com pequenos motores de qualidade duvidosa.

A silhueta do traficante aparece no telefone no momento em que chega uma ligação do WhatsApp. Eles nunca o viram. Essas redes criminosas, geralmente curdas ou albanesas, usam intermediários para estabelecer contato.

- ‘Como vai tudo, irmão?

- Bem, graças a Deus.

- Tem novidades?

- Não...

- Amanhã, insha'Allah (se Deus quiser, em árabe)?

- Insha'Allah (...). Se amanhã o tempo estiver bom, vamos’.

Já faz um mês que Walid espera junto com a família de Falah, a qual conheceu no trajeto do exílio em Frankfurt, uma travessia clandestina que seria o caminho para uma vida melhor.

Apesar de este trajeto ser apelidado 'a rota da morte’, queremos atravessar. Partimos para o desconhecido : somos só Deus, o mar e nós. É Allah quem decidirá nosso destino’, diz Falah.

Este homem discreto fugiu do Iraque em 2015, época em que o grupo Estado Islâmico estava em plena expansão. De Kerbala (ao sul de Bagdá), foi a pé para a Turquia, depois para Grécia, Macedônia e Croácia. Era o ano da grande onda migratória à Europa, quando a Alemanha abriu suas portas para cerca de 900 mil migrantes, antes de fechar suas fronteiras.

Falah não pede ‘o impossível’. ‘Só quero viver de maneira decente e que minhas filhas se sintam livres e seguras’, afirma.

Já Walid, exilado desde 2018, é um ‘bidun’ - esses beduínos oriundos do Kuwait, mas sem pátria de geração em geração. Sem passaporte, não possuem o status de cidadãos nem o de estrangeiros em seu próprio país, o que os priva de qualquer direito político, social ou econômico.

Este homem de rosto quadrado, barba ligeiramente crescida e cabelos pretos um pouco compridos não tem ‘medo’ da travessia. ‘O mais difícil é não saber quando vou partir’.

‘Estar pronto todas noites’

Antes do amanhecer, o mar está calmo e há poucos guardas implantados na área. É preciso esperar e esperar, em condições que colocam esses migrantes à prova.

Walid, Falah e suas duas filhas não são os únicos. Dezenas estão espalhadas pelos arredores. Quatro anos após o desmantelamento da chamada ‘Selva’ de Calais (um grande campo de migrantes do norte da França) no final de 2016, eritreus, iranianos, afegãos e sírios continuam chegando na costa francesa com a esperança de atravessar.

Entre as vespas, os quatro exilados matam o tempo, dormem pouco e mal, porque o som estridente dos trens os acorda o tempo todo.

Com algumas panelas encontradas aqui e ali (uma panela queimada, uma frigideira abandonada), eles conseguem satisfazer suas necessidades. Os potes de iogurte são usados como copos e os pedaços de papelão como tapete.

Todos os dias, Falah dá um jeito para encontrar cubos de gelo para conservar a insulina de sua filha mais velha.

Quando o tempo está bom, tomam banho no canal, perto de onde vivem, e lavam suas roupas na água lamacenta. Os dias são marcados pela coleta de madeira para fazer fogo e pelas duas distribuições diárias de refeições organizadas por associações a um quilômetro dali.

No entanto, o desânimo está sempre presente, e há momentos em que Falah se desaba a chorar. ‘Não temos nenhuma data estabelecida. É preciso estar pronto todas as noites para deixar tudo para trás. Do contrário, o barco não te espera. Há dois dias, dormimos até mesmo com os sapatos calçados’, explica Walid.

Walid tentou cruzar o canal três vezes. Três fracassos.

Vencido pelo cansaço e pela impaciência, já não confia na pessoa que lhes ajudará a atravessar, porque acha que é um trapaceiro. Falah já pagou parte do valor, em dinheiro, então não há muito o que possa fazer. Mas Walid decidiu mudar agará mais, 3 mil libras (cerca de R$ 20,8 mil), mas seu novo contato tem um índice de sucesso de ‘100%’, acredita.

Dessa forma, os caminhos de ambos se separam.

Remédios e croissants

É quinta-feira, 10 de setembro, e faz um mês e treze dias que chegou a Grand-Synthe. O sol de verão e um vento suave animam as esperanças de Walid. A travessia é iminente, confirma seu traficante.

Não sabemos até que horas esperaremos antes de ir’, diz ele, antes de dirigir-se ao ponto de encontro.

A vários quilômetros, Falah, que mudou de acampamento, também está a ponto de partir. Apressadamente, joga os remédios de sua filha em uma bolsa e os croissants em outra. ‘Tenho medo de acreditar porque, em mais de um mês, só vi o mar uma vez’, comenta, temendo uma nova decepção.

Na Inglaterra, tudo será mais fácil, confia. ‘Poderei trabalhar em restaurantes ou no setor automotivo’.

20h. Walid e seu grupo chegam a uma praia a cerca de 25 quilômetros de Calais. O Canal da Mancha está calmo e o céu limpo. Os guardas patrulham pela costa. À noite, os feixes de suas lanternas varrem as dunas. No escuro, sussurrando e escondido na floresta atrás da praia, o grupo espera por alguma oportunidade.

Duas vezes, aparece uma patrulha de guardas que até confiscam um barco – este rapidamente substituído pelos traficantes, dispostos a ganhar os mais de 40 mil euros (R$ 255 mil) por embarcação se a travessia for bem-sucedida, segundo Walid.

São apenas 7h quando, com os primeiros vislumbres do amanhecer, três botes infláveis são lançados no mar a toda velocidade. O grupo de Walid se afasta rapidamente, temendo que o barco quebre nas águas francesas, um cenário que os levaria de volta ao ponto de partida.

O barco, movido por um motor de 15 cavalos, avança rumo ao noroeste a 3 nós (5,5 quilômetros por hora). A bordo estão 14 pessoas, incluindo mulheres, um bebê e cinco crianças, todos com coletes salva-vidas laranjas.

Braços para o céu

Duas horas após sua partida, o ‘Thémis’ – o barco de patrulha da Direção de Assuntos Marítimos da França – alcança o grupo, conforme comprovado pela reportagem. Sua posição é sinalizada às unidades de vigilância de ambos os lados do estreito, mas não há intervenção devido aos riscos envolvidos, tanto para os migrantes quanto para os barcos, exceto se algum destes cair.

Os traficantes sabem disso.

A partir do momento em que estamos no mar, a prioridade não é mais impedir a travessia, mas garantir a salvaguarda da vida humana’ em uma área onde transita 25% do tráfego marítimo mundial, segundo a prefeitura marítima. Walid e seus companheiros continuam a jornada. O motor, que é tão barulhento que cobre o som das vozes, desliga, mas logo volta a funcionar. As águas britânicas estão a apenas alguns quilômetros de distância.

E de repente, ao longe, uma silhueta vermelha é avistada, a do ‘Sandettie’, o navio-farol que marca a entrada em águas britânicas. Já passa das 10h.

Walid está radiante, exausto, mas emocionado. Joga seu celular na água para apagar qualquer rastro de seu passado, e seus companheiros levantam os braços ao céu, gritando, conforme observado pela reportagem à distância. Pouco depois, um patrulheiro da Guarda Costeira recupera a embarcação e os leva até o porto de Dover.

Após sete horas de travessia, sob um céu já nublado, os ocupantes tocam o solo britânico, como dezenas de outros migrantes nesse mesmo dia.

Walid, vestindo jeans, jaqueta escura e uma máscara branca, desembarca por último, carregando uma mochila com algumas roupas. Cerca de meia hora depois, é escoltado até um ônibus, que o leva a um centro de acolhimento temporário em Kent.

Lá eles poderão solicitar refúgio e realizar uma primeira entrevista, de acordo com a lei. Depois, serão enviados para algum centro de alojamento financiado pelo Estado. Há meses meses de procedimentos administrativos pela frente. Mas em uma economia muito liberal aberta à mão de obra barata, permanecer na clandestinidade não assusta os migrantes.

Walid está disposto a fazer o que for preciso para ganhar a vida : finalmente está no Reino Unido.

Do outro lado do Canal, Falah está muito contrariado. Não conseguiu atravessar e está desolado por este novo fracasso. Exaustos e sem perspectivas de futuro, pai e filhas continuam esperando.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1471824/2020/09/o-drama-de-imigrantes-que-atravessam-o-canal-da-mancha/